W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · A Igreja cristã

O ministério, a Igreja e o mundo

III, 335O MINISTÉRIO CRISTÃO.

O ministério. Para o desempenho dos ofícios do culto a Deus e para a administração dos meios de graça, foi separada uma ordem: homens chamados a essa função pelo Espírito Santo, aprovados pela Igreja por meio dos seus representantes e ordenados para o ofício pelos seus irmãos da mesma ordem. A história dessa instituição no Novo Testamento é muito simples e pode ser resumida assim, nos seus resultados. Primeiro, o antigo ministério do templo e do sacerdócio foi inteiramente abolido. Em segundo lugar, surgiu uma vocação irregular, em dons e funções ministeriais que eram de transição, adaptados aos dias da fundação, mas que serviam também de modelo para futuras vocações extraordinárias, segundo a sabedoria do Espírito e as exigências da sociedade cristã. Por fim, a constituição estabelecida assume a sua forma permanente e definitiva como um corpo presbiteral, descrito não tanto pelo nome quanto pelo ofício e, em certo aspecto, conformado ao modelo da sinagoga: a sua função é ministerial, no serviço divino; pastoral, no cuidado espiritual do rebanho; e diretiva, no governo da Igreja. Mas, por mais simples que sejam as disposições das Escrituras, elas assumem na teologia histórica os desdobramentos mais variados.

O SACERDÓCIO UNIVERSAL.

Sacerdócio universal. Abolido em Cristo o antigo templo, com as suas ofertas típicas, dá-se uma mudança completa no ministério da congregação. Há um só Sumo Sacerdote, que adentrou os céus; a Igreja inteira é um templo espiritual; e todos os seus membros vivos são um sacerdócio que oferece sacrifícios. Tudo o que o Novo Testamento diz a respeito do sacrifício no novo culto ou se refere ao caráter sacerdotal de todos os verdadeiros crentes, ou se aplica figuradamente às funções do ministério. O sacerdócio universal do cristianismo, porém, é apenas o cumprimento neotestamentário do sacerdócio típico de toda a congregação de Israel. O seu princípio fundamental é da maior importância, pois ensina a verdadeira dignidade e a igualdade essencial dos cristãos, cada um individualmente, e a santidade corporativa da Igreja, cujas prerrogativas inalienáveis são representadas pelo seu ministério. Mas ele tem sido pervertido para minar a existência de uma ordem ministerial distinta e, por isso, requer ressalvas e salvaguardas.

III, 336Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa (Êx 19.6): esta palavra dita ao povo antigo é o fundamento do que se pode chamar a doutrina do sacerdócio universal. O Israel segundo a carne foi separado do resto do mundo tanto quanto os filhos de Levi foram separados do resto dos israelitas. Assim também o Israel espiritual, em união com Cristo, é tirado do mundo, coletiva e individualmente; e é nele que o tipo tem o seu cumprimento perfeito. Todos os apóstolos se alegram nessa verdade, cuja influência permeia a linguagem deles. São João a sente quando diz: Vocês têm a unção, χρῖσμα, que vem do Santo (1Jo 2.20). São Tiago também, quando chama a religião de θρησκεία, palavra que alude a um serviço cerimonial (Tg 1.26-27). São Paulo e são Pedro exortam os crentes a oferecer o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável (Rm 12.1) e a considerar toda a sua vida como passada numa casa espiritual, onde oferecem sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo (1Pe 2.5): Salvaguardas. as suas devoções, as suas esmolas e as suas boas obras são as suas oblações sacerdotais. A doutrina assim estabelecida protege contra um abuso e precisa ela mesma ser protegida contra outro, quase igualmente perigoso.

Não há sacerdócio. 1. Não há no novo serviço uma ordem separada de sacerdócio: um só é o nosso Sacerdote, Cristo, e todos nós somos sacerdotes pela comunhão com ele, apresentando por meio dele, como nosso Representante, os nossos sacrifícios espirituais (1Pe 2.5). A teoria sacerdotal do ministério cristão é uma desonra para o nosso Senhor e é especialmente condenada pelo teor da Epístola aos Hebreus. Temos um altar (Hb 13.10): mas esse altar é a cruz, que ele consagrou para que santifique todas as nossas ofertas. Todos nós o temos, todos o rodeamos e podemos ministrar habitualmente diante dele.

III, 337Não há sacerdócio, mas há uma ordem de ministros. 2. Contudo, há no Novo Testamento um ministério separado, que representa o sacerdócio universal. Embora os ofícios do culto religioso sejam mais ou menos comuns a todos, nas reuniões privadas, sociais e públicas, existe provisão para que os atos religiosos de serviço da Igreja sejam apresentados de forma responsável e para que a função de ensino da Igreja seja desempenhada. Depois que são Paulo e são Pedro mandaram todos os crentes oferecer os seus sacrifícios vivos (Rm 12.1ss; 1Pe 2.5ss), ambos passam, na mesma passagem, a falar dos ministérios da profecia, do ensino e do presbiterato. A Epístola aos Filipenses ilustra todo o tema do uso apostólico da linguagem sacerdotal. No fim, a oferta em dinheiro daquele povo é chamada sacrifício sacerdotal, um sacrifício que Deus aceita e que lhe agrada (Fp 4.18); no começo, os bispos e diáconos (Fp 1.1) são representantes do povo; e no meio são Paulo fala da devoção apostólica da sua própria vida como uma libação sacerdotal sobre o sacrifício da fé deles (Fp 2.17). O antigo serviço levítico forneceu figuras para o novo ministério; mas o novo ministério era uma função ordenada, tão definida quanto a do antigo sacerdócio que ele substituiu.

OFÍCIOS EXTRAORDINÁRIOS E DE TRANSIÇÃO.

Extraordinários. O cristianismo foi fundado por meio de um corpo extraordinário de agentes, dotados e autenticados de modo eminente. O ministério deles foi de transição e, como tal, prolongou por algum tempo as várias administrações extraordinárias do Espírito Santo sob a antiga economia, nenhuma das quais passou sem ser consumada e glorificada no serviço da nova fé. Embora a sua função tenha sido destinada a ser transitória, ela devia ao mesmo tempo exibir os tipos de uma vocação irregular para serviços especiais, segundo a vontade do Espírito livre, que em todas as épocas guia com sabedoria os destinos da cristandade.

III, 338Referências a todos esses agentes extraordinários estão espalhadas pelos Atos e pelas epístolas; mas há certas passagens em que são Paulo os enumera e descreve. Comparando as suas palavras aos efésios com as dirigidas aos coríntios, concluímos que Deus estabeleceu, que Cristo concedeu como fruto da sua ascensão (Ef 4.11), e que o Espírito distribuiu a cada um (1Co 12.11) essas diversas funções. Encontramos o conjunto, em ordem inversa, nestas palavras: Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos (1Co 12.4-6). Embora todos sejam ἐνεργήματα [realizações] do Deus uno e triúno, são as διακονίαι, ou ministérios, do Senhor Jesus, e os χαρίσματα [dons] do Espírito Santo. Distinguem-se também como dons de conhecimento e de fé individuais; dons de expressão devocional em novas línguas; dons de atos miraculosos de cura; e dons de administração no ofício. É destes últimos, que incluem os outros e ao mesmo tempo os superam, que temos de tratar; e devemos considerá-los primeiro separadamente, e depois no seu caráter comum de transição.

Três ordens. I. Há três ordens desse serviço original e extraordinário: apóstolos, profetas e evangelistas.

Apóstolos. 1. O ofício APOSTÓLICO foi, de modo eminente, um ministério ordenado pelo próprio Senhor. Escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos (Lc 6.13). São João, que nunca menciona os apóstolos como tais, a não ser simbolicamente no Apocalipse, dá, contudo (como no caso dos sacramentos, da ascensão e de alguns outros assuntos), a melhor definição daquilo que omite. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês (Jo 20.21): a ideia de missão ou embaixada, que tem o seu significado mais alto em Cristo (Hb 3.1) e no Espírito Santo, está ligada ao apostolado, mas não desce mais abaixo. Os apóstolos eram embaixadores junto ao mundo; as suas credenciais eram uma missão direta, recebida do Senhor em pessoa e confirmada por poderes miraculosos. O seu ofício era pregar o evangelho a todos os homens, em nome do Senhor ressurreto, cuja ressurreição proclamavam; e lançar em toda parte o fundamento das igrejas, ou sancionar o fundamento lançado por outros, para servirem de modelo a todo o futuro. Assim como o Espírito era o representante invisível do Senhor, os apóstolos eram o visível. A sua autoridade absoluta se mostra de dois modos: primeiro, como mestres do cristianismo, pela palavra e pela escrita, tinham o dom da inspiração; e, em segundo lugar, como fundadores da Igreja, tinham o poder das chaves, de ligar e desligar, isto é, de proferir os decretos imutáveis do governo eclesiástico. O seu domínio aparece em toda parte sem restrição, e da sua palavra não há apelação. Não tiveram, nem podiam ter, sucessores: formam um corpo de homens escolhidos para lançar o fundamento da Igreja universal, edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef 2.20), e para lhe confiar os documentos definitivos das Escrituras. Uma sucessão de homens assim não estaria em harmonia com a vontade conhecida de Cristo, que podemos interpretar como o propósito de deixar uma comunhão com organização estabelecida, doutrina acabada e um desenvolvimento natural sob a direção suprema do Espírito Santo. Mas, mesmo mortos, eles ainda falam nos seus escritos, que são os únicos representantes do grupo apostólico na comunidade visível. É de são Paulo, o único Apóstolo dos gentios, que colhemos as informações mais completas sobre a prerrogativa apostólica.

III, 339Profetas. 2. Os PROFETAS ocupam um lugar amplo na história do Novo Testamento. Falavam, como os apóstolos, sob a inspiração direta do Espírito Santo: não necessariamente, nem principalmente, predições, mas sempre declarações distintas do ensino comum. A sua função foi um cumprimento da promessa de Pentecostes: Até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei o meu Espírito naqueles dias, e profetizarão (At 2.14-18). Essas palavras nos ensinam a esperar uma efusão abundante desse dom; e é o que de fato encontramos. A Epístola aos Coríntios mostra que ele era comum a homens e mulheres, que era ocasional, e não o dote especial de uma ordem, e que às vezes permeava o culto da congregação (1Co 14.3, 24-25, 31). Mas, quando são Paulo diz aos efésios que eles foram edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef 2.20), permite-nos inferir que havia um corpo bem conhecido de homens cuja ordenação vinha diretamente do Espírito; homens a quem a verdade era revelada imediatamente, embora não como classe permanente que proferisse revelações destinadas a ser preservadas. Essa alta prerrogativa da nova ordem é confirmada pelas notáveis palavras da mesma epístola: como agora foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, pelo Espírito (Ef 3.5).

Evangelistas. 3. O elo entre os profetas e os EVANGELISTAS aparece no relato da ordenação de Timóteo: segundo as profecias que anteriormente foram feitas a seu respeito (1Tm 1.18); e: Não seja negligente para com o dom que você recebeu, o qual lhe foi dado mediante profecia (1Tm 4.14). Timóteo é o tipo dessa terceira ordem: a última recomendação que lhe fez são Paulo, seu superior, é: faça o trabalho de um evangelista, εὐαγγελιστοῦ, cumpra plenamente o seu ministério, διακονίαν (2Tm 4.5). Esse ministério consistia em desempenhar, em subordinação aos apóstolos, os ofícios apostólicos de pregar o evangelho em toda parte e de fundar igrejas. Era estritamente subordinado, como atestam, nos Atos, a confirmação da obra deles pelos apóstolos, mediante a concessão do Espírito (At 8.14-15), e as instruções completas dadas a Timóteo e a Tito pelo apóstolo que os designou. Era um ofício que desapareceu com o apostolado, do qual dependia. Com o tempo, o nome foi dado aos escritores dos Evangelhos que os primeiros evangelistas pregavam: Eusébio parece ter sido o primeiro a dar-lhe essa aplicação, que foi aceita pelo consenso da cristandade.

III, 340De transição. II. O caráter de transição desses ofícios sugere a sua ligação tanto com o passado quanto com o futuro.

Quanto ao passado. 1. Por meio deles, o Antigo Testamento se ligou ao Novo. Os instrumentos humanos na fundação das duas economias são homens designados de modo extraordinário e dotados de modo sobrenatural. Os apóstolos, na nova lei, correspondem a Moisés, na antiga; os profetas ressurgiram, tendo começado com o advento de Cristo e só cessado quando foram lançados os fundamentos do seu reino; e os evangelistas correspondem àqueles grandes homens que, antigamente, reuniam as funções legislativa e profética. Mas há a diferença que a missão universal do evangelho introduziu: os anunciadores das boas-novas evangélicas foram apenas preditos no Antigo Testamento.

Quanto ao futuro. 2. Na sua relação com o futuro, esses ofícios, no sentido mais estrito, passaram. Os apóstolos não têm sucessores. O seu número foi selado: doze, para representar as tribos de Israel, tendo Matias sido acrescentado da maneira mais solene para completar o grupo quando Judas caiu dele; e um supranumerário, introduzido para representar o mundo gentio. Se outros, como Barnabé, parecem levar o nome, um exame cuidadoso dos textos mostrará que o recebem apenas em sentido acomodado, ou como apêndices dos verdadeiros apóstolos. O ofício profético também foi retirado. E, no sentido pleno do ofício, já não há evangelistas, isto é, homens dotados de uma autoridade apostólica delegada. Mas, embora tenham passado, não se pode estudar a relação deles com o cristianismo primitivo sem ficar com a impressão de que o mesmo Espírito que os estabeleceu na Igreja pode reproduzir a influência extraordinária deles sem os seus nomes e sem os seus dotes miraculosos. Não precisamos de outros apóstolos, pois o corpo apostólico ainda nos governa; não precisamos de profetas, pois a profecia está selada; mas evangelistas, no espírito e no poder dos apóstolos e profetas, embora não no Espírito deles (isto é, não com a vocação deles), serão sempre necessários enquanto houver qualquer parte da terra coberta pelas trevas do paganismo.

III, 341O MINISTÉRIO REGULAR.

Regular. O Novo Testamento, especialmente nos seus documentos mais tardios, torna certo que foi instituída uma constituição ministerial regular e uniforme para o serviço da Igreja, para quando a supervisão apostólica fosse retirada. Esse ministério se dividia em dois ofícios: um, encarregado mais particularmente dos interesses espirituais do rebanho; o outro, mais particularmente dos seus assuntos temporais ou quase temporais. O primeiro é o pastorado; o segundo, o diaconato; e esses dois foram em geral conservados, embora com nomes diferentes e funções variadas, pela maioria dos grupos de cristãos.

O termo. O termo ministério, διακονία, é o mais abrangente que se pode usar. É santificado pela sua aplicação ao próprio Senhor, que anunciou ter vindo para servir (Mt 20.28) e foi certa vez chamado ministro da circuncisão (Rm 15.8); é usado por são Paulo para o ministério em geral; e desce até o ofício mais humilde: servir às mesas (At 6.2). A origem da palavra é obscura; o mais provável é que derive de um obsoleto διάκω ou διήκω, correr, ligado a διώκω, apressar-se atrás de. Convencionalmente, nos tempos modernos, o termo se restringe ao ofício pastoral, ou ministério da Palavra; e esse é apenas um dos muitos exemplos da notável liberdade com que a terminologia original do governo eclesiástico tem sido tratada em épocas posteriores. De modo geral, pode-se dizer que nenhuma função, tal como descrita no Novo Testamento, encontra a sua representante exata e invariável nas igrejas modernas: fato que deveria contribuir para diminuir a confiança e abrandar a aspereza das controvérsias sobre princípios eclesiásticos.

III, 342O OFÍCIO PASTORAL.

Ofício pastoral. Os termos empregados para designar os oficiais espirituais ordinários da comunidade cristã são, nos seus equivalentes vernáculos, presbíteros ou anciãos, e bispos, supervisores ou superintendentes. Estes, porém, constituem uma só ordem no Novo Testamento. As funções que lhes são atribuídas são as de ministrar a Palavra, velar sobre o rebanho e governar as igrejas: por isso são chamados mestres ou pregadores, pastores e dirigentes.

NOMES.

Nomes. Os únicos nomes oficiais de caráter permanente são πρεσβύτεροι e ἐπίσκοποι, sendo o primeiro de longe o mais comum.

Identidade entre bispos e presbíteros. 1. O Novo Testamento usa esses termos indistintamente para uma e a mesma ordem de oficiais espirituais. As passagens que provam isso lançarão luz também sobre as funções dessa ordem indivisa. São Paulo enviou uma mensagem a Éfeso, pedindo aos presbíteros da igreja, τοὺς πρεσβυτέρους, que se encontrassem com ele (At 20.17), e, no fim da sua exortação, manda que cuidem do rebanho no qual o Espírito Santo os tinha posto como bispos, ou supervisores, ἐπισκόπους (At 20.28). Também nas epístolas pastorais os dois nomes significam uma só ordem. Tito foi deixado em Creta, entre outras razões óbvias e inegáveis, para isto: para que, em cada cidade, constituísse presbíteros (Tt 1.5); e, como primeira qualificação desses presbíteros, o seu superior diz: é indispensável que o bispo… seja irrepreensível (Tt 1.7). Do mesmo modo, são Pedro afirma que o dever dos presbíteros é pastorear o rebanho, ἐπισκοποῦντες, ou exercendo a supervisão (1Pe 5.1-2) [N. do T.: a NAA não traz esta palavra, ausente de parte dos manuscritos]. Por isso, escrevendo aos filipenses, o apóstolo menciona apenas duas ordens de oficiais espirituais, os bispos e diáconos (Fp 1.1), como também na primeira das suas epístolas pastorais a Timóteo (1Tm 3.1, 8).

III, 343Diferença. 2. As diferenças entre os termos são evidentes. O de presbítero (ancião) se referia à idade ou à dignidade e foi tomado do judaísmo; o de bispo se referia ao ofício e foi tomado dos gregos. Não há, portanto, um ofício de presbiterato como tal; mas há, naturalmente, uma ἐπισκοπή [ofício de supervisão]: ela é mencionada uma vez num contexto triste (At 1.20) e outra vez como objeto de desejo (1Tm 3.1). É notável, porém, que não se faz alusão a nenhum episcopado no sentido de corpo coletivo de bispos; mas pelo menos uma vez lemos acerca de um presbitério cristão, que ordenou Timóteo (1Tm 4.14), segundo o modelo judaico: πᾶν τὸ Πρεσβυτέριον, todos os anciãos (At 22.5), literalmente TODO O PRESBITÉRIO. Os anciãos do judaísmo eram homens de idade avançada, escolhidos como assessores no Sinédrio, ao lado dos sumos sacerdotes e dos escribas. Os presbíteros do cristianismo formavam um corpo, geralmente, mas nem sempre, de homens de idade avançada, que presidia a comunidade cristã como a única autoridade de direção e governo. O termo presbitério, portanto, remonta à mais venerável antiguidade e está revestido de uma dignidade inteiramente singular.

Primus inter pares. 3. Há alguns vestígios de uma preeminência dada a um membro do corpo presbiteral. Durante a era do Novo Testamento, os próprios apóstolos tinham poder absoluto em todas as igrejas e sobre todos os seus assuntos, e os evangelistas representavam a autoridade deles onde ela era delegada. Mas todo corpo coletivo de governo precisa ter uma cabeça, ao menos como primus inter pares [o primeiro entre iguais]; e, no Apocalipse, esse único representante do presbitério parece ser indicado no ANJO a quem se dirige cada uma das cartas às sete igrejas. O termo anjo é simbólico, provavelmente como estrelas, embora em outro sentido: as sete estrelas são os anjos das sete igrejas (Ap 1.20). Pode-se dizer que isso faria das estrelas símbolos de símbolos e que, portanto, os anjos devem representar algo mais real do que um guardião ideal do rebanho. Admitindo isso, há quem diga que o termo simboliza o ministério coletivamente, o que é extremamente provável; mas, mesmo assim, o termo individual anjo, embora não seja o nome de um ofício, sugere a sanção divina de um arquipresbítero dentro de um único encargo pastoral limitado. Mas não há nenhuma indicação clara e distinta de que se tenha designado alguma autoridade desse tipo como pertencente a uma ordem distinta, tal como a vimos revivida no presente século; e certamente não com o nome de bispo.

III, 344FUNÇÕES.

Funções. As três funções de ministrar a palavra da doutrina, velar sobre o rebanho e governar na congregação estão claramente estabelecidas, sobretudo nas epístolas pastorais de são Paulo, às quais, neste contexto, talvez baste remeter como contendo a suma e a substância do ensino do Novo Testamento sobre o assunto.

Ministro. 1. A ministração no serviço divino inclui a disposição do culto, a administração dos sacramentos e a pregação da Palavra. Aqui o termo ministro é especialmente apropriado: assim como os anjos são espíritos ministradores, os pastores são homens ministradores; mas uns e outros oferecem o seu serviço litúrgico primeiro a Deus e depois da parte de Deus. A responsabilidade pela devida celebração do culto cabe ao ministério: o culto, isto é, quer de oração, quer de louvor, que já foi descrito. Como representantes da vontade divina perante a congregação, esses oficiais espirituais têm o dever de administrar os sacramentos, pregar o evangelho para a conversão e ensinar as almas convertidas por meio deles. Tudo isso está na sua comissão, e para tudo isso devem buscar toda qualificação divina e humana. Nos Evangelhos e nas epístolas pastorais, esses dotes são, como era de esperar, amplamente descritos.

Pastor. 2. A responsabilidade do cuidado pastoral decorre da anterior. Apascentar o rebanho é instruir os seus membros, velhos e jovens; mas é também a atenção vigilante, que se reparte por todos os seus interesses, em toda a economia da vida. Os subpastores devem imitar o Ἀρχιποίμην [Supremo Pastor], que chama as suas próprias ovelhas pelo nome (Jo 10.3). Pelo cuidado geral e particular da igreja os presbíteros são responsáveis. Mas nisso, como na ministração da Palavra e, na verdade, em todas as suas funções, eles têm à sua disposição os ministérios de toda a congregação e não podem prescindir deles. Entre os dons concedidos à Igreja estavam os de ajudar, ou ἀντιλήψεις (1Co 12.28); e o Novo Testamento mostra cristãos de todas as classes empregados nos serviços da oração, da pregação e do cuidado dos enfermos. Mas em tudo e acima de tudo o presbitério tem a responsabilidade suprema.

Dirigente. 3. Essa relação pastoral passa naturalmente àquilo que temos autoridade bíblica para chamar de governo espiritual da Igreja. Os seus ministros são chamados ἡγούμενοι, dirigentes, ou προεστῶτες, presidentes, e todos os seus membros recebem a ordem de obedecer aos seus líderes (Hb 13.17) [N. do T.: o original indica Hb 13.7]. Essa autoridade pode ser vista sob dois aspectos: primeiro, como confiada a eles pelo Supremo Pastor, o único a quem prestam contas em última instância, visto que o representam; e, em segundo lugar, como representação da autoridade da congregação, confiada aos seus representantes por delegação formal da própria congregação.

III, 345Como representantes de Cristo. (1.) O governo que exercem é ordenado por Cristo, e as solenes sanções da sua responsabilidade estão ligadas ao grande dia em que terão de prestar contas àquele que agora anda no meio dos sete candelabros de ouro e conserva na mão direita as sete estrelas deles (Ap 2.1). A extensão e os objetos dessa autoridade devem ser medidos pelo grau em que o presbitério representa a autoridade ministerial ordinária dos apóstolos no governo da Igreja: pela manutenção e guarda das doutrinas e leis do cristianismo, pelo exercício da disciplina quanto à recepção e exclusão dos membros da sua comunhão e pela regulação geral dos seus assuntos. Aquele governo do corpo que fora confiado aos apóstolos, eles o confiaram, por meio dos evangelistas, a homens fiéis (2Tm 2.2), que deveriam desempenhar a função ministerial ordinária quando cessasse a direção da inspiração.

Representando a Igreja. (2.) Pode-se dizer também que a jurisdição deles representa a da própria congregação. Embora não haja autoridade que não proceda de Deus, e o governo do ministério esteja incluído entre as autoridades por ele instituídas (Rm 13.1), há um sentido em que ele é apenas a autoridade da Igreja inteira delegada aos seus ministros. Os três ofícios mediadores estão confiados ao corpo inteiro do seu povo, do qual se diz que recebeu a unção que vem do Santo, isto é, a unção crística que vem do Cristo: eles possuem a doutrina da verdade, e todos têm conhecimento (1Jo 2.20), e podem provar os espíritos (1Jo 4.1); estão investidos da função sacerdotal, na medida em que têm um altar (Hb 13.10) e oferecem sacrifícios espirituais (1Pe 2.5); e são reis, sacerdócio real (1Pe 2.9). Mas tudo o que a Igreja recebeu do seu Cabeça como corpo coletivo ela deposita de novo, em certo sentido, nos seus ministros: tudo, literalmente e sem desconto. O conjunto do povo cedeu-lhes o direito de ensinar; delegou esse ofício aos seus presbíteros. Como congregação, as suas funções sacerdotais estão nas mãos dos seus ministros, embora estes, ao exercê-las, já não sejam sacerdotes. E o governo do rebanho, o povo o entregou, pela vontade do Senhor, aos seus superintendentes ministeriais.

III, 346Ensino e governo, um só ofício. 4. Esse governo presbiteral é um só, e não dividido. Em várias comunidades estabeleceram-se distinções entre um presbiterato docente e um presbiterato pastoral ou regente, como se verá adiante; mas a Escritura não as sanciona, pois em geral trata o ensino ministerial como parte necessária do dever pastoral: Lembrem-se dos seus líderes, os quais pregaram a palavra de Deus a vocês (Hb 13.7). Que o bispo seja διδακτικός, didático, ou apto para ensinar (1Tm 3.2), são Paulo o declarou indispensável. Mais adiante, o Apóstolo diz: Devem ser considerados merecedores de honra em dobro os presbíteros que presidem BEM, especialmente os que se esforçam na pregação da palavra e no ensino (1Tm 5.17) [N. do T.: Pope segue a KJV, “double honour”; a NAA traz “pagamento em dobro”]. Os presbíteros muito zelosos devem ser honrados em dobro, com uma alusão de passagem, duvidosa, ao seu amplo sustento: em dobro se a sua excelência está no governo, e mais ainda se está no ensino.

Igrejas unidas. 5. Por fim, esses ofícios do presbitério dizem respeito não só às igrejas individuais, mas também aos agrupamentos de igrejas. Nem no Antigo Testamento nem no Novo há qualquer coisa que favoreça a suposição de que uma congregação tenha sido alguma vez considerada isolada e independente no seu governo. A unidade das igrejas, como representação da Igreja una, aparece em toda parte: seja no uso que nosso Senhor faz do termo, primeiro para a igreja universal, a minha igreja (Mt 16.18), depois para a local, exponha o assunto à igreja (Mt 18.17); seja em Atos, nas Epístolas ou no Apocalipse, onde as sete igrejas que estão na província da Ásia (Ap 1.4, 11) indicam a variedade na unidade. Em toda parte encontramos apóstolos representando a igreja e, depois, pastores e mestres representando a congregação. O governo eclesiástico do futuro foi esboçado no Novo Testamento. Não nos é mostrado ali o modelo exato, mas o suficiente para indicar que havia em cada região um vínculo de unidade entre as igrejas e que, retirados os apóstolos, esse vínculo era o presbitério. Em Atos temos o primeiro concílio, em Jerusalém, e a assembleia de presbíteros em Mileto. A respeito do primeiro, lemos: Ao passar pelas cidades, entregavam aos irmãos as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros de Jerusalém, para que as observassem. Assim, as igrejas eram fortalecidas na fé (At 16.4-5). A respeito da segunda, são Paulo enviou uma mensagem a Éfeso, pedindo aos presbíteros da igreja que se encontrassem com ele (At 20.17). Quando chegaram, passou a falar-lhes como representantes da Ásia: Vocês sabem… desde o primeiro dia em que entrei na província da Ásia (At 20.18). Uma comunidade cristã inteiramente isolada ou independente é desconhecida no Novo Testamento.

III, 347O DIACONATO.

Diaconato. Os primeiros oficiais cuja nomeação é mencionada depois do Pentecostes foram separados como auxiliares dos apóstolos no serviço das mesas, isto é, das festas e das obras de caridade da Igreja. Os Sete, designados no princípio, foram em todos os aspectos uma criação extraordinária; mas, com o tempo, menciona-se uma ordem distinta com o nome de diáconos, cuja vocação era, primeiro, auxiliar os presbíteros nos seus vários ofícios em geral e, segundo, como seus auxiliares, cuidar dos doentes e dos pobres. Aos diáconos correspondia uma ordem muito menos destacada, a das diaconisas.

Origem. 1. Os Sete foram, para os diáconos posteriores, o que os ministros extraordinários foram, como vimos, para os ordinários. A sua nomeação foi um dos resultados da comunhão de bens transitória: um expediente temporário do qual nasceu uma instituição permanente. Uma efusão de amor inteiramente nova e própria da comunhão cristã exigia um serviço do qual a antiga economia, templo ou sinagoga, não tinha nenhum tipo. Por isso, os homens nomeados para auxiliar os apóstolos quase não lhes eram inferiores nos dons espirituais; e, de fato, acrescentaram a essas novas funções os ofícios de pregadores, evangelistas e profetas. Certamente nada nas suas funções correspondia ao assistente (Lc 4.20), ὑπηρέτης, da sinagoga, ou חַזָּן. Assim como lemos muitas vezes sobre OS DOZE, e mais de uma vez sobre OS SETENTA, uma vez lemos sobre OS SETE (At 21.8).

Epístolas Pastorais. 2. Os escritos posteriores do Novo Testamento mencionam o ofício e as qualificações para ele de modo a mostrar que era principalmente, embora não exclusivamente, secular: não se exige do diácono que seja apto para ensinar, e a posição de honra que, segundo se diz, ele alcança para si mesmo (1Tm 3.13) é simplesmente o ofício mais elevado, de caráter mais distintamente pastoral, ao qual os ministérios inferiores às vezes conduziam. Eram uma ordem comum a todos. O seu primeiro cuidado era com os doentes e os pobres; distribuíam as esmolas das quais os presbíteros eram os tesoureiros: enviando essa ajuda aos presbíteros por meio de Barnabé e Saulo (At 11.30). Eram encarregados de servir às mesas (At 6.2), isto é, de cuidar da organização dos ágapes, que no começo estavam ligados diariamente à Ceia do Senhor. Esse serviço, porém, tornou-se aos poucos menos pesado e deixou mais tempo para a instrução particular e pública, de modo que eles se tornaram gradualmente intermediários entre os presbíteros e o povo, assim como os presbíteros eram intermediários entre a igreja individual e as igrejas de outros lugares. São Paulo descreve os seus deveres no vívido esboço que traça das suas qualificações, entre as quais está que sejam respeitáveis, de uma só palavra, e conservando o mistério da fé com a consciência limpa (1Tm 3.8-9); e estas apontam para os ofícios de instrução particular em assembleias menores, ou classes, e de pregação local, como ligados à função do diácono. Nos tempos modernos, esse serviço é muitas vezes prestado sem o nome.

III, 348Diaconisas. 3. As diaconisas constituíam uma ordem distinta, nascida da necessidade da parte feminina da congregação, especialmente entre os gregos. O ofício era estritamente igual ao dos diáconos no que dizia respeito ao cuidado dos pobres e à instrução particular: permitia às mulheres servir de inúmeras maneiras ao bem dos santos, sob a direção dos presbíteros. Parece que se faz referência a elas quando são Paulo diz: Somente poderá ser incluída na lista (καταλεγέσθω, seja alistada) de viúvas aquela que tiver mais de sessenta anos (1Tm 5.9-10), embora esse limite de idade não fosse considerado obrigatório e depois tenha sido abrandado. As outras qualificações mostram quão importante era o ofício no juízo do Apóstolo e, de modo geral, quão extremo era o cuidado com o caráter das mulheres que exerciam quaisquer funções na congregação. Mas as diaconisas eram mais limitadas do que os diáconos quanto ao ensino público: Que as mulheres se conservem caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar, λαλεῖν (1Co 14.34). Não há nada mais severo nos escritos de são Paulo do que o que vem a seguir: para a mulher é vergonhoso, αἰσχρόν, falar na igreja (1Co 14.35). O decoro natural era o fundamento da sua proibição, que, no entanto, se aplicaria somente à assembleia mais pública.

VOCAÇÃO E ORDENAÇÃO.

Ordens. Para este ministério há uma vocação divina, a do Espírito, e uma humana, a da Igreja. E essa vocação, no Novo Testamento, é em geral selada pela ordenação, mediante a imposição das mãos do presbitério.

III, 349A VOCAÇÃO, OU O CHAMADO.

Vocação. Para todo serviço na comunhão cristã há uma vocação: a ministerial, seja pastoral, seja mais administrativa, está ligada a um chamado especial, marcado com mais ênfase do que qualquer outro por causa da sua maior importância espiritual.

Divina. 1. O chamado divino é pressuposto em todo o Novo Testamento. Assim como na antiga economia ninguém toma esta honra para si mesmo, a não ser quando chamado por Deus (Hb 5.4), também na nova nosso Senhor escolheu os Doze e os Setenta; deu também a sua aprovação especial ao décimo segundo apóstolo, Matias, e ao décimo terceiro, Paulo. Dos presbíteros ordinários se diz: todo o rebanho no qual o Espírito Santo os colocou como bispos (At 20.28). A Escritura não dá nenhuma indicação específica do modo como a vocação secreta do Espírito se manifesta, a não ser que a pessoa chamada deve ser alguém que tenha experiência espiritual da religião cristã, deve ter os dons necessários para o ofício ao qual é chamada e deve alcançar para si mesma a sua posição pela utilidade do seu serviço preparatório, sendo esses os frutos dignos da sua candidatura. A GRAÇA, primeiro: nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação (2Co 5.18); os DONS, em segundo lugar: o presbítero deve ser apto para ensinar (1Tm 3.2); o FRUTO, por último: ele deve ter desempenhado bem o diaconato ou, literalmente, ter servido bem (1Tm 3.13).

Humana. 2. A vocação por parte da igreja é tratada de modo muito mais explícito. Em geral, o corpo de presbíteros ou ministros pronuncia o chamado da congregação: os apóstolos separaram os diáconos; os profetas e mestres (At 13.1) anunciaram a Paulo e Barnabé o seu chamado específico; Timóteo e Tito evidentemente tinham a mesma função, como representantes dos apóstolos e da Igreja. Obviamente, isso implica o consentimento e a ratificação do povo, embora não a sua iniciativa: no caso dos diáconos, confiava-se naturalmente mais no juízo da congregação, e ele tinha mais peso do que no caso dos presbíteros. Mas em nenhum dos dois casos se omitia a aprovação da comunidade, embora não tenhamos meios de avaliar como, em muitos casos, se obtinham os seus votos ou se manifestava o seu consentimento.

III, 350A ORDENAÇÃO.

Ordenação. O que hoje se chama ordenação acontecia em geral pela imposição das mãos do presbitério. Essa cerimônia foi tomada do judaísmo, sendo o símbolo e o meio da nomeação para o ofício e o penhor de toda a graça necessária para exercê-lo.

Designação. 1. Era a designação para a obra sagrada da vida deles. Aqueles sobre quem se impunham as mãos eram separados num ato da congregação realizado por representação. Por isso, era o penhor, da parte da Igreja, do sustento dos que assim eram inscritos. Assim também o Senhor ordenou aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho (1Co 9.14): uma determinação de Cristo que explica a ordem apostólica aos presbíteros de que pastoreiem o rebanho não por ganância (1Pe 5.2) e de que devem ser hospitaleiros (1Tm 3.2).

Admissão numa ordem. 2. Da parte do corpo de presbíteros, era a admissão formal do ordenado no seu próprio número: com a imposição das mãos do presbitério (1Tm 4.14). O próprio Timóteo presidia esse corpo quando outros eram ordenados: Não tenha pressa para impor as mãos sobre alguém (1Tm 5.22). Nesse caso, Timóteo, como Tito, era o representante do Apóstolo, que, no entanto, parece ter presidido ele mesmo o presbitério que ordenou Timóteo: reavive o dom de Deus que está em você pela imposição das minhas mãos (2Tm 1.6). Daí se segue que, nessa função, o Apóstolo era apenas o chefe ou presidente do corpo e não tomava o lugar dos demais.

Penhor dos dons. 3. Da parte do Espírito, era o penhor da sua concessão da graça para o cumprimento dos deveres do ofício: aquele dom, a saber, de que são Paulo fala como latente ou inerente em Timóteo. A imposição das mãos dos apóstolos nunca vinha sem uma bênção específica: específica quanto à bênção e específica também quanto às mãos apostólicas. Mas em todas as épocas seguintes o DOM ministerial é concedido, não como uma virtude misteriosa presente, ou graça, ou dom sacramental, mas como o penhor, na alma, de toda a força e orientação necessárias para cada dever que surgir.

HISTÓRICO.

História. O desenvolvimento da opinião eclesiástica quanto à função e à autoridade do ministério, ou poder das chaves, esteve ligado de modo inseparável ao desenvolvimento da própria ideia de Igreja. Apenas alguns pontos principais exigirão atenção aqui: grande parte do assunto pertence à história eclesiástica.

III, 351Pré-niceno. I. A distinção pré-nicena entre clero e laicato continha o germe da hierarquia posterior, com a maior parte dos erros que a acompanham, mas com algumas peculiaridades marcantes.

Pais apostólicos. 1. Os Pais apostólicos começaram esse desenvolvimento muito cedo. O primeiro deles, Clemente Romano, fala do λαϊκὸς ἄνθρωπος, o LEIGO. Outro, Inácio, distingue o bispo, o presbitério e o diácono, e faz do bispo o centro da unidade católica. No século III, os ministros eram chamados CLERUS ou CLERICI, tanto por serem a sorte ou porção de Deus, à semelhança da tribo levítica, como por serem os guias escolhidos do povo. A sua categoria era uma ORDO SACERDOTALIS ou ECCLESIASTICUS [ordem sacerdotal ou eclesiástica]; e aqui Clero e laicato. temos a origem dos termos clero e eclesiásticos. Havia nessa ordem dois setores: as Ordines Majores [ordens maiores], que compreendiam o diaconato, o presbiterato e o episcopado, de instituição divina; e as Ordines Minores [ordens menores], que compreendiam todas as funções inferiores, do subdiácono ao porteiro. Nesse período, o celibato era opcional. Exigia-se o consentimento do povo para a nomeação dos seus pastores ou bispos. Permitia-se aos leigos ensinar, embora não na presença do clero ou Episcopado. sem o seu consentimento. A instituição episcopal, como a de uma ordem distinta, nasceu do costume eclesiástico, fundado na necessidade de dar continuidade ao vínculo apostólico de unidade. Tornou-se universal em meados do século II; mas Irineu e Cipriano fizeram muito, no século III, para elevar o ofício à sua mais alta dignidade. A ideia hierárquica, com todo o seu cortejo de graus, só se desenvolveu plenamente aos poucos. Os Chorepiscopi, ou bispos do campo, eram os mais baixos na categoria episcopal. Os metropolitanos eram os bispos das cidades principais: Antioquia era a sé de toda a Síria; Alexandria, a do Egito; Roma, a da Itália e do Ocidente. No século IV, o título de patriarca foi atribuído a estes e aos bispos de Constantinopla e Jerusalém: os cinco centros eclesiásticos e políticos do Império Romano. O Oriente se manteve fiel a esse sistema. O Ocidente avançou até o pontificado: a unidade e a consumação de todas as ordens espirituais inferiores.

Judaísmo. 2. Esses começos do erro devem ser rastreados em outra direção. Quase todo desvio doutrinário da fé como um todo teve a sua influência específica sobre a teoria do ministério cristão e a sua relação com o sacrifício de Cristo. Na medida em que prevaleceu a tendência judaizante, ela trouxe de volta o sacrifício e o sacerdócio sacrificador, com o altar sacrificial. A noção de uma unidade externa necessária apontava para a supremacia do bispo como vínculo de união na igreja individual, segundo Inácio, e para a supremacia de um só bispo para garantir a unidade de todas as igrejas. Até a sã doutrina da catolicidade, em oposição Poder das chaves. aos cismas e à heresia, tendia na mesma direção. O poder das chaves, que originalmente guardava a pureza da comunhão, tornou-se para o clero uma grande tentação; e tendia, junto com a noção exagerada dos mistérios de que eles tinham as chaves, a revestir o seu caráter de uma prerrogativa alheia ao evangelho. No século II, predominaram duas opiniões sobre esse assunto: uma que identificava o ligar e o desligar com o reter e o perdoar pecados; e outra que os referia, de modo mais geral, a toda autoridade eclesiástica. Ambas, porém, assumiam uma posição elevada nesse ponto. Cipriano afirmou que o poder das chaves foi confiado primeiro a Pedro e depois aos outros apóstolos, estabelecendo entre Pedro e os demais aquela diferença sobre a qual se ergueu, desde então, uma superestrutura tão grande. As prescrições de penitência para os Peccata Mortalia, ou pecados que ameaçavam a vida espiritual, com a excomunhão e a reconciliação, ou nova recepção na Igreja pela absolvição, não davam ao sacerdote, antes do tempo de Agostinho, mais do que a autoridade de intercessão, como representante da congregação. Leão Magno fez muito para exaltar o poder sacerdotal independente como prerrogativa oficial própria do sacerdote. A confissão ainda não era feita aos sacerdotes por obrigação; e, embora o ligar e o desligar tivessem alguma relação com o perdão divino, Germes do erro. tinham mais relação com certos privilégios eclesiásticos. As expulsões públicas da igreja na Quarta-feira de Cinzas, e as readmissões públicas depois, na Quinta-feira da Ascensão, eram costumes de Roma no século V. Durante a Idade Média, deram lugar à penitência particular e à absolvição particular.

III, 352Medieval. II. Do tempo de Constantino até a Reforma (mil e duzentos anos), houve um desenvolvimento constante dos germes de erro observáveis nos primeiros séculos. Só é preciso registrar aqui os pontos principais: segui-los nos seus pormenores pertence antes à história eclesiástica.

III, 353O episcopado. 1. Embora algumas das mais altas autoridades (Jerônimo, Crisóstomo, Teodoreto) tenham afirmado a identidade original entre bispos e presbíteros, a ordem episcopal passou a ser considerada representante de Cristo e dos apóstolos, como os órgãos e instrumentos especiais do Espírito Santo. Os bispos assumiram o direito exclusivo de ordenar e, no Ocidente, de confirmar: supunha-se que somente as suas mãos comunicavam a graça seladora do evangelho.

O pontífice romano. 2. Quando o cristianismo se tornou a religião do império, o ministério da Igreja tornou-se, no sentido mais estrito, uma HIERARQUIA. Depois de 395 d.C., dividido o Império em Oriente e Ocidente, essa hierarquia teve duas cabeças: os patriarcas de Roma e de Constantinopla. Estes disputaram por muito tempo a supremacia; mas Roma Roma locuta est. acabou vencendo. ROMA LOCUTA EST [Roma falou] tornou-se o padrão de julgamento. O bispo de Roma reivindicou ser o PAPA, ou PRIMAZ, de toda a Igreja e possuir uma dignidade superior à de todos os outros bispos, embora, quanto à ordem, continuasse sendo apenas bispo. Roma era a única Sedes Apostolica [sé apostólica] no Ocidente e, por isso, o patriarcado latino. Mas o sistema patriarcal era oligárquico, não monárquico; e os quatro concílios ecumênicos (de Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia) fizeram do bispo de Roma apenas PRIMUS INTER PARES [o primeiro entre iguais] entre os patriarcas e bispos, assim como cada bispo era apenas primus inter pares entre os presbíteros. A separação entre a Igreja grega e a latina é prova de que essa pretensão nunca foi reconhecida. Mas estava reservado à Reforma apresentar o único argumento válido, o da Escritura, contra o sistema hierárquico, que, como tal, parecia exigir naturalmente uma cabeça. É fato histórico que Leão I, chamado Magno, que morreu em 461 d.C., lançou os firmes alicerces do papado moderno; e que Gregório I, que morreu em 604 d.C., consolidou o sistema que culminou, na Idade Média, com Gregório VII e Inocêncio III.

Sacerdotalismo judaico. 3. O sacerdócio e o culto judaicos tinham-se tornado aos poucos o modelo do serviço cristão. A ordenação era acompanhada de óleo: este era, para o sacerdócio especial, o que o batismo era para o sacerdócio universal e, como o batismo, tinha um Character Indelibilis [caráter indelével]. Aos poucos desapareceu todo vestígio de eleição e confirmação popular, e o clero praticamente se tornou a igreja. A administração exclusiva dos sacramentos, cujo número foi aumentando gradualmente, deu-lhes mais do que o antigo predomínio sacerdotal judaico. O serviço central do Sacrifício Incruento era atendido por sacerdotes revestidos de paramentos que superavam os do serviço do templo em variedade de significado simbólico, e concentrava sobre eles toda a confiança e todo o temor reverente que o sacerdócio levítico inspirava.

III, 354Escolas do clero. 4. Os seminários de instrução ministerial, dos quais a Escola Catequética de Alexandria foi o modelo, abundaram no Oriente a partir do século IV. No Ocidente houve muitas escolas desse tipo, fundadas em caráter particular pelos bispos, como o Monasterium Clericorum [mosteiro dos clérigos] de Agostinho. Mas, com o passar dos séculos, verificou-se que a maioria do clero era profundamente ignorante, embora essa ignorância não fosse tão universal como às vezes se descreve.

Monasticismo. 5. A história do monasticismo só está ligada indiretamente à do ministério. O ascetismo marcou desde o princípio a vida particular de muitos membros do clero; no século IV, tornou-se anacoretismo, ou vida eremítica separada do mundo (ἀναχωρέω, retirar-se; ἐρημία, deserto); daí veio a vida cenobítica ou de claustro, ou monasticismo propriamente dito, a vida ascética organizada (κοινὸς βίος, vita communis, vida comum); e, na Idade Média, as ordens monásticas foram o ponto culminante. Os votos de pobreza, castidade e obediência que todos eles assumiam não eram, por si mesmos, ministeriais. Os monges eram Religiosi [religiosos], mas nem por isso necessariamente Clerici [clérigos], até o século X.

Medieval. 6. A doutrina medieval das chaves passou por grande desenvolvimento e foi finalmente completada por Tomás de Aquino. Ele distinguiu entre a Potestas (e a Clavis) Ordinis [o poder, e a chave, da ordem] e a Potestas (e a Clavis) Jurisdictionis [o poder, e a chave, da jurisdição]: a primeira abre o céu diretamente; a segunda, por meio da excomunhão e da absolvição ministradas no foro eclesiástico. O poder sacramental das chaves tornou-se o centro do sacramento da penitência. A absolvição, segundo a doutrina definitiva, obtém o perdão dos pecados. Ao opus operans [a obra de quem age] do arrependimento do penitente segue-se um perdão ex opere operato [em virtude da obra realizada]. Mas, como juiz in foro Dei [no foro de Deus], o sacerdote só pode dar a absolvição como sentença sobre a realidade da penitência. Afinal, mesmo nessa doutrina das chaves, isso deve ficar condicional e somente com Deus.

III, 355Doutrina tridentina. 7. A doutrina católica romana, na sua forma plena, põe a administração da graça nas mãos de uma Ordo Sacerdotalis [ordem sacerdotal]: uma hierarquia eclesiástica jure divino [por direito divino] (com o seu Clerus Minor [clero menor] que se eleva até o Clerus Major [clero maior]), a qual, no sentido mais estrito, é formada propriamente pelos bispos e culmina numa só Cabeça visível, o sucessor de são Pedro e representante de Cristo na terra. A Igreja é representada pelos concílios gerais, compostos pelo episcopado coletivo, convocado e presidido pelo Papa, que tem o Suprematus Jurisdictionis [supremacia de jurisdição] sobre todos os bispos. Pelo mesmo direito divino, a Igreja (cuja autoridade o Concílio Vaticano de 1870 de fato depositou na sua Cabeça) tem a Potestas Ordinis, magisterii e ministerii [poder de ordem, de magistério e de ministério], o ordenamento de toda a doutrina e de todo o culto; a Potestas Jurisdictionis [poder de jurisdição], isto é, a Potestas Clavium, ou poder das chaves, a autoridade para dispor de todos os tesouros da graça de Cristo; a Potestas Regiminis [poder de governo], ou autoridade religiosa sobre o mundo, a qual, porém, é uma autoridade sempre em conflito, em maior ou menor grau, com a Potestas Sæcularis [poder secular].

A Reforma. III. O princípio geral introduzido pela Reforma foi este: que a igreja viva é o sujeito, a fonte e o centro de todo poder; que a Potestas Clavium, ou poder das chaves, foi confiada por Cristo aos apóstolos como seus representantes e, por meio deles, ao corpo universal. A função ou ofício ministerial é de instituição divina; mas as suas várias formas e nomes são de disposição humana. Sendo ao mesmo tempo humano e divino, o ministério é representativo da Igreja inteira, que age por meio dele e nele e lhe delega os seus direitos.

Luteranos. 1. A doutrina luterana era mais elevada que a dos reformados. As chaves. Ligava o ofício ministerial mais expressamente às CHAVES. O seu Ministerium Verbi et Sacramentorum [ministério da Palavra e dos sacramentos] confere ao pastor autoridade para pregar o evangelho e perdoar pecados. As frases seguintes, tiradas dos formulários, explicarão melhor: “Onde quer que esteja a (verdadeira) Igreja, aí está o direito de administrar o evangelho. Por isso é necessário que a Igreja conserve o direito de chamar, eleger e ordenar ministros.” “Ninguém deve ensinar na Igreja nem administrar os sacramentos sem ter sido devidamente chamado.” A ligação entre o chamado divino e o humano fica indefinida; mas “por direito divino deve-se obedecer aos bispos e governantes na Igreja. Mas, se ensinarem ou ordenarem algo contrário à Palavra de Deus, o mandamento divino proíbe a obediência.” O poder das chaves era tido como consistindo na pregação do evangelho, ou das condições do perdão; mas tanto Lutero como os padrões e os doutores luteranos deixaram muito espaço para a confissão e para a absolvição pessoal dada pelo ministro.

III, 356Reformados. 2. O tipo reformado de doutrina era mais rigoroso. Dava mais ênfase à disciplina eclesiástica, que contava entre as notas da verdadeira Igreja, e rejeitava inteiramente a confissão e a absolvição privadas. Introduziu uma teoria mais estrita da igualdade dos pastores. Ao lado dos Ministri Docentes [ministros que ensinam] colocou os Ministri Ministrantes [ministros que servem], ou presbíteros leigos, que representavam a Igreja em outro sentido e em assuntos de administração e disciplina: separados para o ofício e, em geral, ordenados, mas não para ensinar.

Anglicanos. 3. A doutrina anglicana do ministério, estabelecida na Reforma, diferia em alguns aspectos de ambas. Conservou o episcopado, com o nome de bispo e as suas prerrogativas especiais, que o luteranismo disfarçou sob o nome de superintendentes e reduziu a mero expediente humano. Conservou a hierarquia, como adequada a uma religião territorial e nacional. Foi mais longe que os outros corpos na interpretação do poder das chaves, usando, quanto à absolvição privada dada pelo ministro, uma linguagem que, pelo menos em alguns dos seus ofícios litúrgicos, é mais do que meramente declaratória e significativa. O presbítero também é chamado de sacerdote (priest) por uma abreviação equívoca da palavra [N. do T.: em inglês, priest é forma contraída de presbyter, mas serve também para o sacerdote que oferece sacrifício]. E, por fim, a doutrina anglicana supõe um dom e uma influência especiais do Espírito Santo na ordenação: embora negue o caráter estritamente sacramental das ordens, dá muita ênfase, e com razão, à provisão expressa de graça destinada a cada função ministerial.

Teorias modernas. IV. Bastará indicar os pontos teológicos envolvidos nessas diversas tendências, isto é, na medida em que afetam a doutrina sobre o ministério cristão.

Infalibilidade papal. 1. A tendência hierárquica chegou à sua consumação natural na definição dogmática da infalibilidade papal, em 1870. O Pontífice, ou bispo de Roma, ou Papa, quando fala ex cathedrâ, isto é, quando pronuncia declaradamente o pensamento da Igreja, ou do Espírito na Igreja, é o oráculo infalível da verdade. Assim, a longa controvérsia sobre o sentido de as chaves terem sido dadas a são Pedro antes de serem dadas ao grupo apostólico parece resolvida, embora de maneira incompatível com outras partes do Novo Testamento. Esquece-se que a autoridade especial dada a Pedro (a de abrir pela primeira vez o Reino dos Céus a judeus e gentios, decretar o que obrigava a Igreja e declarar as condições do perdão, isto é, o poder das chaves) nunca foi reivindicada por ele só para si, nem sequer como superior aos demais; e que ele declarou apenas isto: Deus me escolheu entre vocês para que da minha boca os gentios ouvissem a palavra do evangelho (At 15.7), e nada mais. Além disso, Simão Pedro é o único apóstolo cuja falibilidade é depois expressamente declarada: havia se tornado repreensível (Gl 2.11); e não se diz uma só palavra sobre a transmissão, de qualquer modo que seja, da sua primazia entre os apóstolos vivos.

III, 357Reação contra o ministério separado. 2. Desde o tempo da Reforma, tem havido contra a hierarquia uma reação que, em algumas comunidades, chegou a extremos. Os QUACRES, como ramo da família mística, Amigos. varreram o ministério juntamente com a igreja e os sacramentos, pondo em seu lugar, porém, uma influência secreta e distinta do Espírito Santo sobre os órgãos que ele mesmo escolhe, para o benefício da assembleia. Assim, no ensino deles, o ministério é uma criação perpétua, e não uma ordem separada. O seu governo eclesiástico é simplesmente o governo de uma sociedade, segundo princípios de conveniência humana. Irmãos. Mais recentemente surgiram os IRMÃOS DE PLYMOUTH, ou IRMÃOS, como ramo inglês de uma comunidade cujos princípios se encontram em outras terras e nunca deixaram de ter representantes na Igreja. Essa seita denuncia as denominações do cristianismo, recorre à Palavra de Deus, conserva os sacramentos, mas rejeita o pastorado separado, seja como corpo, seja representado por um indivíduo. Renuncia-se à ordem do ministério, e o ensino da Irmandade fica entregue ao suprimento, pelo Espírito, de dons ou charismata de ensino. Esse sistema carece inteiramente da coerência do sistema dos quacres. Mas tanto esses Irmãos como aqueles Amigos são condenados pelas Epístolas Pastorais.

Irvingitas. 3. A Igreja Católica Apostólica [N. do T.: nome da igreja dos irvingitas; não é a Igreja de Roma] procura combinar quase todas as teorias já mencionadas. O seu ministério é de charismata, ou dons, restaurados segundo o modelo das Epístolas aos Coríntios e das epístolas do Apocalipse. O seu poder das chaves é muito semelhante ao dos romanistas. O seu serviço sacerdotal procura voltar às primeiras eras, mas para no meio do caminho.

III, 358Laicato. 4. A importância do laicato, ou corpo geral da congregação, tem sido reconhecida nos tempos modernos de modo cada vez mais firme. O abuso de termos que fazia de igreja e clero sinônimos já desapareceu em grande parte, embora o seu efeito não tenha sido, nem provavelmente venha a ser, inteiramente removido. Reconhece-se Reivindicação. de modo cada vez mais geral que os leigos podem atuar como evangelistas diante do mundo e até como mestres dentro da igreja; que podem ser empregados no ensino das crianças ou como catequistas; que podem ler as Escrituras, em público e em particular; que podem exercer múltiplos ofícios, mais ou menos espirituais; que podem dirigir, em grande parte, os assuntos financeiros da comunidade; e que devem ser, em muitas instâncias eclesiásticas, representantes da parte econômica da Igreja. Há Excesso. excessos nessa direção, que vão ao extremo oposto dos excessos hierárquicos. Tal é o poder leigo que a constituição da igreja estabelecida conserva como instância final de apelação. Tal é a representação leiga no governo presbiteriano propriamente dito: os presbíteros regentes, escolhidos de forma vitalícia, nos presbitérios, sínodos e assembleias gerais. Esses presbíteros, leigos em todos os demais aspectos e representantes do elemento leigo, têm voz em assuntos que afetam a jurisdição ministerial como tal. Isso se aplica também a vários dos corpos metodistas menores que não se declaram presbiterianos. No sistema congregacional, o poder do pastor como tal fica reduzido a um elemento muito pequeno, em comparação com o do corpo do laicato.

Metodismo. 5. Quanto à sua doutrina e à sua prática neste assunto, o metodismo é eminentemente elevado e, ao mesmo tempo, livre. É presbiteriano quanto à base da sua teoria: os seus ministros são de uma só ordem, e a sua Conferência compõe-se de representantes do presbitério do conjunto das sociedades ou igrejas que formam a Conexão. É episcopal, segundo o tipo mais primitivo. Agostinho diz (A cidade de Deus XIX, 19): “Episcopatus nomen est operis, non honoris. Græcum est enim, atque inde ductum vocabulum, quod ille qui præficitur eis, quibus præficitur, superintendit, curam eorum, scilicet gerens, ἐπί quippe super, σκοπός, intentio est: ergo, ἐπισκοπεῖν latine SUPERINTENDERE possumus dicere” [o episcopado é nome de trabalho, não de honra. Pois é palavra grega, e o vocábulo vem de que aquele que é posto à frente de outros os superintende, isto é, cuida deles; pois ἐπί quer dizer “sobre”, e σκοπός, “atenção”; logo, ἐπισκοπεῖν podemos dizer em latim SUPERINTENDERE, “superintender”]. Por isso o superintendente, no metodismo inglês, ocupa exatamente a posição do episcopado primitivo e do episcopado em algumas partes do luteranismo. Na América conserva-se o nome de bispo. O metodismo emprega os leigos em todas as funções diaconais, embora não conserve o nome de diácono. Tem os seus guias de classe, pregadores locais, ecônomos dos pobres e ecônomos da sociedade, em geral leigos, homens e mulheres. Utiliza o serviço das mulheres em ministérios particulares, como catequistas, como professoras nas escolas dominicais e como guias. Mais cuidadosamente que a maioria dos outros corpos religiosos, distingue as funções do pastorado e as do laicato, reservando à jurisdição ministerial final todas as questões que afetam o poder das chaves, tal como Cristo o deixou na sua Igreja. A doutrina metodista é que nosso Senhor deixou as chaves (o governo geral do seu corpo, o ligar e desligar especial por meio de decretos dotados de autoridade, e a recepção e a expulsão dos seus membros) à própria Igreja, representada, porém, pelos homens que o Espírito levantasse, com a concordância da congregação, para representar a sua autoridade.

III, 359A IGREJA EM SUA RELAÇÃO COM O MUNDO.

Igreja e mundo. A Igreja de Cristo, ao mesmo tempo visível e invisível, existe para continuar e aperfeiçoar a obra que ele começou. É o órgão dele para a preparação do seu reino final. Como tal, tem uma dupla relação com os de fora: primeiro, manter-se, no meio do mundo, como depositária e testemunha da verdade salvadora; segundo, ganhar o mundo para a obediência de Cristo, como instituição missionária.

Alguns dos temas aqui indicados já foram discutidos de modo mais ou menos completo. Alguns terão de ficar reservados para a escatologia. Mas a visão da administração da redenção não estaria completa sem algumas observações gerais, aqui, sobre os três ramos deste assunto.

O TESTEMUNHO DA VERDADE.

Testemunho. A Igreja, como organização que está no mundo, mas não é do mundo, é a depositária, a guardiã e a testemunha da verdade. A verdade que ela recebeu é a norma da sua fé e da sua disciplina, tanto no que diz respeito às igrejas individuais como à união de igrejas, quaisquer que sejam os princípios em que estejam unidas.

III, 3601. Uma das principais prerrogativas do povo antigo era que lhes foram confiados os oráculos de Deus (Rm 3.2). A última declaração de são Paulo foi que a casa de Deus é coluna e fundamento da verdade (1Tm 3.15-16): testemunho final do Apóstolo que, tomado em todo o seu amplo contexto, dá uma visão muito impressionante da prerrogativa, Guardiã da Escritura. da responsabilidade e da dignidade da Igreja visível. Essas palavras remontam às de nosso Senhor, que declaram que o Espírito da verdade permaneceria com o seu povo: pelos próprios termos, a promessa não se limitava aos apóstolos. Nisso, como em tudo, eles eram representantes da comunidade inteira para sempre; representantes também do seu ministério permanente como um todo; além de serem, como apóstolos, uma classe única e preeminente. A Igreja universal é a guardiã da Escritura. Houve uma companhia de discípulos preparada pela Palavra FALADA para receber a Palavra ESCRITA. Para mostrar que a causa de Deus não dependia de modo absoluto do cânon completo, esse cânon levou séculos para ser determinado. Mas foi completado para o longo futuro; e nenhuma igreja individual é fiel se acrescenta algo à coleção dos oráculos sagrados ou dela tira alguma coisa. Além disso, ela é também a guardiã da verdade que se deriva da Escritura. Um dos fins da sua existência é contradizer o erro à medida que ele surge: daí as variações da definição dogmática nos credos e formulários. Os TRÊS CREDOS foram, até a Reforma, um protesto contra todos os erros do mundo e da própria Igreja. Desde então aprouve ao Espírito que as diversas comunidades tivessem os seus diversos PADRÕES, ARTIGOS ou CONFISSÕES DE FÉ.

Testemunho das igrejas individuais. 2. As igrejas individuais foram suscitadas para dar testemunho de diversos e variados elementos negligenciados da verdade, sendo manifestamente intenção do Espírito que as denominações servissem umas às outras de freio e de estímulo. Não foi da vontade dele que houvesse uniformidade nas confissões da cristandade: quando essa uniformidade existiu por algum tempo, a corrupção estava à porta. Ele administra a obra de Cristo por meio da unidade no essencial e do antagonismo mútuo nas coisas de menor importância.

III, 361Verdade parcial. 3. Mas é também doutrina da Escritura que nem mesmo a verdade, tal como está em Jesus, há de ser revelada neste mundo em toda a sua plenitude. Pois o nosso conhecimento é incompleto (1Co 13.9). Uma igreja perfeita na terra não está entre as promessas nem entre as predições da Escritura. Tampouco se deve esperar um sistema de teologia cristã acabado e completo. Antes que o texto exato da Escritura tenha sido determinado, que todos os erros tenham sido eliminados das confissões e que se tenha desenvolvido um sistema perfeito de doutrina, terá vindo aquele que é ele mesmo a verdade e que não dará a outro a sua honra.

A INSTITUIÇÃO MISSIONÁRIA.

Missões. A Igreja de Cristo existe para a propagação do evangelho pelo mundo: em virtude da sua comissão original, é um corpo missionário. Essa obrigação recai sobre todas as sociedades individuais e sobre todos os seus membros. Com o cumprimento dessa comissão, cessarão as funções da Igreja: o Reino de Cristo será revelado de modo cada vez mais pleno, até que, pela sua vinda, seja transladado de reino da graça para reino da glória.

Escritura. A doutrina da vocação pôs em evidência a marca distintiva da Igreja cristã: ela recebeu uma comissão para todas as nações; em parte, em contraste com a limitação da teocracia; em parte, como termo e meta da sua própria missão.

1. Por isso, a pregação do evangelho foi a revelação do mistério (Rm 16.25) de que os gentios seriam chamados. E nosso Senhor declara que o evangelho há de ser pregado para testemunho a todas as nações (Mt 24.14) antes que ele mesmo venha; mas apenas como testemunho, pois será que ainda encontrará fé sobre a terra? (Lc 18.8). É verdade que, na história do Novo Testamento, vemos os dois princípios estabelecidos só gradualmente. A admissão dos gentios foi reconhecida muito lentamente: não Jerusalém, mas Antioquia, foi o centro missionário. Cedo demais se supôs que a pregação universal do evangelho já tivesse preparado o retorno de Cristo.

Histórico. 2. Nenhuma verdade relativa à missão do cristianismo foi tratada com tanta infidelidade pela própria Igreja. Até que o Império Romano se tornasse cristão, as missões, cujo registro se perdeu, foram conduzidas com vigor. Mas, desde então até a Reforma, foram afetadas por dois males, que, no entanto, não impediram a expansão do cristianismo. A fé foi propagada em grande medida pela ação do poder civil; foi difundida na sua forma corrompida, e às vezes por hereges; mas em toda parte foram lançados os alicerces sobre os quais depois se ergueu uma superestrutura melhor. A Reforma não foi bastante atenta à obrigação missionária: a Igreja inglesa organizou as suas missões, no século XVII, apenas em favor das suas colônias; a Igreja Luterana fez inícios enérgicos na missão dinamarquesa; mas foi a Propaganda romanista que mostrou mais vigor [N. do T.: a Congregação de Propaganda Fide, criada em Roma em 1622 para dirigir as missões católicas].

III, 3623. Com este século começou a era missionária propriamente dita, depois das preparações do século passado. Hoje a maioria das comunidades cristãs reconhece que as igrejas existem como tais para a preparação e a difusão do Reino de Cristo Sociedades missionárias. entre os homens. As SOCIEDADES MISSIONÁRIAS surgiram por toda parte e são a glória da época presente. Em estranho contraste com isso está o fato de que há algumas comunidades, e muitos indivíduos em outras comunidades, que creem que a difusão do evangelho é assunto secundário e que a destruição dos inimigos de Cristo e o estabelecimento do seu Reino terão de ser realizados pelo reaparecimento visível do Senhor, que reinará na terra durante mil anos antes do fim. Mas o teor uniforme do Novo Testamento declara que este evangelho deve ser pregado em toda a terra, a toda criatura, e que a presença de Cristo com a sua Igreja missionária continuará sempre, até o fim do mundo. Este assunto voltará na última seção, a da escatologia.

A IGREJA E O REINO.

Igreja e Reino. O Novo Testamento termina como começou: com o Reino de Deus e de Cristo. Esse Reino é o Reino dos Céus, por não ser, na sua origem, deste mundo. É o Reino dos Céus na terra, como a autoridade espiritual que já está permeando a sociedade humana. É o Reino dos Céus também como a forma final em que todas as igrejas individuais de Cristo na terra se fundirão. É o Reino em sentido absoluto, por ser a única manifestação do governo mediador de Cristo, que teve a sua etapa anterior, de preparação, no Antigo Testamento, em Israel, o seu cumprimento no Novo Testamento, entre Israel e os gentios, e terá a sua gloriosa consumação na vinda do Senhor.

III, 363O Reino único. 1. A única βασιλεία, ou Reino, foi estabelecida em Israel, e como TEOCRACIA, que era na verdade uma CRISTOCRACIA disfarçada, pois os governantes da antiga economia eram tipos e representantes de Cristo, que em todas as eras e em todas as economias governou, virtual ou efetivamente, na casa de Deus.

Igreja e Reino. 2. O reino da graça coincide com a Igreja, tal como ela foi apresentada na sua visibilidade e invisibilidade unidas, o bem e o mal combinados. Durante o intervalo até a vinda do Senhor, porém, o Reino é considerado principalmente como invisível. Nosso Senhor fala dele como já chegado: eis que o Reino de Deus está dentro de vocês (Lc 17.21); ἐντὸς ὑμῶν, entre vocês, de modo invisível [N. do T.: a NAA traz “o Reino de Deus está entre vocês”]. O menor no Reino de Deus é maior do que ele (Lc 7.28), isto é, do que João Batista. Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, ou é conquistado pela violência, e os que usam de força se apoderam dele (Mt 11.12). Quanto a isso, e a algumas outras passagens semelhantes, deve-se lembrar que nosso Senhor fala por antecipação, bem como com referência ao presente, e que as suas palavras têm significado prospectivo e permanente. Em verdade lhes digo que, dos que aqui se encontram, existem alguns que não passarão pela morte até que vejam ter chegado com poder o Reino de Deus (Mc 9.1). Isso não se refere à parousia final, ou à vinda visível do Redentor no seu Reino, mas à vinda invisível no reino da graça. Essa vinda foi o derramamento do Espírito, a fundação da Igreja e a revolução que devastou a antiga teocracia e a sua cidade santa. Neste período da graça, o Redentor é REI DA JUSTIÇA, REI DA PAZ (Hb 7.2), sendo a sua metrópole Jerusalém, a cidade da visão da paz.

O Reino. 3. Ainda agora o Reino tem, em certos aspectos, a preeminência. É o assunto da maior parte das parábolas de nosso Senhor. Muitas das prerrogativas e privilégios atribuídos com demasiada frequência à Igreja pertencem, na realidade, ao Reino. Ele é, por exemplo, o bem supremo, que deve ser buscado e comprado à custa de tudo o que temos: o tesouro escondido no campo e a pérola de grande valor (Mt 13.44, 46). Sejam quais forem as diferenças aqui, o Reino representa aquele que é o tesouro inestimável que nele se encontra: Portanto, para vocês, os que creem, esta pedra é preciosa (1Pe 2.7). As bem-aventuranças com que nosso Senhor começou são os gozos deste Reino; começam e terminam com ele: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus (Mt 5.3, 10). Não se diz da Igreja que ela é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17). A proclamação evangélica é este evangelho do Reino (Mt 24.14): uma das expressões mais amplas e abrangentes do Novo Testamento. Sejam quais forem as coisas gloriosas que se dizem da Igreja, ela traz consigo, afinal, uma referência ao mundo mau de onde veio: igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante (Ef 5.27). O Reino também é misto, pois ajuntarão do seu Reino todos os que servem de pedra de tropeço (Mt 13.41); mas a ideia predominante nele é a da esfera da suprema manifestação soberana de Cristo.

III, 3644. É este Reino que é um reino eterno (Dn 7.27). Agora ainda não foi revelado; e dele são João, depois de falar do seu apostolado às igrejas, diz: Eu, João, irmão e companheiro de vocês na tribulação, no reino e na perseverança em Jesus (Ap 1.9). Somos todos companheiros na perseverança do Reino em Jesus: ἐν τῇ βασιλείᾳ καὶ ὑπομονῇ ἐν Ἰησοῦ.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 335-364, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.