W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · A administração da redenção
A redenção aplicada. Esta expressão define, melhor do que qualquer outra, o vasto ramo da ciência teológica que se ocupa do aspecto subjetivo daquilo que às vezes se chama SOTERIOLOGIA. Se usarmos a expressão APLICAÇÃO DA REDENÇÃO, corremos o risco do erro predestinacionista, que supõe que a obra consumada de Cristo é aplicada ao indivíduo segundo o propósito fixo de uma eleição da graça. A expressão APROPRIAÇÃO DA SALVAÇÃO tende ao outro extremo, o pelagiano, e faz de modo demasiado evidente da provisão expiatória de Cristo matéria de livre aceitação ou rejeição individual. O termo SALVAÇÃO PESSOAL evita esses extremos; mas mal chega a honrar suficientemente o ofício do Espírito Santo. A ADMINISTRAÇÃO DA REDENÇÃO satisfaz todas as condições necessárias. Este é o campo mais amplo da teologia: reúne os resultados de todos os ramos que o precedem e antecipa, em maior ou menor grau, o único ramo que ainda resta.
Análise. Uma visão completa de todo este ramo da teologia cristã pode ser tomada na seguinte ordem. Primeiro, devemos definir as relações especiais de Deus Espírito com a administração da obra do Salvador. Depois, temos de considerar o caráter, os termos e as condições do chamado universal do evangelho: a ação do Espírito Santo no átrio exterior do templo da redenção. Em terceiro lugar, será necessário deter-nos nas condições preliminares da graça, ou nos assuntos que pertencem à conversão, ao arrependimento e à fé, os quais formam a transição, em quarto lugar, para o próprio estado da salvação da aliança, com todos os seus muitos privilégios, diversificados na sua unidade. Em quinto lugar, será então de grande importância examinar as condições gerais de que depende a perpetuidade dessas bênçãos. Isso introduzirá com propriedade a moral do evangelho, no estabelecimento de um caráter santo tal como o cristianismo o forma, moral que não deve ser separada da administração do Espírito. E, por último, deve-se incluir a Igreja, seja como a comunhão que resulta da concessão da graça, seja como a instituição na qual e por meio da qual essa graça é concedida.
II, 320O subjetivo distinguido do objetivo. A distinção entre soteriologia objetiva e subjetiva, ou entre a redenção realizada de uma vez por todas por Cristo e a redenção administrada pelo Espírito Santo, já foi mencionada repetidas vezes. Mas a sua importância é tão grande que vale a pena gravá-la mais uma vez neste ponto. A consideração cuidadosa do alcance dessa distinção seria, por si só, uma defesa, e uma defesa suficiente, contra muitos dos mais graves erros que perturbaram e ainda perturbam a fé do cristianismo. Encontraremos ilustrações disso em abundância. Por ora basta afirmar e defender a própria distinção, tal como ela reina em todo o Novo Testamento. Os ofícios da Segunda e da Terceira Pessoas da Santíssima Trindade na obra da salvação do homem não são separados com mais cuidado do que a única redenção efetuada por aquela é separada da sua aplicação pessoal, que é a esfera desta. O termo soteriologia abrange com propriedade as duas coisas; mas não foi naturalizado nas obras teológicas inglesas e não está livre de certa ambiguidade.
O Espírito Santo. Assim como o Filho encarnado é o Redentor da humanidade em virtude da sua perfeita obra de reconciliação, assim também o Espírito Santo, na sua personalidade divina, é o Administrador dessa redenção. A sua revelação como tal acompanhou passo a passo a revelação do Filho redentor. Na era do Antigo Testamento, ele era a promessa do Pai, assim como o era o Cristo; e, assim como o Cristo prometido já era o Salvador ainda não revelado do mundo, assim também o Espírito era o Dispensador ainda não revelado da sua salvação. O Redentor fez da promessa do Pai a sua própria promessa; e, na sua ascensão, obteve e enviou, como fruto da sua obediência mediadora, o Espírito Santo na sua influência mais abundante, como a Terceira Pessoa da Divindade e o Agente pessoal na realização final do propósito da Trindade mediadora.
Preparações. A personalidade distinta do Espírito Santo não é posta em evidência na Escritura enquanto o ato da expiação não está às vésperas de se completar. Mas a luz das Escrituras posteriores, projetada de volta sobre as anteriores, revela-o como uma Pessoa divina presente e ativa ao longo de toda a economia preparatória. Com a vinda de Cristo, a sua ação se torna mais distinta; e, desse tempo em diante, está intimamente ligada à Pessoa e à obra redentoras do nosso Senhor. A plena revelação, porém, da Pessoa e dos ofícios do Espírito, e da sua relação com a redenção consumada do mundo, não foi dada antes que chegasse plenamente o tempo determinado para a revelação pentecostal da Terceira Pessoa; isto é, antes que o Redentor tivesse terminado a sua obra na terra e subido ao céu.
Antes de Cristo. O Espírito Santo, na sua relação especial com a economia cristã, só foi enviado no Pentecostes. Mas, como a Pessoa da Santíssima Trindade por quem se realiza em ato a revelação que o Pai faz de si mesmo por meio do Filho, seja na criação, seja na providência, seja na redenção, ele esteve presente e atuante desde o princípio: o Administrador da obra do Deus trino e uno em todas as dispensações.
O Doador da vida. 1. O Espírito, como o Filho, mas sem que o seu nome seja ocultado, é revelado em todo o Antigo Testamento como o Agente da Divindade na produção de toda vida, especialmente do espírito vivo do homem. Como que em antecipação do Pentecostes, ele foi desde o princípio O SENHOR E DOADOR DA VIDA; e a palavra de Jó pode ser aplicada, na sua mais ampla extensão, ao homem como tal: O Espírito de Deus me fez (Jó 33.4). O Filho foi desde o princípio a Vida dos homens; mas só na encarnação ele deu essa vida em maior abundância e foi plenamente revelado como A VIDA (Jo 1.4). Essa distinção vale também entre a relação não revelada e a relação revelada do Intermediário pessoal do dom da vida. O mesmo Espírito que se movia sobre as águas (Gn 1.2) foi soprado na face do homem e fez dele um ser vivente (Gn 2.7). E, assim como o Filho era desde o princípio a luz dos homens (Jo 1.4), assim também o Espírito é apresentado como quem se move sobre o homem e contende com ele desde o princípio (Gn 6.3). Como a Segunda Pessoa, ainda não revelada, deu manifestações especiais e misteriosas de si mesma como o Anjo de Jeová, a Palavra do Senhor, assim também a Terceira Pessoa, ainda não revelada, é muitas vezes mencionada como o Agente divino nos dons e nas influências espirituais. Assim, de Bezalel se diz: Eu o enchi do Espírito de Deus (Êx 31.3). E de Moisés (Nm 11.17), de Josué (Nm 27.18), dos juízes (Jz 3.10) e dos primeiros reis (1Sm 16.13-14) se registra que o Espírito os capacitou para o seu ofício. Assim, levando do Novo Testamento para o Antigo a personalidade do Espírito Santo, aprendemos que, em toda a economia antiga, o Eterno não agiu sobre o mundo sem ele.
II, 3232. Mas é especificamente na administração das preparações proféticas do evangelho que se vê essa verdade. A doutrina da Pessoa e da obra do Salvador deixou claro que a revelação do Filho foi mediada pelo Espírito de Cristo que estava nos profetas; que todo o Antigo Testamento, como registro do evangelho antes do Advento, foi dado por inspiração dele; e que ele, não menos que o próprio Filho, era a promessa do Pai (At 1.4).
Os Evangelhos. O Espírito Santo, na história da manifestação e da vida do Senhor na terra, ocupa uma posição intermediária entre o Antigo Testamento e o Pentecostes. Como Administrador da redenção, ele aparece como o Agente efetivo que suscita e envia o Salvador encarnado; e, ao mesmo tempo, é o objeto da profecia do nosso Senhor como o seu futuro Agente na execução da sua obra. Toda referência ao Espírito Santo nos Evangelhos se enquadra num ou noutro desses tópicos.
O Espírito do Encarnado. 1. Quanto ao primeiro, basta recapitular o que já foi estabelecido: primeiro, que a natureza humana do Filho foi produção divina especial do Espírito Santo; e, segundo, que tudo o que, na Pessoa e na obra encarnadas de Jesus, lhe pertence como representante da humanidade está sob a direção do Espírito, ao passo que tudo o que lhe pertence como representante da Divindade é ato do seu próprio Espírito eterno, como Filho. A Terceira Pessoa preside especialmente à relação humilde e subordinada da Segunda Pessoa, como Mediadora, na economia da redenção.
A obra do Redentor. 2. Quanto ao segundo, os registros dos evangelistas fornecem uma série de testemunhos do próprio Salvador acerca A sua promessa anterior. da futura dispensação do Espírito, que culminam nos discursos de despedida e na promessa feita depois da ressurreição.
(1.) Quanto mais o Pai celeste dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem! (Lc 11.13): assim começa a série, com uma declaração livre e ilimitada, que deve lançar a sua graça sobre tudo o que se segue ao longo deste ramo da teologia. Ela é para a administração da redenção o que o Protoevangelho é para a própria redenção: é a aurora do dia de Pentecostes.
II, 324(2.) Isso ele disse a respeito do Espírito que os que nele cressem haviam de receber; pois o Espírito [Santo] até aquele momento não tinha sido dado, porque Jesus ainda não havia sido glorificado (Jo 7.39). Nesta declaração, que é o elo entre as promessas anteriores e as finais, são João, como costuma fazer em ocasiões especiais, explica a palavra do seu Mestre, escrevendo muito depois do Pentecostes. Ela nos ensina que a Pessoa e os dons do Espírito estavam reservados para depois da glorificação do Salvador, e que a plena manifestação de ambos dependia dela. Jesus tinha de ser glorificado pelo Pai antes que o Espírito o glorificasse.
Promessas finais. (3.) Deixando de lado as promessas específicas do Espírito aos apóstolos, tais como se encontram nos sinóticos, temos o mais completo anúncio antecipado, feito por nosso Senhor, da vinda e da função do seu Representante divino. O discurso de despedida é, na verdade, uma revelação da Trindade. Nosso Senhor, partindo de uma declaração da sua própria identidade com o Pai na natureza divina, passa a declarar que o Espírito viria como Pessoa, para estar para sempre com o seu povo (Jo 14.16), como o Revelador de toda a sua verdade e o Guia que habita em todos os crentes. Antes de completar a sua carreira na terra, ele anunciou, como o Batista, a vinda de Outro; mas não acrescentou, como o seu próprio precursor: Convém que ele cresça e que eu diminua (Jo 3.30). O Espírito Santo, embora seja ele mesmo Deus, havia de, na presente economia, apenas glorificar o Filho, revelando a sua Pessoa, ampliando a sua doutrina e administrando o seu reino. E nós somos testemunhas destes fatos, nós e o Espírito Santo (At 5.32).
Pentecostes. Com o Pentecostes começa a dispensação do Espírito. O seu ofício se refere, de modo supremo, à administração de Cristo e da sua redenção. E isso sob três aspectos. Ele é o Revelador do Filho em geral, e da Divindade tal como revelada no Filho. Ele é o Agente do Salvador na dispensação da salvação individual: é uma testemunha em favor dele PARA a alma, é o seu poder divino NA alma, mas as duas coisas numa só. Ele é o representante do Senhor no seu corpo, a Igreja: reúne-a do mundo, governa dentro dela e distribui os dons da sua Cabeça. Mas, embora subordinado na economia mediadora, o Espírito Santo é uma Pessoa divina, o Agente, na unidade do Pai e do Filho, dos seus próprios atos divinos.
II, 325Esse conjunto de temas deve ser apresentado apenas em resumo. Em grande parte, eles já foram antecipados na discussão da Trindade e da Pessoa e dos ofícios de Cristo. Surgem também em discussões separadas ao longo de todo o curso desta parte do nosso assunto: a obra e as influências do Espírito nos vêm ao encontro em toda parte e estão tão presentes em tudo que é quase impossível reduzir o conjunto a um sumário. Mas a honra devida ao Espírito, eternamente bendito, do Pai e do Filho, e as justas exigências do sistema dogmático requerem igualmente que se coloque aqui, em primeiro plano, uma análise geral da ação do Espírito Santo. Pode-se apontar ainda uma terceira razão, que nasce da falta de clareza que tem prevalecido sobre este assunto em grande parte da teologia de épocas antigas e recentes. Quanto ao desenvolvimento antigo da doutrina, já se disse o suficiente ao tratar da Trindade. Quanto às épocas posteriores, não se pode dizer que tenha havido desenvolvimento algum: não houve controvérsia como a que temos de considerar no caso da Pessoa de Cristo, nem se formularam decisões semelhantes. Os ofícios do Espírito Santo foram obscurecidos por exageros acerca da eficácia sacramental; e as suas relações pessoais com o crente foram subestimadas em muitos sistemas. Mas o que for preciso observar sobre esses pontos aparecerá sob os diversos tópicos das suas administrações gerais. Não será necessário nenhum exame histórico à parte.
Economia do Espírito. 1. O Novo Testamento não autoriza a ideia de que com o Pentecostes começou uma dispensação do Espírito no sentido de uma nova economia, ou οἰκονομία, distinta da economia do Pai e do Filho. O que mais se aproxima de tal doutrina encontra-se na exposição que são Paulo faz aos coríntios do contraste entre a forma antiga e a forma nova da única aliança em Cristo. A primeira era um ministério, ou διακονία, da letra, da condenação e da morte (2Co 3.6-11): uma gloriosa manifestação da lei divina, que encerrava o povo da aliança na necessidade e na expectativa de um Salvador que fizesse a expiação. A segunda é um ministério do Espírito, da vida e da justiça: uma manifestação muito mais gloriosa do Senhor redentor, do seu Espírito e da liberdade nele. Ora, esse ministério, do qual os apóstolos eram os ministros, é chamado mais adiante o ministério da reconciliação (2Co 5.18). Assim, a dispensação da Expiação consumada e a dispensação do Espírito são uma só.
II, 326Nova economia. 2. Mas há um sentido em que o Pentecostes introduziu uma nova economia: a do Espírito Santo, como a revelação final da Santíssima Trindade. O Deus único, conhecido no Antigo Testamento como Jeová, Nome comum às três Pessoas, foi então dado a conhecer na Terceira Pessoa: ὁ δὲ Κύριος τὸ Πνεῦμά ἐστιν, o Senhor Pai, o Senhor Filho, é o Senhor, o Espírito (2Co 3.17). Daí a glória do Dia de Pentecostes, que excede em glória toda manifestação anterior do Supremo. A Shekinah, o antigo símbolo da futura encarnação do Filho, que haveria de habitar na carne como num tabernáculo, torna-se o fogo do Espírito Santo, repartido em línguas e pousado, sem véu, sobre a Igreja inteira (At 2.3). O Deus perfeito é perfeitamente revelado; mas revelado na Trindade da redenção, a Trindade econômica. A Igreja é a morada de Deus no Espírito (Ef 2.22). Daquele dia em diante, o Espírito Santo é essencial a toda manifestação de Deus tal como ele se revela entre os homens. Embora continue sendo verdade que o Filho revelou o Pai (Jo 1.18), também é verdade que o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus (1Co 2.10), tanto do Pai como do Filho, e é o principal e primeiro Agente na comunhão entre Deus e o seu povo. Assim como ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11.27), assim também ninguém pode dizer: “Senhor Jesus!”, senão pelo Espírito Santo (1Co 12.3).
Agente de Cristo. Não encontramos no Novo Testamento nenhum termo que autorize diretamente as expressões correntes na teologia acerca do ofício do Espírito Santo como Representante do Redentor. O Senhor não fala dele como seu Sucessor, ou Delegado, ou Agente, ou Administrador. Mas, embora essas palavras não sejam usadas, o que elas significam se depreende claramente do teor dos discursos finais em são João. Estes discorrem amplamente sobre a relação vicária do Espírito em geral; e isso particularmente no que diz respeito tanto à Pessoa como à obra de Cristo.
II, 327Vicário. I. A partida do Salvador convinha, para que o Espírito viesse. Ele era outro Consolador (Jo 14.16), e seria enviado em nome do Redentor: O Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse ensinará a vocês todas as coisas e fará com que se lembrem de tudo o que eu lhes disse (Jo 14.26). Ele é, portanto, o Representante do próprio Cristo no seu ofício profético, como o Mestre e a Verdade; por isso ele é o Espírito da verdade (Jo 14.17). Ele é o Intérprete do mistério da Pessoa de Jesus: Ele me glorificará (Jo 16.14); e ninguém pode dizer: “Senhor Jesus!”, senão pelo Espírito Santo (1Co 12.3). Além disso, a promessa do Consolador é a promessa da presença perene do próprio Senhor: Não deixarei que fiquem órfãos; voltarei para junto de vocês (Jo 14.18). O ensino do Espírito não seria outro senão o ensino de Jesus: trazido de volta à lembrança, exposto e ampliado. Assim como o Filho falava o que ouvia do Pai, assim também o Espírito Santo falaria o que ouve do Filho: Ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que ouvir … vai receber do que é meu e anunciará isso a vocês (Jo 16.13-14). A doutrina da Trindade mediadora, una na essência e distinta no ofício, fornece a explicação: Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso eu disse que o Espírito vai receber do que é meu e anunciar isso a vocês (Jo 16.15). O Espírito de Cristo nos profetas é o Espírito de Cristo nos apóstolos. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas (Ap 2.17) vem depois da ordem de escrever que o evangelista recebeu de Jesus: exemplo singular da identidade na diferença e da diferença na identidade entre o Senhor e o Espírito Santo. Ele é também o Espírito de Cristo em todos os verdadeiros cristãos: vocês têm a unção que vem do Santo e todos têm conhecimento (1Jo 2.20). Ele é o único Vigário de Cristo.
A obra de Cristo. II. A Pessoa e a obra de Jesus são uma só coisa. O Espírito é o Representante do Redentor em geral e nos seus diversos ofícios; na sua relação com o mundo e na sua relação especial com o seu povo. Somente por meio dele o Redentor age como Salvador.
II, 3281. Quando nosso Senhor clamou Está consumado! (Jo 19.30), declarou que a sua obra de expiação estava realizada. Mas estava realizada apenas como provisão para a salvação dos homens. A aplicação do benefício ficou reservada à administração que o Espírito exerce desde o céu; e o ofício único e supremo dele é levar a efeito todos os desígnios do empreendimento redentor. Assim como o Espírito de Cristo (1Pe 1.11) administrara desde a fundação do mundo as preparações evangélicas, assim agora ele age em favor do Cristo plenamente revelado. Por meio dele, nosso Senhor continua o seu ofício profético: o Espírito Santo é o Inspirador das novas Escrituras e o Mestre supremo na nova economia. Por meio dele, o ofício sacerdotal se perpetua em outro sentido: o ministério da reconciliação é um ministério do Espírito (2Co 3.8). E por meio dele o Senhor administra a sua autoridade real.
Diante do mundo. 2. O Espírito representa Cristo diante do mundo. Enquanto o Senhor encarnado ainda não havia sido glorificado, estava limitado a uma só esfera; e, embora tivesse o mundo no coração, os seus pés não corriam tão depressa quanto o seu desejo. Mas agora o Espírito apresenta Jesus e expõe as suas reivindicações a todos os homens. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8-11). O pecado de que ele convence o mundo tem o seu caráter formal na rejeição de Cristo; a justiça de que ele convence o mundo é a justiça consumada do Senhor ausente, como o único fundamento e a única fonte da aceitação humana diante da lei; e o juízo com que ele o ameaça é a separação entre todos os que pertencem ao príncipe deste mundo e os que pertencem a Jesus, o verdadeiro Senhor do mundo. Assim, toda a obra daquele que convence é o Redentor que subiu ao céu ainda pleiteando a sua própria causa.
Diante da Igreja. 3. Ele é o representante de Cristo diante do seu povo. Para eles, ele é o Paráclito: ὁ Παράκλητος, o Advogado, o Ajudador e o Consolador todo-suficiente em nome de Jesus, o nosso outro Παράκλητος no céu (1Jo 2.1). Por meio da ação dele, nosso Senhor está conosco todos os dias até o fim dos tempos (Mt 28.20). Assim como ele disse: Quem vê a mim vê o Pai (Jo 14.9), assim podemos acrescentar que todos os que recebem o seu Espírito recebem a ele: Eu e o meu Espírito SOMOS UM (Jo 10.30). Virá o dia em que ele deixará de ser o Representante de um Senhor ausente. Até lá, a presença do Espírito invisível é a presença real do Redentor na sua Igreja. Quais são as suas várias funções, como Cristo ENTRE nós e Cristo DENTRO de nós, será exposto mais plenamente à medida que avançarmos.
Ofícios na salvação pessoal. Como Intermediário entre o Salvador e a alma individual, o Espírito tem duas classes de ofício: uma mais externa e outra mais interna. E exerce essas funções em relação a duas ordens de homens: os que ainda não estão em Cristo e os que estão unidos a ele pela fé.
Externa. 1. A sua função externa é dar testemunho, ou aplicar a verdade à mente: aos não convertidos, para o convencimento do pecado, o despertar do desejo por Jesus e pela sua salvação e a revelação das promessas da graça ao penitente; ao crente, para a certeza da aceitação, o desdobramento do conhecimento de Cristo, a aplicação das várias promessas da graça e tudo o que pertence à instrução e à direção pessoais que ele dá por meio da Palavra. Essas administrações reaparecerão em pormenor.
Interna. 2. A sua função interna é o exercício do poder divino sobre o coração, ou dentro da alma: nos não convertidos, infundindo a graça do arrependimento e o poder da fé, o que resulta numa conversão interior eficaz; no crente, renovando a alma pela comunicação de uma nova vida espiritual e levando toda a obra da santificação até os seus últimos resultados, como veremos adiante.
Distinção e unidade. 3. Essa distinção governa a fraseologia do Novo Testamento: um grande grupo de passagens se refere às comunicações do Espírito Santo AO espírito, e um grupo igualmente grande às suas operações DENTRO dele. No primeiro caso, ele é antes o administrador das palavras da nova aliança dirigidas ao homem; no segundo, o administrador da graça dessa aliança dentro da sua alma. Mas é evidente que as duas coisas são, na realidade, uma só, especialmente no caso do crente. Quanto aos que estão de fora, os apelos do Espírito podem deixar de penetrar no coração de modo a permanecer nele. Mas, quando a verdadeira fé efetua a união com Cristo, o Consolador é um Espírito que habita no interior: o Paráclito, ou Advogado externo, torna-se uma Presença intercessora interior. As referências bíblicas à distinção e à unidade podem ficar para a exposição pormenorizada da administração do Espírito, mais adiante.
Na Igreja. A administração do Espírito está estreitamente ligada à instituição da Igreja cristã. Também esta terá de ocupar o seu lugar próprio no que se segue. Por ora, é necessário e suficiente indicar a relação que ela tem com os ofícios do Espírito Santo em geral.
Primeiro, o Espírito. 1. É preciso notar a ordem dessa ligação. Não vem primeiro a Igreja e depois o Espírito; ao contrário, o Espírito forma a Igreja como esfera e órgão da sua atuação: distinção que, como se verá, é de grande importância. Há um sentido em que o Redentor preparou o corpo para que o Espírito o habitasse, assim como o Espírito preparou para o Filho de Deus o corpo que ele habitaria. O dia de Pentecostes encontrou os discípulos à espera da Terceira Manifestação da Trindade. Desde então, a Igreja é o corpo de Cristo, animado pelo seu Representante. Mas, no seu crescimento, esse Corpo é reunido do meio do mundo pelo Espírito Santo, cujo ofício geral é a Vocação, que chama os homens para a congregação dos Chamados, a ἐκκλησία, ou Igreja. UBI SPIRITUS IBI ECCLESIA [Onde está o Espírito, aí está a Igreja].
Supremo. 2. Nesse corpo, ele é supremo, como Representante da Santíssima Trindade e de Cristo, Cabeça desse corpo. Desde que terminou o intervalo do interregno, e o pequeno grupo que esperara dez dias sem o Senhor e sem o seu Sucessor ficou cheio do Espírito Santo, ele tem sido, na comunhão cristã, o que Cristo era no meio dos seus discípulos. Ele entregou à guarda dela as novas Escrituras, escritas sob a sua inspiração. Ele chama, consagra e ordena o variado ministério dela. Ele regula e anima todo o culto. Ele distribui os seus vários dons a todas as classes, conforme a sua própria vontade. Ele não é a Cabeça da Igreja, mas o Representante da sua Cabeça.
Seu órgão. 3. Esse corpo é o instrumento da sua atuação em geral. É verdade que ele não está limitado a esse único órgão. Onde está a sua palavra, ali está ele, e essa palavra nunca fica sem a sua influência. E, mesmo além da palavra escrita e além da comunidade visível, ele é uma Presença divina em toda parte. Mas é na congregação de Cristo, na Igreja de Deus, que ele estabeleceu os meios de graça, eficazes nas suas mãos para a conversão dos pecadores, para selar e santificar os santos e para a expansão do reino dos céus sobre a terra. Como Espírito que aplica a obra de Cristo, ele tem por campo o mundo, mas os seus agentes são o seu povo, chamado, eleito e fiel. Essa visão da sua habitação e da sua atuação percorre o Novo Testamento desde o Pentecostes, o dia do Espírito Santo, até a última referência da Escritura, quando o Espírito e a noiva dizem: Vem! (Ap 22.17), unindo-se numa só voz para invocar o Salvador. E é isso que justifica incluirmos a Igreja cristã na divisão da administração da redenção.
Pessoa divina. O que foi afirmado repetidas vezes, direta ou indiretamente, precisa ser enfatizado à guisa de conclusão: que o Espírito Santo, na unidade do Pai e do Filho, é um agente pessoal e divino em todos os seus ofícios. Subordinado na Trindade econômica, e administrando a aliança da redenção que se originou em Deus como Pai e foi ratificada por Deus como Filho, ele é, não obstante, ele mesmo a Plenitude de Deus. Assim como Cristo é essa plenitude CORPORALMENTE (Cl 2.9), o Espírito Santo é essa plenitude ESPIRITUALMENTE. É preciso lembrar isso na interpretação de muitas passagens em que há afirmações aparentemente opostas.
Dentro da Trindade. I. Há um grupo de textos que atribuem à Terceira Pessoa uma relação peculiar com cada uma das outras Pessoas da Trindade; esses textos devem ser sempre relacionados com passagens que contêm predicados da sua Pessoa divina como Sujeito, por assim dizer, independente dessas outras Pessoas. A personalidade e a divindade do Espírito Santo foram discutidas na doutrina da Divindade; o assunto aparece aqui apenas com referência à sua relação mediadora com a economia cristã. Embora creiamos, com a Igreja antiga, que houve, ou melhor, que há uma processão eterna a partir do Pai eterno, a Cabeça da Santíssima Trindade, e a partir do Filho eterno, o Deus unigênito, o que mais nos ocupa nesta seção é a Missão temporal que corresponde, na terra, à Processão eterna no céu.
Pessoa. 1. O Espírito Santo é o Espírito da Primeira Pessoa, que procede do Pai (Jo 15.26) e é dado pela mediação de Jesus; é o Espírito de seu Filho (Gl 4.6), enviado aos que, por meio dele, são filhos; é, em termos gerais, o Espírito de Deus (passim); e é o Espírito de Cristo (1Pe 1.11). Ora, o opositor pode dizer que essas passagens significam simplesmente o modo da operação divina assim descrito, e às vezes até personificado, assim como, nas relações humanas, poderíamos falar do espírito de algum mestre eminente. O caso mais extremo dessa personificação seria, dizem, a referência ao Espírito da verdade (Jo 16.13) como agente pessoal.
II, 3322. Mas com esses textos devem ser relacionadas outras passagens em que ele é chamado o Espírito ou o Espírito Santo (passim), em sentido absoluto, e de tal modo que se distingue tanto do Pai quanto do Filho; e algumas delas em contextos tais que implicam a sua divindade essencial, e não meramente relativa ou subordinada. Quando o Salvador prediz a sua própria partida, fala da necessidade dela para que venha outro Consolador (Jo 14.16); e um estudo cuidadoso do contexto dos discursos finais mostrará que ele não podia estar falando de uma influência personificada. O mesmo se pode dizer do pecado contra o Espírito Santo, que prova tanto a sua personalidade quanto a sua divindade essencial; e, embora aqueles primeiros hipócritas de Atos talvez não tenham cometido esse pecado, eles entraram em acordo para tentar o Espírito do Senhor, para mentir ao Espírito Santo, e não mentiram para os homens, mas para Deus (At 5.3-4, 9). O fato de tão raramente aparecerem passagens em que a Terceira Pessoa é mencionada como Deus deve ser explicado pelo mesmo princípio que explica a afirmação pouco frequente da suprema divindade do Filho: pode-se dizer, com reverência, que o Espírito Santo participa da exinanição e da subordinação da Segunda Pessoa da Trindade mediadora. Mas, na intercomunhão, interação, ou περιχώρησις, da Trindade, ele é, de modo intercambiável, Deus, o Espírito de Deus, o Espírito do Pai, o Espírito do Filho ou, em sentido absoluto, o Espírito Santo.
Dom. II. Há um grande grupo de textos que se referem ao Espírito Santo como dom e influência enviados do alto pela mediação de Cristo e como o resultado mais abrangente dessa mediação.
Símbolos. 1. A grande maioria dos testemunhos da Escritura é dessa ordem. As predições do Antigo Testamento, sejam de símbolo, sejam de promessa, falam do dom futuro como o efeito penetrante do fogo, como água derramada, como vento impetuoso e, em relação especial com o Cristo, como óleo de unção. Esses quatro símbolos fundiram-se no grande Dom pessoal do Pentecostes; mas governam a linguagem de todo o Novo Testamento, desde o batismo com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11) da promessa do Batista até a renovação do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente (Tt 3.5-6). Os símbolos e o seu significado terão de ser examinados mais a fundo adiante, em relação às bênçãos que simbolizam; basta agora indicar o fato de que o Espírito é constantemente apresentado como dom derramado sobre o mundo e dentro do coração dos crentes.
II, 333Fraseologia. 2. Mas é preciso lembrar aqui duas coisas, além do princípio geral, tantas vezes mencionado, de uma subordinação mediadora de Duas Pessoas na Santíssima Trindade.
A Pessoa e o Dom. (1.) A fraseologia usada no Novo Testamento parece distinguir entre a Pessoa e o Dom. A distinção não é constante, mas quase o é, entre τὸ Πνεῦμα τὸ ἅγιον, o Espírito, o Santo, e Πνεῦμα ἅγιον, Espírito Santo: distinção que não pode ser forçada a serviço da dogmática, porque é objeto de controvérsia entre os exegetas gramaticais, mas que, ainda assim, é tão marcada no Novo Testamento que se torna muito sugestiva. A primeira forma é usada por nosso Senhor no seu grande anúncio antecipado, como um augusto apelativo, isolado e acompanhado do complemento de personalidade pronunciado ali pela primeira vez, ἐκεῖνος: O Consolador, O ESPÍRITO, O SANTO . . . esse ensinará (Jo 14.26) [N. do T.: aqui e nas citações de Atos a seguir, Pope traduz o grego ao pé da letra para mostrar o artigo ou a falta dele; a NAA traz sempre “Espírito Santo” com artigo]. Depois, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebam o ESPÍRITO SANTO, πνεῦμα ἅγιον (Jo 20.22). A mesma distinção se encontra literalmente naqueles dois Pentecostes menores, quando primeiro os gentios e depois os remanescentes do ministério de João Batista receberam o grande Dom. Na narrativa do primeiro, o Espírito, o Santo, caiu sobre eles, como também sobre nós, no princípio (At 11.15), segundo a promessa: vocês serão batizados com Espírito Santo (At 11.16). Na do segundo, são Paulo perguntou se, quando creram, eles tinham recebido Espírito Santo (At 19.2); e, quando ele lhes impôs as mãos, o Espírito, o Santo, veio sobre eles (At 19.6). Tampouco falta essa evidência ao Pentecostes propriamente dito. Nos dias de preparação para ele, são Pedro menciona o Espírito, o Santo, que falou pela boca de Davi (At 1.16); no próprio dia, todos ficaram cheios de Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem (At 2.4). Aqui o Espírito pessoal, como Doador, leva o artigo, e, como dom, aparece sem ele. O último versículo citado introduz o uso de omitir o τὸ ἅγιον, o Santo. Sem esse adjetivo, o Espírito aparece sozinho constantemente, quando se trata de atos pessoais. Assim, no Apocalipse: o que o Espírito diz às igrejas (Ap 3.22). Aqui é τὸ Πνεῦμα; mas, logo depois, eu me achei no Espírito (Ap 4.2), ἐν πνεύματι, sem o artigo. Quando o Espírito pessoal na Trindade é mencionado simbolicamente, como o Espírito único, séptuplo ou perfeito, a expressão leva o artigo: τὰ ἑπτὰ πνεύματα τοῦ Θεοῦ, os Sete Espíritos de Deus; o Fogo simbólico do dia de Pentecostes reaparece como sete tochas de fogo, acesas diante do trono (Ap 4.5). Ponderando essa distinção ao longo de todo o Novo Testamento, veremos (sem lhe atribuir importância indevida) que ela nos preserva de cair no erro de reduzir o Espírito Santo a um dom personificado. E, quanto mais a ponderarmos, mais claramente veremos que há uma analogia estrita, impressionante e instrutiva entre as variações que se agrupam em torno do termo Filho e as que se agrupam em torno do termo Espírito. Assim como Um é dado e enviado, também o é o Outro. A mesma lei interpreta a ambos.
II, 334Doador de si mesmo. (2.) Nem sempre se diz que os dons do Espírito são derramados pelo Pai sobre o Filho e, por meio dele, sobre a Igreja; às vezes, são dispensados pelo próprio Espírito Santo. Assim como o Filho é ao mesmo tempo Sacerdote e Sacrifício, o Espírito é ao mesmo tempo Dom e Doador. Uma passagem clássica basta para ilustrar isso: Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. . . . A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando um fim proveitoso. . . . Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas essas coisas, distribuindo-as a cada um, individualmente, conforme ele quer (1Co 12.4-11). O Espírito Santo é aqui uma Pessoa cuja vontade é manifestar-se: ele tem uma manifestação, assim como o Filho tem. E, ao dispensar os dons que concede, ele é ao mesmo tempo o Administrador da Trindade, do mesmo Deus que opera tudo em todos (1Co 12.6), e o Agente pessoal da sua própria vontade.
O chamado do evangelho. O propósito divino de salvar o mundo, realizado em Cristo, é dado a conhecer a todos os homens por meio de uma proclamação que, por conter a livre oferta da graça e a ordem de aceitá-la sob certas condições, é uma Vocação ou Chamado. Por mais profundo que seja o mistério envolvido nesse pensamento, esse chamado tem de ser, em certo sentido, tão universal quanto o benefício da expiação, que abrange a humanidade. Mas ele teve, no mistério da vontade divina, um desenvolvimento histórico. Antes da plenitude dos tempos, procedia por um princípio de eleição ao qual a vocação se seguia; mas, sob a última dispensação, o chamado é tão amplo quanto a pregação do evangelho, e a eleição segue a vocação. Neste sentido do termo, o único de que agora nos ocupamos, o chamado do Espírito é eficaz, visto que, por meio da Palavra, ele torna todos os homens que ouvem essa Palavra conscientes da sua responsabilidade e capazes de obedecer; mas não é irresistível. No caso dos que aceitam a oferta divina, o termo é usado muitas vezes para expressar, de modo geral, o seu estado e os seus privilégios cristãos: dá-lhes uma das suas designações, a de Chamados.
Termos. As três palavras καλεῖν, chamar, κλῆσις, vocação, e κλητός, chamado, referem-se respectivamente a quem chama, ao ato de chamar e ao resultado. A presente seção trata principalmente do ato, e não do resultado, que pertence antes à obra do Espírito nos preliminares da salvação. É evidente, também, que o nosso assunto não deve levar em conta algumas aplicações restritas da palavra: por exemplo, aquelas em que ela se refere ao poder divino que chama à existência as coisas que não existem (Rm 4.17); aquelas em que é usada no sentido de simples designação, como em eu o chamei pelo seu nome (Is 45.4); e, por fim, aquelas em que significa a vocação para um ofício especial, como a vocação do apostolado no caso de são Paulo, chamado para ser apóstolo (Rm 1.1). Embora a distinção não possa ser observada com rigor, devemos limitar o termo, tanto quanto possível, à declaração de Deus acerca do seu propósito de salvação; e, ao fazê-lo, lembrar que estamos tratando de um assunto que, no presente, está envolto em mistério impenetrável.
Redenção universal. O chamado divino baseia-se no conselho divino para a salvação da humanidade. Isso envolve dois postulados importantes. Exige, primeiro, que creiamos na universalidade do chamado, sejam quais forem as dificuldades que essa fé venha a encontrar; e, segundo, prepara-nos para esperar que o chamado, como o propósito da redenção, seja gradualmente manifestado a todos os homens.
Para todos os homens. 1. A Escritura estabelece, como vimos, o fato de que o propósito eterno da redenção abrangeu o conjunto inteiro da humanidade. Deus amou o mundo de tal maneira (Jo 3.16) que deseja que todos sejam salvos (1Tm 2.4). Mas daí à declaração universal da sua vontade no seu Filho há apenas um passo, e um passo necessário. O Criador amou o mundo antes de declarar o seu amor em Cristo; declarou a sua vontade de salvar a todos, e essa vontade está ligada à verdade fundamental de que, assim como há um só Deus, também há um só Mediador entre Deus e a humanidade, e esse Mediador é Cristo Jesus, homem (1Tm 2.5), o Representante da humanidade. Aquilo que são Paulo, na sua última palavra sobre o assunto, chama a Filantropia, ou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor por todos (Tt 3.4), pelo ser humano enquanto tal, se manifestou no evangelho, como nada menos que um amor universal por toda a raça: a palavra φιλανθρωπία é o argumento mais claro e mais forte em favor da universalidade da salvação provida. Ora, sejam quais forem as dificuldades que surjam para confundir as nossas faculdades finitas, somos obrigados a crer que o mundo inteiro, direta ou indiretamente, mais cedo ou mais tarde, há de receber as boas-novas do evangelho.
Gradual. 2. Assim como aprouve a Deus tornar gradual a revelação do seu propósito, era de esperar que a proclamação da sua misericórdia, em conformidade com esse propósito, também fosse gradual. De fato, as duas coisas são uma só, e aparecem unidas em muitas passagens. O seu anúncio lento, parcial e progressivo está ligado ao desenvolvimento gradual do próprio desígnio da salvação. Aqui se podem notar duas coisas. A lei da economia divina, segundo a qual a educação da humanidade caída tem sido conduzida por um desenvolvimento da verdade e pelo desdobramento ordenado de um único grande sistema mediador, não admite exceção a ela nem apelação contra ela. Mas o progresso gradual e lento do chamado se refere apenas à proclamação externa. Só Deus conhece as comunicações internas que ele mantém com o espírito dos homens.
Chamados históricos. O chamado divino, acompanhando o desdobramento do propósito redentor, é, com referência a toda a humanidade e à parte da revelação, geral e indireto: dá-se na influência universal do Espírito sobre o espírito caído dos homens e na direção providencial que ele dá às nações. O chamado direto por meio da Palavra tem sido duplo: primeiro, durante as eras de preparação, foi dirigido ao povo da antiga aliança e da eleição; segundo, em Cristo Jesus, é o chamado do evangelho propriamente dito, dirigido a toda a humanidade e conduzindo à eleição dos que creem.
Chamado indireto. O chamado universal, Vocatio Catholica, é aquele pelo qual o Espírito Santo tem se movido sobre o caos das nações por meio de uma influência secreta, à qual o termo chamado só se aplica impropriamente. Seja qual for o nome que se lhe dê, porém, não pode haver dúvida de que o mundo tem estado, desde o princípio, sob a atração secreta e misteriosa da graça, além e acima da Luz interior que ilumina todo homem que vem ao mundo (Jo 1.9) [N. do T.: a NAA traz “a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina toda a humanidade”; Pope segue a KJV, em que é “todo homem” que vem ao mundo].
Espírito universal. 1. A influência do Espírito Santo, dom da redenção à raça caída, não deve ser limitada. Temos indicações, nas Escrituras mais antigas, de que o Espírito contendia COM O SER HUMANO (Gn 6.3) [N. do T.: a NAA traz “O meu Espírito não agirá para sempre no ser humano”]; em todo o Antigo Testamento, os rebeldes contristaram o seu Espírito Santo (Is 63.10); e, embora esse fosse o pecado especial do povo antigo, devemos supor que ele foi o segredo da impiedade incipiente do mundo em geral. No Novo Testamento, somos informados de que os gentios, universalmente, tinham a lei de Deus gravada no seu coração (Rm 2.15); e certamente nunca houve senso universal da verdade senão como fruto da influência daquele que é o Espírito da verdade (Jo 16.13). Em todas as épocas, ele LHES MANIFESTOU (Rm 1.19).
II, 338Tradição. 2. A revelação primitiva, dada ao mundo antes da primeira dispersão dos seus habitantes, foi uma voz que se espalhou por toda a terra (Rm 10.18), saindo da casa de Adão e, depois, da de Noé. E, por mais pervertidas que se tenham tornado as tradições da verdade primeva, elas foram, em certo sentido, um apelo constante ao mundo para que se lembrasse do seu Criador nos dias da sua mocidade. Do mesmo modo (e isso pode ser mencionado à guisa de analogia), a apresentação mais corrompida do evangelho, nas eras mais escuras da cristandade, levava consigo a palavra da vida.
Direção providencial. 3. Além disso, são Paulo, num dos poucos discursos iniciais aos gentios que ficaram registrados, fala-nos do chamado providencial de Deus a todas as nações: Contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo (At 14.17). Não sabemos como esse pregador católico [universal] de um cristianismo católico discorreu sobre esse tema em outras ocasiões. Mas essas palavras têm um sentido amplo; e, se compararmos o pregador de Atos com o mestre que escreveu aos romanos, concluiremos que o apóstolo dos gentios glorificou o seu ministério também nesse sentido.
Chamado direto. A história da vocação do evangelho, enquanto direta por meio da Palavra, divide-se na Escritura em dois ramos. No Antigo Testamento, limitou-se a uma raça, primeiro eleita e depois chamada; no Novo Testamento, dirige-se universalmente a todos os homens, primeiro chamados e depois eleitos: distinção de grande importância.
Antigo Testamento. I. A Vocação de Abraão é o ponto central da Eleição da antiga aliança. Mas ela olha para trás, para um desenvolvimento histórico anterior do princípio, e olha para a frente, para a sua consumação e transformação no evangelho.
O tipo mais antigo. 1. Nos dois filhos dos nossos primeiros pais, a separação do povo de Deus teve o seu primeiro tipo; e o Dilúvio, na salvação de uma só família, foi o segundo. Entre os filhos de Noé, Deus fez uma diferença que não dependia inteiramente dos atos pessoais de cada um; e a vocação especial seguiu-se a uma eleição especial. Pois, embora o trato de Deus com as duas classes, respectivamente, levasse em conta o seu caráter moral, especialmente no que diz respeito aos personagens principais, como Sem e Noé, não podemos deixar de discernir uma eleição direta e soberana dos povos e nações que haveriam de levar adiante o seu desígnio central.
II, 339Abraão. 2. O chamado de Abraão foi a escolha de um povo da aliança. Com ele começou especificamente essa eleição especial, nacional ou de raça. As palavras de Jeová aos filhos de Israel, toda a família que ele tirou da terra do Egito: De todas as famílias da terra, somente a vocês eu escolhi (Am 3.1-2), são a expressão mais forte desse fato. Essa eleição, como no Novo Testamento, é adoção: Israel é meu filho, meu primogênito (Êx 4.22). Por isso o povo assim distinguido era o seu povo próprio (Dt 14.2). O pensamento tem uma ilustração notável nas palavras do profeta acerca da nação escolhida que servia de tipo: Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho (Os 11.1); aqui a eleição é seguida pela vocação e pela adoção.
Eleição e adoção. 3. Por todo o desenvolvimento da eleição do Antigo Testamento corre o mistério de um propósito divino de sabedoria insondável; ao contemplá-lo, porém, é preciso lembrar duas coisas: primeiro, que essa escolha nunca deixou inteiramente de levar em conta o caráter moral dos seus objetos; e, segundo, que sempre esteve ligada a uma profecia de um chamado universal no evangelho. Embora o Deus Supremo usasse ocasionalmente a instrumentalidade dos ímpios, levou adiante os grandes propósitos da sua graça por meio de homens que responderam ao seu chamado interno e eram agentes moralmente aptos da sua vontade. Abel, Noé e Abraão são exemplos disso; e Jacó não é exceção. É verdade que os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis (Rm 11.29); e que, tendo escolhido uma linhagem da qual o seu Filho haveria de surgir, ele não alterou o seu propósito por causa de muita infidelidade da parte do povo eleito. Mas também é verdade que os personagens principais sobre os quais recaiu a eleição absoluta estavam entre os maiores santos da história. Além disso, no governo do povo da sua eleição especial, Deus foi um Deus zeloso; e muitas vezes castigou esse povo por meio dos próprios pagãos que ele havia preterido em favor dele. Acima de tudo, nunca deixou de lhes fazer saber que eram apenas a eleição temporária do seu conselho, e que o seu nome um dia seria grande entre as nações (Ml 1.11). Mas, feitas todas as ressalvas, o profundo mistério permanece sem ser tirado, e nem na dispensação mais universal do evangelho ele é removido de todo.
II, 340O evangelho. II. O chamado direto do evangelho depois da vinda de Cristo, ou melhor, depois do Dia de Pentecostes, distingue-se do chamado do Antigo Testamento por não ser nacional e por preceder a eleição. Mas isso nos leva adiante, à natureza da própria vocação.
O chamado. O chamado do evangelho é a oferta universal da salvação e a ordem de submeter-se ao Autor dela; é proclamado pelo Espírito por meio da Palavra confiada à guarda e ao ministério da Igreja cristã; contém as boas-novas do propósito sincero de Deus para com cada indivíduo da humanidade; é eficaz, pela graça do Espírito, em todos os que se rendem; mas declara-se que não é irresistível, e de fato é resistido, e até finalmente resistido, pela incredulidade.
Sua natureza tríplice. O chamado é a PROCLAMAÇÃO da redenção realizada por Cristo, a OFERTA das suas bênçãos sob certas condições e a ORDEM de submeter-se à autoridade de Cristo, o Mediador dessas bênçãos. Essas três coisas são uma só na embaixada da Nova Aliança; e o evangelho não é plenamente pregado a menos que se dê igual destaque a todas elas. O modelo dessa pregação se encontra em Atos dos Apóstolos, onde são Pedro e são Paulo aparecem como os exemplos principais. A Proclamação, a Oferta e a Ordem têm de estar unidas em toda verdadeira transmissão do chamado do evangelho, assim como estão invariavelmente unidas nos exemplos originais. O primeiro som dessa vocação termina com uma nota como esta: E nós somos testemunhas destes fatos, nós e o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem (At 5.32). Aqui estão os três elementos que destacamos: o testemunho dado, as condições prescritas e a submissão exigida. O primeiro sermão registrado de são Paulo contém todos eles com igual precisão: Saibam…; … todo o que crê…; … Portanto, tenham cuidado! (At 13.38-40). Se não houvesse nenhuma teoria a servir, seria preciso admitir que o chamado do evangelho é um testemunho, dado a cada um, de uma bênção oferecida em condições abertas a todos e reforçada por uma ordem de submeter-se à autoridade mediadora daquele que foi levantado para dispensá-la. O NOME é pregado como testemunho da salvação, como objeto da fé e como a autoridade à qual se deve submissão universal.
A vocação. A segunda proposição contém três pontos: o Espírito é o agente do chamado; o chamado está ligado à Palavra; e essa Palavra está ordinariamente confiada ao ministério da Igreja cristã. A doutrina da vocação do evangelho exige um ajuste cuidadoso das relações entre esses três pontos.
O Espírito. I. De modo geral, aquele que chama é Deus, embora não especificamente como o Pai: proclamamos a vocês o evangelho de Deus (expressão que raramente ocorre), que os chama para o seu Reino e a sua glória (1Ts 2.9-12). Também Cristo, embora só enquanto estava na terra, declara: não vim chamar justos, e sim pecadores (Mt 9.13). O Espírito Santo é agora, de modo permanente, a manifestação do Deus da vocação do evangelho: O Espírito e a noiva dizem: Vem! (Ap 22.17), onde o convite aos pecadores vem em seguida à invocação dirigida ao próprio Senhor para que volte. Ele é o Pregador ao mundo em nome de Cristo: esse dará testemunho de mim (Jo 15.26). Mas isso na unidade do Autor trino e uno da redenção: Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso eu disse que o Espírito vai receber do que é meu e anunciar isso a vocês (Jo 16.15).
A Palavra. II. O chamado do evangelho se dá ordinariamente por meio da Palavra. Mas a Palavra é tanto a letra quanto a substância da letra: as duas estão unidas no instrumento que o Espírito Santo emprega.
1. São Paulo diz que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo (Rm 10.17), e evidentemente se refere à doutrina pregada: o conjunto das verdades segundo é a verdade em Jesus (Ef 4.21). Que se trata da proclamação do evangelho parece óbvio pela ligação dessa palavra com o que vem antes: E como ouvirão, se não há quem pregue? (Rm 10.14). Mas há uma verdade substancial da qual a Palavra escrita ou falada é apenas o veículo. Por isso o apóstolo acrescenta: É claro que sim! A voz deles se espalhou por toda a terra, e as palavras deles alcançaram os confins do mundo (Rm 10.18). E a passagem original do profeta prova que há uma voz da vontade de Deus que não está em linguagem escrita: revelei-me aos que não perguntavam por mim (Is 65.1) [N. do T.: Pope cita Isaías com as palavras de Rm 10.20; em Is 65.1 a NAA traz “Fui buscado pelos que não perguntavam por mim”]. Nesse sentido, pode haver uma Palavra sem palavra alguma (1Pe 3.1).
II, 342A Palavra não escrita. 2. Ora, o chamado por meio do evangelho não se limita nem ao anúncio oral nem ao escrito. É uma voz silenciosa e eficaz que acompanha a verdade, onde quer que a verdade esteja. O Espírito Santo é a Vida da doutrina, que é a letra; e com toda a certeza a letra nunca está sem o Espírito que a acompanha. A letra não é só escrita; pode haver também uma letra falada. Onde quer que a verdade seja declarada em nome de Jesus, ela é o instrumento da energia dele. Mas o Espírito não depende nem da letra escrita nem da letra falada como tais. É a verdade que ele usa como seu instrumento. Ele é o Espírito da verdade (Jo 16.13).
A Igreja. III. A relação da Igreja com a eficácia do Espírito por meio da Palavra é posta em destaque em todo o Novo Testamento. O Salvador deu a sua comissão aos apóstolos que tinha escolhido (At 1.2). Declarou que a autoridade deles vinha dele mesmo e era o reflexo ou a continuação da sua própria: Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês (Jo 20.21). A extensão da comissão deles é todas as nações (Mt 28.19); e o conteúdo da vocação é a pregação do evangelho a toda criatura (Mc 16.15). Esses apóstolos, a quem o Senhor deu mandamentos, deram por sua vez mandamentos, por meio do Espírito Santo (At 1.2), aos seus sucessores, como responsáveis por pregar esse evangelho até o fim dos tempos. Mas o chamado está confiado, na realidade, à Igreja num sentido mais amplo do que esse: todos os que recebem as boas-novas devem dar de graça, assim como de graça receberam. Lemos em Atos que os discípulos iam por toda parte pregando a palavra. E a última palavra da Escritura sobre o assunto é: O Espírito e a noiva dizem: Vem! (Ap 22.17), onde a comunhão mística é representada unindo-se ao Espírito para suplicar ao Salvador que venha ao seu povo e para suplicar a todos os que têm sede que venham a ele. Essa verdade geral pode ser desdobrada ainda mais: ela aponta para o mistério da lei divina da vocação, imprime profundamente a responsabilidade da Igreja e traz em si a profecia de que por fim o evangelho será proclamado a todos os homens.
II, 343Ação humana. 1. Em todas as épocas, a obra do Espírito na expansão do Reino de Deus esteve ligada à ação humana. Na antiga economia, indivíduos se destacaram em cada uma das suas dispensações, ensinando a vontade dele, proferindo as suas palavras proféticas e levando adiante a sua obra em geral. A história da revelação antiga está ligada a uma série de homens eminentes; e não só indivíduos, mas a própria nação da aliança foi eleita e chamada para pregar, em certo sentido, ao mundo de fora o Reino dele, presente e vindouro. A dispensação cristã não introduziu nenhuma lei nova: apenas ampliou a aplicação da lei que vigorava desde o princípio. Assim como o Homem foi assumido na Divindade para ser aquele que obtém a redenção, assim também esse Homem, que é Deus, usa os seus irmãos para a difusão da sua graça.
Fidelidade da Igreja. 2. Não há fato mais certo, e ao mesmo tempo não há mistério mais profundo, do que a ligação entre a fidelidade da Igreja e a expansão do Reino de Cristo. O chamado é ouvido onde a Igreja o envia; mas, onde os mensageiros não são enviados dentre os homens, não há anjos tendo um evangelho eterno para pregar (Ap 14.6). E como ouvirão, se não há quem pregue? (Rm 10.14) era uma pergunta que poderia deixar tudo às disposições secretas de uma graça arbitrária. Mas ela é seguida de outra, que deixa a responsabilidade com a Igreja viva: E como pregarão, se não forem enviados? (Rm 10.15). Não que o Espírito Santo esteja, ou jamais tenha estado, absolutamente preso à instrumentalidade humana. O orvalho da sua graça não espera pelo homem, nem depende dos filhos de homens (Mq 5.7); mas a expansão gradual e lenta da pregação do evangelho mostra com toda a clareza que a energia da Igreja tem muito que ver com o prazo da consumação final. Nosso Senhor tem de reinar até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés (1Co 15.25); mas ele não aguarda nenhum tempo fixado à parte do cumprimento da missão da sua Igreja. Embora não ousemos limitar a operação da graça à esfera da pregação missionária, não conhecemos nenhum cristianismo que não seja estabelecido pelos sucessores dos apóstolos. Por isso convém recorrer a um duplo chamado (não tão desonroso para as perfeições divinas quanto o externo e o interno, o primeiro apoiado numa vontade oficial do céu, por assim dizer, e o segundo no sentimento particular do nosso Pai celestial): um que é aberto e conhecido e outro que é oculto e desconhecido. Há um chamado secreto no qual, de modo geral, o homem não é cooperante: chamado que, como o sol, estende a sua influência aos maus e aos bons.
II, 344Universal. 3. Nada é mais certo na profecia do que isto: a vocação do evangelho, no seu sentido mais estrito, há de ser universal. Tanto o Antigo Testamento quanto o Novo concorrem para apresentar uma perspectiva em que será pregado este evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações (Mt 24.14).
Vocatio seria. Podemos passar com mais confiança à terceira proposição. O chamado do evangelho contém o propósito sincero de Deus de salvar todo homem que o ouve.
A priori. 1. Aqui, se em algum lugar, é válido o modo de argumentar a priori [anterior à experiência]. Por mais que se disfarce a afirmação contrária, ela implica desonra à verdade e à fidelidade de Deus. Muitos mistérios se aglomeram em torno do assunto, e diante deles a nossa razão tem de curvar-se; mas o mistério supérfluo que faz o justo Juiz proferir as graciosas ofertas da sua misericórdia com uma reserva secreta é um mistério diante do qual recua todo sentimento da nossa reverência e da nossa caridade. O ensino que acha necessário distinguir entre um chamado oficial para todos os homens e um chamado eficaz para os eleitos condena a si mesmo.
Escritura. 2. Não precisamos defender a honra de Deus: basta interpretar as suas palavras. As palavras de nosso Senhor deveriam bastar: Obrigue todos a entrar! (Lc 14.23), ilustradas como são pela sua tristeza por Jerusalém: Quantas vezes eu quis…! Mas vocês não quiseram! (Mt 23.37). E a vontade de nosso Senhor é a vontade de Deus, que deseja que todos sejam salvos (1Tm 2.4), e que no Antigo Testamento disse: não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva (Ez 33.11). No Novo Testamento, o evangelho é a manifestação da bondade de Deus, nosso Salvador, e do seu amor por TODOS (Tt 3.4), ou da sua filantropia.
Todo mandamento com promessa. 3. Um chamado assim genuíno implica que a oferta da salvação vem sempre acompanhada de graça suficiente para que seja aceita. Isso já foi visto em relação à Palavra e será considerado de novo no próximo tópico, o da graça preliminar. Por ora, não há necessidade de argumentação; nem é necessário nenhum texto específico. Todo mandamento divino é virtualmente um mandamento com promessa: com promessa não só de bênção que se segue à obediência, mas de graça que a precede. O evangelho de Cristo é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). Por designação especial e vontade de Deus, a Palavra tem graça ligada a ela, suficiente para todo propósito para o qual é enviada. Assim foi dito antigamente: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz (Is 55.11).
Os eleitos. Os que aceitam o chamado divino por meio da Palavra são, na linguagem da Escritura, os eleitos. E ambos os termos, vocação e eleição, ou os chamados e os eleitos, são às vezes usados para designar o estado cristão como tal.
Vocação eficaz. 1. De uma vocatio interna, distinta da vocatio externa, não há vestígio na Escritura: VOCAÇÃO INTERNA e VOCAÇÃO EFICAZ são expressões que nunca aparecem. A distinção implica uma diferença tal que teria sido claramente declarada se existisse; e tudo o que se quer dizer com o chamado interno encontra expressão, como veremos, em outros ofícios do Espírito Santo, os de iluminação, convencimento e conversão. Cada um desses termos traz o sentido de uma convocação externa tornada eficaz pela graça interior; mas nunca no sentido de que a graça interior suficiente seja negada a quem quer que seja. Pode-se dizer que a verdadeira vocação interna é a eleição em sentido estrito. Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos (Mt 20.16) [N. do T.: na NAA estas palavras estão só em Mt 22.14; em Mt 20.16 aparecem na KJV, seguida por Pope]. Isso declara um fato que o Salvador lamenta. Eu os escolhi do mundo (Jo 15.19). Isso declara um fato com que o Salvador se alegra. O termo, porém, é usado em algumas passagens com a mesma aplicação ampla que o termo chamado: por exemplo, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios (1Co 1.27) e Não é fato que eu escolhi vocês, os doze? (Jo 6.70). Portanto, embora a primeira palavra do nosso Salvador estabeleça a distinção, e tenhamos fundamento para dizer que a eleição é o resultado da aceitação do chamado, devemos lembrar que o Novo Testamento muitas vezes usa os termos indistintamente. A eleição sempre pressupõe o chamado; mas o chamado nem sempre resulta em eleição.
II, 346Os chamados. 2. A aceitação do chamado e a eleição que dela decorre são ambas usadas, por metonímia, para designar o estado dos cristãos, dos quais se presume, segundo a sua profissão, que estão na graça de Deus. São os que foram chamados para pertencerem a Jesus Cristo… amados de Deus…, chamados para ser santos, ou chamados santos (Rm 1.6-7). Os cristãos são santos por designação, assim como por caráter interior; e são chamados por designação, como quem aceitou o apelo externo. Assim também são os eleitos, como separados do mundo tanto exterior quanto interiormente. São Pedro escreve a sua epístola católica aos eleitos… segundo a presciência de Deus Pai (1Pe 1.1-2), a quem chama geração eleita (1Pe 2.9). São Paulo fala da fé que é dos eleitos de Deus (Tt 1.1); e são João, da sua irmã eleita (2Jo 13). A expressão a eleição é usada para o conjunto dos escolhidos de Deus entre os judeus (Rm 11.7); mas agora não é usada, de modo geral, para todos os cristãos. Os eleitos de Deus (Rm 8.33; Cl 3.12) são os que pertencem à família da fé. A alusão predominante na Palavra é ao caráter coletivo da Igreja, que tomou o lugar da nação privilegiada; e isso governa o uso do termo em toda parte, exatamente como a denominação de santificados ou santos. Os cristãos são, em contraposição ao antigo povo, a eleição da graça (Rm 11.5) reunida do mundo; são os santificados, como separados para Deus em lugar dele. A palavra Igreja, ou Ecclesia, significa literalmente o mesmo que os chamados e os eleitos: exprime o resultado daquilo que a eleição significa enquanto está no propósito de Deus.
Resistível. O chamado do evangelho pode ser resistido, e resistido finalmente; até a eleição ligada a ele pode, depois da obediência, ser perdida; e, em relação a ambas as classes de desobedientes, usa-se o termo reprovação, embora nunca como resultado de um decreto fixo.
1. Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos (Mt 20.16). Essa palavra suficiente, que deveria pôr fim a toda controvérsia, é explicada pelo próprio Senhor: vocês não querem vir a mim (Jo 5.40). Não há nada que as Escrituras antigas e as posteriores declarem com mais constância e coerência do que o poder que o homem tem de opor-se, e de opor-se com êxito, à influência da graça: Vocês sempre resistem ao Espírito Santo! (At 7.51). Certamente é desonroso para o nome de Deus supor que ele lançaria à conta dos pecadores uma resistência que para eles era uma necessidade, e que se queixaria de ultraje ao seu Espírito, cujas influências só teriam sido exercidas em parte.
II, 347A eleição não é inviolável. 2. Há passagens da Escritura que indicam que as bênçãos da própria eleição podem ser perdidas: essa palavra sagrada não está resguardada, nem a sua graça especial é inviolável. Judas era um dos eleitos: Não é fato que eu escolhi vocês, os doze? Mas um de vocês é um diabo (Jo 6.70). Quando nosso Senhor fala de os próprios eleitos serem enganados, se possível (Mt 24.24), não dá a entender que, no caso deles, fosse impossível o engano que leva à apostasia. Embora as palavras possam parecer ter esse sentido, temos de interpretá-las de outro modo. Pois no começo do discurso ele tinha dito: Tenham cuidado para que ninguém os engane! (Mt 24.4); e, no fim: Aquele que ficar firme até o fim, esse será salvo (Mt 24.13). São Pedro, cujas epístolas se detêm muito nos privilégios da eleição, não conta entre esses privilégios a segurança contra a queda: pelo contrário, manda os seus leitores procurarem, com empenho cada vez maior, confirmar a vocação e a eleição de vocês; porque, fazendo assim, vocês jamais cairão (2Pe 1.10) [N. do T.: a NAA traz “jamais tropeçarão”; Pope segue a KJV, “ye shall never fall”, e é na queda que o argumento se apoia].
Reprovação. 3. Por último, a Palavra de Deus fala da possível reprovação dessas duas classes, os chamados e os eleitos, mas não fala da reprovação de nenhuma outra. A vocação da Palavra é uma prova misteriosa do estado deles diante de Deus e da verdade; e eles não suportaram essa prova. São ἀδοκιμοί [reprovados]. (1.) Os chamados que resistem são reprovados: Deus os entregou a um modo de pensar reprovável, a eles, que haviam desprezado o conhecimento de Deus (Rm 1.28). Os que resistem à verdade são os reprovados quanto à fé (2Tm 3.8). (2.) São Paulo fala da possibilidade de os santos serem reprovados: Ou não reconhecem que Jesus Cristo está em vocês? A não ser que já tenham sido reprovados (2Co 13.5). Quando lemos a respeito da marca final dos chamados, eleitos e fiéis (Ap 17.14), aprendemos que o fim ainda não chegou quando os chamados são também eleitos. Resta a terceira palavra da grande sentença: Os únicos ἀδοκιμοί. a fidelidade tem de selar a graça eterna da eleição. (3.) Em todas as Escrituras de misericórdia e verdade não há reprovação como coisa fixada no decreto de Deus. A ideia é incompatível com tudo, exceto com uma provação e um fracasso voluntário na provação.
Histórico. Podem-se fazer algumas observações sobre a polêmica desta questão, limitadas ao ramo dela que diz respeito à vocação e à eleição. É principalmente com a perversão da ideia de predestinação que temos de lidar.
O Novo Testamento. I. No próprio Novo Testamento há uma notável antecipação da controvérsia moderna. A pregação do evangelho aos gentios foi recebida com ressentimento pelos cristãos judeus, especialmente pelos de certo partido, como uma invasão dos privilégios, ou vantagens, do povo da aliança enquanto eleito de Deus. Não havia palavra que eles desaprovassem mais do que esta de são Paulo: eis que nos voltamos para os gentios (At 13.46). Na sua Epístola aos Romanos, o apóstolo dos gentios argumenta contra esses defensores de uma eleição incondicional, os primeiros deturpadores da verdadeira doutrina da vontade decretiva de Deus. É preciso lembrar sempre que foi esse o objetivo com que ele escreveu os três capítulos (Rm 9-11) em que os predestinacionistas se refugiaram: na verdade, foram escritos como uma refutação antecipada de tais opiniões. A exegese específica de que depende a defesa dessa afirmação não é necessária aqui. Basta dizer que são Paulo admite, como já vimos, que a antiga eleição era a de uma linhagem particular, pela qual devia ser transmitida a revelação do evangelho preparatório e na qual devia aparecer o Autor desse evangelho. Sem dúvida, é difícil para a razão humana distinguir entre a eleição nacional e a individual, e entre a vontade ativa e a vontade permissiva de Deus no endurecimento dos maus; mas a distinção tem de ser feita. Passagens como Logo, Deus tem misericórdia de quem quer (Rm 9.18), de um lado, e os vasos de ira, preparados para a destruição (Rm 9.22), de outro, não devem ser entendidas como predeterminação absoluta de indivíduos para serem salvos ou perdidos. A comparação do oleiro e do barro, tal como aparece mais plenamente em Jeremias, termina com uma refutação direta dessa noção: ali se diz que os decretos de Deus mudam conforme o caráter dos homens. Casa de Israel, será que não posso fazer com vocês como fez esse oleiro?, diz o Senhor. No momento em que eu falar a respeito de uma nação ou de um reino para o arrancar, derrubar e destruir, se essa nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu mudarei de ideia a respeito do mal que pensava fazer-lhe (Jr 18.6-8). Todo o argumento de são Paulo visa mostrar que a eleição de Israel como nação não tinha falhado: ela era não por obras, mas por aquele que chama (Rm 9.11). Os três capítulos, estudados com cuidado, levam a conclusões favoráveis a uma eleição nacional, mas não a uma eleição individual, especialmente quando relacionados com o capítulo intermediário, em que temos o glorioso protesto do apóstolo contra a perversão do seu ensino: o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” … Quanto a Israel, porém, diz: “Todo o dia estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde.” (Rm 10.12-13, 21).
II, 349A Igreja primitiva. II. Toda a comunidade cristã, até o tempo de Agostinho, não conheceu na sua doutrina outra eleição e predestinação senão a condicional, ou, o que dá no mesmo, nenhuma que não se referisse ao Corpo ideal de Cristo como tal. A tendência dos orientais, especialmente, era dar ênfase demais, e não de menos, à presciência do arrependimento e da fé humanos. Diz Crisóstomo: “Não só do amor, mas também da nossa virtude. Se procedesse só do amor, todos teriam sido salvos. Se só da nossa virtude, isso seria pouco, e todos estariam perdidos. Não procedeu de nenhum dos dois isoladamente, mas de ambos: pois o chamado não se deu por necessidade nem pela força.” Essa frase representa o sentimento da Igreja grega desde Orígenes até Atanásio, e mesmo até João Damasceno, o último dos Pais orientais propriamente ditos. Havia uma inclinação decidida para exagerar a liberdade da vontade humana; pelo menos, a doutrina deles não estava suficientemente protegida por alguma referência à influência sempre ativa do Espírito Santo sobre a nossa natureza caída. Mas, quaisquer que fossem as suas noções teóricas sobre a universalidade da vocação do evangelho, o seu zelo missionário declinou depois do século IX, e eles pouco contribuíram para a evangelização do mundo.
Agostinho. III. Agostinho foi o primeiro a estabelecer o princípio de que “a predestinação é a preparação da graça; a graça, a própria concessão”.
Pecado original. 1. O fundamento de todo o seu sistema é a sua doutrina do pecado original, que considera toda a humanidade inteiramente privada de capacidade para o bem: uma “massa de perdição”, uma “massa condenada”. Por isso, a salvação é absolutamente pela graça e sem cooperação humana. A esse grande princípio não pode haver objeção. A natureza não pode expulsar a natureza; e a queda humana foi uma queda numa impotência total. Mas Agostinho esqueceu que o primeiro benefício da redenção tinha a mesma extensão que a ruína do homem. Talvez, de fato, ele sustentasse isso, mas num sentido próprio. Esse benefício era, no seu ensino, uma influência desperdiçada e inútil, exceto para os eleitos. Ensinava que o decreto eterno divino determinou o número exato daqueles a quem será dada a graça eficaz, que inclui uma graça irresistível para o começo e a graça da perseverança para o fim. Só por estes se pode dizer que o Redentor morreu: “Todo aquele que foi redimido pelo sangue de Cristo é homem, embora nem todo aquele que é homem tenha sido redimido pelo sangue de Cristo.” “O Salvador redimiu os pecadores que haviam de ser justificados” e “Não perece ninguém por quem o Salvador morreu”.
II, 350Predestinação e chamado. 2. Algumas das dificuldades ligadas ao chamado do evangelho nessa doutrina foram resolvidas sumariamente por Agostinho, mas só à custa de renunciar ao princípio de uma vida de regeneração inextinguível, que os seus seguidores hoje sustentam com tanta firmeza. Todos os que ouvem e recebem o evangelho e são batizados recebem a graça regeneradora e são colocados num estado de salvação: isso explica a oferta universal do evangelho e a administração igualmente universal do sacramento. Mas só aos eleitos é concedido o dom da perseverança, e os destinatários do Donum Perseverantiæ só Deus os conhece: isso protege a doutrina do decreto eterno. “Os que caem não devem ser contados no número dos eleitos, nem mesmo quanto ao tempo em que viveram piedosamente. Há filhos de Deus que ainda não o são para nós, mas o são para Deus; e há, por outro lado, alguns que são chamados por nós filhos de Deus por causa da graça recebida temporariamente, mas não o são por ele.” Outras dificuldades Agostinho não tenta resolver. Sobre o decreto oculto, nada mais tem a dizer senão que “Deus fez separação entre a luz e as trevas; e ordenou a Queda de tal modo que pudesse mostrar primeiro o que o livre-arbítrio do homem era capaz de fazer e, depois, o que a sua graça era capaz de fazer”. Tampouco tem solução para a dificuldade de que a graça eletiva de Deus esteja ligada aos sacramentos e presa a um sistema de ordenanças exteriores. Mil anos depois, levantou-se Calvino para enfrentar com mais ousadia essas e todas as outras dificuldades, livre das amarras da teoria sacramentalista que tolhia o seu grande predecessor.
II, 351Idade Média. IV. Durante esse longo intervalo, o predestinacionismo, ou agostinianismo, passou por muitas vicissitudes. Os semipelagianos afirmaram uma eleição dos crentes enquanto previstos, dando assim uma fórmula que desde então se tem mostrado útil; e o Sínodo de Orange (529 d.C.) condenou o dogma da predestinação para o mal, ou Gottschalk. reprovação. No século IX, Gottschalk levou a doutrina de Agostinho aos seus limites mais extremos, limites que ela não voltaria a atingir até que surgisse o representante moderno do Pai da Igreja predestinacionista. O seu ensino foi rejeitado em Mogúncia (848 d.C.), mas reconhecido em Valence (855 d.C.): “Fatemur prædestinationem electorum ad vitam, et prædestinationem impiorum ad mortem” [Confessamos a predestinação dos eleitos para a vida e a predestinação dos ímpios para a morte], confissão, porém, com a qual, bem entendida, todos podem concordar. Do lado de Gottschalk estava Ratramno; contra ele, Hincmar. Pode-se dizer que, ao longo das discussões medievais sobre este assunto e outros afins, a tendência foi na direção oposta à do predestinacionismo; e, além disso, que a teoria sempre crescente de um reino de Cristo sob um único vigário, predestinado a abranger o mundo, era em si mesma desfavorável a qualquer limitação da vocação do evangelho. A Igreja medieval, mesmo no seu pior, foi missionária em espírito e na prática. Missões universais e um chamado parcial nunca podem coexistir racionalmente.
Reforma. V. Na Reforma, parecia provável que a doutrina da eleição e do chamado limitado viesse a prevalecer em toda parte.
Calvino. 1. Zuínglio e Calvino coincidiram em reviver a doutrina agostiniana de uma vocação individual determinada por um decreto predestinador; mas foi Calvino quem deu ao sistema um nome permanente, porque, de fato, lhe deu um caráter distintivo. Ele lançou o seu alicerce mais fundo que o do seu precursor. Agostinho fez do decreto eterno o seu ponto central; Calvino o fez remontar ao Ser Absoluto, ou Soberania Absoluta, de Deus, de onde aquele decreto fluía. Eis algumas das suas palavras: Prædestinationem vocamus æternum Dei decretum, quo apud se constitutum habuit quid de UNOQUOQUE homine fieri vellet [Chamamos predestinação o decreto eterno de Deus, pelo qual determinou consigo mesmo o que queria que acontecesse a CADA homem]. Dico Deum non modo primi hominis casum et in eo posterorum ruinam prævidisse, sed arbitrio quoque suo dispensasse [Digo que Deus não só previu a queda do primeiro homem e, nela, a ruína dos seus descendentes, mas também as dispôs por seu próprio arbítrio]. “O homem cai, assim o ordenando a providência de Deus, mas cai por sua própria maldade.” Tudo procede da soberania absoluta, inquestionável e despótica de Deus. Se a razão humana levanta alguma objeção, “Respondendum est: quia voluit!” [É preciso responder: porque ele quis!]. O decreto era supralapsariano, isto é, incluía a Queda, coisa que Agostinho nunca afirma formalmente. Daí decorre, no sistema de Calvino, que o chamado exterior do evangelho é um cerimonial sem sentido, exceto quanto aos eleitos. A palavra e os meios de graça são, para todos os demais, “Signa inania” [sinais vazios]: as manifestações de uma “Voluntas signi” [vontade de sinal], que, não significando nada além da “graça comum”, deve ser distinguida da oculta “Voluntas beneplaciti” [vontade de beneplácito], da qual depende a salvação de cada homem. Aqui está o segredo do predestinacionismo, seja qual for o outro nome que leve: o segredo que o liga ao fatalismo, ao determinismo filosófico, ao panteísmo, à noção moderna da Lei Abstrata ou do Fiat [faça-se] Absoluto de um Ser que não é tanto uma Pessoa quanto uma Vontade. As outras relações desse credo com a doutrina teológica, relações subordinadas que são introduzidas no devido lugar, encontram todas o seu ponto de fuga nessa Soberania incondicionada e incondicional, que é o fundamento e a pedra de remate de toda a construção.
II, 352Confissões reformadas. 2. As confissões reformadas afirmam essa doutrina, embora com algumas variações; variações, porém, que introduzem cláusulas restritivas sem significado real e podem ser deixadas aos volumes de simbólica. Algumas são de tipo mais extremo e se aproximam da teoria supralapsariana, segundo a qual a Queda estava incluída no decreto de Deus, embora sem exprimi-la positivamente; outras são mais claramente infralapsarianas e datam o decreto, por assim dizer, aquém da Queda. Sínodo de Dort. O Sínodo de Dort, em 1618, em oposição aos remonstrantes, sistematizou a doutrina calvinista num grande número de cânones, que parecem basear-se no segundo desses esquemas. Assim fala ele sobre a vocação do evangelho: “Embora todos os homens tenham pecado em Adão e se tenham tornado culpados de maldição e morte eterna, Deus não teria feito injustiça a ninguém se tivesse querido deixar todo o gênero humano no pecado e na maldição e condená-lo por causa desse pecado… Mas, para que os homens sejam levados à fé, Deus envia misericordiosamente os arautos da sua alegríssima mensagem a quem quer e quando quer, e pelo ministério deles os homens são chamados ao arrependimento e à fé em Cristo… Que alguns recebam de Deus, no tempo, o dom da fé, e outros não, procede do seu decreto eterno… segundo o qual ele graciosamente abranda o coração dos eleitos, por mais duro que seja, e o inclina a crer; mas, por seu justo juízo, deixa os não eleitos entregues às consequências da sua própria maldade e obstinação.” Esses artigos, perto de cem, são geralmente recebidos pelas igrejas predestinacionistas como exposição completa da Fé cristã. A versão inglesa do mesmo credo encontra-se na Confissão de Westminster, redigida entre 1643 e 1648 com o propósito de reformar a Igreja da Inglaterra: é um reflexo dos Cânones de Dort e é aceita pelos presbiterianos das Ilhas Britânicas e da América. Muitas das confissões reformadas, como a da Igreja da Inglaterra, mitigam o dogma da predestinação e empregam uma linguagem que se pode conciliar com a Escritura sem muita violência, especialmente no que se refere à universalidade e à sinceridade do chamado. Outras são mais predestinacionistas do que parecem, pois a ambiguidade das expressões disfarça o seu sentido.
II, 353Formas do calvinismo. 3. As modificações do credo calvinista são tão variadas quanto as terras em que ele penetrou. O próprio Calvino protestou, sem o saber, contra todos os seus seguidores que viessem a abrandar o seu sistema de doutrina: “Muitos pregam a eleição de tal modo que negam que algum homem seja reprovado; mas o fazem com muita ignorância e infantilidade, pois a própria eleição não subsistiria se não estivesse em oposição à reprovação.” Assim, o pai moderno da predestinação condenou de antemão os expedientes dos seus sucessores mais generosos ou menos implacáveis; ou antes, o expediente deles, pois todos os sofismas de atenuação podem ser considerados um só. Na França, por volta de meados do século Amyraut. XVII, Amyraut ensinou que a salvação foi providenciada para todos os homens; que Deus elegeu alguns, aos quais foi dada a graça necessária do arrependimento e da fé; e que todos os outros são simplesmente deixados sem uma influência especial determinante, que ninguém tem o direito de reivindicar. Esse subterfúgio inútil foi adotado na Inglaterra por Baxter. Richard Baxter e, em tempos mais recentes, tem sido defendido na Escócia. É o credo não declarado de grande número de pessoas que estão presas ao ensino geral do predestinacionismo, mas se sentem obrigadas a pregar o evangelho livremente a todos: umas porque o Novo Testamento apresenta esse tipo de pregação, e não ousam contradizer o seu exemplo; outras porque pensam que os réprobos estão de antemão condenados a rejeitar o evangelho, assim como a perecer sem expiação; e outras porque a sua caridade ardente derrete os grilhões do seu credo.
II, 354Luteranismo. VI. A doutrina luterana passou por fases de oscilação.
1. Tanto Lutero quanto Melâncton foram, a princípio, predestinacionistas na sua visão do chamado do evangelho. Ensinaram o determinismo, ou fatalismo, quase com as mesmas palavras que Calvino usou; mas ambos foram modificando gradualmente essas opiniões e por fim as retrataram, levados principalmente pela impossibilidade de conciliá-las com o propósito sério de Deus ao oferecer universalmente a salvação e com o plano evangélico dos meios de graça. Pode-se dizer, em geral, que os seguidores de Lutero não são da escola de Agostinho.
Formulários. 2. Por isso, os formulários luteranos não são predestinacionistas. A Formula Concordiæ [Fórmula de Concórdia] foi o primeiro documento público a tratar extensamente do assunto. Segue-se a tradução de frases que tratam da eleição e da vocação: “A predestinação, ou eterna eleição divina, diz respeito somente aos filhos de Deus bons e aceitos, e é a causa da salvação deles. Ela proporciona a renovação deles e dispõe todas as coisas que lhe pertencem… Essa predestinação não deve ser perscrutada no segredo do conselho divino, mas deve ser buscada na Palavra de Deus, que a revela. A Palavra de Deus nos conduz a Cristo… Mas Cristo chama a si todos os pecadores, promete-lhes descanso e quer seriamente que todos os homens venham a ele e se entreguem para ser socorridos e salvos… A verdadeira doutrina da predestinação deve ser aprendida da natureza do evangelho de Cristo. Ali se ensina claramente que Deus encerrou todos na incredulidade, a fim de ter misericórdia de todos, e que não quer que ninguém pereça, mas antes que todos se convertam e creiam no evangelho… Quando se diz que muitos são chamados, mas poucos são escolhidos (Mt 22.14), não se deve entender que Deus não queira que todos sejam salvos; isso indica, antes, a causa da perdição dos ímpios, que é esta: ou deixam inteiramente de ouvir a Palavra de Deus, desprezando-a com rebeldia, fechando os ouvidos e endurecendo o coração, e desse modo impedem o caminho ordinário do Espírito Santo, de forma que ele não pode realizar neles a sua obra; ou dão pouco valor à palavra que ouvem e a lançam de si. A perdição deles deve ser atribuída, não a Deus e à sua eleição, mas à sua própria malignidade.” Assim, a doutrina oficial da Igreja luterana omite a reprovação dos ímpios e faz a predestinação do crente depender da previsão da fé e da perseverança. O chamado do evangelho, ela o considera universal, sério e eficaz: oferece graça suficiente a todos os que ouvem a Palavra, quer a aceitem, quer não. Assim como, na doutrina luterana da Eucaristia, todos os que participam recebem o corpo glorificado do Senhor, uns para a salvação e outros para a condenação, assim também todos os que ouvem o evangelho recebem a sua palavra salvadora, uns para a salvação da sua alma e outros para uma condenação agravada.
II, 355Luteranismo antigo e posterior. 3. O desenvolvimento posterior do ensino luterano foi fiel a essas declarações, mas as ampliou de modo a tocar algumas das dificuldades prementes que se acumulam em torno da questão.
Distinção antiga. (1.) Os primeiros escritores dogmáticos davam ênfase à “voluntas antecedens” [vontade antecedente], que é o decreto divino de salvação em Cristo, expressão da sua “voluntas universalis, gratuita et seria” [vontade universal, gratuita e séria]. Esse conselho, considerado à luz da presciência, converte-se numa “voluntas consequens seu specialis” [vontade consequente ou especial]: não como se houvesse duas vontades em Deus, mas a única vontade suprema se determina distributivamente em relação às duas classes, a dos crentes e a dos incrédulos. Por isso, a vontade universal pode ser considerada antes como a da misericórdia; a vontade especial, antes como a da justiça. Os teólogos luteranos posteriores preferiram deter-se mais na eleição de uma nova humanidade em Cristo, em cuja comunhão só entram os que creem: toda a ênfase da eleição recai sobre a segunda raça, da qual o segundo Adão é a Cabeça. A predestinação especial dos indivíduos é apenas a realização histórica do propósito eterno de amor em Cristo.
Chamados históricos. (2.) Além disso, os primeiros doutores luteranos explicavam a universalidade absoluta do chamado recorrendo às três grandes crises históricas em que o apelo evangélico saiu sem limitação para as nações da terra: primeiro, quando a promessa universal acerca do Descendente da mulher, aquele que fere a Serpente, se espalhou por todo o mundo e desceu a toda a posteridade; segundo, quando a pregação de Noé depois do Dilúvio de novo fez ressoar a sua voz por toda a terra, para se plasmar em tradições universais; e, terceiro, quando a pregação dos apóstolos, que abrangia o mundo inteiro, saiu literalmente sem restrição: “quo non venit ἀποστολή eo ἐπιστολή” [aonde não chegou o apostolado, ali chegou a epístola].
II, 356Essa solução tem uma aparência plausível de completude teórica e de generalização notável; mas deixa sem solução o mistério de que a posteridade dos que rejeitaram esse tríplice testemunho continue ainda sem o evangelho, bem como o mistério ainda mais profundo de que a proclamação das boas-novas para o mundo tenha ficado dependente, em qualquer grau que seja, da fidelidade da igreja missionária. Alguns teólogos especulativos mais modernos recorreram a outros expedientes, entre os quais a noção de um evangelho pregado no estado intermediário aos que o rejeitaram nesta vida ou o ouviram de modo insuficiente: noção que, baseada no testemunho de são Pedro sobre a descida missionária do Salvador ao Hades, é capaz de expansão e aplicação quase ilimitadas no intervalo que vai até o Dia do Juízo. Mas esse assunto pertence antes à escatologia.
Arminianismo. VII. Os remonstrantes da Holanda, ou arminianos, esforçaram-se por introduzir na Igreja reformada a doutrina bíblica. Mas em vão: o Sínodo de Dort (1618, 1619) rejeitou a sua Remonstrância contra a limitação da graça divina, assim como o Concílio de Trento, no século anterior, rejeitara a remonstrância do protestantismo contra outra espécie de desonra, oposta àquela, Realmente primitiva e católica. feita à graça de Deus. Desde então, a doutrina de uma Expiação universal, ou de um Salvador providenciado para a raça e para o pecado universalmente, com a doutrina concomitante de uma oferta livre e sem reservas da graça a todos os que ouvem a Palavra, ficou ligada ao nome do arminianismo. Mas isso é uma injustiça para com essas próprias doutrinas, que têm uma ascendência mais alta. O calvinismo dos tempos modernos foi o agostinianismo do século V: não tem origem mais alta. Foi Agostinho quem primeiro ousou interpretar a Escritura de modo a atribuir um desígnio limitado à morte de Cristo; os Pais que o precederam foram, em geral, fiéis ao evangelho católico, ou, se erraram, foi como Orígenes, tornando a missão de Cristo abrangente demais nos seus benefícios. Inversamente, o agostinianismo pode, nos tempos modernos, ser chamado calvinismo, pois nunca prevaleceu fora das igrejas de tipo reformado ou calvinista: a sua existência esporádica Jansenismo no JANSENISMO de Roma dificilmente é uma exceção. O termo calvinismo, porém, é rejeitado por algumas comunidades sérias que sustentam o seu tipo de doutrina, porque encontram, ou julgam encontrar, na Escritura os princípios em que se apoia o predestinacionismo. Supõem ousadamente que o ensino da Palavra de Deus sobre esse assunto, como sobre alguns outros, se exprime em termos opostos e aparentemente contraditórios, que não está ao alcance das faculdades humanas conciliar. A antinomia, ou paradoxo, de um decreto determinado de eleição combinado com os apelos mais universais ao livre-arbítrio humano, eles a consideram a palavra final da Bíblia; e, admitindo que os primeiros cristãos não tinham consciência dela, reivindicam para Agostinho a distinção de lhe ter dado, no seu ensino, o destaque que a Escritura lhe atribui. Trata-se, portanto, de matéria de pura exegese, e fica a questão (embora para nós não seja questão) de saber se Deus impôs ou não esse pesado fardo ao A doutrina verdadeiramente católica. intelecto humano e à fé cristã. Enquanto isso, o que sem razão se chama arminianismo é a fé das igrejas oriental e ocidental, que representam o cristianismo antigo, embora na sua corrupção; do luteranismo, que representa a Reforma; da Igreja da Inglaterra em todo o Império Britânico; e do metodismo em todos os seus ramos pelo mundo inteiro.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 317-357, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.