W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · A administração da redenção

A justiça cristã e a justificação pela fé

II, 402A JUSTIÇA CRISTÃ.

Justiça. Esta palavra é o centro de uma série de termos que se referem à administração, pelo Espírito, da obra expiatória, naquilo em que ela afeta a relação do crente com o direito imutável. Pode ser considerada objetivamente, e nesse sentido é usada para descrever o método de Deus de restaurar o homem a um estado de conformidade com a sua lei: a justiça de Deus, como princípio originador, regulador e essencial desse método; exibida na obra de Cristo, fundamento meritório da aceitação do pecador, ou em Cristo, nossa Justiça; e, como tal, proclamada no evangelho, ao qual dá nome. Considerada subjetivamente, é a justiça do crente sob dois aspectos: primeiro, é a justificação pela fé, ou a imputação declaratória de justiça sem obras; depois, é a justificação pela fé enquanto atua pelo amor e cumpre a lei. Esses dois aspectos, porém, constituem uma só e a mesma justiça da fé, como dom gratuito da graça em Cristo.

A JUSTIÇA DE DEUS.

A justiça de Deus. O evangelho é a revelação do método justo pelo qual Deus constitui justos os pecadores, por meio da expiação de Cristo, pela fé: por isso é chamado a Justiça de Deus. Considerado em relação ao sacrifício propiciatório, é uma manifestação da justiça essencial de Deus na remissão dos pecados; considerado em relação à instituição evangélica, é o método divino de justificar o ímpio. Em termos gerais, a expressão define a plena aplicação do evangelho no tribunal mediador, com todos os seus efeitos, enquanto renova o espírito humano até a perfeita conformidade com o santo Legislador.

II, 403EM CRISTO, NOSSA JUSTIÇA.

Em Cristo. A propiciação mediadora de Cristo é uma demonstração da justiça essencial de Deus; ou, em outras palavras, prova-se que esse método de prover a justificação humana está em harmonia com as perfeições divinas. O plano evangélico de conferir justiça repousa sobre a plena satisfação da justiça divina na morte do Representante do homem; é a justa honra conferida ao mérito do Redentor e à virtude da sua obra; e, unindo essas duas coisas, é a promulgação de uma economia justa de governo gracioso, exercida sobre a humanidade por amor dele e por meio dele. A doutrina da Expiação já apresentou essa tríplice verdade sob um aspecto mais geral; agora ela só precisa ser brevemente reafirmada, com referência especial à aceitação judicial do crente.

Vindicação da justiça. 1. O único caso em que a nossa justificação é ligada diretamente à morte de Cristo é a passagem clássica de Romanos em que são Paulo declara expressamente a harmonia entre a justiça como atributo divino e a justiça proclamada gratuitamente ao homem no evangelho. A ligação é tão estreita que é difícil determinar a qual das duas ideias o apóstolo deu destaque: à declaração do método de Deus de tornar justos os pecadores ou à vindicação do seu próprio caráter de justo. A ênfase de todo o trecho recai sobre as palavras para manifestar a sua justiça (Rm 3.21-26). Essa expressão aparece em duas formas: primeiro, εἰς ἔνδειξιν τῆς δικαιοσύνης αὐτοῦ, com respeito à tolerância divina nas eras passadas, que exigia explicação; segundo, πρὸς τὴν ἔνδειξιν τῆς δικαιοσύνης αὐτοῦ, com respeito ao tempo presente, depois de oferecida a Expiação. Mas ambas repousam sobre o fato supremo que está por baixo de toda a história do trato de Deus com um mundo de transgressores: JESUS, a quem Deus apresentou, προέθετο, na sua própria mente eterna e no cenário da história, como propiciação, no seu sangue, mediante a fé (Rm 3.25). A isso se deve ligar a palavra de são Paulo: o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação (Rm 4.25). A fé, única pela qual a oblação expiatória objetiva de Jesus é apropriada subjetivamente, exige a ressurreição do seu Objeto: não só como prova de que temos um Salvador vivo e fiel, mas como demonstração de que o seu sacrifício, oferecido não por si mesmo, mas por nós, foi justamente honrado quando ele foi ressuscitado para conferir o benefício desse sacrifício. A expiação substitutiva de Cristo, como o Homem representativo, exibe ao mesmo tempo a justiça de Deus no seu trato com o pecado humano e a sua justiça ao conceder o perdão ao pecador: a fim de que o próprio Deus seja justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus (Rm 3.26). Essa expressão única, o supremo paradoxo evangélico, deve ser observada com cuidado. Não quer dizer justo e, ainda assim, o justificador, embora esse sentido não esteja longe; significa que, por meio do sacrifício manifestado de Cristo, Deus é declarado ele mesmo justo, por ter exigido essa propiciação, e justificador, pela virtude dessa propiciação.

II, 404O mérito de Cristo. 2. A perfeita obediência de Cristo constitui aquilo que na teologia se chama MÉRITO, e o Novo Testamento o considera sob vários aspectos. Esse mérito é recompensado no fato de Cristo ter sido exaltado sobremaneira (Fp 2.8-9); com base nele, o Pai tem perfeito comprazimento no seu Filho e em todos os que são dele; e, em consequência dele, Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados (1Jo 1.9). É com esta verdade que temos de tratar aqui. Deus é fiel à Expiação que lhe foi fielmente oferecida. Ele é justo PARA COM Cristo, assim como EM Cristo. Todas as formas da teologia cristã concordam com a Escritura em atribuir à obra do Redentor um merecimento ou Por amor de Cristo. mérito ilimitado. E é isso que exprime a linguagem universal da teologia dogmática e prática quando suplica POR AMOR DE CRISTO. No único exemplo dessa expressão, perdoando uns aos outros, como também Deus, por amor de Cristo, perdoou vocês (Ef 4.32) [N. do T.: Pope segue a KJV, for Christ’s sake; a NAA traz “em Cristo”], o original traz ἐν Χριστῷ, em Cristo. A ideia adicional de perdão por amor de Cristo é mais própria de são João: se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai (1Jo 2.1).

NO EVANGELHO.

O método divino. Mas o termo δικαιοσύνη, quando ligado especificamente à fé, refere-se à sua manifestação no evangelho, que oferece e comunica a graça de uma justiça declaratória e imputada e, ao mesmo tempo, o poder de uma justiça interior e inerente.

1. A expressão é plenamente desenvolvida nos escritos de são Paulo. Mas o próprio Senhor já havia lançado a palavra antes, quando disse: busquem em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça (Mt 6.33). Aqui, tanto o Reino como a justiça são termos que ficam para ser explicados depois, ao longo do Novo Testamento. O apóstolo enuncia o texto da sua epístola quando diz aos romanos: Pois não me envergonho do evangelho . . . Porque a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé (Rm 1.16-17): uma justiça da fé oferecida à fé, ou, antes, que tem na fé a sua origem individual e na fé tem também a sua consumação; seja declaratória, seja operada no íntimo, ela é inteiramente pela fé. E ainda: Mas, agora, sem lei, a justiça de Deus se manifestou, sendo testemunhada pela Lei e pelos Profetas. É a justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo (Rm 3.21-22). A justiça reitoral essencial manifesta-se no novo método da administração divina: tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, a fim de que o próprio Deus seja justo e o justificador daquele que tem fé [em Jesus] (Rm 3.26). Ela se opõe ao método do homem: Desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça que vem de Deus (Rm 10.3). Assim, a justiça que procede de lei se opõe àquela que procede de Deus, baseada na fé (Fp 3.9). Tudo isso significa uma nova relação de justiça, que é ἐκ θεοῦ [de Deus] assim como é ἐκ πίστεως εἰς πίστιν [de fé em fé]. É a justiça que Deus provê, por um lado, e que, por outro, vale diante de Deus: as duas coisas numa só. Como tal, não deve ser limitada ao estabelecimento de uma relação justa por meio da imputação de justiça: inclui também o método de Deus de tornar justos os homens. É a graça do evangelho em geral, com todos os seus efeitos, considerada especificamente enquanto conduz os homens ao estado de δικαιοσύνη, ou conformidade com a lei. Mas em tudo, do começo ao fim, ela é absolutamente pela graça, sem nenhum mérito da parte do homem.

II, 405Desenvolvimento bíblico. 2. Embora esse método da justiça seja, por assim dizer, novo, é também o mesmo que existia desde o princípio. Abel obteve testemunho de ser justo somente pela fé (Hb 11.4). Noé também se tornou herdeiro da justiça que vem da fé (Hb 11.7). Mas Abraão foi o grande exemplo. A sua fé lhe foi atribuída para justiça (Rm 4.3); era fé numa promessa que não veio por meio da lei, e sim por meio da justiça da fé (Rm 4.13); portanto, uma justiça que não lhe foi atribuída por causa da virtude da fé em si mesma, nem como substituto das obras. Essa fé repousava na antiga promessa da justificação pela fé, por meio de um Salvador ainda não revelado. A LEI, que sobreveio, não afetou a unidade dessa única e grande revelação da única justiça. Num sentido, é a justiça de Deus que se manifestou sem lei; mas, noutro, é testemunhada pela Lei e pelos Profetas (Rm 3.21). Foi e é SEM LEI, visto que é para sempre independente da obediência perfeita. Mas foi testemunhada PELA LEI: a lei era um lembrete perpétuo da impossibilidade dessa obediência; prometia silenciosamente o Redentor pelo próprio fato de não punir as faltas; fazia supremos a fé no Deus da aliança e o amor a ele; e, de fato, resumia toda desobediência como incredulidade (Hb 3.19). E será justiça para nós, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos (Dt 6.25): mas ninguém jamais alcançou essa justiça; a justiça PARA NÓS e a justiça PRÓPRIA (Fp 3.9) foram sempre palavras inaplicáveis, a não ser com base no alicerce mais profundo da justiça da fé em Cristo, ainda não revelada. Os Salmos e os Profetas proclamam mais plenamente esse método divino. A justiça de Deus permeia uns e outros, e às vezes em termos que antecipam o Novo Testamento. Perto está a minha justiça! A minha salvação já aparece, e a minha justiça não será anulada (Is 51.5-6). A justiça e a paz se beijaram (Sl 85.10). O JUSTO VIVERÁ PELA SUA FÉ (Hc 2.4). Assim como a plena revelação de Cristo e do seu Reino aguardava o Novo Testamento, assim também a plena revelação do método mediador de constituir justos os homens: Mesmo que pareça demorar, espere (Hc 2.3).

II, 406Plenamente revelado. 3. Mas agora este evangelho foi revelado. E o termo Justiça é uma das suas muitas denominações, por abranger todo o seu desígnio. Assim como ele é a palavra, λόγος, ou pregação, da cruz (1Co 1.18); da verdade (Cl 1.5); da reconciliação (2Co 5.19); do evangelho (At 15.7), assim também é a palavra da justiça (Hb 5.13): λόγος δικαιοσύνης. É o sistema inteiro de doutrina a respeito do método divino de conferir justiça ao homem. A revelação inteira é a palavra de Cristo (Cl 3.16) e da graça de Deus (At 20.32). Nela, nosso Senhor é o rei da justiça, como é o rei da paz (Hb 7.2); e o seu Reino é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17). Ela revela o Senhor, Justiça Nossa (Jr 23.6), como a causa meritória que a obtém, o exemplo perfeito e o Autor, pelo seu Espírito, de tudo o que no homem Deus requer e aceita como conformidade consumada com a sua lei. Por isso, em todos os seus processos, é o evangelho do ministério da justiça (2Co 3.9). Fazemos injustiça a esse nome da nova economia, que tudo abrange, se não o considerarmos como abrangendo a soma inteira dos seus efeitos na salvação humana. Considerados na nossa relação com a vontade e a lei de Deus (e essa perspectiva abrange, em certo sentido, todas as nossas relações, no tempo e na eternidade), somos inteiramente salvos pela revelação evangélica da justiça. A solene pergunta feita no Antigo Testamento é respondida no Novo: como pode o mortal ser justo diante de Deus? (Jó 9.2).

II, 407A JUSTIÇA APLICADA AO HOMEM QUE CRÊ.

Aplicada ao homem. O método divino de conferir justiça é, quando considerado em relação ao homem que a recebe, uma manifestação de pura misericórdia (que continua e aplica a misericórdia da expiação de Cristo), a qual atribui ao crente, em todos os estágios da sua vida religiosa, no tempo e na eternidade, uma justiça que ele jamais pode alcançar nem reivindicar como sua. Quer seja vista como o ato de considerar justo, quer como o de tornar justo (pois ambos estão certamente incluídos), ela é, e tem de ser sempre, um dom gratuito à fé que abraça a propiciação.

A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ.

A justificação pela fé. A justificação é o ato judicial divino que aplica ao pecador que crê em Cristo o benefício da Expiação, livrando-o da condenação do seu pecado, introduzindo-o num estado de favor e tratando-o como pessoa justa. Embora a fé justificadora seja um princípio operante que, pela energia do Espírito Santo, chega a uma conformidade interior e perfeita com a lei, isto é, à justiça interna, é o caráter imputado da justificação que rege o uso da palavra no Novo Testamento. A justiça inerente está mais estreitamente ligada à perfeição da vida regenerada e santificada. Nesse sentido mais restrito, a justificação é ou o ato de Deus ou o estado do homem.

Deus, o Justificador. I. O ato de justificar é o de Deus, o Juiz. Em termos gerais, é δικαίωσις, a palavra que declara o pecador absolvido da sentença condenatória da lei; e refere-se sempre, e somente, aos pecados passados. Quer seja considerada como o primeiro ato de misericórdia, quer como a vontade permanente da graça de Deus para com o crente em Cristo, quer como a sentença final no juízo, é a declaração divina que livra o pecador, enquanto pecador, da condenação do seu pecado. É Deus quem os justifica (Rm 8.33): Deus em Cristo; pois todo julgamento foi confiado ao Filho (Jo 5.22), que agora e sempre pronuncia, como Mediador, a palavra que absolve, declarando-a nesta vida à consciência pelo seu Espírito. É a voz de Deus, o Juiz, no tribunal mediador, onde o Redentor é o Advogado e alega o seu próprio sacrifício propiciatório e a promessa do evangelho anunciada à penitência e à fé do pecador cuja causa ele defende. A forma mais simples em que a doutrina é enunciada é esta: Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? (Rm 8.33-34). Aqui o apóstolo tem em vista o passado, o presente e o futuro do crente; a morte, a ressurreição e a intercessão de Cristo; e a única sentença justificadora, contra a qual não pode haver apelação, no tempo ou na eternidade. Deus é Θεὸς ὁ δικαιῶν [Deus, o que justifica], num único ato contínuo e sempre presente.

II, 408O homem justificado. II. Como estado em que o homem é introduzido, a justificação é descrita de vários modos, segundo as várias relações dele com Deus, com o Mediador e com a lei. Como pecador individual, ele é perdoado: a sua justificação é PERDÃO ou A REMISSÃO DOS PECADOS, isto é, a pena é remitida. Como pessoa ímpia, ele é considerado justo: A JUSTIÇA LHE É IMPUTADA; ou a sua TRANSGRESSÃO NÃO LHE É IMPUTADA. O seu pecado é perdoado, a sua pessoa é justificada. Como crente em Jesus, A SUA FÉ LHE É ATRIBUÍDA PARA JUSTIÇA. Todas essas expressões descrevem, sob o seu aspecto negativo e sob o positivo, uma só e a mesma bênção da Nova Aliança, que constitui o estado de graça em que o crente entrou e no qual, como crente, permanece. Isso é atestado por passagens que percorrem os Evangelhos, os Atos e as Epístolas, passagens que apenas confirmam as promessas do Antigo Testamento. Do precursor do nosso Senhor anunciou-se de antemão que viria para dar ao seu povo conhecimento da salvação, por meio da remissão dos seus pecados (Lc 1.77). A palavra do Salvador foi: Homem, os seus pecados estão perdoados (Lc 5.20); mas ele falou do publicano que orava Ó Deus, tem pena de mim, que sou pecador! e que desceu para casa justificado (Lc 18.13-14). A oração dele foi ἱλάσθητί μοι [sê propício a mim], e a sua bênção, a de estar δεδικαιωμένος: essas palavras aparecem aqui pela primeira vez e, tanto cada uma por si como na sua ligação mútua, ficam reservadas para um serviço abundante no Novo Testamento, especialmente nos escritos de são Paulo. O Salvador deixou a incumbência de que em seu nome se pregasse a remissão de pecados (Lc 24.47). São Pedro pregou essa remissão de pecados no dia de Pentecostes (At 2.38) e depois variou a expressão: para que sejam cancelados os seus pecados (At 3.19), expressões equivalentes no sentido. Mas são Paulo retoma as próprias palavras do Salvador e as une: é por meio de Jesus que a remissão dos pecados é anunciada a vocês; e, por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas (At 13.38-39). E, na sua grande epístola, acrescenta todos os outros termos e une o conjunto numa só carta de privilégios: Mas, para quem não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça. E é assim também que Davi declara ser bem-aventurado aquele a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras. Davi disse: Bem-aventurados aqueles cujas transgressões são perdoadas, e cujos pecados são cobertos; bem-aventurado aquele a quem o Senhor jamais atribuir pecado (Rm 4.4-8) [N. do T.: onde a NAA diz “atribui justiça” e “atribuir pecado”, a KJV citada por Pope diz imputeth e impute (“imputa”, “imputar”)]. Nessa passagem clássica, todas as expressões se unem, sem exceção, e são apresentadas tanto como ato de Deus quanto como estado do homem: a bênção una e variada da experiência habitual. Em resumo: o estado de δικαιοσύνη é o de conformidade com a lei, que, no entanto, é sempre considerado como tal somente pela graciosa imputação de Deus, que declara o crente justificado, negativamente, da condenação do seu pecado e, positivamente, lhe atribui o caráter da justiça, concedendo-lhe também os seus privilégios. A primeira bênção, a negativa, é especificamente o perdão; a segunda, a positiva, é a justificação propriamente dita.

II, 409A palavra justificar. III. Quer se signifique o ato, quer o estado, a fraseologia da justificação é, em toda a Escritura, fiel à ideia de imputação. O verbo justificar não é usado no sentido de tornar justo, a não ser quando a noção de declarar ou considerar justo está ligada a ele.

Antigo Testamento. 1. A palavra hebraica הִצְדִּיק é quase sempre traduzida pela Septuaginta no sentido de tornar ou declarar justo por meio de uma sentença judicial; e isso no sentido negativo de vindicação e no positivo de declarar justo. Ela é mais justa do que eu (Gn 38.26): ficou provado que Tamar era justa, δεδικαίωται. Perto está o que me justifica, ὁ δικαιώσας με (Is 50.8). Uma passagem notável merece observação atenta: não justificarei o ímpio (Êx 23.7), em que, se a Septuaginta não tivesse seguido outra leitura, teríamos as próprias palavras de são Paulo, que omitem o NÃO, τὸν δικαιοῦντα τὸν ἀσεβῆ [aquele que justifica o ímpio] (Rm 4.5); e também: que por suborno justificam o ímpio, οἱ δικαιοῦντες τὸν ἀσεβῆ (Is 5.23). O teor geral só é confirmado por duas passagens que parecem exceções, por incluírem, com a justiça externa, a interna: O meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento justificará a muitos (Is 53.11). E os que conduzirem muitos à justiça brilharão como as estrelas, sempre e eternamente (Dn 12.3). A estas se pode acrescentar ματαίως ἐδικαίωσα, em vão purifiquei o meu coração (Sl 73.13) [N. do T.: a NAA traz “foi inútil conservar puro o meu coração”], onde, sem dúvida, o nosso termo é usado uma vez como tradução do hebraico זִכִּיתִי, tornei puro.

II, 410Novo Testamento. 2. No Novo Testamento não há exceção. Bastarão alguns exemplos, sobretudo porque são tirados tanto dos Evangelhos como das Epístolas. Pelas suas palavras, você será justificado, δικαιωθήσῃ, e, pelas suas palavras, você será condenado, κατάδικασθήσῃ (Mt 12.37). Vocês são os que se justificam diante dos homens, δικαιοῦντες ἑαυτούς (Lc 16.15). A sabedoria é justificada por todos os seus filhos, ἐδικαιώθη (Lc 7.35), onde há um sentido negativo e um positivo: a sabedoria é ao mesmo tempo inocentada de uma imputação e altamente aprovada, predominando o primeiro sentido. E os publicanos justificaram a Deus, ἐδικαίωσαν (Lc 7.29) [N. do T.: a NAA traz “reconheceram a justiça de Deus”]. Comparem-se também κατάκριμα e δικαίωσις ζωῆς, condenação e justificação que dá vida (Rm 5.18). É Deus quem os justifica, Θεός ὁ δικαιῶν; Quem os condenará? τίς ὁ κατακρίνων; (Rm 8.33-34). Mas nem por isso me dou por justificado, δεδικαίωμαι (1Co 4.4): isso não prova que eu seja justo. As passagens de são Tiago, que serão consideradas mais adiante, são coerentes com isso. Falam de uma justificação declaratória, e não do tornar justo: de uma justificação pronunciada com base na evidência das obras. Mesmo os que supõem que são Tiago ensina uma justiça das obras têm de admitir que o seu uso de δικαιοῦν é inteiramente compatível com um sentido declaratório. Ele escreve apenas sobre as evidências da justiça, em perfeita harmonia com o Sermão do Monte, e usa expressamente a linguagem paulina da imputação: ἐλογίσθη εἰς [foi atribuído para] (Tg 2.23). Emprega a palavra exclusivamente no seu sentido judicial. Aquilo contra o que ele argumenta é uma compreensão equivocada da fé, e não uma compreensão equivocada da justificação. O juízo divino pronunciado sobre a fé de Abraão quando Isaque lhe foi prometido, em Gênesis 15, foi confirmado pela evidência posterior da entrega de Isaque, em Gênesis 22. No primeiro caso ele foi justificado; no segundo, a sua justificação, ou justiça, foi reconhecida. A aparente exceção do Apocalipse desaparece com a leitura correta, δικαιοσύνην ποιησάτω, continue na prática da justiça (Ap 22.11), e assim continue a ser justo, e não ὁ δίκαιος δικαιωθήτι ἔτι [o justo continue a ser justificado]. Com base num uso tão invariável, podemos concluir que essa palavra nunca aparece na Escritura, com relação à aceitação do homem, a não ser no sentido de uma sentença declaratória que proclama justo o homem que Deus, por amor de Cristo, considera como tal. Qualquer justiça de que se fale como comunicada e infundida precisa, ela mesma, de que lhe seja imputada justiça. Se a leitura δικαιωθήτω ἔτι fosse a correta, ela apenas faria o Novo Testamento terminar com um grande testemunho desta verdade: aquele que é justo, na sua conformidade interior com a lei, tem de ser JUSTIFICADO AINDA, através de todas as eras da economia do evangelho.

II, 411A FÉ JUSTIFICADORA.

Fé justificadora. A fé que é a condição e o instrumento da justificação é a confiança da alma em Cristo como a única propiciação pelo pecado humano. É um ato pessoal do pecador arrependido sob a influência do Espírito Santo, que revela a Expiação à mente, infunde desejo no coração e assim persuade a vontade a abraçar o Salvador. Essa fé, como receptiva, renuncia ao eu em todas as suas formas, obtém o perdão e é atribuída como justiça, sendo essas duas coisas uma só bênção sob dois aspectos. Como princípio ativo, ela se apropria da promessa, ou da virtude da expiação de Cristo; e, atuando pelo amor, pertence não à entrada na justificação, mas ao estado de justificado. A sua autenticidade é comprovada pelas obras evangélicas de justiça, sem as quais, portanto, o estado de justificação não pode ser conservado. Daí haver uma justificação pela fé sem o mérito das obras e uma justificação pela fé com base na evidência das obras; mas em ambos os casos a justificação é declaratória e inteiramente pela graça.

II, 412SEM AS OBRAS.

A fé sem as obras. I. A fé, sem as obras, é tanto o instrumento quanto a condição da justificação: como condição, renuncia a toda outra dependência que não seja a Expiação; como instrumento, abraça Cristo, ou se apropria da promessa que há nele, ou repousa na sua obra expiatória.

A condição. 1. A justiça que procede de Deus mediante a fé opõe-se, como condição, à justiça própria do homem, que procede da lei.

Renuncia. (1.) A fé reconhece que o sentido legal, próprio e primitivo do termo justificar, isto é, declarar justo aquele que é justo, está para sempre fora de questão. Primeiro, quanto à lei: ela foi quebrada, e a sua condenação é reconhecida; ela exige uma obediência que nunca foi prestada desde a Queda. Depois, quanto ao próprio homem, a fé renuncia a toda confiança na capacidade humana. Abjura inteiramente a ideia de uma justiça que brote do eu. Reconhece o pecado passado, a impotência presente e a impossibilidade de que alguma obediência futura cancele o passado. Sabendo que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Jesus Cristo, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois por obras da lei ninguém será justificado (Gl 2.16). Ela renega toda justiça humana e de criatura enquanto tal: a nulidade dessa justiça é ensinada pelo convencimento, sentida no arrependimento e confessada pela fé.

A fé atribuída como justiça. (2.) Daí a expressão especificamente evangélica de que a fé é atribuída como justiça (Rm 4.5). Isso implica a ausência de justiça pessoal e a atribuição, em lugar dela, de um princípio que não é justiça, por uma espécie de substituição. Em lugar dela: não como se tornasse desnecessárias as boas obras, mas desalojando-as para sempre da posição de fundamento da aceitação. Portanto, a fé não justifica por conter o germe de todas as boas obras, como fides formata charitate, isto é, fé informada e vivificada pelo amor. Não justificando por algum mérito em si mesma, ela justifica como a condição de que depende a aplicação misericordiosa dos méritos de Cristo: κατὰ χάριν [segundo a graça] (Rm 4.4). Enquanto justifica, a fé não é justiça: ela é atribuída como justiça. Ela é posta na conta do homem (Fm 18), no tribunal mediador, como justiça; não como boa obra, mas creditada em lugar das boas obras a que renuncia. Para que a fé, como se fosse ela mesma uma obra, não fosse tida por justiça, o apóstolo varia a expressão. Ele também diz, repetidas vezes e de modo inverso, que a justiça (não, porém, a de Cristo) é imputada ao crente, e não à própria fé, como se Deus levasse em conta a bondade nela contida: aquele a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras . . . isso lhe foi atribuído para justiça . . . também por nossa causa, visto que a nós igualmente nos será atribuído (Rm 4.6, 22, 24). É sobre o homem, na nua simplicidade da sua confiança em Deus, confiança que renuncia ao eu e às obras (na fé nua, na fé simples, na fé somente: palavras que não estão na Escritura, mas que resumem o seu sentido), que é pronunciada a sentença de justificação. Quando nosso Senhor, em resposta à pergunta Que faremos para realizar as obras de Deus?, disse: A obra de Deus é esta: que vocês creiam naquele que ele enviou (Jo 6.28-29), não usou nenhum dos dois termos, obra e fé, exatamente no sentido que tomariam mais tarde, mas preparou o caminho para esse sentido. Não quis dizer que a fé nele fosse a virtude que tudo abrange, exigida por Deus, mas que eles tinham de crer nele antes de poderem falar de quaisquer obras como aceitáveis.

II, 413Imputação. (3.) A imputação, ou atribuição (λογίζεσθαι, ἐλλογεῖν), tem dois sentidos: o de atribuir a alguém o que é dele e o de creditar-lhe o que não é dele. O segundo sentido predomina nas três grandes imputações teológicas: a do pecado de Adão à raça, a do pecado da raça a Cristo e a do benefício da justiça de Cristo ao crente. Assim como, pela imputação da desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores (Rm 5.19), sendo essa desobediência atribuída não no ato, mas na consequência; e assim como o Cordeiro de Deus levou o pecado do mundo (Jo 1.29), e não os seus pecados, sendo feito pecado por nós por imputação, como oferta pelo pecado, ele, que não conheceu pecado (2Co 5.21); assim também o ímpio que crê arrependido tem creditada a si a virtude ou eficácia da obediência de Cristo, sem que essa obediência mesma lhe seja imputada: ele é feito justiça de Deus nele, o que é diferente de ter a justiça de Cristo lançada na sua conta.

O Espírito Santo. (4.) Essa fé, como condição negativa, procede da operação do Espírito Santo. É ele que capacita a alma a renunciar a toda outra confiança. Ele convence a mente da culpa e da impotência, desperta no coração o sentimento de vazio e um desejo ansioso, e assim move a vontade a rejeitar toda outra confiança que não seja Cristo. Mas, embora seja a influência do Espírito que a produz, até aqui ela é apenas negativa: uma preparação para o bem, mais do que um bem em si mesma.

II, 414Instrumento. 2. A fé é o Instrumento ativo, assim como a Condição passiva, da justificação. Como tal, ela se apodera de Cristo; justifica por causa da virtude do seu objeto, ao unir a alma a ele; é abençoada com o privilégio de uma certeza que a acompanha; e tudo isso, mais uma vez, sob a influência do Espírito Santo.

Causa. (1.) A fé é a causa instrumental da justificação. A causa originante é o amor de Deus; a meritória, a obediência expiatória de Cristo, ativa e passiva numa só, sendo a primeira a que torna possível a segunda; a causa eficiente, o Espírito Santo, que opera a fé por meio da palavra e do sacramento, como instrumentos secundários da justificação, ou meios dela. Quase não há lugar aqui para outra causa, a chamada causa formal, que na realidade, a despeito de todos os argumentos da sofística, é a fé que faz a alma uma só com Cristo; e isso é a causa instrumental fundida com a causa meritória. Perguntar pela causa formal (sendo formal, em lógica, aquilo que constitui imediatamente uma coisa naquilo que ela é) é simplesmente pedir uma definição do ato e do estado de justificação. Ela é, e tem de ser, a avaliação imputativa de Deus.

Objeto. (2.) O objeto da fé justificadora é Deus em Cristo. Nisto, como em tudo, Eu e o Pai somos um (Jo 10.30). Contudo, o objeto específico da fé justificadora não é Deus de modo absoluto, nem Cristo e a sua revelação de modo geral, mas Cristo como o representante mediador dos pecadores, e Deus como aquele que aceita a Expiação em favor do homem. Creia no Senhor Jesus e você será salvo (At 16.31). Temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo (Gl 2.16). Na Epístola aos Romanos, são Paulo descreve Deus como o objeto de dois modos. Porém crê naquele que justifica o ímpio (Rm 4.5): isso pressupõe o que vinha antes, o justificador daquele que tem fé [em Jesus] e mediante a fé, no seu sangue (Rm 3.25-26), isto é, a MORTE de Cristo. E, com relação à sua RESSURREIÇÃO: se cremos naquele que ressuscitou a Jesus, nosso Senhor (Rm 4.24). Mas o objeto da fé é o Deus de toda a nossa redenção em Cristo: o Deus que amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito (Jo 3.16), que por todos nós o entregou (Rm 8.32) e que ressuscitou Cristo dentre os mortos (Rm 8.11). Ele é o Deus único do Cristo único.

A virtude de Cristo. (3.) Nunca se diz que somos justificados διὰ πίστιν, por causa da fé, mas διὰ πίστεως [por meio da fé] ou ἐκ πίστεως [pela fé]. A fé, como o ato da alma pelo qual ela se une ao Senhor, faz sua a virtude do mérito dele. Ela se apodera de Cristo e da sua expiação: atribuindo tudo a ele, recebe tudo dele. Este é o seu privilégio transcendente, que supera todos os que estão registrados no capítulo onze de Hebreus, ou melhor, que é o fundamento de todos eles. É o conhecimento de Cristo que dele se apropria: ganhar a Cristo é conhecer Cristo (Fp 3.8-10).

II, 415Certeza. (4.) A fé não é a certeza; mas a certeza é o seu ato reflexo. O mesmo Espírito que inspira a fé (a qual é, sozinha e sem a certeza, o instrumento da salvação) ordinariamente e sempre, mais cedo ou mais tarde, capacita o crente a dizer: ele me amou e se entregou por mim (Gl 2.20). As confissões objetiva e subjetiva da experiência pessoal tornaram-se uma só; mas são Paulo fala aqui a partir do tesouro de uma certeza interior que se seguiu ao seu primeiro ato de fé. Assim ele escreve aos efésios: Nele também vocês, depois que creram, ou ao crerem, receberam o selo do Espírito Santo da promessa (Ef 1.13) [N. do T.: a NAA traz “tendo nele também crido”].

O Espírito. (5.) A fé, seja receptiva, seja ativa, é um exercício do coração humano sob a influência do Espírito Santo: não apenas sob aquela ação geral pela qual se opera toda a graça preliminar, mas por meio da sua revelação efetiva de Cristo à alma, cujos olhos são abertos no mesmo instante. O desvendar do Salvador ao penitente que o busca e o desvendar da vista para contemplar o Cordeiro de Deus (Jo 1.36), num só e mesmo momento crítico, eis a definição mística, mas verdadeira e suficiente, da confiança salvadora. É preciso lembrar, além disso, que a energia ativa e a renúncia passiva da fé salvadora são levadas, naquele momento, à perfeição da sua unidade. São Paulo exprime isso de modo notável quando fala dos judeus como os que não se sujeitaram à justiça que vem de Deus (Rm 10.3). Sujeitaram marca o lado negativo; se, o positivo: οὐκ ὑπετάγησαν.

A FÉ E AS OBRAS.

Com as obras. A fé, com as obras, justifica instrumentalmente a pessoa que crê, visto que as suas obras dão prova da sua autenticidade como princípio vivo e permanente. Ela conserva a alma no estado de justificação e é o poder de uma vida divina pelo qual se cumpre a justiça da lei.

II, 416Viva nas obras. 1. As obras da fé declaram a vida e a realidade da fé que justifica. Essas obras não declararam a sua autenticidade no princípio, quando se recebeu o perdão: Deus atribui justiça, independentemente de obras . . . por meio da justiça da fé (Rm 4.6, 13). Mas depois, e para conservar essa justificação, é absolutamente necessário que as suas obras sejam produzidas. Eu, com as obras, lhe mostrarei a minha fé (Tg 2.18). Em toda a sequência que se segue ao receber Cristo, uma pessoa é justificada pelas obras e não somente pela fé (Tg 2.21, 24); isto é, reordenando as palavras sem violar o seu sentido, uma pessoa é justificada não pela fé somente (fé que, nesta relação, não é fé nenhuma), mas pela fé que vive nas suas obras. Assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta (Tg 2.26). Aqui está a origem da expressão Fé viva, ou Fé vivente; é notável, porém, que o princípio vivificador não vai da fé para as obras, mas das obras para a fé. A fé é o corpo, e as obras, o espírito: uma aparente anomalia, que mostra claramente que são Tiago está apenas contrastando dois tipos de fé.

Fé viva. 2. A expressão Fé viva, há pouco usada, sugere a relação vital deste assunto com a união com Cristo. Quando são Paulo diz para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.21), a palavra γινώμεθα significa mais do que a não imputação do pecado, de que se falou antes. Para que nos tornássemos: estando incluída por necessidade a nossa justificação forense, a nossa conformidade moral com a justiça divina não pode ser excluída. Estas palavras finais retomam, mas de forma mais enfática e ampliada, o parágrafo anterior, que terminava com se alguém está em Cristo, é nova criatura (2Co 5.17). A justiça de Deus nele é a plena realização do novo método de nos conformar ao seu atributo de justiça. É impossível estabelecer a distinção entre EM CRISTO, para a justiça externa, e CRISTO EM NÓS, para a justiça interna. Esses são apenas aspectos diferentes de uma e mesma união com Cristo. Ainda assim, a distinção pode servir de ilustração. Somos aceitos no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados (Ef 1.6-7) [N. do T.: no versículo 6, a NAA traz “que ele nos concedeu gratuitamente no Amado”], a fim de que, pela fé, Cristo habite no coração de vocês (Ef 3.17); para que a sua graça apresente cada pessoa perfeita em Cristo (Cl 1.28). A união vital da fé assegura os dois fins: sermos considerados justos por sermos achados nele (Fp 3.9) e sermos feitos justos porque ele está em nós como o Espírito da vida e a força para toda obediência: a fim de que a justiça da lei se cumprisse em nós (Rm 8.2, 4) [N. do T.: a NAA traz “a exigência da lei”]. Aquele que se une ao Senhor é um só Espírito com ele (1Co 6.17) [N. do T.: a NAA traz “espírito”, com minúscula]; e esse Espírito Santo, comum a ele e a nós, vai realizando gradualmente dentro de nós, por uma necessidade certa, a justiça ideal de Deus. Gradualmente, porque aguardamos a esperança da justiça que provém da fé (Gl 5.5); mas, enquanto essa obra está em andamento, a sua perfeição é sempre antecipada pela imputação da graça, e a justiça é atribuída para cobrir o seu pecado de deficiência. Enquanto a imputação de Deus atribui a sua perfeição final à justiça que já começou, nós mesmos também somos exortados a considerar-nos mortos para o pecado (Rm 6.11): essa imputação em nós mesmos corresponde à imputação em Deus. Em que sentido estamos mortos para o pecado já foi explicado: pois quem morreu está justificado do pecado (Rm 6.7). Durante o processo, o cântico é: Tão somente no Senhor há justiça e força (Is 45.24). Mas, quando ele se completa, a perfeição vem dele, e não é nossa. Ele é para todo o sempre O SENHOR, JUSTIÇA NOSSA (Jr 23.6). Abraão creu no Senhor, e isso lhe foi atribuído para justiça (Gn 15.6). Depois, pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque (Hb 11.17); e, por isso, por acaso não foi pelas obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado? (Tg 2.21; Gn 22.15-19). Fé e Obras podem ser usadas uma pela outra quanto ao estado permanente: estão juntas e são uma só coisa. São Paulo e são Tiago concordam em que o estado de Justificação é o de uma fé que atua pelo amor (Gl 5.6). São João faz a mediação: aquele que pratica a justiça é justo (1Jo 3.7); isso seria tautologia se ele não quisesse dizer que o homem justo (aquele que, na conhecida terminologia de são Paulo, que são João não usa, é o homem justificado) é aquele que pratica a justiça, assim como ele é justo, ele que é o Autor, o Modelo e o Consumador da justiça humana.

II, 417A própria fé justificada. 3. A justificação da própria fé, nas suas obras e por meio delas, constitui a transição bíblica para a justiça interna e consumada, que, no entanto, costuma ser vista como inteira santificação; impropriamente, porém, se se considera a santificação como aquilo que completa o que a justiça deixa incompleto. A quem insiste em introduzir a doutrina da santificação para suprir, como obra interior, o que na justificação é apenas exterior, são Tiago responde: Você percebe que a fé operava juntamente com as suas obras e que foi pelas obras que a fé se consumou? (Tg 2.22). Aqui está o resultado consumado da fé que atua pelo amor (Gl 5.6); aquela obra da fé (1Ts 1.3) [N. do T.: a NAA traz “operosidade da fé”], una e indivisível, em cuja afirmação, logo no início do seu ensino, são Paulo declarou por antecipação o seu acordo com são Tiago. Esses dois instrutores em Cristo (1Co 4.15) mostram que a fé justificadora, numa religião consumada, ἐτελειώθη, SE CONSUMA nos seus efeitos; e ambos o fazem com referência à lei, contra a renúncia antinomista a ela. São Paulo usa outro termo que mostra, mais uma vez, o seu pleno acordo com são Tiago, πληρωθῇ: a justaposição desses dois termos é talvez a sua melhor conciliação. A fim de que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm 8.4): aqui a justiça cumprida não é a reivindicação da justiça satisfeita no castigo, mas as suas exigências satisfeitas no amor. Se, em qualquer sentido que seja, A JUSTIÇA SE CUMPRE EM NÓS, isso tem de ser por sermos FEITOS JUSTOS enquanto somos considerados tais. Mas sempre, seja no início, quando as obras são excluídas, seja na vida cristã, quando são exigidas, seja na terra, seja no Imputação eterna da justiça. céu, a justificação continuará a ser, sempre e para sempre, a IMPUTAÇÃO DA JUSTIÇA À FÉ. As obras que se seguem e dão prova só declararão que a fé em Cristo era fé autêntica e viva. Só isso pode assegurar a vida eterna àqueles que, embora tão santos quanto o seu próprio Senhor e tão bem-aventurados quanto a alegria dele os pode tornar, serão, à parte dele e no registro do passado, ainda pecadores. Dos quais eu sou o principal! (1Tm 1.15), foi a palavra de são Paulo quando já estava sendo oferecido por libação (2Tm 4.6); e ele e todos os verdadeiros crentes estarão então, como estão agora, esperando a misericórdia do nosso Senhor Jesus Cristo, que conduz para a vida eterna (Jd 21). Pode-se dizer, para concluir, que a consideração profunda desta verdade, em todas as suas implicações, fornecerá o segredo da defesa da doutrina evangélica da justificação contra todas as perversões que serão examinadas adiante.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 402-417, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.