W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · A administração da redenção (continuação)
Condicional. O Espírito Santo, o Administrador da redenção, confere as bênçãos dela de modo absoluto, como dom gratuito de Deus em Cristo, mas não de modo incondicional e irreversível. Não existe nenhum decreto fixo que tenha garantido todas as concorrências da Providência, todas as operações da graça e todos os dons que asseguram uma ampla entrada no céu. A aliança cristã coloca o homem numa PROVAÇÃO nova e graciosa e dá amplo fundamento para a CERTEZA pessoal, a qual, sendo certeza tanto da fé como da esperança, encoraja à PERSEVERANÇA. O presente assunto requer, portanto, que se considerem esses três termos nas suas relações mútuas.
Relações entre os termos. Existe uma doutrina da Perseverança Final, expressão que, como tal, é apenas um termo convencional usado para designar um aspecto da aliança da graça: a concessão irreversível das suas bênçãos àqueles por quem Cristo morreu e por quem, segundo se supõe, ele não pode ter morrido em vão. Segundo a exposição da verdade já apresentada, a perseverança é um dever ético, e não um dom específico da aliança. Na medida em que essa aliança faz provisão para ela, a perseverança pertence à doutrina da Certeza, que, de uma forma ou de outra, ocupa um lugar amplo e importante no Novo Testamento. Omitindo-se o termo Final, que é o símbolo de um dogma peculiar, a Perseverança pode formar uma seção independente, por causa da sua própria importância e também para dar ocasião de combater o erro sobre o assunto, ou de pôr no seu devido ponto de vista a verdade que está por baixo desse erro. Temos, assim, três palavras de ordem tão correlacionadas que não se podem separar facilmente. A Perseverança é apenas a preservação constante da Certeza da fé, que é a certeza condicional dada a uma alma em Provação. O crente em Cristo começa uma vida nova numa nova provação; segue o seu caminho com uma certeza habitual; e assim é animado a perseverar até o fim. Esta é a economia neotestamentária da vida cristã, à qual o Novo Testamento se mantém fiel em toda parte.
Provação. A provação é a prova moral de um espírito livre, que se prolonga por um tempo sob condições determinadas por Deus e termina na confirmação de um estado permanente e imutável. O sistema cristão, tal como administrado pelo Espírito Santo, não aboliu a provação, mas revestiu-a de um caráter novo e peculiar de graça, que, no entanto, a deixa sendo ainda provação.
Provação original. I. A provação não cessou na economia da redenção. A passagem da Escritura que diz: vocês não estão debaixo [da] lei, e sim da graça (Rm 6.14), não significa que estejamos isentos de prova e predestinados à vida. É verdade que, quando Adão caiu, o seu primeiro estado de prova terminou para ele mesmo e para a raça nele; e, pela analogia da sentença dos espíritos maus, o seu destino e o destino da humanidade ficaram então decididos. Mas a condição divina da provação humana incluía a perspectiva de uma prova nova e diferente, aplicada à descendência de Adão individualmente e sob condições muito diferentes. A provação independente do homem cessou para sempre; e recomeçou por meio de um Mediador. A provação não cessou, mas as suas condições mudaram. A redenção não interferiu na lei da decisão probatória que, até onde sabemos, governa o destino de toda inteligência criada. De modo geral, toda aliança de Deus com o homem implica provação; e, em certo sentido, toda provação envolve a ideia de aliança. Embora διαθήκη não seja exatamente συνθήκη [pacto] (é antes Disposição ou Ordenação do que Aliança propriamente dita), é mandamento com promessa e condição. E esses são os elementos essenciais da provação. Estritamente falando, a aliança só começou com a Queda, sendo a ordenação da salvação por meio de um Mediador. O tipo peculiar de aliança de que a Escritura fala é sempre proposto, ratificado e administrado por meio do sacrifício mediador.
A provação na aliança do evangelho. II. A provação percorre a nova aliança em caráter individual.
1. De modo geral, toda a economia desta dispensação da graça, em todas as etapas do seu desenvolvimento na terra, está repleta das ideias e dos termos da prova. A breve história do Paraíso é inteiramente regida por esse princípio. A Aliança da Graça (antes da Lei, sob a Lei e no Evangelho, sendo essas três uma só) não está menos sujeita a essa regra. Da parte de Deus, temos uma longa série de expressões, usadas para mostrar as suas relações com os homens, que são incompatíveis com qualquer coisa que não seja o propósito de disciplinar e provar o caráter, de rejeitar o mal e escolher o bem: por exemplo, todas as palavras como fazer aliança, provar ou tentar, lutar, prova, disciplina, tolerância, endurecer ou abrandar o coração, juízo presente e futuro, recompensar e punir, reprovação, dia da graça; palavras que implicam a determinação ou instituição divina da provação e são absolutamente incompreensíveis segundo qualquer outra teoria ou princípio sobre o destino da humanidade. Do mesmo modo, da parte do homem, temos uma longa série de expressões correspondentes: submissão, rebelião, escolher o bem ou o mal, tentar a Deus, ceder ao seu Espírito ou contristá-lo, entristecê-lo ou apagá-lo, consciência e julgamento de si mesmo; todas elas inexplicáveis segundo qualquer outro princípio que não seja o de certo domínio do homem sobre o seu próprio destino.
III, 102Provação individual. 2. Isso pode ser considerado, em particular, com referência aos três elementos principais da provação individual: o seu começo, os seus processos e o seu fim.
No início. (1.) A doutrina da Vocação mostrou que o começo do evangelho em qualquer coração é uma prova da natureza moral, tal como a Queda a deixou, e das influências preliminares e universais do Espírito. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz (Jo 18.37): isso tem de referir-se ao próprio começo de uma provação; a primeira palavra de Deus à alma é uma prova, e o primeiríssimo pensamento acerca de Cristo é uma revelação das fibras ocultas do ser. Obrigue todos a entrar! (Lc 14.23) significa simplesmente o apelo veemente que, por meio da mente e do coração, persuade a vontade; e o mistério final da aceitação ou da rejeição, apesar de todo o poder da graça divina, encontra-se numa atitude moral dessa vontade. A cruz atrai: E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim (Jo 12.32): ἑλκύσω. Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair (Jo 6.44): ἑλκύση [N. do T.: a NAA traz “não o trouxer”]. A primeira é a atração geral, e a segunda, a individual; mas ambas igualmente põem a descoberto o caráter e o confirmam. O resultado é sempre apresentado como o resistir ou o sucumbir diante de uma prova. A pregação do evangelho é aroma de vida para vida e cheiro de morte para morte (2Co 2.16). Os cooperadores de Deus nos exortam a que não recebamos em vão a graça de Deus (2Co 6.1). A cruz é uma nova árvore de prova, do conhecimento do bem e do mal; o homem, porém, sob a nova provação, recebe a ordem não de abster-se, mas de tomar. A provação agora se dá fora do Paraíso, mas em muitas das suas características é exatamente a mesma que lá dentro. Está ligada a todos os desfechos da vinda de Cristo. Jesus continuou: Eu vim a este mundo para juízo (Jo 9.39): isso corresponde, no fim, àquelas palavras do começo: este menino está destinado tanto para ruína como para elevação de muitos . . . para que se manifestem os pensamentos de muitos corações (Lc 2.34-35). Seja pela pregação direta, seja pela indireta, seja pela Palavra, seja pelo Espírito secreto sem a Palavra, o nome de Jesus será, e tem de ser, a pedra de toque da vontade de cada homem e o árbitro da sua sorte.
III, 103Continuação. (2.) Os processos da vida cristã são todos probatórios. A Escritura nunca se dirige aos cristãos como salvos prospectivamente, mas só retrospectivamente: como τοὺς σωζομένους, os que iam sendo salvos (At 2.47), ou seja, os que estão em processo de salvação. A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando um fim proveitoso (1Co 12.7): isso não se refere apenas aos dons especiais; incluindo-os, torna-se um princípio universal. Todo o propósito da graça é disciplinar. A graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos. Ela nos educa (Tt 2.11-12): παιδεύει, ela nos põe sob treinamento e disciplina. Ela existe para nos capacitar a confirmar a vocação e a eleição (2Pe 1.10); para que, na sua força, possamos resistir no dia mau e, depois de termos vencido tudo, permanecer inabaláveis (Ef 6.13). De um lado, a ordem é: provem a si mesmos (2Co 13.5). Este é um dos poucos textos em que se usa o próprio termo provação; e significa que temos de provar, examinar e descobrir os segredos do nosso próprio coração, vigiando-nos sob o olhar de Deus como Deus vigiava Adão no Paraíso. Outro é: para que possam provar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2) [N. do T.: a NAA traz “experimentar”]. A reprovação nunca é mencionada senão em relação ao fracasso do cristão diante da prova: Ou não reconhecem que Jesus Cristo está em vocês? A não ser que já tenham sido reprovados, ἀδόκιμοι (2Co 13.5). A palavra é desconhecida na Bíblia a não ser como resultado do próprio ato do homem: a única reprovação é ser provado e achado em falta. Não há pior engano de si mesmo do que considerar a religião pessoal como a execução de um decreto absoluto e final, e a isso podemos aplicar as palavras de são Paulo: Não se enganem: de Deus não se zomba. Pois aquilo que a pessoa semear, isso também colherá (Gl 6.7). A provação não é decisiva apenas quanto ao grau da nossa salvação, mas decisiva quanto à própria salvação. A prova não serve simplesmente para verificar sobre quantas cidades poderemos governar, mas para saber se nos será confiada alguma coisa ou se seremos rejeitados.
III, 104Fim. (3.) No fim de tudo, não se diz apenas que o Juiz separará uns dos outros, mas que o fará como o pastor separa as ovelhas dos cabritos (Mt 25.32): o contexto mostra que essas palavras descrevem o caráter de cada um como resultado da provação de uma vida inteira. E essa declaração encerra uma série de parábolas que fazem, todas elas, os desfechos eternos dependerem da vigilância e da fidelidade: Muito bem, servo bom e fiel (Mt 25.21). O juízo final é a revelação do resultado de um percurso de provação. Há um Livro da Vida que é o registro dos chamados, eleitos E FIÉIS (Ap 17.14): este último termo é agora, por fim, acrescentado para completar os anteriores. O Senhor se havia referido repetidas vezes aos muitos chamados e aos poucos eleitos; e falou também, indiretamente, dos ainda menos numerosos que perseverariam até o fim. Mas agora ele junta todos esses termos. Este é o Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8) [N. do T.: a NAA traz “aqueles que, desde a fundação do mundo, não tiveram os seus nomes escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto”]. Mas os nomes não foram escritos nele de modo indelével desde a fundação do mundo: se os nomes individuais tivessem sido escritos ali em qualquer outro sentido que não o de estarem previstos ali, não se teria declarado que a preservação do nome é a recompensa da fidelidade: ao vencedor, a promessa é: de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida (Ap 3.5).
Provação cristã. III. A provação cristã tem um caráter específico de graça. Não deve ser ensinada como uma doutrina dura e rigorosa, que tranquilamente deixa o homem entregue à decisão do seu próprio destino. É possível que, ao recuarmos do extremo anterior, que nega inteiramente a provação, caiamos em outro, que deixa demais, no destino do homem, ao seu próprio capricho. O fim da primeira provação introduziu outra, presidida pela graça e estendida sobre a humanidade em todos os seus estados e variedades.
O mundo. 1. No que diz respeito ao mundo, todos os homens estão e sempre estiveram sob uma constituição de misericórdia em regime de provação. Por fim, no evangelho, se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor por TODOS (Tt 3.4); mas a mesma FILANTROPIA governou o mundo desde o princípio. A nova prova da raça, como tal, é um mistério profundo, mas um mistério de misericórdia. A graça, como o evangelho, que é a sua proclamação, estava no mundo antes da vinda de Cristo; e as nações dos homens serão tratadas segundo a justiça daquele de quem se disse, no começo da história: Será que o Juiz de toda a terra não faria justiça? (Gn 18.25). A provação do mundo em geral pode ser Nações. considerada sob dois aspectos. (1.) Nacionalmente, os corpos e as comunidades de homens são tratados pelo Governador supremo; serão julgados levando-se rigorosamente em conta toda vantagem que desfrutaram e toda desvantagem com que tiveram de lutar. As leis pelas quais Deus governa as famílias, as comunidades, as nações e, em maior ou menor grau, a raça como um todo são leis que procedem da Corte mediadora e são administradas pelo Redentor de todos os homens. Mas não é disso que temos de tratar agora: o assunto já foi e Provação individual. será discutido em outros ramos. (2.) A provação de todos os homens, individualmente, é uma provação de graça. Mal sabemos como conciliar isso com alguns dos ditos da Escritura; mas o dever da teologia é conciliar esses ditos com esta verdade. A disciplina probatória de vastas multidões da raça humana na vida presente, os processos ocultos da sua prova e a determinação da sua sorte no além estão entre os mistérios reservados da fé. Nenhum indivíduo de todas as inumeráveis multidões de descendentes de Adão será tratado senão com base numa prova determinada para ele mesmo, como se ele fosse o único indivíduo em provação.
III, 105Ouvintes do evangelho. 2. No que diz respeito aos que recebem a verdade revelada, a misericórdia evangélica dirige a provação de modo ainda mais evidente. Todas as coisas estão ordenadas para alistar o livre-arbítrio do lado de Deus. A condenação do pecado original é removida; e a sua inclinação para o mal é controlada por fortes influências da graça. O poder do Espírito Santo é maior do que o poder do mal pode ser. A força da verdade divina, aplicada pela energia divina dele e confirmada pela demonstração da Providência, é um elemento cujo vigor deve ser avaliado muito alto quando se considera a prova ordenada para os que ouvem o evangelho. E, quanto aos que o ouvem em meio às maiores desvantagens para recebê-lo, temos de recorrer à misteriosa influência interior que está presente em todo homem, por trás dos primeiros movimentos do mal e juntamente com eles.
Os regenerados. 3. No caso dos regenerados, a provação é particularmente rica nas provisões da graça. (1.) Todo cristão é objeto do cuidado pessoal e da mais terna solicitude do Espírito Santo. Às vezes se faz uma comparação entre a provação do Paraíso e a do crente num mundo caído: tal comparação dificilmente pode ser feita com algum bom proveito. Quaisquer que sejam as incapacidades que o pecado nos legou, elas são mais do que compensadas por um Espírito que habita em nós, o Espírito de uma vida nova e mais elevada. Onde aumentou o pecado, aumentou muito mais ainda a graça (Rm 5.20). (2.) E todos os acontecimentos estão ordenados de tal modo que as dificuldades da experiência religiosa tendem a revigorar o espírito. Assim como as bênçãos desfrutadas com moderação aumentam o amor, as aflições suportadas com resignação fortalecem o homem interior. Pelo controle secreto do Espírito Santo, não há acontecimento na vida que não contribua para provar o caráter; e, sob o seu governo, toda prova suportada deixa esse caráter mais forte. Por isso nos é ordenado: tenham por motivo de grande alegria o fato de passarem por várias provações (Tg 1.2). As graças mais elevadas da religião, aquelas que a paixão de Jesus revestiu de suprema dignidade, são fruto de uma provação severa enfrentada com paciência.
III, 106Solenidade da provação. 4. Mas, afinal de contas, a aliança cristã deixa os homens numa provação extremamente solene. Cada um é ensinado pela Escritura a considerar-se como quem decide a sua sorte para a eternidade. Há muita coisa contra ele e muita a seu favor; dois mundos, o do bem e o do mal, entram no seu ser e disputam a sua alma. Sob outras condições, e com diferenças que quase proíbem a analogia, todos nós estamos passando outra vez pela prova do Jardim. A linguagem comum da humanidade é fiel a esse princípio, tão comovente e impressionante, de que o mundo presente é o cenário da nossa prova para o futuro eterno. Ainda estamos no jardim da prova; mas o objetivo da disciplina da vida é reconquistar, pela graça daquele cuja justiça nos expulsou, o Paraíso perdido. A juventude é um tempo de provação. Em outro sentido, todo período crítico da vida também o é, especialmente o dia mau da aflição. Mas o tempo, a porção dele que cabe a cada homem, é o seu prazo de provação. Aquilo que a pessoa semear, isso também colherá! (Gl 6.7): esta é a exortação de advertência. Para que vocês possam resistir no dia mau e, depois de terem vencido tudo, permanecer inabaláveis (Ef 6.13): este é o encorajamento. O desfecho encerra a Bíblia: Continue o injusto a fazer injustiça! E o santo continue a santificar-se! (Ap 22.11). É verdade que essas palavras não se referem diretamente ao estado eterno.
História. Esta doutrina da provação e da prova é, ela mesma, a prova dos sistemas eclesiásticos. A história do dogma sobre este assunto, no seu alcance mais amplo sobre os Decretos Divinos, já foi apresentada brevemente. Agora só é necessário fazer algumas alusões mais específicas a certas relações mais salientes.
I. Todos os sistemas de predestinacionismo fatalista são condenados pela verdadeira doutrina da provação humana: seja o antigo Fatalismo. fatalismo, que renunciou à ideia de um só Deus pessoal e supremo, pondo o seu Panteão sob o domínio do Destino como autoridade final; seja o moderno fatalismo panteísta, que faz de todas as coisas a manifestação necessária (material ou espiritual) de uma só substância, Deus ou a natureza. Se a Divindade está perpetuamente se desdobrando na humanidade, não pode haver provação. O bem e o mal (bem OU mal é linguagem proibida) são igualmente Deus: a escolha, a decisão e a provação ficam excluídas. A tranquila confiança de muitos panteístas, nos tempos antigos e modernos, é pura resignação ao inevitável. O triunfo do cristianismo está em dar uma resignação ainda mais perfeita àquele que, ao mesmo tempo, sabe que cada hora que passa traz em si o seu interesse eterno.
Predestinacionismo. II. O dogma da Soberania Absoluta de Deus e do seu governo, e o decreto de eleição que dele decorre, são em grande medida incompatíveis com ideias justas acerca da provação da humanidade como um todo ou do homem individual. Isso pode ser considerado de vários pontos de vista.
Contrário à provação. 1. O dogma de uma predestinação eterna e fixa para a salvação e para a perdição não pode combinar-se com a prova moral. É verdade que a provação pode ser reduzida a significar a mera exibição do fato e o meio de declarar o decreto; pode também tornar-se útil, como algo que tende a definir as variedades do caráter cristão e os graus da recompensa final. Mas perde-se a ideia cristã de uma prova moral, pois todos os seus processos são tidos como já predeterminados.
Teologia federal. 2. A teologia federal, mais moderna, que foi enxertada no calvinismo, mostra isso de modo ainda mais impressionante. Segundo esse esquema, a história da redenção distribui-se sob três alianças: primeiro, a Aliança da Redenção, entre o Pai e o Filho; segundo, a Aliança das Obras, feita com Adão e que inclui a sua posteridade; e, terceiro, a Aliança da Graça, que por sua vez se subdivide na aliança antes da Lei, sob a Lei e sob o evangelho.
III, 108A aliança da redenção. (1.) Quanto à primeira, ela quase parece colocar o próprio Cristo sob uma provação especial e singular: se não em palavras, ao menos na realidade. Supõe-se que, em favor de certa parte da raça, o Filho de Deus assumiu a obrigação da obediência passiva e ativa; sob a condição da sua fidelidade, essa parte da raça lhe é atribuída. Esses estão seguros, à custa de um preço infinito pago pelo seu Fiador. A provação severa é dele, e não deles. Embora essa teologia admita que ele não podia falhar nem desanimar, e não possa ser acusada de tornar duvidoso o empreendimento de Cristo, isso é, da parte dela, uma nobre incoerência. Na verdade, nem em relação ao Fiador nem em relação aos afiançados se conserva a ideia estrita de provação. Mas de tal aliança no seio da Santa Trindade para a partilha da humanidade a Escritura nada diz.
Aliança das obras. (2.) Quanto à segunda, não há no registro bíblico nenhuma aliança das obras desse tipo. Se for considerada posterior àquela primeira aliança eterna, perde por isso mesmo o seu caráter de aliança: a raça de Adão é tratada como necessariamente caída, e o pecado passa a rivalizar perigosamente com a própria Expiação, predestinada antes da fundação do mundo. Se, segundo a teoria sublapsária, se supõe que a Aliança da Redenção se baseia na Queda como fato consumado, então essa aliança, ainda assim, absorve e destrói a provação dos homens. A raça de Adão falhou numa prova e depois disso nunca mais esteve sob prova. A aliança das obras permanece, é verdade, como lembrança contínua da Queda; mas a sua única utilidade é detectar e condenar o pecado e impelir os homens para a superior Aliança da Graça, em tudo bem-definida e segura.
Aliança da graça. (3.) Quanto à terceira, ela não pode conservar os elementos essenciais de uma aliança, se se supõe excluída a provação pessoal com os seus desfechos contingentes. Pode-se afirmar que o pacto da provação cessou justamente quando, na realidade, começou em Cristo. Dizer que Deus tirou os eleitos das mãos deles mesmos e os salvou por meio de um Substituto que nada deixou à vontade, ao esforço e à fidelidade deles, nem à contingência, é contradizer o teor da Escritura, por mais que isso pareça honrar a soberania divina.
III, 109Imputação. 3. O dogma da imputação expressa e distinta da justiça ativa de Cristo garante que o crente será por fim apresentado diante de Deus sem mácula e irrepreensível; por isso não há nenhuma prova decisiva quanto ao seu estado final. O crescimento de um novo caráter debaixo do manto perfeito do Redentor nada tem, a rigor, de provação: o cristão não aparecerá com a veste tecida da sua própria justiça, a não ser para a determinação da sua recompensa; e mesmo isso é incoerente com o princípio essencial de que Cristo virtualmente toma o lugar do santo, e o santo aparece como Cristo, em toda a administração da graça substitutiva.
Soberania. 4. O exagero da soberania divina dá a esse dogma o caráter de fatalidade que não hesitamos em atribuir-lhe: não é outra coisa senão um fatalismo panteísta cristianizado. Não é um Fado desconhecido, nem o Destino, nem a μοίρα, mas o Deus e Pai de todos que dispõe de modo absoluto das almas dos homens. A provação, como tudo o mais que pertence ao estado cristão deles, apenas lhes é imputada. Prova, teste, juízo e sentença são mero flatus vocis [sopro de voz, palavras vazias], os véus e disfarces de acomodação de uma dispensação de graça fixa e imposta por necessidade.
Universalismo. III. Há teorias universalistas que tratam deste assunto e precisam ser submetidas à prova do nosso princípio.
Aniquilacionismo. 1. A teoria de uma certa Destruição Universal e final do Mal ensina que há espaço suficiente no universo, tempo suficiente no seio da eternidade e recursos suficientes na onipotência divina para a aniquilação ou eliminação gradual e segura de todo defeito, de toda fraqueza e de todo pecado do conjunto das coisas. Esse dogma ilimitado mantém, a seu modo, a ideia de prova: todos os que não suportarem a prova nesta vida e nos éons seguintes serão por fim destruídos. Isso é a provação sem uma das alternativas de confirmação, que são necessárias à sua definição, a saber, a permanência fixa no mal; e com um elemento novo acrescentado, a determinação da Onipotência soberana. Mantém a soberania calvinista, com uma modificação peculiar, toda sua. Enquanto a eleição predestinacionista tem como lado sombrio a reprovação preordenada dos maus, condenados a um estado fixo de ruína eterna, essa noção serve-se de um decreto eterno para livrar o universo do mal. Alegará que a ideia de prova inclui apenas a detecção do mal, e nada mais; mas esse não é o sentido da palavra, nem o filosófico nem o bíblico.
III, 110Restauracionismo. 2. A teoria da Restauração Universal faz o mesmo, mas com outro desfecho. Tem o dogma de uma predestinação fixa, sem a eleição do calvinismo. Faz da tremenda história do pecado humano apenas um interlúdio que será esquecido, ou que só será tirado dos recessos do esquecimento como precedente no governo de outros mundos. Segundo tal ideia de provação, o Criador de fato faz uma experiência com o princípio da prova e fracassa; e por fim retira as suas criaturas dessa lei, com a responsabilidade que ela traz, e as constrange à santidade. Por isso, esse esquema alega, como o anterior, que a prova visa apenas à detecção do mal, mas somente para fazer sobressair os recursos insondáveis da graça divina. Em algumas apresentações desse princípio, a prova continua, é verdade, depois desta vida, sobre princípios independentes da redenção de Cristo. Mas também nelas, como em todas essas formas de universalismo, perde-se a noção estrita de uma prova que conduz a uma confirmação fixa.
Teorias hierárquicas. IV. As teorias hierárquicas e sacramentalistas da administração da graça, com o seu dogma do mérito, afetam seriamente esta doutrina nas suas formas extremas.
Graça sacramental. 1. O princípio de uma transmissão necessária da graça por meio dos sacramentos, nas mãos de um mediador humano, tende a minar a santidade da provação humana: se não em teoria, certamente na prática. Pode-se dizer que o fato de essa graça falhar no caso das pessoas que interpõem o obstáculo do pecado mortal deixa o desfecho por conta de quem a busca. Isso pode, de fato, livrar o sistema das suas piores consequências teóricas; mas na prática enfraquece o senso da provação pessoal, pois faz da Igreja, com a sua sebe sétupla de ordenanças sacramentais, o mesmo tipo de refúgio contra o peso da responsabilidade pessoal que o antinomismo faz do mérito de Cristo. Aqui, como muitas vezes acontece, duas escolas opostas se encontram.
Conselhos de perfeição. 2. O dogma específico de que os Conselhos de Perfeição provam o caráter dos crentes e os estimulam a uma realização mais elevada não é bíblico, na medida em que introduz um elemento novo na provação. Alegar-se-á que o próprio Senhor os aplicou como provas durante a sua administração pessoal do seu reino. Mas é preciso lembrar que ele usou essas provas em circunstâncias especiais; que, a rigor, nunca aplicou senão um dos Conselhos, o da renúncia aos bens; e que, ao aplicá-lo, apenas estabeleceu um princípio de importância universal, com referência específica à necessidade de um caso particular. Nunca usou, na provação, provas que devessem distinguir uma classe dos seus discípulos de outra em todas as épocas.
III, 111Natureza do seu erro. 3. Por isso a doutrina e a prática do romanismo, como principal representante do sistema sacramentalista e do sistema do mérito que resulta da obediência aos Conselhos, interferem de dois modos na realidade da provação: primeiro, retirando em certa medida a responsabilidade do crente na sua provação; segundo, aplicando uma prova supérflua e limitada. No cristianismo, a provação é a mesma para todos, e para todos por igual. Não se quer dizer que esses sistemas minem de modo absoluto os fundamentos da prova humana. Conservam os seus traços gerais, com os seus desfechos eternos; mas prejudicam profundamente o seu verdadeiro caráter evangélico.
Conclusão. V. Os princípios gerais da doutrina aqui exposta encontram-se na Analogia da religião do bispo Butler, cujos capítulos sobre o estado de prova, o governo moral de Deus e o estado de provação devem ser estudados com atenção (Butler, Analogia, cap. IV). Alguns excertos de caráter defensivo podem encerrar apropriadamente estas observações.
A provação no plano cristão. “A doutrina geral da religião, de que a nossa vida presente é um estado de provação para uma vida futura, abrange vários elementos particulares, distintos uns dos outros. Mas o seu primeiro e mais comum sentido parece ser este: que o nosso interesse futuro está agora pendente, e pendente de nós mesmos; que temos aqui campo e oportunidade para aquele bom e mau procedimento que Deus recompensará e punirá no futuro, juntamente com tentações para um, assim como motivos da razão para o outro. E isso é, em grande medida, o mesmo que dizer que estamos sob o governo moral de Deus e que teremos de lhe prestar contas das nossas ações. Pois a noção de uma prestação de contas futura e de um juízo geral e justo implica alguma espécie de tentação para o que é mau; de outro modo não haveria possibilidade moral de fazer o mal, nem fundamento para julgamento ou discriminação. Mas há esta diferença: a palavra provação exprime de modo mais distinto e particular as seduções para o mal, ou as dificuldades de aderir uniformemente ao que é reto, e os perigos de fracassar por causa dessas tentações, do que as palavras governo moral.
III, 112“Mas o que aqui se sustenta é que o estado de prova em que a religião nos ensina que estamos se torna crível por ser, em tudo, uniforme e coerente com o procedimento geral da Providência para conosco em todos os outros aspectos que estão ao alcance do nosso conhecimento. De fato, se a humanidade, considerada apenas na sua condição de habitante do mundo, se achasse, desde o nascimento até a morte, num estado firme de segurança e felicidade, sem nenhuma preocupação nem reflexão da sua parte; ou se não corresse nenhum perigo de ser levada a incômodos e aflições pelo descuido ou pela loucura da paixão, pelo mau exemplo, pela traição dos outros ou pelas aparências enganosas das coisas; se fosse essa a nossa condição natural, então poderia parecer estranho, e seria alguma presunção contra a verdade da religião, que ela apresentasse o nosso interesse futuro e mais geral não como algo garantido por si mesmo, mas como dependente do nosso procedimento e como algo que exige atenção e domínio próprio para ser alcançado. Pois se poderia alegar: ‘O que vocês dizem ser a nossa condição num aspecto não se parece de modo algum com aquilo que, pela experiência, achamos ser a nossa condição em outro. Todo o nosso interesse presente nos é garantido nas mãos, sem nenhuma preocupação da nossa parte; e por que o nosso interesse futuro, se é que temos algum, não seria assim também?’ Mas, visto que, pelo contrário, a reflexão e a ponderação, a renúncia voluntária a muitas coisas que desejamos e um modo de proceder que está longe de nos ser sempre agradável são absolutamente necessários para que desempenhemos ao menos um papel comumente decente e comumente prudente, de modo a atravessar com alguma satisfação o mundo presente e ser recebidos nele em termos razoavelmente bons; visto que é esse o caso, fica removida toda presunção contra a necessidade da abnegação e da atenção para garantir o nosso interesse mais elevado. Se não tivéssemos a experiência, talvez se pudesse argumentar, com alguma aparência de razão, que é improvável que um Ser infinito pusesse sobre nós algo de risco e perigo, quando tudo o que é risco e perigo na nossa maneira de conceber, e que terminará em erro, confusão e miséria, já é agora certo na sua presciência.”
Certeza. A plena confiança da salvação, que o Espírito divino produz no crente, estuda-se melhor sob dois aspectos. Primeiro, há o fundamento objetivo e externo da certeza, provido na obra da redenção e nos meios de graça. Segundo, há a certeza individual da fé, da esperança e do entendimento, baseada no primeiro ou dele decorrente pela operação do Espírito Santo. Depois de considerar esses dois aspectos, teremos de examinar os vários pontos em que as confissões cristãs divergem nessas importantes questões.
Quanto à certeza interna, muito já se disse a respeito da evidência que o Espírito dá das várias bênçãos da aliança cristã; e quanto à externa, algo se acrescentará na doutrina dos sacramentos. Mas aqui é necessária uma visão geral do fundamento e da natureza da certeza, por pertencer à teologia da provação.
Objetiva. O fundamento externo e eterno da certeza, para a Igreja cristã, de que a aliança da graça é segura é a ressurreição do seu Fiador, declarada historicamente e confirmada pelo Espírito Santo. Essa confirmação, porém, está ligada a certos meios de graça instituídos, que são penhores permanentes da fidelidade divina.
A ressurreição. I. A ressurreição do nosso Senhor é apresentada em todo o Novo Testamento como o fundamento permanente da confiança cristã, especialmente por são Paulo, que conheceu o Redentor somente como ressuscitado. Na sua Primeira Epístola aos Coríntios, ele escreve: se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e é vã a fé que vocês têm (1Co 15.14). Pregando em Antioquia o seu primeiro sermão registrado, ele assinala com muita ênfase o penhor dado na ressurreição de Cristo. O Pai recebe o Filho: Você é meu Filho; hoje eu gerei você! (At 13.33); gerado perfeitamente na natureza humana como o Mediador consumado, Sacerdote, Profeta e Rei. Voltando-se para nós, ele diz: cumprirei a favor de vocês as santas e fiéis promessas feitas a Davi (At 13.34), como penhor do cumprimento de toda a promessa feita aos nossos pais (At 13.32). Para os que duvidam da ressurreição de Cristo, não só não há certeza quanto à verdade do cristianismo, como não há certeza de nenhuma revelação de Deus; e daí ao ceticismo universal há apenas um passo. Isso já foi exposto ao tratarmos da obra mediadora. Basta agora resumir:
III, 114Selo da Expiação. 1. Na ressurreição de Cristo, o corpo dos crentes recebe a certeza de que o pecado foi abolido, como condenação e como poder. Com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados (Hb 10.14): aperfeiçoou o fundamento da certeza deles, de onde lhes vem a ousadia para entrar no Santuário (Hb 10.19). São Paulo diz, em nome de toda a companhia dos santos: Estou crucificado com Cristo! (Gl 2.19). A certeza dele é a certeza de todos os que estão unidos ao Redentor: a de que a vida do Redentor, que se segue à sua morte expiatória, declara a abolição eterna da pena e da força da lei.
Penhor de vida. 2. A sua ressurreição é o penhor da presença de um Salvador vivo e onipotente no céu: Este é o Senhor de todos (At 10.36), disse são Pedro no seu grandioso parêntese [N. do T.: na versão inglesa usada por Pope, essas palavras vêm entre parênteses]; isto é, aquele Jesus a quem Deus ressuscitou no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto (At 10.40). Como o Senhor vivo que morreu, ele mesmo dá a certeza na sua última e mais gloriosa manifestação na terra: Não tenha medo. Eu sou o primeiro e o último e aquele que vive. Estive morto, mas eis que estou vivo para todo o sempre, [Amém], e tenho as chaves da morte e do inferno (Ap 1.17-18) [N. do T.: a NAA não traz o “Amém”]. O AMÉM intercalado é comum a Cristo e à Igreja: o selo mútuo de uma plena certeza. Este é o penhor vivo, ou sacramento, no céu. É necessário que o céu o receba até os tempos da restauração de todas as coisas (At 3.21): a tradução dada pela teologia luterana, o qual deve receber os céus (isto é, por nós), é boa teologia, mas má interpretação. Cristo, porém, está no céu, e é a verdadeira árvore da vida, que se encontra no paraíso de Deus (Ap 2.7). Desta certeza a Igreja poderia dizer: BASTA; que isto ocupe o lugar de todos os outros penhores e sacramentos.
III, 115Meios de graça. II. Mas no desígnio de Deus, querendo mostrar mais abundantemente aos herdeiros da promessa que o seu propósito era imutável (Hb 6.17) [N. do T.: a NAA traz “com mais clareza”], isso não basta. O que a presença de Cristo no céu é como penhor imperecível, os meios de graça o são na terra.
São selos. 1. De modo geral, todos os meios de graça são também selos da graça: a Palavra ou a Bíblia, a oração, a casa de Deus, a assembleia, o sábado cristão [N. do T.: isto é, o domingo], são todos ordenanças permanentes que garantem a certeza da salvação. Toda a instituição do cristianismo exterior é um atestado da fidelidade divina à aliança da graça, um memorial permanente do Senhor ressuscitado.
Sacramentos. 2. De modo específico, os sacramentos são penhores e selos silenciosos, além de instrumentos da graça: assim é o batismo, no limiar, e assim é a eucaristia, lá dentro; ambos são selos da graça da justificação, da regeneração e da santificação. O batismo é para sempre o penhor da primeira e da constante purificação do pecado. A eucaristia é o penhor da primeira e da constante participação em Cristo: sob esse ponto de vista, ela é a continuação do batismo; e os dois se unem para assegurar a certeza da salvação que temos em comum.
Apenas objetivos. 3. Todos esses são penhores externos ou objetivos da certeza. A própria existência de uma instituição de culto, a água sempre corrente do batismo e a mesa sempre posta são sinais silenciosos de que a salvação está conosco: vemos o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem (Jo 1.51). Essas ordenanças estão a meio caminho entre nós e o sacramento vivo e eterno no céu: são ordenanças seladoras na Igreja. Aproximamo-nos delas como penhores exteriores e visíveis, VERBA VISIBILIA [palavras visíveis], que clamam na terra como a ressurreição de Cristo clama no céu: saibam que é por meio de Jesus que a remissão dos pecados é anunciada a vocês (At 13.38). Mas o penhor externo se torna interno: o selo de fora torna-se o selo de dentro.
Subjetiva. A bênção da certeza pessoal é dom do Espírito Santo, cujo ofício é dar o seu testemunho: À consciência, da justificação; COM o espírito, da adoção; e NA alma, da santificação. Essa certeza é a certeza da fé quanto ao presente, da esperança quanto ao futuro e do entendimento, que está na base de tudo. Assim como essa certeza interior não é independente dos selos e penhores exteriores, também ela mesma é verificada pelo testemunho dos frutos da fé na vida. O testemunho do Espírito é um com o testemunho da consciência, embora não seja um e o mesmo.
O testemunho do Espírito. O Espírito Santo exerce, como já vimos, duas classes de ofício em favor do Redentor. Ele testifica À alma a virtude das coisas de Cristo e efetua DENTRO da alma a formação do próprio Cristo. Há um sentido em que ambas estão igualmente dentro do espírito humano; mas agora consideramos o seu testemunho como, por assim dizer, exterior.
Quanto ao perdão. 1. Não se diz expressamente que ele dá a certeza do perdão. Isso está antes implícito e envolvido do que declarado. O Salvador declarava o perdão pessoal em seu próprio nome, para que os homens soubessem que o Filho do Homem tem autoridade sobre a terra para perdoar pecados (Mt 9.6). Tantas vezes ele pronunciou essa palavra que não podemos duvidar de que ouvi-la seja prerrogativa universal da penitência. Pode-se dar por certo que essa fórmula, a mais bendita de todas, estava entre as que o Espírito Santo haveria de trazer para sempre à lembrança, embora nosso Senhor a tenha, por assim dizer, reservado para si. Se os seus servos haveriam de pronunciá-la em nome dele, seria somente como órgãos do Espírito. Jesus foi exaltado por Deus para conceder o arrependimento e a remissão de pecados, da qual há duas testemunhas: primeiro, os pregadores do evangelho, nós somos testemunhas destes fatos; segundo, o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem (At 5.31-32). É por meio do Espírito da vida, em Cristo Jesus, que sabemos que já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1-2). O perdão de nosso Senhor, porque é dele, é o seu Agente quem sempre o pronuncia.
Quanto à adoção. 2. Um dos seus nomes é Espírito de adoção (Rm 8.15). Embora seja o nosso próprio espírito regenerado que, por assim dizer, naturalmente diz Aba, Pai (Gl 4.6), é o Espírito Santo no nosso espírito: a distinção entre o espírito regenerado e o Espírito Santo quase se perde no Novo Testamento. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito (Rm 8.16) [N. do T.: a NAA traz “O próprio Espírito confirma ao nosso espírito”; Pope segue a KJV, beareth witness with our spirit, e o argumento se apoia nesse “com”]: συμμαρτυρεῖ τῷ πνεύματι ἡμῶν. Ele mistura a sua vida e o seu sopro com os nossos: nós clamamos Pai, mas não nós, e sim o Espírito em nós e conosco. O σύν preserva a distinção, mas ela se perde de novo no clamor filial.
III, 117Quanto à santidade. 3. No templo do privilégio cristão, o Espírito é um selo silencioso de consagração: vocês receberam o selo do Espírito Santo da promessa (Ef 1.13). Este é o Espírito pessoal do testemunho, AQUELE QUE é o penhor, ὅς [o qual, no masculino] (Ef 1.14), e a respeito de quem somos exortados: não entristeçam o Espírito Santo de Deus (Ef 4.30). Note-se que é a epístola do templo que alude ao selo e não menciona nenhum outro testemunho do Espírito, embora este inclua e aperfeiçoe todos os demais.
Confiança. A segurança do crente é constantemente designada por dois termos: certeza e confiança. Podem ser considerados primeiro como correspondentes um ao outro, e depois como unidos: o primeiro é a segurança do homem interior; o segundo, a expressão dela na vida exterior.
Plena certeza da fé. I. Os casos em que se usa o primeiro termo, πληροφορία, são três, e devem ser observados na sua ordem.
1. São Paulo, na sua Primeira Epístola, fala do evangelho que chegou aos tessalonicenses em plena convicção (1Ts 1.5) [N. do T.: o grego é o mesmo πληροφορία; a NAA o traduz ora por “plena convicção” (1Ts 1.5; Cl 2.2), ora por “plena certeza” (Hb 6.11; 10.22)], o que ele explica depois como a palavra de Deus, a qual está atuando eficazmente em vocês, os que creem (1Ts 2.13). Esta é a certeza interior de que ele fala como o receber o selo do Espírito Santo da promessa, ἐσφραγίσθητε, tendo nele também crido, πιστεύσαντες, isto é, no momento em que creram (Ef 1.13); e é preciso observar que o termo empregado conota tanto o selar para Deus como o selar da verdade para o próprio crente. O primeiro sentido está mais em harmonia com outros casos do seu uso no Novo Testamento, mas o segundo não pode ser excluído; na verdade, é o preferido por muitos expositores, que parecem confundir o selar da verdade para a mente com o selar da mente que a recebe. Os crentes recebem a certeza da palavra da verdade, do evangelho da salvação, ao crerem; e essa certeza deles é o seu selo para Deus. Eles conservam essa confiança e sempre se aproximam em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência (Hb 10.22). Isso é obra do Espírito; não pertence à essência da própria fé, mas é a sua mais alta prerrogativa; é o privilégio geral dos que verdadeiramente creem.
III, 118Da esperança. 2. Quanto ao futuro, a fé é esperança: a sua confiança muda um pouco de caráter. Confiança absoluta quanto ao presente, ela pode crescer no que diz respeito ao futuro. Desejamos que cada um de vocês continue mostrando, até o fim, o mesmo empenho para a plena certeza da esperança (Hb 6.10-11): πρὸς τὴν πληροφορίαν τῆς ἐλπίδος ἄχρι τέλους. Cada vez mais plena à medida que cresce o labor ou a dedicação do amor (1Ts 1.3), ela nunca cresce a ponto de deixar de ser esperança. Torna-se, de fato, a plena certeza da esperança: expressão sutil e belíssima, que só a experiência pode compreender; o dar substância às coisas que se esperam.
Do entendimento. 3. Só uma vez se fala da plena convicção do entendimento: são Paulo ora em favor dos colossenses, para que acrescentem às outras duas espécies de certeza uma confiança do entendimento, συνέσεως, abundante e sem sombra, em todas as verdades que pertencem ao mistério de Deus, que é Cristo (Cl 2.2). Isso significa que é privilégio de todos os que recebem a Cristo ter uma apreensão intelectual e experiencial dele e de todo o círculo da sua doutrina. Eles conhecem verdade, segundo é verdade em Jesus (Ef 4.21) [N. do T.: a NAA traz “segundo é a verdade em Jesus”; Pope cita sem o artigo, e nisso se apoia a distinção que vem a seguir]: isto é, não apenas a verdade, mas verdade. Têm o conhecimento mais alto, que é o conhecimento da fé; têm tal fé nesse Objeto que ela se torna a certeza do conhecimento. Este é aquele TESTIMONIUM SPIRITUS SANCTI [testemunho do Espírito Santo] que as antigas confissões sustentavam: o selo do Espírito Santo que confirma ao crente a verdade da Fé cristã, sem o qual toda crença do entendimento é morta.
Ousadia. II. O segundo termo, παῤῥησία, aparece em notável correspondência com o primeiro.
Da fé. 1. Há no Novo Testamento uma παῤῥησία para cada πληροφορία: a profissão exterior daquela certeza interior. Somos exortados a aproximar-nos do trono da graça com confiança, a fim de recebermos misericórdia (Hb 4.16): a confiança com que pedimos a misericórdia e o socorro em momento oportuno, de que ainda e sempre precisamos, é a confiança da ousadia que se expressa em palavras. Isso equivale à expressão exterior da confiança interior no nosso Sumo Sacerdote, que se compadece de nós: conservemos firmes a nossa confissão (Hb 4.14). A certeza interior e a exterior andam juntas, ou se unem ao pé do trono. Temos ousadia e acesso a Deus com confiança, mediante a fé nele (Ef 3.12): expressão vigorosa, em que a fé, a sua certeza e a sua fala confiante a Deus são delicadamente distinguidas. E esta é a confiança que temos para com ele (1Jo 5.14), πρὸς αὐτόν: esse πρὸς tem um sentido muito amplo; é a preposição mais forte que se poderia usar para significar a familiaridade íntima da confiança. Aqui está, pois, a fala confiante da plena certeza da fé.
III, 119Da esperança. 2. Portanto, não percam a confiança de vocês, τὴν παῤῥησίαν ὑμῶν: esta é a confiança da esperança, pois vocês precisam perseverar (Hb 10.35-36); daquela esperança em que a fé é a certeza de coisas que se esperam (Hb 11.1). E ainda: E agora, filhinhos, permaneçam nele, para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança, παῤῥησίαν, isto é, não a tenhamos perdido, e não sejamos envergonhados, tendo de nos afastar dele no dia da sua vinda (1Jo 2.28). A fé é certa agora; como esperança, é condicionalmente certa e precisa perseverar, se não quiser ser envergonhada. Aqui está, pois, a expectativa confiante e a expressão ousada da plena certeza da esperança.
Do entendimento. 3. Por fim, a confiança e a ousadia da confissão correspondem à plena certeza do entendimento. Os que desempenharem bem o diaconato alcançarão para si mesmos uma posição de honra e muita ousadia, παῤῥησίαν πολλήν, na fé em Cristo Jesus (1Tm 3.13). A recompensa da fidelidade do diácono é a bênção de uma confiança inabalável na verdade daquilo que prega. Quando o apóstolo diz: Tendo, pois, tal esperança, agimos com muita ousadia, παῤῥησία (2Co 3.12), ele se refere àquela proclamação firme e tranquila que a visão do Cristo sem véu inspira. À medida que cresce a ousadia da esperança, cresce também a confiança do entendimento. A bênção transcendente da fé, da esperança e do entendimento é uma só nessa ousadia da confissão que crê e não treme, que crê e se eleva acima de toda sombra de dúvida.
Hebreus. III. A Epístola aos Hebreus, que nos deu tantas ilustrações da nossa doutrina, resume no fim o seu próprio ensino sobre a certeza e a ousadia numa frase que deixa de lado as duas palavras, mas conserva o seu sentido, assim como resume a sua doutrina do altar e do templo em termos novos: Temos um altar! (Hb 13.10). Ἔστι δὲ πίστις ἐλπιζομένων ὑπόστασις, πραγμάτων ἔλεγχος οὐ βλεπομένων [Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem] (Hb 11.1). O grande capítulo da fé contém a sua plena certeza da aceitação presente, a sua plena certeza de uma esperança condicional e a sua plena certeza do entendimento quanto aos três artigos supremos de toda fé: a respeito de Deus, que ele existe e que recompensa os que o buscam (Hb 11.6); a respeito da justiça do evangelho, a justiça que vem da fé (Hb 11.7); e a respeito da pátria superior da vida eterna, na qual todos os santos serão aperfeiçoados (Hb 11.40). Como somos salvos na esperança, a fé como esperança vem em primeiro lugar: a fé dá corpo e substância às coisas invisíveis e futuras, para a experiência presente da sua realidade e a confiança na sua posse futura; e os seus esforços por tornar perfeita a sua certeza da esperança são o assunto de todo o capítulo e fazem das duas economias da graça uma só. Todo o teor do capítulo dá testemunho da boa confissão da fé, a παῤῥησία da sua πληροφορία.
Relação entre a certeza exterior e a interior. A certeza interior está ligada à exterior; guarda-a e confirma-a; e ela mesma é guardada e confirmada pela evidência dos frutos da santidade, ou pelo testemunho de uma consciência pura. Isso pode ser chamado de testemunho do nosso próprio espírito, embora a Escritura não o designe assim.
Não de modo absoluto. 1. A certeza direta, ou testemunho do Espírito Santo, repousa geralmente sobre o testemunho indireto dos penhores exteriores. (1) Pode haver desvios ocasionais dessa lei: por exemplo, quando a vocação do evangelho independe da igreja cristã e da sua organização; quando, em certos tratos transcendentes e irregulares da graça divina, a alma é arrebatada a uma região mais alta que as ordenanças estabelecidas. Os meios de graça públicos ordinários, incluindo os sacramentos, podem às vezes parecer ligados apenas indiretamente à certeza da alma. (2) Mas a Palavra de Deus e a oração são invariavelmente o veículo, o instrumento e o canal pelos quais ele comunica a certeza: ela vem em resposta à oração, às vezes solitária e às vezes apenas jaculatória; e geralmente por meio da aplicação à alma das promessas da Sagrada Escritura. Também nos gloriamos em Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo, mediante o qual recebemos, agora, a expiação (Rm 5.11) [N. do T.: Pope segue a KJV, we have now received the atonement; a NAA traz “recebemos, agora, a reconciliação”]: a Expiação objetiva, provida em Cristo para todos os homens, tem de ser recebida e interiormente apropriada; e sem essa apropriação, pela fé na palavra da reconciliação, não pode haver confiança diante de Deus. A respeito dessa recepção se diz que o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rm 5.5): derramado na consciência.
III, 121O selo do selo. 2. Este é o selo que a própria alma, na sua experiência, põe sobre a verdade e o valor dos penhores exteriores. Recebendo o testemunho dado na Palavra e nos sacramentos a uma graça celestial provida para o homem, o crente satisfeito, que encontra em si mesmo a própria certeza do Espírito, aceitou o seu testemunho e confirmou com o seu selo que Deus é verdadeiro (Jo 3.33) [N. do T.: a NAA traz “certifica que Deus é verdadeiro”; Pope segue a KJV, hath set to his seal, e o argumento se apoia na imagem do selo]: acrescentou o seu próprio selo ao selo de Deus. Assim, o selo interior do Espírito se torna, para os que creem, o seu próprio selo do sacramento exterior: eles podem dizer: Agora não é mais por causa do que você falou que nós cremos, mas porque nós mesmos ouvimos (Jo 4.42).
O testemunho do nosso próprio espírito. 3. A evidência do Espírito, baseada na Palavra e no sacramento, é guardada pelo testemunho ético e moral da vida. Onde quer que se mencione a certeza dada pelo Espírito, encontra-se bem perto o apelo às evidências que dela resultam e que nunca faltam: a devoção, a obediência e a caridade. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porque vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: “Aba, Pai” (Rm 8.14-15). O primeiro versículo dá a prova pela qual sabemos que somos filhos de Deus: a prova da nossa submissão ao seu Espírito. O segundo dá outra prova: a voz do Espírito de adoção dentro de nós. A respeito de ambas, e unidas, se diz: se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele (Rm 8.9). Assim também, na Primeira Epístola de são João, o Espírito que testifica, que habita em nós e que renova é um só e indistinguível. Nisto conhecemos que permanecemos nele (aceitos no Amado) e que ele permanece em nós (realizando a nossa santidade): pelo fato de nos ter dado do seu Espírito (1Jo 4.13). Deus Espírito Santo não suplanta a consciência no seu testemunho: ele honra aquela antiga representante da voz divina dentro da natureza do homem; e nunca separa a sua evidência da evidência da consciência moral subjetiva, que condena ou aprova (neste caso, aprova) segundo o padrão da lei escrita no coração, ou seja, a consciência objetiva. Ele é, de fato, maior do que o nosso coração (ou consciência) e conhece todas as coisas (1Jo 3.20). Ele conhece o mistério da Expiação e pode silenciar o coração que acusa. Mas, se dá a certeza do perdão, confia essa certeza à consciência como sua guardiã; de modo que, se o coração não nos acusar, temos confiança diante de Deus (1Jo 3.21). O mesmo apóstolo que disse: nos gloriamos em Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo, mediante o qual recebemos, agora, a expiação (Rm 5.11), καυχώμενοι, disse também: Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência (2Co 1.12), καύχησις ἡμῶν. A repetição dessa palavra expressiva merece consideração. O mesmo gloriar-se que o Espírito Santo inspira ao derramar no coração o amor de Deus (Rm 5.5) reaparece como o gloriar-se da alma regenerada, consciente apenas de viver na graça divina, com simplicidade e sinceridade de Deus (2Co 1.12).
III, 1224. Assim, Deus, quando quis mostrar com mais clareza aos herdeiros da promessa que o seu propósito era imutável (Hb 6.17), deu selo sobre selo, penhor sobre penhor. O Espírito Santo, o Παράκλητος [Consolador], nos dá forte alento (Hb 6.18), ἰσχυρὰν παράκλησιν [forte consolação]. Há os penhores silenciosos, nos quais cada emblema, mesmo morto, ainda fala; há a certeza pessoal interior, o sacramento no coração; há o testemunho da vida, que confirma e atesta; e, acima de tudo, como o céu está acima de tudo, o Filho do Homem ressuscitado, o Mediador crucificado na terra, que no Santo dos Santos é o nosso Fiador vivo, o qual entrou no próprio céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus (Hb 9.24).
História. Quando levamos as várias confissões a esse padrão de doutrina e as provamos por este único artigo da certeza, encontramos muitas variações de maior ou menor importância.
Sacramental. I. A doutrina sacramentalista da certeza contém alguns elementos de verdade muitíssimo importantes, como já se viu, mas também alguns erros, que podem ser notados nas seguintes tendências.
Romana. 1. No romanismo e nas teorias romanizantes, ela faz da evidência da salvação um concomitante do sacramento da penitência, ou da absolvição sacerdotal; e essa evidência, quando recebida, é intermitente e ocasional e depende da contingência de um cumprimento suficiente das condições. Fica muito abaixo da dignidade e da bem-aventurança de uma comunicação direta do Espírito eterno ao espírito do crente em Cristo.
O seu acerto e o seu erro. 2. A teoria sacramental em geral nega, com razão, que a qualquer mortal seja dada a certeza da aceitação final, visto que o dia do juízo é a revelação que sela e a última certeza de segurança: esperando a misericórdia do nosso Senhor Jesus Cristo, que conduz para a vida eterna (Jd 21). Mas com demasiada frequência ela se recusa a admitir um estado de certeza presente como incluído nas provisões da aliança cristã, pelo menos como privilégio comum de todos os que creem.
III, 123Carisma. 3. Ela introduziu um carisma especial, ou dom da certeza da perseverança, um selo para os eleitos dentre os Eleitos: combinando assim num só privilégio extraordinário a certeza da fé quanto ao presente e a da esperança quanto ao futuro; ou, em outras palavras, acrescentando ao testemunho do Espírito um penhor da perseverança final.
Humildade indevida. 4. Em algumas formas, ela desceu muito abaixo da verdadeira doutrina. É o caso, por exemplo, dos que recuam tanto diante do fanatismo (como eles o chamam) da doutrina da certeza que chegam a negar por completo a possibilidade de alcançá-la. Isso é às vezes um exagero da humildade ascética, às vezes um recuo irracional diante do entusiasmo [N. do T.: no século XVIII, “entusiasmo” designava a pretensão de receber inspirações ou revelações particulares, o fanatismo religioso], e às vezes o resultado de uma preponderância indevida dada ao lado mais severo da provação.
Mística. II. O misticismo sempre foi pródigo em desenvolvimentos próprios e peculiares da doutrina da certeza no estado de provação.
Sadia. 1. A sua melhor e mais pura teologia tem sustentado, em geral, uma certeza presente da fé, comunicada geralmente, embora nem sempre, mas sem a certeza absoluta quanto ao futuro. Às vezes subestimou os fundamentos objetivos da confiança, por dar preferência à luz interior. O misticismo foi em todas as épocas, de modo declarado ou virtual, uma reação e um protesto contra a dependência supersticiosa dos apoios externos da certeza cristã, e era de esperar esse exagero da exclusividade do testemunho interior. Esse exagero se vê entre os pietistas da Alemanha, entre os Amigos [N. do T.: a Sociedade dos Amigos, os quacres] e, ocasionalmente, entre os metodistas menos instruídos: de fato, entre todos os que foram despertados de repente, por fortes marés de avivamento religioso, da indiferença ou do cerimonialismo para a busca intensa da salvação pessoal.
Quietismo. 2. Os místicos extravagantes dos tipos iluminista e quietista erraram gravemente: os primeiros, esquecendo as condições da certeza, o arrependimento e a fé; os segundos, fazendo a perfeição da religião consistir numa indiferença absoluta à certeza, à evidência e ao sentimento de toda espécie. A sua doutrina do amor desinteressado, levada ao extremo da completa extinção do desejo do céu e do medo do inferno, derruba o próprio fundamento de qualquer teoria da evidência pessoal da salvação.
III, 124Calvinista. III. A doutrina da Certeza ensinada pelo que se pode chamar sistema calvinista, por um lado, fica aquém do padrão da Escritura, enquanto, por outro, vai além do seu ensino claro. É preciso estudar tanto a falta como o excesso.
Falta. 1. Fica aquém da confiança calma e firme que todo o Novo Testamento declara ser, para o momento presente, o privilégio daquele que crê em Cristo. (1) Distingue com excessiva nitidez entre a certeza e a fé, e inclina-se antes a supervalorizar os fundamentos externos da confiança em comparação com os internos. Sem dúvida a fé pode existir sem a certeza; nem a certeza é absoluta e incondicionalmente necessária à salvação. Mas, embora a fé em si mesma não tenha nenhum pensamento reflexo sobre si, pois olha só para Cristo, na sua perfeita energia salvadora ela é acompanhada pela certeza, que na verdade não se distingue da fé no seu exercício mais elevado. Ele me amou e se entregou por mim (Gl 2.20): esse foi o testemunho de são Paulo, que, embora só uma vez tenha falado nesse estilo de confiança apropriadora, evidentemente quis definir pelo seu privilégio mais elevado a verdadeira fé no Filho de Deus, na qual o cristão vive. (2) Faz da certeza um privilégio especial dos poucos que, por meio de muita disciplina, a alcançam como dom de Deus; e, por isso, demora-se demais nas alternâncias e flutuações da experiência a que apraz a Deus sujeitar os crentes, para provar a sua constância. (3) Confunde a certeza da fé presente com a certeza da esperança: faz da primeira apenas a confiança de que Jesus é, de modo geral, o que se declara que ele é, e da segunda a confiança na salvação pessoal. Essa distinção é contrária à Escritura, que não apresenta como objeto da fé salvadora apenas a Pessoa, a obra, o poder e a disposição de Cristo de nos salvar de modo geral, se crermos, mas também a sua relação presente com cada um de nós como Salvador. Enquanto a fé não abraça o Senhor como Libertador pessoal, não é aquela fé na sua integridade de que agora falamos. Admitindo que uma firme confiança apropriadora em Cristo, à parte da evidência dela, garante a salvação, na medida em que a salvação é um ato objetivo de Deus, a salvação subjetiva, ou experimentada, não tem sentido sem o conhecimento dela. A palavra não tem o seu pleno significado nem os seus perfeitos direitos enquanto o objetivo e o subjetivo não se fundem. Isso ficará bem claro se trocarmos a expressão por justificação, perdão, adoção ou vida dentre os mortos. Essas bênçãos pronunciadas por Deus têm de ser ouvidas pelo homem; do contrário, não são verdadeiramente dele. Por isso a Palavra de Deus manda aos que se supõe terem a certeza da fé presente que confirmem continuamente a confiança da sua esperança por meio de uma vida santa.
III, 125Excesso. 2. Por outro lado, vai além do padrão da Escritura. Uma vez alcançada, a certeza é indefectível. Enquanto a essência da fé salvadora é considerada como a certeza de que Cristo, de modo geral, é tudo o que dele se apresenta e fará tudo o que promete (uma fé, portanto, repetimos, independente, como tal, de qualquer apropriação pessoal), a certeza da nossa própria salvação pessoal é um fruto independente que a fé produz e uma alta conquista da vida espiritual. É a confiança, operada por Deus no íntimo, de uma salvação eterna; e a exortação a não abandonar essa confiança é, se não supérflua, apenas um expediente prudencial de disciplina moral. Mas este assunto pertence à nossa próxima seção.
Confissão de Westminster. 3. Tanto a falta como o excesso da doutrina, e também os seus pontos verdadeiros, se veem nas seguintes palavras da Confissão de Westminster: “Esta certeza infalível não pertence de tal modo à essência da fé que um verdadeiro crente não possa esperar muito tempo e lutar com muitas dificuldades antes de participar dela; contudo, sendo capacitado pelo Espírito a conhecer o que por Deus lhe foi dado gratuitamente, ele pode alcançá-la sem revelação extraordinária, pelo uso correto dos meios ordinários. Por isso é dever de cada um empenhar toda a diligência para confirmar a sua vocação e eleição.” Há aqui certa incoerência em fazer de um dom gratuito o resultado de uma busca diligente. Quando se acrescenta que “os verdadeiros crentes podem ter a certeza da sua salvação abalada de diversos modos”, isso é verdade quanto a toda certeza, embora não exatamente no sentido deste documento.
Metodismo. IV. O metodismo fez muito para livrar a doutrina bíblica da Certeza dos mal-entendidos que a obscureceram. No seu sistema de ensino religioso, os seguintes pontos recebem destaque e definição precisa.
Privilégio comum. 1. Afirma-se que ela é o PRIVILÉGIO COMUM de todos os que creem, pois acompanha cada bênção da aliança cristã: não pertence, é verdade, à essência da fé justificadora, mas é um resultado dela que se pode esperar e que se deve buscar.
III, 126(1.) Sobre o primeiro ponto, diz o sr. Wesley: “A fé justificadora é um senso do perdão? Negatur [Nega-se]. 1. Todos têm profundo interesse em entender bem esta questão, mas os pregadores mais do que todos. 2. Por fé justificadora entendo aquela fé sem a qual qualquer pessoa está debaixo da ira e da maldição de Deus. Por um senso do perdão entendo uma certeza distinta e explícita de que os meus pecados estão perdoados. Admito: (1) que existe uma certeza explícita; (2) que ela é o privilégio comum dos verdadeiros cristãos; (3) que ela é a fé cristã propriamente dita, que ‘purifica o coração’ e ‘vence o mundo’. Mas não posso admitir que a fé justificadora seja uma tal certeza, ou que esteja necessariamente ligada a ela. 3. Porque, se a fé justificadora implica necessariamente uma tal certeza explícita do perdão, então todo aquele que não a tem, e qualquer um enquanto não a tem, está debaixo da ira e da maldição de Deus. Mas essa é uma suposição contrária tanto à Escritura como à experiência. Contrária a Is 50.10 e a At 10.34-35. Além disso, a afirmação ‘a fé justificadora é um senso do perdão’ é contrária à razão: é francamente absurda. Pois como pode um senso do perdão ser a condição para o recebermos?” (Wesley, Obras XII, 109-110).
(2.) Quanto ao segundo: “A segunda inferência é esta: que ninguém descanse em algum suposto fruto do Espírito sem o testemunho. Pode haver antegozos de alegria, de paz, de amor, e esses não ilusórios, mas realmente vindos de Deus, muito antes de termos o testemunho em nós mesmos; antes que o Espírito de Deus testifique com o nosso espírito que temos ‘a redenção pelo sangue de Jesus, a remissão dos pecados’. Sim, pode haver certo grau de longanimidade, de benignidade, de fidelidade, mansidão, domínio próprio (não uma sombra disso, mas um grau real, pela graça preveniente de Deus) antes que sejamos ‘aceitos no Amado’ (Ef 1.6) [N. do T.: a NAA traz “que ele nos concedeu gratuitamente no Amado”; Wesley segue a KJV, accepted in the Beloved] e, por conseguinte, antes que tenhamos um testemunho da nossa aceitação; mas de modo algum é aconselhável descansar aí; se o fizermos, será com perigo da nossa alma. Se formos sábios, clamaremos continuamente a Deus, até que o seu Espírito clame em nosso coração: ‘Aba, Pai!’ Este é o privilégio de todos os filhos de Deus, e sem ele nunca podemos ter a certeza de que somos seus filhos. Sem ele não podemos conservar uma paz constante, nem evitar dúvidas e temores desconcertantes. Mas, uma vez recebido esse Espírito de adoção, essa ‘paz, que excede todo entendimento’, e que expulsa toda dúvida e todo temor dolorosos, ‘guardará o nosso coração e a nossa mente em Cristo Jesus’. E, quando isso tiver produzido o seu fruto genuíno, toda a santidade interior e exterior, é sem dúvida a vontade daquele que nos chama dar-nos sempre o que uma vez nos deu; de modo que não há necessidade de jamais sermos privados quer do testemunho do Espírito de Deus, quer do nosso próprio, a consciência de andarmos em toda a justiça e verdadeira santidade” (Wesley, Obras V, 133).
III, 127Testemunho tríplice. (3.) Ele também mostra, em muitas passagens dos seus escritos, que o testemunho do Espírito é dado à nossa justificação, à nossa adoção e à nossa santificação, a cada uma em separado e respectivamente. Quanto às duas primeiras, não é preciso prova; quanto ao testemunho da santificação, ele diz: “A essa confiança, de que Deus é capaz e está disposto a nos santificar agora, é preciso acrescentar mais uma coisa: uma evidência e convicção divina de que ele o faz. Naquela hora isso é feito; Deus diz ao mais íntimo da alma: ‘Que se faça com você conforme a sua fé!’ Então a alma está pura de toda mancha de pecado; está purificada ‘de toda injustiça’. O crente experimenta então o sentido profundo daquelas palavras solenes: ‘Se andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado’” (Wesley, Obras XI, 53). Aqui é preciso fazer duas observações. A distinção mantida acima, entre a fé e a sua certeza, continua válida. Pela “convicção de que ele o faz” entende-se a certeza comunicada à alma de que a obra da inteira santificação está realizada. A “evidência”, que é a perfeição da própria fé, e a confiança de que ela possui o seu objeto nem sempre se mantêm separadas nos Sermões. Mas não há dúvida de que o sr. Wesley ensinou que se deve esperar o testemunho da santificação consumada. Além disso, por “santificar” ele quer dizer aqui santificar inteiramente, pois nem sempre tem o cuidado de observar a sua própria regra sobre o assunto. Não há texto da Escritura que prometa diretamente o conhecimento de uma obra interior tão grande; mas nenhum é necessário. É prerrogativa do Espírito Santo tornar evidentes à consciência a sua habitação e a sua obra: “Deus ‘nos marca com o selo do Espírito da promessa’, dando-nos ‘a plena certeza da esperança’, uma confiança tal de receber todas as promessas de Deus que exclui a possibilidade de duvidar; com aquele Espírito Santo, imprimindo em nosso coração, pela santidade universal, toda a imagem de Deus.” O assunto desta última certeza voltará a ser tratado. Por ora, basta dizer que a doutrina metodista do testemunho do Espírito abrange todo o campo da obra do Espírito. Repousa sobre o firme fundamento da Escritura, segundo a qual conhecemos o que por Deus nos foi dado gratuitamente (1Co 2.12). A certeza, nos diversos domínios da bênção da aliança, pode ter caracteres variados. Dada ao pecador perdoado, é um senso de alívio indizível para a consciência; no coração do filho adotado, é a irreprimível confiança filial; no espírito regenerado e santificado para Deus, é o selo silencioso de uma habitação divina, que permanece na alma como o senso reverente do Deus triúno dentro dela e se aprofunda na certeza de que ele enche todo o coração, ou seja, no testemunho da inteira santificação.
III, 128Direto. 2. É o TESTEMUNHO DIRETO do Espírito, não independente dos fundamentos objetivos e externos da certeza, mas dado por meio deles, ou mesmo sem eles, diretamente à alma. “A suma de tudo é esta: o testemunho do Espírito é uma impressão interior na alma dos crentes, pela qual o Espírito de Deus testifica diretamente ao espírito deles que são filhos de Deus. E não se questiona se há um testemunho do Espírito, mas se há algum testemunho direto; se há algum outro além daquele que nasce da consciência do fruto do Espírito. Cremos que há: porque esse é o sentido claro e natural do texto, ilustrado tanto pelas palavras precedentes como pela passagem paralela da Epístola aos Gálatas; porque, pela natureza da coisa, o testemunho tem de preceder o fruto que dele brota; e porque esse sentido claro da Palavra de Deus é confirmado pela experiência de inumeráveis filhos de Deus; sim, e pela experiência de todos os que são convencidos do pecado, os quais nunca podem descansar enquanto não têm um testemunho direto; e até pela dos filhos do mundo, que, não tendo o testemunho em si mesmos, todos, sem exceção, declaram que ninguém pode saber que os seus pecados estão perdoados” (Wesley, Obras V, 132). O caráter direto ou imediato desse testemunho foi combatido nos primeiros tempos do metodismo, assim como tem sido contestado, mais ou menos, em todas as épocas. A oposição, porém, foi de dois tipos. Alguns negavam a sua possibilidade, com o argumento geral de que não poderia haver salvaguarda contra o entusiasmo. Mas o Espírito dentro do espírito do homem é, para todos os que conhecem a Deus, a mais real de todas as realidades. Outros insistiam em que não poderia haver tal testemunho à parte do testemunho da consciência de um uso sincero dos meios exteriores de graça e da obediência aos mandamentos de Deus; em outras palavras, que o testemunho do Espírito teria de ser, pela natureza das coisas, indireto, se os meios de graça são os fundamentos objetivos da certeza. Mas há algumas passagens claras a respeito desse testemunho que excluem expressamente a possibilidade de ele ser dado por intermédio de algum símbolo ou sacramento. Seja qual for a voz, a palavra ou a ordenança empregada (cada uma delas e todas podem ser empregadas, e a Palavra, de alguma forma, sempre o é), a certeza tem de ser comunicada, em última instância, diretamente do Espírito ao espírito. O sr. Wesley, na sua franqueza, repetidas vezes diz menos do que o seu argumento autorizaria. Ele responde assim a um objetor: “‘Mas o testemunho direto nunca é mencionado no Livro de Deus.’ Não como estando sozinho; não como testemunho único; mas como ligado ao outro; como dando um testemunho conjunto; testificando com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16) [N. do T.: a NAA traz “O próprio Espírito confirma ao nosso espírito”; Wesley segue a KJV, beareth witness with our spirit, e o argumento se apoia nesse “com”]” (Wesley, Obras V, 131). A rigor, não há passagem que declare de modo mais absoluto o testemunho direto e único do Espírito Santo. O συμμαρτυρεῖ é de fato um testemunho conjunto; mas não se supõe que o nosso próprio espírito traga as suas inferências para serem confirmadas; antes, o testemunho do Espírito Santo à nossa adoção é dado por meio do espírito da nossa nova vida regenerada. Em outro lugar o sr. Wesley diz, com mais precisão: “a preposição σύν indica apenas que ele testifica isso ao mesmo tempo que nos capacita a clamar: Aba, Pai. Mas não insisto nisso, visto que tantos outros textos, com a experiência de todos os verdadeiros cristãos, mostram suficientemente que há em todo crente tanto o testemunho do Espírito de Deus como o testemunho do seu próprio espírito, de que ele é filho de Deus” (Wesley, Obras V, 113). Estas últimas palavras sugerem a observação de que a doutrina metodista é tratada injustamente quando se supõe que repousa sobre uma, duas ou três passagens capitais. O Sermão citado percorre uma grande variedade de provas bíblicas; e não as inclui todas. Bem perto das palavras aqui e habitualmente citadas há outras que declaram com força ainda maior o mistério da certeza interior do filho de Deus: a saber, a que fala daquele que sonda os corações ouvindo a voz do Espírito que intercede no íntimo da consciência dos seus filhos que sofrem.
III, 130Confirmado pelo testemunho indireto. 3. É sempre confirmado pela companhia do TESTEMUNHO INDIRETO, ou testemunho da consciência com base na evidência de uma vida sincera. Esta última expressão parece preferível, pela razão há pouco apresentada. Embora o sr. Wesley escreva sobre ele como “O testemunho do nosso próprio espírito”, o seu discurso trata das características de uma boa consciência. “Também não se questiona se há um testemunho ou atestação indireta de que somos filhos de Deus. Este é quase, se não exatamente, o mesmo que o testemunho de uma boa consciência para com Deus; e é o resultado da razão, ou da reflexão sobre o que sentimos em nossa própria alma. A rigor, é uma conclusão tirada em parte da Palavra de Deus e em parte da nossa própria experiência. A Palavra de Deus diz que todo aquele que tem o fruto do Espírito é filho de Deus; a experiência, ou a consciência interior, me diz que tenho o fruto do Espírito; e daí concluo naturalmente: ‘Portanto, sou filho de Deus’” (Wesley, Obras V, 125). Esse testemunho é indireto enquanto conclusão; mas, enquanto consciência da experiência, ou da consciência moral, que é a consciência no campo moral, é tão direto quanto o do próprio Espírito, de quem se pode dizer que testifica juntamente com a nossa consciência [N. do T.: Pope distingue consciousness (a percepção interior) de conscience (a consciência moral); o português tem uma só palavra para as duas]. Os dois estão sempre unidos na experiência perfeita do cristão. Mas ambos admitem variações. “Nem afirmamos que possa haver algum Ambos os testemunhos são variáveis. testemunho real do Espírito sem o fruto do Espírito. Afirmamos, ao contrário, que o fruto do Espírito brota imediatamente desse testemunho: nem sempre, é verdade, no mesmo grau, mesmo quando o testemunho é dado pela primeira vez; e muito menos depois. Nem a alegria nem a paz permanecem sempre no mesmo ponto; não, nem o amor; assim como também o próprio testemunho não é sempre igualmente forte e claro.” Nenhuma das doutrinas a que o metodismo dá destaque é mais diligentemente cercada e defendida contra a imputação de fanatismo do que esta do testemunho direto e indireto do Espírito Santo.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 100-130, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.