W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · A administração da redenção (continuação)

A perseverança

III, 131A GRAÇA DA PERSEVERANÇA.

Perseverança. Na aliança cristã se faz provisão para que a religião se mantenha na alma até o fim. A fonte desta graça é a intercessão eficaz de Cristo, que cuida dos seus. A sua manifestação é o poder todo-suficiente do Espírito Santo; na sua natureza e operação, ela é superabundante e persistente; não, porém, indefectível, mas condicionada à perseverança na fidelidade.

A graça e o dogma. O assunto, no seu conjunto, pertence tanto à Ética como às Doutrinas da Redenção. Na medida em que pertence à doutrina, duas coisas devem ser observadas. Primeiro, há uma GRAÇA DA PERSEVERANÇA específica, provida na aliança cristã, que com demasiada frequência é esquecida no ardor da controvérsia: nela devemos deter-nos brevemente. Segundo, o peso principal do tratamento tem de recair necessariamente sobre o seu aspecto polêmico ou histórico, isto é, sobre a refutação do dogma convencional da PERSEVERANÇA FINAL.

A GRAÇA PERSEVERANTE NO SEU FUNDAMENTO.

Fundamento. O amor eterno de Cristo pelos seus, provado de uma vez por todas no seu sacrifício supremo, é o penhor de que ele concede a graça perseverante segundo todas as variedades da necessidade deles. Esse amor se mostra numa intercessão especial e eficaz por eles: intercessão que é a vontade expressa do Redentor e também a sua oração, que dá eficácia às nossas.

A possessão de Cristo. 1. Há um sentido em que o Senhor considera o corpo dos crentes como seu, para o tempo e para a eternidade. Pela sua expiação, ele os garantiu para si mesmo e garantiu para eles toda provisão para a salvação eterna. Eles são a porção dele na raça humana; e a sua permanência na graça está provida, não só por causa deles, mas também por causa dele. Ele espera alegrar-se por eles no céu como a sua propriedade (Ef 1.14), como a sua herança, ou a porção que lhe cabe: Todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas (Jo 17.10). Não há representação mais impressionante e comovente do laço entre os cristãos e Cristo, sua Cabeça, do que esta: a de que eles lhe são dados pelo Pai.

III, 132Intercessão. 2. Por esse corpo, distinto do mundo, ele intercede. A sua vontade é a salvação eterna deles: Pai, a minha vontade é que, θέλω ἵνα, onde eu estou, também estejam comigo os que me deste (Jo 17.24). A sua única recompensa divina pela sua obediência divino-humana é a salvação dos seus. Essa recompensa assume também uma forma humana: o Pai o exaltou sobremaneira e lhe deu domínio supremo. Ele mesmo não estipulou isso; nem sequer parece olhar para além deste mundo em busca da sua recompensa; mas reclama do modo mais expresso o seu povo como sua herança, satisfeito com eles, mas com nada menos do que eles: que eu não perca nenhum de todos os que ele me deu (Jo 6.39). A morte parece apropriar-se de parte deles; mas a morte tem de largar a sua presa: eu o ressuscitarei no último dia. Também o seu pedido, ou intercessão, quase tão forte quanto a sua vontade, é pela graça deles para a perseverança: Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal (Jo 17.15). E, ao orar (ἐρωτῶ) por graça suficiente para a perseverança, nosso Senhor incluiu todos os seus até o fim dos tempos; não, porém, simplesmente como seus, mas como crentes: também por aqueles que vierem a crer em mim (Jo 17.20). Eles são a herança dele, mas enquanto creem nele: uma coisa nunca sem a outra.

A Igreja. 3. Por isso, nada é mais certo do que a perseverança daqueles que permanecem nesse corpo: jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão (Jo 10.28). O Pai e o Filho, um só na essência eterna, estão unidos no conselho da redenção. Mas há uma ênfase especial na unidade deles no cumprimento do desígnio da graça quanto aos eleitos: Eu e o Pai somos um (Jo 10.30). Os membros do corpo místico de Cristo são eternamente conhecidos de antemão, e se verá que a graça foi suficientemente provida para todo o seu estado de provação. Aquele que redimiu o mundo redimiu especialmente a Igreja; e conhecidos dele desde o princípio eram todo o combate e toda a variada provação pelos quais a sua Igreja há de tornar-se eternamente sua. Por isso, ao tesouro do seu mérito redentor ele acrescentou a energia contínua da sua intercessão ativa, provendo graça para todo tempo de necessidade. O Sumo Sacerdote da humanidade é especialmente o Advogado do seu povo: se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai… E ele é a propiciação pelos pecados… do mundo inteiro (1Jo 2.1-2).

III, 133A GRAÇA PERSEVERANTE NA SUA MANIFESTAÇÃO.

Manifestação. A graça da perseverança é a comunicação constante do Espírito Santo, que habita na alma como selo e traz socorro eficaz em todo tempo de necessidade.

Habitação. I. São Paulo, numa daquelas passagens em que condensa toda a substância do privilégio evangélico, diz: tendo nele também crido, receberam o selo do Espírito Santo da promessa. O Espírito é o penhor da nossa herança, até o resgate da sua propriedade (Ef 1.13-14). Em relação a Deus, o Espírito é o selo dele sobre a alma regenerada. Em relação ao crente, o Espírito é para ele o penhor de uma herança futura. Em relação a Cristo, o Espírito é o seu representante na alma até que ele resgate a sua propriedade. Mas é notável que, na epístola que menciona com mais ênfase o selo do Espírito, daquele que habita pessoalmente na alma, encontremos a exortação mais insistente: não entristeçam o Espírito Santo (Ef 4.30). Embora nada se diga nesta tranquila epístola sobre a possibilidade de o selo ser rompido, nada se diz quanto a ser ele inviolável. Portanto, não sejam participantes com eles (Ef 5.6-7) [N. do T.: a NAA traz “não participem daquilo que eles fazem”] é uma ordem que parece referir-se tanto à ira de Deus quanto a essas coisas que a provocaram: não tenham parte com eles, nem no que fazem, nem no castigo do que fazem. Em outro escrito, que ensina a mesma doutrina do Espírito que sela, lemos: Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá. Porque o santuário de Deus, que são vocês, é sagrado (1Co 3.17).

Comunicada. II. A graça perseverante é comunicada para toda exigência da nossa fraqueza, e isso de três maneiras.

Para guardar. 1. É a graça da vigilância, para guardar o que se alcançou: Eu, porém, orei por você, para que a sua fé não desfaleça (Lc 22.31-32). Isso foi dito a alguém que desfaleceu em parte, e que só não desfaleceu de todo porque lhe foi dada uma graça que ele usou. A graça que recebeu lhe ensinou a necessidade da vigilância. Foi-lhe ordenado: quando voltar para mim, fortaleça os seus irmãos; e as suas epístolas são especialmente apropriadas para encorajar a confiança nas riquezas da graça de Cristo, o Guarda de Israel, ao mesmo tempo que insistem muitíssimo na humildade que recebe a sua graça eficaz e na diligência que a usa. Sejam sóbrios e vigilantes (1Pe 5.8) vem logo depois de Lancem sobre ele todas as suas ansiedades, porque ele cuida de vocês (1Pe 5.7). O espírito vigilante é dom de Deus; mas a sua vigilância é o uso que ele mesmo faz desse dom.

III, 134Para fazer. 2. É a graça multiforme que capacita a alma a cumprir todo dever da vida. Deus pode tornar abundante em vocês toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, vocês sejam abundantes em toda boa obra (2Co 9.8): isso se aplica não só ao dever da liberalidade, mas a todo dever. Tendo de Deus toda a suficiência, temos de abundar na nossa própria diligência. Não há mandamento sem promessa: promessa de recompensa pela obediência e promessa de auxílio para cumprir. Mas a graça que fortalece para deveres infinitamente variados é garantida àqueles, e somente àqueles, que a usam. Desenvolvam a sua salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade (Fp 2.12-13). A boa vontade que aqui é a fonte e a regra da operação divina em nós tem de se tornar a nossa própria boa vontade. Em outro lugar, são Paulo nos dá uma variação desse grande dito: não cessamos de orar por vocês, pedindo que o nosso Deus… cumpra toda a boa vontade de bondade e a obra da fé com poder (2Ts 1.11) [N. do T.: a NAA traz “cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé”; Pope liga as duas passagens pela expressão good pleasure, “boa vontade”].

Para sofrer. 3. É a graça eficaz de sustentação, que capacita o crente a suportar a pressão da aflição e a sofrer toda a vontade de Deus. A oração do apóstolo pelos colossenses é que eles sejam fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda a perseverança e paciência, com alegria (Cl 1.11). Mas outro apóstolo diz que a graça que capacita a alma a suportar uma prova mais aguda do que qualquer uma que Satanás possa aplicar (a visitação da Providência e o sofrimento espiritual que precede a morte do corpo do pecado, em conformidade com Cristo, que sofreu na carne) deve ser usada como armadura nossa, e não somente de Deus: estejam também vocês armados do mesmo pensamento (1Pe 4.1). Por fim, porém, quando tivermos feito e sofrido tudo, e enquanto estamos fazendo e sofrendo tudo, a graça perseverante é dom divino: E o Deus de toda a graça, que em Cristo os chamou à sua eterna glória, depois de vocês terem sofrido por um pouco, ele mesmo irá aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar vocês (1Pe 5.10).

III, 135A GRAÇA PERSEVERANTE NA SUA NATUREZA E OPERAÇÃO.

Caráter. Esta graça é, como se viu, forte e persistente; mas, por mais poderosa e duradoura que seja, continua sendo condicional.

Persistente. I. Seja qual for o modo de considerá-las, a graça de Cristo para com os seus e o poder do Espírito Santo dentro deles contribuem muito para assegurar de modo absoluto a salvação final dos regenerados. O amor incomparável e ilimitado do Redentor, a relutância do Espírito em abandonar a obra das suas mãos, a plenitude dos meios de graça, a bem-aventurança crescente da verdadeira religião, o poder da oração intercessora, tanto divina como humana, a fraqueza dos inimigos do Senhor em comparação com a mais leve influência dele, tudo concorre para mostrar que a recaída total e a ruína final de uma alma regenerada é uma possibilidade difícil. Se o Espírito Santo abandona para sempre a alma em que uma vez habitou, essa partida, que torna o lugar tão profunda e inalteravelmente desolado, tem de ser descrita na linguagem do profeta como a sua obra alheia, a sua tarefa estranha (Is 28.21).

1. Esta bendita verdade explica muita coisa na Escritura que parece declarar que a herança cristã está absolutamente segura. Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rm 8.31). Aqui estão tanto a pergunta da confiança como a apóstrofe do desafio. Esta última prossegue nas palavras ardentes que afirmam que nada, excetuado sempre o pecado, poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8.39).

O tom elevado da Escritura. 2. Ela explica o tom de certeza com que, entre os cristãos do Novo Testamento, se olha para o futuro. Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição, mas somos da fé, para a preservação da alma (Hb 10.39). Existe o retroceder; mas podemos sentir-nos seguros. Por isso, o fortalecedor dos seus irmãos, o apóstolo da perseverança, ordena-lhes tornar segura a vocação e a eleição de vocês (2Pe 1.10): βεβαίαν ποιεῖσθαι [N. do T.: a NAA traz “confirmar a vocação e a eleição de vocês”]. Pode-se torná-la SEGURA, e esta é a garantia da certeza. É preciso TORNÁ-LA segura, e este é o âmago da perseverança.

Só esperança. 3. Mas ela tem de ser conciliada com os testemunhos mais positivos de que nenhum homem, na vida presente, pode ir além da certeza da esperança: quem espera o que está vendo? (Rm 8.24). A única passagem do Novo Testamento que descreve a fé e a esperança como uma só coisa e intercambiáveis dá a fórmula da verdadeira doutrina: a fé é a substância das coisas que se esperam (Hb 11.1) [N. do T.: a NAA traz “a certeza de coisas que se esperam”; o comentário de Pope se apoia em substance, “substância”], isto é, a realização presente e substancial daquilo que é nosso só em esperança. E é muito impressionante o fato de que são Paulo, em outras duas passagens, descreve a esperança cristã como acompanhando, nas suas medidas, numa delas o crescimento da fé: E o Deus da esperança encha vocês de toda alegria e paz na fé que vocês têm, para que sejam ricos de esperança no poder do Espírito Santo (Rm 15.13); e, na outra, o crescimento da experiência: a tribulação produz perseverança, a perseverança produz experiência e a experiência produz esperança (Rm 5.3-4). Essa esperança não nos deixa decepcionados; mas não se dá para isso outra razão senão a de que o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo (Rm 5.5).

III, 136Condicional. II. A graça da permanência é condicional, apesar de tudo o que se disse. Pode-se falar de uma graça incondicional provida para o mundo como tal e para a Igreja mística como tal: enquanto recebida pelos indivíduos, ela é condicional. Seja no começo da vida preliminar, seja na vida madura dos regenerados, seja nos santos mais firmados, a sua própria natureza de graça está ligada à condição de que seja usada pelo livre concurso daquele que a recebe.

A raça. 1. Toda graça de Deus é incondicional na sua comunicação à velha raça em Adão e à nova raça em Cristo. A graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos (Rm 5.15). Assim como toda a humanidade participa do desagrado de Deus causado pelo pecado, assim também todos participam dos começos da sua misericórdia, que os atrai ao arrependimento. Essa graça preliminar, quer se manifeste pelos meios que lhe foram designados, quer seja imperceptível na sua misteriosa influência sobre o coração humano, é incondicional. Do mesmo modo, os dons plenos da graça, que todos os crentes recebem da sua plenitude (Jo 1.16), são concedidos incondicionalmente ao corpo místico de Cristo, qualquer que seja esse corpo e quem quer que o componha. A Igreja, como tal, é objeto predestinado do eterno comprazimento de nosso Senhor. Por isso, a linguagem da Escritura segue o tom de um dom indefectível da graça ao corpo e à comunhão dos crentes, considerados como previstos e predestinados desde a fundação do mundo.

O indivíduo. 2. Mas toda graça, seja preliminar, seja salvadora, é condicional no que diz respeito ao indivíduo e quanto à sua operação eficaz. Daí a exortação de são Paulo, que nos roga que não recebamos em vão a graça de Deus (2Co 6.1): recebida gratuitamente num sentido, e como irresistível, em outro sentido ela pode ser recebida em vão. A menos que εἰς κενὸν deixe de significar “para nada”, ou “sem resultado”, e a menos que se possa mostrar que são Paulo se dirigia a cristãos espúrios, a graça salvadora não é inamissível. Mas, por todos os indícios do contexto, ele certamente se dirigia a verdadeiros crentes em Cristo quando fez este apelo tão impressionante.

III, 137HISTÓRICO E POLÊMICO.

Controvérsia. O dogma convencional da perseverança final pertence ao tipo agostiniano ou calvinista de doutrina. Houve várias tentativas de ligar esta doutrina a outros sistemas, mas foram vãs: ela não se harmoniza com nenhuma outra teoria da economia da graça senão com aquela que a limita a um número definido e eleito, predeterminado nos conselhos da eternidade. Supondo que a redenção seja universal, que a oferta da graça seja livre para todos e que a salvação seja possível a todo homem, alguns supuseram também que a graça de uma regeneração eficaz tem necessariamente de ser indefectível e eterna. Mas um exame mais completo da aliança cristã tende a mostrar que essa interpretação generosa da doutrina da graça perseverante não pode ser conciliada com a liberdade da vontade e com a responsabilidade pessoal que estão no fundamento da redenção universal. Os argumentos em favor da indefectibilidade da graça nos eleitos são os que se apoiam, primeiro, na natureza da aliança cristã e, depois, em textos da Escritura mal compreendidos.

A ALIANÇA DA REDENÇÃO.

A aliança. O que se chama perseverança final, ou a doutrina de que a graça nunca pode ser perdida definitivamente, é em geral defendida não tanto pela Escritura quanto pelos princípios necessários da chamada aliança da redenção. Nessa visão do evangelho, a ideia de uma divisão fixa e inalterável da humanidade é tão absoluta e tão onipresente que se faz dela um cânon ao qual a interpretação de toda passagem da Escritura tem de se conformar. O que parece errado nesses princípios já foi indicado, mas pode ser resumido mais uma vez.

III, 138Aliança da redenção. 1. A soberania absoluta da vontade divina preside a uma aliança imaginária entre o Pai e o Filho antes do princípio dos tempos: um certo número havia de ser redimido e dado ao Redentor como fruto e recompensa da sua submissão expiatória; e a fidelidade a essa aliança exige que todos os que foram incluídos na porção de Cristo estejam imunes a uma possível queda. Não há evidência bíblica de semelhante aliança incondicional, embora sob o erro esteja uma verdade católica [universal] de importância inestimável. O Redentor tem, de fato, a sua porção da humanidade, que lhe foi repartida; mas não por uma disposição absolutamente soberana e despótica dos destinos eternos dos homens. Ele se alegra por aqueles que lhe foram dados pelo Pai; mas lamenta um deles como perdido. Além disso, fala deles como sendo atraídos a ele um por um e lhes promete: o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora (Jo 6.37). Não seria nesse estilo que ele falaria daqueles que fossem incondicionalmente seus antes do princípio dos tempos. Ele ora pela glória que tinha antes da fundação do mundo, mas não pelo povo que então lhe foi destinado.

Justiça imputada. 2. Supõe-se que a relação de Cristo com aqueles que assim lhe foram dados é tal que a salvação deles está assegurada. Ele é o seu Substituto e Fiador, e mais do que o seu Representante: assume o lugar deles em todos os pontos; sofre por eles, obedece por eles e lhes garante uma santidade eterna. Vimos que a justiça do Salvador não é imputada ao seu povo de outro modo senão como o pecado deles lhe foi imputado. Podemos conceber uma imputação da justiça ativa no sentido de que somos considerados justos, além de perdoados; mas nem mesmo disso a Escritura fala assim. Somos predestinados eleitos, diz são Pedro, somente em santificação do Espírito (1Pe 1.2).

Irresistibilidade da graça. 3. A irresistibilidade da graça divina, como operação do Espírito dentro da alma, é necessária ao dogma da perseverança final. Mas a graça, como tal, nunca é apresentada como irresistível: é livre em Deus e deve ser livremente recebida pelo homem. Tal como a vontade, ela não pode tolerar, pelo seu próprio nome, a ideia de coação. Deus é irresistível, e a sua vontade é irresistível; mas não a sua graça, que é somente a sua benignidade imerecida, movendo-se sobre inteligências livres. A sua vontade redimiu o mundo, e essa vontade era irresistível. A graça que traz salvação a todos (Tt 2.11) foi absoluta e incondicional, embora até essa graça possa ser recebida em vão (2Co 6.1) pelos indivíduos. Enquanto atua dentro do coração, é uma influência de disciplina: ela nos educa no caminho da santidade, παιδεύει.

III, 139Graça comum. 4. A distinção entre a graça especial, que garante a salvação, e a graça comum, que pode ser, e pelos próprios termos tem de ser, em muitos casos, infrutífera, é arbitrária. Nenhuma graça de Deus deveria ser chamada comum: a sua mais leve influência pode conduzir ao céu, e é dada com essa intenção. Não há no sistema necessidade mais dura, nem dogma nele mais intolerável, do que aquele que nos obriga a crer num dispêndio amplo e muito comovente da graça de Deus intencionalmente insuficiente para a salvação.

O termo. 5. O dom da perseverança final é uma irrealidade, seja na expressão, seja no pensamento que ela exprime. A perseverança é um dever ético. O dom, ou carisma, da perseverança é concedido de momento a momento: é o uso diligente da graça de cada hora. Que ele seja comunicado de uma vez por todas como bênção da aliança cristã é uma contradição nos termos; e a necessidade de escolher tal expressão para a doutrina é um argumento contra ela.

O ARGUMENTO DA ESCRITURA.

Escritura. Os testemunhos da Escritura introduzidos nesta controvérsia podem ser divididos em duas classes: os que os defensores da perseverança final usam numa guerra ofensiva e aqueles a que resistem quando são alegados contra eles. Já se fez alusão a ambas as classes; mas a importância do assunto exige que sejam expostas mais formalmente na sua aparente contrariedade.

Textos alegados a favor da perseverança final. I. As declarações positivas da Bíblia a favor da perpetuidade necessária da graça são, reconhecidamente, poucas. O argumento em que mais se confia é, como vimos, a natureza da aliança da graça, ou o pacto entre o Pai e o Filho, conforme já foi explicado. Os poucos testemunhos a que se recorre podem ser referidos aos decretos de Deus, às palavras do nosso Senhor e aos testemunhos apostólicos como tais.

1. Aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou (Rm 8.29-30). Esta corrente de ouro, assim como outras semelhantes, apenas Decretos divinos. expõe a ordem da graça: não uma sequência necessária, a não ser no caso dos que são finalmente salvos; os elos são contemplados a partir da eternidade, e não a partir do tempo. Ela remonta ao que chamamos passado, προέγνω, de antemão conheceu; todos os que ele de antemão conheceu, προώρισε, ele também predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho. Depois avança, por assim dizer, até o fim, como se tudo já estivesse consumado: a esses também chamou, ἐκάλεσε; a esses também justificou, ἐδικαίωσε, ficando a sua adoção e a sua santificação incluídas na imagem de seu Filho; e a esses também glorificou, ἐδόξασε. Este texto representativo vale por todos os que se referem ao propósito eletivo e determinado de Deus: passagens que devem ser interpretadas como falando na perspectiva de uma consumação eterna já decidida na mente divina com referência aos herdeiros crentes da graça e da glória e, portanto, como referindo-se não tanto ao indivíduo quanto à Igreja considerada no seu caráter corporativo e místico.

III, 140Nosso Senhor. 2. As declarações do nosso Senhor sobre este assunto são poucas. A sua parábola das ovelhas, das quais ele diz que jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão (Jo 10.28), deve ser interpretada à luz daquela outra, a da Videira, cujos ramos são eternos, ao passo que um ramo individual poderia ser lançado fora e secar (Jo 15.5-6). Isso observaremos mais adiante. Por ora, o nosso Senhor declara a respeito das suas ovelhas que, como tais, nunca lhes faltará pasto da parte dele, nem ninguém as arrancará dele. Que elas não possam abandoná-lo, isso ele não acrescenta; nem poderiam acrescentá-lo os mesmos lábios que testificaram: sem mim vocês não podem fazer nada (Jo 15.5).

Apóstolos. 3. Podem-se aduzir algumas passagens típicas dos apóstolos: cada uma representa uma classe, embora muito pequena.

(1.) São Paulo escreve: Estou certo de que aquele que começou boa obra em vocês há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6). São Paulo. O apóstolo, quando fala do dia vindouro de Cristo, tem em vista quase invariavelmente o caráter comunitário dos cristãos: a morte era, pelo menos para o indivíduo, uma perspectiva alternativa; não o era para a Igreja, que tem diante de si apenas a vinda de Cristo. Por isso, o EM equivale, na verdade, a ENTRE vocês. Em todo caso, a ênfase está na relação entre o começar e o completar; e a salvaguarda é dada na oração para que vocês sejam sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo (Fp 1.10). Passagens como essas devem receber uma interpretação generosa, mas não generosa demais. É vontade de Deus completar plenamente tudo o que ele começa em amor; mas nem todos os dons da misericórdia universal são irrevogáveis: testemunha-o o seu imenso malogro naqueles que transformam em libertinagem a graça do nosso Deus (Jd 4), a graça que traz salvação a todos (Tt 2.11).

III, 141São João. (2.) O único testemunho de são João que se pode pôr a serviço dessa tese é este: Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco. Mas eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos (1Jo 2.19). Ele está falando de anticristos, que ensinavam sem a unção que vem do Santo (1Jo 2.20). A comparação com a parábola da Videira, registrada pelo próprio apóstolo, mostrará que ele não podia estar se referindo a um continuar ou permanecer em Cristo que fosse necessário como tal.

São Pedro. (3.) São Pedro, o apóstolo que caiu e se levantou de novo, e cuja pena branda foi esta: quando voltar para mim, fortaleça os seus irmãos (Lc 22.32), é naturalmente invocado nesta questão. Ele tem muitas palavras importantes a esse respeito. Todas as comunhões cristãs sustentam aquela doutrina da graça indefectível e da perseverança final que é ensinada nas palavras guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação (1Pe 1.5), as quais, de fato, contêm em forma sumária toda a verdade. Assim como a Expiação é apresentada pelo conselho divino independentemente do homem, mas só se torna realidade para ele mediante a fé, a quem Deus apresentou como propiciação, no seu sangue, mediante a fé (Rm 3.25), assim também a salvação final a que ela conduz é apresentada na mente divina para a Igreja, mas só se torna privilégio pessoal mediante a fé. Logo a seguir, porém, vem uma passagem que tem sido um texto-prova clássico, e na qual muito se confia, na medida, entenda-se, em que nesta controvérsia se confia em textos isolados. É a da semente incorruptível. O escritor menciona dois tipos de vida. De um se diz: toda a humanidade é como a erva do campo (1Pe 1.24); a glória e a beleza da vida física ou temporal perecem. Do outro se diz: vocês foram regenerados não de semente corruptível, mas de semente incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente [para sempre] (1Pe 1.23). A glória e a beleza daquela vida da qual Cristo diz: eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10.10), jamais passam. Com o texto de são Pedro pode-se comparar o de são João: Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado, porque nele permanece a semente divina (1Jo 3.9). As duas passagens são rigorosamente paralelas; mas nem são João ensina que a semente incorruptível, como tal, torna o regenerado absolutamente sem pecado, nem são Pedro ensina que ela assegura absolutamente a vida eterna.

III, 142Argumentos contrários. II. Muitas passagens que correm em sentido oposto são tão claras que derrubam de modo eficaz a teoria estrita da Perseverança Final.

Argumentos fracos contra a perseverança. 1. Há algumas, é verdade, que não deveriam ser arrastadas para a controvérsia, por nenhum dos lados. Tais são as que se referem às quedas dos santos: estes podiam cair muitas vezes, mas não definitivamente, sendo exemplo disso Simão Pedro, assim como Davi e Salomão, e muitos outros. Tampouco devemos invocar os textos que impõem a fidelidade, a diligência e a vigilância, de modo geral, como necessárias à salvação. Pode-se dizer com justiça que o propósito divino inclui os meios juntamente com o fim: os adversários da graça indefectível recorrem de bom grado a um argumento análogo quando relacionam a presciência com a eleição. Assim como a eleição se baseia na presciência, assim também, poder-se-ia dizer, a perseverança final está assegurada com base na presciência da fidelidade. Nem devemos usar as passagens que falam da apostasia do judaísmo ou da queda dos israelitas no deserto; isto é, à parte da aplicação apostólica específica deste último caso, a qual dá de fato à advertência um aspecto individual muito solene. Também não é correto apelar para o declínio e a destruição das igrejas da Ásia. Todos esses casos de queda final da graça podem ser referidos a comunidades, e não a indivíduos: aqui, mais uma vez, Textos torcidos. temos de conceder aos nossos adversários a mesma medida com que nós mesmos medimos. Mas há uma série de declarações, presente em toda a Palavra de Deus, que os defensores da inamissibilidade da graça são obrigados a torcer, desviando-as do seu sentido óbvio, ou a interpretar segundo um cânon especial de hermenêutica inventado para esse fim.

Princípios divinos de ação. 2. Há muitas palavras que são proferidas por Deus, por assim dizer, sem relação específica com o propósito redentor, simplesmente como Governador moral do universo. Se você o abandonar, ele o rejeitará para sempre (1Cr 28.9): isso exprimia um princípio universal, aplicável a todas as economias, a todos os tempos e a todos os mordomos infiéis dos dons divinos. O profeta desconhecido que foi levantado para repreender Eli transmite assim a mensagem divina: Na verdade, eu prometi … Mas agora o Senhor diz: Longe de mim tal coisa, porque honrarei aqueles que me honram, porém desprezarei os que me desprezam (1Sm 2.30). Este não é apenas um princípio teocrático: é uma declaração da lei eterna de Deus. Nenhum sofisma consegue suavizar as palavras que Deus dirigiu, para sempre, aos filhos do seu povo: A justiça do justo não o livrará no dia da sua transgressão (Ez 33.12). Tanto no Novo como no Antigo Testamento, Deus não trata as pessoas com parcialidade (At 10.34). Como Pai, ele julga segundo as obras de cada um (1Pe 1.17). O nosso Deus, mesmo na aliança cristã, é fogo consumidor (Hb 12.29): consome, é verdade, os pecados do seu povo; mas não foi para exprimir esse sentido que a palavra foi dita: foi como advertência a todos os que, tendo recebido a graça da aliança anterior, rejeitam a da posterior.

III, 143Nosso Senhor. 3. O nosso Senhor deixou algumas palavras claras, registradas pelo mesmo evangelista que mostrou com maior profundidade o vínculo entre Cristo e os seus eleitos. A parábola-alegoria da Videira é a contrapartida da parábola das ovelhas que jamais perecerão (Jo 10.28). Sem mim, χωρὶς ἐμοῦ, vocês não podem fazer nada (Jo 15.5). Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará (Jo 15.6). Isso vem depois das grandes palavras da união mística: Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês (Jo 15.4); portanto, a advertência não é dirigida aos que a ouviram na qualidade de apóstolos. Nem a vocação de Judas foi apenas apostólica: ele foi lançado fora da Videira viva, e a sua perda foi reconhecida como a separação de um dos eleitos: aqueles que me deste, eu os guardei, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição (Jo 17.12) [N. do T.: a NAA traz “guardava-os no teu nome, que me deste”]. Usam-se três termos em relação a Judas que mostram que ele tinha sido um dos objetos da graça do Salvador, em comum com os demais apóstolos: ele foi dado a Cristo pelo Pai, foi escolhido e, como perdido, tinha participado da salvação. Pode-se dizer que, enquanto o Senhor estava no mundo, e especialmente durante o seu ministério inicial, o seu ensino ainda não penetrava até os laços estritos da aliança eterna. Mas não há ensino dos seus servos, sobre este As advertências de Jesus. ou qualquer outro assunto, mais elevado do que o dele. E o tom da sua instrução, do começo ao fim, tende exatamente para o oposto da doutrina de uma graça necessariamente indefectível. Testemunham-no o encerramento do Sermão do Monte, as últimas parábolas (a dos Talentos, a das Minas e a das Virgens) e os discursos escatológicos finais. Não podemos deixar de sentir que ele fala, não de uma classe de pessoas que nunca foram realmente cristãs, mas de todos nós. Mas a série de testemunhos a que aqui nos referimos pertence antes à ética do que às doutrinas da aliança da graça. Por isso não são aqui citados nem classificados.

III, 144Apóstolos. 4. Podem-se acrescentar alguns dos testemunhos apostólicos, cada um deles representante de uma classe considerável.

São Tiago. (1.) As últimas palavras do primeiro escritor apostólico: saibam que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá uma multidão de pecados (Tg 5.19-20). Os pecados assim cobertos são os que fazem a pessoa extraviar-se do caminho da vida eterna: são João proíbe a outra interpretação quando, a respeito do pecado que leva à morte, diz: por esse não digo que se deva pedir (1Jo 5.16). São Tiago dá grande ênfase ao caráter probatório da religião: o juízo é sem misericórdia sobre quem não usou de misericórdia (Tg 2.13). O apóstolo está falando a cristãos, que podem esquecer a lei régia da caridade; e o que não há de significar, no caso deles, JUÍZO SEM MISERICÓRDIA!

(2.) São Pedro exorta assim: procurem, com empenho cada vez maior, confirmar a vocação e a eleição de vocês; porque, fazendo assim, vocês jamais tropeçarão (2Pe 1.10). Certamente São Pedro. esta não é linguagem que se use a respeito de uma queda impossível. Pode-se, é verdade, por uma interpretação violenta, supor que Satanás se engana a si mesmo ao procurar alguém para devorar (1Pe 5.8). Mas o apóstolo adverte a todos que não caiam da posição segura em que se encontram (2Pe 3.17).

(3.) São Judas, na sua breve epístola, fala das árvores que, em plena estação dos frutos, continuam sem frutos, duplamente mortas (Jd 12); e de homens outrora cristãos São Judas. que se tinham tornado pessoas que seguem os seus próprios instintos e não têm o Espírito (Jd 19): estes tinham estado na família espiritual; do contrário, como poderiam separar-se? [N. do T.: a NAA traz “promovem divisões”]. O teor da epístola não é outro senão uma advertência contra a apostasia eterna. Aos que são guardados em Jesus Cristo (Jd 1) ordena-se: mantenham-se no amor de Deus (Jd 21). A doxologia àquele que é poderoso para guardá-los de tropeçar (Jd 24) é uma a que todas as confissões se unem [N. do T.: a NAA traz “poderoso para evitar que vocês tropecem”]. Estas três GUARDAS devem ser combinadas. As duas primeiras têm o mesmo verbo grego: os que são guardados em Cristo devem guardar-se no amor de Deus. A terceira varia a expressão em duas palavras: Deus é poderoso para proteger de tropeçar, e ele é PODEROSO para proteger. Eis o cordão de três dobras; todos os verdadeiros cristãos se alegram na combinação dos seus fios; mas ninguém deve achar nele mais do que a segurança eterna que une o poder onipotente e a fidelidade humana.

São Paulo. (4.) A visão que são Paulo tem da redenção se deleita na perfeita estabilidade dos conselhos eternos. Ele vê sempre a consumação dos desígnios divinos, e todos os herdeiros da salvação como já ocultos juntamente com Cristo, em Deus (Cl 3.3). Mas algumas das suas palavras negam de modo absoluto a indefectibilidade da graça. Além de ter deixado registradas algumas outras declarações a que já se fez referência, ele fala do seu rigor no cuidado da própria alma, para que … eu mesmo não venha a ser reprovado (1Co 9.27) [N. do T.: a NAA traz “desqualificado”]: nenhum crente numa salvação inalienável teria adotado tal linguagem; certamente nenhum mestre inspirado da verdade teria falado com tão pouca cautela, mesmo na sua mais profunda humildade.

III, 145A Epístola aos Hebreus. (5.) A Epístola aos Hebreus contém passagens que não podem concordar com a permanência necessária da graça. Embora o seu sentido possa ser exagerado pelos que as fazem negar a possibilidade de restauração depois de certa medida e grau de queda, não é exagero dizer que elas ensinam a possibilidade de uma extinção da graça naqueles que provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo (Hb 6.4-5). Essa passagem, com o preceito anterior, a fim de que ninguém caia, segundo aquele exemplo de desobediência (Hb 4.11), com a exortação Portanto, não percam a confiança de vocês, porque ela tem grande recompensa (Hb 10.35), com a declaração de que temos nos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até o fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos (Hb 3.14), e outras semelhantes, são entendidas por alguns como o simples enunciado de uma hipótese desesperada e impossível, ou como referência apenas a uma profissão exterior sem realidade correspondente, ou como menção de uma queda de um suposto estado de graça cujo vazio se supõe ter sido descoberto. Mas, com tais princípios de interpretação, pode-se fazer a Escritura não provar nada, ou antes, provar qualquer coisa.

São João. (6.) O último órgão da inspiração, cujos escritos completam o Novo Testamento, dá o seu claro testemunho. A Primeira Epístola de são João fala da possibilidade de sermos envergonhados, tendo de nos afastar dele no dia da sua vinda (1Jo 2.28), e isso dirigindo-se a filhinhos, o seu termo afetuoso para os verdadeiros cristãos. O que ele entende por ser envergonhado, um texto posterior o mostra: para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança (1Jo 4.17). No Dia do Juízo não haverá vergonha senão naqueles que sofrerem a terrível calamidade com que o próprio nosso Senhor ameaçou, repetidas vezes: também o Filho do Homem se envergonhará dele (Mc 8.38). O Evangelho de são João não contém nenhum ensino próprio dele, pelo menos sobre este assunto. Também no Apocalipse não é João que fala, mas o seu Senhor; e, embora as ameaças contra as igrejas apóstatas não devam ser forçadas, as palavras finais do Redentor são profundamente solenes: Deus tirará a sua parte do livro da vida (Ap 22.19) [N. do T.: a NAA, que segue outro texto grego, traz “da árvore da vida”]: não se recusará a escrevê-la, mas a tirará. Assim, as Escrituras se encerram com um testemunho sumamente decisivo contra a doutrina de uma predestinação inevitável e incondicional à Perseverança Final.

III, 146Harmonia. III. Ainda que falem desta maneira, os adversários desta doutrina sentem que há na presente controvérsia uma peculiaridade que sempre a há de distinguir de todas as outras.

Uma verdade preciosa em jogo. 1. O instinto do verdadeiro cristão ama o dogma a que ele é obrigado a se opor; e o mesmo instinto faz que o verdadeiro cristão que o sustenta aja como se não o sustentasse. Na prática, todos os que têm esse caráter são um só na doutrina de que a Perseverança Final é um dever e um privilégio. Os que negam que a união com Cristo, uma vez realizada, seja inviolável, e o negam com confiança porque o próprio Salvador diz: Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo (Jo 15.6), sustentam, no entanto, com empenho, que uma união assim, e tão sagrada, não se desfaz facilmente, nem se desfaz muitas vezes de modo definitivo. Admitem que muitas quedas, e muitas quedas graves, são compatíveis com aquela graça secreta que habita no íntimo e que é, de todas as coisas, a que se agarra com mais tenacidade ao coração do homem. Sabem muito bem que pode haver um resíduo de graça na alma que parece quase selada na reprovação; que o olhar da misericórdia, nunca tão rápido em discernir os segredos do coração como quando procura os vestígios do Bem nas profundezas ocultas da natureza humana, pode contemplar vida onde o olhar do juízo humano veria apenas morte; e que a Compaixão Infinita pode reavivar em chama o fogo quase extinto que ninguém, senão ela mesma, poderia discernir. Sentem todo o significado das palavras de escusa, quase de retratação, que se seguem à clara advertência contra a apostasia total: Quanto a vocês, meus amados, ainda que falemos desta maneira, estamos certos de que coisas melhores os esperam, coisas relacionadas com a salvação (Hb 6.9).

Comum a todos. 2. Há um sentido em que a doutrina da Perseverança é comum a todas as confissões e deve ser sustentada por todos os cristãos. Para a presciência do Onisciente, não só o corpo místico está selado, mas a salvação de cada um dos seus membros está fixada. Conhecidas de Deus são todas as suas obras desde o princípio do mundo (At 15.18) [N. do T.: a NAA, que segue outro texto grego, traz “que faz estas coisas conhecidas desde os tempos antigos”]: estas palavras de são Tiago têm referência direta ao assunto da nossa discussão; o Deus de Israel está visitando os gentios a fim de constituir entre eles um povo para o seu nome (At 15.14). O número dos salvos está diante dele como se todo o processo estivesse concluído: cento e cinquenta e três foram contados na última pesca simbólica (Jo 21.11); o número exato e completo dos eternamente selados está agora presente ao Olhar Supremo; e cada indivíduo dentre os que disputam sobre esta doutrina é salvo ou não é salvo naquele futuro que, para Deus, é como o presente.

III, 147Mistério. 3. Mas aqui estamos à beira do mistério insondável da união, ou unidade, entre a presciência divina e a predestinação divina. O que agora é conhecido de Deus deve ser para nós, no entanto, um desfecho não determinado. Contemplando esta verdade como à luz do conhecimento de Deus, podemos dizer que todo aquele que for finalmente salvo tem de perseverar. Mas não devemos contemplá-la a essa luz. Deus vê o fim como um fato consumado, que o homem vai realizando como uma contingência. Estamos todos em PROVAÇÃO: cada um dos descendentes de Adão, tão certamente quanto ele o esteve. A CERTEZA pessoal é dada, ou se faz provisão para que seja dada, a cada um como o pão diário da vida. E a PERSEVERANÇA nada mais é do que manter essa plena certeza da esperança, até o fim (Hb 6.11).

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 131-147, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.