W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · A ética da redenção

A ética da redenção

III, 148ÉTICA CRISTÃ.

Ética cristã. Pelo termo ética da redenção, ou ética cristã, designa-se o sistema de ensino moral que Cristo, o Redentor, introduziu em conexão com a sua obra expiatória e com a economia geral da sua graça. Esse sistema pode ser considerado, primeiro, na sua preeminência e no que tem de peculiar, como ética CRISTÃ; e, em segundo lugar, na disposição formal dos seus princípios, como ÉTICA cristã.

Este assunto parece mais apropriado aqui do que em qualquer posição independente: pertence à administração da redenção, visto que trata da nova vida para a qual as bênçãos da nova aliança preparam os regenerados, e para a qual os regenerados são preparados. Somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas (Ef 2.10). Depois de nos determos tanto tempo no estado de privilégio cristão, passamos naturalmente às obrigações ligadas a ele. A ética brota da vida. E, no nosso curso de doutrina, é evidente que a moral do cristianismo deve ser considerada somente, ou principalmente, na medida em que recebe da revelação cristã um caráter novo. Esse princípio deve ser lembrado ao longo de toda a presente seção. Num sentido, ele estreita o campo do ensino ético; mas, noutro, amplia esse campo de modo incomensurável.

A ÉTICA DA REDENÇÃO.

Redentora. Jesus, como Redentor, é o Legislador Supremo; e o seu ensino é o complemento corretivo de toda a filosofia moral. No sistema evangélico, doutrina e ética estão intimamente ligadas: as suas revelações da verdade são o fundamento da sua nova vida; a sua moral e a sua doutrina estão entrelaçadas em toda parte; e, por fim, a ética da religião cristã é a coroa e a consumação de todo o seu sistema.

III, 149CRISTO, O LEGISLADOR.

O Legislador. Nosso Senhor é o Legislador Supremo, quer consideremos a sua Pessoa, quer os seus ofícios, quer a sua vida manifestada. Sendo assim supremo, é também o único Mestre e Árbitro da moral, e o seu mais alto Exemplo.

A nova lei. Neste campo, o cristianismo pode ser considerado como a legislação de Cristo: a NOVA LEI dada à raça humana. O Salvador tanto começou como terminou o seu ministério afirmando a sua autoridade absoluta e inapelável: Todo aquele que ouve estas minhas palavras e as pratica! (Mt 7.24). Essas palavras encerram o discurso com que o novo Mestre deu início à sua obra de legislador para todas as épocas e para toda a humanidade; e é muito claro que ele assume esta prerrogativa universal: ser o Mestre de toda a moral e de todos os deveres. Do mesmo modo, terminou a sua carreira com uma afirmação igualmente ampla do seu lugar na ética do mundo. Os seus discípulos deviam fazer discípulos (ou cristãos) de todas as nações… ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês! (Mt 28.19-20). Nunca um legislador humano adotou esse tom. Nunca falaram assim aqueles a quem Deus havia comissionado. Quando Moisés começou a exercer a sua função e disse: naquele tempo, eu lhes ordenei todas as coisas que vocês deveriam fazer (Dt 1.18), acrescentou a acusação contra o povo: vocês não quiseram ir, mas foram rebeldes à ordem do Senhor, seu Deus (Dt 1.26). E toda a sua legislação se encerra assim: o povo fez como o Senhor havia ordenado a Moisés (Dt 34.9). Isso contrasta forte e decisivamente com o começo e o fim da nova legislação.

O Legislador encarnado. I. É importante lembrar que o Legislador na nova economia é o Senhor Jesus na sua Pessoa mediadora divino-humana, Deus e homem em um só.

Divino. 1. A divindade do Legislador cristão é o primeiro postulado e a gloriosa distinção do cristianismo como a economia perfeita. Só o Criador pode dar lei às suas criaturas: Um só é Legislador (Tg 4.12), e não pode haver segundo. Em toda a Escritura há muitos νομοδιδάσκαλοι [mestres da lei], mas um só νομοθέτης [legislador]. Moisés não recebe esse nome: não deu aquela lei desde o céu, mas foi fiel, em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que haviam de ser anunciadas (Hb 3.5). Mas Cristo, como Filho, em sua casa (Hb 3.6), prescreve-lhe as leis com autoridade divina. No Sermão do Monte, ele se distingue não só dos expositores rabínicos de Moisés, mas também do próprio Moisés, com o seu repetido Ἐγὼ δέ: EU, PORÉM, LHES DIGO! (Mt 5, passim). E ouvimos nisso, como em todas as suas palavras, a Voz do Filho de Deus enunciando a sua própria vontade eterna.

III, 150Humano. 2. A perfeita humanidade de Jesus, porém, foi e é o órgão dessa legislação. Na unidade indivisível da sua Pessoa, ele promulga as suas leis em meio às condições humanas e condescende em aparecer como o mais alto dos legisladores humanos. Aceita as palavras de Nicodemos, e até lhes responde: sabemos que o senhor é Mestre vindo da parte de Deus (Jo 3.2). Mas nunca, no Novo Testamento, nos é permitido ouvi-lo, por um momento sequer, apenas como a personificação suprema de uma sabedoria meramente humana. Deus estava com ele, podemos concluir com o rabino judeu; mas devemos tomar o testemunho dos guardas num sentido que vai além do que eles queriam dizer: Jamais alguém falou como este homem! (Jo 7.46); pois Deus não estava apenas com ele, mas NELE.

A sua Pessoa como fundamento. 3. Nosso Senhor proclama a sua vontade não simplesmente como divino, nem simplesmente como humano: nunca diz, em termos explícitos, Eu sou o Senhor, seu Deus!, mas também nunca diz falo em termos humanos. Fala como o Filho do Homem que está no céu (Jo 3.13) [N. do T.: a NAA traz apenas “o Filho do Homem”, sem “que está no céu”]: foi como o novo Mestre que dirigiu essas palavras a Nicodemos. Antes da encarnação, foi Deus quem, antigamente, falou, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas (Hb 1.1). A Santíssima Trindade estava na legislação do paraíso, na do Sinai e na de todo o mundo moral; mas sob muitas limitações, tanto em relação ao próprio Deus como em relação aos objetos do seu governo moral, limitações que o evangelho removeu. Agora Deus nos falou NO SEU FILHO, O DEUS-HOMEM (Hb 1.2), o Representante divino-humano da lei universal que obriga todas as criaturas sobre a terra.

Os seus ofícios. II. A legislação do Redentor está ligada ao seu ofício como o Cristo: isso já foi exposto quando tratamos do ministério mediador, mas pode, com propriedade, ser retomado sob outro aspecto, mais restrito.

Tríplice. 1. Na tríplice unidade da sua obra, ele é o Profeta, que explica toda a lei, tanto nas suas formas transitórias como nas eternas, e que transforma a lei dos mandamentos na forma de ordenanças (Ef 2.15) na lei perfeita, lei da liberdade (Tg 1.25). É também o Sacerdote (não o Sumo Sacerdote, pois há um só Sacerdote), que expiou o pecado contra a lei e obteve o Espírito para uma nova obediência. Como Rei, ele é no céu o que como Profeta foi na terra: é o Legislador coroado na sua Pessoa encarnada; o único Legislador, aquele que pode salvar e fazer perecer (Tg 4.12); o Juiz que confirmará as sanções eternas da lei que ele deu.

III, 151Dúplice. 2. Por isso, os seus ofícios são, na realidade, dois. A sua função sacerdotal diz respeito à lei quebrada, quebrada muito antes de Moisés lançar por terra as tábuas. Toda a sua vida e história é uma só satisfação à vontade divina: ele a honra com plena obediência e depois, desafiando quanto a si mesmo o escrutínio dela, paga a pena da nossa violação. A sua outra obra é a de ensinar e governar a um só tempo: guiar os remidos e santificados à perfeição da justiça. Assim, desses dois ofícios depende todo o sistema cristão, enquanto é redenção do pecado e disciplina para a santidade. Na Epístola aos Hebreus somos exortados a considerar atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, [Cristo] Jesus (Hb 3.1): na sua perfeita administração unem-se o Moisés e o Arão da nova economia. Como Apóstolo vindo de Deus, ele anuncia toda a vontade divina; e, como Sumo Sacerdote vindo dos homens, provê para a nossa obediência: não uma coisa sem a outra.

Um só. 3. Mas podemos reduzir tudo à unidade. Em certo sentido, nosso Senhor veio do céu à terra somente como nosso Mestre e Senhor (Jo 13.13), tendo-nos virtualmente remido antes que existíssemos e criado de novo antes que fôssemos criados. Só isso faz justiça à dignidade do Redentor como o Restaurador de todas as coisas. Ele foi, é e sempre será o único Governante moral do homem: de outros mundos além do nosso, mas também do nosso; e do nosso, numa economia de lei estranhamente modificada pela graça. Desse ponto de vista, a sua expiação é parte da sua legislação: ele designou para si mesmo uma tarefa de expiação redentora e, como Legislador, por meio da lei morreu para a lei. Aqui está a unidade suprema de todos os seus ofícios: foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e tornou a viver: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos (Rm 14.9). O ponto mais alto da nossa contemplação o vê como o Governador moral da humanidade, que se tornou um com a nossa raça para nos restaurar à obediência e à união com Deus. Essa unidade reina em todo o Novo Testamento. Nosso Senhor dá a sua nova lei antes mesmo de falar da sua morte próxima; refere-se à sua expiação como o fundamento necessário da nossa nova santificação para a obediência; e, tendo morrido por nós, continua a ser o nosso Mestre e Senhor. E a esse único fim e unidade suprema de toda a sua obra dão testemunho todos os seus apóstolos.

III, 152Carreira histórica. III. Na sua história mediadora, ou carreira oficial, o Legislador cristão uniu, de modo misteriosíssimo e comovente, a dignidade divina da sua Pessoa e a humilhação messiânica. Aprendeu a obediência que ensinou; exerceu a suprema autoridade ética mesmo enquanto aprendia a obediência; e, unindo as duas coisas, apresentou-se como o Exemplo perfeito dos seus próprios preceitos. Aqui, como em toda parte, encontramos a insondável unidade das suas duas naturezas num só agir pessoal, que reveste todo o assunto.

A obediência. 1. Nosso Senhor aprendeu a obediência. No mistério da sua Pessoa, uniu o Legislador Supremo, acima de toda responsabilidade, e o súdito humano, responsável pela obediência. Durante o seu estado de humilhação, começou, continuou e terminou com este último: desde o eu tinha de…! (Lc 2.49) no templo da sua primeira consagração, passando pelo A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou! (Jo 4.34) do meio da sua carreira, até o realizei a obra! (Jo 17.4) sob a cruz.

(1.) Aqui há algumas ressalvas. A primeira é que o Salvador aprendeu a obediência (Hb 5.8), a sua obediência propriamente messiânica, não tanto no fazer como no sofrer, a uma lei de obrigação moral que era só sua e que ninguém partilhava. E, por mais difícil que seja para a nossa razão, não devemos ter medo nem dessa verdade nem das suas consequências. Antes de nos dar um novo mandamento, ele mesmo havia recebido um mandamento novo, num sentido muito mais elevado. Além disso, a sua obediência era necessária. A unidade da sua personalidade o protegia da possibilidade de pecar, assim como a sua concepção miraculosa o introduziu sem pecado no mundo. Cristo não está dividido, nem pode estar dividido, contra si mesmo. O pecado o envolveu como uma veste; mas nunca entrou na sua alma, a não ser na sua amargura vicária. Na cruz, a sua túnica sem costura estava, por assim dizer, nas mãos dos seus inimigos; mas ali estava a perfeição da obediência em que o Encarnado foi disciplinado. Como Filho, foi-lhe ensinado o mistério de um sofrimento insondável pelo pecado em nós e de um sofrimento igualmente insondável pela tentação a um pecado impossível. Ele não estava em estado de prova. Aprendeu as coisas do ser humano, τὰ τοῦ ἀνθρώπου; as coisas de Deus, τὰ τοῦ Θεοῦ, nunca as aprendeu (1Co 2.11). Nem adquiriu domínio sobre o reino universal da ética por ter sido, por uma noite, um Peregrino nesse reino. Trouxe do alto um poder divino que, nele, deu à ética uma nova perfeição. O seu governo supremo no domínio ético não se fundou na sua submissão ao dever humano.

III, 153Cristo aprende a obediência. (2.) Contudo, o Encarnado, embora fosse Filho, aprendeu a obediência: provou e mostrou o cumprimento do DEVER em todos os campos da vida e, nesse sentido, passou pela experiência das obrigações humanas. Como Filho, como israelita, como súdito de Roma, como rabino rodeado de discípulos, como Instrutor público ou Ministro da circuncisão, como membro da comunidade humana, manifestou submissão a toda autoridade. Praticou a obediência como a praticaria um ser humano impecável, ou como o próprio Deus poderia obedecer às suas próprias ordenanças. Essa obediência, porém, era VIRTUDE no sentido que o termo recebeu na ética cristã. É de fato difícil para nós conceber a virtude de um sofrer passivo que não esteja aliado à supressão ativa de uma vontade relutante. É difícil entender que virtude pode haver numa submissão que brota da necessidade de uma vontade eternamente una com a vontade divina. Mas, por difícil que seja, não é impossível. E só a partir desse princípio podemos aceitar a obediência do Filho encarnado. A mais sublime santidade é a repulsa diante do mal impossível. O ódio divino ao pecado, a tristeza pelos pecadores e o suportar a pena da transgressão encarnaram-se em Jesus. A compaixão que o Criador havia sentido pela sua criatura transviada aprendeu de novo o seu mistério no Redentor. O novo Mestre mostrou de antemão o segredo da sua própria legislação: o cumprimento da lei é o amor (Rm 13.10). Na sua devoção a Deus e na sua caridade para com o homem, naquele amor que nele estava, num sentido sem paralelo, τετελειωμένη [aperfeiçoado], ele guardou todos os mandamentos: tanto os que foram dados só a ele e levaram ao extremo a sua capacidade humana de suportar, como os que ele obedeceu como que inconscientemente e por necessidade, encontrando na obediência a comida e a bebida da vida. Assim como não tomou sobre a sua alma, para expiá-los, os nossos pecados individuais, mas antes o nosso pecado na sua plenitude e essência, assim também guardou e honrou não tanto leis, mas a lei. Algumas leis particulares nada tinham nele, e ele nunca as aprendeu nem poderia aprendê-las; mas, ainda assim, honrou toda a lei, de modo geral, no princípio da perfeita obediência do AMOR A DEUS E AO HOMEM.

III, 154Autoridade e submissão. (3.) Nosso Senhor exerceu autoridade divina ao mesmo tempo que passava pela disciplina mediadora que a sua obra redentora exigia. A prerrogativa da sua divindade não podia ser suspensa, embora pudesse ser velada. Foi pela sua própria vontade divina que ele se tornou subordinado. E, ao longo de toda a sua submissão, foi dada às vezes a mais abundante prova, por atos e por palavras, de que o Legislador Supremo estava presente nele e de que o próprio Jesus, que falava, não era outro senão ele. Durante a sua humilhação, havia um véu, ainda não removido, sobre o rosto daquele que é maior do que Moisés. Ele ainda não diz: Eis que faço novas todas as coisas! (Ap 21.5), embora traga novos mandamentos e novas instituições. Apela para a legislação antiga e aos antigos (Mt 5.21), para a autoridade da Escritura, que não pode falhar (Jo 10.35), e para Deus como Juiz de todos e última instância de apelo. Mas a sua constante reserva e o lugar secundário que em geral assumia eram apenas um véu. O vale da sua humilhação é coroado por três Montes onde o Legislador recebe honra e glória: em parte como fruto da sua submissão, mas ainda mais como revelação do que ele tinha junto de Deus antes que houvesse mundo. No primeiro, o das Bem-aventuranças, afirma a sua autoridade suprema, isto é, divina, sem uma única alusão a alguém maior do que ele. No segundo, o da Transfiguração, as suas reivindicações são confirmadas pela voz de Deus. E, no terceiro, o Monte da Galileia, depois da sua morte expiatória, as suas palavras unem a autoridade subordinada e a suprema: a subordinada, toda a autoridade me foi dada; a suprema, eis que estou com vocês todos os dias! (Mt 28.18, 20). Se no vale ouvimos a voz de um homem, nesses montes ouvimos a voz de Deus. Mas as vozes são as mesmas. Depois da ascensão, já não há nenhum encobrimento. O Pentecostes foi a festa e a glorificação da nova lei. Nosso Senhor agora dos céus nos adverte (Hb 12.25); e dos céus, por consenso geral, ninguém pode falar senão Deus. Era, de fato, a mesma Voz que deu a legislação do Sinai e que naquele tempo abalou a terra (Hb 12.26). Depois de ter sido, por um tempo, rebaixada a acentos humanos, ela agora fala por meio do Espírito. Assim, em toda a Bíblia, há uma só Voz de autoridade moral. Em todo o Novo Testamento, a vontade de Deus e a vontade de Cristo são uma só; e, quando ouvimos o nosso Mestre dizer Quem vê a mim vê o Pai (Jo 14.9), podemos legitimamente levar as suas palavras a este sentido ulterior: Quem ouve a mim ouve o Pai.

III, 155Exemplo. 2. O Senhor deu um exemplo divino-humano e perfeito: é o único Legislador que já fez, ou que jamais poderia fazer, da sua própria vida o seu código de leis. Começou o seu ministério com um resumo perfeito de todo o dever humano, Eu, porém, lhes digo (Mt 5, passim); terminou-o declarando: eu lhes dei o exemplo (Jo 13.15). Mas aqui, de novo, o mistério da dupla natureza da Pessoa única do Legislador sugere ressalvas que nunca serão ponderadas com profundidade excessiva, nem lembradas com excessiva constância. Isso é esquecido com frequência demais.

Perfeito. (1.) O seu exemplo era necessariamente PERFEITO. Isso tem sido muitas vezes questionado: o caráter de Jesus, como o Ideal das suas próprias leis, tem sido impugnado. Alguns negaram a sua perfeição sem igual; outros o depreciaram em comparação com o de outros mestres, e até com o dos seus próprios discípulos. Mas muitas das censuras lançadas contra ele pelos olhos que, vendo, não veem, são igualmente censuras ao antigo Jeová. O Deus do Antigo Testamento reveste-se dos mesmos atributos morais que Jesus no Novo. Os tons da sua ira estão exatamente no mesmo registro que ouvimos na antiga economia; e estão mesclados com a mesma brandura e a mesma misericórdia. A sua ira é ira divina; e a sua severidade é a mesma, nem mais nem menos rigorosa, que a do Legislador que constituiu Moisés em toda a sua casa. Mas os críticos de Jesus se escandalizam de que ele tenha falhado no sentimento oposto: de que tenha recuado diante do sofrimento que exigia que os seus seguidores suportassem e falhado, onde exigia que eles tivessem êxito, no soberano desprezo pelo sofrimento e pela morte. Mas a sua mansidão e o seu recuo diante da dor eram o tributo da perfeita pureza a um sofrimento desconhecido; e a expressão do seu HORROR MORTIS, ou pavor da morte, era na realidade o seu pavor divino-humano diante do pecado, o HORROR PECCATI. Foi porque era mais do que homem que, ao enfrentar a consequência infinita do pecado, ele pareceu menos do que homem perfeito. Ninguém, porém, que negue o mistério da Expiação pode sentir a força disso. Ainda assim, até esses podem ser desafiados a provar que houve no Jesus sofredor menos do que a perfeição da paciência e da magnanimidade humanas. Até para eles, o foi precisamente com este propósito que eu vim para esta hora (Jo 12.27) deveria explicar e desculpar o que passe de mim este cálice! (Mt 26.39). A reverência nos proíbe levar adiante esta apologia. Basta dizer que nenhum olho límpido e nenhum coração puro pode estar na presença do Redentor sem se render à convicção de que ele não ensinou nenhuma virtude de que não tenha dado exemplo; isto é, na medida em que um Ser sem pecado, que nunca conheceu nem poderia jamais conhecer o pecado, podia ser exemplo dela.

III, 156Limitação. (2.) Contudo, como sugerem essas últimas palavras, o dele não foi em todos os aspectos um EXEMPLO perfeito. A sua excelência divino-humana é, em certo sentido, elevada demais: não a podemos atingir. Por isso, nem o Senhor nem os seus apóstolos depois dele apresentam a sua vida como diretriz da nossa em todos os pontos. Em alguns pormenores do dever, ele não podia deixar-nos um modelo: para esses, temos de recorrer a homens semelhantes a nós, sujeitos aos mesmos sentimentos (Tg 5.17). Ele se tornou o Autor da salvação eterna não para os que o copiam no processo (ele nunca passou pelo processo), mas para todos os que lhe obedecem (Hb 5.9). Ele dá o ideal e a soma do resultado bem-aventurado: o caminho até lá nós o conhecemos, e ele mesmo é o caminho; mas não vemos a marca dos seus passos na estrada que leva da terra distante de volta à santidade. Sempre que se fala do seu exemplo, é numa ligação comovente com a humildade, a paciência, o sacrifício de si pelos outros e o completo abandono do mundo. Mas ele não chegou a essas afeições celestiais como nós temos de chegar a elas. Nele, eram a sua condescendência divina, trazida do alto e traduzida em formas humanas; em nós, são os triunfos, duramente conquistados, do seu Espírito, que vence o que lhes é contrário. A virtude dele o trouxe do céu à terra; a nossa deve levar-nos da terra ao céu. Devemos imitar a sua grande submissão; mas nenhum de nós jamais poderá soltar o seu clamor vicário: Deus meu, Deus meu, POR QUE ME DESAMPARASTE? (Mt 27.46). Pois ele, diferentemente de nós, nunca havia DESAMPARADO A DEUS.

O padrão supremo. 3. Por isso, em resumo: o princípio do nosso DEVER é a obediência dele no amor; a força da nossa VIRTUDE é o seu Espírito; e o SUMMUM BONUM [bem supremo] da nossa bem-aventurança é a sua Paz. Nele vemos a Lei inteira refletida na sua mais alta pureza; pelo seu caráter nós a interpretamos, e toda a nossa obediência é a imitação silenciosa dele mesmo. A sua excelência é divina e humana: é para ser adorada e imitada. Como Deus, ele ordena; e, como Homem, mostra-nos como obedecer. O Legislador nos dá tanto o Modelo como a força para copiá-lo.

III, 157O EVANGELHO E A ÉTICA.

Doutrina cristã e ética. O cristianismo é um ENSINO SEGUNDO A PIEDADE (1Tm 6.3). A moral cristã, como tal, funda-se na verdade especificamente cristã; é ensinada em aliança com ela; e é apresentada como o fim de todo o seu ensino.

Este poderia parecer o lugar de considerar a relação entre a ética cristã e a filosofia moral. Mas antes precisamos estabelecer os princípios exclusivos desta nova ética como inseparavelmente ligados à revelação de Jesus. Isso não passa de justo tributo à preeminência do evangelho, que nada aprendeu da filosofia deste mundo que já não possua independentemente de toda filosofia terrena.

A base doutrinária. I. Reservando para a próxima seção as observações sobre os princípios fundamentais gerais da moral, podemos dizer que as doutrinas proeminentes ensinadas pela primeira vez, ou trazidas plenamente à luz, na revelação cristã são o fundamento da ética cristã. Há três grandes verdades subjacentes que, pode-se dizer, estão na base de todos os demais fundamentos: a Queda, ou seja, aquilo de que a disciplina moral de Cristo procura erguer a humanidade; a Redenção, aquilo por meio de que a ergue; o Futuro, aquilo para que a ergue. Essas doutrinas em si mesmas são tratadas em outro lugar. Aqui é preciso apenas indicar a sua relação essencial com a ética.

A Queda. 1. A Queda, com a doutrina que a acompanha, a do pecado original, afeta vitalmente e de ponta a ponta a moral cristã como sistema. Só o cristianismo revela qual era o estado original da humanidade; como uma condição moral perfeita se perdeu pelo mau uso da liberdade; que lugar o livre-arbítrio ainda ocupa na formação do caráter; como se deve explicar o bem ético que permanece nos elementos da humanidade; e para que alto destino o homem foi criado e ainda está reservado. Mostra quão inteiramente a natureza dele está depravada quanto à consecução do bem, ensinando que há em todo mortal uma inclinação para o mal, irresistível a não ser pela graça; e que é seu destino, simplesmente como homem, realizar livremente aquele mal que se tornou a necessidade do seu livre-arbítrio. Lança os fundamentos da sua ética em meio às ruínas da nossa dignidade decaída, erguendo um edifício que é ao mesmo tempo uma nova criação e uma reconstrução, e construindo o seu novo templo com os fragmentos do antigo. Trata o mundo como um mundo profundamente decaído, mas não inteiramente arruinado; profundamente corrompido, mas não de todo dissolvido. E trata cada homem como alguém que tem em si, apesar da sua herança de Adão, os elementos de uma natureza moral que pode ser recuperada. Mas não recuperada por nenhum esforço próprio: a legislação cristã começa exigindo completa renúncia de si, desconfiança de si, ou desespero de si. Em meio a todos os triunfos da graça, nunca permite que a Queda seja esquecida.

III, 158A Redenção. 2. A Redenção (objetiva, operada EM NOSSO FAVOR por Cristo; subjetiva, operada EM NÓS pelo Espírito Santo), na sua relação com a ética do cristianismo, não tanto segue a Queda quanto a acompanha.

Em favor do mundo. (1.) A graça preliminar, que consideramos as primícias da intervenção do Redentor em favor da raça, explica o desejo secreto que o homem tem de ser restaurado; e assim ilumina toda a esfera da ética. É aquela redenção antes da Redenção que interpreta a condenação universal do mal e a aprovação do bem registradas no tribunal da própria natureza humana; e de modo tão infalível, aliás, que a palavra Consciência, que a rigor designa a percepção que o homem tem do caráter moral, passou a significar em geral a faculdade moral humana. É a ela que o Legislador cristão, e os que seguem o seu ensino, sempre apelam. Nunca se deve esquecê-la ao longo do nosso estudo da legislação evangélica. Ela dá coerência a toda a soma do seu ensino moral e torna a moral possível ao homem.

Para nós. (2.) O perdão que ela sela na consciência, dando ao perdoado a dupla percepção, de um lado, do pecado como fato e, de outro, da inocência como imputação, remove a barreira que se opõe ao esforço moral e lhe dá o seu incentivo mais forte. Há uma força indizível no pensamento de ter pago a pena de uma vez por todas num Substituto que pertence à raça e a cada membro dela que o reclama para si. Vão é todo ensino de moralidade sem um perdão preliminar: vãs as Bem-aventuranças do Monte (Mt 5.3-10), a não ser na expectativa de uma Expiação que antes houvesse de silenciar os ais da Cidade (Mt 23.13-33).

Em nós. (3.) A redenção da maldição da lei é também libertação do poder do mal, porque supre as fontes secretas da ação humana com o poder de um Deus que habita no homem. Ela torna todas as coisas possíveis. Assim como o perdão, completo e constante, remove o maior impedimento ao esforço moral, tratando a culpa como se não existisse, assim o Espírito da regeneração literalmente abre à aspiração e à conquista humanas todo o âmbito da perfeição ética. Nada é impossível àquele que é perdoado e renovado. Além disso, não é exagero dizer que a redenção, como experiência interior, imprime um caráter específico a toda a ética cristã. O senso do perdão dá origem a uma nova ordem de emoções e obrigações éticas, e a nova vida em Cristo é a esfera de uma nova ordem de deveres, conquistas e experiências éticas, das quais não precisamos falar agora mais particularmente.

III, 159O Futuro. 3. O cristianismo trouxe à luz a vida futura, com os seus poderes, os seus terrores e as suas esperanças, e incorporou também isso ao fundamento da sua ética.

Responsabilidade. (1.) Isso dá à moral da vida humana o seu caráter de provação; a responsabilidade ganha com isso um novo sentido; o tempo se torna inestimavelmente precioso em relação à eternidade; e todo ato, toda palavra e todo pensamento adquire nova importância pela sua relação com uma condição fixa e eterna. Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disso, o juízo! (Hb 9.27). Essa foi uma voz nova na esfera do ensino ético do mundo: interpretou o instinto da consciência universal; iluminou as revelações mais obscuras do Antigo Testamento; e fez dos poderes do mundo vindouro, o que nunca antes tinham sido tão plenamente, as forças motrizes do mundo presente, ao trazer à luz a vida e a imortalidade (2Tm 1.10).

Sanção. (2.) Ela fornece as sanções finais e mais profundas da lei moral. SANÇÃO é a salvaguarda posta em torno de um mandamento ou dever para lhe impor o cumprimento: a sanção do dever não cumprido é a punição da pessoa que falha. A única sanção da lei é o desagrado de Deus; mas esse desagrado, na sua expressão mais plena, fica agora, por esta doutrina, considerada no seu aspecto ético, adiado para o Grande Dia. Os sinais preliminares dele neste mundo não passam de começos da ira: o juízo de fato já começou, e a palavra Eterno já entrou no tempo; mas o cristianismo faz do mundo futuro, com o seu juízo no limiar, o desfecho de todo o seu ensino moral. A pena da separação eterna de Deus é o grande argumento ético: a provação cristã é a decisão da questão de saber se a sentença original será finalmente revogada ou tornada eterna. Por isso, esta doutrina dá o seu verdadeiro caráter ao pecado do qual os homens devem ser salvos: sem ela, a ética cristã é uma irrealidade. É PECADO ETERNO nas suas possibilidades (Mc 3.29). Não há nada contra o que o sentimento, ou o sentimentalismo, de muitos pensadores se rebele tão persistentemente quanto isso. Alguns recuam a ponto de rejeitar o cristianismo que nisso se baseia, enquanto outros buscam refúgio em reformular a doutrina da retribuição eterna. Para eles, o Pecado é apenas um Dilúvio de miséria, e Cristo apenas o nosso Noé, ou Consolador [N. do T.: o nome de Noé evoca “consolar” (Gn 5.29)], que no futuro fará todos os homens esquecerem as suas dores numa restauração universal ou aniquilará aqueles a quem não puder restaurar.

III, 160O bem futuro. (3.) O futuro é também a meta da perfeição da criatura: aquele Summum Bonum [bem supremo], ou bem-aventurança final da alma, para o qual a ética do cristianismo aponta perpetuamente a aspiração dos seus discípulos, não apenas como a fruição consumada dos resultados do bem-fazer, mas como a visão do próprio Deus. Num sentido inferior, pode-se dizer que o primeiro desses aspectos é o argumento ético final: comigo está a recompensa! (Ap 22.12). Mas a recompensa mais alta é a alegria do seu senhor (Mt 25.21).

Ética redentora. 4. Sendo verdade tudo isso, podemos falar com justiça de uma ética redentora. A religião cristã não conhece outra. A necessidade ou problema, o método e o processo, o estímulo e o fim de toda a ética estão naquela única verdade: somos uma raça libertada pela mão de um Mediador. A Redenção é a ideia central: a Queda a ladeia de um lado, a Eternidade do outro. Todos esses elementos estão resumidos no último compêndio ético de são Paulo, que talvez contenha a exposição mais ampla e abrangente dos três princípios fundamentais da moral evangélica, com a obra expiatória no meio. A graça da redenção se manifestou, trazendo salvação a todos. Ela concede o perdão como graça e nos educa, ou nos disciplina, para toda aquela moralidade que é a realização do propósito redentor. E o desfecho de tudo é a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo, que deu a si mesmo por nós (Tt 2.11-14).

Doutrina e ética, uma só coisa. II. A doutrina cristã e a ética cristã estão entrelaçadas.

1. Não temos aqui dois departamentos na teologia da Escritura. De Gênesis a Apocalipse, do Sinai ao Pentecostes, não há diferença entre os métodos de expor o que o homem deve crer e o que deve praticar. Assim como na religião natural, com os seus caracteres quase ilegíveis, a consciência ensina ao mesmo tempo que Deus existe e que somos responsáveis diante dele, assim também, na revelação sobrenatural da Bíblia, a doutrina e o dever estão ligados entre si na sua relação com o Supremo.

III, 161O lado ético de cada dogma. 2. Toda doutrina, porém, tem o seu lado ético: toda verdade volta, em forma de dever, àquele que a deu. Isso pode ser ilustrado com referência aos assuntos particulares que compõem a soma da teologia dogmática. Deus é uma Pessoa e o homem é uma pessoa: todas as relações que têm em comum hão de ser éticas. As perfeições divinas não são simplesmente objetos de contemplação: vistas assim, apenas esgotariam a mente; na ética, elas a fortalecem poderosamente, e cada atributo especial implica a sua obrigação correspondente. A Trindade preside a um rico domínio da ética, que diz respeito às relações econômicas de cada Pessoa sagrada com o Deus triúno e com cada crente. A obra mediadora de Cristo é um conjunto de verdades reveladas, cada uma das quais, quer se refira a ele mesmo, quer à sua obra, tem o seu alcance moral. A vida era a luz dos homens (Jo 1.4). A apropriação da salvação pessoal introduz uma série de ensinos que são tão éticos quanto dogmáticos. Há uma doutrina e uma prática do arrependimento: a doutrina do convencimento divino, a prática da confissão e da emenda. A influência da graça é formulada como dogma; a atividade do homem é ética. A justificação pela fé é uma doutrina: a justiça é a sua ética. A santificação é a doutrina da consagração purificadora do Espírito para a santidade: os processos de renovação para a perfeição são éticos. O tema da Igreja tem a sua infinita variedade de implicações morais. Assim também as novas revelações da escatologia cristã. A morte, como doutrina, tem a sua ética da preparação. Assim também as Realidades Eternas, e a Restauração de Cristo que as precede. Mas tudo isso aparecerá mais plenamente no que se segue. Pode-se dizer que nenhuma doutrina é jamais ensinada sem referência a um dever humano correspondente; nem se ensina nenhum dever para o qual não se dê uma razão doutrinária. Há a máxima parcimônia no ensino e a máxima razoabilidade nas exigências. Sempre podemos dar razão da nossa esperança, na doutrina; e do nosso dever, na ética.

A ética como coroa. III. A ética é a coroa e a consumação de todo o ensino.

III, 162O fim de tudo. 1. Pode-se dizer, de modo geral, que as múltiplas linhas da revelação se encontram na restauração da imagem divina no homem. Este é o seu glorioso ponto de fuga. O ensino variado de que a Queda é o centro explica a violação ou a perda dessa imagem; tudo o que se ensina acerca da redenção é um único relato, diversificado, dos meios da sua renovação; e as revelações da eternidade convergem para o seu reflexo restaurado e perfeito. Toda a doutrina da Bíblia se resume numa palavra: Deus se fez homem para que o homem se tornasse de novo um com Deus.

O mero conhecimento. 2. Encontramos um constante menosprezo do mero conhecimento como tal: assim, ἡ γνῶσις φυσιοῖ, ἡ δὲ ἀγάπη οἰκοδομεῖ: A gnose leva ao orgulho, mas o amor edifica (1Co 8.1) [N. do T.: a NAA traz “O conhecimento”; Pope escreve Gnosis]. Há, porém, um conhecimento de que a Escritura fala que é ao mesmo tempo doutrinário e ético. A palavra deixa de ser apenas grega, assume um sentido hebraico e se torna mais do que mera ciência intelectual. Não é γνῶσις, mas ἐπίγνωσις, segundo aquela grande oração: que vocês transbordem do pleno conhecimento da vontade de Deus, em toda a sabedoria e entendimento espiritual (Cl 1.9).

A teologia é religião. 3. Por isso, a teologia é, afinal, e na sua forma mais elevada, um sistema perfeito de ética. Em todas as épocas, e em todos os seus aspectos, esse tem sido o seu alvo. Fora da revelação, a FILOSOFIA era a unidade daquilo que ela tinha para ensinar de doutrina e de dever: era a RELIGIÃO do Mundo Antigo, que, por mais ardentemente que aspirasse a expor os fundamentos da moralidade, tinha apenas uma base escassa de dogma teológico sobre a qual erguer os seus ensinos. Quando falamos da RELIGIÃO CRISTÃ e também da FÉ CRISTÃ, não fazemos distinção real; pois, embora o segundo termo pertença antes ao sistema daquilo que se crê, e o primeiro ao culto e à prática que daí resultam, ambos combinam igualmente a confissão e a vida dos que professam o cristianismo.

Necessidade da base doutrinária. 4. A lembrança perpétua da supremacia da ética tende a livrar o estudo teológico da sua dureza e da sua esterilidade. Ela limita o alcance da parte especulativa desse estudo e derrama uma graça peculiar sobre todo o restante. Mas não se deve esquecer que, embora a ética seja a consumação da ciência teológica, as doutrinas subjacentes em que ela se apoia são essenciais à sua integridade. Se essas doutrinas não forem sempre lembradas, a ética degenera num reflexo subjetivo e sentimental das fantasias humanas, que varia com as variações sem fim das opiniões sobre a história natural do homem. O sistema moral que não se baseia num substrato seguro de verdade é mera reconstrução dos fragmentos quebrados da nossa natureza caída, sem arquiteto nem plano.

III, 163ÉTICA CRISTÃ E FILOSOFIA MORAL.

Filosofia moral. O que a teologia natural é para a teologia da revelação sobrenatural, a filosofia moral é para a ética cristã. Concordam quanto a alguns dos principais fundamentos da ciência ética, mas depois divergem amplamente: o sistema cristão de moral supre o que falta essencialmente a todo ensino moral que independe da sua orientação.

Relações. Já se mostrou suficientemente que a moral do cristianismo deve ser introduzida em todo sistema de teologia dogmática, e isso como departamento distinto, embora muito do que pertence à ética redentora seja antecipado no estado de salvação. Naturalmente há uma vasta região da ciência ética que só indiretamente diz respeito à teologia, e cujo estudo nos leva à ampla região da filosofia moral propriamente dita. Essa ciência ocupou o melhor do pensamento da humanidade; e a história do seu desenvolvimento, tanto à parte do cristianismo quanto ligado a ele, é profundamente instrutiva. Não precisamos entrar agora nessa história. Os primeiros princípios da nossa religião nos proíbem de considerar a filosofia moral como a grande ciência da qual a nossa é apenas um ramo. Mas, se a teologia revelada é suprema, a filosofia moral perde muito do seu sentido independente; pois aquilo que ela apenas busca, e sobre o que apenas especula, o registro infalível já nos deu.

Cristã. I. A filosofia moral cristã (pois podemos adotar esta solução de compromisso) aceita e amplia, ou melhor, corrige, o nome e a definição geral da ciência ética.

Definições. 1. Os termos ética e moral mal se distinguem. Ética, de ἦθος ou ἔθος, refere-se à morada, à sede, à postura, ao hábito ou ao caráter interior da alma; moral, de mos, ou costume, refere-se antes à manifestação exterior desse caráter interior. Ambas as palavras foram limitadas em excesso à região da vida exterior. Em si mesmas são vagas e mostram a sua origem terrena. A revelação cristã não as rejeita; mas elas não se acham nos seus primeiros documentos, a não ser no ἤθη χρηστά [bons costumes] da citação de Menandro (1Co 15.33). Os termos do Novo Testamento que correspondem estritamente a esses são apenas dois: PIEDADE, como hábito da alma semelhante ao de Deus; SANTIDADE, como hábito da alma santificada do pecado. Todos os outros termos se elevam, pelo menos, até essas duas palavras, como se verá mais adiante.

III, 164A ciência da ética. 2. Mas toda definição dessa ciência tem de se submeter à censura e à correção cristãs. Aristóteles a chamou ἡ περὶ τὰ ἀνθρώπινα φιλοσοφία, A FILOSOFIA DOS INTERESSES HUMANOS, aquilo que o Antigo Testamento designa como O TODO DO HOMEM (Ec 12.13) [N. do T.: o original indica “Eth. xii. 13”; a NAA traz “o dever de cada pessoa”] e que o Novo Testamento eleva a τὰ τοῦ Θεοῦ, AS COISAS DE MEU PAI (Lc 2.49) [N. do T.: a NAA traz “na casa de meu Pai”; Pope segue a KJV, “my Father’s business”], ou A VONTADE DE DEUS (Mc 3.35). Em todas as épocas se fez aquela clara distinção entre a ciência natural e a ciência moral, ou entre a física e a ética, que Kant expressou assim: “A física, ciência das leis da natureza; a ética, ciência das leis da liberdade.” Essa definição, tão completamente oposta à moderna Filosofia Positiva (que submete os atos do homem ao domínio da mesma necessidade que reina sobre a matéria, embora de forma mais refinada), é profundamente cristã. Mas omite o que é essencial ao sistema novo e supremo: que as leis da liberdade estão sob o governo do Espírito Santo. Bentham é o representante de um princípio muito diferente. Ele a chama “a arte de dirigir as ações dos homens de modo a produzir a maior felicidade”: essa é a visão utilitarista e, à luz da nossa religião, imperfeita e errada. O mais cristão Paley não é muito melhor: “A ciência que ensina aos homens o seu dever e as razões dele.” Essa definição é inadequada em todos os aspectos, embora seja difícil descobrir o segredo da sua superficialidade. Mas isso se verá quando a compararmos com a definição de Neander: “A filosofia moral ocupa-se do desenvolvimento das leis da conduta humana; a ética cristã deriva essas leis da essência do cristianismo.”

Os mesmos princípios fundamentais. II. Os princípios fundamentais da filosofia moral, enquanto independente da revelação, são aceitos e confirmados pelo cristianismo, que, no entanto, modifica e aperfeiçoa alguns deles.

Vocabulário. 1. As palavras que exprimem ideias morais são, na maioria, conservadas no seu sentido usual: aquele que nelas foi gravado pelo consenso da humanidade. O vocabulário geral é o mesmo: por exemplo, consciência, obrigação (ou seja, o deve e o tem de), lei, o justo, o bem e o mal, pecado, juízo, recompensa, castigo encontram-se com a mesma aplicação nas Escrituras e fora delas. Algumas dessas palavras, porém, são elevadas, como veremos, a um sentido mais alto pela interpretação do Espírito de liberdade e de amor; ao passo que há muitos termos de grande significado ético que são pura cunhagem da ética cristã, como amor, pureza, santificação, paz, santidade, bem-aventurança, piedade. Um ramo amplo e sagrado da nomenclatura ética, e entre nós muito familiar, deve a sua origem ao Fundador do cristianismo e aos apóstolos que ele instruiu.

III, 165Fundamentos da obrigação. 2. As teorias que circularam e circulam acerca dos fundamentos primários e das obrigações da moralidade não recebem nas Escrituras Sagradas nem sequer uma alusão. As Escrituras nunca discutem o que faz o bem ser bem e o mal ser mal, o certo ser certo e o errado ser errado: todas essas discussões são superadas e absorvidas no testemunho de que ninguém é bom, a não ser um, que é Deus (Lc 18.19), e de que a natureza de Deus, como fundamento da obrigação, é a sua vontade: Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade (Hb 10.9). Os moralistas da Bíblia não conhecem nenhum fundamento eterno da obrigação fora do Supremo, por trás dele ou independente dele. Enquanto isso, a discussão interminável continua. Uns põem esse fundamento na natureza de Deus ou na sua vontade, outros na vaga abstração chamada conveniência das coisas; uns o reduzem ao senso moral subjetivo do homem, outros à lei da benevolência universal e ao valor da felicidade; outros ainda apelam para a ideia do que é justo, incorrendo assim em petição de princípio; e outros, por fim, o encontram na bondade intrínseca da virtude. Os pensadores Filósofos morais. cristãos entram na discussão e dão o seu apoio, um após outro, a todas as teorias; mas os mais profundos entre eles admitirão que, para o homem como criatura, o fundamento da obrigação é a vontade divina, ao passo que, para o homem como agente moral, o fundamento é a natureza divina, da qual a natureza dele é imagem ou reflexo. Quanto às teorias materialistas, que fazem da consciência, do justo e do bem meras invenções das esperanças, dos temores e dos cálculos dos homens, como o próprio Deus, e de toda a ética, na sua obrigação e na sua beleza, apenas o resultado de incontáveis eras de evolução social, o cristianismo não discorre sobre elas: olha-as e segue o seu caminho.

3. A filosofia moral, sobretudo em tempos mais recentes, distinguiu Dever, virtude, Summum Bonum. entre o DEVER, a VIRTUDE e o SUMMUM BONUM [bem supremo], como reguladores dos processos da ética. Esses termos se encontram nos sistemas éticos cristãos; mas são tão transformados pela sua regeneração no cristianismo que deixam de servir ao seu antigo uso. São elevados à unidade da Santidade ao Senhor (Zc 14.20) [N. do T.: a NAA traz “Santo ao Senhor”; Pope segue a KJV, Holiness to the Lord, e o argumento se apoia no substantivo “santidade”]: concepção conhecida somente da religião sobrenatural. Esta frase sagrada, que nos leva ao santuário mais íntimo do novo templo, contém os três termos: a virtude está na SANTIDADE, que é severa separação do mal; o dever, em AO SENHOR; e o Summum Bonum é a união com a divindade que aí está implícita. O bem supremo do homem é a sua bem-aventurança na comunhão com Deus: o termo felicidade já não é supremo. Cristo mostrou ao homem o que é bom. O DEVER é transfigurado pela sua ligação com a redenção: vocês não pertencem a vocês mesmos (1Co 6.19-20). Ele encontra o seu padrão em Jesus; a sua esfera, no reino dele; e o seu único objeto, no Deus triúno que redime. E a obrigação se converte em amor, que é a VIRTUDE; o amor é o vínculo da perfeição (Cl 3.14), no seguimento do Senhor e no reflexo da sua santíssima imagem. O amor é o segredo e a unidade dos três.

III, 166Abrangência. 4. O cristianismo, ao definir o sistema moral fundado no Novo Testamento, não só está disposto a aceitar a ampla extensão que a filosofia moral deu a esta ciência, como, por sua vez, chega a ampliá-la. A maioria dos sistematizadores seguiu Aristóteles, incluindo nela a economia social, a jurisprudência e a política: na verdade, toda a soma e todo o complexo das relações humanas. Os pensadores e moralistas modernos excluem dela os ramos que dizem respeito apenas à atividade do homem e à educação do seu senso do belo, ou ESTÉTICA. Mas incluem diretamente, como o Novo Testamento faz indiretamente, todo o restante, com o acréscimo da nossa relação com a Igreja cristã e com o estado futuro. Já se viu que há um sentido em que o cristianismo faz de todo o seu ensino, sobre qualquer assunto, em toda a economia da verdade, o ensino SEGUNDO A PIEDADE (1Tm 6.3). A sua relação com Deus determina o valor de todo conhecimento.

Concordância. III. A ética cristã, embora aceite e complemente o ensino especulativo da filosofia moral sobre alguns assuntos importantíssimos, condena muitas das especulações dela sobre outros.

Filosofia. 1. Ela assume de bom grado esta expressão predileta, FILOSOFIA MORAL, mas com a condição de que o seu termo principal seja elevado a um sentido mais alto. A sua φιλοσοφία, ou filosofia, não apenas busca e ama a sabedoria ou a verdade, mas a encontrou. Também não rejeita o termo DEONTOLOGIA, corretamente entendido: ela ensina a ciência do que DEVE SER, mas como ciência também do que pode ser e, em Cristo, é alcançável e alcançado, praticável e praticado. A verdade em Jesus é positiva e absoluta; e a filosofia, no seu antigo sentido limitado, é agora o mesmo anacronismo que a mera teologia natural. A Philosophia moralis de Cícero e de Sêneca era investigação especulativa: a filosofia do mundo antigo, do Oriente e do Ocidente, era profundamente religiosa, mas apenas como quem tateia em busca do Supremo. A escola de buscadores em cujo meio são Paulo entrou estava reunida em torno de um altar ao Deus Desconhecido. Mas o evangelho declarou o verdadeiro Deus de santidade à nossa teologia dogmática e a verdadeira santidade de Deus à nossa ética: as duas coisas numa só, e ambas em perfeição.

III, 167Pensamento especulativo. 2. O cristianismo, como toda filosofia moral sadia, exclui a especulação sobre a existência daquele substrato de toda a ética, a alma humana. Há um sistema filosófico, falsa e muito indignamente chamado assim, que nega a personalidade e a existência separada do sujeito ético. A sua palavra de ordem é que toda substância é uma só. Duas escolas divergem a partir dessa posição: uma, que faz do próprio universo, e de todo o universo, Deus, o panteísmo; e outra, que faz de todo o universo apenas matéria. Na primeira, a moral se perde, pois não passa dos desdobramentos caprichosos e transitórios dos próprios atos de Deus, que só não mancham o caráter dele porque são fenômenos passageiros a caminho do bem eterno. Na segunda, que dá à época presente a própria borra da filosofia, supõe-se que o homem inventou lentamente tanto o fundamento como a forma e a sanção daquilo que Panteísmo e materialismo. ele chama a sua moral. Pode parecer injusto com o panteísmo de Espinosa associá-lo ao materialismo. Mas, por mais injusto que seja com o fundador do panteísmo moderno, não é injustiça com o próprio sistema, que logicamente não pode ter moral nenhuma, porque não deixa lugar para a responsabilidade. Na verdade, nem o panteísmo nem o materialismo (ambos vítimas da busca inquieta de uma Unidade inalcançável) podem ter lugar para uma filosofia moral; nem a filosofia moral pode encontrar lugar para eles.

III, 168Natureza humana. 3. O cristianismo, na sua filosofia da moral, aceita a constituição da natureza humana como reguladora da investigação ética; mas tem o seu próprio ensino claro quanto à gênese, ao desenvolvimento e à tendência dessa natureza. Não deixa como matéria de especulação se o homem está subindo à perfeição pela lei da evolução secular ou se está recuperando um estado perdido. Adotando, ou antes impondo, a segunda teoria, ele resguarda a sua ciência ética contra o perigo de raciocinar demais a partir dos elementos do que se chama natureza humana, considerada à parte da Queda.

A economia mediadora. 4. A sua doutrina da mediação não altera os fundamentos da virtude, mas apresenta um Deus cuja justiça e cuja misericórdia se combinam num mistério de que a filosofia moral nada sabe. O perdão assegurado e selado dá origem, como vimos, a um novo campo de obrigações e de graças. O mesmo fazem a regeneração e a habitação interior do Espírito. Introduz-se uma nova ordem de palavras (graça, graças, privilégios, santificação, união com Cristo), todas desconhecidas da moral humana. Na verdade, é aqui que a filosofia moral e a ética cristã ao menos se separam, se é que não se tornam alheias uma à outra. A filosofia moral, como tal, toma a natureza humana tal como ela é e a estuda à parte da história secreta da Queda: faz o melhor uso do que encontra, sem investigar com curiosidade excessiva como o seu sujeito chegou a ser o que é. Também nada sabe do mistério da expiação: não a nega, mas também não apela para ela. O direito tem de ser vindicado, e a injustiça tem de ser punida; e, segundo o ensino dela, como tal, e supondo que não tome nada emprestado do evangelho, a justiça divina e a fragilidade humana têm de chegar a um acordo por meio de algum meio-termo que ela não sabe explicar.

O futuro. 5. Na filosofia moral, como tal, o futuro ou é omitido, ou se limita à perfectibilidade humana no mundo presente, ou é introduzido na ética apenas como fator de probabilidade. O futuro cristão derrama a sua luz sobre toda região, glorifica toda palavra e dá unidade ao todo, revelando um fim e uma consumação de que os sistemas meramente humanos nada sabem. Nada sabem com certeza, quer dizer: quase todo sistema de moral, de fato, introduziu o futuro como elemento de probabilidade. O cristianismo usa esse fator como verdade absoluta; e foi isso que sempre lhe assegurou o seu poder e a sua preeminência sobre todo e qualquer outro ensino.

III, 169A ciência da ética cristã. IV. Por fim, pode-se observar que um sistema sadio de ética cristã lança o melhor e o único fundamento seguro de uma filosofia moral digna desse nome. Alguns dos tratados mais nobres sobre o assunto foram escritos por homens que professavam a fé cristã e que expuseram todo o campo das questões éticas segundo os princípios do Novo Testamento.

A única ciência verdadeira. 1. Há, de fato, um sentido em que se pode dizer com ousadia que o cristianismo deu origem à ciência moral como tal: criou um sistema doutrinário que lhe serve de base e deu à ética um caráter distinto e definido que ela antes não tinha. Em todo sistema surgido à parte da Nova Lei, houve uma notável ausência de algumas das primeiras condições de uma ciência propriamente dita. Tudo era tateante, empírico e incerto. A filosofia antiga nunca pretendeu incluir, na sua discussão da ética, mais do que um campo muito limitado de obrigações. Por que haveria alguma obrigação, ela nunca soube definir com clareza. Era, de fato, extremamente elaborada no tratamento de certos vícios e virtudes cardeais; mas ali terminava a sua filosofia. O ensino cristão pode reivindicar ser, no sentido mais profundo, uma filosofia moral: dá um relato completo da natureza moral do homem; estabelece os fundamentos da obrigação ética; expõe as sanções da lei; oferece uma legislação extremamente abrangente, adaptada a toda variedade de condição humana; provê o apaziguamento da consciência e a renovação da alma; põe a perfeição diante da esperança de todos; e mostra a que essa perfeição conduz por fim. A revelação fundamental sobre a qual tudo isso se baseia pode, sem dúvida, ser rejeitada; e então, naturalmente, pode-se pensar que toda a superestrutura cai. Mas continua de pé que não há outra que tome o seu lugar; e que esta é a única filosofia da ética que desafia o juízo do homem, apela para a sua consciência e fala ao seu coração. Literalmente, não tem rival, nem jamais teve.

Metafísica. 2. O que se pode chamar de ética metafísica, o cristianismo a sanciona, mas lhe limita o alcance. Questões como o ser de Deus, a relação dele com a criatura pessoal, ou antes a relação da criatura pessoal com ele, a medida e a realidade do nosso conhecimento do Supremo, a incidência da sua soberania sobre a liberdade da vontade, não são deixadas à discussão; nem as que dizem respeito à origem do mal e à imortalidade da alma. A teologia especulativa tem permissão para ocupar o seu próprio domínio; mas não é incentivada, e certamente não é incentivada a invadir a região dos deveres éticos do homem. Alguns sistemas muito extensos de ética cristã foram profundamente viciados pelo erro de forçar questões de mera especulação para dentro da região da fé.

III, 170Psicologia. 3. A relação da psicologia com a ética pode e deve ser estudada com o maior cuidado. Um exame completo dos constituintes da alma humana, e das relações e interações mútuas do intelecto, da sensibilidade e da vontade, lança muita luz sobre as doutrinas da Queda, da conversão, da regeneração e da santificação. Isso é especialmente importante no que diz respeito à ligação entre a experiência religiosa e as obrigações religiosas. Ver-se-á que, em todo o trato de Deus com o homem, não se interfere na constituição da natureza humana. A ruína do homem foi uma desordem ética e psicológica; a sua recuperação é a restauração da ordem pela ascendência do novo Espírito de vida, uma nova relação com Deus que regula sem violar as leis da natureza humana. O cristianismo é uma vida do alto, uma vida sobrenatural; mas é uma vida que deve ser conduzida segundo as leis que regulam os hábitos humanos e a formação do caráter. Uma só personalidade por trás dos três elementos. Voltaremos a este assunto. Enquanto isso, há um princípio fundamental para as ciências da psicologia e da ética que a filosofia moral tem esquecido em demasia. Há uma só personalidade do agente moral por trás e por baixo de todos os constituintes da sua natureza composta. Nem o seu intelecto, nem o seu sentimento, nem a sua vontade são o próprio homem, que é a unidade Consciência. desses elementos. A sua natureza intelectual lhe dá a CONSCIÊNCIA, que é o homem moralmente cônscio de si mesmo: o conhecimento constante que ele tem de si mesmo em relação ao padrão do certo e do errado depositado na sua razão. A sua sensibilidade lhe dá outra Amor. qualidade moral predominante, o AMOR, que tem na ética a mesma ascendência que a consciência tem. As suas faculdades conativas, ou a sua vontade, fornecem uma terceira característica moral do homem inteiro: a Intenção. inclinação determinada da sua INTENÇÃO, ou escolha última. No domínio moral, o homem é como é a sua intenção, como é o seu amor, como é a sua consciência. Os três convergem num só: referem-se, respectivamente, ao futuro, ao presente e ao passado. E é importante lembrar que o próprio homem, a pessoa com quem a lei moral trata, é a síntese de tudo isso e, mais do que isso, é o possuidor dessas coisas e o responsável por elas. Também não é correto dizer que ele tem consciência como ser inteligente, amor como ser emotivo e vontade como agente livre. Todo o seu ser entra, mais ou menos, em cada uma delas e em todas. A sua consciência é um sentimento, tanto quanto um conhecimento. O seu amor ocupa igualmente os três elementos da sua natureza. E a sua vontade entra em todos eles.

III, 171A LEI CRISTÃ.

Lei. Há duas características da legislação moral cristã que, como que mediando entre os princípios da ética e a sua aplicação, são tão marcantes que precisam ser estudadas à parte. A primeira é a ligação entre a liberdade e a lei; a segunda, a ligação entre a lei e o amor.

LIBERDADE E LEI.

Liberdade e lei. A religião cristã, como LEI PERFEITA, LEI DA LIBERDADE, encontra a sua perfeição na concessão, por meio do Espírito Santo, de uma liberdade interior em relação ao constrangimento da lei, liberdade que é perfeitamente compatível com a sujeição à lei exterior como diretriz da vida.

I. Nada é mais característico da economia Interior. cristã da ética do que o fato de ela estabelecer uma regra interior: a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, que nos livra da lei do pecado e da morte (Rm 8.2). Essa regra interior corresponde à exterior e, em certo sentido, toma o lugar dela. A lei exterior deixa de existir como lei de morte: desapareceu com a consciência do pecado, removida no perdão. E também desapareceu como algo que está contra a alma e acima dela, com a sua terrível impossibilidade de cumprimento. O Espírito de vida, no interior, dá força para toda obediência; e a lei que se deve obedecer é estabelecida dentro de nós, segundo a promessa que é a glória da nova aliança: Imprimirei as minhas leis na mente deles e as inscreverei sobre o seu coração (Hb 8.10). Isso é mais do que a restauração dos vestígios quase apagados da lei gravada no coração do homem universal. No cristianismo, essa lei interior é sobrenatural; ainda é natureza, mas natureza restaurada e mais do que restaurada: uma natureza sobrenatural. Esse é o regime interior de santo governo de que fala são Tiago quando chama o evangelho de lei perfeita, lei da liberdade (Tg 1.25): a lei perfeita se torna liberdade em relação à obrigação exterior. Quanto mais a obediência se aproxima da uniformidade das ordenanças da natureza (sendo obediência consciente e voluntária, embora, na sua perfeição, não tenha consciência de ser voluntária), tanto mais se aproxima do fim visado pelo Criador. A lei é apenas a regra pela qual o Supremo realiza a sua vontade. Em toda a economia do universo físico, a lei dele opera de dentro para fora, e não há necessidade de nenhum estatuto exterior registrado para guiar as suas criaturas não inteligentes. O Espírito divino, no coração dos homens regenerados, procura assim produzir uma obediência perfeita à lei do amor.

III, 172Consciência. 1. De modo amplo e geral, isso pode ser chamado de regra da consciência, a que o apóstolo se refere quando diz: Por isso, também me esforço por ter sempre uma consciência pura (At 24.16), como se a lei que o guiava fosse a decisão do seu próprio senso moral. A Escritura, porém, não reconhece nenhuma regra da consciência, sendo esta antes uma testemunha do que um governante. Na ciência ética moderna, a palavra é usada de modo a incluir as duas funções. Primeiro, e de modo muito geral, ela é usada para significar a faculdade moral que discerne o bem do mal: assim como os homens estão dotados de uma faculdade para distinguir o belo do feio, e a verdade do erro, também têm uma faculdade que distingue a qualidade moral das coisas, ou o certo do errado. Isso, porém, é simplesmente a razão, sobre a qual o Criador escreveu aqueles princípios morais que, nunca de todo apagados, são gravados de novo pelo Espírito Santo na regeneração como o padrão eterno pelo qual os homens devem julgar a si mesmos. Segundo, ela é a avaliação, instintiva ou formada pela reflexão, da conformidade do nosso próprio estado e dos nossos atos com esse padrão. Esta é a CONSCIÊNCIA propriamente dita, e a única consciência de que a Escritura fala. Ela sugere misteriosamente a devida retribuição do bem e do mal; mas esse é um atributo que o pecado lhe deu. Podemos distinguir as duas como consciência objetiva e consciência subjetiva. E, unindo-as, podemos falar da lei interior Autogoverno. como a lei do AUTOGOVERNO restaurado. O governo do Espírito de Deus no espírito dos regenerados é a administração da consciência, ou do eu renovado, segundo a ideia normal do Criador. Os homens em quem assim se deposita confiança (sujeitos à autoridade do Espírito Santo, mas tendo a própria alma sob o seu domínio) são, no sentido mais alto e mais puro, lei para si mesmos (Rm 2.14). Mas isso apenas como quem está debaixo da lei de Cristo (1Co 9.21), que é o Senhor comum de todos.

III, 173Exterior. II. Pois ainda há uma lei exterior, que contém os mandamentos cristãos na forma de ordenanças (Ef 2.15) e que se mantém por causa da fraqueza da nova natureza.

Apelo comum. 1. O padrão exterior ainda mantém a dignidade de lei e ainda afirma a necessidade da sua permanência como instituição. Em parte alguma o Novo Testamento, mesmo quando faz soar mais alto a nota da liberdade, proclama que a lei foi abolida. Da lei do pecado e da morte fomos livrados (Rm 8.2), não da lei que conduz à santidade e à vida. Escritos em tábuas de carne, isto é, nos corações (2Co 3.3), os mandamentos estão depositados também numa arca, em tábuas de pedra, para apelo comum entre criaturas em estado de prova. A legislação política e social da antiga economia passou, mas não a sua moral eterna. Esta é promulgada de novo sob outras formas e reescrita nas páginas do Novo Testamento como o padrão do que se exige, a condição da carta de privilégios e um testemunho contra os que ofendem.

Diretriz exterior. 2. As prescrições exteriores continuam sendo a diretriz do dever individual. Todas as relações, na ordem da providência do Governador moral, têm um senso da sua obrigação depositado com elas no coração humano, e a lei serve para educar esse senso nos seus múltiplos pormenores. Os melhores cristãos precisam de quem os faça lembrar: obedecem à lei interior, mas nem sempre são independentes do ensino da lei exterior.

Antinomismo. 3. A lei exterior é a salvaguarda da interior contra o seu único, ou principal, inimigo, o ANTINOMISMO, que considera a lei abolida em Cristo, ou a trata como se o fosse. Teórico. O antinomismo teórico, ou teológico, é a doutrina que torna a salvação do cristão eternamente independente de qualquer outra obediência que não seja a da oferta evangélica da graça, ou antes, que não seja a do Redentor vicário. Há um ensino que sustenta que o Substituto do homem não só pagou a pena da ofensa humana, mas também cumpriu a lei em lugar do pecador, tornando assim segura a salvação dos eleitos. Nessa doutrina, o crente nada mais tem que ver com uma regra legal, a não ser como um mestre subordinado de moralidade. Por toda a eternidade, ele nunca há de comparecer diante de nenhum tribunal para ser julgado pela lei. Ora, essa é a própria verdade do evangelho no que diz respeito à exigência que a lei faz de uma conformidade eterna e ininterrupta com os seus preceitos: ninguém suportará esse exame, nem no tribunal do tempo, nem no tribunal da eternidade. Mas aqui só há um passo entre a verdade preciosa e o erro perigoso. Cristo promulgou de novo a sua lei como instituição evangélica pela qual todos serão provados. O antinomista propriamente dito é aquele que considera a exigência de perfeita santidade satisfeita por Cristo e se recusa a medir a sua conduta por qualquer lei que seja. Para ele, a obediência é só questão de conveniência, de decoro e, talvez, de recompensa; mas não questão de vida ou morte: a sua desobediência pode ser corrigida por um Pai, mas não pode ser punida eternamente por um Juiz. A lei já não é condição de salvação: assim como a obediência não é condição de aceitação quanto à salvação passada, ou negativa, também não é condição de aceitação quanto à salvação futura, ou positiva. Prático. Há também um antinomismo prático ainda mais difundido, que usa a liberdade para dar ocasião à carne (Gl 5.13). Ele pode estar ligado, ou não, à renúncia teórica da lei. Encontra-se em todas as comunidades: é a vergonha de todos os credos e confissões. Os mandamentos escritos são uma salvaguarda contra ambas as formas do inimigo comum. O corretivo mais nobre e melhor é, como se verá: pelo contrário, sejam servos uns dos outros, pelo amor (Gl 5.13). Mas, além do suave protesto da caridade, há o severo protesto da lei com as suas sanções. Aquele que conhece a nossa estrutura nos protegeu, se for preciso, contra nós mesmos. Assim como o evangelho desarma a lei num sentido, ele a arma de novo em outro: são uma defesa mútua. Quem tiver rejeitado a lei de Moisés morre sem misericórdia, pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Imaginem quanto mais severo deve ser o castigo daquele (Hb 10.28-29): mas não precisamos completar a citação; basta dizer que é uma denúncia contra os que continuam a pecar de propósito, depois de termos recebido o conhecimento da verdade (Hb 10.26). A lei protege o evangelho ao proteger a si mesma. Se o povo cristão recita o seu Credo para guardar na memória as coisas em que crê com firmeza, não é menos necessário que recite também os Mandamentos, para guardar na memória o que deve fazer para entrar na vida.

III, 175O AMOR E A LEI.

O amor e a lei. Na doutrina da santificação, vimos que o amor é o princípio, a força e a perfeição da consagração a Deus. Na ética, temos de considerá-lo antes como a energia que cumpre a lei e como o compêndio em que a lei se cumpre, e ainda como a unidade dessas duas coisas.

O AMOR COMO COMPLEMENTO OU CUMPRIMENTO DA LEI.

O cumprimento como complemento. O amor é o complemento, ou o preenchimento, de tudo o que se entende por lei: a súmula de todo dever possível para com Deus e para com o homem.

1. De modo geral, pode-se dizer que este foi o compêndio autorizado do nosso Senhor. Ele honrou esse princípio como nunca antes fora honrado. Fez dele a fonte de todo o trato misericordioso de Deus com o homem. Tomou para si a perfeição dele: o seu amor e a sua humildade são as únicas graças que ele chamou de suas. Fez dele o distintivo do seu discipulado: o único laço de comunhão entre o seu povo e o seu Senhor. Desta graça, três vezes honrada, o Redentor fez também o epítome de todo dever nos seus dois ramos, para com Deus e para com o homem. Ele não estava apenas repreendendo o cálculo farisaico do valor dos preceitos, mas falava para todos os tempos, quando disse que destes dois mandamentos (isto é, do amor supremo a Deus e do amor ao próximo como a si mesmo) dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22.40). Ele não promulgou essas leis, ou essa lei dupla, como novas; nem lhes atribuiu uma importância nova em si mesmas. Simplesmente declarou que elas eram a soma de todo dever e lhes deu um significado novo nos sistemas éticos. No Antigo Testamento pareciam estar ENTRE os preceitos; agora estão ACIMA deles. Depois que o Senhor deu assim o exemplo, não é de admirar que todo escritor do Novo Testamento tenha prestado o seu tributo ao amor. São Tiago abre o caminho com o seu νόμον βασιλικόν, a lei régia (Tg 2.8) [N. do T.: a NAA traz “a lei do Reino”], que ele, porém, limita ao amor aos nossos semelhantes. A grande expressão de são Paulo é que o cumprimento da lei é o amor (Rm 13.10): nos dois casos em que ele a emprega, o sentido se limita, como em são Tiago, ao amor ao próximo. Repetidas vezes o Novo Legislador e os seus apóstolos resumem todo dever, não como duas espécies e ordens de amor, mas como amor em geral. São Pedro faz da caridade, isto é, do amor em sentido absoluto, a coroa das graças que a fé introduz na vida e nela sustenta: acrescentem… à fraternidade, o amor (2Pe 1.5, 7). É, portanto, uma graça que se dirige tanto a Deus quanto ao homem e que, se não é exatamente a soma do dever, é ao menos a coroa e a consumação de tudo. São Paulo é ainda mais explícito: no seu hino à caridade, o mais nobre canto ético do Novo Testamento, ἀγάπη é evidentemente a substância de toda religião pessoal; e não há graça interior nem dever exterior que não seja considerado expressão do amor. O mesmo se pode dizer do epítome que ele deu mais tarde: o fim do mandamento é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem hipocrisia (1Tm 1.5) [N. do T.: a NAA traz “O objetivo desta admoestação é o amor”]. Assim como o fim da lei é Cristo, assim o fim do mandamento é a caridade: declaração de vasto alcance. Invertendo a ordem das palavras, a fé pura conduz à consciência purificada e ao coração purificado, morada do amor perfeito. Mas é são João quem leva o tributo ao seu ponto mais alto. Ele faz da caridade a natureza ética de Deus: Deus é amor (1Jo 4.16); e faz da perfeição desta graça a perfeição de toda religião, a qual, como aquele que a possui, é aperfeiçoada no amor (1Jo 4.18).

III, 1762. A caridade, no seu pleno sentido na ética cristã, é portanto Abrangência do amor. a substância de toda obrigação para com Deus e para com o próximo; bastaria dizer para com Deus, pois não há obrigação real e essencial senão para com o Legislador Supremo. Não há ato possível da alma que não seja um ato de amor, visto que o amor é o retorno da alma ao seu descanso. Ele exprime toda homenagem e reverência ao Ser divino, com todo afeto do coração que o tem por objeto; todo deleite na sua santa lei; toda devoção ao seu serviço. O amor ao homem é puramente ético na medida em que é o reflexo do amor divino. O próximo está unido ao eu como criatura; e, como o eu, entendido literalmente, se perde no amor, o amor vê todas as criaturas, inclusive o próprio eu, como um só diante de Deus. Por isso, toda a variedade dos nossos deveres para com os nossos semelhantes é expressão da caridade, que visa supremamente ao Supremo, mas se reflete sobre todos os homens por amor a ele. Mas é-nos permitido falar de obrigação para com os nossos semelhantes: toda obrigação se resume na caridade, que, negativamente, não pratica o mal contra o próximo (Rm 13.10) e, positivamente, ama o seu próximo como a si mesmo (Mt 22.39-40).

3. O cumprimento da lei num caráter perfeito pode ser considerado O amor como caráter santo. como a formação de uma natureza santa na alma. O amor é o πλήρωμα [plenitude, cumprimento] da religião, assim como o é da lei; a soma de toda bondade interior: uma vida governada por esta graça é necessariamente santa, pois todas as faculdades e energias do ser são unidas e santificadas pela caridade. Ela expulsa todo afeto contrário; santifica e eleva todo desejo afim. Regula toda emoção e a guarda de afinidade com o pecado. Governa com domínio soberano, como a lei régia interior, a vontade e a intenção que governam a vida. Onde há caridade pura não pode haver desobediência ao Céu nem injúria ao próximo; tem de haver toda obediência a Deus e toda benevolência para com o homem: portanto, toda a bondade está na perfeição desta graça. Quando ela reina assim no íntimo, difunde a sua influência sobre o intelecto e os seus juízos: a mente conduz as suas operações sob a autoridade, o freio e as intuições seguras da caridade, e o coração se une em Deus.

III, 177O amor perfeito. 4. Contudo, o amor que é a ἀνακεφαλαίωσις, ou resumo, de toda a lei é necessariamente o amor perfeito, que não negligencia nenhuma ordem, não esquece nenhuma proibição, cumpre todo dever. É perfeito tanto na obediência passiva quanto na ativa. Jamais acaba (1Co 13.8); garante a existência de toda graça adequada ao tempo ou digna da eternidade. É o vínculo da perfeição (Cl 3.14). Por isso o termo perfeito é reservado a esta graça. A paciência deve ter a sua obra perfeita (Tg 1.4) [N. do T.: a NAA traz “a perseverança deve ter ação completa”]; mas só o amor é perfeito em si mesmo, ao mesmo tempo que dá perfeição a quem o possui.

O AMOR COMO CUMPRIDOR.

O cumpridor. O amor é o cumpridor da lei, assim como é o seu cumprimento. Esta verdade geral, que não é declarada tão diretamente quanto a anterior, é estabelecida muitas vezes de modo indireto e é muito importante sob muitos aspectos.

A força da alma. 1. É a energia da alma regenerada de que o Espírito se serve: a fé que atua pelo amor (Gl 5.6). Quando o Espírito Santo destrona o eu no espírito renovado, faz seu agente o princípio mais contrário ao eu, a caridade. A rigor, todos os homens são movidos pelo amor; mas o amor pelo qual a fé atua desvia-se do eu e olha para fora. Por isso, é a força mais poderosa da nossa natureza, santificada e posta no seu objeto mais alto.

No homem. (1.) O que é o amor não se pode definir: assim como temos de pensar para conhecer o pensamento, sentir para conhecer o sentimento e querer para conhecer a volição, assim também temos de amar para conhecer o significado do amor, embora mesmo então ele exceda todo entendimento. Algo de que o amor no homem é a expressão mais alta mostra-se tão universal quanto a vida: é tão poderoso na natureza animada quanto a gravitação no mundo da matéria. Como instinto, ou como mero afeto natural, realiza, ou parece realizar, inconscientemente maravilhas quase incríveis. Mas, quando regenerado e feito energia da fé viva, sob o Espírito Santo, é capaz da tarefa mais alta que se lhe possa impor, a saber, uma obediência plena à lei divina. É de fato a habitação de Cristo no íntimo, a habitação de Deus pelo Espírito Santo: aquele que permanece no amor permanece em Deus (1Jo 4.16). Nessa condição, o que é impossível? Por isso é evidente que o amor, como instrumento do Espírito divino, é mais do que aquele afeto da sensibilidade humana que geralmente leva esse nome. É o vínculo de todos os atributos e da perfeição da nossa natureza. Embora não seja literalmente a vida regenerada (assim como a essência de Deus também não é o amor), é a força dessa vida. É o movimento da alma que sai em direção ao seu único Objeto Supremo; e esse movimento, ou energia, transmite-se a toda manifestação de força na esfera moral. Tudo o que há de verdadeiro nas teorias físicas da CORRELAÇÃO das forças e da CONSERVAÇÃO da energia pode ser transferido para o domínio da ética, com uma ressalva: na energia onipotente do Espírito derramado sobre a Igreja e sobre cada um dos seus membros há um aumento perpétuo do poder vivo que governa o mundo moral da cristandade. O amor, na vida cristã, é simples e unicamente a busca do caminho de volta para Deus: essa é a sua força centrípeta. O espírito é impedido de perder-se de novo no seu Criador por causa do fiat [faça-se] original que lhe deu personalidade: essa é a sua força centrífuga. Daí a órbita do santo dever. O amor é a própria força do Espírito Santo na personalidade interior do regenerado. Está por trás do intelecto, da sensibilidade e da vontade, governando o homem que os possui. Embora tire o nome de algo que pertence à classe intermediária desses três elementos da natureza humana, é elevado acima de todos eles. E, embora não tenha um nome novo, tem uma natureza nova e uma prerrogativa nova, pois o amor procede de Deus (1Jo 4.7). Isso não se diz de nenhuma outra graça enquanto tal.

III, 178Para com Deus. (2.) Mas a força do amor como princípio de obediência pode ser vista na sua relação particular com Deus. Tem todo o poder da gratidão: Nós [o] amamos porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.19). Se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos (Jo 14.15). Se Deus nos amou de tal maneira, nós também devemos amar uns aos outros (1Jo 4.11). Nessas frases, combinadas nesta ordem, temos o tributo mais alto à força da gratidão, como a forma mais nobre do amor. Ela é digna de ser a resposta à caridade divina para com o homem pecador. A ela, como sentimento de devoção agradecida, está confiada a obediência da vida regenerada. E a manifestação desse amor aos que nos rodeiam, à imitação da caridade suprema, dá à virtude a sua mais alta nobreza. É, além disso, o princípio do deleite no caráter divino, que inspira o desejo de imitar a Deus e de tornar-se semelhante a ele: desejo capaz de intensificar-se até uma força ilimitada e que pode tornar-se um dos impulsos mais poderosos da alma humana. Isso é ou uma necessidade silenciosa e instintiva de ser transformado na imagem daquele que o amor adora, ou uma energia ativa que traz em si a potencialidade de toda santidade. A lei, que é uma transcrição da natureza divina, torna-se ela mesma objeto de amor: Quanto amo a tua lei! (Sl 119.97) é a nota do salmo que canta os louvores da Palavra de Deus. Como o caráter e a lei divinos estão ambos corporificados no Filho encarnado, o amor humano posto nele é a força de toda santidade. Aqui as nossas palavras falham, e nos refugiamos nas de são Pedro: Mesmo sem tê-lo visto vocês o amam. Mesmo não o vendo agora, mas crendo nele, exultam com uma alegria indescritível e cheia de glória (1Pe 1.8).

III, 179O guarda. 2. A caridade é a guardiã da obediência: a forma evangélica, e melhor, da “cerca em volta da lei” dos rabinos. Há dois inimigos principais da justiça do evangelho, e contra ambos, e contra cada um deles, ela é a única e eficaz salvaguarda. O ANTINOMISMO não pode subsistir na presença do amor. As suas formas mais grosseiras e as mais refinadas são igualmente repelidas. O argumento teológico-dogmático diz: Será que isto significa que Cristo é ministro do pecado? (Gl 2.17). Como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus? (Gn 39.9). O melhor reforço que o coração dá a ambos é: Quanto amo a tua lei! (Sl 119.97) [N. do T.: o original indica Sl 119.7]. O FARISAÍSMO, seja como espírito de vã confiança numa obediência exterior e mecânica, seja na sua forma mais branda, o sentimento mercenário, é inteiramente rejeitado pelo amor. O preceito ético do amor adverte: Não ponha à prova o Senhor, seu Deus (Mt 4.7). Esta graça nada sabe de justiça própria (Fp 3.9), pois nunca consegue perdoar a si mesma o pecado contra Deus, e tanto menos porque tanto lhe foi perdoado; e de pronto suprime toda tendência à pergunta que será, pois, de nós? (Mt 19.27) com esta outra: Quanto você deve ao meu senhor? (Lc 16.5) Ao SENHOR! [N. do T.: a NAA traz “ao meu patrão”]

III, 180O expositor. 3. O amor é também o expositor da lei que ele guarda e defende. É o escriba bem instruído dentro do coração.

Interpreta e transfigura. (1.) A razão iluminada e regenerada é, naturalmente, a intérprete dos mandamentos; mas o amor é o secretário sempre presente do juízo e traduz o sentido de toda lei com uma graça infinita que lhe é peculiar. Este celestial Magister Sententiarum [Mestre das Sentenças, título de Pedro Lombardo] explica a fraseologia da ética no seu próprio sentido e define os termos do seu vocabulário no seu próprio espírito. Não afrouxa o sentido de nenhum deles, nem dos mais rigorosos. O Tem de, o Deve e o Há de conservam todo o seu significado; a linguagem da ameaça e da sanção não é suavizada; nem o Governador moral do universo é reduzido à personificação de uma simples bonomia. Mas a caridade, sem abolir nem realmente atenuar as ideias éticas da Escritura, transfigura tanto essas ideias quanto a linguagem que as exprime. Ainda assim, faz isso apenas dando aos mandamentos o seu sentido mais profundo: a interpretação espiritual, como a chamamos, é na verdade a interpretação generosa do amor. Quando o Novo Legislador subiu ao monte e abriu a boca, o Amor Encarnado revelou pela primeira vez os mistérios ocultos da ética; e a sua interpretação profunda permeia todo o Sermão. Aplicada aos mandamentos em geral, e ao Decálogo em particular, ela revela um mundo novo da moral. Os preceitos da primeira tábua, interpretados literalmente, parecem frios, duros e limitados: mas deixe-se que o amor os interprete segundo o seu sentimento de devoção perfeita! O mesmo se dá com a outra tábua. Que as ordens de lembrar o sábado e de abster-se do furto, do homicídio, do adultério e do falso testemunho sejam expostas, uma a uma, pela caridade perfeita, e veja-se como o seu sentido espiritual sonda o coração, acelera o pulso do dever e inflama o desejo da alma!

Supre todos os códigos. (2.) Além disso, o amor supre as omissões de todo estatuto e de todo código, pois é rápido em discernir, onde a lei se cala, o sentido e a consequência que ela não exprime. O amor é o cumprimento ou o COMPLEMENTO da lei, e também o seu SUPLEMENTO. Preenche os interstícios com um comentário contínuo e acrescenta, como um tom de fundo, preceitos subsidiários que aperfeiçoam o diretório do dever. Escreve nas entrelinhas do código escrito, por dentro e por fora, inserindo nele a sua própria variedade sem limites de mandamentos não escritos.

III, 181Casuística. (3.) É também o Casuísta que resolve toda dificuldade. Há muitas complicações na aplicação dos princípios éticos. Desde o princípio existe um ramo especial que, sob o nome de CASUÍSTICA, preside às anomalias da moral, aos preceitos conflitantes, à colisão de deveres e às aparentes incompatibilidades de obrigação. Aqui o amor transborda em toda a percepção (Fp 1.9), ou discernimento. Fica ao lado da consciência, sempre pronto e raramente sem saber qual é a exposição correta. Raramente: pois haverá, afinal, casos, os Casos de Consciência, que nenhuma casuística decidirá; escrúpulos e dúvidas que nenhum Ductor Dubitantium humano [guia dos que duvidam, tratado de Jeremy Taylor] consegue resolver, e que deixam perplexos e embaraçados até os instintos seguros do amor. Mas, em geral, este intérprete mantém no rumo certo o cristão honesto que visa simples e unicamente à perfeição. Este Casuísta, enviado ao tribunal por comissão celestial, estabelece três princípios gerais para livrar a alma embaraçada que deseja cumprir o seu dever: primeiro, o Objeto mais alto da obediência deve sempre, e a qualquer custo, ter a preeminência; segundo, deve-se preferir a interpretação mais generosa de toda obrigação duvidosa; e, terceiro, o eu como fim deve ser sempre rejeitado por completo, ou, na medida em que for admitido subordinadamente como fim, deve ser sempre o eu da eternidade, e não o eu do tempo. A aplicação dessas normas permanentes é ilustrada pelo próprio Soberano Supremo, boa parte de cuja legislação tratou de conflitos de deveres. Por exemplo, ao discípulo que diz: deixe-me ir primeiro sepultar o meu pai, ordena-se: Deixe que os mortos sepultem os seus mortos. Você, porém, vá e anuncie o Reino de Deus (Lc 9.59-60). A voz de Cristo, que é Deus no seu reino, tem de ser suprema Conflito de deveres. sobre toda outra reivindicação, mesmo a mais forte. Em todo caso de conflito grave entre os instintos naturais puros e o serviço de Deus, Deus tem de vir em primeiro lugar, e ele livrará de todo dano o seu servo. A primeira lição dos lábios de Jesus inculcou isso. Entre o que parecia ser o seu dever para com a mãe e a sua nova vocação houve um conflito: Não sabiam que eu TINHA DE estar na casa de meu Pai? (Lc 2.49). Outra vez, quando os seus discípulos censuraram a mulher leal do vaso de alabastro, o Redentor lhes deu uma lição: para com a sua Pessoa, enquanto ainda estava com eles, era impossível ser pródigo demais em dádivas, e aquela que parecia esbanjadora foi protegida: Por que vocês estão incomodando esta mulher? (Mt 26.10). A sua interpretação ampla e liberal do dever, com a decisão a que o amor puro a levou, foi defendida e recomendada ao mundo inteiro. Por fim, também quanto ao terceiro princípio, ele deu na própria pessoa o grande exemplo: não agradou a si mesmo (Rm 15.3). E, quando ocorreu o maior de todos os conflitos da ética, entre o cuidado da sua própria inocência e a salvação dos homens culpados, ele renunciou ao primeiro: não se faça a minha vontade, e sim a tua (Lc 22.42); e consentiu em ser contado com os transgressores (Is 53.12). Nele a caridade infinita expôs o dever. Ela tem de exercer o mesmo ofício em nós. Nenhum outro princípio de interpretação nos conduzirá a salvo pelas complicações da vida. A conveniência, o bom senso, a razão podem errar: o amor, armado com esses princípios, JAMAIS FALHA (1Co 13.8) [N. do T.: a NAA traz “jamais acaba”].

III, 182O AMOR COMO UNIDADE DO CUMPRIDOR E DO CUMPRIMENTO.

Cumprimento e cumpridor. A perfeição do sistema cristão de ética se vê na combinação do amor como cumpridor e do amor como cumprimento da lei: a lei e a obediência à lei são uma só coisa na caridade. Para tomar emprestados termos de uso moderno, temos aqui a unidade do objetivo e do subjetivo: unidade que imprime a sua influência variada e importantíssima a todo o estudo da moral do Novo Testamento.

Códigos. 1. Ela explica o fato de que a revelação cristã é relativamente indiferente aos códigos legais e às promulgações formais. Não se detém tanto na imposição de obrigações específicas quanto na manutenção vigorosa do princípio da caridade: o amor é a força do TEM DE, que ao mesmo tempo prescreve a obediência e dá a plenitude dos mandamentos a que a obediência é devida. É evidente, portanto, que o cristianismo não pode ter, como a antiga aliança, a distinção entre lei moral, lei cerimonial e lei política. A sua legislação se estende só até onde o amor pode reinar: esse domínio não pode ser o das meras observâncias cerimoniais, nem pode ser a esfera do governo civil, onde a caridade não é a vice-regente de Deus. A antiga economia, que de fato continha, de modo latente, uma indicação disso em sejam santos! (Lv 20.7) e em Ame o Senhor, seu Deus! (Mt 22.37), desapareceu com toda a sua legislação. Até o seu DECÁLOGO, como tal, só é mantido porque o nosso Senhor, pessoalmente e por meio dos seus apóstolos, o isentou da ação desse princípio e o incorporou ao livro de leis cristão. Introduzido na legislação em que a caridade é suprema, é reduzido pelo nosso Senhor a um só princípio duplo, o amor a Deus e ao próximo. Nos demais aspectos, é tratado com espírito livre. É reordenado, abreviado, e dele se extrai o espírito; passa também por uma mudança no quarto mandamento, por uma espiritualização em toda parte, e recebe um suplemento sem fim.

III, 183Ativo e uno. 2. O amor é um princípio ativo, a lei do movimento do todo do homem em direção a Deus (Ec 12.13) [N. do T.: a NAA traz “o dever de cada pessoa”]. Portanto, se o amor é ao mesmo tempo o cumprimento e o cumpridor, toda santidade não pode ser outra coisa senão um único impulso, concentrado e ativo, da força da natureza inteira daquele que obedece. Esse impulso não para a fim de distinguir entre o que é proibido e o que é ordenado. Percorrerei o caminho dos teus mandamentos, quando me dilatares o coração (Sl 119.32) [N. do T.: a NAA traz “quando me deres mais entendimento”]. Não há aqui simples obediência a uma ordenança proibitiva. O espírito que odeia o mal ama a santidade; e, ao chegar ao limite de cada interdição, corre para o outro lado e encontra o oposto perfeito. Evita o pecado apenas no caminho para a santidade. A sua resistência ao mal é a resistência do amor: no amor não existe medo, mas existe uma ira profunda, uma ira que não peca, mas abomina o mal e não se contenta com nada menos do que a abolição do pecado. Daí, além disso, a caridade, como atividade eterna e sempre crescente, persegue cada preceito em todas as suas ramificações. Aqui temos de novo a interpretação espiritual: a caridade é agora o alegorista bem instruído que espiritualiza cada letra até o infinito. Ela não pode fazer a pergunta: Qual é o grande mandamento na Lei? (Mt 22.36). E consente de bom grado naquela palavra forte do Moralista entre os apóstolos: quem guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos (Tg 2.10). A ética do amor toma providências em toda parte para que Deus seja tudo em todos (1Co 15.28), para que a menor das ordenanças seja sustentada por toda a majestade do Céu. Quem é fiel no pouco também é fiel no muito (Lc 16.10). Ela não suporta que haja maior e menor no dever.

Liberdade. 3. Aqui podemos lembrar a lei da liberdade (Tg 2.12), que é régia e perfeita: régia e soberana em virtude de ser perfeita. A lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo (Jo 1.17): a graça do evangelho é a verdade da lei; e, a respeito dos que a recebem, lemos: Contra tais não há lei (Gl 5.23) [N. do T.: a NAA traz “Contra estas coisas”], o que significa mais do que não serem condenados pelo estatuto. Mas a própria liberdade é lei. Ele remove o primeiro, o código exterior, para estabelecer o segundo, o interior (Hb 10.9). Contudo, a lei, como vimos, permanece como testemunho, como instrumento de convencimento e como incentivo perpétuo. Os seus usos são resumidos assim pela antiga teologia: o seu USUS POLITICUS, para regular a vida comum; o seu USUS ELENCHTICUS, para convencer do pecado; o seu USUS DIDACTICUS, para instruir na moral. O verdadeiro cristão, porém, não está debaixo da lei, e sim da graça (Rm 6.14). Não está, é verdade, acima da lei, no sentido de ser independente dela. A sua emancipação só vai até onde a graça, ou misericórdia, a efetua por meio do perdão; mas essa mesma graça o disciplina, ou educa, para andar segundo os princípios mais estritos da moralidade. A lei não está nem acima nem abaixo do crente: está, como o próprio Reino de que é a regra, dentro de nós.

III, 184Perfeição. 4. O cristianismo introduziu o que às vezes se chama a nova lei: é a lei de Cristo (Gl 6.2), ou a lei da fé (Rm 3.27). Ora, se toda lei é amor, e todo cumprimento é amor, é evidente que pode haver uma justiça de Deus (Rm 10.3) alcançável até a perfeição: a fim de que a justiça da lei se cumprisse em nós (Rm 8.4) [N. do T.: a NAA traz “a exigência da lei”]. O amor preside a uma ética adaptada a uma constituição desordenada e a um estado de perdição. Cobre uma multidão de pecados passados e capacita o crente a apresentar o que é aceito como obediência plena. Assim é verdadeira aquela palavra: A misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg 2.13). Caso a justiça estrita proceda no seu inquérito segundo o padrão do céu e das criaturas que não caíram, a misericórdia, ou o amor, clama: Tenha paciência comigo, e pagarei tudo (Mt 18.26); estes meus filhos serão aperfeiçoados no dever. Enquanto isso, a sua obra perfeita é julgada segundo o padrão evangélico da graça: será aceita conforme o que a pessoa tem e não segundo o que ela não tem (2Co 8.12). Quem guarda a sua palavra, nele verdadeiramente tem sido aperfeiçoado o amor de Deus (1Jo 2.5).

Supererrogação. 5. Por fim, isto ensina que não pode haver de modo algum obras de supererrogação. Pois, assim como a lei é amor, também o amor é lei. Não há como ultrapassar os limites da obrigação. O espírito da caridade divina parece suprimir a terminologia da ética e mudar o seu caráter; mas só para fazê-la reviver numa vida mais alta. Os votos de pobreza, castidade e obediência, na medida em que são cristãos, não são na realidade votos voluntários, mas leis obrigatórias. Bem-aventurados os pobres em espírito! Bem-aventurados os limpos de coração! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça! (Mt 5.3, 6, 8) são bênçãos pronunciadas sobre os três, respectivamente, como expressão do verdadeiro caráter cristão. Todo conselho de perfeição é um mandamento com promessa. E, quanto a toda a teoria em que eles se fundam, pode-se dizer que Jesus, o Legislador universal, é o único DIRETOR DE ALMAS: UM SÓ É LEGISLADOR (Tg 4.12), o qual é o DEUS-HOMEM, o Senhor; e a sua lei é o amor, quer como o princípio perfeito que a guarda, quer como a soma dos mandamentos que o amor tem de guardar.

III, 185MÉTODO BÍBLICO.

Sistema. O Novo Testamento, como desenvolvimento perfeito do ensino ético da revelação progressiva, fornece a rica abundância de materiais a partir dos quais se pode construir uma exposição sistemática da ética aplicada.

Já se viu que a lei interior que dá ao cristianismo o seu caráter não substitui a exterior, embora dê a essa lei uma liberdade e uma irregularidade peculiares. Resta agora considerar que materiais existem para a construção de algo semelhante a um sistema ético, como esses materiais estão distribuídos e segundo que princípios podem ser ordenados. Aqui temos de lidar apenas com o Senhor e os seus apóstolos.

O método do nosso Senhor. I. O Legislador supremo, no seu ensino ético, recolheu e dissolveu, em parte promulgou de novo e em parte emendou, a ética do Antigo Testamento.

Nenhum código novo. 1. É muito digno de nota que, embora falasse com uma autoridade nova e estranha, por ser divino-humana, ele não professou promulgar um novo código de leis para os seus discípulos. Não declarou diretamente obsoleta nem mesmo a lei cerimonial; de fato, ele mesmo a observou e ligou a sua observância a muitos dos seus milagres. Mas certamente deu diversas indicações que deviam desenvolver-se, depois do seu sacrifício perfeito, na ab-rogação de toda a lei positiva de Moisés. As leis nacionais e políticas tinham caducado na ordem da providência divina. A lei puramente moral, o nosso Senhor necessariamente a ratificou. Ao mesmo tempo que libertava os seus discípulos do antigo código como tal, honrou o Decálogo, defendeu-o contra a perversão e completou os seus preceitos, interpretados espiritualmente. Uma parte muito grande do seu ensino ético foi um comentário às Dez Palavras do antigo código. Além disso, estabeleceu alguns princípios novos, ou deu alguns conselhos novos, adaptados ao intervalo durante o qual ele, na sua presença pessoal, fazia as vezes da lei, sendo o Ditador, ou Diretor, dos seus discípulos numa ordem de coisas intermediária [N. do T.: “Ditador” no sentido latino de quem dita a regra com autoridade pessoal, sem a conotação política moderna]. Assim, muitos dos seus preceitos não eram de obrigação permanente, mas adaptados ao propósito daqueles dias. Tais eram alguns dos mandamentos positivos que soam como preceitos absolutos, como este: venda tudo o que tem . . . depois, venha e siga-me (Lc 18.22). Outros, ao contrário, ele os estabeleceu antes para uso futuro, depois que o Espírito tivesse vindo plenamente. Tais eram os que prescreviam a oração em seu nome, a reunião do seu povo, e assim por diante. Além disso, houve inúmeras indicações da sua vontade dadas por meio dos seus milagres; e não poucos precedentes de moral estabelecidos por ele como Juiz supremo. Mas pode-se dizer, de modo geral, que ensinou pelo seu próprio exemplo as partes do seu sistema ético que eram mais especiais e características, como a virtude da humildade e da abnegação. Deixou todos esses materiais aos seus apóstolos, em vez de deixar um sistema próprio. A sua vida, as suas palavras e as suas obras foram para eles, e são para nós, um acúmulo sem limites da mais alta ética. A sua última pergunta pessoal e a sua última ordem pessoal ilustram tudo o que foi dito. Você me ama? (Jo 21.17) mostra que o amor era a fonte de toda obediência. Quanto a você, siga-me! (Jo 21.22) mostra que a imitação do seu exemplo era a moralidade suprema.

III, 186Os apóstolos. 2. Os apóstolos, quando as palavras dele lhes foram trazidas à lembrança, seguiram o exemplo do Mestre e trataram a nova ética exatamente no Espírito dele.

Atos. (1.) Em Atos surgem novas obrigações e, com elas, uma classe peculiar de deveres: a descida do Espírito Santo, a formação da nova Igreja, as reivindicações da devoção ao Redentor que subiu ao céu, as exigências do mundo gentio, tudo concorreu para criar uma nova ordem de obrigações éticas, que pedia uma nova ordem de preceitos. Nas Epístolas, porém, temos a exposição abundante da nova moral do cristianismo, à medida que o Espírito trazia as palavras do Mestre à lembrança dos discípulos, ou os inspirava a fazer novas aplicações dessas palavras. É impossível comparar os Evangelhos com as Epístolas sem perceber que o mesmo Mestre está em ambos, e também que há em ambos o mesmo modo de ensinar. Nas Epístolas há mais exposição da verdade doutrinária; mas, como nos Evangelhos, verificamos que não há uma única revelação de verdade que não tenha, direta ou indiretamente, e quase sempre diretamente, uma aplicação à prática. Como nos dias do Mestre, circunstâncias ocasionais dão origem a decisões importantes. São muitos os precedentes do Tribunal ético do Senhor.

III, 187Epístolas. (2.) As Epístolas ensinam em grande parte pela aplicação de princípios a casos individuais. Abrem, porém, um vasto campo próprio nas relações entre os deveres e obrigações da comunhão cristã e os da religião pessoal: daí a nova palavra ética οἰκοδομή, e a inculcação de tudo o que pertence Edificação. à EDIFICAÇÃO, coletiva e individual. Mas a glória ética das Epístolas se encontra em três departamentos que são abertos e consagrados a esse serviço. Primeiro, elas põem tudo na União com Cristo. dependência da UNIÃO COM CRISTO, por meio daquela habitação do seu Espírito Santo que é a unidade e o vínculo comum do Senhor e do seu povo. Se abraçarmos isso como verdade, e como mais do que simples figura, e à sua luz lermos o Novo Testamento, veremos que todo o campo da ética é iluminado por ela. Além disso, as ÚLTIMAS COISAS começam a entrar no campo com solenidade e comoção peculiares, dando a todas as Epístolas em algumas partes, e às de são Pedro do começo ao fim, um tom específico e indescritível. Constelações de graças. Por fim, cada escritor tem a sua própria constelação de GRAÇAS E VIRTUDES, cuja beleza consumada, assim como a inteireza ética, não há como exagerar. São tão perfeitas que uma exposição desses pequenos compêndios de moral forneceria um sistema de ética cristã universal. Não que haja nas Epístolas alguma coisa de que os Evangelhos não contenham indicação. Todo apóstolo continua sendo apenas discípulo de Jesus, ἐμαθήτευσε τῷ Ἰησοῦ (Mt 27.57), e apenas desenvolve mais plenamente os princípios que ele estabeleceu: nem na doutrina nem na moral a corrente do ensino apostólico sobe mais alto do que a fonte no Mestre.

Nenhum sistema. 3. Em nenhum lugar do Novo Testamento encontramos traço de um esboço de ética que devesse orientar uma sistematização futura. O que mais se aproxima disso é o Sermão do Monte, ao qual corresponde, nas Epístolas, o grande capítulo ético de são Paulo em Romanos (Rm 12). Mas o discurso do nosso Senhor foi um comentário espiritual ao Decálogo. Ele toma o último preceito do Decálogo, que proíbe a má cobiça do coração, e faz dele o ponto de ligação com a sua própria nova legislação. São Paulo, logo depois da sua exposição das graças que fluem da inteira consagração a Deus, introduz a segunda tábua do Decálogo, e de tal modo que dá a entender que a reconhecia como o compêndio do dever cristão. Pode ser bom, portanto, neste ponto, examinar o que este resumo único da obrigação moral pode reivindicar e dar as razões por que não o adotamos como nossa base.

III, 188O DECÁLOGO.

O Decálogo. O DECÁLOGO, ἡ δεκάλογος (subentende-se Βίβλος [livro] ou νομοθεσία [legislação]), foi o código obrigatório central da antiga aliança: o mais antigo, como é também o mais perfeito, de todos os resumos do dever moral.

Eterno. 1. Embora dado a um povo especial, e com circunstâncias e apêndices de aplicação limitada, ele é universal e destinado ao mundo. A sua dignidade ficou marcada pelo fato de ter sido dado pelo próprio Jeová, ao passo que Moisés foi o órgão da outra legislação. Há uma diferença entre o relato original em Êxodo e a recensão em Deuteronômio; mas ambos concordam em contar dez mandamentos: AS DEZ PALAVRAS OU OS DEZ MANDAMENTOS, que contêm a Aliança propriamente dita e por isso foram depositados na arca do testemunho, no centro do santuário. O Decálogo foi escrito em duas tábuas de pedra, inscritas de ambos os lados; e evidentemente divide os preceitos ao meio: cinco que se referem a Deus e contêm os Præcepta pietatis [preceitos da piedade], e cinco que se referem ao homem e contêm os Præcepta probitatis [preceitos da probidade]. A reverência aos pais os considera como representantes de Deus, assim como a Pietas [piedade] do latim antigo combinava as duas coisas.

2. Estas duas Tábuas, trazidas para o Novo Testamento e Até que ponto são a base da ética. expostas segundo o princípio do Sermão do Monte, poderiam tornar-se a base de todo o ensino moral. A sua interpretação espiritual forneceria todos os princípios necessários da ética. O Prefácio é um anúncio glorioso da personalidade e da supremacia de Deus: o fundamento de toda religião e a base da obrigação de tudo o que se segue. Para os filhos de Israel ele era o Jeová que os tirou do Egito; para os cristãos, o Deus da redenção universal; para todos os homens, em toda parte, o único Governador moral. O primeiro mandamento ordena a homenagem suprema ao Deus único: o seu Jeová tornou-se a Santa Trindade; e a interpretação espiritual desta lei estabelece todos os princípios da fé teológica no Deus triúno, com a vida de santa devoção e obediência que corresponde a essa fé. O segundo prescreve o culto espiritual, o único que a Divindade aceitará. Literalmente, proíbe a idolatria e o uso de emblemas para representar o Ser invisível; por antecipação, portanto, condena o cerimonial supersticioso e a honra prestada às imagens na cristandade degenerada. Espiritualmente, além disso, esquadrinha as salas de imagens e proíbe toda criatura rival do Objeto supremo e único do deleite da alma. O terceiro ordena a mais profunda reverência à Majestade divina e proíbe o uso irreverente do Santo Nome em juramentos desnecessários e em juras levianas. Espiritualmente, ordena uma reverência cheia de temor diante da presença divina: não só no culto a ele, onde requer a sinceridade mais perfeita e penetrante em todo pensamento, palavra e ato que o tenha por objeto, mas também em toda a vida, que deve ser conduzida, até os seus menores detalhes, em seu nome, que é o nome do seu Filho, nosso Senhor. O quarto ordena a observância do culto público ao Deus único, a ordenança, para todas as épocas, de um dia determinado que abrange todo o serviço da religião. Este mandamento passa por uma mudança notável: enquanto em Êxodo se menciona o memorial da Criação, em Deuteronômio, que olha para dentro e também avança para os dias cristãos, introduz-se apenas a libertação da escravidão do Egito, que aponta para a Redenção maior. A espiritualização deste preceito faz do culto a Deus um descanso perpétuo e liga tudo ao descanso final do céu. O quinto atribui uma honra especial aos pais: não só como pais, porém, mas como representantes de toda autoridade legítima, tanto divina como humana. Além disso, é o elo entre as duas Tábuas: colocado na primeira, pertence sem dúvida também à segunda. O sexto proíbe o homicídio e toda paixão que leva a ele. A aplicação espiritual deste breve preceito é talvez a mais ampla de todas no seu alcance: quanto ao próximo, inclui todo ato que mostre pouco apreço pelo valor da sua vida, até o menor pensamento ou palavra de ódio ou de violência; e, quanto a si mesmo, inclui toda paixão e prática que tenda a prejudicar a vida e o bem-estar pessoais, a intemperança e o excesso de todo tipo. O sétimo inclui na palavra adultério todos os pecados que combatem a pureza das relações sexuais: do seu alcance espiritual o nosso Senhor nos deu a sua própria ilustração, riquíssima de sugestões. O oitavo protege a propriedade e proíbe a desonestidade em ato e em pensamento: aqui entra, portanto, toda a substância da ética da propriedade, com os seus direitos e obrigações; e a mais alta interpretação espiritual, lembrando que os homens devem eternamente amor uns aos outros, fará dele a base de toda a ética de sacrifício próprio do Evangelho da Caridade. O nono protege a reputação do próximo e proíbe a calúnia em todos os graus e em todas as suas etapas, ao longo de toda a linha do seu vocabulário. O último é como que uma repetição deuteronômica, de um lado, e um avanço em direção ao Sermão do Monte, de outro. Proíbe a cobiça do coração e é aludido repetidas vezes no Novo Testamento como aquele que leva os mandamentos da Segunda Tábua à região do homem oculto, onde o seu pecado original forja toda espécie de iniquidade.

III, 190Por que não é a base da ética sistemática. 3. Mas o Decálogo, como tal, poucas vezes foi usado como base de uma exposição da ética cristã.

(1.) Desde o princípio houve não pequena divergência de opiniões quanto aos princípios da sua própria ordem interna; e essa mesma disputa tendeu a impedir a sua adoção. Agostinho, seguido pela Igreja Católica Romana e, nisto, também pelos luteranos, reduziu os dois primeiros preceitos a um só, dando assim três mandamentos à Primeira Tábua. A Segunda Tábua passa então a conter sete, com a subdivisão do décimo. Os judeus antigos não dividiam assim o décimo, mas deixavam intacta e isolada a proibição de toda concupiscência. Separavam, porém, o primeiro em dois, precedidos de um Prefácio: o primeiro dos dois simplesmente impunha a crença no Ser supremo e perfeito. Josefo e Fílon, seguidos pela Igreja cristã primitiva e, nos tempos modernos, pelas igrejas grega e reformada, adotaram a ordem que, como nas nossas Bíblias inglesas, é aceita em geral.

(2.) Há, porém, razões no próprio código que fazem dele Ampliação no cristianismo. um fundamento inadequado para um sistema ético: razões que já foram mais do que sugeridas e que aqui podem ser mencionadas mais plenamente. De modo geral, não se pode questionar que o Decálogo como tal, e como parte da legislação israelita, foi ab-rogado; isto é, sobreviveu ao desaparecimento da antiga economia por causa dos seus princípios morais eternos, princípios que são reproduzidos, mais plenamente explicados e assentados sobre os seus verdadeiros fundamentos pela nova legislação do Salvador. Portanto, embora os Dez Mandamentos ainda permaneçam, na sua forma hebraica, como memorial do passado e, despojados dos apêndices hebraicos, como obrigatórios para todas as nações, não são a declaração obrigatória de toda a moral do cristianismo. Além disso, é evidente que o caráter negativo e limitado de alguns dos preceitos não os torna aptos a ser a expressão formal da lei perfeita da liberdade: o próprio fato de exigirem uma ampliação espiritual e positiva tão grande torna embaraçoso fazer depender deles todos os preceitos e aspirações do cristianismo. Ainda mais: o nosso Senhor indicou a sua vontade a esse respeito ao resumir todo o nosso dever no único mandamento supremo do amor, com os seus dois ramos, que inclui não apenas o Decálogo, mas todo o âmbito dos preceitos morais: TODA a Lei e os Profetas (Mt 22.40). E no seu Sermão, de que se falou como de um comentário ao Decálogo, há um grande corpo de ensino ético que não pode, sem considerável violência, ser posto em relação direta com nenhum dos seus preceitos. Quando estudamos a moralidade nas Epístolas apostólicas, encontramos a mesma independência em relação às Dez Palavras como código formal. De fato, grande parte da sua grandeza ética está numa região que fica além de quaisquer mandamentos na forma de ordenanças, isto é, na região das experiências, aspirações e conquistas da vida cristã. Assim, para resumir: embora os Dez Mandamentos sejam de obrigação eterna, não são a base adequada da ética cristã; servem melhor como testemunha permanente e testemunho à consciência diante de Deus do que como programa de uma teologia moral sistemática.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 148-192, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.