W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · A ética da redenção
Sistema. Depois de considerar a ética nos seus princípios especificamente cristãos, trataremos agora desses princípios na sua aplicação: primeiro, enquanto formam o caráter cristão, pessoal e individual; e, em segundo lugar, enquanto regulam todas as relações exteriores. Essa divisão, porém, não deve ser observada com rigidez.
É evidente que adotamos aqui a disposição mais natural e mais fácil. Há um sentido em que nenhuma distinção como esta se pode justificar, visto que o caráter interior depende do cumprimento das obrigações exteriores. Mas, se insistirmos demais nisso, perderemos de todo a nossa disposição sistemática, e a perda seria grande.
Ética pessoal. As obrigações interiores da vida cristã podem ser apresentadas de uma variedade infinita de maneiras. O esquema seguinte abrange todas, com alguma tentativa de seguir a ordem do seu desenvolvimento: primeiro vem a ética da Graça Preliminar, ou Conversão; depois, a que trata da Intenção Última da nova natureza; depois, a do Conflito Interior; depois, a da Consagração ao serviço divino; e, por último, a ética da Devoção, expressa no espírito e no hábito do culto.
Ética da conversão. A ética cristã começa, em certo sentido, antes da regeneração da alma. Há uma série de deveres e obrigações que recaem sobre o pecador despertado, para os quais é dada graça suficiente. Este ramo da moral já foi incluído na questão geral da graça preliminar, e aqui só deve ser tocado como introdução à ética cristã propriamente dita.
III, 193Arrependimento e fé. 1. De modo geral, toda a lei moral obriga os pecadores como tais, do princípio ao fim. Há uma proibição perpétua, Não farás!, e uma ordem perpétua, Farás!, ainda que a força para se abster e para fazer possa ainda faltar. Na ética cristã. Isso pode ser considerado a ética de um estado de escravidão ao pecado. Nesse caso, a lei é posta para o convencimento do pecado, e da pecaminosidade que é a sua fonte, e da completa impotência da mente não renovada; e exige sempre o arrependimento, com tudo o que já se descreveu como pertencente a ele. Os que cedem às influências do Espírito de convencimento, que refreia e impele, e se esforçam por parar de fazer o mal e aprender a fazer o bem (Is 1.16-17), estão no caminho do dever aprovado por Deus. É errado dizer que todas as obras sinceras feitas antes da regeneração não passam de vícios esplêndidos e são contadas pelo Juiz como más: por mais verdade que seja que elas não são meritórias e nada podem fazer para a justificação, estão no caminho da preparação para a aceitação divina. É incorreto até afirmar que não há dever ético possível para o não regenerado. Vimos que há uma vida religiosa antes da vida regenerada, e ela tem a sua moral. Há fruto digno de arrependimento (Mt 3.8), que é também o fruto do Espírito (Gl 5.22), embora ainda não do Espírito da regeneração.
Submissão a Cristo. 2. A própria fé que introduz a alma na salvação pela união com Cristo deve ser precedida por uma submissão ao Redentor mediador, ou antes deve incluí-la; e essa submissão é uma lei ética que obriga todo rebelde remido como tal. É dever de todo pecador vivo que ouve a proclamação do evangelho render-se à vontade suprema de Cristo. A sua consciência lhe diz isso, e, se recusa, recusa por sua conta e risco. Há, de fato, uma doutrina que remove o fundamento dessa responsabilidade ética. Mas não é a doutrina ensinada pelo Novo Testamento. É desnecessário, porém, determo-nos nesses temas, pois já foram amplamente expostos.
Obrigação permanente. 3. Pode-se acrescentar que, depois da conversão, esse mesmo arrependimento e essa mesma fé não deixam de ser obrigações éticas. A penitência, sob diversas formas, é ao mesmo tempo graça e dever da religião até o fim: pode até ser uma tristeza mais profunda no santificado do que no não regenerado; e, mesmo quando se torna apenas o reconhecimento, entristecido mas sempre alegre, do pecado que pela graça divina se foi por completo, continua sendo arrependimento. Quanto à fé, isto é, a submissão, com renúncia de si, à autoridade mediadora e a aceitação da Pessoa do Mediador, ela é literalmente aperfeiçoada na vida cristã. Mas sobre estes e todos os demais temas ligados às transformações da ética preliminar no estado regenerado falaremos mais amplamente adiante.
Ética da intenção. A direção do alvo supremo da alma vem em primeiro lugar na ética da vida regenerada já estabelecida. Essa ética pode ser classificada sob três títulos gerais: primeiro, a Glória de Deus, em todas as formas dessa intenção mais elevada; em segundo lugar, a Vontade de Cristo, como o fim especificamente cristão da vida; e, em terceiro lugar, a Perfeição de toda a nossa natureza, como o resultado dessas duas coisas combinadas.
Este departamento abrange um amplo leque dos princípios éticos do Novo Testamento. Pode-se dizer, de fato, que os abrange todos, pois não há disposição da alma nem ação da vida, quer diga respeito a si mesmo, quer aos outros, que não esteja sob o governo da escolha última da vontade. Mas devemos limitar-nos estritamente às características da intenção santa como tal.
A glória de Deus. I. Talvez a expressão final do fim da vida cristã seja a que são Paulo dá: façam tudo para A GLÓRIA DE DEUS (1Co 10.31).
1. O exemplo e a ilustração mais altos dessa máxima encontram-se no nosso Senhor, que, ao deixar o mundo, disse: Eu te glorifiquei na terra, realizando a obra que me deste para fazer (Jo 17.4). Toda a sua carreira humana, como o modelo supremo, teve isto por objetivo supremo: prestar um tributo perfeito à glória do Nome divino, refletir essa glória de si mesmo e levar os homens a dar a Deus a sua glória. Essas três coisas combinadas são a mais alta definição que podemos conceber do sentido de uma expressão que sempre foi adotada para exprimir o alvo último e mais nobre da vida da criatura.
III, 195Sentido cristão. 2. Mas o último ramo da definição indica que viver para a glória de Deus tem um sentido especificamente cristão. É muito especialmente uma expressão de são Paulo, que a assenta no fundamento da redenção: Porque vocês foram comprados por preço. Agora, pois, glorifiquem a Deus no corpo de vocês (1Co 6.20), corpo redimido tanto quanto o espírito. A honra do Deus triúno da salvação evangélica é agora o fim último da vida cristã. A Epístola aos Coríntios, que usa o termo mais do que qualquer outra, começa mostrando que Deus em Cristo tirou ao homem todo o seu gloriar-se e fez de si mesmo o único Objeto de todo gloriar-se: a fim de que ninguém se glorie na presença de Deus está de um lado da obra consumada do Redentor, e aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1Co 1.29-31) está do outro. Quando tudo estiver cumprido, diz-se que o Senhor virá para ser glorificado nos seus santos (2Ts 1.10). Nessas passagens temos as duas ideias de prestar a Deus o seu tributo e de refletir de nós mesmos a sua honra. A terceira ideia, a de levar outros a glorificá-lo, isto é, de agir de modo a assegurar a sua honra, aparece repetidas vezes: se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus (1Co 10.31), onde o pensamento dominante é que toda ação seja ordenada de tal modo que não traga desonra ao Autor do evangelho. A referência aqui é a coisas relativamente insignificantes; mas em outro lugar a mais alta esfera do dever é referida ao mesmo fim: Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus lhe dá, para que, em todas as coisas, Deus seja glorificado, por meio de Jesus Cristo (1Pe 4.11). Assim, todo pensamento, toda palavra e toda ação devem, na ética cristã, visar honrar a Deus, refletir a sua graça e proteger o seu nome da afronta; e nesses três sentidos os cristãos vivem PARA A GLÓRIA DE DEUS.
Outras fórmulas. 3. Como princípio ético, essa lei, a mais ampla e abrangente de todas, pode assumir algumas outras formas e nomes.
O olho simples. (1.) É fazer de Deus o único objeto da vida: ter em vista, pensar ou intencionar o Supremo triúno, e em cada uma das Pessoas, em todas as coisas, das menores às maiores. É o que o nosso Senhor chamou de OLHO SIMPLES, que olha para a vontade divina como a diretriz e o fim de toda ação: A lâmpada do corpo é o olho. Se o seu olho for simples, todo o seu corpo será cheio de luz (Mt 6.22) [N. do T.: a NAA traz “Os olhos são a lâmpada do corpo. Se os seus olhos forem bons”], ao que se segue de perto: Vocês não podem servir a Deus e às riquezas (Mt 6.24). A força plena desse preceito se vê quando ligamos a ele duas outras passagens. O corpo de vocês é santuário do Espírito Santo (1Co 6.19); e a luz interior dele brilha sobre o olho que ilumina toda aquela vida de que o corpo é o órgão. E, contemplando Deus em todas as coisas, obedecemos à ordem: santifiquem a Cristo, como Senhor, no seu coração (1Pe 3.15), no centro de toda a sua personalidade de alma e corpo. Assim temos o pensamento completo de um olho simples voltado para a glória de Deus. Em outro lugar, essa graça se chama SIMPLICIDADE: o que contribui, com simplicidade (Rm 12.8) [N. do T.: a NAA traz “com generosidade”], onde o ἁπλοῦς do nosso Senhor se torna ἐν ἁπλότητι. A pureza de intenção e a singeleza de alvo estão unidas na simplicidade e sinceridade de Deus (2Co 1.12). Elas compõem aquela UNIDADE de alvo, em oposição à multiplicidade de atenções e à dispersão de motivos, pela qual o salmista orava: andarei na tua verdade; une o meu coração para temer o teu nome (Sl 86.11) [N. do T.: a NAA traz “põe em meu coração o desejo de temer o teu nome”]. Este princípio de uma referência fixa e habitual de toda ação à vontade de Deus permeia a Escritura e é uma das glórias do seu ensino ético.
III, 196Agradar a Deus. (2.) Apresenta-se, sob outra forma, como o alvo de AGRADAR A DEUS, com o seu reflexo, a consciência de agradá-lo. Uma das primeiras definições de uma piedade perfeita na Bíblia é a palavra a respeito de Enoque, de que ele andou com Deus (Gn 5.24), o que no Novo Testamento é explicado assim: ele havia agradado a Deus (Hb 11.5). Aqui temos de novo o Exemplo supremo, o daquele que não agradou a si mesmo (Rm 15.3) e que certa vez declarou de si mesmo: eu faço sempre o que lhe agrada (Jo 8.29). O seu alvo era agradar ao Pai, e tem de ser o nosso: ele podia dizer EU FAÇO SEMPRE; nós, na força dele, temos de imitá-lo. Assim podemos terminar como começamos, com o exemplo do nosso Senhor, que nunca falou senão de dois alvos na sua vida: a glória do nome do seu Pai e o agradá-lo fazendo a sua vontade. Mas a honra devida a Deus pertence ao próprio Cristo.
Simplicidade deste alvo. (3.) O apóstolo Paulo manda os servos de Colossos servir não apenas quando estão sendo vigiados, visando somente agradar pessoas, mas com simplicidade de coração, temendo o Senhor (Cl 3.22) [N. do T.: a NAA traz “sinceridade de coração”]. Essa passagem, com a passagem paralela de Efésios, ensina que agradar a Deus, agradar ao Senhor, é temê-lo; e assim a glória de Deus e o agradá-lo são, na realidade, uma só coisa. Une o meu coração para temer o teu nome (Sl 86.11) tem nestas palavras um eco quase perfeito: num coração indiviso, temendo o Senhor. Além disso, a passagem ensina o que toda a Escritura ensina: assim como só pode haver um objeto de temor, também só pode haver um Ser a quem agradar. A pureza ética dessa intenção consiste na sua exclusividade e na sua supremacia. Procuro agradar pessoas? Se ainda estivesse procurando agradar pessoas, eu não seria servo de Cristo (Gl 1.10).
III, 197Nosso Senhor. II. O Legislador cristão, diferentemente de qualquer outro na história da religião, apresenta-se ao seu povo como o Objeto da sua intenção final em todas as coisas. Essa verdade aparece sob várias luzes.
Consagração a Cristo. 1. Ela se mostra como o levar toda a vida a uma inteira DEVOÇÃO AO SENHOR JESUS. O nosso Salvador é o nosso Deus e, portanto, é o Fim da alma, assim como é o seu Redentor. Entendido o termo fim no seu sentido mais literal, a ética do cristianismo permite esta aplicação: Porque para mim o viver é Cristo (Fp 1.21). Se ele significa, de modo mais geral, um propósito dominante em todo o teor da provação, é confirmado mais uma vez por são Paulo: se vivemos, é para o Senhor que vivemos (Rm 14.8). O cristão está assim também debaixo da lei de Cristo (1Co 9.21), e da maneira mais absoluta, pois todo o tom do Novo Testamento, ainda mais do que os textos isolados, não mostra nada, no horizonte do dever e da aspiração humana, além da vontade de Jesus encarnado. Este é um fim e um alvo distintamente cristão em todas as coisas; e a sua supremacia como tal é provada pelo restante da passagem já citada: se morremos, é para o Senhor que morremos. Para que, porém, não se suponha que isso significa apenas que, na ordem divina, Jesus de Nazaré tem nas mãos os destinos dos homens, o apóstolo diz: Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor (Rm 14.8). Não estamos agora provando a divindade do Encarnado. Aqui, de fato, está uma demonstração absoluta: pois de ninguém senão do Supremo se pode dizer que a criatura lhe pertence e vive e morre para ele. Mas o fundamento específico dessa devoção do ser a Jesus é o fato do seu propósito redentor e dos seus direitos de Redentor: Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e tornou a viver: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos (Rm 14.9). Quanto a isso, nada mais é preciso dizer, senão que o mesmo argumento é usado a respeito de Deus e do seu Cristo: vocês foram comprados por preço. Agora, pois, glorifiquem a Deus no corpo de vocês (1Co 6.20).
2. Este é o lugar de nos determos naquele fim negativo da vida que é quase a peculiaridade, e inteiramente a glória, do O eu. sistema cristão: a inteira renúncia, ou antes o inteiro esquecimento, do EU como fim das nossas ações; a sua completa extinção como intenção final de qualquer coisa que pensemos, digamos ou façamos. Esquecimento, note-se bem: uma verdade importantíssima foi visada pela palavra negativo; pois, se a aniquilação dos fins egoístas se torna ela mesma um fim positivo, perde-se a grandeza ética da abnegação. Daí a comovente ligação deste princípio com o exemplo de Cristo: Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me (Lc 9.23). Aqui o seguir a Cristo é a soma da nova vida; a cruz diária, o seu elemento constante; a renúncia absoluta do eu como fim, a condição introdutória. E não deixa de ser condição introdutória pelo fato de que o conjunto dos discípulos do Redentor a está sempre aprendendo e não chega ao pleno conhecimento da sua verdade até o fim. Observe-se, porém, que falamos só do Princípio último e do alvo da vida. O eu ainda pode permanecer como fim subordinado: Desenvolvam a sua salvação! (Fp 2.12). Não tendo em vista somente os seus próprios interesses, mas TAMBÉM os dos outros (Fp 2.4). Todos os outros buscam os seus próprios interesses A doutrina perfeita do eu. e não os de Jesus Cristo (Fp 2.21). Essas diversas palavras seguem a exposição que o apóstolo faz do Exemplo supremo da renúncia de si: Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus (Fp 2.5). Aqui está a supressão do eu. Depois, elas mostram que o eu que se perde é reencontrado em Cristo e é objeto de cuidado junto com o próximo, um cuidado de si que realiza a vontade de Deus. O capítulo de Filipenses contém a doutrina perfeita do eu.
III, 198Imitação de Cristo. 3. Isso conduz à IMITAÇÃO DE CRISTO, à qual já se aludiu e ainda se aludirá: aqui ela é também uma intenção suprema da vida. Não há fim mais alto do que tornar-se semelhante àquele que é o Bem perfeito encarnado: Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus (Mt 19.17) [N. do T.: em Mt 19.17 a NAA traz “Bom só existe um”; esta forma está em Mc 10.18]; isto é, Cristo, Deus no homem. Não há tributo mais alto ao Supremo do que esforçar-se por ser semelhante a ele: imitari quem colis [imitar aquele a quem adoras]. O nosso Senhor, que no princípio mandou os seus discípulos imitar as perfeições do seu Pai, que está nos céus (Mt 5.44-48), terminou o seu ensino ordenando que imitassem a ele mesmo. A sua última palavra a um indivíduo na terra pôs em relevo tanto o dever como o seu caráter individual: Quanto a você, siga-me (Jo 21.22). Mas aqui devemos lembrar o que já foi enfatizado: o nosso Senhor nos deixou um exemplo, não tanto dos meios, mas do resultado do esforço cristão. Se ele se faz Modelo na busca desse resultado, é sempre e somente enquanto é o modelo da renúncia de si. Só nisso ele é expressamente proposto como exemplo.
Perfeição. III. Outro alvo ético último é alcançar a perfeição do caráter individual, como o resultado de um esforço pessoal que não busca nada menos do que a realização de toda a vontade de Deus e que, assim, pela graça divina, faz desse resultado algo nosso.
III, 199Ideal supremo. 1. De modo geral, nada é mais certo do que isto: esse alto ideal é posto diante do cristão. Uma das primeiras palavras do novo Legislador foi: Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu (Mt 5.48). A palavra τέλειοι implica a possibilidade de alcançar o τέλος, o fim ou a meta moral, de toda a vida. Essa foi a nova aspiração que o nosso Senhor introduziu na ética: ele fez do seu Pai celestial o padrão, reproduzido na terra por ele mesmo, de toda excelência moral, resumida na Caridade, que todos os seus seguidores devem aspirar a alcançar.
Começo. 2. Esse padrão supremo deve ser visado pelo cristão, na dependência da graça divina, desde o próprio início da sua carreira de discípulo, por todos os seus processos, até o fim.
(1.) O nosso Senhor disse a alguém que veio a ele: Se você quer ser perfeito! (Mt 19.21), comprometendo-o assim com a busca da perfeição desde o começo e aplicando uma prova severa à sinceridade da sua intenção. Exigiu-se dele que desse o primeiro penhor da sua determinação vendendo tudo o que tinha em favor dos pobres. Cristo fez de si mesmo o padrão: todo aquele que for bem-instruído será como o seu mestre (Lc 6.40). Aqui a palavra e a aplicação são diferentes; mas o sentido é que os que se tornaram seus discípulos devem ter como alvo participar da sua perfeição moral.
Processo perfeito. (2.) Todos os processos da vida cristã devem ser conduzidos sob a inspiração desse elevado incentivo. Já se viu como o Espírito Santo administra a Expiação como provisão para tornar os homens perfeitos diante da lei, perfeitos como filhos de Deus e perfeitos como santificados para a comunhão divina. Basta agora indicar que, nesses três departamentos, os cristãos são ensinados a aspirar à perfeição pelo seu próprio esforço cooperante. Escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem (1Jo 2.1). Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo (1Jo 3.7). Essas palavras confirmam as de são Paulo: a fim de que a exigência da lei se cumprisse em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm 8.4). E, sem dúvida, ensinam que o andar religioso deve visar uma satisfação perfeita, pela graça divina, de toda exigência da lei. Como filhos de Deus, somos exortados a manter diante de nós a mesma alta aspiração, para que sejam irrepreensíveis e puros, filhos de Deus inculpáveis (Fp 2.15): provados pelo padrão mais alto, sem falta, sem mancha interior, sem censura de Deus ou dos homens; e, segundo o propósito divino que se torna alvo humano, conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29). Como diz são João: Todo aquele que é nascido de Deus não comete pecado (1Jo 3.9) [N. do T.: a NAA traz “não vive na prática de pecado”]; pelo menos, o teor da sua aspiração é viver num estado de sagrada liberdade do pecado e de semelhança com o Filho de Deus, que se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado (1Jo 3.5). Assim, há uma perfeição do estado regenerado que é um ideal que a diligência se esforça por realizar. Assim também soa a exortação no templo da consagração divina: Portanto, meus amados, tendo tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus (2Co 7.1). O fim da aplicação da Expiação é aperfeiçoar aqueles que se aproximam de Deus (Hb 10.1). Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados (Hb 10.14). O τετελείωκεν divino exprime um desígnio que se torna humano no ἐπιτελοῦντες da Epístola aos Coríntios, o qual, como ninguém negará, faz da perfeição da santidade um alvo cristão. Pode-se acrescentar que cada graça deve ser educada até a sua própria perfeição: por exemplo, a paciência deve ter a sua obra perfeita (Tg 1.4) [N. do T.: a NAA traz “a perseverança deve ter ação completa”], uma das graças do indivíduo perfeito (Tg 3.2), ou pelo menos do homem que aspira à perfeição, que atenta bem para a lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera (Tg 1.25): olha para ela para sempre, com o ardor inextinguível da determinação de ser operoso praticante na sua perfeição e de ser bem-aventurado no que realizar.
III, 200Fim. (3.) Por fim, há uma aspiração à perfeição que não é puramente ética, embora esse elemento não fique excluído. A expressão mais intensa que são Paulo deu ao fim único da sua vida, uma coisa faço! (Fp 3.13), referia-se à consumação final do corpo e da alma em união com Cristo. Não que eu já tenha recebido isso ou já tenha obtido a perfeição! (Fp 3.12). A sua visão da perfeição acabada de toda a sua natureza não se detém antes da ressurreição. Para isso, naturalmente, ele depende da fidelidade do seu Senhor. Mas até isso ele torna o seu próprio alvo: prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus (Fp 3.12). Exorta os espiritualmente perfeitos a avançar rumo à perfeição da última transformação, quando a perfeição da terra se revestir da perfeição do céu. É evidente até que ponto isso entrava no seu alvo ético. É isso que dá ἓν δέ. a toda a passagem a sua sublime singularidade: uma coisa faço!
III, 201Visão beatífica. (4.) O fim do tempo é a eternidade, e o fim da vida é a união eterna com Deus. O finito pode buscar o Infinito. A mais alta aspiração do santo deve ser, ao longo da vida e de todas as variedades da provação, ver a Deus e ser um com ele para sempre. Esta pode e deve ser a intenção final: quando acordar, me satisfarei com a tua semelhança! (Sl 17.15). Não a preparação para a morte, nem a preparação para encontrar Deus no juízo, mas a preparação para estar com ele eternamente! DEUS MEUS ET OMNIA [meu Deus e meu tudo]!
Ética do conflito cristão. A personalidade cristã é o campo de uma disputa entre dois princípios opostos, que são descritos de várias maneiras. A luta se trava entre o novo homem e o velho, ou entre a carne e o Espírito, ou entre o crente e Satanás. O que este conflito tem de peculiar depende da doutrina da união dos regenerados, em regime de provação, com Cristo, o Capitão da nossa salvação. Ele aparece sob outra forma em todos os sistemas de ética que tratam da discórdia entre o eu pior e o eu melhor; mas só o cristianismo dá a chave deste mistério da natureza humana. Uma parte muito grande do ensino moral do Novo Testamento se ocupa com o pormenor das virtudes e dos deveres que brotam da guerra espiritual da qual depende a nossa provação. Esses temas devem ser tratados na sua ordem.
O aspecto doutrinário dessa discórdia interior já foi exposto; tratamos agora apenas do aspecto ético, limitando a nossa atenção à ideia única do conflito. Muitos dos princípios e das definições éticas, naturalmente, aparecem sob outros títulos. Contribuirá para a precisão considerar o assunto, primeiro, em relação aos dois elementos opostos, com as suas virtudes e os seus vícios contrastantes em particular; e, depois, em relação aos diversos deveres e graças éticos que surgem da relação entre eles em geral e que são comuns a todos.
As duas forças. Embora todas as partes do Novo Testamento se refiram aos princípios gerais da disputa, são Paulo é o único mestre que nos dá uma visão completa das duas forças que se combatem nos regenerados. Ele deve, portanto, ser o nosso principal guia neste campo; e o seu ensino, por resumir o de toda a Escritura, apresenta o combate ético como nada menos que a comunhão do crente no conflito e na vitória do Redentor. Esse é o laço profundo que une todas as diversas descrições do bom combate da fé (1Tm 6.12). Todo este campo da ética se reduz ao prosseguimento de uma disputa que, no cristão, é a renovação e a continuação do combate e da vitória do seu Mestre. A união com Cristo imprime a sua marca em toda a doutrina do conflito dos regenerados. Para pôr isso em plena luz, basta considerar algumas passagens que ligam a posição do Salvador como Cabeça a cada setor da guerra espiritual, nos seus dois ramos: primeiro, na luta do novo homem com o velho homem que ainda permanece dentro dele; e, em segundo lugar, como o combate do novo homem com as forças externas do mal. Os dois ramos se combinam na ideia comum da nossa união com o Senhor na nossa tentação.
O conflito interior. I. É peculiar a são Paulo descrever a disputa como travada entre o velho homem e o novo, e entre a carne e o Espírito. No primeiro caso, Cristo é visto como sendo ele mesmo a vida do crente, ressuscitado com ele dentre os mortos; no segundo, Cristo é visto como quem, pelo seu Espírito, combate os restos da natureza má. Os dois são, na realidade, um só, mas cada um tem o seu alcance próprio.
1. A doutrina da regeneração já nos deu todos os elementos da O velho homem e o novo. distinção. Em muitas passagens, são Paulo fala do velho homem e do novo homem (Cl 3.9-10) [N. do T.: em Cl 3.9-10 e Rm 6.6 a NAA traz “velha natureza” e “nova natureza”; mantém-se “velho homem” e “novo homem”, de que depende o argumento de Pope, aqui e adiante] numa aparente, mas só aparente, independência de Cristo. A personalidade única do regenerado inclui uma natureza nova e uma velha, que coexistem por algum tempo. O velho homem residual é, por sua vez, considerado como tendo um corpo orgânico próprio, o corpo do pecado (Rm 6.6): nele, por meio dos seus membros que estão sobre a terra (Cl 3.5) [N. do T.: a NAA traz “tudo o que pertence à natureza terrena”], ele pratica os feitos do corpo (Rm 8.13). É o corpo desta morte, com o qual o apóstolo lutou antes de ser regenerado e com o qual, embora sob melhores auspícios, lutou depois. Na primeira luta, o homem interior é feito prisioneiro da lei do pecado (Rm 7.22-24); na segunda, aquela de que agora falamos, o processo se inverte: vocês se despiram do velho homem com as suas práticas e se revestiram do novo homem (Cl 3.9-10); sabendo isto: que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que não sejamos mais escravos do pecado (Rm 6.6). Portanto, o pecado, embora permaneça, já não é o senhor. Essa é a glória da ética cristã.
III, 2032. Mas, por outro lado, essa personalidade única é um homem em Cristo (2Co 12.2), e a nova natureza não é outra coisa senão Cristo formado em vocês (Gl 4.19), como se a sua sagrada μορφή, ou forma, fosse impressa no espírito por meio do Espírito Santo, de quem se diz: aquele que se une ao Senhor é um só espírito com ele (1Co 6.17). São Paulo diz aos colossenses que eles se revestiram do novo homem (Cl 3.10), usando a mesma palavra que usa ao dizer aos romanos: revistam-se do Senhor Jesus Cristo (Rm 13.14); e a combinação das duas passagens mostra que o novo homem não é tanto a nossa natureza renovada quanto Cristo nela, e também que o conflito cristão é o esforço da nossa parte para dar ao novo homem a ascendência sobre o velho. Esse novo homem é o último Adão, espírito vivificante (1Co 15.45), dentro da alma; e esse termo, espírito, é o elo entre a doutrina dos dois homens, ou dos dois Adões, no regenerado, e a aplicação ética dessa doutrina, à qual passamos agora.
Espírito e carne. II. Por isso, a disputa não se trava simplesmente entre uma natureza nova e uma velha, mas entre o Espírito Santo de Cristo e aquilo que, sob este ponto de vista, se chama a Carne. É importante definir esses dois princípios opostos e a natureza do conflito entre eles.
A carne. 1. Em parte alguma a Carne é descrita de modo mais completo do que quando é oposta ao Espírito Santo como princípio da vida regenerada. Há no Novo Testamento abundantes referências à natureza decaída do homem; mas nenhuma se iguala ao quadro que são Paulo traça, na Carta aos Gálatas, das obras da carne, tais como são conhecidas no mundo e evidentemente condenadas pela consciência natural. Elas são: adultério, imoralidade sexual, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçarias, inimizades, rixas, ciúmes, iras, discórdias, divisões, facções, invejas, homicídios, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas (Gl 5.17-21) [N. do T.: a NAA não traz “adultério” nem “homicídios”; Pope cita a versão inglesa, e a comparação que faz em seguida com Mt 15.19 depende dessa lista]. São uma ampliação das palavras do Senhor sobre o que procede do coração (Mt 15.19). O catálogo de são Paulo inclui os maus pensamentos, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. A esse catálogo acrescenta-se, em outro lugar, a avareza, que é idolatria (Cl 3.5); e assim ele abrange toda forma de pecado contra Deus, contra o próximo e contra o próprio eu; contra a sociedade nas suas formas social, política e eclesiástica. Esses pecados são conhecidos e lidos por todos; a ética cristã não precisa defini-los: são manifestos. São Tiago, numa sátira sagrada, diz deles: Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; pelo contrário, é terrena, sensual e demoníaca (Tg 3.15) [N. do T.: a NAA traz “animal” em lugar de “sensual”], sendo o termo do meio o que os liga às obras da carne (Gl 5.19) de são Paulo. São o melhor produto dos pensamentos do velho homem com as suas práticas (Cl 3.9). São a impureza e o acúmulo de maldade que os cristãos devem deixar (Tg 1.21). Em oposição a tudo isso, são Paulo apresenta o único fruto do Espírito, que é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio (Gl 5.22-23): graças dispostas em ordem pacífica contra o exército turbulento dos vícios sem lei. São Pedro resume tudo em outra antítese: de um lado, a corrupção das paixões que há no mundo, que corresponde às obras da carne; e, correspondendo ao fruto do Espírito, o tornar-se coparticipantes da natureza divina (2Pe 1.4), que em são Tiago é a sabedoria lá do alto (Tg 3.17).
III, 2042. O conflito entre esses dois princípios na ética cristã deve ser exposto com cuidado. O conflito em Rm 7 e em Gl 5. O texto principal de são Paulo diz assim: A carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si, para que vocês não façam o que querem (Gl 5.17) [N. do T.: a NAA traz “luta” em lugar de “cobiça”]. A mesma palavra, ἐπιθυμεῖ [cobiça, deseja], que exprime a inclinação do pecado original ainda não extirpada da natureza, deve ser aplicada à nova inclinação original do Espírito no espírito regenerado. Se o decoro sugerir outra palavra no segundo caso, podemos adotá-la; mas o sentido continua o mesmo: assim como a carne nos impediria de fazer o que quereríamos como regenerados, o Espírito nos impede de fazer o que quereríamos ao ceder ao impulso do que resta do pecado. Mas é preciso observar que há uma diferença entre esta disputa e a que se descreve no capítulo sétimo da Carta aos Romanos. Ali o conflito é uma luta perdida da parte do homem que está sob o convencimento do pecado, mas ainda não regenerado. Não se trava entre o Espírito, como Espírito da vida, em Cristo Jesus (Rm 8.2), e a carne, mas entre a carne e a lei da minha mente (Rm 7.23), ou o νοῦς, sob a ação do Espírito Santo que luta com o homem. Esse conflito é uma luta infrutífera contra um poder que me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Na disputa dos regenerados, a palavra de ordem é: vivam no Espírito e vocês jamais satisfarão os desejos da carne (Gl 5.16). É característico da ética da guerra cristã que o Espírito Santo de Cristo, no espírito regenerado, assegure a possibilidade de uma vitória constante. Mesmo assim, é uma disputa: não se supõe a extinção do pecado nem da carne; a Carne continua a ser, como veremos, a fonte da tentação por algum tempo.
III, 205União com Cristo. III. Podemos agora considerar a relação deste conflito com a nossa união com Cristo e com a nossa tentação com ele.
A tentação interior. 1. São Tiago nos dá o que mais se aproxima de uma definição do processo da tentação que vem de dentro: cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz (Tg 1.14). A tentação propriamente dita, no caso de uma criatura decaída, é, a rigor, interior. Ela anseia pela satisfação que lhe é oferecida de fora: Então a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado (Tg 1.15). O combate no homem regenerado é essa cobiça da carne que se opõe ao Espírito da nova natureza, e o Espírito que move continuamente o espírito renovado a opor-se aos desejos dela. Nesse sentido, os nossos primeiros pais não foram tentados, embora, no caso deles, a tentação vinda de fora tenha assaltado uma vontade capaz de cair e tenha sido o meio de gerar a concupiscência que, então, gerou todo o pecado. Nesse sentido, os inteiramente santificados do pecado não são tentados, embora, no caso deles, a vontade que conheceu a transgressão continue sujeita a cair, e tanto mais por causa dos efeitos que restam do mal erradicado. Nesse sentido, os glorificados no céu, terminada a provação, serão incapazes de tentação. Nesse sentido, o nosso Redentor sem pecado foi absolutamente inacessível à tentação e impecável. Ele foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado (Hb 4.15); isto é, foi provado em todos os pontos como nós somos provados, até onde isso era compatível com a ausência total do elemento que poderia conceber o pecado. Nesse sentido, por fim, Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo não tenta ninguém (Tg 1.13). Ele permite a tentação nos regenerados, mas o seu Espírito luta contra a carne (Gl 5.17). E é no fato de o espírito renovado ser capacitado a vencer toda tentação que consiste a diferença entre essa espécie de tentação e a dos não regenerados, ainda enredados nos laços do diabo, que os prendeu para fazerem o que ele quer (2Tm 2.26).
Cristo não foi tentado assim. 2. Daí se torna evidente que a união do cristão com o seu Senhor nessa tentação interior deve ser cuidadosamente definida e limitada. Não é desse conflito interior que o Salvador fala quando diz: Vocês são os que têm permanecido comigo nas minhas tentações (Lc 22.28). Não havia nele nenhuma cobiça-mãe capaz de conceber e dar à luz o pecado. Noutro sentido, ele está unido da maneira mais íntima aos seus santos nesse conflito sagrado; e o mesmo Espírito onipotente que tornou sem pecado a sua natureza humana é dado para redimir do pecado a nossa natureza. Mas há outro aspecto da tentação que o traz ainda mais perto de nós: a prova do espírito vinda de fora. Esta ele sofreu até o extremo; na verdade, tanto além da possibilidade da tentação dos seus servos quanto a tentação interior deles lhe era impossível. É para essas outras fontes de prova, mais exteriores, que devemos agora voltar a nossa atenção.
Conflito exterior. A alma regenerada, unida a Cristo, mas ainda na carne, tem contra si todos os elementos do mundo presente e os poderes espirituais do mal, dos quais Satanás é o cabeça. Esses dois estão estreitamente unidos no ensino geral do Novo Testamento, que apresenta a tentação da nossa vida em provação como brotando, em grande parte, dessas fontes combinadas.
O mundo. I. O MUNDO, como elemento de oposição ao cristão, tem dois sentidos distintos, que devem ser considerados separadamente.
Dos sentidos. 1. O mundo presente, isto é, o estado de coisas em que naturalmente nascemos e ao qual estamos unidos por meio do corpo, não é mau em si mesmo; mas, de inúmeras maneiras e por inúmeros canais, apresenta os materiais que o desejo da carne pode converter em tentação. Os seus incontáveis objetos podem servir aos desejos da carne, aos desejos dos olhos e à soberba da vida (1Jo 2.16). As suas ocupações necessárias podem converter-se em mal e tornar-se as preocupações deste mundo (Mt 13.22).
Da providência. 2. O mundo pode significar o curso da vida humana sob a ordem das disposições da providência; e estas, na sua infinita diversidade, são os elementos da prova, ou tentação, própria da provação. As suas alegrias e prosperidades, as suas adversidades e tristezas, são igualmente testes do caráter, e compõem o conflito da vida. Esse tipo de tentação é ordenado pelo próprio Deus. Por isso, o mesmo apóstolo Tiago, que já descreveu o processo da tentação interior, exorta os seus leitores: tenham por motivo de grande alegria o fato de passarem por várias tentações (Tg 1.2) [N. do T.: a NAA traz “provações”]; elas servem para confirmar o valor da fé que vocês têm (1Pe 1.7).
III, 207O mundo perverso. 3. O mundo é este mundo perverso, cujo curso se opõe à religião, e cujas máximas, costumes, tendências, prazeres e objetos são, em todos os pontos, hostis ao cultivo da piedade. Cristo apareceu como o Salvador que faz a expiação, para nos livrar deste mundo perverso (Gl 1.4), expulsando o príncipe deste mundo (Jo 12.31); mas, durante o processo da nossa redenção, a nossa existência nele é uma prova perpétua das nossas graças cristãs. O mundo assim definido é, portanto, inteiramente contrário à vida religiosa e está sob o poder do inimigo do reino de Cristo.
Satanás e os seus anjos. II. A doutrina solene da Escritura é que a guerra da vida cristã não é só a luta entre a carne e o Espírito, e entre o novo homem e o mundo perverso, mas também entre o crente em Cristo e as vastas forças de inteligências espirituais que estão coligadas, sob Satanás, o seu cabeça, contra a causa cristã no mundo. Dois textos de Efésios resumem toda a revelação do Novo Testamento sobre este assunto; aliás, pode-se dizer que a Carta aos Efésios, em geral, condensa, no seu alcance prático, todo o ensino da Escritura a respeito dos nossos inimigos sobre-humanos.
Unido ao anterior. 1. Do primeiro aprendemos que há uma conjunção entre essa classe de inimigos espirituais e a oposição interna e externa que já foi descrita. Vocês andaram, diz o apóstolo, segundo o curso deste mundo, segundo o espírito que agora atua nos filhos da desobediência (Ef 2.2). Assim como Jesus, pelo seu Espírito, dirige o curso do mundo regenerado, Satanás dirige o curso do mundo que agora existe: tudo o que nele se opõe à vida cristã está posto sob o seu controle. Aqui ele também é apresentado como o instigador interior daquela outra oposição, a do velho homem e da carne: ele atua NOS filhos da desobediência.
Distinto. 2. Do outro aprendemos a não identificar essas forças espirituais nem com a carne nem com o mundo. Há, da parte dos nossos inimigos invisíveis, uma oposição que é independente e direta: a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais (Ef 6.12) [N. do T.: a NAA traz “contra os principados e as potestades”]. O CONTRA repetido dá igual ênfase ao antagonismo distinto das várias ordens de espíritos caídos, confederados sob um só cabeça, cuja ação diretora é mencionada como as ciladas do diabo (Ef 6.11).
III, 208A nossa força. 3. Mas a epístola que assim se encerra já havia posto à frente de tudo a grande revelação de que Cristo é supremo sobre todas as forças do mal. Ele está assentado nas regiões celestiais, acima de todo principado, potestade, poder e de todo nome que se possa mencionar, não só no presente século, mas também no vindouro (Ef 1.20-21). A autoridade suprema sobre o curso presente das coisas e sobre a ordem sobrenatural está posta nas suas mãos como o Encarnado que Deus deu à igreja para ser o cabeça sobre todas as coisas (Ef 1.22). E o conflito interior é travado sob o seu domínio, segundo a suprema grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos (Ef 1.19). Assim se comprova a proposição estabelecida repetidas vezes: é em união com Cristo que o cristão regenerado trava a luta universal.
Ética do conflito. A ética do conflito cristão será agora considerada como compreendendo os deveres e as graças estritamente ligados a ele. Podem ser classificados sob dois títulos gerais: a Preservação, interior e exterior, e a Confiança no desfecho vitorioso. Temos aqui, evidentemente, os aspectos defensivo e ofensivo de todo o dever dos servos e soldados de Cristo.
Autopreservação. Os deveres e as graças da vida cristã, enquanto resistência ao mal, dificilmente podem ser separados, mesmo em pensamento. Ocupam um grande espaço nos preceitos do Novo Testamento acerca da Disciplina de si e da Vigilância, termos que representam uma grande variedade de virtudes cristãs.
Abnegação. I. A disciplina pessoal interior vem em primeiro lugar: a saber, aquela disciplina que prepara negativamente para o conflito futuro, ou lhe diminui a força quando ele está presente, ou, em muitos casos, protege a alma inteiramente do conflito. Os deveres a que aqui nos referimos podem ser resumidos como pertencentes à família da Abnegação: as sagradas graças, deveres e virtudes da Cruz.
Renúncia de si. 1. Na raiz de tudo está a Renúncia de si. Ela já foi considerada em relação ao fim último da alma. Agora é vista como o sentimento fundamental que o regenerado deve nutrir para com o elemento pecaminoso que nele permanece, o qual, por ser o oposto do novo homem, ou do Cristo que nele está, ele não pode deixar de odiar. Ela passa por muitos estágios na ética do evangelho: o ódio, em princípio, que tem por desfecho a mortificação ou crucificação; e os atos intermediários de abnegação.
III, 209O eu odiado. (1.) Nosso Senhor tornou enfático o primeiro desses estágios, e isso de muitas maneiras. Colocou-o no próprio limiar do seu serviço: Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me (Lc 9.23). A primeira destas três condições é a raiz das outras duas e não deve ser confundida com elas; o ἀρνησάσθω ἑαυτόν é uma renúncia absoluta a todo comprazimento em si mesmo e a toda confiança em si mesmo. Esse princípio ético assume diferentes Ódio de si mesmo. formas. A mais severa é a ABOMINAÇÃO DE SI MESMO, sobre a qual tanto insiste todo o ensino ético mais sério e mais profundo do cristianismo. É mais do que odiar a vida no sentido de não amá-la tanto quanto a Cristo. É o amor de Deus voltado, em santa inimizade, contra o eu como inimigo de Deus: inimigo ainda, na medida em que resta algum mal; e, mesmo que todo o mal tivesse desaparecido, odiado ainda assim pela lembrança do que foi. O ensino do Salvador não dá lugar nenhum ao comprazimento em si mesmo, nem mesmo quando o eu está santificado: ele ensinou o seu servo a dizer: já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim! (Gl 2.20). Esse ódio de si às vezes assume um caráter mórbido na teologia mística; mas um estudo atento das palavras do Senhor mostrará que é difícil exagerá-lo: o segredo mais íntimo da religião não é encontrado enquanto a alma não odeia, literalmente, o pensamento de um eu independente de Deus e de Cristo, isto é, de qualquer EU. Daí a beleza da HUMILDADE, a graça fundamental do evangelho. Essa virtude tem muitas faces: tem um aspecto voltado para Deus, outro para o homem e outro para o próprio eu como sujeito de pecado passado e presente. É este último aspecto que temos aqui: a profunda consciência do próprio demérito diante do Céu e da impotência diante do mal. Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem. Por isso, me abomino! (Jó 42.5-6). Essa, que é a mais sublime expressão da humildade no Antigo Testamento, ilustra tudo o que se disse: na presença da pureza de Deus, a alma, sem consciência de nada que seja seu a não ser o pecado, tem nojo de si e se abomina. Tem o seu paralelo no Senhor, afaste-se de mim, porque sou pecador! de Simão Pedro (Lc 5.8). Nessa desconfiança de si, aprofundada em desprezo de si, está o segredo da força. Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte (1Pe 5.6). Portanto, sujeitem-se a Deus, mas resistam ao diabo (Tg 4.7): cada uma é a contrapartida e também a condição da outra. A CRUCIFICAÇÃO DE SI MESMO COM CRISTO diz respeito a toda a natureza pecaminosa, a carne, com as suas paixões e os seus desejos (Gl 5.24), à sua suscetibilidade passiva e ao seu impulso ativo. Assim como nosso Senhor condenou o pecado na carne (Rm 8.3), todo verdadeiro discípulo deve, em comunhão espiritual com ele, fazer o mesmo. Os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne (Gl 5.24). A MORTIFICAÇÃO diz respeito a cada tendência individual para o pecado. Por um lado, é mais forte do que aquela crucificação: façam morrer, isto é, matem, tudo o que pertence à natureza terrena (Cl 3.5) há de significar que, na força do Espírito, o crente visa habitualmente à morte de toda forma da vida do pecado, à medida que ela surge, e de fato a mata. Por outro lado, é menos do que aquela crucificação, que é a destruição de todo o corpo do pecado (Rm 6.6): não que ele seja totalmente destruído no único ato da crucificação com Cristo, mas fica pregado na cruz interior, onde, sem que se lhe dê nada que venha a satisfazer os seus desejos (Rm 13.14), tem de morrer.
III, 210Ascetismo. (2.) As práticas exteriores de um ascetismo piedoso são ao mesmo tempo a expressão e os auxílios instrumentais dessa disciplina interior. Em primeiro lugar, e como mediadora entre a disciplina interior e a exterior, vem a ABSTINÊNCIA, que pode ser uma graça ou um dever: significa, em geral, não ceder ao apetite em relação às coisas nem às afeições em relação às pessoas; e pode ser apenas interior ou também exterior. É o ἀπέχειν que a antiga filosofia moral Jejum. tanto exaltou. O JEJUM é, então, o ato mais expresso e formal, trazido do Antigo Testamento por nosso Senhor, que o prescreveu indiretamente, tanto pelo seu exemplo como pelo seu preceito: Quando vocês jejuarem! (Mt 6.16). Mas esse preceito deixa o tempo, o caráter e o grau do jejum ao juízo de quem o pratica. O exercício físico tem algum valor (1Tm 4.8): reconhece-se que esse regime e essa disciplina sagrada são úteis. Esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão (1Co 9.27) é uma revelação do domínio de si, seriíssimo, que o apóstolo exercia em geral, e que, segundo o seu próprio testemunho, tomava a forma de jejuns expressos: em jejuns, muitas vezes (2Co 11.27). Mas quaisquer práticas ascéticas que se adotem devem estar sob o freio e a regulação de uma só lei: Exercite-se [ANTES] NA PIEDADE (1Tm 4.7).
Autogoverno. (3.) E, assim como a piedade é o desígnio, a garantia e a salvaguarda do ascetismo, o AUTOGOVERNO é o seu melhor resultado. Essa tem sido uma lei ética na maioria dos sistemas de filosofia moral; mas o sistema cristão difere de todos os outros por combinar com esse governo de si o governo interior do Espírito. São Paulo, no seu último resumo ético, mostra essa combinação: a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos. Ela nos educa para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos de forma sensata, justa e piedosa (Tt 2.11-12): o παιδεύουσα é a disciplina divina; o σωφρόνως, a humana; e ambas concorrem para a perfeição que é o desígnio do Salvador. O homem inteiro é objeto desse autogoverno; nada fica excluído, nem mesmo a vontade, que é ela mesma a que governa. A lei é rigorosa quanto aos PENSAMENTOS, que em geral significam os motivos secretos. Estes podem ser submetidos ao controle, mas não sem muita disciplina: De tudo o que se deve guardar, guarde bem o seu coração (Pv 4.23). O governo da língua é prescrito de modo ainda mais enfático, sendo a língua, em geral, a expressão da vida interior e, em particular, o órgão do culto a Deus e o instrumento de utilidade ao homem. São Tiago desenvolveu aqui algumas das palavras mais severas do Senhor: pelas suas palavras, você será justificado e, pelas suas palavras, você será condenado (Mt 12.37). Se alguém não tropeça no falar, é um indivíduo perfeito (Tg 3.2). Assim, falem e vivam como pessoas que serão julgadas pela lei da liberdade (Tg 2.12). Aqui PALAVRA E AÇÃO estão combinadas, como as combina outro apóstolo: tudo o que fizerem, seja em palavra, seja em ação! (Cl 3.17). Por fim, todas as ações da vida, maiores ou menores, devem ser em tudo bem-ordenadas e verdadeiras. Disso são Paulo, o mestre especial do autogoverno, deu no seu próprio exemplo o preceito supremo: Assim corro também eu, não sem meta (1Co 9.26), palavras que, interpretadas por todo o contexto, mostram qual deve ser o Entrega de si. controle minucioso da vida inteira. Mas a ENTREGA DE SI à direção do Espírito é o segredo de todas as virtudes que pertencem ao processo da transformação interior. Essa graça é peculiarmente cristã e é conhecida por muitos nomes. Como o Espírito é Mestre e Guia, ela é sujeição à sua vontade, passiva e ativa. Como ele é Amigo, ela é simpatia pelo seu desígnio e docilidade a ele: não entristeçam o Espírito Santo de Deus (Ef 4.30). Não apaguem o Espírito (1Ts 5.19). Embora esta última talvez se refira antes ao freio às vezes imposto à sua influência extraordinária, a primeira se refere à reverência e ao temor habituais da alma na consciência de um admoestador divino interior. O dever geral e universal é: Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito (Gl 5.25). O governo interior do Espírito Santo é o novo segredo da ética cristã: um segredo buscado às apalpadelas, e só vagamente, na filosofia pagã, prometido no Antigo Testamento e plenamente comunicado no Novo.
III, 212Graças preservadoras. II. Vêm em seguida as várias graças da autopreservação, tal como se resumem na VIGILÂNCIA, que implica uma consideração perpétua do perigo que vem de fora, e na SOBRIEDADE, que é a guarda perpétua do estado da alma por dentro. São Pedro une as duas de modo muito impressionante: Sejam, portanto, sóbrios e vigiem para orar (1Pe 4.7) [N. do T.: a NAA traz “sejam criteriosos e sóbrios para poderem orar”]: aqui o cristão está cercado pelas ciladas do mundo que passa; ao passo que Sejam sóbrios e vigilantes (1Pe 5.8) aplica a mesma exortação diante dos adversários espirituais da alma. As palavras dele são apenas o eco das do seu Mestre: Vigiem e orem, para que não caiam em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26.41). Combinando essas passagens de nosso Senhor e do apóstolo cujo ofício era fortalecer os seus irmãos, temos a relação da Vigilância com a carne, o mundo e o diabo. Notamos também que o seu valor como graça não está apenas em preparar para a tentação, mas também em proteger contra ela. E, por fim, quando ouvimos o Redentor dizer: Então nem uma hora vocês puderam vigiar comigo? (Mt 26.40), aprendemos que também essa virtude deve ser praticada em união com Cristo, o único em quem o espírito estava pronto e a carne não era fraca. O EXAME DE SI MESMO é essa vigilância geral exercida em tempos determinados, e que resulta no conhecimento de si e na desconfiança de si, em oposição à vida descuidada e à presunção. Esse dever é inculcado pelos moralistas de todas as escolas; é ensinado pela luz da natureza, segundo o adágio que exprime um instinto universal: CONHECE-TE A TI MESMO. Por isso não o encontramos prescrito expressamente como prática: ele está subjacente a toda a ética do Novo Testamento. Algumas exortações muito solenes a esse dever estão nos escritos de são Paulo. Uma se refere à questão suprema de um Salvador que habita em nós: Examinem-se para ver se realmente estão na fé; provem a si mesmos. Ou não reconhecem que Jesus Cristo está em vocês? A não ser que já tenham sido reprovados (2Co 13.5). Outra se dirige contra o autoengano nos assuntos gerais da religião: se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, engana a si mesmo. Mas que cada um examine o seu próprio modo de agir (Gl 6.3-4). E outra ainda se refere à preparação para a Ceia do Senhor: se julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados (1Co 11.31): só se mencionam o julgamento de si e o julgamento do Senhor, e numa conjunção muito notável. Mas o dever do exame de si mesmo precisa, ele próprio, ser protegido contra uma autoanálise mórbida e, especialmente, contra certas perversões dele sob direção humana. A salvaguarda suprema é que seja feito segundo o padrão da Escritura e na presença daquele que sonda os corações. Deus, a quem sirvo em meu espírito, é minha testemunha (Rm 1.9): eis o exemplo de são Paulo. Mas nenhum é mais impressionante que o de Davi, no seu salmo do Onisciente. Examinando a sua vida, ele podia apelar ao seu Deus em defesa da sua integridade; mas, examinando mais profundamente o seu coração, de bom grado retiraria esse apelo. O resultado é o clamor comovente: Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno (Sl 139.23-24). Para o cristão sincero, que serve a Deus em seu espírito, o exame de si mesmo deve ser, em maior ou menor grau, um estado habitual da alma, além de uma prática ocasional.
Confiança. A CONFIANÇA quanto ao desfecho do conflito cristão dá origem a algumas graças luminosas e é o princípio animador de muitas virtudes nobres. Destas, umas são ativas, outras passivas, e outras ainda combinam os dois caracteres.
Virtude. 1. O que os homens chamam CORAGEM, o Novo Testamento chama Virtude, ou ἀρετή, que são Pedro põe em primeiro lugar entre as graças que a Fé inspira (2Pe 1.5). Mas são Paulo se detém nela ainda mais; ela percorre, na verdade, todo o seu ensino ético. Fiquem alertas, permaneçam firmes na fé, mostrem coragem, sejam fortes (1Co 16.13). Esse quaternário é uma das passagens singulares do apóstolo. Ἀνδρίζεσθε, κραταιοῦσθε são uma reminiscência do Antigo Testamento (Sl 31.24; 2Sm 10.12) [N. do T.: o original indica “Sept. Ps. xxi. 34”; na Septuaginta, a passagem é o Sl 30.25]; mas, no seu sentido cristão, o primeiro ordena uma energia viril e heroica, e o segundo preceito dá a razão dela na força que se supõe obtermos do alto. A relação do crente com um Salvador que nele habita, cujo Espírito une o seu servo a si mesmo, dá a esse princípio ético uma peculiaridade que não precisa ser aqui desenvolvida. Sejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder (Ef 6.10) diz tudo o que é preciso dizer. Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.13). Não há infecção inata da carne, nem poder de sedução ou de terror no mundo, nem malignidade de seres superiores que deva intimidar o homem cristão.
III, 214Paciência. 2. Correspondente a esta é a graça da PACIÊNCIA, que de fato se liga a ela pelo termo FORTALEZA. É uma graça passiva de toda a vida cristã, embora são Tiago lhe dê uma obra a fazer: que a paciência tenha a sua obra perfeita (Tg 1.4) [N. do T.: a NAA traz “a perseverança deve ter ação completa”]. A rigor, essa virtude tem três aspectos: um voltado para as disposições providenciais de Deus, que será considerado mais adiante sob o nome de SUBMISSÃO; outro, voltado para as injúrias dos homens, quando deve antes chamar-se MANSIDÃO; e um terceiro, voltado para os processos penosos da vida cristã e para o conflito múltiplo. É deste que tratamos agora, e devemos atribuir-lhe um lugar elevado e uma função importante. Ele protege contra a impaciência consigo mesmo e fortalece a alma para persistir apesar de muitas falhas. Arma a mente de fortaleza em meio aos assaltos incessantes do mundo. E sofre com magnanimidade as múltiplas investidas de Satanás, sabendo que os irmãos em toda parte estão passando por sofrimentos iguais (1Pe 5.9). Embora essa graça seja importantíssima, deve, naturalmente, ser protegida contra os abusos a que a sua tolerância está sujeita: deve combinar-se com um anseio veemente pela libertação final e eterna do mal. Mas a ESPERANÇA é, em toda a Escritura, a graça inspiradora do grande conflito, sendo ao mesmo tempo passiva e ativa. É uma graça que, como a Paciência, tem muitos aspectos. A própria palavra tem uma ampla gama de sentidos. Cristo é a NOSSA ESPERANÇA (1Tm 1.1), como a Coluna e o Fundamento de toda expectativa humana por meio da esperança do evangelho (Cl 1.23). A Esperança é também uma das graças teologais, com a Fé e a Caridade, sendo uma combinação bendita das outras duas: é a Fé que olha somente para o futuro, mas olha para ele com a confiança do amor. Sem dúvida, porém, a graça cristã da Esperança está ligada, na maioria das vezes, à alegre expectativa da vitória futura. Assim, o apóstolo Paulo exorta a alegrar-se na esperança, contrapartida de ser paciente na tribulação (Rm 12.12). Como vimos, ela é ao mesmo tempo ativa e passiva. Todo o que tem essa esperança nele purifica a si mesmo (1Jo 3.3): a sua esperança na Fonte e Modelo supremo da pureza o anima a purificar a própria alma. Revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como capacete a esperança da salvação (1Ts 5.8): onde o capacete é a defesa, a defesa passiva, da cabeça, que de outro modo estaria desprotegida.
III, 215Gloriar-se em Deus. 3. Por fim, há uma graça que tem muitos nomes no Novo Testamento, mas nenhum em particular, e que pode ser caracterizada como o gloriar-se da alma na obra de Deus dentro dela. São Paulo fala muito da exultação no Senhor e nas riquezas da sua graça. Numa passagem notável, ele despoja o homem de toda jactância própria: a fim de que ninguém se glorie na presença de Deus (1Co 1.29). Depois, tendo mostrado o que Cristo se tornou para o crente, acrescenta: para que, como está escrito, “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1Co 1.31). Aqui temos, pois, a contrapartida daquele princípio ético com que esta seção começou, a abominação de si mesmo. O completo desprezo de si à parte de Deus é perfeitamente compatível com um comprazimento religioso na operação de Deus que edifica o novo homem. É a essa confiança tranquila e racional no novo caráter, sustentado pela graça divina, que o apóstolo se refere quando nos exorta: vivam de maneira digna da vocação a que foram chamados (Ef 4.1). E o mesmo quando exorta os filipenses a pensar em tudo o que é respeitável, ou σεμνά, digno e decoroso, e a praticá-lo (Fp 4.8). Esse preceito pode tomar a forma de DESPREZO para com o pecado: não somente somos exortados a odiar o mal (Rm 12.9), mas também a nos envergonhar dele e a desdenhar todo vício, grande ou pequeno. De alguns vícios, aliás, o moralista cristão fala como se a simples menção deles fosse desonrosa. A melhor ilustração, porém, desse traço do ensino ético do Novo Testamento é o modo como os apóstolos se referem às várias classes de vícios e de virtudes que pertencem, respectivamente, ao caráter não regenerado e ao regenerado. Todos eles, e unanimemente, descrevem aqueles como obras de uma natureza má e condenada, e estas como produto de um Espírito divino e celestial. Não falam dos vícios como fruto simplesmente da natureza humana, mas como pertencentes à carne, como vindos de baixo e como próprios do velho homem, que é corrupto e condenado. É impossível exagerar a importância desse princípio ético no ensino do Novo Testamento. É igualmente impossível defini-lo com exatidão: a sua força deve ser sentida, mais do que aprendida por definição. Todos os apóstolos põem frente a frente, em ordem de batalha, as virtudes e os vícios: sempre com a indicação de que estes são produtos de um hábito mau, condenado e moribundo, e aquelas, o crescimento de uma energia interior onipotente. São Paulo dá um exemplo capital do que se quer dizer. Ele chama a atenção, com ênfase, para a sua sentença: Digo, porém, o seguinte: vivam no Espírito e vocês jamais satisfarão os desejos da carne (Gl 5.16). E então dá o catálogo mais completo dos pecados que a humanidade abomina e dos quais se envergonha: Ora, as obras da carne são conhecidas e são: imoralidade sexual, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçarias, inimizades, rixas, ciúmes, iras, discórdias, divisões, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas (Gl 5.19-21). Aqui está uma massa confusa de toda iniquidade, contra a qual se levanta toda lei de Deus e dos homens. A própria descrição é, por assim dizer, desdenhosa e cheia de desprezo. Não há pecado contra Deus, contra o próximo e contra si mesmo que não se possa rastrear aqui. São todos obras da carne. O catálogo inclui o pecado sob todos os aspectos, mas diz-se de modo significativo que os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos (Gl 5.24). São o produto moribundo de um princípio que expira. Mas o fruto do Espírito é descrito como o resultado orgânico da árvore da vida na alma: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, domínio próprio (Gl 5.22-23) [N. do T.: a NAA traz “fidelidade”]. Enquanto os pecados enumerados são as obras da carne, ativas e espontâneas, embora moralmente mortas, as virtudes opostas são o fruto e a obra do Espírito eternamente Vivo. A morte não pode resistir à vida. Os vícios abomináveis que abrem e fecham o catálogo do mal (como se a carreira da carne fosse emoldurada pela luxúria) têm contra si as virtudes celestiais da religião. O amor conduz o exército nesta guerra, e o domínio próprio fecha a retaguarda. O caráter cristão tem aqui a sua descrição mais bela, como uma tropa de graças militantes, cada uma das quais é passiva e tranquila. A MANSIDÃO é a graça peculiar do próprio Senhor: é a humildade que resiste passivamente ao mal. A ALEGRIA é uma graça que se torna virtude e deve ser cultivada como dever. Assim também a PAZ, que aqui inclui o oposto das rixas. A LONGANIMIDADE, ou o suportar tolerante das ofensas, eleva-se à brandura, ou BENIGNIDADE, e à BONDADE, que só pensa em obter e difundir o bem; e elas levam à FÉ geral em DEUS e no triunfo eterno da bondade, um triunfo que está assegurado. São Pedro apresenta as graças da religião que garantem contra a queda na luta com o pecado. A DILIGÊNCIA é o seu prefácio geral e o seu lema; a FÉ é a graça-mãe, como o é, em são Paulo, o AMOR pelo qual ela atua; o grande conflito tem como desfecho escapar da corrupção das paixões que há no mundo e tornar-se coparticipantes da natureza divina (2Pe 1.4). Aqui, porém, as graças são sete: VIRTUDE, ou energia divino-humana; CONHECIMENTO; DOMÍNIO PRÓPRIO; PACIÊNCIA, ou submissão com esperança; PIEDADE; FRATERNIDADE; AMOR (2Pe 1.5-7). Também este apóstolo procura inspirar a confiança de que agora falamos. Mas nenhum encorajamento é mais enfático que o de são Tiago: Portanto, deixando toda impureza e acúmulo de maldade, acolham com mansidão a palavra implantada em vocês (Tg 1.21): o mal é algo acrescentado que deve ser posto de lado, deixando a natureza na sua integridade; contudo, isso não é a natureza, mas a palavra implantada. A isso se deve acrescentar a sua descrição da sabedoria que desce do céu: a sabedoria lá do alto (Tg 3.17), em contraste com aquela que é terrena, animal e demoníaca (Tg 3.15).
Serviço cristão. Na ética cristã, o serviço de Deus guarda uma relação especial com Cristo, como nosso Senhor. Os deveres e as graças dessa relação são muitos e podem resumir-se sob estes vários títulos: devoção absorvente ao Senhor que é comum a todos nós; zelo abnegado pelo bem de todos os que são objeto da caridade dele, por amor dele; fidelidade ao que nos foi confiado e à nossa mordomia, em todos os seus ramos.
Devoção ao nosso Senhor. Não é preciso entrar com muita extensão neste amplo departamento da ética cristã, pois muito dele já foi apresentado, e muito ainda o será mais adiante, sob outros títulos.
I. Já se viu que a religião cristã tem esta grande característica: faz de Jesus, o DEUS-HOMEM, o Fim da vida humana. Também faz dele, em sentido especial, o Senhor e Mestre dessa vida, considerada como a esfera do nosso serviço a ele; e é desse princípio ético que agora temos de tratar.
Um só Senhor. 1. Esse princípio une todos os cristãos numa só causa comum. Na véspera da sua paixão, quando nosso Senhor deu um resumo final da sua vontade, afirmou o seu direito da maneira mais comovente: Vocês me chamam de Mestre e de Senhor e fazem bem, porque eu o sou (Jo 13.13). Mas essa relação não era só dos apóstolos: eles representavam toda a comunhão cristã, unida a um só Mestre e a um só Senhor em todas as suas condições, até os mais humildes, a quem são Paulo disse: É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo (Cl 3.24). O escravo a quem ele dirigiu essas palavras é agora liberto que pertence ao Senhor (1Co 7.22); e a condição de escravos em que viviam, em si mesma nada cristã, serviu para ilustrar aquela servidão a Cristo, absoluta e livre, que é a glória e a primeira lei de todo serviço cristão.
III, 218Em seu nome. 2. Por isso, esse princípio absorve todas as ações da vida. O dever do cristão é fazer tudo em nome do Senhor Jesus (Cl 3.17). Esta é a nova lei da provação humana, soberana e bendita, que tudo permeia: penetra até o menor detalhe e dá a cada ato um caráter de realidade, dignidade e alegria: Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor e não para as pessoas (Cl 3.23). Esse princípio ético da nossa religião dispensa outras ilustrações. É a lei, escrita ou não escrita, que reúne a ética cristã numa unidade. A sua sanção se reveste de todos os terrores do juízo. E a sua recompensa é a suprema aprovação do próprio Senhor, que ainda diz aos que, com perfeita lealdade e devoção ilimitada, o chamam de Senhor: fazem bem, EU SOU: καλῶς λέγετε, εἰμὶ γάρ (Jo 13.13).
Devoção ao homem. II. O padrão cristão de devoção aos interesses dos nossos semelhantes é mais elevado do que jamais ocorrera ao coração do homem conceber, até que Cristo veio. Exige de todos os seguidores de Cristo que aspirem à caridade do próprio Senhor e imitem o seu exemplo, fazendo da vida um sacrifício de si mesmos. Fora do cristianismo não se encontra padrão como este, embora em muitos sistemas éticos se possa perceber uma aspiração a ele, inconsciente e sem rumo. Quando nosso Senhor disse: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto (Jo 12.24), falava da sua própria glorificação por meio do perfeito sacrifício de si mesmo pelo homem. Mas nisso o servo deve ser como o seu Senhor, pois ele acrescentou: Se alguém me serve, siga-me (Jo 12.26). E, de novo, depois de ensaiar no lava-pés o grande sacrifício de si mesmo que faria no dia seguinte, impôs aos seus seguidores a imitação tanto do seu espírito como do seu ato: Eu lhes dei o exemplo, para que, como eu fiz, vocês façam também (Jo 13.15). A lei do serviço perfeito é, simples e puramente, a lei do SACRIFÍCIO DE SI MESMO, que, em união com o Redentor e à imitação dele, faz de toda a vida um ministério em favor da humanidade. Mas sobre esse princípio incidem algumas luzes laterais que o trazem para o alcance da possibilidade humana e mostram a sua coerência com todo o sistema da ética cristã. Consideremo-las brevemente.
III, 219O modo de pensar de Cristo. 1. Esse princípio é consequência necessária da união com Cristo e da consagração a ele. São Paulo antepõe à mais sublime exposição do supremo sacrifício de si mesmo estas palavras: Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus (Fp 2.5); e ali o φρονείσθω ἐν ὑμῖν ὃ καὶ ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ exprime com muita força o pensamento de que o sentimento do Redentor deve necessariamente, se nada o impedir, encher também os seus servos: que a ordem sobrenatural da graça siga o seu curso. Ao mesmo tempo, sugere que se trata de uma ASPIRAÇÃO a um ideal elevado, que não se alcança facilmente. Numa passagem notável, porém, ele avança muito na afirmação de que esse ideal pode ser alcançado: o amor de Cristo nos domina (2Co 5.14); ali o συνέχει parece um eco das palavras de paixão que o Mestre pronunciou antes da Paixão: como me angustio (Lc 12.50), πῶς συνέχομαι. É o sentimento sublime que a ninguém conhece segundo a carne (2Co 5.16), mas anseia pela salvação de todos os homens no profundo afeto de Cristo Jesus (Fp 1.8). Na ética do Novo Testamento, essa absoluta renúncia de si em favor da humanidade é, pelo menos, o ideal legítimo do espírito do serviço do cristão.
Vícios opostos. 2. É, porém, um padrão ético que pode ser mais bem estudado em conexão com as virtudes e os vícios que pertencem a este domínio. O ensino cristão denuncia o EGOÍSMO em todas as suas formas e o persegue, como nunca antes fora perseguido, através de todos os seus disfarces. Mas aqui o consideramos como um mal que pode apegar-se ao servo do Senhor. Como tal, ele é vencido pela CARIDADE, que abraça toda oportunidade de fazer o bem ao corpo e à alma dos homens e que se chama AMOR FRATERNAL quando se manifesta para com os da mesma família religiosa. Grande parte do último documento das Escrituras, a Primeira Epístola de são João, ocupa-se em inculcar essa graça, e isso sem distinguir cuidadosamente entre os seus objetos cristãos e os não cristãos. Aqui a HUMILDADE considera todo dom como vindo de Deus e pensa de si com sobriedade, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um (Rm 12.3). A SOBRIEDADE no espírito de quem trabalha para Cristo pode contrapor-se a toda INVEJA ou ciúme dos outros e a toda supervalorização da importância pessoal, ficando implícito que o Administrador dos dons não concede a ninguém mais do que uma pequena porção. Mas o que certamente se pretende é mostrar a necessidade de lembrar sempre quanto o bem dos outros, a edificação do Corpo e a salvação das almas são transcendentemente mais importantes do que a medida da contribuição de esforço de qualquer pessoa. Quem se lembra da obra sem limites que precisa ser feita no mundo não vai pensar de si mesmo além do que convém (Rm 12.3): o apóstolo que deu o preceito estava absorvido demais pela grandeza da caridade em que se empenhava para pensar em si mesmo, por um momento sequer. A INSENSIBILIDADE às necessidades dos homens, ou a apatia, ou a falta de zelo, não tem lugar no coração cristão. São Paulo queixa-se amargamente: Não tenho ninguém com esse mesmo sentimento e que se preocupe tão sinceramente por vocês. Todos os outros buscam os seus próprios interesses e não os de Jesus Cristo (Fp 2.20-21). O instinto natural dos que são consagrados ao Senhor os leva a cuidar de todos os que são dele, e de si mesmos só como incluídos entre eles. Em suma, a ética do Novo Testamento tende sempre, quer o alcance, quer não, ao ponto de uma caridade inteiramente desinteressada, tanto no amor ao próprio Deus como no amor ao próximo por amor de Deus.
III, 220Fidelidade. III. A fidelidade é a palavra de ordem de outro amplo departamento da ética do serviço cristão. É a graça que, no servo, o mostra digno da confiança do seu Senhor. Duas passagens, que abrem e encerram o ensino do Novo Testamento sobre o assunto, põem-na na sua verdadeira luz. Sobre o servo a quem se confia um encargo, nosso Senhor diz: Quem é, pois, o mordomo fiel e prudente, a quem o senhor deixará encarregado dos demais servos da casa? Bem-aventurado aquele servo! (Lc 12.42-43). O servo é um οἰκονόμος [mordomo], e o mordomo é um δοῦλος [servo]. São Paulo descreve o servo fiel como quem está dando prova de toda a boa fidelidade: πίστιν πᾶσαν ἀγαθήν (Tt 2.10) [N. do T.: a NAA traz “toda a fidelidade”]. A mesma palavra, πίστις, que exprime a nossa confiança na fidelidade de Deus exprime a confiança dele na nossa. É uma graça que se distingue por ser a única a receber o epíteto boa, e deve permear toda a vida. O verbo que faz a ponte entre fiel e fidelidade encontra-se nas palavras de são Paulo sobre a sua mordomia do evangelho, mas pode ser aplicado universalmente: οἰκονομίαν πεπίστευμαι, uma responsabilidade me foi confiada (1Co 9.17), ou foi-me confiada uma mordomia. Aqui estão, pois, todos os elementos da nossa ética: o Senhor confia um encargo, e o servo digno de confiança mostra fidelidade em todas as coisas. Pode-se acrescentar que a própria fé que confia em Deus é a força da fidelidade em que Deus pode confiar. Temos agora de acompanhar as aplicações desse princípio, dando sob cada uma alguns exemplos que representam muitos. Nenhum princípio ético é mais abrangente.
III, 2211. O servo de Cristo guarda a própria pessoa como algo que lhe foi confiado: Porque vocês foram Cuidado de si. comprados por preço. Agora, pois, glorifiquem a Deus no corpo de vocês (1Co 6.20), como instrumento unicamente do serviço dele. Somos, de modo especial, propriedade de Cristo: Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor (Rm 14.8). O CUIDADO DE SI faz parte da nossa mordomia, visto que as nossas próprias pessoas nos foram confiadas. Nisso deve fundar-se o dever de preservar a saúde, treinar o corpo até a sua máxima eficiência, cultivar todas as faculdades da mente e manter o homem inteiro no maior vigor possível: preparado para toda boa obra e útil ao seu senhor (2Tm 2.21). São Paulo inculca em Timóteo o devido cuidado tanto com a saúde espiritual como com a do corpo: quanto à primeira, Conserve-se puro (1Tm 5.22) é um princípio geral; quanto à segunda, Não beba somente água (1Tm 5.23) pode ser citado como uma indicação significativa. Talvez poucas aplicações do princípio da fidelidade sejam mais negligenciadas do que esta. Cada um de nós foi encarregado do seu espírito, da sua alma e do seu corpo, para educá-los até o mais alto grau de serviço, pelo maior tempo possível e no vigor mais perfeito possível.
Vocação. 2. A fidelidade estende-se a toda a vida, com referência especial à nossa vocação individual. Nada fica excluído da esfera desse dever. Todo o âmbito da vida deve ser governado por ele, e o verdadeiro cristão é o que são Paulo exorta as mulheres dos diáconos a serem: fiel em tudo (1Tm 3.11). Os cristãos são os fiéis, οἱ πιστοί, por serem crentes (At 10.45): uma só palavra abrange os dois sentidos. O seu selo final é o de serem chamados, eleitos e fiéis (Ap 17.14). Mas o dever liga-se, de modo muito geral, à vocação especial. A diferença aqui assinalada aparece em duas parábolas de nosso Senhor que são a chave de todas as suas muitas parábolas sobre esse assunto. Numa delas, ele chamou dez dos seus servos, confiou-lhes dez minas e disse-lhes: “Negociem até que eu volte” (Lc 19.13). Todos os seus servos têm um mesmo dom comum, a vida, para fazê-lo render. Na outra, a um deu cinco talentos, a outro deu dois e a outro deu um, de acordo com a capacidade de cada um deles (Mt 25.15). Em ambas, a prestação de contas é rigorosa; tanto as minas iguais como os talentos desiguais são confiados de modo especial; elas mostram, em certo sentido, que todos os servos têm uma vocação especial; e, contudo, parecem assinalar uma diferença entre o que é comum a todos e o que é próprio de cada um. Quanto aos ministérios e às vocações especiais, são Paulo diz: o que se requer destes encarregados é que cada um deles seja encontrado fiel (1Co 4.2); e de si mesmo testifica que Cristo Jesus me considerou fiel, designando-me para o ministério (1Tm 1.12). Dessa fidelidade, nosso próprio Senhor é o modelo supremo: Por isso, santos irmãos, vocês que são participantes da vocação celestial, considerem atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, [Cristo] Jesus, o qual é fiel àquele que o constituiu (Hb 3.1-2). Mas esse exemplo glorioso torna a unir a vocação especial ao chamado geral da vida; pois todos devemos estar olhando firmemente para Jesus, o Autor e Consumador da fé (Hb 12.2), e da fidelidade à fé. Chegamos à mesma conclusão quando lembramos quão constante é a referência à fidelidade no uso das oportunidades especiais e das faculdades de ser útil, sobretudo da oportunidade que a posse de bens terrenos proporciona. Aqui a virtude da PRUDÊNCIA, ou sabedoria de administrador, alia-se à fidelidade: Quem é, pois, o mordomo fiel e prudente? (Lc 12.42). A parábola do administrador infiel, à parte o seu sentido mais geral, imprime a esse preceito uma força profunda: Usem a riqueza injusta para fazer amigos (Lc 16.9). Quem é fiel no pouco também é fiel no muito (Lc 16.10). Nenhum servo pode servir a dois senhores (Lc 16.13). Nestas últimas palavras temos a lei da fidelidade dada pelo Legislador cristão, no seu princípio mais alto e na sua aplicação mais humilde. É a referência suprema de todas as coisas a um só Senhor e a um só serviço; e é a observância prudente e fiel dessa lei no cuidado mais diligente e escrupuloso das menores ninharias da vida.
III, 222Prova. 3. A fidelidade, como a prova aplicada ao serviço, é guardada por ameaças e estimulada pela esperança da recompensa. É tanto um dever como uma virtude; e não há na ética obrigação mais estreitamente ligada à responsabilidade humana.
Sanções. (1.) Não é necessário deter-nos aqui na natureza do castigo reservado à infidelidade: temos de tratar apenas do caráter que nosso Senhor lhe imprimiu. Ele usa três termos que dão a este departamento da ética uma solenidade terrível: Servo MAU e PREGUIÇOSO! (Mt 25.26). Quanto ao servo INÚTIL, lancem-no para fora, nas trevas (Mt 25.30). Mau no coração, preguiçoso nos negócios do seu Senhor e inútil tanto para si mesmo como para o seu Senhor! O choro e ranger de dentes indicam, de modo terrível, que a pena é um pesar permanente, que não é outra coisa senão remorso sem esperança. O único abrandamento é a proporção da sentença: Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido (Lc 12.48). Nunca se deve esquecer que, de longe, a maior parte das referências ao juízo final faz dele a prova da fidelidade do servo, pelo menos no caso dos crentes cristãos.
III, 223Recompensas. (2.) As recompensas prometidas à fidelidade são apresentadas sob muitas luzes. Ela traz a sua própria recompensa na aprovação do Senhor, que não espera o fim para dizer: Muito bem, servo bom e fiel! (Mt 25.23). Essa será a bem-aventurança que coroa uma fidelidade perseverante: venha participar da alegria do seu senhor. Assim como a infidelidade é seguida da retirada do encargo confiado, a fidelidade o aumenta: você foi fiel no pouco, sobre o muito o colocarei (Mt 25.21). A mordomia fiel no estado de prova conduz a uma mordomia cuja provação terá cessado para sempre. Mas outro elemento da recompensa a traz de volta à vida presente: Já não chamo vocês de servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz; mas tenho chamado vocês de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes dei a conhecer (Jo 15.15). Os que no futuro entrarão na alegria do Senhor entram desde agora nos seus segredos e na sua confiança. O seu serviço é serviço de amizade, ao passo que a sua amizade é amizade de servos. Aqui está o segredo mais íntimo da nossa ética do serviço, que mais uma vez a fundamenta na união com Cristo. É isso, por fim, que explica como a recompensa é considerada como favor (Rm 4.4). Enquanto nós temos de dizer: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer (Lc 17.10), ele, na sua graça sem limites, dirá o contrário. Perdoando a negligência do nosso serviço e não se lembrando de quantas vezes deixamos de fazer o que nos foi ordenado, ele atribuirá a toda a nossa pobre fidelidade a virtude da sua própria fidelidade, e receberemos plena recompensa, μισθὸν πλήρη (2Jo 8).
Ética da piedade. O último ramo da ética especificamente cristã, resultado e consumação de todos os demais, que a todos permeia e a todos coroa, compreende os deveres, as virtudes e as graças que têm somente a DEUS por Objeto. Podem resumir-se numa só palavra, Piedade. Ela é o caráter cristão que se baseia na Consagração Inteira, se expressa no Culto de louvor e oração e resulta na União com Deus.
Devoção a Deus. A consagração a Deus é a oblação inteira do Eu ao Autor do nosso ser, segundo os termos da aliança da graça. Sendo esse o seu princípio, ela se evidencia na Devoção, ativa e passiva: devoção à vontade dos seus mandamentos e à vontade das suas determinações providenciais; isto é, Obediência e Submissão.
Consagração de si mesmo. Os princípios da entrega inteira de si mesmo já foram estabelecidos na doutrina da santificação. Aqui é necessário apenas fazer algumas observações sobre o seu alcance ético.
Ato nosso. 1. Ela é o começo, a força e a consumação de toda religião, enquanto serviço humano prestado a Deus. Como ato do homem, é negativa e positiva. É a renúncia absoluta à propriedade de si mesmo: qualquer um de vocês que não renuncia a tudo o que tem não pode ser meu discípulo (Lc 14.33). Será que vocês não sabem que… vocês não pertencem a vocês mesmos? Porque vocês foram comprados por preço (1Co 6.19-20). É a entrega absoluta de todo o ser a Deus: ofereçam a si mesmos a Deus (Rm 6.13). Essa entrega de si mesmo deve ser feita na força da graça da redenção, sendo a salvação do evangelho o seu argumento e a sua força: Portanto, pelas misericórdias de Deus, peço que ofereçam o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Este é o culto racional de vocês (Rm 12.1). Essas palavras resumem toda a doutrina. A religião, ou piedade, é o oferecimento habitual, consciente e nunca interrompido do espírito, da alma e do corpo ao serviço do Deus vivo, em toda a atividade da vida: o eu que entrega o próprio eu.
Submissão. 2. Essa consagração tem em vista uma Submissão universal, que é ativa e passiva. Como ativa, é a devoção do coração ao cumprimento de todos os mandamentos de Deus, enquanto estes constituem Obediência. a sua vontade única: isso é a Obediência, o primeiro dever da criatura para com o Criador como Governador moral, dever que abrange todos os outros. É uma obrigação expressa de muitas maneiras ao longo dos dois Testamentos, e literalmente absoluta, pois é o fundamento tanto da Lei como do evangelho, que é ele mesmo o anúncio da nova obediência da fé (Rm 16.26). Como passiva, é o dever e a graça do inteiro abandono de si mesmo a todas as determinações da providência divina, quer sejam aflitivas, quer sejam inescrutáveis. No Resignação. primeiro caso, é a RESIGNAÇÃO; no segundo, é a resignação unida à Aquiescência, ou submissão silenciosa à vontade de Deus.
O culto. O culto a Deus é a expressão mais alta do espírito religioso: oferece a Deus o tributo da criatura no Louvor, ou exprime a necessidade da criatura na Oração. Os dois podem ser considerados como distintos e como unidos no espírito e no hábito da devoção.
Louvor. I. Na linguagem da humanidade religiosa, muitos termos foram santificados para exprimir o tributo mais alto do espírito humano ao Supremo. Na Escritura Sagrada, esses termos são variados: exprimem o sentimento de Reverência, de onde brota todo culto; o ato de Adoração, que exalta em silêncio o Nome e as Perfeições divinas, e o de Louvor, que os exalta em voz alta; e a Ação de graças, que exprime gratidão pelas misericórdias de Deus.
Temor reverente. 1. A REVERÊNCIA é o dever e a graça supremos e eternos do espírito criado. É ao mesmo tempo a fonte e o resultado de toda piedade. As três passagens santo e tremendo é o seu nome! (Sl 111.9), santificado seja o teu nome! (Mt 6.9) e santifiquem a Cristo, como Senhor, no seu coração! (1Pe 3.15), quando combinadas, ensinam-nos primeiro quão tremendo é Deus em si mesmo; depois, que a vinda do seu reino é o reconhecimento universal da sua majestade; e, por fim, que essa reverência deve ser o sentimento mais íntimo do coração de cada um de nós. A reverência é temor temperado pelo amor. No Antigo Testamento predominava o temor; no Novo Testamento, o amor; mas o sentimento de reverência permeia toda religião, na terra e no céu. Seja como pavor sagrado, seja como temor amoroso, ela permanece sempre. Como espírito formado pela religião, ela é universal na sua influência. É o senso habitual da Presença de Deus que dá dignidade à vida e torna venerável o caráter de quem o cultiva. Estende-se a todas as coisas divinas, assim como ao próprio Nome de Deus: à sua Palavra, às suas ordenanças, ao mundo, o templo que ele criou, e a tudo o que é dele. Na sua Presença, mais particularmente, é TEMOR REVERENTE.
III, 226Louvor. 2. O LOUVOR propriamente dito é, na linguagem das Escrituras, Adoração ou Bênção. A Adoração, como indica a palavra (de os, a boca), é a prostração que, por assim dizer, beija o chão aos pés divinos. Representa todo ato em que o espírito de reverência se exprime. O termo hebraico שָׁחָה é usado às vezes, como o grego προσκυνεῖν, para indicar homenagem diante da criatura. Mas as palavras finais do Novo Testamento mostram a sua aplicação mais alta e a única verdadeira: recusando a prostração inferior do apóstolo, o anjo disse: Adore a Deus! (Ap 22.9). Mas a boca prostrada fala em Bênção e Louvor. Aleluia! Louvem o Senhor! (Sl 150.1; Ap 19.1) é, nos dois Testamentos, a mais exultante de todas as notas. O hebraico בָּרַךְ, bendizer, é muitas vezes traduzido por louvar. Esse termo, porém, como o de adoração, tem uma aplicação humana além da divina. Além disso, é amplo no seu alcance. Em você serão benditas todas as famílias da terra (Gn 12.3): esta é a Bênção de Deus ao homem, que em outra passagem se torna se bendirão (Gn 22.18) [N. do T.: a NAA traz “serão benditas”], ou se alegrarão diante de Deus. Por outro lado, o bendigam (ou louvem) todos os dias (Sl 72.15) é o retorno da bênção ao céu. Mas aqui é digno de nota que Cristo, na unidade do Pai, é o objeto desse louvor supremo. O termo Bendito, ou εὐλογητός, é usado no Novo Testamento somente para Deus e para Cristo. O Filho do Deus Bendito (Mc 14.61) é ele mesmo Deus bendito para sempre (Rm 9.5). Poderiam mencionar-se outros termos das Escrituras, variações dessas palavras e com referência às formas de louvor no culto público; mas não precisamos discuti-los em particular. A devoção cristã individual emprega uma variedade de expressões que não derivam necessariamente das Escrituras; e é um importante princípio de reverência que essas expressões se reservem sempre, exclusivamente, para os seus usos mais altos. Para resumir tudo: o espírito devoto oferece a Deus a ADORAÇÃO de uma criatura, a HOMENAGEM de um súdito ou servo, o LOUVOR de um adorador.
Ação de graças. 3. A AÇÃO DE GRAÇAS é um dever cuja graça é a GRATIDÃO. Essa obrigação da piedade é reconhecida pelo sentimento universal da humanidade; mas, como graça cristã, tem algumas peculiaridades benditas. É gratidão por todos os benefícios da providência divina e, de modo especial, pelos dons gerais e pessoais da redenção. O próprio termo mais usado o mostra: é Χάρις, que é a Graça de Deus em Cristo, operando como princípio na alma do crente e voltando a ele em gratidão: Graças a Deus pelo seu dom indescritível! (2Co 9.15). A gratidão ética do cristianismo liga toda boa dádiva e todo dom perfeito ao Dom de Cristo. Além disso, é uma ação de graças que, na economia cristã, e somente nela, reverte para Deus por todas as coisas: Em tudo, deem graças (1Ts 5.18). Essa característica decorre da anterior. A alegria que temos no Senhor e a eterna consolação que possuímos nele fazem de toda variedade possível de dispensação divina um sinal do seu favor. O privilégio cristão é encontrar motivo de gratidão em todas as coisas: porque esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus.
III, 227Oração. II. A ORAÇÃO é, como o amor fraternal, um dever em cujas obrigações todos os homens são, por assim dizer, naturalmente θεοδίδακτοι, instruídos por Deus (1Ts 4.9). É a expressão da dependência do homem em relação a Deus em todas as coisas. Os seus fundamentos gerais já foram discutidos e serão considerados mais plenamente quando tratarmos dos meios de graça; aqui ela é vista apenas como pertencente à ética do caráter cristão, no seu espírito e nos seus atos.
Espírito de oração. 1. O que a reverência habitual é para o louvor, o senso habitual de dependência é para a oração. Nada menos que isso está expresso nas ordens de orar sempre (Lc 18.1) e de orar sem cessar (1Ts 5.17): se a primeira se refere antes à insistência no pedido, a segunda inculca o dever de esperar em Deus continuamente, de modo consciente ou inconsciente. As duas se unem nas palavras: orando em todo tempo… com todo tipo de oração e súplica (Ef 6.18). Mais particularmente, o espírito de oração depende de três elementos. Primeiro, o hábito arraigado de ligar mentalmente ao Supremo cada ação da vida, pois nele vivemos, nos movemos e existimos (At 17.28). Segundo, a consciência permanente da dependência do Mediador, por cuja constante defesa, como nosso Advogado, se sustenta a nossa vida espiritual. E, por último, a presença em nosso coração do Espírito de adoção, que intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Rm 8.26). Aqui está o segredo profundo do espírito de oração. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus (Rm 8.27). O φρόνημα τοῦ Πνεύματος é, segundo Deus, o que a inclinação da carne, φρόνημα τῆς σαρκός (Rm 8.7), é segundo a natureza caída: o movimento habitual do impulso inexprimível. A intercessão do Espírito, com gemidos, por trás do véu do coração corresponde exatamente à intercessão do Sumo Sacerdote por trás do véu do céu; e ambas são sem intervalo nem descanso. Daí que o dever da PERSEVERANÇA na devoção se refira à insistência nos pedidos particulares e ao perseverar insistentemente na oração (Rm 12.12) [N. do T.: a NAA traz “perseverem na oração”]: insistentemente corresponde ao primeiro aspecto; perseverar, ao segundo. Unir os dois é a perfeição.
III, 228Atos de oração. 2. Os atos formais de oração são muitos; exprimem-se por vários termos comuns aos dois Testamentos e combinam o espírito e o ato. A palavra principal, προσευχή, é um deles. É sempre oração a Deus, e isso sem limitação. Quando são Paulo exorta: em tudo, sejam conhecidos diante de Deus os pedidos de vocês, pela oração e pela súplica, com ações de graças (Fp 4.6), distingue dessa ORAÇÃO geral a δέησις, ou SÚPLICA por benefícios individuais. É a diferença entre oração e petição. Os PEDIDOS da súplica, αἰτήματα, simplesmente exprimem a individualidade da oração: a súplica assinala a nossa necessidade (δεῖ), e o pedido é a expressão dessa necessidade. Quando o nosso Salvador disse: Naquele dia vocês não me perguntarão nada, usou outro termo, que, no caso dos discípulos, significa a interrogação da perplexidade: ali é ἐρωτᾶν, que é trocado por αἰτεῖν no que segue: Em verdade, em verdade lhes digo: se pedirem ao Pai alguma coisa em meu nome, ele lhes concederá (Jo 16.23). A primeira palavra é usada para a oração do próprio Senhor, nunca a segunda; por isso, a primeira tem em si mais familiaridade e nunca é usada para a oração humana. Salvo, na verdade, numa passagem, que nos leva à Intercessão. oração de INTERCESSÃO. São João troca αἰτήσει por ἐρωτήση a respeito do pecado que leva à morte: por esse não digo que se deva rogar (1Jo 5.16) [N. do T.: a NAA traz “pedir”, o mesmo verbo do começo do versículo]. A respeito de qualquer outro pecado, podemos pedir com confiança; mas, a respeito deste, devemos deixar o ἐρωτᾶν a Cristo. A oração intercessória não tem um termo que exprima a ideia precisa que fazemos dela. A exortação é, em geral, à súplica por todos os santos (Ef 6.18) e em favor de todas as pessoas (1Tm 2.1), segundo o exemplo da intercessão do Senhor. Na passagem dirigida a Timóteo, são Paulo usa uma única vez a palavra ἐντεύξεις, intercessões, que, porém, significa orações familiares e confiantes, pois vem da palavra ἐντυγχάνειν, literalmente encontrar-se com uma pessoa e entrar em conversa familiar com ela. Na força da intercessão de Cristo, também nós recebemos ordem de interceder, isto é, de falar com confiança a Deus em favor de outros, salvo, na verdade, com a única reserva mencionada acima. A oração intercessória deve misturar-se a todas as nossas súplicas, como o Senhor ensina na única ordem que dá a respeito da Oração particular. oração particular: entre no seu quarto (Mt 6.6), quando o seu Pai, que vê em secreto, deve ser invocado como Pai nosso! (Mt 6.9), e a súplica individual não se perde na oração comum, mas se mistura com ela. Fechada a porta: eis a ordem solene do Mediador quanto aos exercícios particulares de devoção, formais, habituais e regulares, que confirma as ordens e os exemplos de toda a Escritura. Mas a alma devota pode, em qualquer lugar, fechar as portas dos sentidos e mergulhar na presença de Deus, adorando ali com todo o efeito do recolhimento num lugar retirado e, Jaculatória. pela oração JACULATÓRIA, mantendo comunhão habitual com aquele que faz do coração do regenerado o seu templo.
III, 229O culto. III. A perfeição desses ofícios supremos da devoção só se vê na sua combinação. Unidos, constituem o Culto, no que diz respeito a Deus; no que diz respeito ao homem, o espírito de devoção; e, no seu efeito sobre a vida religiosa, um reage constantemente sobre o outro, para a perfeição gradual de ambos.
Quanto a Deus. 1. O culto divino, como conjunto dos ofícios mais altos da religião, abrange os dois elementos: a apresentação a Deus do tributo que lhe é devido e a súplica dos seus benefícios. Na primeira e única descrição desse culto que o próprio Senhor deu, contida na sua conversa com a mulher samaritana, ele usou repetidas vezes uma só e única palavra, προσκυνεῖν, para exprimir todo o serviço de Deus: sobretudo a adoração, mas incluindo todos os σεβάσματα, ou devoções, do adorador, como são Paulo os chama numa única passagem (At 17.23) [N. do T.: a NAA traz “objetos de culto”]. Daí o pleno sentido da expressão COMUNHÃO COM DEUS, como um dar e receber (Fp 4.15). A palavra Hosana, que passa do Antigo para o Novo Testamento, combina oração e louvor: Hosana [salva agora!] ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! (Mt 21.9).
Espírito de devoção. 2. O espírito de devoção no adorador é uma mistura de louvor e oração. Em grande parte, as duas coisas não se distinguem. A linguagem devocional das Escrituras ilustra isso de modo notável. Buscar o Senhor em oração e esperar nele em silêncio reverente parecem significar a mesma coisa. O Senhor é bom para os que esperam nele, para aqueles que o buscam (Lm 3.25): o buscar ativo deve ser acompanhado e moderado pelo esperar passivo. Embora haja poucos preceitos positivos sobre o assunto, é obviamente tendência da religião revelada, do começo ao fim, inculcar um serviço que una a contemplação e o hábito meditativo a toda oração. As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença! (Sl 19.14). Meditação. A MEDITAÇÃO é a reflexão silenciosa da alma sobre as coisas divinas por meio da Palavra, a consideração devota de alguma verdade, revelação ou promessa particular: precedendo, acompanhando e seguindo toda Contemplação. oração, ela é a força e a melhor graça da devoção. A CONTEMPLAÇÃO é a mesma postura da mente devota, mas com referência exclusiva ao próprio Deus. Exprime o mais alto anseio da alma: contemplar o Supremo, em antecipação da Visão eterna. Na ética devocional do misticismo, insiste-se muito nas diferenças entre os dois estágios, a meditação e a contemplação; e o segundo é considerado a meta final de toda devoção: o estado de desprendimento de toda criatura e a pura visão de Deus somente, como o único Ser. Nem a Escritura desencoraja essa santa ambição; a sua salvaguarda, porém, é esta: que toda contemplação esteja unida à oração. O erro do falso misticismo é crer que a alma pode ser elevada a um estado em que todo afeto do coração se aquieta e toda emoção se perde na visão fixa e imutável daquele em quem se esquece todo desejo de bem-aventurança pessoal.
União com Deus. Assim como a consumação de todos os deveres éticos é o culto a Deus, o fim de todo culto é a união com ele. Para esse resultado gloriosíssimo convergem todas as revelações das Escrituras. É o fim de todo ensino e o selo de toda perfeição. A oração do nosso Senhor pelo seu povo faz disso a meta da aspiração cristã: a fim de que todos sejam um. E como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles estejam em nós (Jo 17.21). Mas a união com Deus, como todas as demais relações com o Supremo, só se alcança no Mediador e por meio dele: eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade (Jo 17.23). Algumas observações sobre este, que é o seu fim e alvo supremo, podem encerrar o ramo da ética pessoal, quer dos deveres, quer das graças.
III, 231O perfeito oposto do pecado. 1. A união com Deus é a realização do único objetivo da economia redentora. É o oposto perfeito e diametral do pecado, que é, na sua essência, separação do centro supremo da vida espiritual. O pecado é a violação do dever, a ausência da virtude, a perda do summum Bonum [bem supremo] da bem-aventurança; nada menos que a união com Deus é a restauração perfeita ao dever, a consumação da virtude e a bem-aventurança mais alta e mais plena. Toda visão da moral cristã que leve o seu olhar a qualquer ponto aquém disso é necessariamente deficiente.
Erro e verdade desta união. 2. Um medo doentio do misticismo tem impedido que se aprecie esta verdade. A união com Deus foi, sem dúvida, a palavra de ordem de alguns dos mais sublimes sistemas de ética baseados em doutrina errônea. O budismo, no Oriente, e o misticismo panteísta, no Ocidente, são exemplos: no que diz respeito à ética pessoal, o cristianismo não lhes pode achar falta senão a de uma profunda deficiência. Mas o seu fim não foi como o seu começo. Ambos resultaram nas mais profundas trevas do erro: no Oriente, o abismo da extinção absoluta, ou Nirvana; no Ocidente, o abismo pior da indiferença antinomista às distinções morais. Mas a União de que falamos é uma união que preserva inviolada a identidade pessoal de quem a alcança: ele se torna UM COM DEUS em pensamento, sentimento e vontade, recaindo a ênfase sobre a VONTADE.
Corporativa. 3. Mas as palavras do nosso Senhor se detêm naquela unidade com a Fonte Suprema da vida que deve ser desfrutada por uma comunhão corporativa de santos. Nunca se meditará o bastante no fato de que as últimas e mais altas palavras, seja do nosso Senhor, seja dos seus apóstolos são Paulo e são João, falam de um Corpo que é um só na comunhão da Santíssima Trindade, e de tal modo um só que o indivíduo, embora não se perca, nunca mais é lembrado como tal. Isso nos leva adiante, à próxima seção.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 192-231, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.