W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O ministério mediador

A encarnação e a humilhação

II, 140O PROCESSO DA OBRA MEDIADORA.

A história do Mediador. Entre a Pessoa de Cristo e a Obra Consumada da Redenção, é preciso intercalar o processo do ministério mediador. O Novo Testamento é uma história da missão do Redentor, transmitida em parte por fatos e em parte por um comentário sobre esses fatos. Parte da encarnação como base do todo; acompanha o avanço do Cristo através dos seus dois estados, de humilhação e de exaltação; descreve como ele assume a sua obra mediadora e como cumpre as funções dos três ofícios dessa obra: Profeta, Sacerdote e Rei. Depois de considerar esses temas na sua ordem, convirá concluir com uma revisão da nossa doutrina sobre a unidade da Pessoa de Cristo em todos os seus estados, ofícios e obra, tal como se mostra na variedade de nomes que a Escritura e a teologia lhe atribuem. Isso servirá de preparação para a doutrina da Expiação.

A vida de Jesus. Não há método de estudar a teologia da redenção que seja ao mesmo tempo tão interessante e tão eficaz quanto aquele que a liga às etapas sucessivas da história de nosso Senhor. Isso não exige, porém, a apresentação daquilo que se costuma chamar A VIDA DE JESUS. A literatura moderna está repleta de tentativas de retratar a Vida que está acima de toda vida: uma trajetória vivida em condições que necessariamente tornam a tentativa malograda. Mas a essas tentativas podemos aplicar, em outro sentido, a antiga apóstrofe: quem declarará a sua geração? (Is 53.8) [N. do T.: a NAA traz “e de sua linhagem, quem se preocupou com ela?”]; e também as palavras do apóstolo: ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus (1Co 2.11). Só o Espírito Santo é, ou deve ser, o Relator dessa história. E ele a deu, como lhe aprouve, na sua perfeição própria, inatingível e sem mácula. É verdade que o esforço de apresentar o Santo Caráter foi feito em algumas obras de edificação que preservaram o espírito de reverência, procurando retratar o Redentor ao mesmo tempo como Salvador e como exemplo. Mas muitas vezes foi o incrédulo quem empreendeu a tarefa; e as réplicas que ele provocou, com o mesmo título, às vezes caíram nos erros contra os quais protestam. Há, contudo, uma revisão histórica da trajetória do Salvador que pode servir de base a todo o sistema da teologia evangélica. A vida de nosso Senhor foi a manifestação da sua Pessoa e da sua obra, iniciada aqui embaixo e continuada lá no alto; e, lembrando que Atos, as Epístolas e o Apocalipse complementam os Evangelhos, assim como o Antigo Testamento é o prefácio deles, prosseguiremos o nosso estudo do ministério mediador em estreita ligação com as etapas e os processos da história do Senhor na terra e no céu, antes da plenitude do tempo, nela e depois dela.

II, 141A ENCARNAÇÃO.

A encarnação. O mistério da encarnação ocupa um lugar próprio e solitário na teologia. Já se viu que, na plenitude do tempo, o Filho eterno assumiu a natureza humana, concebida pelo Espírito Santo; que o mistério é revelado como fato e definido por uma variedade de expressões que o deixam ainda um mistério: nenhuma teoria consegue explicá-lo. Agora nos ocupamos da sua relação com toda a obra de Cristo, relação que é fundamental e de tal natureza que faz da encarnação a base de todos os outros atos, sem a pôr no mesmo plano de nenhum deles: verdade, porém, que precisa ser formulada e resguardada com cuidado. A encarnação, como fundamento do ministério redentor de nosso Senhor, com todos os seus ofícios, é perpétua e imutável e, portanto, comum aos dois estados de humilhação e de exaltação.

A ENCARNAÇÃO, UMA CONDESCENDÊNCIA PERMANENTE.

Permanente. É infinita condescendência do Filho de Deus, e glória do homem, que a união das duas naturezas em Cristo seja permanente. Ele se fez homem uma vez por todas: a nossa humanidade é uma veste que ele não dobrará nem porá de lado. EMANUEL é o seu nome para sempre. Sendo assim, dificilmente é correto falar do vínculo de nosso Senhor com a nossa raça como parte da sua humilhação mediadora: se o fosse, a sua humilhação nunca terminaria. É verdade que o efeito da sua condescendência nunca cessará. Ele será um com a humanidade por toda a eternidade: como que expressamente para declarar isso, para mantê-lo na mente do seu povo e evitar equívocos, ficou registrada aquela frase singular e profunda: então o próprio Filho também estará sujeito, ou se sujeitará (1Co 15.28). A sua união conosco, que é o mesmo que o seu reino ou o seu tabernáculo conosco, não terá fim. Só o conhecemos como Emanuel. Toda referência, ou quase toda, ao seu estado preexistente o liga ao homem como o Cabeça predestinado do homem. Certamente todas as alusões do próprio Senhor fazem isso. Que a sua última palavra valha por todas: a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo (Jo 17.5); aí o “eu” daquele que ora, dirigindo-se ao Pai e não ao homem, é o “eu” encarnado, como que transposto e elevado à eternidade. É verdade que a exinanição, ou esvaziamento, que são Paulo atribui ao Filho quando ainda existia na forma de Deus (Fp 2.6) precedeu a encarnação no conselho divino. Mas essa renúncia à manifestação da sua glória foi apenas um propósito até a descida efetiva; e não deve ser incluída na humilhação messiânica que se seguiu na terra. Os estados de humilhação e de exaltação pertencem à Pessoa encarnada enquanto ela é o Cristo, e no mundo das coisas humanas. Como o Filho eterno, junto do Pai (Jo 1.18), ele não podia ser rebaixado, embora pudesse ser esvaziado da sua glória. Há uma distinção entre os atos de condescendência divina e os atos de humilhação divino-humana: reconhecido em figura humana, o Senhor podia humilhar-se (Fp 2.7-8); mas não antes. Pertence à liberdade do Ser divino poder, em certo sentido, limitar-se a si mesmo, se quiser: por exemplo, o Deus triúno se torna o Autor de um universo que não existia antes que a sua vontade o acrescentasse à sua automanifestação; e condescende em manter relações específicas com a criatura, embora ele mesmo seja o Deus absoluto. Mas nessa condescendência não há humilhação. Assim também, embora a analogia seja imperfeita, uma Pessoa da Divindade, em quem foram criadas todas as coisas (Cl 1.16), podia condescender, e condescendeu, em unir-se à sua criatura. Por isso, a assunção da nossa NATUREZA humana como tal não é da essência da sua humilhação: foi a assunção literal da CARNE, na concepção miraculosa, que acrescentou o elemento do rebaixamento de si mesmo.

II, 143A BASE FUNDAMENTAL DA OBRA REDENTORA.

A encarnação é fundamental. A encarnação não é tanto uma das etapas ou dos atos da história do Redentor quanto a base necessária de todos eles. Por encarnação entende-se aqui não o ato literal de tomar a nossa carne, mas aquela união com a nossa natureza à qual a Escritura não dá nome. Também a verdade sobre este assunto pode ser enunciada em duas proposições. A assunção da nossa humanidade por uma Pessoa divina foi a realização do propósito da salvação; foi também o meio ordenado a essa salvação. As duas coisas são inseparáveis.

O fim virtualmente alcançado. 1. Quando o Filho de Deus se fez homem, a raça humana foi declarada uma raça salva. As antigas predições sobre a sua vinda na carne sempre anunciaram essa vinda como a de um Redentor e Libertador que já havia salvado o mundo em propósito e em efeito. O primeiro evangelho declarou que o Descendente da mulher feriria a cabeça da Serpente. Todo o teor dos Salmos e das Profecias prediz a vinda de Alguém cuja vinda era libertação; assim diz o grande Cumprimento: visitou e redimiu o seu povo (Lc 1.68). A profecia mais clara e enfática do nascimento de Jesus une numa só frase um menino nos nasceu e o seu nome será: “Deus Forte”, “Príncipe da Paz” (Is 9.6). O primeiro nome de Jesus no Novo Testamento é Emanuel, Deus conosco (Mt 1.23). O cântico dos anjos anuncia um Salvador cuja vinda é o penhor de uma salvação consumada. Para dizer tudo numa palavra, a encarnação de Cristo nunca é considerada uma etapa de uma obra ainda por realizar, por mais verdadeiro que isso possa ser em certo sentido. Certamente não há indício algum de incerteza ou de contingência quanto ao desfecho: o assim deve acontecer (Mt 26.54) reina sobre toda a missão que empreendeu aquele que veio voluntariamente na carne.

Meio para um fim. 2. Mas a outra proposição não é menos verdadeira: a encarnação foi um meio para um fim. Embora os primeiros anúncios se detenham antes na realização do propósito divino no dom do seu Filho, encontramos, à medida que a história de Cristo avança, indicações cada vez mais claras de que o Salvador entrou no corpo preparado para ele a fim de consumar a reconciliação por meio de uma morte expiatória. Aquele que era o Mediador na sua Pessoa encarnada, exibindo em si mesmo a união de Deus e da humanidade, devia ser também o Mediador na sua obra sacrificial, efetuando ou realizando essa união ideal. O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20.28). Por isso, quando chegamos às Epístolas, vemos que a encarnação está sempre estreitamente ligada a um propósito expiatório: em geral, é verdade, não como uma etapa rumo à Expiação, mas como essencialmente ligada a ela. JESUS não é o Salvador perfeito enquanto não se torna CRISTO. Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei (Gl 4.4-5). Nosso Senhor é o nosso Representante: visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também Jesus, igualmente, participou dessas coisas, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte (Hb 2.14). Essa passagem, com todo o seu contexto, mostra de modo impressionante que a encarnação foi o caminho para a cruz. Usam-se três termos, cada um de grande importância. Era para abolir a morte, tirando o poder ao representante e senhor dela, a saber, o diabo. Isso, porém, exigia que ele tomasse a nossa carne, para que provasse a morte por todos (Hb 2.9) e assim livrasse todos os que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida (Hb 2.15): libertação realizada pelo seu sacrifício de reconciliação, como provam suficientemente as palavras ἀπαλλάξῃ e ἔνοχοι. Só como homem ele podia ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus, para fazer propiciação pelos pecados do povo, εἰς τὸ ἱλάσκεσθαι (Hb 2.17). Para alcançar esses resultados (a destruição da morte, a reconciliação dos culpados sujeitos à morte e a propiciação necessária a uma e a outra), ele toma a descendência de Abraão (Hb 2.16) [N. do T.: a NAA traz “não socorre anjos, mas socorre a descendência de Abraão”]: toma para si, ἐπιλαμβάνεται, não anjos, mas homens; a humanidade, porém, é vista aqui como a igreja da humanidade que é salva, ou os abençoados com o crente Abraão (Gl 3.9), e o descendente de Abraão, meu amigo (Is 41.8). Mas foi para provar a morte ὑπὲρ παντός [por todos].

II, 144Erros. 3. Uma atenção cuidadosa à linguagem da Escritura nos ajudará a evitar alguns erros correntes: de um lado, o daqueles que consideram a assunção da carne por nosso Salvador o seu primeiro passo num experimento de salvação humana, traduzindo o brado final por Está decidido, em vez de Está consumado (Jo 19.30); de outro, o daqueles que fazem da própria encarnação a concessão da salvação à humanidade, sendo a morte do Salvador necessária principalmente pela sua influência moral como exemplo; e, por fim, o de muitos que, com base em princípios sacramentais, dão à encarnação de nosso Senhor uma preponderância indevida e consideram a extensão dessa encarnação na vida dos crentes como a essência (como a fonte, o processo e o fim) da vida cristã. Esses erros são apenas mencionados aqui: voltaremos a encontrá-los.

II, 145A ENCARNAÇÃO NA ESCRITURA.

Alusões bíblicas. As referências bíblicas à encarnação são relativamente poucas; mas referem-se a ela como um mistério que, mais do que qualquer outro, estivera oculto à mente humana. No Antigo Testamento, ela é objeto de uma profecia obscura e misteriosa que só o Cumprimento explicou. No Novo Testamento, é registrada historicamente por dois dos evangelistas; e, pressuposto o registro deles, é depois exposta teologicamente numa variedade considerável de expressões que podem ser estudadas e classificadas com proveito. Como estas, porém, já foram consideradas na Pessoa de Cristo, bastará referir-se a elas de modo muito geral.

Profecia e cumprimento. I. A encarnação do Filho de Deus, o fato supremo da história humana, que traz a geração eterna para um nascimento humano no tempo, foi um acontecimento que o Espírito de profecia nunca revelou antes que se desse. Não há no Antigo Testamento uma só palavra que tenha declarado claramente que Deus se faria Homem. Por outro lado, não há acontecimento registrado no Novo Testamento que seja anunciado de modo mais expresso e mais variado como o cumprimento de antigos oráculos.

1. Esse paradoxo resolve-se em parte pelo exame das próprias predições que anunciam de antemão a vinda de um Descendente divino nascido NÃO DA VONTADE DO HOMEM, MAS DE DEUS (Jo 1.13). Só a plenitude do tempo (Gl 4.4), e era a plenitude do tempo justamente porque esse era o seu grande segredo, declarou por que se disse, não do descendente de Adão, mas do descendente de Eva: Este lhe ferirá a cabeça (Gn 3.15); e agora sabemos que a encarnação foi o primeiro acento da profecia. Muitas predições posteriores falaram do Descendente de Abraão e de Davi; mas o Novo Testamento explica que a linhagem de Abraão e de Davi forneceu apenas a mãe humana de nosso Senhor. Isaías, que lança uma luz tão clara sobre o fim terreno do Messias, lança uma luz igualmente clara sobre o seu começo terreno: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel (Is 7.14). Também esse oráculo velava o seu próprio sentido. Certa ambiguidade do termo עַלְמָה sempre foi torcida pelos judeus para suprimir a verdade, como faz Kimchi: “non est virgo sed puella. Puella vero hæc uxor prophetæ, vel uxor Achazi, quod probabilius videtur” [não é virgem, mas moça. E essa moça é a mulher do profeta, ou a mulher de Acaz, o que parece mais provável]. Nunca se imputou aos inimigos de Cristo o terem entendido mal esta e algumas outras passagens, como: um menino nos nasceu, um filho se nos deu (Is 9.6), e o testemunho do Servo do Senhor sobre si mesmo: O Senhor me chamou desde o meu nascimento, desde o ventre de minha mãe fez menção do meu nome (Is 49.1). Mas todas elas são explicadas no Novo Testamento, com a máxima exatidão, como referentes à encarnação do Filho de Deus.

II, 146Teofanias. 2. Outra solução pode ser encontrada no fato de que a revelação antiga estava permeada de certo pressentimento da aparição de Deus em forma humana. As primeiras teofanias, ou manifestações do Supremo, deram-se à semelhança de homens. O Anjo de Jeová, ou o Anjo da Face, tinha, por assim dizer, a forma do Filho do Homem. O estilo antropomórfico geral do Antigo Testamento era uma perpétua profecia indireta da encarnação. O mesmo Jeová que constantemente proibia que se fizesse qualquer imagem de si mesmo, não viram aparência nenhuma; só escutaram a voz (Dt 4.12), ordenava, no entanto, ao seu povo que buscasse a sua face (Sl 105.4) [N. do T.: a NAA traz “busquem continuamente a sua presença”]. A SABEDORIA dos Provérbios é descrita de tal modo que sugere a futura revelação de um Representante pessoal da Divindade que habitaria, por algo mais que uma simples influência divina, junto aos filhos dos homens (Pv 8.31). O supremo SERVO DE JEOVÁ, em Isaías, é praticamente declarado Jeová em forma humana. É certo que o judaísmo posterior, de modo confuso, foi tateando o caminho em direção a essa verdade, interpretando mal esses indícios e os símbolos a que estavam ligados. Sem nos determos nisso, o leitor cristão do Antigo Testamento (e só ao leitor cristão ele entrega o seu verdadeiro ensino) sente por toda parte que o tempo está em dores de parto de um segredo prestes a ser revelado: EMANUEL, DEUS CONOSCO (Mt 1.23). Isso, porém, não deve ser levado longe demais. Quando o Sol nascente raiou, o mundo não estava preparado para compreendê-lo. São Paulo dá o seu testemunho numa passagem notável, que olha para os dois lados: Deus, que disse: “Das trevas resplandeça a luz”, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de [Jesus] Cristo (2Co 4.6). Essa é a Face, ou Presença divina, que brilha antecipadamente por toda parte no Antigo Testamento; mas a sua revelação no Novo é, por assim dizer, luz que surge nas trevas.

II, 147Tradições. 3. Há algumas passagens da Escritura que sugerem a pergunta de até que ponto as tradições não corrigidas dos homens, pervertendo a promessa original, esperavam um Deus encarnado como o Desejado de todas as nações (Ag 2.7) [N. do T.: a NAA traz “as coisas preciosas de todas as nações”], ou esperavam que os deuses, em forma de homens, descessem até nós (At 14.11). Não se pode duvidar de que nenhuma ideia é mais universal na mitologia do que a da união da divindade com a humanidade: seja pela apoteose do homem, que sobe à comunhão dos deuses, seja pela descida de seres divinos à terra. A ciência da teologia comparada é capaz de aduzir provas, de todas as partes do mundo e de todas as épocas, de que existiu entre os homens um vago pressentimento da encarnação; mas, de modo geral, estranhamente misturado com a noção de metempsicose e de transmigração. Entre os egípcios, o meio eram os animais, mais do que o homem. A mitologia dos hindus apresenta uma variedade sem limites de encarnações, ou avatares; uma delas, a de Krishna, representa a divindade como um homem que fere a cabeça de uma serpente, enquanto a serpente lhe morde o calcanhar. O budismo baseou-se numa evolução panteísta do Infinito no finito, cujo objetivo era destruir a religião sacrificial e reconduzir o espírito ao seu abismo original. O lamaísmo, no Tibete, acrescentou a ideia de encarnações hereditárias. As metamorfoses clássicas apresentaram a noção na sua forma mais degradada, embora o nome dado a Júpiter, Ζεὺς καταβάτης [Zeus que desce], preserve a verdade que estava por trás da perversão. A mitologia escandinava tem as suas muitas variações sobre o mesmo pensamento. E também as religiões americanas, especialmente a do México, que contém tradições inconfundíveis de uma encarnação do deus supremo por meio de uma mãe humana. O estudo atento de todas essas fantasias do paganismo, e de inúmeras outras, imporá à mente a convicção de que a promessa original do Descendente da mulher se havia difundido entre todas as nações, respondendo ao instinto profundo da humanidade, que anseia pela comunhão com um Deus pessoal, mas entregue aos seus tateios desordenados até a plenitude do tempo.

No Novo Testamento. II. A encarnação, como fato consumado, foi a seu tempo registrada por dois escritores escolhidos, são Mateus e são Lucas, que, sob a direção do Espírito Santo, recolheram e tornaram permanente a tradição sagrada dos primeiros discípulos: um representando os judeus, o outro os gentios.

II, 148A narrativa. 1. A narrativa em si é a mais maravilhosa dos anais humanos. É dada em duas formas: por são Mateus, menos como relato histórico do que como demonstração do cumprimento da profecia; por são Lucas, como narrativa declarada do acontecimento fundamental da redenção humana. A crítica mais rigorosa é obrigada a admitir que os capítulos da encarnação têm exatamente a mesma autoridade que o restante dos livros em que aparecem. Nenhuma história da Escritura é mais clara e explícita do que a que narra a vinda miraculosa do Filho de Deus como Filho divinamente gerado de uma mãe humana. Podem-se levantar objeções superficiais contra as próprias narrativas, especialmente quando comparadas entre si; mas, para os que creem, em primeiro lugar, na encarnação e, em segundo lugar, na supervisão do Espírito sobre a preservação do seu registro, essas objeções desaparecem. São Mateus começa pela descendência abraâmica e davídica do Messias; e depois descreve o seu nascimento e a história da sua infância como o cumprimento de cinco profecias distintas do Antigo Testamento, omitindo muito do que um simples cronista teria incluído. Dá o registro público da descendência davídica de José, filho de Davi (Mt 1.20), cujos privilégios Jesus herdou; mas, quanto ao nascimento de Jesus de Maria, a linguagem muda de repente: τὸν ἄνδρα Μαρίας, ἐξ ἧς ἐγεννήθη Ἰησοῦς [o marido de Maria, da qual nasceu Jesus] (Mt 1.16), EMANUEL, Deus conosco. São Lucas adota um método novo e evangélico, todo seu, ao dar a genealogia. Ele a remonta por Eli, pai de Maria, através de todas as gerações dos homens, até o próprio Deus: devemos ler as suas palavras assim: sendo filho (conforme se pensava, de José) de Eli (Lc 3.23) [N. do T.: a NAA traz “Era, conforme se pensava, filho de José, filho de Eli”]; sendo o filho o neto, por meio de Maria. São Lucas faz de Maria o centro, e a encarnação é, para todo o mundo, a do Descendente da mulher. São Mateus faz de José o centro, e a encarnação é a do Filho de Davi, o Cristo. Não é preciso entrar aqui nos pormenores da harmonização. Basta dizer que os dois registros podem ser entrelaçados numa só história contínua da vinda sobrenatural, da concepção e do nascimento do Filho de Deus na humanidade. E essa história registra um acontecimento que, no seu caráter essencial, jamais havia entrado na mente do homem.

II, 149O silêncio posterior. 2. É notável que, depois dessa narrativa tão plena e explícita, nunca mais se aluda, nem uma só vez, ao mistério da concepção miraculosa pela qual Deus se encarnou. Mas ele é sempre pressuposto, e de tantas maneiras que isso confirma a verdade do registro que o silêncio posterior do Novo Testamento supostamente contradiz. De fato, o decoro da Escritura trata esse Milagre supremo com uma dignidade reservada que nos serve de lei: são abundantes as provas da morte, da ressurreição e até da divindade do Redentor, mas a sua geração na carne do homem é deixada para que Deus a vindique. Provas diretas, estamos proibidos de buscá-las; as indiretas abundam por toda parte nos próprios Evangelhos. Porque para Deus não há nada impossível (Lc 1.37): esta única palavra deveria bastar como resposta a todas as objeções preliminares possíveis que os sentidos ou a razão possam levantar. Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração (Lc 2.19): esta frase lança luz sobre muito do que se segue. A bem-aventurada mãe de nosso Senhor foi a guardiã humana do mistério, e ela não partiu antes que a luz do Pentecostes confirmasse o seu testemunho; embora caia sobre o que ela comunicou um véu que não devemos penetrar. Fazia parte da humildade de nosso Senhor suportar o opróbrio que nasceu do paradoxo do seu nascimento humano: a sua cruz começou na sua concepção, e a sua mãe a carregou com ele, com a espada a atravessar também a alma dela (Lc 2.35), tanto no princípio como no fim. Esse opróbrio ele tem suportado até hoje, da parte de gentios e de judeus; mas a reverência nos proíbe examiná-lo mais a fundo. Além disso, o silêncio de nosso Senhor e dos seus discípulos quanto ao fato pode ser explicado pelo princípio geral de que a divindade do Redentor devia ser demonstrada de modo independente, e esta, por sua vez, demonstraria o seu nascimento divino. Por fim, a prova suprema da concepção humana ficou reservada até que ela se completasse na ressurreição, nascimento dentre os mortos ao qual são Paulo liga a antiga palavra: Você é meu Filho; hoje eu gerei você (At 13.33). A Pessoa e a Obra do Filho encarnado foram ambas consumadas então: ele foi, enfim, perfeitamente ressuscitado e gerado na nossa natureza. Enquanto isso, fosse o que fosse que os seus discípulos soubessem, o próprio Jesus sempre falou e agiu como quem, nascido de mulher (Gl 4.4), sabia que Deus era o seu único Pai: as provas disso abundam, desde o seu primeiro testemunho sobre si mesmo, Não sabiam que eu tinha de estar na casa de meu Pai? (Lc 2.49), até o fim: Quem vê a mim vê o Pai (Jo 14.9).

II, 150Modo de apresentação. 3. Em toda a Escritura posterior, o fato da encarnação é mencionado de várias maneiras, sempre como base de toda a economia mediadora. A classificação teologicamente mais útil talvez seja a que o considera em relação a cada uma das três Pessoas da Santíssima Trindade.

O Pai. (1.) O Pai, ou, o que no Novo Testamento é o mesmo, Deus, está ligado à entrada miraculosa do Filho na natureza humana apenas de modo geral. Diz-se que ele enviou o seu Filho, nascido de mulher (Gl 4.4), e em semelhança de carne pecaminosa (Rm 8.3); e, sobretudo, que suscitou o seu Filho entre os homens (At 3.26) [N. do T.: a NAA traz “Tendo Deus ressuscitado o seu Servo”]. Hoje eu gerei você (At 13.33) se refere à encarnação somente enquanto ela se aperfeiçoa na ressurreição: o suscitar da vinda e o ressuscitar dentre os mortos envolvem assim toda a manifestação histórica do Filho do Homem, que é [o Senhor] do céu (1Co 15.47).

O Filho. (2.) A relação do próprio Filho com a sua encarnação deve ser estudada com cuidado. Foi um ato voluntário seu. Ele condescendeu em se fazer carne, mas apenas como Deus que habitou entre nós (Jo 1.14): essas expressões devem ser combinadas, pois se qualificam mutuamente. Ele veio à carne e veio em carne (1Jo 4.3) [N. do T.: as duas formas são de Pope; a NAA traz apenas “veio em carne”, no v. 2]: também estas têm os seus matizes próprios de sentido. Ele toma para si a descendência de Abraão (Hb 2.16) [N. do T.: a NAA traz “socorre a descendência de Abraão”] e participou da mesma carne e sangue de que os filhos têm participação comum (Hb 2.14): também estas se completam mutuamente. Note-se que, nesta série de expressões correspondentes, se dá ênfase ao lado ativo e ao lado passivo da assunção e da submissão do Filho. Quanto ao segundo, ele diz: preparaste um corpo para mim (Hb 10.5); quanto ao primeiro: eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade (Jo 6.38), e Eis aqui estou! (No rolo do livro está escrito a meu respeito.) Estou aqui para fazer, ó Deus, a tua vontade (Hb 10.7).

O Espírito. (3.) Aquele corpo foi preparado pela Terceira Pessoa da Trindade, cuja relação com este mistério da piedade é teologicamente a mais importante. O Filho, enviado pelo Pai e vindo voluntariamente à sua própria nova natureza, é, contudo, CONCEBIDO PELO ESPÍRITO SANTO. Não ousamos entrar a fundo na questão secundária que aqui surge, acerca da relação entre a assunção da humanidade pelo Filho e a preparação dela pelo Espírito. Podem-se fazer, com reverência, apenas algumas sugestões. A natureza humana de nosso Senhor tinha de ser separada dos pecadores (Hb 7.26): na economia cristã, a Terceira Pessoa é o Santificador; ele santificou a carne em que nosso Senhor entrou e também santificou a Virgem Mãe, de modo a torná-la apta para a sua elevada função. Além disso, o ato do Espírito Santo demonstrou que o Redentor se tornou literalmente Homem entre os homens, e não trouxe do céu a sua humanidade preexistente, como muitos afirmam que ele fez. Ainda, a relação do Espírito com a nova humanidade lançou a base da subordinação do Redentor. No insondável mistério da Pessoa de nosso Senhor, embora a sua natureza humana seja dele mesmo e una com a sua divindade, é também uma natureza humana que deve ser guiada pelo Espírito através de todos os seus processos até o fim. Por isso, por fim, o Espírito Santo tem uma relação específica com a humanidade dele, enquanto ela é recebida em favor da raça com a qual ele está aliado. O Espírito do Filho, de cuja plenitude todos nós recebemos, é o Espírito Santo, que criou a natureza humana dele e nela habita desde o princípio; e é o laço sagrado entre nós e o nosso Cabeça, assim como é o vínculo sagrado entre todos nós e o Pai. Essas são sutilezas interiores da economia redentora do Deus triúno, que ninguém que deseje entender as Escrituras pode desprezar, embora ninguém possa desvendá-las com perfeição.

II, 151A MANIFESTAÇÃO HISTÓRICA DO REDENTOR.

Processo histórico. O processo da história do Salvador passa por duas etapas, a de humilhação e a de exaltação; e a sua obra mediadora se divide em três ramos, conforme ele é Profeta, Sacerdote e Rei.

OS DOIS ESTADOS.

Os dois estados. A história do Redentor é a história da redenção; e a história da redenção preenche, no que diz respeito ao homem, tanto a eternidade como o tempo, tanto o céu como a terra. As etapas da trajetória do Senhor, vistas da maneira mais abrangente, não têm, para falar em paradoxo, nem começo nem fim. As suas origens vêm desde os dias da eternidade. Da sua existência eterna, anterior ao tempo, desceu para se tornar o segundo Cabeça da humanidade; foi durante séculos uma Realidade não revelada nos assuntos humanos; na plenitude do tempo, encarnou-se; consumou a sua obra na terra; subiu ao céu; e, quando a sua obra estiver consumada pela segunda vez, assumirá uma manifestação final que só o Dia há de demonstrar. Assim, os seus estados são múltiplos. Mas, como Redentor revelado, como o Cristo sob o fardo do seu ofício messiânico, os seus estados são dois: o de humilhação e o de exaltação.

II, 152O ESTADO DE HUMILHAÇÃO.

Humilhação. O estado de humilhação pode ser considerado, primeiro, em relação à Pessoa de nosso Senhor e, depois, em relação à sua obra; distinção, porém, que não se deve manter com precisão excessiva, visto que as duas são inseparáveis.

HUMILHAÇÃO DA PESSOA ENCARNADA.

A sua Pessoa. A humilhação da Pessoa de Cristo começou com a sua concepção miraculosa e terminou com a sua sessão à direita de Deus. Mas pode ser desdobrada como o humilde desenvolvimento da sua natureza humana e o obscurecimento da filiação divina e pessoal.

A natureza humana. I. Nosso Senhor tomou a nossa humanidade na sua perfeição sem pecado, mas sob a lei do seu desenvolvimento e com as fraquezas naturais a que o pecado a havia reduzido.

Desenvolvimento. 1. O termo desenvolvimento, aplicado à natureza humana em contraste com a divina, e também em distinção da angélica, tem ampla aplicação. A humanidade tem um desenvolvimento puramente físico, cujo começo não se deu no primeiro homem, que passou apenas pelas suas etapas posteriores. Tem um desenvolvimento intelectual, próprio da alma enquanto age num organismo corporal. Tem um desenvolvimento moral, que, embora só o conheçamos como restauração do pecado para a santidade, pode ser afirmado da natureza humana sem pecado. Tem um desenvolvimento histórico: a união de todos os processos anteriores na realização do fim destinado à humanidade na ideia eterna. A todos eles nosso Senhor se submeteu. Poderia ter assumido a nossa natureza na sua perfeição final; mas então o desígnio da redenção teria ficado ou sem propósito ou sem cumprimento. Tomou em união pessoal consigo o germe de tudo o que se chama Homem; e, na sua sagrada Pessoa, a natureza humana se desdobrou até a sua perfeição final na ascensão. Foi reconhecido em figura humana (Fp 2.7-8), assim como nós, no futuro, seremos reconhecidos conformes à figura da sua humanidade glorificada.

II, 153Fraqueza. 2. A humanidade de nosso Senhor esteve sujeita às fraquezas da nossa condição mortal. Ele foi enviado em semelhança de carne pecaminosa (Rm 8.3). O pecado lhe feriu o calcanhar antes que ele ferisse a cabeça do pecado. Foi homem de dores e que sabe o que é padecer (Is 53.3), tanto num sentido inferior como num superior; isto é, experimentou as dores e os padecimentos da nossa condição humana comum, que podemos entender, bem como as dores e os padecimentos do seu fardo messiânico, que excedem o nosso conhecimento. Depois de registrar a sua descida do monte, são Mateus começa o relato das suas curas miraculosas de doenças humanas citando a profecia acerca do Servo Justo: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças (Mt 8.17; Is 53.4). Essa passagem não tem outro propósito senão incluir o nosso sofrimento físico no benefício da grande intervenção vicária. A Escritura guarda o silêncio de um decoro divino quanto à participação literal de nosso Senhor nos males da carne. Mas nos revela a sua humilhação ao assumir uma natureza que, por si mesma, não estava protegida contra a fraqueza.

Ambos são humilhação do Filho. 3. A comunhão das naturezas, ou a sua incompreensível união numa só Pessoa, exige que consideremos tanto o desenvolvimento como a fraqueza da natureza inferior como humilhação do Filho encarnado. Que uma parte integrante de si mesmo passasse de etapa em etapa rumo à perfeição, e nessa passagem fosse desfigurada e ao mesmo tempo aperfeiçoada, foi o rebaixamento voluntário do Filho eterno: depois de ser reconhecido em figura humana, ele SE HUMILHOU (Fp 2.7-8); e esse elemento particular de humildade, que precedeu todos os outros e foi a condição deles, não cessou até que os céus o receberam na glória.

Obscurecimento da divindade. II. Tampouco devemos recuar diante da aplicação do termo humilhação à Pessoa de nosso Senhor como divina: não à sua divindade, que é Espírito eterno e imutável, mas à sua Pessoa como divino-humana e, portanto, à divindade enquanto ocultava por um tempo a manifestação da sua glória sob o véu da carne.

II, 154A Divindade imutável. 1. Temos de começar com uma ressalva. Se, na Pessoa do Mediador, exigimos a verdade da humanidade não alterada, muito mais devemos insistir na verdade da Divindade inalterável. A sã teologia se apega tanto à realidade divina como à humana no único Cristo. Qualquer teoria da humilhação do Redentor que suponha a possibilidade de ele abrir mão de algum atributo divino, ou mesmo de suprimi-lo, condena a si mesma. Muito mais devemos rejeitar qualquer teoria que faça o Filho eterno reduzir ou retrair voluntariamente o seu Eu divino a uma potência ou princípio abstrato que se tornasse concreto na natureza humana. É simples honra devida ao Deus que foi manifestado na carne (1Tm 3.16) não fazer a defesa desta proposição: Deus em Cristo é imutável, o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb 13.8).

2. Mas a Pessoa do Cristo foi humilhada durante a sua permanência na terra; e essa humilhação continuou até que ele finalmente Velada. entrou nos céus. Por isso, enquanto o Filho habitou conosco como num tabernáculo, não manifestou os seus atributos divinos, no exercício do seu ministério e na obra da redenção, além da medida em que a sua perfeita natureza humana podia ser o órgão dessa manifestação. A glória como do unigênito (Jo 1.14) que os apóstolos testemunharam era apenas a que podia ser vista na Pessoa encarnada: ele manifestou a sua glória (Jo 2.11), mas não ao máximo. Isso pode ser formulado com mais clareza de três modos.

Sob o Pai. (1.) O Filho encarnado esteve SUBORDINADO AO PAI numa humilhação específica que, no que toca à sua Pessoa, não continuou depois da ascensão. Sem dúvida há um sentido em que a sua subordinação ainda continua, assim como há também um sentido em que ela continuará para sempre na sua comunhão com a natureza humana. Mas, até a hora em que pôde dizer: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra (Mt 28.18), ele esteve, como Servo de Deus e do homem, num estado de sujeição profundamente humilhado e muito especial. Desde as primeiras palavras acerca da sua missão, eu preciso estar na vontade de meu Pai (Lc 2.49) [N. do T.: a redação é de Pope; a NAA traz “eu tinha de estar na casa de meu Pai”], até as últimas, o Pai é maior do que eu (Jo 14.28), essa verdade rege todas as relações do Redentor com o seu Deus e nosso Deus.

(2.) Ele esteve SOB A DIREÇÃO DO ESPÍRITO SANTO durante Guiado pelo Espírito. a sua vida terrena, e não sob a ação independente da sua personalidade divina. A natureza humana de nosso Senhor foi selada, consagrada e enriquecida com perfeição septiforme pelo Espírito, que lhe foi dado não por medida (Jo 3.34). Essa subordinação particular cessou quando aquele que recebia se tornou o Doador do Espírito Santo; na verdade, pode-se dizer que cessou quando o Redentor, POR SI MESMO, deu a sua vida e, pelo ESPÍRITO ETERNO, a sua própria divindade essencial, a si mesmo ofereceu a Deus por nós (Hb 9.14). Até então, porém, o Filho como tal não agia sozinho por meio da sua natureza humana. A sua própria supremacia divina fica em suspenso e, como Representante do homem, ele é, como nós, guiado pelo Espírito (Gl 5.18).

II, 155A humanidade, seu órgão. (3.) Daí o destaque acentuado que ele sempre deu à sua NATUREZA HUMANA como órgão da sua autorrevelação. Até a ascensão, falou de si mesmo principalmente como o Filho do Homem, título que declara ao mesmo tempo a sua unidade com a raça humana, como Representante dela, e a sua submissão à humanidade como a esfera, e por assim dizer a única esfera, da sua automanifestação temporária e temporal.

Humilhação da Pessoa. Esses são os elementos e fatores da humilhação da Pessoa divino-humana. A combinação deles nos apresenta um mistério insondável. Separada e conjuntamente, eles permeiam a narrativa evangélica e, igualmente, a Escritura posterior que nela se baseia. De uma investigação mais profunda e mais ousada somos repelidos pela limitação das nossas faculdades. Além disso, tudo o que ainda se possa dizer terá de ocupar a nossa atenção quando se considerar a humilhação da obra do Redentor e se levantarem diante de nós as controvérsias históricas sobre o assunto.

HUMILHAÇÃO DA OBRA REDENTORA.

Da obra. Considerado em relação à sua obra, o estado humilhado de Cristo começou com o seu batismo e terminou com a sua descida, pela morte, ao Hades. Pode ser visto como a sua submissão pessoal a ser o Representante de uma raça pecadora e como a sua obediência à vontade redentora do Pai. Ambas convergem para a sua paixão e morte, nas quais a humilhação do Redentor se consumou.

II, 156O REPRESENTANTE DOS PECADORES.

Representante dos pecadores. Que nosso Senhor se humilhou para ser o REPRESENTANTE DO HOMEM PECADOR é a primeira chave para a solução de toda a sua história na terra. Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei (Gl 4.4): nascido sob lei em geral, na qual a mosaica apenas se inclui; e nascido sob lei: γενόμενον, o mesmo particípio aoristo que se usa para a encarnação, mostrando assim que ele nasceu sob condições de lei. Ora, Cristo foi homem, o Descendente da mulher, antes de ser homem judeu, o Descendente de Davi; como Descendente de Abraão, ele era as duas coisas numa só.

1. A história do Messias nos apresenta a sua humilhação manifestada Circuncisão. primeiro nas suas relações israelitas; ou melhor, a sua humilhação humana, primeiro sob o seu aspecto israelita. Disso a sua CIRCUNCISÃO foi o sinal e o selo. O ENTE SANTO (Lc 1.35), isto é, a natureza humana de nosso Senhor, passou pelo rito que significava, ao mesmo tempo, a iniciação na aliança hebraica e a obrigação de remover o pecado humano. Esse rito foi, no caso de nosso Senhor, o símbolo de toda a obrigação para com a antiga lei, até que ele mesmo a ab-rogou; e foi a sua submissão inconsciente à imputação do pecado, assim como o seu batismo foi a sua submissão consciente a ela. Por isso ele foi apresentado no templo, embora fosse maior do que o templo; tornou-se, no seu décimo segundo ano, um Filho da lei; e honrou até o fim toda ordenança divina e toda tradição legítima da antiga economia.

2. Mas ele era o Representante da humanidade pecadora. Quando Batismo. apareceu a Israel, apareceu à raça humana. O seu batismo e a sua tentação tiveram, nesse aspecto, alcance universal. Veio ao seu BATISMO como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do MUNDO (Jo 1.29): embora sem pecado e incapaz de pecar, já estava no rio Jordão contado com os transgressores (Is 53.12). Só depois de ter cumprido assim a exigência de toda a justiça (Mt 3.15) recebeu do céu o atestado que declarava que o pecado nada tinha nele, a não ser como imputado. Na Tentação. TENTAÇÃO, também, representou a raça pecadora, ao mesmo tempo que demonstrou que nele não existe pecado (1Jo 3.5), nem a possibilidade de pecado. Repeliu a tentação como o Filho de Deus encarnado, que, pela necessidade da sua personalidade divina, não podia ser tentado pelo mal (Tg 1.13); mas a repeliu em termos de rejeição humana, dando aos mortais tentados o seu exemplo, pelo uso da Escritura apropriada aos pecadores. Também neste sentido ele foi posto sob lei: passou pela prova humana do estado de provação, na qual não foi Obediência santa. achado em falta. Na SANTIDADE SEM PECADO da sua vida, também, foi o Representante da humanidade pecadora, apresentando a Deus a obediência perfeita que a humanidade devia e, ao homem, o exemplo perfeito que, pela virtude da sua morte expiatória, o homem seria capaz de imitar. Mas aqui devemos modificar o sentido em que ele esteve sob lei. É característica da justiça evangélica que ela não está debaixo da lei (Rm 6.14), que a sua obediência vem de dentro; e, se isso é verdade quanto aos servos, muito mais o era quanto ao Senhor. A santidade dele não foi o cumprimento de um dever que lhe fosse imposto, mas a expressão nova e divina, na sua vida, do próprio mandamento. Nele, como em nós, era o perfeito Paixão. amor a Deus e a perfeita caridade para com o homem: o amor, nele como em nós, era o cumprimento da lei (Rm 13.10). Por fim, na sua PAIXÃO VICÁRIA, no seu voluntário sofrimento da pena do pecado humano, ele foi o Representante dos pecadores: literalmente feito sob a lei (Gl 4.4) [N. do T.: aqui Pope lê o inglês made under the law, “feito sob a lei”, em paralelo com made sin e made a curse; a NAA traz “nascido sob a lei”]. Quão literalmente, provam-no três passagens, que podem ser combinadas numa só: Cristo foi feito pecado por nós, ele que não conheceu pecado (2Co 5.21); nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (Gl 3.13); foi feito sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei (Gl 4.4-5).

II, 1573. Reconhecido em figura humana, ele se humilhou (Fp 2.7-8): a Ao longo de toda a vida. humilhação voluntária que fez do Santo um Representante dos pecadores estendeu-se por toda a sua vida. É impossível apontar algum momento decisivo em que ela tenha começado. A sombra da sua cruz caiu sobre todo o seu caminho, embora não deixasse transparecer a sua influência nos seus pensamentos, sentimentos e palavras até que a hora se aproximou; até mais ou menos o período em que, do Tabor da sua transfiguração, ele levantou os olhos e viu o Moriá do seu sacrifício, depois do que começou a falar aos discípulos da traição e da morte que o aguardavam. Nem ousamos investigar com curiosidade os segredos da consciência interior de nosso Senhor enquanto ele mantinha essa relação com a humanidade. Basta saber que, por isso, o seu aspecto estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer (Is 52.14); que isso fez dele homem de dores e que sabe o que é padecer (Is 53.3). Ser contado com os transgressores (Is 53.12), e isso não só pelos próprios transgressores, mas pelo seu Pai, que o fez sofrer (Is 53.10)!

II, 158OBEDIÊNCIA.

Obediência ao Pai. Tudo isso encontra a sua expressão bíblica mais plena na OBEDIÊNCIA que o Filho encarnado prestou à Vontade mediadora do Pai. O termo costuma limitar-se à justiça ativa e passiva; mas, antes de considerá-lo nesse sentido mais restrito, podemos referi-lo à subordinação geral do Redentor durante todo o curso do seu estado humilhado.

Subordinação. 1. Aquele que é o Senhor de todos entrou no mundo como o Servo de Deus. Eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou (Jo 6.38). Ele esteve sob uma disciplina de submissão peculiar à sua pessoa e ao seu ofício. O mandato recebido de meu Pai (Jo 10.18) não estava escrito em nenhum código de leis estabelecido para o homem: pertencia somente a ele. No cumprimento desse grande mandato messiânico, ele esteve sozinho: a lei era uma só e única, e a obediência, uma só e única. Essa submissão suprema é a chave teórica da história do Redentor na terra. Ela explica a sua invariável deferência ao Pai: o Pai é maior do que eu (Jo 14.28); as suas referências a Deus como distinto dele mesmo: ninguém é bom, a não ser um, que é Deus (Mt 19.17) [N. do T.: Pope cita a KJV; em Mt 19.17 a NAA traz “Bom só existe um”, e as palavras citadas estão em Mc 10.18 e Lc 18.19]; a sua renúncia ao uso de nomes e atributos divinos: mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai (Mc 13.32); o fato de chamar o Pai de seu Deus: Subo para o meu Pai e o Pai de vocês, para o meu Deus e o Deus de vocês (Jo 20.17); e o seu apego habitual ao título Filho do Homem (passim). Tudo isso é profundamente coerente com as suas prerrogativas divinas, consideradas à parte da subordinação. Como Filho de Deus, ele é igual a Deus, sabe todas as coisas e reivindica honra igual à do Pai. Na sua misteriosa subordinação, ele é o Servo da Santíssima Trindade, e o curso da sua autorrevelação é fiel a esse princípio fundamental da sua missão.

Reparação à lei divina. 2. Mas a obediência de Cristo pode ser vista, mais especificamente, como o único grande ato de reparação à lei divina que ele realizou em favor da humanidade: a sua justiça ativa e passiva, que são uma só. Na sua obediência ativa, ele cumpriu perfeitamente a obrigação da justiça como amor a Deus e ao homem; e assim ficou provado que a sua expiação não era necessária para ele mesmo. Na sua obediência passiva, suportou a pena da transgressão humana. Mas a relação da sua obediência única com a Expiação e com a nossa justificação deve ficar reservada para uma etapa posterior. Por ora, basta assinalar as três passagens capitais em que ela é mencionada. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos (Rm 5.19): isso inclui toda a obra mediadora de Cristo como o Segundo Adão, que superabunda contra o pecado da raça no Primeiro Adão. Embora fosse Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu (Hb 5.8): isso faz da sua grande submissão o ato voluntário do Filho eterno, que dela não precisava para si mesmo. E, reconhecido em figura humana, ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2.7-8): isso faz dela o ato divino-humano do Redentor, consumado na morte. Unindo as três, concluímos que toda a obediência do nosso Salvador foi uma só obra, que foi o ato do Filho divino, mas prestado voluntariamente na natureza humana.

II, 159A PAIXÃO E A MORTE.

A morte. A MORTE de Cristo foi a sua humilhação perfeita. O seu caráter expiatório será tratado mais adiante. Por ora, devemos considerá-la como um ato de submissão suprema, de renúncia de si mesmo e de rebaixamento. Ela foi a sua Paixão, de modo geral, e a sua crucificação, em particular.

A Paixão. 1. A Paixão, ou sofrimento, do Redentor deve ser separada, no pensamento, do modo preciso da sua morte. Ele se tornou obediente até a morte (Fp 2.8). A sua alma estava profundamente triste até a morte (Mt 26.38). Ele, por um pouco, foi feito menor do que os anjos… por causa do sofrimento da morte (Hb 2.9). Essa era a pena do pecado humano: não apenas a destruição da alma e do corpo, mas aquela separação entre o espírito e Deus cujos terrores extremos nenhum mortal jamais conheceu. Foi isso que o nosso Senhor sofreu. A sua dissolução física foi à maneira dos homens: não foi a respeito dela que ele disse: Olhem e vejam se há dor igual à minha! (Lm 1.12). A sua paixão, ou sofrimento, como sacrifício voluntário pelo pecado, trouxe consigo a morte do corpo como um dos seus efeitos. Essa crise teria ocorrido no Getsêmani (pois ali começaram os seus sinais terríveis), mas a sua hora ainda não tinha chegado. Na sua lamentação do Antigo Testamento, o futuro Redentor clama: As afrontas partiram o meu coração (Sl 69.20). O sangue e água (Jo 19.34) que se seguiram ao golpe de lança, depois da morte, deram sinal de que isso foi literalmente verdadeiro. Embora estivesse determinado que nenhum dos seus ossos seria quebrado (Jo 19.36), isso não se estendia ao invólucro de carne que protegia o seu sagrado coração, rompido sob a pressão de uma dor intolerável. Até aqui, a nossa própria experiência humana nos dá luz. Mas não além disso: o apelo Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mc 15.34) foi o clamor extremamente amargo que brotou da percepção infinita que o Redentor tinha do que há no abandono eterno por parte de Deus. Essa foi a morte da redenção.

II, 160A crucificação. 2. A morte do Redentor, porém, não pode ser separada da sua crucificação. Ele se tornou obediente até a morte, E MORTE DE CRUZ (Fp 2.8). Os sagrados pormenores da cena de que a cruz é o centro são dados por todos os evangelistas, que aqui, por fim, convergem para uma perfeita unidade: a harmonia da sua narrativa é quebrada por algumas contradições aparentes, que surgem numa visão superficial, mas desaparecem diante de uma investigação mais profunda. A única delas que merece menção é a aparente diferença entre os sinóticos e são João quanto ao dia exato da morte de nosso Senhor. Comparemos os seus vários relatos com o de são Paulo aos coríntios, segundo o qual Cristo, NOSSO CORDEIRO PASCAL, foi sacrificado (1Co 5.7), como que no dia 14 de nisã, e ressuscitou como AS PRIMÍCIAS (1Co 15.23), como que no dia 16 de nisã; e observemos que os sinóticos falam do dia da crucificação como o dia da preparação (Lc 23.54) do grande sábado de 15 de nisã, e não durante a festa (Mt 26.5) propriamente dita. Somos então levados à conclusão de que a Última Ceia foi, como registra são João, antes da Festa da Páscoa (Jo 13.1), e de que a crucificação ocorreu na sexta-feira, 14 de nisã. Os discípulos que, segundo os sinóticos, no primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento, fizeram a pergunta Onde quer que façamos os preparativos para que o senhor possa comer a Páscoa? (Mt 26.17) prepararam a refeição no dia 14 de nisã, mas antes que terminasse o dia 13, isto é, na noite de quinta-feira, 13 de nisã; e nessa mesma noite o Senhor antecipou a Páscoa que tinha desejado ansiosamente comer com eles (Lc 22.15). A data exata da redenção do mundo pode ser fixada, com uma aproximação muito grande da certeza absoluta, na sexta-feira, 18 de março, 14 de nisã, no ano de Roma 782, 29 d.C.

A cruz na teologia. 3. Considerando a Paixão na sua relação com a crucificação, podemos arriscar mais algumas observações.

II, 161A cruz. (1.) Como parte do cumprimento do plano determinado e da presciência de Deus (At 2.23), pode-se dizer que a crucificação foi um acidente da Paixão. O Pai fez da alma do seu Servo uma oferta pelo pecado (Is 53.10), e do seu Filho, pecado por nós (2Co 5.21); mas o modo como essa oblação seria oferecida foi predeterminado somente na previsão da malignidade humana. Da imolação no Calvário nunca se fala senão como ato do homem. A vergonha e a ignomínia da cruz foram suportadas por Jesus como expressão da rejeição do homem: por meio de homens maus, ele foi crucificado e morto (At 2.23). Os poderosos deste mundo, na sua ignorância e na infâmia do seu orgulho, crucificaram o Senhor da glória (1Co 2.8). Mas isso foi previsto e feito objeto de tipo e de profecia, embora de um tipo e de uma profecia que exigiam o acontecimento para a sua plena explicação. A morte é que foi predestinada; a cruz foi apenas conhecida de antemão: distinção sustentada pelo uso da Escritura.

Predita. (2.) A crucificação de nosso Senhor foi, portanto, o cumprimento da profecia: quer da profecia encenada do tipo, quer da profecia falada da predição. Isaque, o filho único de Abraão, levou a lenha do holocausto (Gn 22.6) ao monte Moriá, assim como o Unigênito levou a sua cruz. A serpente levantada no deserto foi o tipo do Filho do Homem que seria levantado (Jo 3.14). Enquanto os profetas anunciavam de antemão o sacrifício do Cordeiro, indicavam que a sua morte seria diferente da morte da vítima antiga. Ele foi TRASPASSADO por causa das nossas transgressões (Is 53.5). Olharão para mim, a quem TRASPASSARAM (Zc 12.10) [N. do T.: a NAA traz “Olharão para aquele a quem traspassaram”]; e TRASPASSARAM-me as mãos e os pés (Sl 22.16). Essas palavras foram ditas como que do coração de Jesus, no Antigo Testamento. Ficou reservado a ele mesmo pronunciar a primeira predição expressa da cruz, que ele insinuara a Nicodemos, mas da qual começou a falar, para si e para todos os seus seguidores, quando estava para subir o Monte no qual ergueu os olhos e viu, ao longe, o seu Outro Monte. A história da crucificação mostra que os menores pormenores foram dispostos conforme estava escrito a respeito dele: significando com que tipo de morte, ποίῳ θανάτῳ, estava para morrer (Jo 12.33; 18.32).

O mundo diante da cruz. (3.) A Providência incorporou aos seus planos a morte de cruz como a única que podia unir o mundo inteiro na sua perpetração. Eu para isso nasci, disse ele (e podemos acrescentar: para isso morreu), a fim de dar testemunho da verdade (Jo 18.37). Ele foi um Mártir da verdade eterna de Deus. E o seu martírio foi o ato do mundo, que, como Satanás, o seu príncipe, jamais se firmou na verdade (Jo 8.44). Foi obra dos judeus, pois eles o entregaram a Pilatos; foi obra dos gentios, pois só eles crucificavam os seus malfeitores. As mãos perversas da humanidade inteira, unidas, lançaram fora o Verbo eterno. CONSCIENTEMENTE, rejeitaram a Testemunha divina; INCONSCIENTEMENTE, ofereceram a Vítima eterna e consumaram a iniquidade do mundo no próprio ato que obteve a salvação do mundo. Aquele que sabia o que era a natureza humana orou por eles: não sabem o que fazem! (Lc 23.34).

II, 162A cruz, o altar. 4. Por isso, a cruz foi para o nosso Sumo Sacerdote simplesmente a forma terrível que o seu altar assumiu. Carregando ele mesmo, em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados (1Pe 2.24): ἐπὶ τὸ ξύλον, como são Pedro invariavelmente chama a cruz, e só ele. O tipo mais comovente do Filho eterno encarnado levou a lenha nos ombros até o seu Calvário, e essa lenha se tornou o altar sobre o qual ele foi figuradamente imolado e do qual foi figuradamente ressuscitado (Hb 11.19). São Pedro indicou isso na expressão mais impressionante do Novo Testamento; e a Epístola aos Hebreus, sem mencionar a cruz, alude a ela quando diz que Jesus sofreu fora da cidade e que temos um altar (Hb 13.10, 12). Sobre esse altar o nosso Sumo Sacerdote ofereceu a sua oblação e aniquilou o pecado por meio do sacrifício de si mesmo (Hb 9.26).

A maldição. 5. Mas, embora a cruz em que a malignidade humana matou o Santo seja realmente o altar no qual ele se ofereceu a si mesmo, e embora esqueçamos o madeiro no altar em que este se transformou, a cruz continua sendo a expressão sagrada da maldição que caiu sobre o pecado humano representado pelo Justo. Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós (2Co 5.21); e, embora não se diga que Deus o fez maldição por nós, diz-se: Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro” (Gl 3.13). Na sua santa Pessoa, o pecado foi representado, e a sua pena, suportada. O pecado foi condenado na carne (Rm 8.3). Mas aquele que suportou a cruz, sem se importar com a vergonha (Hb 12.2), derrubou assim os poderes do mal, triunfando sobre eles na cruz (Cl 2.15). A sua cruz é agora a glória do cristianismo. É a cátedra de onde o Profeta ministra as suas lições mais elevadas. É o altar do seu sacrifício sempre eficaz. E é o trono do seu poder como Rei no universo. Mas a cruz já não é dele, ou não só dele. Ela é divinamente aplicada figuradamente a nós (1Co 4.6). Toda a nossa religião consiste em tomar parte nos seus sofrimentos, em nos tornar como ele na sua morte (Fp 3.10) e em ir levando a mesma desonra que ele suportou (Hb 13.13). Aquele que, abaixo de Cristo, é o nosso modelo disse: Estou crucificado com Cristo (Gl 2.19).

II, 163LIMITES DA HUMILHAÇÃO.

Limites. A humilhação do Redentor abrange, portanto, todo o processo da sua vida encarnada, desde a sua concepção até o seu sepultamento. Esses dois termos extremos, porém, devem ser cuidadosamente definidos. O primeiro exige que se faça distinção entre a encarnação e a concepção; o segundo, entre o sepultamento e a descida ao Hades. (1.) O Filho de Deus poderia ter manifestado a sua Pessoa encarnada em majestade desde o princípio; nesse caso, a glória da transfiguração teria sido a regra, e não a exceção. Mas, condescendendo em encarnar-se, ele foi concebido do Espírito Santo e nasceu à maneira dos homens. A distinção entre a encarnação em geral e o modo humilde como ele assumiu a carne é sutil, mas não sem importância. (2.) E o fim do seu rebaixamento foi atingido quando ele se tornou obediente até a morte (Fp 2.8). A obrigação não ia além da dissolução de alma e corpo. Essa separação foi atestada pelo seu sepultamento. Mas o próprio sepultamento tem dois aspectos. Foi a descida do corpo ao sepulcro, onde a carne do Santo de Deus não viu corrupção, pois continuava sendo parte da sua Pessoa encarnada. A humilhação foi detida no momento em que a Morte recebeu a Forma sagrada, como o Batista recebeu o Candidato celestial ao batismo: E É VOCÊ QUE VEM A MIM? (Mt 3.14). Enquanto isso, a exaltação do Redentor já havia começado. Pois o seu espírito, também parte da sua Pessoa encarnada, vivificado pelo Espírito da sua divindade, desceu ao mundo inferior e recebeu, no exato momento em que se separou do corpo, as chaves do Hades e da morte (Ap 1.18) [N. do T.: a NAA traz “as chaves da morte e do inferno”].

A HUMILHAÇÃO DA PESSOA E A DA OBRA SÃO UMA SÓ.

Pessoa e obra, uma só. Tendo distinguido entre a humilhação da Pessoa de nosso Senhor e a da sua obra, convém agora apagar a distinção e considerar a sua Pessoa e a sua obra como uma só. À parte do ministério da redenção, não há, teologicamente, Pessoa de Cristo. Desta verdade decorrem alguns resultados importantes: primeiro, a submissão redentora faz da humilhação pessoal uma realidade profunda; segundo, a inalienável dignidade divina do Redentor dá a sua glória à submissão.

II, 164A humilhação, uma realidade. 1. Há um sentido em que a Pessoa do Encarnado, como tal, era incapaz de rebaixamento. O fato de ter assumido uma natureza humana pura, pelo qual o centro do seu ser, isto é, a sua Personalidade, não foi alterado, foi um ato de condescendência infinita, mas não de humilhação propriamente dita. O ato de autodeterminação ou de autolimitação da Divindade ao criar todas as coisas não pode ser considerado uma diminuição; nem o foi na união específica da Deidade com a humanidade. Mas, assim como veremos mais adiante que a descida ao Hades foi o momento que uniu o mais profundo rebaixamento e a mais elevada dignidade do Cristo, assim também o momento da encarnação no ventre da Virgem uniu a mais gloriosa condescendência da Segunda Pessoa com a sua mais profunda abjeção. Ele começou a sua obra como Redentor sofredor, com a submissão à concepção e ao nascimento. Por isso, a Pessoa e a obra não podem ser separadas. E a humilhação que o Redentor sofreu deve ser considerada a humilhação do Deus-homem. Ele a assumiu, assim como assumiu a natureza que a tornou possível.

Glória não oculta. 2. Assim como a glória da divindade de nosso Senhor se manifestou na sua Pessoa e na sua obra, assim também essa glória brilha através de todas as narrativas do seu estado de humilhação. Muitas evidências menores poderiam ser apresentadas; mas podemos contentar-nos com os três testemunhos dados pelo Pai, desde o céu, nas três grandes crises dessa humilhação, e com as declarações ocasionais do nosso Salvador quanto ao caráter voluntário e divino da sua submissão.

Os três testemunhos. (1.) No batismo, que até aqui só foi considerado enquanto recebido pelo Representante dos pecadores, foi dado o testemunho divino: Este é o meu Filho amado (Mt 3.17). Houve aqui mais do que o perfeito comprazimento do Pai no seu Filho, agora encarnado, e o reconhecimento do desenvolvimento sem pecado do passado: houve também uma exibição simbólica da Santíssima Trindade, tal como havia de ser revelada na redenção; e a glória triúna, embora tenha desaparecido da observação humana, repousou para sempre sobre a obra do Salvador. No meio da sua carreira, ou melhor, quando se preparava para entrar no caminho do sofrimento final, nosso Senhor recebeu honra e glória da parte de Deus Pai (2Pe 1.17) no monte santo. Essa glória repousa, estendendo-se obliquamente numa dupla perspectiva, sobre os dois intervalos: para trás, até o batismo, e para a frente, até a Paixão. Quaisquer que sejam as outras lições que a transfiguração ensinou, ela certamente declarou que o santo Sofredor era o Filho divino, e que o resplendor da glória do Pai nele estava apenas retirado, ou escondido, ou velado por algum tempo. Por fim, a hora da paixão preparatória do nosso Salvador foi engrandecida por uma terceira demonstração da honra que o Pai conferia ao seu Filho. Ele ouviu a Voz que outros não distinguiram: a Voz que declarou que todo o passado do Redentor tinha glorificado o nome divino, e que o futuro, ainda maior, o glorificaria ainda mais abundantemente: Eu já o glorifiquei e ainda o glorificarei (Jo 12.28).

II, 165(2.) Em muitas ocasiões, ele reivindicou para si a dignidade divina que coexistia com a sua humilhação. Mestre vindo da parte de Deus (Jo 3.2), ele proclamou de novo, como sua, a lei no Monte, e toda a estrutura do Sermão afirma a sua supremacia. Enquanto defendia como real e verdadeira a sua própria observância da ordenança sabática, declarou-se senhor do sábado (Lc 6.5); e, honrando as prescrições do templo, proclamou-se maior do que o templo (Mt 12.6). Atendendo a uma exigência dos homens, como sujeito às autoridades constituídas, deu a entender que, como Filho, estava isento do tributo (Mt 17.26). Sempre deu a conhecer que a sua vida estava nas suas próprias mãos: que não renunciava nem podia renunciar à prerrogativa de ter vida em si mesmo (Jo 5.26); que entregava a sua vida com liberdade divina; que tinha autoridade para entregá-la e também para reavê-la (Jo 10.18). E o que declarou em vida, provou na morte: pois, embora a repreensão do Pai ao pecado lhe tivesse partido o coração, ele rendeu espontaneamente a alma, ou entregou o espírito, ἀφῆκε τὸ πνεῦμα (Jo 19.30), assim como entregou voluntariamente o seu corpo aos que vieram prendê-lo. Fazia parte do mandato recebido de meu Pai (Jo 10.18) que nosso Senhor afirmasse às vezes aquilo de que a sua Divina. consciência não podia ser privada: a sua absoluta independência da criatura à qual, por causa da redenção, ele se tinha unido tão estreitamente. Por isso, declara que a sua abnegação de si é o exemplo (Jo 13.15) que deu aos seus discípulos, e nunca fala dela senão com esse propósito. Antes de lhes legar a sua paz, deixou-lhes esse legado, mostrando, pela sua ilustração mais comovente nele mesmo, a ligação eterna entre a humildade como fonte e a paz como resultado. O lava-pés foi a representação simbólica de todo o seu caminho de humildade; e nele o Mestre e Senhor (Jo 13.13) pôs o selo da dignidade divina sobre a sua condescendência terrena. Quando, já muito perto do limite mais baixo do seu rebaixamento, disse: Você não crê que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? (Jo 14.10), e, mais do que isso, Quem vê a mim vê o Pai (Jo 14.9), ele mesmo declarou que toda a sua carreira passada tinha sido uma manifestação de Deus na carne: Eu e o Pai somos um (Jo 10.30). Não temos, porém, apenas passagens isoladas em que nos apoiar. Toda a história do estado de humilhação de nosso Senhor nos Evangelhos, e a exposição dela nas Epístolas, proclamam igualmente que, no mistério da sua condescendência até a mais funda profundidade, a sua glória foi revelada. Como Filho encarnado, ele disse de si mesmo: Não é verdade que o Cristo tinha de sofrer e entrar na sua glória? (Lc 24.26). Mas a glorificação do amor divino não esperou a ascensão. A majestade divina do Filho manifestou-se do modo mais rico e bendito NOS sofrimentos redentores, e não somente DEPOIS deles. Para o sentimento cristão, o obscurecimento da cruz são as próprias trevas de que Deus fez um manto em que se ocultou (Sl 18.11).

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 140-166, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.