W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O ministério mediador

A exaltação

II, 166O ESTADO DE EXALTAÇÃO.

Exaltação. O estado de exaltação do Redentor pode ser considerado nas suas etapas históricas, como um processo: a Descida, a Ressurreição e a Ascensão; e, quanto à sua plenitude, no que diz respeito à Pessoa e à Obra do Redentor. Esses dois ramos, porém, não precisam ser separados: o segundo pode ser incorporado ao primeiro, em parte porque já foi antecipado na Humilhação e, em parte, porque entra na discussão dos Três Ofícios.

Processo. O processo da exaltação do Redentor, como o da sua humilhação, é matéria exclusivamente do testemunho das Escrituras. Elas nos ensinam que esse processo começou com a Descida ao mundo invisível; que prosseguiu na sua Ressurreição; e que se consumou na sua Ascensão e Sessão à direita de Deus.

II, 167A DESCIDA.

Descensus. Entre o ponto mais baixo da humilhação de nosso Senhor e o início da sua glorificação não houve, nem podia haver, intervalo algum. De fato, o instante crítico da sua morte foi ao mesmo tempo o instante crítico do início do seu triunfo. Aqui devemos considerar o que significa a Descida ao Hades e de que modo ela pertenceu à exaltação de Cristo; mas em poucas palavras, pois neste ponto a luz da Escritura logo nos falta.

A Descida. 1. A expressão Descida ao Inferno, Descensus ad Inferos, não se encontra no Novo Testamento. São Pedro, dando testemunho da ressurreição do Senhor (At 2.30-31), cita as palavras de Davi: Não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção (Sl 16.10) [N. do T.: a NAA traz “na morte”; Pope segue a KJV, in hell, e explica a palavra em seguida]. O grego Ἅιδης, Hades, que corresponde ao hebraico Sheol, significa o Estado Invisível; o qual, por sua vez, corresponde ao inglês Hell [inferno], no seu sentido simples e original de profundeza coberta ou escondida, sem referência a castigo sofrido nele. Nosso Senhor entrou nesse Estado dos Mortos: quanto ao corpo, este foi sepultado e escondido no sepulcro, representação visível do Hades invisível, no qual ele entrou quanto à alma. É digno de nota, porém, que são Paulo, fazendo o mesmo uso do Salmo, não distingue entre a sepultura e o Hades. Fala apenas do corpo: puseram-no em um túmulo (At 13.29); e julga bastante citar: Não permitirás que o teu Santo veja corrupção (At 13.35). Sem dúvida, o sepultamento de nosso Senhor e a sua passagem à condição dos mortos são o sentido único dessas passagens; e elas significam que a sua morte foi real e que, nessa medida, o seu sepultamento pertenceu ao seu estado de humilhação.

Início da exaltação. 2. Mas que essa descida ao Hades foi ao mesmo tempo o início da sua exaltação fica evidente pelas seguintes considerações, negativas e positivas:

II, 168(1.) Negativamente: quando nosso Senhor clamou Está consumado! (Jo 19.30), terminou o rebaixamento do Representante da humanidade. A expiação do pecado nada mais exigia: não requeria que o Redentor fosse mantido sob o poder da morte. Depois do tributo da sua expiação voluntária, a morte já não tinha domínio sobre ele (Rm 6.9). Ele triunfou na cruz sobre todos os inimigos da salvação. A morte foi ao mesmo tempo o seu último sacrifício, o seu triunfo e a sua libertação; não era possível que fosse retido por ela (At 2.24): não só porque ele era o Autor da vida (At 3.15), mas porque a lei não tinha mais nenhuma reivindicação. Quando ele ofereceu o seu santo espírito, a ira até o extremo se esgotou sobre o pecado humano; mas ele mesmo nunca foi objeto da ira, e o Pai recebeu o espírito a ele confiado como sacrifício suficiente. O Santo não podia suportar os tormentos dos perdidos: a ideia de que podia suportá-los, e de fato os suportou, é o opróbrio de um dos capítulos mais sombrios da teologia histórica. Não foi nesse sentido que lhe designaram a sepultura com os ímpios (Is 53.9).

Triunfo. (2.) Positivamente, ele triunfou na morte sobre a morte. Primeiro, na sua Pessoa única, conservou inviolado o seu corpo humano, que não sofreu a dissolução material dos seus elementos: não porque, como às vezes se diz, ele tenha sido livrado da sepultura antes que a corrupção tivesse tempo de atingir a sua carne sagrada, mas porque a obra da morte foi detida no próprio instante da separação entre a alma e o corpo. Assim como o seu espírito já não morre (Rm 6.9), assim o seu corpo não viu corrupção (At 13.37). A carne inviolada de nosso Senhor foi, até o momento em que ele foi vivificado, uma declaração silenciosa de vitória perfeita: a sua divindade nunca deixou o seu corpo, assim como não abandonou o seu espírito na passagem deste para o mundo dos espíritos. Segundo, de acordo com o testemunho de dois apóstolos, nosso Senhor desceu triunfalmente ao mundo inferior e tomou posse do reino dos mortos. Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e, tendo morrido, tornou a viver: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos (Rm 14.9): essas palavras repartem, de modo genérico, o império mediador sobre o homem nas suas duas grandes províncias. Ele morreu, e na morte tomou posse dos Mortos; reviveu, e reina sobre os Vivos. “Quem descerá ao abismo?”, isto é, para levantar Cristo dentre os mortos (Rm 10.7): aqui o abismo, ou as profundezas, deve referir-se ao grande Mundo Inferior. Ora, o que quer dizer “ele subiu”, senão que também havia descido [primeiro] até as regiões inferiores da terra? (Ef 4.9); e de lá, na forte imagem da Escritura, ele levou cativo o cativeiro (Ef 4.8). Triunfando sobre todos os inimigos da nossa salvação (o pecado, a morte e Satanás) na cruz (Cl 2.15), ele declarou o seu triunfo na Descida. Vivificado no espírito da sua divindade, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão (1Pe 3.18-19, 22): a sequência histórica (foi, por meio da ressurreição, depois de ir para o céu) indica, e não admite outra interpretação, que no Intervalo o Redentor afirmou a sua autoridade e o seu senhorio na vasta região onde a congregação dos mortos (Pv 21.16) é o grande conjunto da humanidade, a grande assembleia à qual também podemos aplicar as palavras: no meio da congregação eu te louvarei (Sl 22.22).

II, 169A RESSURREIÇÃO.

Ressurreição. A ressurreição de nosso Senhor, considerada no seu alcance mais amplo, é a sua exaltação. É o perfeito oposto do seu estado de humilhação. Como fato da sua história, é apenas uma etapa no processo da glorificação; mas o teor geral do Novo Testamento nos ensina a considerá-la, em sentido absoluto, como a contrapartida e a antítese da sua humilhação. Se a sua morte é o limite e a medida da Obediência, a sua ressurreição é a substância e a soma da sua dignidade e da sua recompensa. A pregação dos apóstolos, em toda parte, dá destaque a essas duas verdades como colunas da fé cristã; e a evidência do milagre supremo da ressurreição de Jesus, tanto interna como externa, basta para estabelecer a dignidade da sua Pessoa e a autoridade da sua obra. Só desse ponto de vista se abarcam todos os elementos da doutrina da ressurreição de Cristo.

NAS SUAS RELAÇÕES DOGMÁTICAS.

Dogmática. A Ressurreição foi a glorificação da Pessoa do Redentor e o selo da sua obra expiatória.

Quanto à Pessoa. I. A sua ressurreição dentre os mortos vindicou divinamente a Pessoa do Redentor. Como tal, foi a demonstração da sua divindade, enquanto efetuada pelo seu próprio poder; e, enquanto efetuada pelo Pai, a declaração da sua dignidade de Encarnado: ambas as coisas, na unidade do Espírito Santo, fundidas na Divindade em geral.

II, 170O seu próprio poder. 1. É notável que, em todas as predições da sua ressurreição, nosso Senhor faz de si mesmo o Agente. A sua primeira alusão a ela figura entre as suas predições mais antigas: Destruam este santuário, e em três dias eu o levantarei (Jo 2.19); e a última, entre as mais tardias: eu dou a minha vida para recebê-la outra vez. Ninguém tira a minha vida; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para entregá-la e também para reavê-la (Jo 10.17-18). Pode-se objetar que vêm em seguida as palavras: Este mandato recebi de meu Pai. Mas a lei mediadora da obediência incluía tanto a morte como a ressurreição; e, tão certamente quanto o mandato implicava a entrega pessoal e voluntária da vida, a oferta de si mesmo na morte, assim também implicava a retomada pessoal e voluntária dessa vida. A autoridade mediadora é distinta do poder divino inerente ao Filho, sendo este o fundamento daquela. Aquele que, segundo a carne, era da descendência de Davi foi designado Filho de Deus com poder, Filho de Deus já não em fraqueza e obscurecimento, segundo o Espírito de santidade, a sua natureza divina, pela ressurreição dos mortos (Rm 1.4). Por isso, a afirmação mais geral é que ressuscitou ao terceiro dia (1Co 15.4), palavras que têm um sentido antes ativo que passivo.

Pelo Pai. 2. Como todos os demais acontecimentos da história do Mediador, a ressurreição é atribuída a Deus Pai.

(1.) Ele foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai (Rm 6.4): aquele Pai da glória cuja glória teve a sua manifestação suprema no poder que exerceu em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos (Ef 1.20), e que, como acrescenta são Pedro, lhe deu glória (1Pe 1.21). Assim, a glória de Deus Pai é o seu poder em exercício; e o resultado dele é a ressurreição do Filho. Aquele a quem o Encarnado ofereceu o sacrifício da sua humilhação concedeu-lhe a recompensa da sua ressurreição. Quando o Redentor orou: Glorifica o teu Filho, para que o Filho glorifique a ti (Jo 17.1), tinha em vista tanto a sua morte como a sua ressurreição dentre os mortos. Como Filho crucificado e ressurreto, ele foi glorificado pelo Pai.

A Encarnação consumada. (2.) Mas não foi apenas a ressurreição para a glória e a recompensa: foi também o testemunho do Pai à perfeição da sua Pessoa divino-humana como o Filho. São Paulo dá a interpretação definitiva das memoráveis palavras do Salmo: Você é meu Filho; hoje eu gerei você (At 13.33). A humanidade do Filho encarnado só foi aperfeiçoada na ressurreição, que foi, portanto, o período de consumação da Encarnação. A boa-nova anunciada no primeiro nascimento (Lc 2) é declarada perfeitamente no segundo nascimento do Filho encarnado (At 13.32): esse hoje é o Dia único da história encarnada do Senhor, desde a concepção miraculosa até a ressurreição dentre os mortos, a qual foi o momento da sua perfeição, tanto como Pessoa encarnada quanto como o Cristo.

II, 171Por Deus. 3. De modo geral, diz-se que Deus em sentido absoluto, sem distinção de Pessoas, ressuscitou o Salvador.

Lei da fraseologia. (1.) Isso está em harmonia com o teor da Escritura, que em toda parte fala dos processos da história mediadora como estando sob a disposição e a ordenação de Deus. A ressurreição do Mediador é sempre atribuída a Deus quando a subordinação messiânica está implícita ou é posta em destaque: Deus o ressuscitou no terceiro dia, o mesmo que ungiu a Jesus de Nazaré e estava com ele (At 10.38, 40). Pode-se dizer de modo geral que os processos da Obra Redentora das Três Pessoas são atribuídos a Deus, como o termo da Deidade que representa cada uma delas.

Quando ligada à nossa. (2.) Ela é atribuída a Deus também quando a ressurreição de Cristo é ligada à nossa, sendo posta em relevo a demonstração do poder divino: a suprema grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder. Ele exerceu esse poder em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos (Ef 1.19-20). Assim também naquela notável passagem: Se em vocês habita o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também o corpo mortal de vocês, por meio do seu Espírito, que habita em vocês (Rm 8.11). Esse texto, lido assim, parece dar a entender que o Espírito Santo foi o Agente na vivificação de Cristo e será o Agente na nossa. Mas deve-se preferir outra leitura: διὰ τὸ ἐνοικοῦν, por causa do Espírito que habita em nós. O Espírito Santo, a rigor, é o Agente apenas na vivificação espiritual.

A Trindade inteira. (3.) Mas é preciso lembrar que aqui, como em toda parte em relação à Trindade mediadora, todas as ações que procedem ad extra [para fora] são atribuídas indistintamente às diversas Pessoas da Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são um no envio, na ressurreição e no domínio daquele que é, não o Cristo do Pai, mas O CRISTO DE DEUS (Cl 2.2) ou O CRISTO DO SENHOR (Lc 2.26).

II, 172Quanto à sua obra. II. A ressurreição foi o selo e a glorificação da sua obra redentora. Isso pode ser considerado em relação aos três ofícios, que mais adiante serão tratados um a um, e às reivindicações e ao caráter do Messias em geral. Reservando este último aspecto para Seus três ofícios. a próxima seção, notemos como o Autor e Consumador da fé cristã, nos vários ofícios em que lançou os fundamentos dessa Fé, foi justificado, ou aprovado, pela sua ressurreição.

Profeta. 1. Como Profeta, ou Apóstolo da revelação, ele apela a todas as suas obras para autenticar o seu ensino em geral, e à sua ressurreição em particular, como a obra culminante pela qual vindicaria a sua reivindicação de ser o Oráculo supremo da humanidade. A sua primeira predição enfática e clara, dirigida ao povo em geral, foi a que dizia respeito ao levantamento do santuário do seu corpo (Jo 2.21). Anunciou-a de antemão repetidas vezes, chamando a atenção para o terceiro dia (Mt 17.23); e a sua ressurreição nesse dia foi o selo e a confirmação da sua missão profética. Não só isso, porém: foi também a entrada do Profeta numa esfera mais ampla de ensino e de influência para o mundo inteiro, e o selo preliminar dessa nova função. Confirmou ao mesmo tempo as palavras já ditas na terra e as palavras que seriam ditas dos céus (Hb 12.25). Assim, considerada em relação ao passado, foi a ratificação da sua reivindicação como Mestre profético; considerada em relação ao futuro, foi a credencial do seu ensino eterno, depois de dados aqui embaixo os seus primeiros princípios.

Sacerdote. 2. Como Sumo Sacerdote do sacrifício expiatório, nosso Senhor foi justificado na ressurreição. Ela declarou que a sua oferta propiciatória foi aceita como salvação da morte, a pena do pecado; e que o Espírito de uma vida nova foi obtido para todos: as duas coisas numa só, e como resumo dos benefícios da Expiação.

(1.) Como Representante divino-HUMANO da humanidade, Cristo foi entregue por causa das nossas transgressões; como Representante DIVINO-humano, Certeza da expiação. ele ressuscitou para a nossa justificação (Rm 4.25). A forte evidência, tanto do caráter vicário como da validade do sacrifício de nosso Senhor, é dada na sua ressurreição. A sua libertação da morte declarou que ele não morreu pelo seu próprio pecado e que a sua expiação foi aceita em favor da humanidade: Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou melhor, quem ressuscitou (Rm 8.34). A ressurreição estabelece o caráter expiatório da morte.

II, 173Penhor de vida. (2.) A sua ressurreição é o penhor de vida (vida perfeita e consumada, em todas as definições dela) para o seu povo. Dela dependia o dom do Espírito de vida, fruto da Ascensão. O Senhor ressuscitou como o Primogênito dentre os mortos, as primícias dos que dormem (1Co 15.20). Se já morremos com ele, também viveremos com ele (2Tm 2.11). Porque eu vivo, vocês também viverão (Jo 14.19).

Rei. 3. Como Rei, nosso Senhor foi selado, ungido e coroado na ressurreição. Em virtude da sua divindade, por um lado, e, por outro, em antecipação da sua obra expiatória, ele era Rei mesmo na sua humilhação, e ensinou e agiu como tal. Embora falasse do reino dos céus e do reino de Deus, falou também do seu próprio reino: O meu Reino não é deste mundo (Jo 18.36), disse ao seu juiz; e aos seus discípulos: E eu confio a vocês um reino, assim como o meu Pai confiou a mim, para que comam e bebam à minha mesa no meu Reino (Lc 22.29-30). Mas só na sua ressurreição ele foi revestido de autoridade mediadora, segundo o tempo determinado e a ordem da economia da graça. Do sepulcro foi ao monte na Galileia, onde se revestiu da sua autoridade final e disse: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra (Mt 28.18).

EVIDÊNCIAS DA RESSURREIÇÃO.

A sua messianidade. A Ressurreição foi a garantia e a prova infalível da messianidade de Jesus. Foi a demonstração divina da verdade da revelação cristã e, ela mesma, foi demonstrada por evidências suficientes.

Evidência suprema. I. De modo geral, a sua ressurreição é apresentada como a evidência culminante de que Jesus é o Cristo e, portanto, da autoridade divina da sua religião.

No seu próprio tempo. 1. O único grande argumento do Novo Testamento é que Jesus de Nazaré, rejeitado e crucificado pelos judeus, era o Messias deles e o Cristo do mundo, o Filho de Deus e o Filho do Homem. Antes da sua morte, as suas credenciais divinas de palavra e de obra o aprovavam. A elas ele fez o seu apelo. Mas apelou também, por antecipação, à sua própria ressurreição futura. Esse foi o seu primeiro penhor público, apresentado no templo; e foi repetido quando ele deu o sinal do profeta Jonas: assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra (Mt 12.40). Tinha em vista a sua própria ressurreição quando convenceu os saduceus de não conhecerem as Escrituras (Mt 22.29). Por isso, preparou ainda mais a força probatória dela, fazendo da ressurreição de mortos o milagre culminante das suas muitas obras maravilhosas e reservando a maior para o fim.

II, 174Para sempre. 2. Mas, para todas as eras e todos os tempos, a única demonstração do Cristo e da sua religião é a sua ressurreição dentre os mortos. Esse é o modo como a consideram os pregadores do evangelho em Atos e os mestres da fé cristã nas Epístolas. Apontam para ela em todo discurso como a sua própria grande credencial, confirmada pelo Espírito Santo que acompanhava as suas palavras. Pregavam Jesus e a ressurreição (At 17.18). São Paulo fala por todo o grupo quando diz que toda a esperança humana dependia da veracidade desse acontecimento: E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e é vã a fé que vocês têm (1Co 15.14).

Evidências do fato. II. Por isso, as evidências do Fato são suficientes. São de duas classes: primeiro, o testemunho daqueles a quem nosso Senhor apareceu; e, segundo, o testemunho do Espírito depois da sua partida final; estas, porém, devem estar sempre combinadas. A evidência externa não está sozinha; nem a evidência espiritual da fé cristã, ou demonstração do Espírito Santo, está privada de uma base de fatos que ele assim demonstra serem verdadeiros.

O registro. 1. Nenhuma parte da história de nosso Senhor é registrada com mais minúcia do que a história dos Quarenta Dias, que deve ser considerada principalmente sob este aspecto: como uma prova prática e contínua, dada às suas próprias testemunhas escolhidas, da veracidade da sua ressurreição.

(1.) Essas testemunhas foram escolhidas como tais: Deus o ressuscitou no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto, não a todo o povo, mas As testemunhas. às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos (At 10.40-41). O Senhor nunca apareceu aos judeus depois que eles o rejeitaram: o dia da sua visitação tinha passado. Também isso fora predito: Eu vou embora, e vocês vão me procurar (Jo 8.21). Também não se deixarão convencer, mesmo que ressuscite alguém dentre os mortos (Lc 16.31). As testemunhas foram, de fato, todos os membros do discipulado do Senhor, crescendo em número desde a solitária Maria Madalena até os Quinhentos. Mas foram escolhidas no sentido de que uma demonstração especial da realidade e da natureza do seu corpo ressurreto foi dada ao grupo apostólico.

II, 175As aparições. (2.) Embora as testemunhas fossem escolhidas, Cristo, segundo são Pedro, foi mostrado abertamente por Deus; e os quatro evangelistas registram as razões da sua aparição previamente determinada. Cinco vezes ele se mostrou vivo no dia da sua ressurreição: a Maria Madalena (Mc 16.1; Jo 20.1), a outro grupo de mulheres (Mt 28.1), a Pedro, a dois discípulos no caminho de Emaús, aos Onze (Lc 24.13, 33-34). A essas se deve acrescentar outra aparição em Jerusalém, para o convencimento de são Tomé (Jo 20.19, 24). Duas manifestações ocorreram, depois de longo silêncio, na Galileia: aos Sete (Jo 21.1) e aos Quinhentos (Mt 28.16; 1Co 15.6). Outras duas, de novo, em Jerusalém: uma a Tiago, o irmão do Senhor (1Co 15.7), e outra na Ascensão (Lc 24.50). Essas Dez são todas as aparições registradas; provavelmente, todas as que ocorreram.

(3.) As visitas ocasionais do Senhor foram acompanhadas de muitas provas incontestáveis (At 1.3): de muitos sinais, τεκμηρίοις, que não podiam enganar os que os presenciaram. Primeiro, ele distinguiu o dia da sua ressurreição, o terceiro dia, com uma exibição mais abundante desses sinais. O terceiro dia estava ligado ao antigo tipo da oferta movida, assim como os três dias e três noites ao profeta Jonas: ambos significando, segundo o cômputo hebraico, um dia inteiro e duas frações. No dia imediatamente após o sábado, o sacerdote moverá o feixe (Lv 23.11-12): as primícias da colheita eram movidas diante do Senhor, e o cordeiro era sacrificado, unindo-se assim, em figura, o sacrifício pascal e expiatório de Cristo e a sua aceitação no domingo de Páscoa. No dia catorze de nisã, nosso Senhor morreu, tendo comido a sua páscoa na tarde anterior. O sábado pascal foi o dia do Provas. seu descanso na sepultura; no dia dezesseis, ele ressuscitou; e, para dar evidência da honra posta sobre esse terceiro dia, que haveria de se tornar o primeiro, apareceu muitas vezes. Segundo, aproveitou mais de uma ocasião para mostrar as marcas, τεκμηρία, das suas mãos e dos seus pés (Lc 24.39), e para exibir a realidade do seu corpo, chegando a comer e beber com os seus discípulos. No mistério da sua dupla relação (com o mundo presente, num corpo que podia ser alimentado, e com o mundo espiritual, num corpo que de repente aparecia com as portas fechadas) não podemos penetrar. Basta saber que o Senhor acrescentou esse milagre especial, de uma retomada ocasional das suas relações físicas, para demonstrar a realidade da sua ressurreição. Ele podia passar pela Transfiguração quando quisesse, e com ela encerrava cada encontro e todas as suas aparições, até a ascensão. Terceiro, os sinais da realidade da sua ressurreição foram a perfeita identidade dos seus afetos humanos. Ele se demorou para convencer os que duvidavam, pelo Antigo Testamento e pela exibição de si mesmo; para perdoar os transgressores que o haviam abandonado, especialmente Pedro, que ao abandono acrescentara a negação, e que teve um encontro particular, para o seu perdão pessoal, antes do encontro público, para o seu perdão oficial; e para ensinar as coisas relacionadas com o seu reino. Assim mostrou ser o mesmo Jesus.

II, 176Ataques. 2. A evidência da ressurreição de nosso Senhor contida nos registros do Novo Testamento é irrefutável. Os seus opositores sempre empregaram um de três métodos para resistir a ela.

Rejeitada como milagre. (1.) Às vezes adotam o princípio transcendente do ceticismo: a rejeição absoluta desse milagre supremo, simplesmente porque é milagre. A isso chegam, por fim, todos os ataques contra esse fato fundamental do cristianismo. A força acumulada das evidências de todo tipo é tal que não pode ser resistida pelos que creem na revelação e na possibilidade de uma intervenção miraculosa. Os que rejeitam a ressurreição do Senhor por esse motivo rejeitam, portanto, com ela toda revelação divina; recusam-se obstinadamente a considerar as suas evidências: não convencidos, incapazes de ser convencidos, mesmo que ressuscite Alguém dentre os mortos (Lc 16.31).

Hipóteses céticas. (2.) Engendram-se certas teorias que possam explicar a aceitação universal do fato por parte dos discípulos. Elas se reduzem a duas: ou os primeiros pregadores da ressurreição de Cristo eram impostores, ou eram entusiastas que, tendo uma vez dado ouvidos ao relato visionário de uma suposta aparição de Cristo, propagaram a ilusão e a registraram em narrativas lendárias. Mas a consideração atenta do caráter dos apóstolos, da simplicidade da sua fé na ressurreição do seu Senhor e dos trabalhos abnegados com que selaram o seu testemunho até a morte ensinará a toda mente imparcial que nenhuma dessas duas pode ser a solução. E as próprias narrativas, na sua coerência e serena consistência, defendem irresistivelmente a sua própria causa.

Discrepâncias. (3.) Essas narrativas às vezes são submetidas a um processo de exame que descobre nelas inconsistências. É verdade que há certas diferenças nos pormenores do dia da ressurreição, assim como há diferenças nos relatos da história anterior do Senhor. Mas é preciso lembrar que as testemunhas dão provas independentes e que cada uma registra algo que as outras não mencionam. Cada evangelista tem o seu próprio desígnio: são Mateus, por exemplo, tem em vista o Monte final e a Comissão; são Lucas, Emaús e a Ascensão; são João, as aparições mais públicas do Senhor ressurreto, a respeito das quais declara registrar como a terceira aquela que na realidade foi a oitava. O Evangelho de são Lucas parece situar a partida final do Senhor na tarde do dia da ressurreição; mas ele mesmo, em Atos, menciona os quarenta dias. O terceiro evangelista tem dois relatos da Ascensão, inteiramente diferentes nos pormenores, mas iguais quanto ao fato; assim como ele, historiador cuidadoso, dá três narrativas da aparição de Cristo a Saulo, nas quais as diferenças miúdas (como a de que os companheiros do convertido, num relato, veem sem ouvir e, em outro, ouvem sem ver) só confirmam a exatidão da narrativa.

II, 177Testemunho do Espírito. 3. A suprema Testemunha da ressurreição de Cristo foi o Espírito Santo. Nosso Senhor se referiu ao testemunho dele antes de partir. O Espírito acompanhou o testemunho dos apóstolos; fez da Igreja cristã a demonstração permanente da vida da sua Cabeça; e dá a sua certeza no coração de todos aqueles a cuja fé penitente revela o Salvador elevado ao céu.

Apóstolos. (1.) Os apóstolos pregaram a ressurreição do Senhor como testemunhas sustentadas pelo testemunho superior do Espírito: literalmente, um testemunho por meio da sua pregação, nela e com ela. E nós somos testemunhas destes fatos, nós e o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem (At 5.32). Enquanto são Pedro pregava Jesus ressurreto a Cornélio, o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a mensagem (At 10.44). Essa era a razão por que, com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus (At 4.33): porque a anunciavam com a confiança da certeza pessoal, e também Deus testemunhou juntamente com eles, por meio de sinais, prodígios, vários milagres e a distribuição do Espírito Santo, segundo a sua vontade (Hb 2.4).

A Igreja. (2.) A história da Igreja cristã, com as suas instituições, é uma demonstração contínua e sempre crescente da vida invisível do seu Soberano. O Dia do Senhor, guardado como memorial da ressurreição desde aquela mesma manhã, é por si só testemunho de que nunca houve um tempo em que não se mantivesse uma fé clara nesse Fato vital. Do mesmo modo, a celebração eucarística, desde o princípio, professou confiança numa Morte sofrida uma vez e numa Vida que não teve continuação na terra. Desde o dia de Pentecostes, a Igreja tem enfrentado a oposição de principados e potestades, humanos e sobre-humanos; mas nunca a ressurreição da sua Cabeça e Defensor foi atacada com êxito.

II, 178Prova interna. (3.) A prova mais universal e a melhor de todas é a influência do Redentor invisível, por meio do seu Espírito, no coração e na vida dos crentes. O Novo Testamento posterior se detém na operação, em nós, da força do seu poder, que ele exerceu em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos (Ef 1.19-20). A vida espiritual dos que aceitam o Salvador é, para eles mesmos, um fundamento de certeza ao qual nada precisa ser acrescentado. Recebem os registros porque estão ligados às Escrituras da verdade; creem no Acontecimento registrado porque ele se deu em harmonia com a antiga predição, segundo a própria palavra do Senhor e de acordo com o seu próprio poder divino. Sabem que nenhum argumento foi levantado contra o fato por aqueles que, no princípio, tinham o maior interesse em negá-lo, e que nenhum argumento apresentado desde então tem força alguma. Mas a prova infalível que eles têm é a vida da sua própria alma.

A ASCENSÃO E A SESSÃO.

Ascensão. A Ascensão de nosso Senhor é o termo histórico e o fim da sua exaltação; e, como tal, pode ser considerada nos seus preliminares, registrados por todos os evangelistas; como acontecimento efetivo, registrado principalmente por são Lucas; e na sua sequência, que inclui todo o testemunho apostólico acerca da sua sessão e intercessão.

Preliminares. I. A narrativa dos Quarenta Dias descreve não só a sequência da ressurreição, mas também a preparação para a ascensão. As sete semanas de intervalo correspondiam às sete semanas contadas a partir da oferta movida, tipo de CRISTO, AS PRIMÍCIAS (1Co 15.23). Mas nada no símbolo ou no tipo do Antigo Testamento aponta para o quadragésimo dia como o da subida do Salvador. Esse dia foi escolhido por nosso Senhor, mas não arbitrariamente. No seu amor pelos discípulos e na sua sábia provisão para o futuro, ele lhes deu a maior parte desse tempo. Pode-se supor que o seu propósito principal fosse desacostumá-los da dependência da sua presença pessoal e visível. Daí as aparições, que foram diminuindo gradualmente. Daí aquela única nota preliminar da ascensão: Não me detenha, porque ainda não subi! (Jo 20.17). Isso explica a mistura de lembranças do passado e antecipações do futuro, de que o último capítulo de são João é um exemplo impressionante. De qualquer preparação do seu corpo para o dia da sua glorificação não há indício algum. Foi simplesmente a hora marcada, mas a hora marcada por ele mesmo: nenhuma mudança se operou nele durante o intervalo. A ressurreição foi a remoção final das condições da vida humana; e, no que dizia respeito a ele mesmo, não havia razão para mantê-lo na terra. A sua demora tão longa numa condição intermediária deveu-se ao seu terno cuidado pelos discípulos. E o resultado foi que, quando ele finalmente partiu, eles estavam plenamente preparados para a nova economia da sua manifestação espiritual; entregaram-no, resignados, ao céu, pois é necessário que o céu o receba (At 3.21); e voltaram para Jerusalém cheios de alegria (Lc 24.52).

II, 179II. A história do Acontecimento é registrada apenas por são Lucas. O Acontecimento. O seu relato no Evangelho o descreve antes como o fim da vida do Senhor na terra; o de Atos, antes com referência à sua obra mediadora no céu e ao seu retorno final para completar a redenção.

Quanto ao passado. 1. A Ascensão foi o fim da carreira terrena do Salvador.

(1.) Até aquele dia, Jesus andou entre nós (At 1.21), e a sua vida transcorrera em meio a condições humanas não glorificadas. Os quarenta dias também foram dias da sua carne (Hb 5.7), pois todas as suas manifestações eram, em muitos aspectos, semelhantes às dos tempos anteriores: os desaparecimentos espirituais eram antecipações da ascensão e só são mencionados para assinalar as próprias aparições.

Narrativa. (2.) Daí a clara narrativa histórica, que prossegue com o pormenor contínuo de todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar até o dia em que foi elevado às alturas (At 1.1-2). O Senhor os levou para fora, até Betânia. Ia adiante deles, como costumava fazer, mas agora pela última vez. Levou-os para fora de propósito, para que fossem testemunhas. Ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu (Lc 24.50-51); ou, como se diz em outro lugar, acima de todos os céus (Ef 4.10), muito acima dos céus escalonados aos quais o próprio são Paulo e outros santos tinham sido arrebatados. Não foi, como antes, um desaparecimento no Hades (entre o qual e o mundo de cima se alternaram os Quarenta Dias), mas uma retirada local para o que se chama a presença de Deus (Hb 9.24), da qual não podemos nem precisamos formar concepção alguma. Durante a sua vida, ele falou da sua subida como algo que pertencia à sua encarnação: o Filho do Homem estava no céu e tinha subido ao céu (Jo 3.13) [N. do T.: Pope segue a KJV, que termina o versículo com “the Son of man which is in heaven” (o Filho do Homem, que está no céu); a NAA não traz essas palavras], em virtude da união hipostática. Mas nesta subida final é necessário que o céu o receba (At 3.21): palavras que devem conservar todo o seu significado, embora sejam perfeitamente compatíveis com o fato de ele receber os céus.

II, 180Testemunhas. (3.) Os apóstolos foram testemunhas desse acontecimento. A Ressurreição, nem eles nem mortal algum a presenciaram; mas os Quarenta Dias foram para eles uma prova contínua de que o seu Senhor ressuscitara. A comunidade inteira dos crentes não foi convocada a Betânia, porque, embora fosse necessário que a ressurreição fosse atestada por todos, a ascensão não tinha o mesmo caráter de prova. Nesse aspecto, ela era apenas a conclusão natural, por assim dizer, da própria ressurreição; e nunca é mencionada nas Epístolas senão no seu alcance teológico, experiencial e prático. Os apóstolos tinham estado com o seu Mestre nas suas tentações, e foi-lhes permitido contemplar a honra e a glória que ele recebeu na sua ascensão. Apenas três deles presenciaram a transfiguração, que foi o penhor da ascensão (a saber, os mesmos que presenciaram a agonia do jardim); mas todos são admitidos ao segundo monte santo; somente, porém, o grupo apostólico, pois ainda há escolha. O testemunho deles basta para nos assegurar da recompensa conferida à natureza humana de nosso Senhor e do fato da sua entrada no mundo invisível.

Quanto ao futuro. 2. Como começo de uma nova vida, a ascensão foi a passagem para uma nova esfera de ação mediadora, o tomar posse da presença de Deus em favor do seu povo, numa partida da terra que antecedia um retorno do céu, ou o seu aparecimento segunda vez (Hb 9.24, 28).

Intercessão e governo. (1.) À ascensão do Senhor está sempre ligado o ofício sacerdotal da intercessão, no qual, como Sumo Sacerdote, ele faz valer a sua propiciação pelos pecados do mundo inteiro e, como Fiador do seu povo, intercede especialmente por ele. Temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo (1Jo 2.1-2), o qual adentrou os céus (Hb 4.14), assim como o seu tipo entra todos os anos no Santo dos Santos (Hb 9.25). E o governo da Igreja está nas suas mãos, como quem está assentado no trono mediador: ele subiu para exercer o domínio, assim como desceu para obtê-lo por meio da morte. Por isso se diz que é uma dignidade conferida ao Filho pelo Pai com a sua mão direita (At 5.31), e que é a recompensa da sua humilhação até a morte. Nesse sentido, o céu é o centro do universo, de onde os céus, a terra e as coisas debaixo da terra são observados e governados pelo Senhor encarnado. Mas o estudo mais detido deste assunto pertence à doutrina dos Ofícios de Cristo.

II, 181Retorno. (2.) O relato de Atos liga a partida de nosso Senhor ao seu retorno: daí o profético monte das Oliveiras (At 1.12; Zc 14.4), o novo anúncio angélico, que em cada palavra diz respeito ao futuro e não ao passado, e a ênfase dada à primeira Promessa do Cristo aperfeiçoado: Esse Jesus que foi levado do meio de vocês para o céu virá do modo como vocês o viram subir (At 1.11). A Segunda Vinda é predita logo que a primeira se cumpre; e é esse o elo de continuidade entre a antiga aliança e a nova: em ambas há uma grande expectativa do Salvador. Enquanto isso, o alcance teológico da Ascensão de nosso Senhor é ensinado da maneira mais comovente em conexão com a doutrina da união do seu povo com ele. Em virtude dessa união, os crentes são abençoados com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1.3). Buscam as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus (Cl 3.1). E, segundo as últimas palavras do Novo Testamento, o seu único e profundo anseio é vê-lo de novo: Amém! Vem, Senhor Jesus! (Ap 22.20).

O seu resultado. III. A sequência da Ascensão é a sessão à direita de Deus no céu, com a sua atestação na terra, a descida pentecostal do Espírito Santo, a Promessa da Nova Aliança.

A sessão. 1. A sessão foi objeto da profecia do nosso Salvador, tanto quanto os acontecimentos que a precederam. A sua primeira referência a ela foi indireta: E Jesus perguntou: Então, como é que Davi, pelo Espírito, chama o Cristo de Senhor, dizendo: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Sente-se à minha direita, até que eu ponha os seus inimigos debaixo dos seus pés”? (Mt 22.41-44). Mais tarde, no seu próprio dia de juízo, quando o sumo sacerdote o intimou sob juramento e ele confessou ser o Filho de Deus, variou a expressão: desde agora, vocês verão o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso (Mt 26.64). Essa enfática dupla alusão de Cristo ecoa em todo o Novo Testamento e governa tudo o que se segue.

(1.) O apóstolo Pedro fala dele como exaltado pela mão direita de Deus (At 2.33) [N. do T.: a NAA traz “Exaltado, pois, à direita de Deus”; Pope segue a KJV, “by the right hand of God”, e o contraste com 1Pe 3.22 depende dessa redação] para se assentar à direita de Deus (1Pe 3.22). E refere-se constantemente à sessão, às vezes com o Autoridade. termo e às vezes sem ele, para exprimir a autoridade mediadora de Cristo como administração do poder de Deus: derramar as influências daquele Espírito Santo que representa na terra a administração do Senhor no céu. Mas são Paulo é o expositor escolhido dessa autoridade, e resume toda a doutrina na Epístola aos Efésios: Deus o ressuscitou dentre os mortos e o fez sentar à sua direita nas regiões celestiais, acima de todo principado, potestade, poder, domínio e de todo nome que se possa mencionar, não só no presente século, mas também no vindouro. E sujeitou todas as coisas debaixo dos pés de Cristo e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas (Ef 1.20-23).

II, 182Fim. (2.) Por isso, a Ascensão é descrita como o começo de uma autoridade suprema que há de terminar quando ele tiver posto todos os inimigos debaixo dos seus pés (1Co 15.25). Até lá, a sessão de nosso Senhor é também passiva, como na atitude de quem espera: Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à direita de Deus, aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés (Hb 10.12-13). Mas Estêvão, para a sua certeza na hora da morte, viu o Filho do Homem EM PÉ à direita de Deus (At 7.56).

Base divina. (3.) Por fim, porém, essa autoridade delegada e terminável baseia-se numa prerrogativa eterna de sessão: aquele que se assentou à direita da Majestade, nas alturas era O FILHO, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também fez o universo; que, antes da sua encarnação, era o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela sua palavra poderosa (Hb 1.2-3). Nem poderia ter-se assentado à direita de Deus, em supremacia universal, se, na sua dignidade eterna, não estivesse junto do Pai (Jo 1.18).

Pentecostes. 2. O dom pentecostal do Espírito Santo foi, ao mesmo tempo, a prova imediata da realidade da ascensão e a demonstração da autoridade a que ela conduziu. A predição do salmista, Recebeste dádivas para os homens; sim, também para os rebeldes, para que o Senhor Deus habite no meio deles (Sl 68.18) [N. do T.: a NAA traz “recebeste homens por dádivas, até mesmo rebeldes”; Pope segue a KJV, “received gifts for men”, e a aplicação ao dom do Espírito depende dessa redação], foi interpretada tanto por nosso Senhor como por são Paulo como referente ao supremo Dom do Espírito. Eu o enviarei a vocês (Jo 16.7) foi a promessa antes da partida do Salvador; foi confirmada depois da sua ressurreição e cumprida no Dia de Pentecostes, de uma vez por todas e para sempre.

II, 183Dez dias de intervalo. (1.) Para isso houve dez dias de preparação. Se os discípulos ligavam ou não o Dom prometido ao quinquagésimo dia, o fim das sete semanas, não podemos dizer; provavelmente ligavam. O indefinido dentro de poucos dias (At 1.5) talvez sugerisse ao pressentimento de alguns deles aquilo que outros não estavam preparados para inferir. Evidentemente, o propósito do seu Mestre era fazer desse intervalo um período de disciplina: sem a sua presença pessoal na carne e sem a sua manifestação espiritual pelo Espírito Santo, ficaram reduzidos, por algum tempo, a uma condição intermediária Véspera de Pentecostes. sem paralelo. Mas esses dias foram dias de oração, de preparação pessoal e conjunta para a revelação mais gloriosa que o céu jamais enviara à terra. O círculo do grupo apostólico completou-se com a escolha de são Matias, e isso por sorteio, como numa dispensação intermediária entre a partida do Senhor e a vinda do Espírito. Assim, o corpo orgânico preparado pelo próprio Senhor para o Espírito voltou a ficar inteiro depois da grande brecha que nele se abrira. E os crentes, individualmente, foram preparados para o Dom excelso pela meditação na sua própria impotência e necessidade, e pela oração fervorosa para que lhes fosse concedido. Por isso a história da véspera de Pentecostes é narrada em Atos com cuidadosa precisão, como o registro dos preparativos finais para essa consumada plenitude do tempo, a descida do Espírito Santo.

O Dom. (2.) O próprio Dom foi a demonstração da sessão de Cristo à direita de Deus. Tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vocês estão vendo e ouvindo (At 2.33). São Paulo fala dos dons aos homens concedidos na ascensão, com referência especial à dispensação do ministério para a edificação do corpo de Cristo (Ef 4.8, 12), que começou no dia de Pentecostes. Mas a grande profecia do salmo, para que o Senhor Deus habite no meio deles (Sl 68.18), teve o seu pleno cumprimento quando o Espírito Santo desceu como a Shekinah, o símbolo de Deus manifestado na carne, repousando sobre a Igreja e permanecendo dentro dela como a presença habitadora da Santa Trindade. Assim, a glória por trás do véu e o candelabro do lado de fora, símbolos do Filho e do Espírito, fundiram-se, quando o véu foi removido, numa só e mesma PLENITUDE DE DEUS (Ef 3.19).

II, 184DESENVOLVIMENTO BÍBLICO DOS DOIS ESTADOS.

Escritura. Os dois estados do Redentor são expostos em todas as Escrituras com a mesma precisão e uniformidade que assinalamos na doutrina das duas naturezas no Senhor encarnado. Mas não precisamos acompanhar com tanto cuidado o processo do ensino bíblico sobre este assunto, porque ele foi em grande parte antecipado no desenvolvimento da doutrina da Pessoa de Cristo.

Antigo Testamento. I. No Antigo Testamento, a história do futuro Ministro da redenção é prefigurada como uma carreira que conduz, através de profunda humilhação, à glória; sendo o Messias uma Pessoa mediadora, cujos atributos são divinos e humanos, mas que sempre ocupa uma posição subordinada na execução do conselho divino. A primeira insinuação distante disso é a expressão Anjo de Jeová, em que Jeová é o Agente de Jeová. No devido tempo, o termo Messias, ou o Ungido, designou profeticamente o mesmo Anjo como encarnado: o futuro Revelador da vontade divina, Propiciação pelo pecado humano e Governante de um povo salvo e resgatado. Mas esse Messias é descrito como consagrado para Deus por Deus, primeiro a um estado do mais profundo abatimento e depois a um estado da mais alta majestade. Na profecia de Isaías, que deu a nosso Senhor o termo que ele aplicou a si mesmo, Ministro [N. do T.: Pope alude a Mt 20.28 e Mc 10.45, em que a KJV diz “to minister” e a NAA, “para servir”], a vinda do Encarnado é predita como a de um Servo. Todos os Salmos e os Profetas, porém, concordam em atribuir ao Redentor uma subordinação a Deus que é misteriosamente conciliada com títulos e honras divinos. Nele se encontram o Alfa e o Ômega.

Testemunho de nosso Senhor. II. Nosso Senhor nunca define o segredo da sua Pessoa encarnada; nunca fala das suas duas naturezas como unidas numa só; nem uma vez propõe à aceitação dos seus discípulos o mistério da sua exinanição e dos seus resultados. Ele o revela distintamente, mas não o explica distintamente, repreendendo assim tacitamente, de antemão, a futura presunção da teologia especulativa. Devemos, portanto, considerar apenas o tipo de testemunho que ele dá a respeito de cada um dos dois estados.

Subordinação. 1. De muitas maneiras ele declara a sua subordinação no estado de humilhação; mas sempre fala dela como uma submissão voluntária.

II, 185Filho do Homem. (1.) Chama a si mesmo Filho do Homem, mais do que Filho de Deus, embora não recuse este último nome. Fala de si mesmo como quem veio não para ser servido, mas para servir (Mt 20.28); da sua doutrina como aquilo que o Pai me ensinou e como as coisas que dele ouvi (Jo 8.26, 28); da sua obra mediadora como uma incumbência ou mandato recebido de meu Pai (Jo 10.18), para cujo cumprimento orava pedindo forças, ao passo que, para a revelação gradual dela, ou para a hora de cada crise, esperava: a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai (Mc 13.32). Falava de Deus como distinto de si mesmo: seu Deus tanto quanto nosso. Disse: o Pai é maior do que eu (Jo 14.28), ao falar da sua ida para ele pelo caminho do sofrimento humilde. Não tanto em passagens isoladas quanto no tom uniforme da sua autorrevelação, notamos a estrita subordinação do Redentor ao Pai como Deus e Cabeça da economia redentora.

Dignidade e subordinação. (2.) Que Jesus encarnado, no seu estado de humilhação, se sujeitou voluntariamente, conservando a dignidade eterna da sua divindade, é evidente pelas afirmações da sua unidade com o Pai, a que já se fez referência, pela sua exigência de uma honra igual à que se presta ao Pai e, sobretudo, pela sua expectativa de recobrar a glória de que abriu mão na encarnação. Há algumas passagens em que a subordinação voluntária e a dignidade coigual se combinam de um modo que não deveria ser mal entendido. Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo (Jo 5.26). Eu vim de Deus e aqui estou; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou (Jo 8.42). A palavra mais profunda, porém, não está em são João, mas em são Mateus: Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho (Mt 11.27).

Mistério. (3.) Por isso, somos obrigados a interpretar o testemunho de nosso Senhor acerca da sua exinanição num sentido que o torne compatível com a sua consciência de igualdade com o Pai. Essa é a grande dificuldade do assunto; mas é uma dificuldade bíblica, confiada à fé humilde; e esta doutrina de uma inferioridade relativa e apenas mediadora é muito mais condizente com a ideia cristã de Deus do que as teorias de uma divindade contraída ou despotencializada que se inventam em seu lugar.

II, 186Exaltação. 2. Os testemunhos do Salvador sobre o seu estado de dignidade são dados por palavra antes da sua ascensão e, depois dela, por palavra e por manifestação.

Antecipada. (1.) É importante considerar de que modo nosso Senhor costumava antever a sua dignidade futura. Aqui notamos a mesma dupla linha que encontramos em todo este assunto. Por um lado, ele fala da sua exaltação simplesmente como a declaração, diante do universo, do seu verdadeiro caráter e da sua verdadeira dignidade. Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que de lá desceu, o Filho do Homem, que está no céu (Jo 3.13) [N. do T.: palavras da KJV; a NAA termina o versículo em “o Filho do Homem”]: o Salvador, prevendo a sua ascensão, fala dela como algo que nada acrescenta à sua dignidade real, porque ele nunca está fora do céu. A natureza humana em contato com ele já está exaltada. Quem ouviu essas palavras tinha ouvido pouco antes o Senhor dizer: Destruam este santuário, e em três dias eu o levantarei (Jo 2.19). Mas, quando o Senhor, no fim, orou pela glorificação que estava por vir, entendemos que Jesus, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz (Hb 12.2), antevendo a sua recompensa.

Depois da ascensão. (2.) Depois da sua ascensão, o Redentor nos ensina do modo mais expresso a continuação de uma sujeição mediadora em harmonia com a divindade essencial da sua Pessoa divino-humana. Quanto ao fato da subordinação permanente, ele fala de si mesmo como o Ministro da redenção exatamente nos mesmos termos de quando estava na terra. Não há literalmente diferença alguma. Ele manda os seus servos falarem dele como o Príncipe e o Salvador a quem Deus, com a sua mão direita, exaltou (At 5.31), como o Filho, ou o Servo, enviado para abençoar (At 3.26). Não há manifestação de Cristo mais gloriosa do que aquela feita a Saulo na sua conversão, e ali ouvimos nosso Senhor dizer que o ofício dele seria converter os homens do poder de Satanás para Deus… pela fé em mim (At 26.18). Assim também, na epístola à igreja de Filadélfia, ele fala do santuário do meu Deus e do nome do meu Deus (Ap 3.12), lembrando-nos as palavras de antes da ascensão: o meu Pai e o Pai de vocês, o meu Deus e o Deus de vocês (Jo 20.17). Mas temos, no Apocalipse, o testemunho de que esse ministério contínuo é compatível com a sua divindade suprema. Quando são João estava em Patmos, e no Espírito, ouviu a voz do Redentor, que dizia: Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim (Ap 22.13); nenhuma palavra da Escritura declara mais expressamente do que estas o ser necessário e absoluto de Deus. Que o Salvador ressuscitado falava de si mesmo fica evidente pelo que se segue à primeira manifestação humana: Não tenha medo. Eu sou o primeiro e o último e aquele que vive! (Ap 1.17-18). A meditação profunda nestas e em todas as outras palavras semelhantes de nosso Senhor deve levar-nos a compreender o seu segredo: o COMPANHEIRO de Deus feito SERVO da redenção.

II, 187Ensino apostólico. III. Os dois estados ocupam lugar de destaque na teologia apostólica. Convém mencionar apenas alguns pontos salientes: a subordinação em geral; a sua continuação até o último dia; a sua continuação para sempre.

Subordinação. 1. A subordinação de nosso Senhor, em certo sentido, limita-se aos dias da sua carne e termina com a sua exaltação na ascensão. Uma passagem é inteiramente dedicada a esse assunto: a da Epístola aos Filipenses, que faz da condescendência voluntária de Cristo o exemplo da humildade cristã. O Filho eterno, conservando a sua igualdade com Deus e estando ainda na forma de Deus, contudo se fez sem reputação [N. do T.: assim a KJV; a NAA traz “se esvaziou”], ou esvaziou-se a si mesmo (Fp 2.2-8). Esquece-se com muita frequência que a sujeição de Cristo é aqui inteiramente voluntária; que se trata de algo que ele imputa a si mesmo, e não de uma realidade impossível. Estando na forma de Deus, Cristo continuava a possuir os atributos divinos, mas não os usava nem os manifestava. Não considerou usurpação o ser igual a Deus [N. do T.: a NAA traz “não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido a qualquer custo”]: quanto à sua natureza humana, ele não achou por bem arrogar-se a exibição da sua igualdade com Deus. Mas foi na forma de servo que ele se humilhou; ao passo que a sua exinanição foi a do Deus-homem, com respeito, porém, à sua divindade, enquanto esta faz da humanidade o seu órgão.

No céu. 2. O estado de exaltação, porém, não é descrito como a retomada da glória pré-temporal de nosso Senhor à parte da sua sujeição como encarnado. Embora a plenitude da divindade esteja nele, está nele corporalmente (Cl 2.9), e como algo que procede do beneplácito do Pai: a geração eterna não foi um ato da vontade divina, mas está na necessidade da essência divina; mas Deus achou por bem que, nele, residisse toda a plenitude (Cl 1.19) depois da ascensão. Por isso, nas Epístolas aos Coríntios, temos algumas demonstrações claras da subordinação. Deus é o cabeça de Cristo (1Co 11.3): esta é talvez a expressão mais impressionante do fato de que, mesmo no céu, o Encarnado está sujeito na condição de Mediador. E Cristo é de Deus (1Co 3.23) declara a mesma verdade. Mas essa é a doutrina corrente das Epístolas, e encontra a sua razão, bem como a sua expressão, na continuação da passagem citada acima: Por isso também Deus o exaltou sobremaneira! (Fp 2.9).

II, 188Em que sentido é eterna. 3. Há um sentido, porém, em que a subordinação é apresentada como permanente por toda a eternidade. Só uma passagem se refere expressamente a isso; mas é uma passagem extremamente explícita, e dá tanto destaque ao assunto que não devemos deixá-la de lado como se pertencesse aos mistérios ocultos e reservados da fé cristã. Então o próprio Filho também será sujeitado àquele que todas as coisas lhe sujeitou (1Co 15.28) [N. do T.: a NAA traz “se sujeitará”]: αὐτὸς ὁ υἱὸς ὑποταγήσεται. Aqui, pelo menos teologicamente, poderíamos tomar o verbo no sentido da voz média: o Filho se sujeitará. É, de fato, como se, no encerramento da economia redentora, ele reafirmasse a sua assunção original da nossa natureza. Ele não a enrolará nem a porá de lado como uma veste. Permanecendo na unidade do Pai e do Espírito Santo (Deus será tudo em todos), ele encerrará toda a história e todo o mistério da redenção ratificando a sua encarnação para sempre.

Nenhuma fórmula. 4. Antes de deixar a exposição bíblica deste assunto, devemos observar que os escritores sagrados não dão nenhuma fórmula para exprimir a relação mediadora do Filho encarnado com o Pai e com a Santa Trindade. Tudo o que se entende por subordinação é afirmado, mas a palavra não é usada; nem se emprega sinônimo algum, até que se fale da sujeição do último dia. É uma circunstância notável, que aponta para um paradoxo teológico impressionante. Poderia parecer que a ordem do processo histórico do Senhor foi a seguinte: o Logos na Trindade; a humilhação do estado encarnado; a elevação à dignidade suprema depois da ressurreição; a abdicação, no fim, de toda autoridade mediadora como tal; e a continuação voluntária do Filho, como encarnado, numa subordinação à Trindade eterna que não prejudica a dignidade do Filho como Deus na unidade do Pai e do Espírito Santo. A união do homem com o seu Criador se torna assim perfeita: não por uma absorção panteísta na Divindade, mas pela união com Deus no Filho. O Cordeiro está no meio do trono (Ap 7.17); e ele é o cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo (Ef 5.23), para sempre.

DESENVOLVIMENTO ECLESIÁSTICO.

Desenvolvimento histórico. Os primeiros desenvolvimentos da cristologia histórica limitaram-se à relação das duas naturezas na Pessoa única do Cristo. As controvérsias posteriores diziam respeito, antes, à natureza do estado subordinado ao qual o Redentor desceu. Na Reforma, as características da humilhação divino-humana, de um lado, e, de outro, a sua reversão na dignidade da ascensão foram profundamente estudadas e se tornaram a causa de muitas divisões. Algumas observações gerais bastarão para indicar a direção que o estudo teológico toma aqui: primeiro, na teologia medieval; depois, nas teorias do luteranismo; e, por fim, em algumas tendências diversas do pensamento moderno.

II, 189Os quatro concílios. I. Depois das definições dos quatro concílios ecumênicos, as discussões cristológicas reapareceram em controvérsias que se referiam, antes, ao grau em que a Pessoa divina participou da humilhação da natureza humana. Quatro tendências especulativas podem, sem violência, ser postas em relação umas com as outras.

Monofisismo. 1. Em primeiro lugar, os erros monofisita e monotelita fizeram do estado de humilhação de nosso Senhor uma renúncia real das suas duas naturezas, sem parecer fazê-lo. Eram simplesmente o reflexo da heresia eutiquiana, que nunca desapareceu da teologia.

Teopasquismo. (1.) O dogma monofisita foi chamado teopasquismo, porque a sua tendência era atribuir a Cristo uma só natureza, assim como uma só Pessoa; e ele, portanto, foi crucificado como um Deus-homem composto. Como a ênfase recaía, naturalmente, sobre a natureza divina, que absorvia a humana, a paixão foi exagerada até se tornar um sofrimento de Deus. Daí o nome. Esse erro foi sustentado numa grande variedade de formas; no seu único princípio geral, foi o elo de transição entre o eutiquianismo puro, que absorvia o homem no Deus, e o eutiquianismo filosófico das teorias luteranas modernas. Supõe-se que os monofisitas sobrevivam apenas entre as seitas orientais; na realidade, os teólogos da escola da despotencialização são os seus representantes.

Monotelismo. (2.) A heresia monotelita era a mesma, com uma diferença: o primeiro erro, há pouco mencionado, referia-se à natureza humana de Cristo em geral; este último, somente à sua vontade única. Ora, se em Cristo havia uma só vontade, só podia haver uma natureza, pois a vontade não pode ser dividida. Por isso, nesse dogma, a humanidade ficava abolida, e a humilhação do Filho de Deus consistia em ele descer a ponto de dizer NÃO SEJA COMO EU QUERO. A verdadeira doutrina ensinava, de fato, UMA SÓ OPERAÇÃO TEÂNDRICA, mas como resultado de duas vontades, sendo a humana, por necessidade, submissa à divina, ou necessariamente uma com ela no ato.

II, 190Adocionismo. 2. A heresia às vezes chamada adocionismo foi ensinada por dois teólogos espanhóis no século VIII e condenada no Sínodo de Frankfurt, em 794 d.C. Era, na verdade, um renascimento do nestorianismo, pois mantinha separadas a filiação divina e a filiação humana de nosso Senhor, fazendo a natureza humana participar da filiação divina somente por um ato de adoção celestial e graciosa. Assim, o estado de humilhação do Deus-homem era apenas a expressão da sua aliança com uma pessoa humana de excelência consumada e mais que humana. Alcuíno e outros adversários dessa opinião insistiram muito no fato de que a humilhação de Cristo foi a sua união com a nossa natureza, e não com um indivíduo humano: “In absumtione carnis a Deo, persona perit hominis, non natura” [na assunção da carne por Deus, perece a pessoa do homem, não a natureza].

Niilianismo. 3. O termo niilianismo é sugerido por uma controvérsia outrora vigorosa, mas de pouca importância, a não ser como expressão de um protesto equivocado contra um erro ainda maior. Ela retomou a palavra que derrotou o erro há pouco mencionado, isto é, a IMPESSOALIDADE da natureza humana de nosso Senhor, e defendeu a tese de que a Segunda Pessoa não sofreu mudança alguma pela assunção da carne. A ideia foi condenada pelo Concílio de Latrão de 1215 d.C., por tender a reduzir a encarnação a uma nulidade. Era exatamente o oposto do teopasquismo, anterior a ela, e da teoria da despotencialização, que veio depois da Reforma: esses dois erros se baseavam na suposição de que Deus, numa das Pessoas divinas, é capaz de ser reduzido a ponto de se combinar com uma personalidade finita como o poder e a energia dela. Mas o erro não pode expulsar o erro; e essa teoria perverteu o verdadeiro dogma da impessoalidade da natureza humana de nosso Senhor ao excluir a realidade de uma apresentação humana da sua Pessoa divino-humana. Ela foi longe no sentido de abolir o estado de humilhação, deixando apenas um cristianismo docético.

Razão da encarnação. 4. Muito mais interessante foi a discussão medieval sobre se o sofrimento do Deus-homem era essencialmente necessário, ou se a sua união com a natureza humana foi acompanhada de humilhação apenas por causa do pecado. Enquanto a questão se limita a esses termos, a resposta é bastante clara: não conhecemos nenhuma humanidade que tenha sido objeto da condescendência do Redentor à parte do pecado, nem nenhum Mediador que não tenha sido feito pecado por nós. Mas a questão não para aí.

II, 191Encarnação panteísta. 5. Essa bela especulação envolve outro tema de grande importância. A questão não é simplesmente se o pecado humano tornou necessária a encarnação, mas se o homem não era, na realidade, a expressão criada da ideia eterna de Deus no seu Filho. O Infinito e o finito eram um só nele. O Espírito universal em Deus encontrou a sua corporificação encarnada, realizou-se a si mesmo, na humanidade tal como concebida no Jesus histórico. A cristologia panteísta de Duns Escoto, no início da Idade Média, lançou o fundamento da moderna filosofia transcendental alemã, que, seja em Kant, seja em Hegel, está intimamente ligada à evolução necessária da Trindade por meio de Cristo. Mas dessas especulações devemos afastar-nos.

Reforma. II. Na Reforma, os dogmas luterano e reformado sobre os dois estados de nosso Senhor divergiram amplamente.

Communicatio idiomatum. 1. O luterano baseava-se no princípio de uma COMMUNIO NATURARUM [comunhão das naturezas], ou COMMUNICATIO IDIOMATUM: a segunda expressão implicava que os atributos da divindade foram comunicados à humanidade na unidade da Pessoa; a primeira implicava, além disso, que uma natureza é interpenetrada pela outra, de modo que o que uma natureza é e faz, a outra também é e faz. Valia a máxima: “Natura humana est in Christo capax Divinæ” [a natureza humana em Cristo é capaz da divina]. A doutrina reformada negava isso: “Finitum non est capax Infiniti” [o finito não é capaz do infinito]. Afirmava que a humanidade de Cristo nunca possuiu, nem jamais poderia possuir, atributos divinos. Talvez convenha considerar mais amplamente a dogmática luterana sobre esse assunto. Ela divide a communicatio idiomatum, ou intercâmbio de atributos, em três ramos. (1.) O GENUS IDIOMATICUM: significa o uso de predicados tirados de qualquer das naturezas e aplicados à Pessoa inteira. (2.) O GENUS AUCHEMATICUM SEU MAJESTATICUM: significa a atribuição de atributos divinos à natureza humana, quanto à POSSE desde a concepção, quanto ao pleno USO desde a ascensão. (3.) O GENUS APOTELESMATICUM: significa a atribuição dos atos mediadores ao Agente único. É evidente que o segundo deles contém a particularidade da doutrina luterana. Os teólogos reformados, e o grande corpo da Igreja cristã, sempre negaram a comunicação da onipresença, da onisciência e da onipotência, em qualquer sentido, à natureza humana de nosso Senhor.

II, 192Teorias luteranas. 2. A aplicação da teoria aos dois estados pode ser seguida em duas direções opostas: primeiro, quanto à deificação da natureza humana em geral na ascensão e, em particular, à ubiquidade dessa natureza na Eucaristia; segundo, quanto às teorias mais modernas de retração ou despotencialização da divindade no Homem encarnado.

Ascensão. (1.) Na teologia luterana, a ascensão de Cristo é considerada a assunção da sua natureza humana à plena dignidade e ao pleno uso de todas as perfeições divinas. Durante a sua humilhação, ele possuía os atributos da onipresença, da onisciência e da onipotência, mas voluntariamente deixou de exibi-los. Depois da exaltação, havia nele corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl 2.9). O seu corpo tornou-se não apenas o órgão desses atributos, mas ele mesmo os possuía. Ele não entrou no céu local, mas na imensidade de Deus. Os céus não o receberam, mas ele recebeu os céus: assim os defensores dessa opinião traduzem as palavras ὃν δεῖ οὐρανὸν μὲν δέξασθαι (At 3.21).

Ubiquidade. (2.) Por isso, a alma e o corpo de Cristo têm a ubiquidade da Divindade. Não, porém, que a carne real do Redentor possa ser literalmente estendida ao infinito; mas a união hipostática dá ao Homem glorificado o poder e o conhecimento divinos e, portanto, também a onipresença. A aplicação dessa doutrina aos ofícios do Salvador será vista mais adiante. Basta aqui observar que ela é usada para explicar a anomalia, no ofício profético, de que o Revelador divino-humano ignorava algumas coisas enquanto esteve na terra: nele estão agora ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. O Rei glorificado governa agora os destinos do universo como Deus-homem; na terra, ele não tinha essa autoridade, a não ser na unidade do Deus triúno. Como Sacerdote, o Redentor dá agora a virtude da onipresença ao sacrifício que ofereceu pelo pecado, distribuindo aos comungantes, na Eucaristia, o seu corpo e o seu sangue glorificados em todos os altares. A teologia do luteranismo em geral atribui muita importância ao aspecto físico da redenção. Parece considerar a corporificação “o fim de todos os caminhos de Deus”, para usar a linguagem favorita de alguns dos seus expositores modernos.

II, 193Controvérsias luteranas. (3.) No começo do século XVII, surgiu no luteranismo uma controvérsia sobre esse assunto. Um partido sustentava que a humilhação de Cristo foi a ocultação de atributos divinos que ele possuía no seu estado humano: essa ideia de κρύψις, Krypsis. ou ocultação, deu-lhes o nome de criptistas. Outro partido afirmava que houve uma real κένωσις, ou esvaziamento de si mesmo, dos atributos divinos que pertenciam à natureza humana Kenosis. em virtude da união hipostática: por isso foram chamados kenotistas. A primeira opinião atribuía a Jesus, como homem, onipresença, onisciência e onipotência desde o momento da concepção; mas essa posse ficou velada durante a vida terrena e foi declarada somente depois da ascensão. A segunda considerava que ele tinha a κτῆσις, ou posse, desses atributos desde o nascimento, mas que renunciou inteiramente à sua χρῆσις, ou uso, até ser glorificado. A primeira opinião, sustentada pelos teólogos de Tübingen, fazia da ascensão a primeira exibição dos atributos divinos de Cristo na humanidade; a segunda, sustentada pelos teólogos de Giessen, fazia dela a primeira retomada desses atributos. A controvérsia foi de uma sutileza infinita, mas dizia respeito apenas aos teólogos luteranos: só eles afirmavam uma comunicação de atributos divinos à humanidade, e só eles se viam envolvidos nos embaraços daí resultantes. O alcance geral da questão aparece bem nas seguintes palavras de Gerhard: “Não uma parte a uma parte, mas o Logos inteiro foi unido à carne inteira, e a carne inteira foi unida ao Logos inteiro; portanto, por causa da união hipostática e da intercomunhão das duas naturezas, o Logos está tão presente à carne, e a carne tão presente ao Logos, que nem o Logos está EXTRA CARNEM [fora da carne], nem a carne EXTRA LOGON [fora do Logos]; mas, onde quer que esteja o Logos, ali ele tem a carne presentíssima, como tendo sido assumida na unidade da pessoa.” A controvérsia não levou a nenhum resultado definido; na verdade, para nós, que olhamos a questão de fora, há pouca diferença entre os dois partidos.

Despotencialização. (4.) Durante o presente século, a condescendência do Filho de Deus na encarnação foi profundamente estudada por teólogos alemães e franceses sob a influência de certo eutiquianismo que nunca deixou de aderir à cristologia luterana, mas modificado pela filosofia transcendental que vê em Cristo o corpo em desenvolvimento do Espírito da Divindade, o qual chega à personalidade perfeita no Espírito Santo. As várias opiniões ligadas aos nomes de homens individuais não precisam ser discutidas longamente; isso seria exagerar a sua importância. Bastará mencionar o único elemento comum a todas elas, a saber, o de uma fusão literal da divindade do Filho no espírito finito do Homem Cristo Jesus. A ideia geral assume muitas formas: às vezes simplesmente panteísta, o Espírito eterno pensando a si mesmo como Pessoa em Cristo; às vezes puramente eutiquiana, Deus Filho contraído na humanidade, e ambos crescendo juntos até a perfeição; às vezes apolinarista, a Potência do Filho atuando dinamicamente na alma psíquica e na carne de Jesus. Mas já se mostrou, por antecipação, que todas essas hipóteses são incapazes de resistir ao simples argumento da imutabilidade essencial da natureza divina.

II, 194Humanidade pré-temporal. III. Muitas teorias modernas, revividas da antiguidade ou inventadas de novo, esforçaram-se por amortecer a queda do divino no humano; a principal delas é a interposição de uma alma humana preexistente de Cristo.

A ideia fundamental. 1. O único princípio fundamental dessas especulações esparsas (que nunca foram formuladas em nenhuma confissão) é que a humanidade pura de nosso Senhor era tão independente da raça humana quanto a de Adão, quando ele saiu da Mão e do Sopro do seu Criador. Negando, com a Escritura, que Jesus devesse alguma coisa a um pai humano, negam, sem a Escritura ou contra ela, que ele tenha recebido alguma coisa de uma mãe humana. A Virgem não foi mais que o instrumento ou canal pelo qual uma humanidade divina, existente antes da fundação do mundo ou desde a eternidade, foi introduzida pelo Espírito Santo na história humana. As passagens invocadas em favor dessa ideia são como aquela em que nosso Senhor diz: Eu desci do céu (Jo 6.38), e o segundo homem é [o Senhor] do céu (1Co 15.47); estas, com algumas semelhantes, são interpretadas como se significassem que a natureza humana, assim como a divina, preexistia na eternidade.

Misticismo moderno. 2. O misticismo moderno forneceu, em Böhme, Poiret, Barclay, Oetinger, Göschel, Petersen e outros, as formas mais atraentes dessa teoria. Neles, a humanidade pura e ideal de Jesus (que, no entanto, é difícil conceber como puramente ideal) era uma com o Verbo desde a eternidade, como que numa encarnação pré-temporal. À feição dessa humanidade o homem foi criado; e o Jesus encarnado da história veio literalmente para o que era seu (Jo 1.11). Oetinger, um dos místicos mais irrepreensíveis, diz: “Porque a Sabedoria, antes da encarnação, era a Imagem visível do Deus invisível, por isso o Filho, em comparação com o Ser de todos os seres, é algo relativamente incorpóreo, embora ele também seja puro espírito. A humanidade celestial que ele tinha como o Senhor do céu estava invisivelmente presente até mesmo entre os israelitas. Eles bebiam da pedra.” Mas, em todas essas especulações, a encarnação é antecipada no tempo; ou melhor, não é o Filho de Deus que se faz carne, mas o Filho de Deus já existente na natureza celestial da humanidade.

II, 195Swedenborg. 3. O swedenborgianismo, no seu sistema teológico, tem sobre este assunto, como sobre todos os outros, uma revelação peculiar. Swedenborg afirmava a unidade de Deus e esforçava-se por conciliar com ela a divindade de Cristo. A sua teoria estabelecia uma espécie de união hipostática entre o Pai e o Filho no Cristo único, o único Deus do universo. A encarnação, ele a via de modo apolinarista: o Deus eterno, eternamente Deus-homem, manifestou-se na alma animal e no corpo psíquico derivados da Virgem; mas o corpo material foi finalmente absorvido e glorificado. Isso é literalmente um composto de quase todas as heresias da antiguidade. Mas a sua peculiaridade quanto à pessoa de Cristo é que lhe dá, como a todos os outros homens, um corpo material e um espiritual: o primeiro correspondente ao mundo dos sentidos, o segundo ao mundo espiritual, que ele nunca deixou. O Cristo desse sistema é o único Jeová eterno, Deus e Homem num só.

Opiniões mais modernas. 4. Outros, dos quais Isaac Watts pode ser considerado o representante, sustentaram opiniões semelhantes quanto à humanidade preexistente de Cristo. O seu ponto de partida é o mesmo dos luteranos: que o espírito humano é capaz de expandir-se até o infinito. Ora, a alma preexistente de Cristo foi, na opinião deles, criada e pessoalmente unida ao Logos: aqui a ortodoxia e o arianismo se juntam. Esse Logos já encarnado encarnou-se na terra ao assumir a vida animal de um corpo natural: aqui entra o apolinarismo, como em tantos outros lugares. Por conseguinte, toda a humilhação de nosso Senhor consistiu em esse espírito humano transcendente ser despojado do seu conhecimento e passar por todos os graus da exinanição, até que a ascensão o restituiu à sua perfeição. Mas, nesse caso, o Homem Cristo Jesus não é estritamente um de nós. Faz-se um acréscimo enorme à sua Pessoa; mas não se dá nenhum alívio às dificuldades da sua humilhação.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 166-195, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.