W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O ministério mediador

O Cristo da profecia e o ofício profético

II, 196OS TRÊS OFÍCIOS DO CRISTO.

Três ofícios. Jesus é, em virtude da sua encarnação, o Mediador Ungido entre Deus e o homem. Para os ofícios da sua mediação, a sua Pessoa encarnada foi especificamente ungida no seu batismo, e assim ele se tornou o Cristo de Deus aperfeiçoado. A sua obra foi o cumprimento e a consumação das antigas funções profética, sacerdotal e real, para as quais eram ungidos os servos típicos de Deus sob a antiga economia. Esses ofícios ele começou a exercer na terra e continua a exercer no céu. Embora os consideremos distintos, é importante lembrar que são um só na obra mediadora; e que a integridade da verdade evangélica depende da fidelidade com que damos a cada um o tributo que lhe é devido na unidade com os outros dois.

Na teologia. A divisão da obra mediadora em três ofícios baseia-se, como se verá, nas Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento, mas não está formalmente enunciada nelas. Era corrente no judaísmo posterior; pode ser claramente rastreada nos primeiros Pais da Igreja, especialmente em Eusébio, Cirilo de Jerusalém e Agostinho; e, na Idade Média, foi elaborada por Tomás de Aquino. Tanto Lutero como Calvino a introduziram na sua teologia e, embora combatida por alguns autores que objetam à distinção demasiado sistemática dos diversos ofícios, ela se tornou corrente na teologia moderna. Há muitas razões pelas quais não convém fazer dos três ofícios a base de uma análise da obra mediadora. Mas considerá-los é muito apropriado no presente exame do processo da redenção histórica.

II, 197O CRISTO DA PROFECIA.

O Cristo da profecia. O Redentor da humanidade, cuja vinda na plenitude do tempo é a suprema profecia, verbal e típica, do Antigo Testamento, foi assinalado como O UNGIDO DO SENHOR, ou O CRISTO. Esse título não lhe foi dado a princípio de modo direto, mas indiretamente, na medida em que ele era representado pelos que, na Teocracia, eram ungidos para o seu ofício. Em algumas passagens, porém, o futuro Salvador é predito por esse nome; e, quando veio ao mundo, ele foi o cumprimento de uma expectativa geral do Messias, que havia de vir em um destes três ofícios ou em todos eles.

O símbolo do óleo. I. A unção foi, desde tempos antigos, um símbolo de consagração a Deus: à posse divina e ao serviço divino.

1. De modo geral, significava a dedicação humana e a aceitação divina. Assim, no primeiro caso registrado do seu uso, Jacó pegou a pedra que havia usado como travesseiro e a pôs em pé como coluna. E sobre o topo dela derramou azeite (Gn 28.18), porque lhe fora revelado que o Senhor está neste lugar (Gn 28.16). Mais particularmente, era o símbolo da luz, da paz e da alegria: da luz, para a iluminação profética; da paz, para a expiação sacerdotal; da alegria, para o governo real, como presença de Deus com o seu povo.

O Espírito Santo. 2. Esse óleo da unção era o emblema do Espírito Santo, o Espírito de consagração. Assim como o sangue era o símbolo expiatório, a água o da purificação e a luz o da presença de Deus que aceita, assim o óleo era o símbolo da santificação em geral, por combinar misticamente todos esses. Esse símbolo, na sua forma mais perfeita, o óleo sagrado da unção (Êx 30.22-33), era uma composição peculiar, feita, como tudo o que pertencia ao santuário, segundo um modelo divino, e nunca devia ser usado senão para fins divinos, para o sacerdócio e para o santuário; não podia ser preparado para uso particular, nem se podia ungir com ele o corpo de quem não fosse sacerdote, nem um estranho. É óleo santo e será santo para vocês. Assim, o óleo precioso, o óleo do perfumista, era o emblema típico escolhido do Espírito Santo, na sua relação especial com a unção de Cristo e na sua relação geral com a unção dos santos que participam da sagrada unção.

O seu uso. II. O óleo da unção era usado na consagração do sacerdócio, dos profetas e dos governantes; especialmente do sumo sacerdote e dos reis, na antiga economia.

II, 198Sacerdócio. 1. Os sacerdotes eram ungidos, assim como os utensílios do serviço sacrificial: todas as coisas eram aspergidas com sangue e ungidas com óleo. Você ungirá também Arão e os seus filhos e os consagrará (Êx 30.30). Moisés pegou também um pouco do óleo da unção e um pouco do sangue que estava sobre o altar e aspergiu sobre Arão e as suas vestes, bem como sobre os filhos de Arão e as suas vestes; e consagrou Arão (Lv 8.30). O óleo da unção era, portanto, tão essencial e tão abrangente como o sangue, o seu símbolo correlato, visto que a expiação e a consagração do Espírito Santo eram coordenadas. Depois da primeira instituição, o sacerdote ungido (Lv 4.3) designava o sumo sacerdote: é de supor que os sucessores no sacerdócio comum não eram consagrados Profetas. por esse símbolo. Os profetas eram separados do mesmo modo. Moisés, o cabeça da ordem profética, que ungiu os sacerdotes, não passou ele próprio pelo rito. O Espírito o ungiu sem o emblema. Mas Elias recebeu a ordem de ungir Eliseu como profeta em seu lugar (1Rs 19.16). Quanto aos reis, o testemunho é mais claro. Elias ungiu Hazael como rei (1Rs 19.15), o que remete a uma ordenança anterior. Os juízes não eram instituídos dessa maneira. Josué recebeu a imposição das mãos de Moisés como alguém sobre quem o Espírito de consagração já havia descido (Nm 27.18, 23). Mas, quando Saul foi dado a Israel, Samuel pegou um vaso de azeite e o derramou sobre a cabeça de Saul. Então ele o beijou e disse: O Senhor está ungindo você como príncipe sobre a sua herança (1Sm 10.1). Davi, porém, foi o tipo real específico do Messias. Samuel pegou o chifre do azeite e ungiu Davi no meio de seus irmãos. E, daquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apossou de Davi (1Sm 16.13). A designação e a dotação de dons eram os dois elementos da consagração real: a primeira fazia do Ungido do Senhor uma pessoa sagrada e inviolável, e a segunda lhe assegurava toda a graça necessária para a administração do seu ofício.

Significados antigos, um só em Cristo. 2. Assim, o óleo da unção, símbolo do Espírito Santo, tinha vários significados na economia típica: significados que depois se tornaram um só em Cristo. A unção profética significava antes a separação de um órgão para uma influência ocasional: apontava alguém em quem o Espírito já estava presente. A unção sacerdotal indicava não tanto uma simples nomeação, quanto a consagração ao serviço divino. A unção real acrescentava aos outros significados o da habitação divina permanente: o rei era representante só de Deus. O profeta e o rei representavam Deus, e não o homem: o primeiro, ocasionalmente; o segundo, permanentemente. O sacerdote representava Deus diante do homem e o homem diante de Deus; a sua consagração era permanente e alcançava todas as coisas ligadas a ele. Como no caso do altar, tudo o que tocar nelas será santo (Êx 30.29).

II, 199O Messias predito. III. Há algumas passagens notáveis em que o futuro Redentor é anunciado de antemão como o Ungido, o מָשִׁיחַ por excelência, e em relação a estes três ofícios de modo distinto.

Rei. 1. Os Salmos se abrem com o Grande Nome do futuro, que havia de ser santificado para sempre como comum a Cristo e ao seu povo: as autoridades conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido (Sl 2.2). Aqui está o ofício real; e isso ecoa num salmo posterior: Deus, o seu Deus, o ungiu (Sl 45.7), onde também se alude ao ofício profético (Sl 45.2), e a consagração sacerdotal mal se esconde (Sl 45.8).

2. O Ungido fala de si mesmo por meio de Isaías: Profeta. O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas (Is 61.1). Aqui está, pela interpretação do próprio Senhor (Lc 4.18), o ofício profético: a única passagem dessa classe que ele cita. As outras, ele as deixou para uso dos seus apóstolos.

Sacerdote. 3. Daniel encerra a profecia messiânica propriamente dita dando o nome de Messias ao futuro Redentor, especificamente como Sumo Sacerdote, mas incluindo os seus outros ofícios. Três vezes ele menciona a palavra. Depois das sessenta e duas semanas, o Ungido será morto, mas não por si mesmo (Dn 9.26) [N. do T.: Pope segue a KJV, “but not for himself”; a NAA traz “e não terá nada”]: Setenta semanas estão determinadas… para expiar a iniquidade… e para ungir o Santo dos Santos (Dn 9.24). Mas ele é o Ungido, o Príncipe (Dn 9.25); e a sua vinda havia de selar… a profecia (Dn 9.24). Aqui estão todos os ofícios combinados; essa distinção e essa combinação são a glória das predições de Daniel.

Expectativa geral. IV. Por isso, no judaísmo posterior, deu-se um testemunho claro da união das três funções numa só Pessoa suprema; e o Salvador, quando veio, encontrou no povo uma expectativa geral do Messias, ou Cristo. Ele apelou para ela como latente em toda parte.

Judaísmo posterior. 1. Os Targuns, ou paráfrases caldaicas das Escrituras que, depois do Cativeiro, substituíram o texto hebraico na leitura pública, apresentam em muitíssimas passagens uma visão clara do Messias nos seus ofícios. Chamam-no Deus; o Rei; o Profeta; o Sumo Sacerdote sobre o seu trono; o Siló prometido. Aplicam a ele todas as passagens que os cristãos costumam aplicar. Fazem, porém, das suas duas vindas uma só, e consideram que a demora do Messias é causada pelos pecados do povo; pelo menos esta é a explicação de alguns de data mais tardia, quando os períodos críticos indicados para a vinda do Messias tinham evidentemente passado. É verdade que algumas autoridades judaicas inventaram um Messias duplo: um, o Filho de José, em humilhação; o outro, o Filho de Davi, em glória. Outras referiram as predições de sofrimento à raça hebraica, e não ao Messias, sendo o Povo o Servo aflito de Deus. Mas, antes do tempo de Cristo, a expectativa judaica tomava em grande parte a forma que se esboçou na nossa própria exposição do Antigo Testamento.

II, 200Nos Evangelhos. 2. O estado da expectativa messiânica no tempo de nosso Senhor pode ser deduzido dos Evangelhos com grande precisão. O Cristo havia de vir da descendência de Davi e da aldeia de Belém, de onde era Davi (Jo 7.42). O povo costumava perguntar: Não seria este, por acaso, o Filho de Davi? (Mt 12.23). Havia de ser anunciado por Elias: Por que, então, os escribas dizem ser necessário que Elias venha primeiro? (Mt 17.10). Havia de ser o Ungido: Herodes… lhes perguntou onde o Cristo deveria nascer (Mt 2.4), o qual fora anunciado a Simeão como o Cristo do Senhor (Lc 2.26). A palavra de André a Simão foi: Achamos o Messias!, e “Messias” quer dizer “Cristo” (Jo 1.41). Assim, o povo costumava dizer: Quando o Cristo vier, será que vai fazer maiores sinais do que este homem tem feito? (Jo 7.31). Era esperado nos seus três ofícios. Sobretudo como Rei, pois a condição do povo judeu tornava caro esse caráter: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus?… o Cristo (Mt 2.2, 4); ao que corresponde a acusação final: afirmando ser ele o Cristo, o Rei! (Lc 23.2). Também como Profeta: daquele a quem queriam fazer rei à força, testemunhavam: Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo (Jo 6.14-15). Não havia diferença real entre os que diziam: Este é verdadeiramente o profeta!, e os que diziam: Ele é o Cristo! (Jo 7.40-41). Samaria compartilhava a expectativa do Cristo como profeta: Eu sei que virá o Messias, chamado Cristo. Quando ele vier, nos anunciará todas as coisas (Jo 4.25). Não temos a mesma evidência direta de que se esperava que o Messias fosse sacerdote. É claro, porém, que os representantes do judaísmo que acolheram o menino Jesus aguardavam um Messias sacerdotal. Zacarias, Simeão e o Batista o viam como a encarnação de Deus, que visitou e redimiu o seu povo (Lc 1.68), não simplesmente pela destra do seu poder, mas por meio da remissão dos seus pecados (Lc 1.77), mediante o sacrifício do Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Mas aqui a expectativa popular vacilou e falhou. O Cristo era esperado como o Filho de Deus que devia vir ao mundo (Jo 11.27), que permanece para sempre na terra (Jo 12.34): como o penhor da presença, da vida e do poder divinos entre os homens; como o Cabeça de um novo reino dos céus e como o defensor e redentor do antigo povo de Deus. Mas não reconheceram o seu Messias como Sumo Sacerdote, ele mesmo o Ofertante e a Oferta. Por isso, nenhuma parte dos ditos de nosso Senhor foi mais ofensiva do que aquelas em que ele falou da sua carne dada pela vida do mundo (Jo 6.51-52). O povo comum era um só com os fariseus e os escribas, e os próprios discípulos pouco diferiam deles, na carnalidade das suas esperanças. Que Deus não permita, Senhor! (Mt 16.22), disse Simão Pedro, quando estava sob o ensino não do Pai, mas da carne e do sangue; e nessas palavras o Senhor percebeu não apenas a lealdade medrosa de alguém que o amava, mas também a ação cegante de Satanás, cujo objetivo era dissolver o ofício sacerdotal do Messias nos outros dois: induzir a nação a considerá-lo apenas um Mestre supremo e um Rei poderoso. O Ἵλεώς σοι, Κύριε de Pedro não veio do alto, mas de baixo. Tais teorias de um Messias que tem apenas os ofícios profético e real, sem o vínculo sacerdotal entre eles, têm sido as palavras de ordem da maioria dos erros da Igreja cristã a respeito da obra de Cristo.

II, 201O Cristo das nações. 3. É bem sabido que, no tempo da vinda do nosso Salvador, o mundo em geral conhecia a expectativa judaica, e até a compartilhava. O Desejado do povo era também o Desejado das nações. A vinda dos magos foi um testemunho disso: a bênção do Espírito repousando sobre a semente lançada no Cativeiro. Fora das Escrituras, lemos: Percrebuerat Oriente toto vetus et constans opinio esse in fatis ut eo tempore Judæa profecti rerum potirentur [Espalhara-se por todo o Oriente a antiga e constante opinião de que estava nos fados que, naquele tempo, homens saídos da Judeia se tornariam senhores do mundo] (Suetônio, Vespasiano, cap. 4). E ainda: Pluribus persuasio inerat antiquis sacerdotum literis contineri eo ipso tempore fore ut valesceret oriens, profectique Judæa rerum potirentur [Muitos estavam persuadidos de que nos antigos escritos dos sacerdotes se dizia que, naquele mesmo tempo, o Oriente se fortaleceria e homens saídos da Judeia se tornariam senhores do mundo] (Tácito, Histórias V, 13).

Apelos apostólicos. 4. Por fim, tudo isso explicará os apelos dos primeiros pregadores da Fé. Na sua disputa com os judeus, os apóstolos tinham constantemente por objetivo provar que Jesus era o Messias: assim são Paulo argumentava que este Jesus, que eu anuncio a vocês, é o Cristo (At 17.3). Esse era para o povo judeu, sempre e em toda parte, o tema de toda argumentação e de toda pregação. Pregando aos gentios, eles tocavam habilmente o mesmo grande desejo messiânico, que se sabia estar latente em todos os corações: há vislumbres disso no Novo Testamento, mas ilustrações muito mais evidentes na apologética dos dois primeiros séculos. A história das missões cristãs em todas as épocas acrescenta o seu tributo. O evangelho nunca deixa de encontrar resposta quando fala à esperança indestrutível de um Libertador, por cuja vinda o mundo anseia desde que começou a sua carreira de extravio para longe de Deus.

II, 202O CRISTO DO CUMPRIMENTO.

O Cristo do cumprimento. Como o Messias, ou Cristo, do cumprimento, nosso Senhor realizou em si mesmo todos os tipos, símbolos e profecias do Antigo Testamento. O óleo santo da unção é, no Novo Testamento, o Espírito Santo, o Espírito da unção de Cristo em dois sentidos: primeiro, como aquele que consagrou a sua Pessoa na encarnação; e, segundo, como aquele que o consagrou para os seus ofícios no batismo.

A UNÇÃO PESSOAL.

Encarnação. Nosso Senhor, na sua Pessoa, é o Ungido do Senhor. Como tal, ele é o Messias do Antigo Testamento vindo em carne, e o Mediador entre Deus e os homens em ambas as naturezas, unidas numa só Pessoa.

A primeira unção. I. No nascimento do Salvador, ele foi declarado o Salvador, que é Cristo, o Senhor (Lc 2.11); Simeão viu o Cristo do Senhor (Lc 2.26). E foi assim chamado não apenas por antecipação, mas porque, na sua encarnação ou concepção, a sua natureza humana foi santificada e consagrada, essencialmente separada do pecado da nossa raça pelo Espírito Santo. O corpo da humanidade assim preparado para ele, ele o assumiu antes que chegasse a uma subsistência pessoal e independente, e assegurou a sua eterna impecabilidade. Ele era o Cristo do Senhor, assim como Cristo, Mediador na encarnação. era Jesus, desde o instante da sua concepção. E, como o termo Mediador está ligado ao termo Cristo, ele era o Mediador na sua encarnação, antes que se consumasse o ato mediador da expiação.

II, 203O Cristo, uma só Pessoa encarnada. II. Por isso, todas as funções futuras do Cristo devem ser atribuídas não a uma das suas naturezas distintamente, mas à sua Pessoa única. Nosso Senhor, como Mediador, não está dividido.

A divindade subjacente a todos os ofícios. 1. Ele não exerce nenhum ofício que não esteja fundado na sua divindade e que não seja executado por meio da sua natureza humana. Como Profeta, ele continua sendo o Deus unigênito, que está junto do Pai, a quem, como homem, ele revelou aos homens (Jo 1.18). Como Sacerdote, ele é o Filho que aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu (Hb 5.8); era necessário que, como Filho, ele se tornasse semelhante aos irmãos (Hb 2.17) e que, escolhido dentre os homens (Hb 5.1), fizesse propiciação pelos pecados do povo (Hb 2.17). A igreja de Deus, ou do Senhor, foi comprada com o seu próprio sangue (At 20.28); e o Sumo Sacerdote ofereceu-se a si mesmo pelo Espírito eterno da sua divindade (Hb 9.14). Assim também a sua autoridade real, exercida na natureza humana, requer como fundamento a dignidade divina do Filho, que sustenta todas as coisas pela sua palavra poderosa (Hb 1.3). Os primeiros versículos da Epístola aos Hebreus contêm os três ofícios da Pessoa única encarnada na sua apresentação mais completa e mais grandiosa.

Um só Mediador. 2. A Pessoa encarnada é o único Mediador: não a natureza humana, como afirmaram alguns romanistas; não a natureza divina, como sustentaram Osiander e alguns outros protestantes; mas o único Agente teantrópico, cuja volição mediadora é uma só na unidade das vontades divina e humana. Por isso, a palavra Mediador tem um sentido único quando descreve o Cristo: Há um só Mediador entre Deus e os homens, ou melhor, de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus, ou melhor, Jesus Cristo homem (1Tm 2.5) [N. do T.: a NAA traz “um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem”]. Essa passagem, única por assinalar a união das duas naturezas em relação ao Cristo como tal, é apoiada por outras que testificam que ele se tornou depois o Mediador da Nova Aliança, na qual Moisés foi o seu tipo. Na primeira (a sua mediação encarnada), ele não teve nem podia ter tipo. Como o único Mediador, a sua Pessoa encarnada é o Agente de toda a sua doutrina, de todos os seus atos sacrificiais e de toda a sua autoridade como Rei. Ele ensina como o Verbo que fala em linguagem humana; faz expiação e intercede como o Sumo Sacerdote tomado dentre os homens, mas dado primeiro ao homem como o Filho; e reina como o Filho eterno, a quem, na carne, todo o poder é confiado de modo mediador e econômico.

II, 204Unidade de todos os ofícios. 3. Segue-se que nosso Senhor, sendo na sua própria Pessoa o cumprimento das promessas referentes ao Cristo, reuniu todos os tipos em um só antes de entrar nas funções distributivas dos seus diversos ofícios. Ele é a unidade de Deus e do homem; e a unidade de todos os elementos distintos do ministério mediador predito. Nenhum homem jamais reuniu os três ofícios. Moisés foi profeta ou legislador, mas, estritamente falando, nem sacerdote nem rei. Davi foi rei e profeta, mas não sacerdote. Melquisedeque foi sacerdote e rei, mas não profeta. Ezequiel foi profeta e sacerdote, mas não rei. E, onde as funções se uniam numa só pessoa, ainda assim eram distintas: quem ocasionalmente profetizava podia ocasionalmente agir como sacerdote. Embora cada ofício fosse permanente em alguns casos, como em Moisés, Arão e Davi, nunca dois ou três desses ofícios foram permanentes num mesmo titular. Mas na Pessoa única do Encarnado todos esses ofícios estão unidos, na sua perfeição, no seu exercício constante, e cada um como necessário ao outro. Ele é sempre a Luz do mundo, sempre a Vida da redenção, sempre o Governante da humanidade.

UNÇÃO OFICIAL NO BATISMO.

Unção oficial. A segunda unção de nosso Senhor, a unção oficial, foi recebida no seu batismo, que foi a sua designação pública, ou o seu selo, para o ofício messiânico, e a plena capacitação da sua natureza humana para exercê-lo. Depois do seu batismo, ele assumiu em intervalos sucessivos os três ofícios distintamente, e começou a cumpri-los. Depois da sua ascensão, continuou a exercê-los todos em perfeição; e não os deporá até o fim. Os começos da obra messiânica estão registrados nos Evangelhos; a sua consumação é apresentada no testemunho apostólico.

Batismo. I. O batismo de Cristo para o seu ofício foi a efusão do Espírito Santo sobre ele, que o assinalou como o Messias e, ao mesmo tempo, o encheu, quanto à sua natureza humana, de todos os dons messiânicos. Esse derramamento do céu foi precedido de um batismo de água, que nosso Senhor compartilhou com os homens em geral como batismo de arrependimento, mas que tinha, em relação a ele, um duplo significado especial.

II, 205Pelo Batista. 1. Jesus foi batizado pelo seu Precursor, que era ao mesmo tempo o representante da antiga economia e o pregador do arrependimento para a nova. (1.) Na primeira relação, o Batista realizou na Pessoa do Sumo Sacerdote cristão a lavagem que precedia a sua unção com o Espírito Santo. Os sumos sacerdotes típicos, em particular, eram lavados antes de serem ungidos; e a unção em geral era precedida de batismo. (2.) Na segunda relação, o pregador do arrependimento administrou o penhor batismal da espera penitente pelo Messias àquele que, embora fosse o próprio Messias, era também o representante do homem pecador. Assim, quando nosso Senhor desceu ao Jordão, dois fins foram alcançados: de um lado, ele foi batizado como o Cabeça e Fiador da raça humana, assumindo no seu símbolo a transgressão da humanidade; e, de outro, foi designado como o Messias em quem se combinavam todos os ofícios para os quais os seus tipos tinham sido ungidos outrora. No primeiro sentido, o seu batismo representava um pecado assumido, mas não compartilhado; no Jordão, ele já foi contado com os transgressores (Is 53.12), e veio por meio de água antes de vir por meio de sangue (1Jo 5.6). O batismo foi um prelúdio da crucificação. No segundo, representava a pureza perfeita que o seu ministério preeminente exigia; a água não representava a purificação do pecado, mas a ausência de necessidade de purificação.

Com o Espírito Santo. 2. O batismo do Espírito Santo deve ser visto como a designação de Cristo para a sua obra como o Representante da Santíssima Trindade, e como a capacitação da sua natureza humana com todos os dons necessários à sua missão.

Selo. (1.) Quando João foi enviado ao seu ministério, foi-lhe dito que o Messias lhe seria indicado por um batismo mais alto que o seu: Aquele sobre quem você vir descer e pousar o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo (Jo 1.33). O símbolo foi contemplado pelo Batista, que veio batizando com água, a fim de que aquele que batiza com o Espírito fosse manifestado a Israel (Jo 1.31); e, a respeito do sinal da descida do Espírito, ele diz: eu mesmo vi e dou testemunho de que ele é o Filho de Deus (Jo 1.34). A Santíssima Trindade se uniu nessa designação. A voz dos céus era a do Pai; proclamava que o homem Cristo Jesus era ao mesmo tempo o seu Filho amado; e João viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele (Mt 3.16-17). O seu precursor. Assim o Senhor foi indicado ao seu precursor, que antes não o conhecia (Jo 1.31); e esse precursor, por sua vez, o indicou ao mundo, que também, em outro sentido, ainda não o conhecia.

II, 206Capacitação. (2.) Segundo a antiga profecia, o Espírito havia de descer sobre o Messias na unidade e na distribuição sétuplas dos seus dons perfeitos. Dizia-se do Renovo da raiz de Jessé: Repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor (Is 11.2). A respeito desse dom, que encheu a natureza humana do Redentor, ou a sua Pessoa representada pela sua humanidade, o Batista disse: Deus não lhe dá o Espírito por medida (Jo 3.34) [N. do T.: a NAA traz “Deus não dá o Espírito por medida”]. E é esse dom que ele distribui ao seu povo: o que ele tem sem medida para nós, ele o distribui a nós por medida. Muito tempo depois, aquele que testemunhou essas coisas deu a primeira e a última expressão formal do privilégio que os crentes têm de participar da unção do seu Mestre: vocês têm a unção que vem do Santo (1Jo 2.20), onde o χρῖσμα vem do Santo, que não precisava de unção para a sua própria alma, mas a reservou para a nossa: para que fôssemos cristãos como ele é o Cristo. Em Antioquia, os discípulos foram, pela primeira vez, CHAMADOS, mas não FEITOS, cristãos (At 11.26).

Assunção dos seus ofícios. II. Nosso Senhor assumiu formalmente os seus três ofícios em momentos determinados, cada um dos quais é solenemente registrado por um evangelista.

1. Como Messias, de modo geral, ele sempre falou e agiu como quem tinha em si a unidade dessas funções desde o princípio. Mas, durante o seu estado de humilhação, e até ter cumprido o seu ofício principal, o de fazer a expiação, manteve certa Em sequência. reserva, e só aos poucos declarou o pleno mistério da sua obra. Começou declarando-se o Legislador e Mestre, isto é, assumindo o seu ofício profético. E exerceu somente essa função até a véspera da sua partida, quando, na oração em que se consagrou a si mesmo, assumiu o ministério do seu sumo sacerdócio e ofereceu a si mesmo em sacrifício pelo pecado. Realizado isso, reuniu à sua volta os discípulos depois da ressurreição e assumiu a sua autoridade real: o poder que lhe foi dado no céu e na terra.

II, 207No céu. 2. Mas isso se deu também NO céu, PARA a terra: o Salvador subiu para exercer lá no alto todos os seus ofícios; e os Atos e as Epístolas contêm aquele pleno desenvolvimento teológico do seu significado, que não era possível antes de o Espírito Santo descer no Pentecostes. Os escritos posteriores do Novo Testamento não são outra coisa senão a ampliação da própria doutrina do Salvador acerca da sua obra messiânica. Devemos, portanto, tomar cada ofício em separado e considerar o testemunho do próprio Senhor e o dos seus apóstolos, fundado nele.

Fim. 3. Os ofícios de Cristo serão depostos no último dia. Embora ele conserve para sempre a unidade hipostática da sua Pessoa, a economia mediadora cessará. Não só o ofício real terminará, mas todos os seus ofícios. Ele virá não para tirar pecados (Hb 9.28), isto é, sem a sua relação sacerdotal com o pecado. Não será mais o Revelador, pois Deus será tudo em todos (1Co 15.28). Mas isso será considerado mais adiante, em relação a cada uma das funções.

O OFÍCIO PROFÉTICO.

Profeta. Cristo como Profeta é, de modo geral, o perfeito Revelador da verdade divina à humanidade; como tal, vem com as suas credenciais supremas, a Verdade e a Luz dos homens. Mais particularmente, durante o seu ministério terreno, ele foi o Legislador e o Pregador do evangelho: cada um distintamente, mas os dois num só. Esse ofício, desempenhado por ele mesmo, foi levado à plenitude pelo Espírito Santo por meio da sua palavra.

Deve-se notar aqui uma distinção entre o ofício absoluto ou universal de Cristo como Revelador e o seu ofício econômico como Ministro da sua própria geração. Pode ser útil considerar primeiro este último, pois ele faz a transição para o primeiro.

O MINISTÉRIO PESSOAL.

Ministério pessoal limitado. São Paulo afirma que [Jesus] Cristo foi constituído ministro da circuncisão, em prol da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos nossos pais e para que os gentios glorifiquem a Deus por causa da sua misericórdia (Rm 15.8-9). Essas palavras se referem ao ofício de Cristo em geral, mas em particular como Revelador da vontade divina aos judeus e em favor dos gentios: quanto aos primeiros, na nova promulgação da Lei; quanto aos segundos, na pregação do evangelho. Aqui, então, podemos considerar o ministério em geral e, depois, os seus dois ramos.

II, 208Ministro da circuncisão. I. O ministério profético pessoal de nosso Senhor constitui a substância do ensino do Verbo nos quatro Evangelhos.

1. Era rigorosamente uma continuação da antiga economia profética, segundo o argumento de santo Estêvão: Foi ainda Moisés quem disse aos filhos de Israel: Deus fará com que, do meio dos irmãos de vocês, se levante um profeta semelhante a mim; [a ele vocês devem ouvir] (At 7.37). No que dizia respeito à sua relação com a antiga dispensação, Cristo foi o último dos profetas; como dizia o povo, grande profeta se levantou entre nós (Lc 7.16). Jesus aceitou a palavra da mulher: Agora eu sei que o senhor é um profeta (Jo 4.19), como também a linguagem semelhante dos discípulos de Emaús (Lc 24.19). De fato, deu a entender que todos os Profetas e a Lei profetizaram até João (Mt 11.13), e que até mesmo João era muito mais do que um profeta (Mt 11.9). Quanto maior era ele mesmo! Assim também, na Epístola aos Hebreus, faz-se distinção entre os profetas, pelos quais Deus falou aos pais, e o Filho, pelo qual, ou no qual, ele nos fala (Hb 1.1-2). Mas tudo isso não altera o fato de que nosso Senhor foi um Ministro da vontade divina para a sua própria nação. Nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra (Lc 4.24): essas palavras, ditas quando ele abriu o seu ministério, punham em paralelo a sua própria vinda e a de Elias a Israel.

Limitado. 2. Por isso, a missão do Redentor ficou restrita ao antigo povo: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 15.24). A Luz visitou a Galileia e Samaria, mas não foi além de Israel e das suas ovelhas perdidas: o Profeta do mundo inteiro fixou morada na Galileia dos gentios, de modo que o povo que vivia em trevas viu grande luz (Mt 4.15-16). Antevendo o tempo em que atrairia a si todas as nações, ele, no entanto, se limitou rigorosamente à Terra Santa, e nunca teve de sacudir dos pés o pó do paganismo. Nunca foi chamado judeu, nem assim se denominou; mas foi um Mensageiro aos judeus, um MINISTRO DA CIRCUNCISÃO (Rm 15.8) e, em certo sentido, COMO UM DOS PROFETAS.

Nosso Senhor, profeta de si mesmo. 3. O ministério pessoal do Salvador foi o de um Profeta extraordinário, suscitado para introduzir uma nova dispensação, da qual ele mesmo era o arauto. Uniu na sua Pessoa o antigo profeta e o rabi mais moderno: ora enviado de repente sob um sopro divino extraordinário, como um zelote que só presta contas a Deus; ora proferindo de tempos em tempos sentenças proféticas, depois postas por escrito, à maneira mais comum, embora ainda extraordinária, dos profetas; e também reunindo à sua volta um grupo de discípulos, a quem ensinava a partir da lei, segundo o costume das escolas rabínicas.

II, 209Características. 4. O estilo e os métodos do ensino de nosso Senhor foram tais que o distinguiram de todos os outros mestres. As suas características não eram partilhadas por ninguém: assim como a sua forma e as suas feições, para sempre perdidas para o conhecimento humano, eram dele e de nenhum outro, assim também se dava com as suas comunicações habituais. Ele possuía, ou antes, dignou-se assumir em sua perfeição o dom da palavra persuasiva: assim como fora predito que ele seria o mais formoso dos filhos dos homens, também se disse dele: a graça se extravasou nos seus lábios (Sl 45.2). Reconheceram-no os que se maravilhavam com a sua doutrina, porque a sua palavra era com autoridade (Lc 4.32), bem como os que foram desarmados pela sua graça: Jamais alguém falou como este homem (Jo 7.46). O seu método de ensinar por parábolas era original e sem rival: quase não há vestígio do seu uso no Antigo Testamento; e as alegorias que se encontram em outros ensinos orientais e no Talmude estão em perfeito contraste com as de nosso Senhor. As suas ilustrações tiradas da natureza e da vida são reconhecidas como as mais belas da literatura, até por aqueles que não querem admitir que tenham vindo de Alguém que conhecia os símbolos misteriosos da natureza porque os estabelecera, e que conhecia perfeitamente o coração humano. O seu modo de tratar os inimigos, ou os censores capciosos, revela a presença de todos os elementos da habilidade dialética ou socrática. E, como quase todos os grandes mestres, tinha a instrução esotérica para os mais receptivos e humildes, a fim de lhes desvendar os mistérios que, para os preconceituosos, ficavam velados sob o disfarce da parábola. Além disso, apropriou-se com acerto do que havia de bom na teologia rabínica, e soube acomodar-se às ilusões correntes ao mesmo tempo que as corrigia, como no caso do seu apelo a respeito da expulsão de demônios pelos filhos dos seus inimigos. Jesus foi também o Mestre supremo do símbolo e da ação simbólica; e a isso o cristianismo deve muito. Mas, sobre todo esse assunto, é difícil falar com plenitude ou precisão, pois as instruções pessoais de nosso Salvador chegaram até nós por meio dos seus servos. Ele nada nos deixou com a marca direta da sua própria mão.

II, 210Transição para o mundo. 5. É importante lembrar que, ao longo de todo o seu ministério, nosso Senhor foi ao mesmo tempo o Ministro da circuncisão e o Revelador de toda a verdade para o mundo. A união dessas duas coisas confere ao seu ensino uma graça indescritível e sumamente maravilhosa. Mas isso nos leva a uma visão mais elevada do que a que tomamos até aqui.

Legislador ou pregador. II. Jesus Cristo foi o último Legislador e o primeiro Evangelista das suas próprias boas-novas; todo o seu ministério uniu a Lei e o evangelho nos seus elementos essenciais.

1. Como o LEGISLADOR, semelhante a Moisés (Dt 18.15), mas maior que ele, nosso Senhor assumiu a sua função no monte das Bem-aventuranças. Surgiu do Antigo Testamento como a Testemunha e a Personificação da sua verdade, e de modo algum como o seu destruidor. Não veio para revogar, mas para cumprir a antiga Escritura, e isso em três sentidos: primeiro, para cumprir em si mesmo o seu sentido, visto que toda ela era uma só profecia a respeito dele; segundo, para desobrigá-la das suas funções, enquanto era a lei de uma economia cerimonial transitória, à qual ele apareceu para pôr fim; e, terceiro, voltando a publicar o seu ensino moral em harmonia com a nova dispensação, como dispensação do Espírito e do amor.

Cumprimento de toda a lei. (1.) Toda a legislação anterior, gravada nas tábuas de carne do coração de toda a humanidade ou nas tábuas mosaicas e nos livros mosaicos, cumpriu-se na revelação de Jesus, a Expressão encarnada da vontade de Deus para o homem. O fim da lei é Cristo (Rm 10.4); e isso eminentemente no sentido de que toda a revelação, tanto da ira como da misericórdia de Deus, se completou e se cumpriu na sua Pessoa. Ele veio como o Representante de toda a revelação, escrita e não escrita, para tomar o lugar dela tão inteiramente que, na sua presença, nada mais fosse necessário; se ele haveria ou não de substituir tudo, cabia a ele mostrar. Na terra, como no céu, não havia necessidade do sol: o Cordeiro era a sua luz. Ele disse: Eu sou a luz do mundo (Jo 8.12), e: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6). Mas aprouve-lhe manter ainda a dispensação da palavra e do ministério que, por algum tempo, ele suspendera. Os antigos lhe deram os seus livros, e ele os santificou de novo para a sua Igreja. Quando se retirou, continuou a sua função por meio de uma revelação mais ampla, dada pelos seus apóstolos.

(2.) Nosso Salvador, o Legislador final, aboliu a antiga lei, A lei judaica. e tudo o que ela continha, na medida em que era a base de uma aliança entre Deus e um povo à parte. Como código da teocracia, a lei era política, cerimonial e moral: três numa só, e inseparavelmente numa só. Nosso Senhor veio para ab-rogar essa lei: ela foi abolida nele, porque a nova aliança já não seria com uma só nação, nem se basearia em tipos, mas seria confirmada em Cristo com todas as nações, sobre a base da redenção consumada. Toda a economia comumente chamada a Lei, tomada como um só todo, e portanto incluindo, como tal, a lei moral na sua forma estatutária, foi abolida em Cristo, que estabeleceu uma nova legislação, conhecida por vários nomes: a lei perfeita, lei da liberdade (Tg 1.25), a lei da fé (Rm 3.27), a lei do Espírito da vida (Rm 8.2).

II, 211(3.) Mas a lei moral, escrita no coração e nas duas tábuas, Jesus a proferiu de novo. Tirando-a do seu lugar na economia legal, deu-lhe todas as honras na economia da graça. A lei moral. Embora a tenha abolido como condição de salvação, confirmou-a como regra de vida. Para ser mais preciso: renovou-a, primeiro, como guardião que ensina ao pecador o seu pecado e o conduz ao seu Salvador; e, depois, como regra e padrão de vida santa; mas, para os dois fins, a lei inteira se apresenta no seu caráter interior, como regra espiritual, e no seu grande princípio, como amor perfeito. Como Legislador, nosso Senhor ampliou o ensino ético a uma extensão e largura infinitas por meio de uma interpretação espiritual; e de novo o condensou todo numa perfeita simplicidade, reduzindo-o ao amor. A aplicação espiritual multiplica o preceito além de qualquer limite; a redução de tudo à caridade o torna de novo simples e relativamente fácil. Mas o Salvador como Legislador preside a outro departamento da teologia, o da ética cristã, que virá mais adiante.

2. O novo Legislador abriu o seu ministério no monte; Pregador do evangelho. mas, como o Profeta que pregava o seu próprio evangelho, maior que Isaías, mas semelhante a ele, nosso Senhor anunciou formalmente a sua função na sinagoga de Nazaré, onde havia sido criado (Lc 4.16).

Antecipado. (1.) O evangelho propriamente dito, como as boas-novas da redenção por meio da expiação e do perdão dos pecados, não podia ser plenamente pregado antes da cruz. Durante a sua vida na terra, Jesus foi mais Legislador que Evangelista. Mas, quando disse na sua própria sinagoga: Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabam de ouvir (Lc 4.21), começou a pregar a grande libertação. O texto que escolheu era o mais abrangente que a profecia oferecia para descrever os efeitos da redenção tal como seria, por fim, aplicada aos seus destinatários. Sobre essa etapa inicial do seu ministério, são Mateus registra que Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino (Mt 4.23). Desde então, a nova promulgação da Lei e a antecipação do evangelho se alternaram ou se combinaram nas obras e nas palavras do Salvador. Ele falou da lei perfeita, que convence do pecado, e também de um perdão gratuito: sempre zeloso defensor dos direitos divinos, mesmo quando prometia, e até concedia, a remissão de modo franco e abundante. Mas foi só depois de oferecido o sacrifício que nosso Senhor pregou a si mesmo como o Legislador perfeito e o Salvador consumado. Quando enviou os seus apóstolos, mandou que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações (Lc 24.47), as quais deviam ser ensinadas a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês (Mt 28.20).

II, 212Profecia do Reino. (2.) A pregação do evangelho futuro era sempre preditiva; mas Cristo foi mais expressamente o Profeta do seu próprio reino nos seus anúncios antecipados da história e do destino desse reino. Assim como toda profecia, desde o princípio do mundo, dizia respeito, direta ou indiretamente, ao reino do Messias, assim também o grande Profeta, consumador da palavra profética, falava constantemente do futuro da sua Igreja. Perto do fim do seu ministério, quase todos os seus discursos eram diretamente proféticos; e as suas últimas palavras se limitaram quase inteiramente a predições.

Predições. (3.) Tanto a pregação como a profecia do reino do evangelho, nosso Senhor as continuou depois da sua partida, pelo ministério dos seus apóstolos. Assim como eles fizeram obras maiores do que as dele (Jo 14.12), também disseram palavras maiores do que as dele; mas, assim como nas obras eram apenas instrumentos da energia mais alta e mais espiritual dele, assim também eram apenas os porta-vozes das palavras dele, que não podiam ser ditas antes que ele tivesse consumado a sua obra na cruz. São Lucas fala do ministério divino-humano como de todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar (At 1.1). Depois da sua ascensão, ele continuou todos os seus ofícios, todos por sua própria atividade, mas com uma diferença. A função de sumo sacerdote, ele a exerce sozinho; a real, pelo Espírito Santo; a profética, pelo Espírito por meio dos apóstolos. Pela natureza das coisas, ele não podia pregar perfeitamente o seu próprio evangelho, nem dar profecias explícitas da última dispensação antes que a dispensação anterior tivesse terminado de todo. Ele mesmo, na sua própria Pessoa, apenas começou: nada levou à perfeição. As suas palavras eram semente no coração dos apóstolos, para dar fruto no tempo devido. O Espírito que ele enviaria era o Espírito da verdade (Jo 16.13) e os guiaria em todos os desdobramentos dela; mas apenas trazendo-lhes de novo à memória as próprias palavras do Mestre. Exatamente o que o Redentor fez com a antiga Lei (trazê-la de volta à lembrança do povo com uma interpretação ampliada), o Espírito fez com o próprio ministério do Redentor. Isso se refere a todas as partes do seu ofício profético.

II, 213O MINISTÉRIO UNIVERSAL.

O Profeta supremo. Jesus nunca assumiu formalmente o ofício profético no seu sentido mais elevado, naquele sentido que lhe era peculiar e não partilhado com ninguém; e, na verdade, não podia assumi-lo, porque nunca esteve sem ele. Falou como quem não só trazia consigo a revelação final, mas era ele mesmo essa revelação; distinguiu-se de todos os outros mestres pela afirmação de uma autoridade pessoal absoluta; acompanhou o seu ensino com as credenciais de obras miraculosas realizadas em seu próprio nome; e, por fim, veio como o Profeta da humanidade, tomando providências para que a sua doutrina continuasse para sempre.

Ele mesmo, a Verdade. 1. Embora aparecesse como um segundo Moisés, Jesus se distinguiu dos mestres humanos por ser ele mesmo a revelação de toda a verdade. Nunca tomou para si o nome de Profeta, ou Rabi, ou Vidente, embora não recusasse esses títulos quando lhe eram dados. Mas, repetidas vezes, afirmou a respeito de si mesmo prerrogativas que não poderiam pertencer a nenhum agente humano da instrução divina. Disse de si mesmo: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6). Tudo o que diz respeito à vida do homem, presente e futura, à sua salvação e aos seus interesses espirituais no tempo e na eternidade, nosso Senhor liga à sua própria Pessoa e manifestação. Ele não é apenas o Doador e o Meio da dádiva: é a própria Dádiva. Receber o que é dele depende de recebê-lo a ele mesmo. Ele é toda a verdade, no que diz respeito à nossa raça, concreta e personificada. Toda a revelação está na sua Pessoa: ele é a união de tudo o que é Deus e de tudo o que é homem, e nada além disso tem interesse vital para a humanidade. Aqui está a grande distinção entre Cristo e qualquer outro profeta. Ele é Deus e é Homem; e a sua Pessoa é o compêndio e a substância de tudo o que se pode e se deve saber a respeito de ambos. Nesse sentido mais elevado, ele não é nem profeta nem vidente: ele declara a si mesmo. Até Deus só é revelado em ligação com ele: como seu Pai. Essa gloriosa distinção percorre todas as palavras de nosso Senhor. Quando promete o Espírito para guiar os seus discípulos, é a ele mesmo que o Espírito deve expor: temos de ligar Eu sou A VERDADE com o Espírito da verdade e com ele os guiará em toda a verdade (Jo 14.6, 17; 16.13). EU SOU A VERDADE foi a palavra mais elevada de Cristo, o Profeta.

II, 214Profeta divino-humano. 2. Na sua pessoa mediadora, porém, nosso Senhor condescendeu em ser literalmente um Profeta. Usou a sua natureza humana como órgão da sua revelação e, como Homem que falava aos homens, foi o agente consumado do conselho divino para a humanidade. Foi o perfeito נָבִיא, termo que significa o Intérprete de Deus, ou aquele que derrama as palavras divinas. Assim, disse de si mesmo: O meu ensino não é meu, mas daquele que me enviou (Jo 7.16), não querendo dizer literalmente que não era seu, mas que não era seu como algo distinto de Deus. Falo como o Pai me ensinou: palavras que devem ser ligadas ao que se segue: E aquele que me enviou está comigo (Jo 8.28-29). Foi também o perfeito רֹאֶה, Vidente, ou, em termo mais poético, חֹזֶה. Dá testemunho daquilo que viu e ouviu: isso foi declarado pelo Batista a respeito de Cristo, de quem também disse: Quem veio do céu está acima de todos (Jo 3.31-32). Pelos olhos do seu espírito humano, o Deus-homem via os mistérios do seu próprio reino. Como Profeta e Vidente na sua Pessoa encarnada, ele era, em certo sentido, limitado. Na unidade com o seu Pai e com o Espírito Santo, era, nas suas próprias faculdades humanas, um Revelador para si mesmo dos tesouros da sabedoria e do conhecimento, ocultos nele mesmo, por algum tempo, à sua própria humanidade (Cl 2.3); e concedia à sua visão mortal contemplar o que ele comunicava. No seu conhecimento e nas suas declarações proféticas, vemos o que a mente humana é capaz de conhecer em união com a divina. Depois da sua ressurreição, ou antes, depois da sua ascensão, já não havia restrição alguma, e as faculdades humanas da pessoa divino-humana foram o órgão da perfeita revelação de todo o conhecimento que o homem possa algum dia ter ou de que venha a precisar.

II, 215Credenciais. 3. As credenciais do ofício profético de nosso Senhor estavam em harmonia com o seu duplo caráter, de enviado primeiro à sua própria geração e, assim, suscitado para o mundo.

Milagres. (1.) Como Ministro da circuncisão, ele deu, por meio de milagres, a demonstração que convinha a um mensageiro de Deus dotado de autoridade: exatamente tanto, e não mais. Os principais prodígios e sinais dos antigos profetas eram tipos das suas obras miraculosas, as quais, realizadas por ele mesmo ou pelos seus apóstolos (pois as obras deles eram dele), encerraram o reinado dos sinais comprobatórios.

Ele mesmo. (2.) Mas, como o Revelador supremo, ele não insistia nos seus milagres, porque ele mesmo era o Milagre dos milagres. Tudo o que veio antes e depois foi apenas prelúdio e eco tênues do seu único grande Prodígio: a manifestação de Deus na carne, a sua ressurreição dentre os mortos e a glorificação da natureza humana que ele realizou. Se não crerem que EU SOU, vocês morrerão nos seus pecados, e: Quando vocês levantarem o Filho do Homem, então saberão que EU SOU (Jo 8.24, 28). Aqui estava o segredo da autoridade com que ele falava. As suas palavras e as suas ações tinham em si uma atestação divina e irresistível, que se evidenciava Autoevidente. por si mesma. Nunca usou a linguagem de um profeta do Antigo Testamento: A palavra do Senhor veio a mim, ou o Espírito de Deus veio sobre mim (2Cr 15.1); mas: Em verdade, em verdade lhes digo! (Jo 10.7). Não reivindicou a inspiração, a influência sob a qual os profetas derramavam as suas palavras e os videntes viam as suas visões: não era inspirado por Deus, mas Deus encarnado. Daí o teor constante das suas declarações, no sentido de que todo aquele que é da verdade ouve a minha voz (Jo 18.37), e de que, se alguém fizer, ou quiser fazer, a vontade de Deus, conhecerá a respeito da doutrina (Jo 7.17). ESCUTEM O QUE ELE DIZ! (Lc 9.35) foi dito a respeito do Revelador quando a sua natureza divina foi manifestada na carne (1Tm 3.16) de modo mais intenso, na transfiguração.

Para o mundo. 4. Por fim, o ministério de Jesus como o Apóstolo da nossa confissão foi a revelação final para o mundo. É importante assinalar isso, pois tem estreita ligação com o apelo último em toda questão teológica e com a regra de fé na Igreja cristã. Nele, todo o ensino passado, presente e futuro era um só.

Fim do ofício profético. (1.) Nosso Senhor sempre assume um tom absolutamente definitivo. Com ele cessou o ofício profético: a profecia, como a lei, encontrou o seu fim em Cristo. Não há outra revelação, nem outro mensageiro de Deus depois dele. Os outros mestres que surgiram foram simplesmente homens que se assentaram aos seus pés, levando as suas palavras e expondo-as mais plenamente sob a influência do Espírito. Nada pode ser mais expresso do que as suas afirmações de que toda palavra futura de instrução seria apenas a sua própria palavra, continuada e desenvolvida.

II, 216Permanência. (2.) Antes de partir, ele tomou providências para a continuidade da sua própria função na Igreja cristã. Sem dúvida, ele exerce o seu ofício profético desde o seu trono nos céus. O grupo dos seus apóstolos perpetuou aquelas palavras dele que tinham valor permanente para a humanidade. Um desse grupo foi posto sob instrução e sempre declarou que o que tinha de doutrina nova ou ampliada para o mundo lhe fora dado por revelação de Cristo; e foi ele quem disse: Que a palavra de Cristo habite ricamente em vocês (Cl 3.16). O próprio Senhor repetiu do céu as suas instruções diretas: as sete igrejas as receberam para todos. Por meio do seu último apóstolo inspirado, porém, ele disse que todos os cristãos têm a unção que vem do Santo e todos têm conhecimento (1Jo 2.20). Assim, pelo seu Espírito, que é essa unção, o Revelador supremo continua a exercer o seu ofício profético na Igreja em geral e em cada cristão em particular.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 196-216, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.