W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O ministério mediador
A Expiação consumada. Essa visão histórica abrangente da manifestação do Salvador conduz, por fim, àquilo que é o seu único resultado no que diz respeito à salvação da humanidade. Esse resultado se chama ora Expiação, ora Redenção: o primeiro termo deriva da virtude eficiente da intervenção do Salvador; o segundo, do seu efeito. O ensino da Escritura sobre o assunto pode ser resumido assim. A Obra Consumada, tal como realizada pelo próprio Mediador na sua relação com a humanidade, é a sua obediência divino-humana considerada como sacrifício expiatório: a Expiação em sentido estrito. Depois, ela pode ser estudada nos seus resultados quanto a Deus, quanto a Deus e ao homem, e quanto ao homem. Primeiro, é a manifestação suprema da glória e da coerência dos atributos divinos; e, nesse aspecto, chama-se a Justiça de Deus. Segundo, no que diz respeito a Deus e ao homem, é a Reconciliação, palavra que envolve duas verdades, ou antes uma só verdade sob dois aspectos: declara-se a propiciação do desagrado divino contra o mundo; e, por isso, o pecado do mundo já não é obstáculo à aceitação. Terceiro, na sua influência sobre o homem, pode ser vista como Redenção: universal quanto à raça, limitada no seu processo e na sua consumação aos que creem.
Essas proposições gerais exprimem as revelações da Escritura sobretudo nos termos dela mesma. As modificações que receberam na teologia histórica serão consideradas depois, e em estrita subordinação. O termo EXPIAÇÃO CONSUMADA deve ser entendido como empregado aqui com um propósito triplo. Primeiro, quer assinalar o resultado compendioso, ou a suma, da obra de Cristo em todos os seus ofícios e na sua expressão final: quase todos os elementos da doutrina da Expiação foram introduzidos na seção anterior, que acompanhou a manifestação histórica do Mediador Redentor; mas agora o desfecho de tudo se apresenta na sua formulação acabada. Segundo, dá ênfase ao fato de que a obra de Cristo é aqui considerada objetivamente, como a expiação pela humanidade; é a redenção realizada, à parte da sua aplicação; é a base e o fundamento de tudo o que se segue na economia do Espírito Santo. Terceiro, esse sentido deve ser mantido distinto daquele que refere a obra consumada de Cristo à salvação garantida dos eleitos, pondo a ênfase em que ela foi consumada EM FAVOR DELES de uma vez por todas e para sempre. Ela é perfeita no desígnio de Deus e na obra do seu Filho; mas a sua aplicação aos pecadores individuais está sempre recomeçando.
O sacrifício vicário. O sacrifício do nosso Salvador na cruz consumou uma obediência perfeita, que ele ofereceu na sua Pessoa divino-humana. Essa obediência era dele próprio e, por isso, de valor ou dignidade infinitos; mas era vicária, e o seu benefício pertence absolutamente à nossa raça e, sob certas condições, a cada membro dela. Enquanto vale para o homem, por designação de Deus, ela não é nada menos que a satisfação, provida pelo amor divino, das exigências da justiça divina sobre a transgressão. Essa satisfação pode ser vista, de um lado, como expiação propriamente dita da pena devida à culpa do pecado humano e, de outro, como propiciação do desagrado divino, o qual assim se mostra compatível com uma boa vontade infinita para com os pecadores da humanidade. Mas a expiação da culpa e a propiciação da ira são um só e o mesmo efeito da Expiação. Ambas supõem a existência do pecado e a ira de Deus contra ele. Mas, no mistério da Expiação, a provisão da misericórdia eterna, por assim dizer, antecipa a transgressão, e o amor, em todas as representações dela, tem sempre a preeminência. A paixão é antes a demonstração do que a causa do amor divino pelo homem.
A Expiação em sentido estrito. Considerada como dele próprio, a obra expiatória de Cristo foi uma perfeita Obediência espontânea e um perfeito Sacrifício espontâneo à Vontade do Pai, que lhe foi imposta. Os dois termos podem ser considerados, na sua diferença e na sua unidade, como aquilo que constitui o ato e a virtude da Expiação. A sua dignidade, ou o que às vezes se chama o seu mérito, liga-a à raça humana e depende de duas outras verdades: ela não era devida em favor dele mesmo, mas foi um ato de caridade infinita para com o homem; e esse ato foi divino, tanto no seu valor como na sua eficiência. A oferta do Redentor teve eficácia infinita para a raça humana.
O ato. A expiação foi a OBEDIÊNCIA de nosso Senhor até a morte; e foi o SACRIFÍCIO da sua vida em perfeita obediência. Há uma passagem na Epístola aos Hebreus que une perfeitamente essas duas representações: Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade! (Hb 10.5-10). Essas palavras, ditas duas vezes, apresentam toda a obra do Salvador como um único grande ato de obediência. Mas são precedidas e seguidas de uma referência ao sacrifício. Primeiro, aos sacrifícios que se oferecem segundo a lei, que são removidos: Sacrifício e oferta não quiseste, mas preparaste um corpo para mim; depois, à sua própria oblação perfeita: Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas. A obediência à vontade de Deus é o sacrifício do corpo preparado para o nosso Mediador, que fez a expiação.
Obediência ou sacrifício. 1. Qualquer dessas palavras, tomada sozinha, exprime a qualidade e o caráter do ato expiatório. (1.) Foi uma grande OBEDIÊNCIA, na submissão perfeita da sua vontade à vontade do Pai, que exigia a entrega da sua vida como pena da culpa: tudo se resumiu nessa única palavra. Ele assumiu o serviço da redenção do homem tal como lhe foi imposto e o cumpriu em todas as suas exigências, até o sofrimento da pena do desagrado divino contra o pecado: tornou-se obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2.8). Como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos (Rm 5.19). Aqui toda a obra da expiação é uma única obediência, que contrabalança o ato da desobediência do homem. (2.) Mas foi também o suportar passivo de uma sorte que lhe foi imposta desde o momento em que assumiu a nossa natureza; e isso se exprime pela palavra SACRIFÍCIO. É verdade que o nosso Representante ofereceu o sacrifício livremente, por sua própria vontade; mas toda a série e todo o pormenor das suas humilhações, tristezas e desamparos vieram sobre ele como que de fora: da misteriosa pressão do pecado sem culpa, da inimizade do mundo e de Satanás, da visitação do Pai. Toda a sua existência encarnada na terra foi um manso suportar: Não é verdade que o Cristo tinha de sofrer…? Assim está escrito! (Lc 24.26, 46).
II, 266Obediência e sacrifício. 2. A diferença entre elas, porém, também deve ser assinalada, embora agora só em relação ao próprio Senhor. (1.) A Obediência considera toda a obra de Cristo como um cumprimento ativo da justiça, que passa por todos os estágios até a sua consumação na morte. Como Representante designado da humanidade, ele tinha uma obra expiatória a realizar, que incluía o dever ordinário da natureza humana e também o excedia infinitamente. Contudo, ele aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu (Hb 5.8). Nunca lemos de obediência alguma do Deus-homem que não fosse submissão e sofrimento paciente. Foi por essa porta que ele entrou na sua carreira de dever. A lei moral era para ele como lei escrita de novo e num só caractere, como o desdobramento de um único dever. Não se diz que a sua obediência foi aperfeiçoada pelo sofrimento, mas que ele mesmo, como Sofredor, foi aperfeiçoado por meio de sofrimentos (Hb 2.10). A sua submissão suprema a essa lei foi a sua obediência consumada; e essa perfeita entrega de si mesmo, provada e aprovada na tentação extrema, foi o lado ativo da sua expiação: a negação do próprio pecado na sua Pessoa, como representante da humanidade. (2.) Mas os mesmíssimos atos e sofrimentos que desfizeram ou cancelaram o pecado da humanidade foram um suportar sofrido da pena do pecado; e esse foi o lado passivo da sua expiação: o tributo de satisfação expiatória à justiça do Legislador. O mistério e a perfeição do Ato Expiatório do nosso Salvador estão nisto: sendo vicário, esse ato fez, num só e mesmo momento, que tanto o pecado como a pena fossem como se não existissem. Visto por um lado, ele representa o homem que cancela o seu pecado por uma nova obediência; visto por outro, representa o homem que paga a dívida como pena.
II, 267Unidade e diferença. 3. Talvez se lance alguma luz tanto sobre a unidade como sobre a diferença desses dois termos se os referirmos, respectivamente, ao Tribunal Mediador e ao Templo Mediador. Considerado como tributo à Justiça, o Ministério de nosso Senhor é simples e unicamente uma grande Obediência, ativa E passiva, e nada mais. A lei exige tanto a obediência como a pena da desobediência: não as duas ao mesmo tempo da parte do homem e nos tribunais humanos; mas da parte do Representante do homem e no tribunal divino as duas são exigidas, e as duas são oferecidas na sua vida e na sua morte. Considerado como tributo à Santidade da natureza divina, o Ministério de nosso Senhor é um sacrifício que Deus aceita como oferecido em favor da raça humana. Transferida para o Santo dos Santos, a satisfação da justiça divina torna-se uma satisfação do amor divino. E aqui entra a mesma combinação, tão maravilhosa, de duas ideias. Como sacrifício expiatório à santidade de Deus, a alma do pecador não podia ser ao mesmo tempo oferecida na morte e aceita como viva; não podia ser ao mesmo tempo oferta pelo pecado condenada à destruição e holocausto agradável a Deus. Mas no Representante do homem, junto ao santo altar, essas duas coisas se encontram da maneira mais gloriosa. Ele apresentou um sacrifício que foi o verdadeiro suportar da consequência da transgressão: de uma vez para sempre morreu para o pecado (Rm 6.10). Mas essa morte foi também o SACRIFÍCIO VIVO (Rm 12.1) da nossa natureza humana, devolvida a Deus de novo na sua perfeição. Assim como no tribunal da lei a obediência perfeita é prestada pelo cumprimento de um dever que foi também o sofrimento da pena da desobediência, assim também no templo da santidade uma expiação da culpa pela morte é ela mesma a manifestação da propiciação para com o ofensor vivo. Parecem paradoxos; mas exprimem o próprio segredo e mistério da nossa redenção. Nunca será demais insistir, porém, em que esses dois termos são apenas aspectos de uma só expiação. Como obediência até a morte, ela se torna nossa na justificação; como sacrifício de entrega de si mesmo, torna-se nossa na santificação.
Mérito. O termo EXPIAÇÃO [N. do T.: em inglês, atonement; na versão inglesa seguida por Pope, Rm 5.11 diz received the atonement, onde a NAA traz “recebemos, agora, a reconciliação”], pelo qual os escritores sagrados exprimem a ideia de Reconciliação como efeito da obra de Cristo, é usado na teologia moderna para exprimir a virtude da paixão redentora A virtude. enquanto se apoia no mérito daquele que a sofreu. O valor da oblação perfeita é de grande importância, como o elo que a liga a nós. Nenhuma dessas duas palavras é usada na Escritura, a qual, no entanto, sempre pressupõe e implica o preço inconcebível pelo qual se devem avaliar tanto a Pessoa como a obra do próprio Redentor.
II, 268Não para si mesmo. 1. Nada do que pertence à história encarnada de Jesus pode ser considerado como terminando nele mesmo. Ele não foi homem por causa de si mesmo: se ele se tivesse unido a nós para a sua própria glória, a sua aliança com a nossa raça não teria sido por encarnação e nascimento na sua linhagem mortal. Ele se fez homem para nos dar aquilo de que ele mesmo não precisava. Haveria virtude, mas não mérito, nos sofrimentos de alguém que expiasse o seu próprio pecado e, nesse sentido, fosse aperfeiçoado pelo sofrimento. Lembrando que o dever do Redentor era a sua paixão, e que, no seu exemplo tal como nos é proposto, isso está sempre em primeiro plano, se não sozinho, veremos a força das palavras de são Pedro: também Cristo padeceu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos (1Pe 3.18). Quase todas as principais apresentações da Expiação na Escritura põem em relevo a ausência de pecado no Redentor; e isso implica que a sua paixão foi voluntária e em favor de outros. Em parte alguma a justiça ativa é considerada obrigatória para Cristo: ele desceu a um tipo de obediência que não era necessidade do seu ser. Por isso, tanto como Sacrifício quanto como Obediência, a obra do Senhor foi por nós: meritória, para usar o nosso termo humano, por não ser exigida para ele mesmo.
Humano. 2. A própria obra expiatória foi uma manifestação de caridade perfeita, considerada como oferecida por um Homem. Se nos esforçarmos por nos elevar à concepção de que a obediência e o sacrifício de nosso Senhor foram apresentados por um membro da nossa raça não contaminado pelo pecado e, por isso, creditados a essa Pessoa como algo preciosíssimo aos olhos do Céu, e depois acrescentarmos a isso que, sendo Deus, ele pode conceder às suas criaturas esse Dom da sua própria obra, teremos então o ensino bíblico de uma oferta apresentada pelo Homem em favor de si mesmo: uma oferta que combina o supremo amor a Deus e a suprema caridade para com a humanidade, na mais alta perfeição de ambos. Ora, devemos considerá-la assim, como a nossa própria oblação. O Homem estava em Cristo reconciliando Deus consigo mesmo pela mais preciosa oblação. Somos de Cristo, e Cristo é nosso. O Redentor não era posse sua, mas nossa. Ele se deu A nós antes de se dar POR nós. Quando ele obedeceu até uma morte sacrificial, nós desfizemos o nosso pecado por uma obediência perfeita e, ao mesmo tempo, demos a nossa vida e o nosso tudo como pena pelo nosso pecado. O nosso Representante redentor foi ao mesmo tempo a nossa Oferta pelo Pecado e o nosso Holocausto: nele damos a nossa vida à justiça e apresentamos de novo a Deus a nossa vida expiada, e as duas coisas numa só.
II, 269Divino. 3. Mas a virtude, o valor e o mérito da Expiação devem ser medidos pelo valor da Pessoa daquele que é ao mesmo tempo a Oferta e o Ofertante. É uma abstração irreal o que consideramos quando falamos da Grande Oblação como apresentada pelo homem. Mas ela se torna uma realidade concreta, a mais bendita, quando a vemos como oferecida pelo Deus-homem, que deu a si mesmo (1Tm 2.6). Como Deus, ele deu a sua vida humana, e mais do que isso: deu com ela o valor da sua Filiação divina. Como Homem, ele se apresentou livremente em obediência ao Pai; mas foi o Espírito eterno da sua divindade que lhe deu força para fazer a oferta e lhe imprimiu o seu valor, uma vez feita. Aqui está o segredo do mérito do nosso Salvador: o mérito não é senão a palavra humana para o comprazimento divino na submissão do seu Filho. Este é o meu Filho amado, em quem me agrado (Mt 17.5). O sentido aqui é que Deus pode olhar para este Homem, ou Representante do homem, com mais do que a satisfação original com que contemplava Adão. Ele viu o seu Filho amado encarnado; e, quando exprimiu o seu comprazimento, foi sobre toda a obra e paixão de Cristo, antecipada como consumada e, como consumada, tornada disponível para a raça humana.
A Expiação em sentido estrito. Na medida em que a Expiação vale para a raça humana e é, portanto, nossa, deve ser considerada como satisfação vicária das exigências da justiça divina, ou expiação propriamente dita da culpa do pecado, e como propiciação do favor divino.
Vicário. Nenhum adjetivo equivalente ao termo Vicário, no sentido de exprimir a relação do Redentor com a humanidade, é usado na Escritura; nem há nela equivalente algum para Substituição, o substantivo que corresponde ao adjetivo. Mas a ideia de uma representação estritamente vicária está na raiz do seu ensino. Uma substituição absoluta da obediência ou do sacrifício do Salvador em lugar do sofrimento e da obediência do seu povo não é ensinada na Palavra de Deus. No caso do seu povo, a ideia de substituição é qualificada, de um lado, pela de representação e, de outro, pela da comunhão mística dos seus santos. Se em algum ponto ela não sofre qualificação, é com referência à raça em geral, ou ao mundo da humanidade.
II, 270Em favor da raça. I. A qualidade puramente vicária da obra do nosso Salvador se refere somente ao mundo ou à raça. Cristo, na sua Pessoa, é o Filho do Homem; e, como o novo Adão, a Cabeça e a Síntese da humanidade, está no lugar de todos os que ele representa. Tudo o que ele é, faz e sofre, ele o é, faz e sofre por toda a família humana. Adão representou todos, a multidão que não existia senão nele; nosso Senhor representou os mesmos, que não existiam senão nele. Antes que os homens existissem, ele assumiu uma relação universal com eles, e essa relação há de ter sido estritamente vicária. A preposição ἀντί, “em lugar de”, é usada por nosso Senhor numa sentença que deve reger todas as outras: o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20.28); onde os muitos são todos, são Paulo emprega ὑπέρ: se um morreu por todos, logo todos estavam mortos, ou, antes, todos morreram (2Co 5.14) [N. do T.: a NAA traz “um morreu por todos; logo, todos morreram”]; e as duas preposições, unidas e reforçadas, são usadas por ele de novo no fim do seu ensino, numa frase que condensa mais da substância da doutrina do que qualquer outra: Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem, que deu a si mesmo em resgate por todos, testemunho que se deve dar em tempos oportunos (1Tm 2.5-6): ἀντίλύτρον ὑπὲρ πάντων, e tanto a palavra como a construção são únicas na literatura grega. A ideia de substituição está profundamente gravada aqui; e nesta, que é a sua expressão mais forte no Novo Testamento, a universalidade vicária se afirma de três modos: a Pessoa é HOMEM, pelos homens; ele é resgate POR TODOS; e o contexto não admite limitação, pois a intercessão foi pedida em favor de todas as pessoas (1Tm 2.1), e pedida a Deus, que deseja que todos sejam salvos (1Tm 2.4).
Quanto ao indivíduo. II. A relação vicária de nosso Senhor com o seu povo, que recebe subjetivamente a Expiação, é modificada pelas duas ideias da representação e da união mística pessoal com ele.
Representação. 1. A primeira é corrente no Novo Testamento, que invariavelmente apresenta Jesus à frente de uma comunhão de homens por amor dos quais ele fez e sofreu tudo, para que, por meio da sua mediação expiatória, tivessem acesso e esperança. A doutrina não é que uma pena foi suportada por Cristo em lugar do seu povo; que ele ocupou o lugar legal deles e assumiu a responsabilidade legal deles; e que, portanto, eles estão quites para sempre. É, antes, que uma oferta sacrificial foi apresentada por ele em lugar da raça; e que ele, fazendo da virtude da sua expiação a força do seu apelo, representa todos os que por ele se aproximam de Deus (Hb 7.25). A propiciação oferecida em favor de todos os homens, e aceita, só se torna eficaz para o penitente que a abraça confiando naquele a quem Deus apresentou como propiciação, no seu sangue, mediante a fé (Rm 3.25). Assim também Cristo comparece por nós, diante de Deus (Hb 9.24), isto é, em nosso favor. A sua obediência sacrificial não é vicária no sentido de desobrigar todos os seus beneficiários de fazer e sofrer; pois foi oferecida em favor do mundo inteiro (1Jo 2.2), e podem perder-se aqueles pelos quais Cristo morreu (1Co 8.11).
II, 271União com ele. 2. A união do crente com o seu Senhor dá outra qualificação à ideia vicária. A substituição pura e simples é incompatível com o pensamento de que a virtude da Expiação dependa, de algum modo, da participação pessoal em Cristo pela fé. Mas nada é mais certo do que isto: a Expiação só é válida para os que estão misticamente unidos à sua Cabeça na morte e na ressurreição dele. São Paulo diz, não só por si mesmo, mas por todo crente: Estou crucificado com Cristo… que me amou e se entregou por mim (Gl 2.19-20). E fala habitualmente da comunhão com o Salvador na sua morte e ressurreição como aquilo que faz da Expiação geral a posse individual. Ora, essa união com Cristo pela fé não significa, de um lado, que o crente deva acrescentar alguma coisa à expiação suprema: essa é uma perversão que foi imposta à doutrina. Mas, de outro, exclui a possibilidade de uma substituição vicária tal que torne a obra expiatória de Cristo absolutamente independente da nossa relação com ela. A propiciação, no seu sangue, é mediante a fé (Rm 3.25); e essa fé, unindo a alma a Cristo, qualifica, sem enfraquecer, o caráter verdadeiramente vicário da Expiação.
Linguagem da Escritura sobre a Expiação. Há dois termos gregos, ou famílias de termos, dos quais dependem os pormenores da doutrina que acabamos de expor: ἱλασμός e καταλλαγή são os seus representantes. As relações entre eles são claras e distintas nas Escrituras originais; mas estão, em certa medida, confundidas na nossa atual tradução inglesa.
II, 272Expiação. 1. O primeiro assume três formas principais no Novo Testamento. Cristo é o Ἱλασμός, a virtude da propiciação e o Propiciador: ele é a propiciação pelos nossos pecados (1Jo 2.2); não o Ἱλαστήρ [aquele que propicia], porque o processo do seu propiciar se perde no efeito. Ele é a expiação viva. É também o ἱλαστήριον, o Kapporeth, ou Propiciatório, segundo o uso da palavra na Septuaginta: a quem Deus apresentou como propiciação (Rm 3.25), isto é, como propiciatório, entre si mesmo e os pecadores. Ou, se a palavra for adjetivo, subentende-se θῦμα, e ele é um sacrifício propiciatório. Como Sumo Sacerdote, diz-se dele ἱλασκέσθαι τὰς ἁμαρτίας, isto é, expiar os pecados; uma tradução inglesa correta dá este sentido: fazer propiciação pelos pecados do povo (Hb 2.17).
Reconciliação. 2. O segundo é a palavra que a versão inglesa traduz ora por atonement, “expiação”, ora por reconciliation, “reconciliação”: este último, porém, é o seu sentido estrito; ou atonement, se essa palavra conservar o seu sentido original de AT-ONE-MENT [N. do T.: a palavra inglesa lida por partes: at one (“em um”, “de acordo”) mais o sufixo -ment; isto é, o pôr de acordo, a conciliação]. O verbo καταλλάσσειν significa a virtude da mediação de Cristo enquanto compõe uma desavença entre Deus e o homem; e καταλλαγή, o resultado: a nova relação em que o mundo está para com Deus, já não sendo ele um ἀντίδικος [adversário], e já não sendo o mundo objeto de ira. O contexto, nas duas passagens em que o verbo é usado, mostra que Deus é o antagonista; disso se falará mais adiante.
Tudo vem de Deus. 3. Esses dois verbos têm Deus por Sujeito, e não por Objeto. O Ser Supremo reconcilia o mundo consigo mesmo; não se diz que ele é reconciliado: isso simplesmente dá expressão à grande verdade de que toda a provisão para o restabelecimento da paz vem do alto. Deus é reconciliado com o homem, mas em Cristo (2Co 5.19), que é ele mesmo Deus: ele é, portanto, o Reconciliador ao mesmo tempo que é o Reconciliado. Assim também a palavra expiar se refere a um ato de Deus: não se diz que ele é propiciado, mas que ele propicia a si mesmo, ou se faz próximo, provendo uma expiação pelo pecado. A rigor, o sacrifício expiatório declara uma propiciação que já existe no coração divino.
4. A comparação das duas passagens já mencionadas ilustrará isso. Na primeira, também nos gloriamos em Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo, mediante o qual recebemos, agora, a Expiação (Rm 5.11), τὴν καταλλαγήν: esta última palavra deveria ser traduzida por a Reconciliação [N. do T.: a NAA traz “a reconciliação”]. Na outra, misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus, para fazer reconciliação pelos pecados do povo (Hb 2.17), ἱλάσκεσθαι τὰς ἁμαρτιας deveria ser traduzido por fazer expiação pelos pecados [N. do T.: a NAA traz “para fazer propiciação pelos pecados do povo”]. Se os termos Expiação e Reconciliação trocassem de lugar nessas passagens, o sentido ficaria mais claro. A esse respeito, pode-se observar que há semelhante falta de uniformidade de linguagem na tradução inglesa do Antigo Testamento. A expressão לְכַפֵּר é o termo técnico habitual para a cobertura cerimonial do pecado, como nesta passagem principal: Porque a vida da carne está no sangue. Eu o tenho DADO a vocês sobre o altar, para fazer expiação PELA vida de vocês, porque é o sangue que fará expiação NA vida (Lv 17.11) [N. do T.: Pope traz in the soul, “na alma”; a NAA traz “pela vida”]. Aqui se podem relembrar três coisas já mencionadas. A expiação é dada, ou instituída, por Deus: é a sua própria ordenança, divina e eterna, de cancelar o pecado. Depois, é a vida, ou alma, que está no sangue, e não o próprio sangue, que faz a expiação. Por fim, a vida expiatória cobre a alma em favor da qual tem eficácia. É evidente que, nesta passagem central, o pecado é o objeto de toda a transação. Jeová, reconciliado ou propiciado, mostra o seu método de expiar a transgressão. Mas em algumas outras passagens o mesmo verbo é traduzido, como no Novo Testamento, por reconciliar, como se se devesse subentender τὸν Θεόν [a Deus] depois de ἱλάσκεσθαι. Pode-se citar uma que representa muitas: E, quando ele acabar de reconciliar o santuário (Lv 16.20) [N. do T.: a NAA traz “Depois de fazer expiação pelo santuário”], onde a ideia é a de aplicar a virtude da Expiação ao lugar, que só assim pode conservar a Presença que nele habita. Uma comparação cuidadosa do verbo e do substantivo hebraicos com os seus equivalentes na Septuaginta e na versão inglesa mostrará que muitas noções acessórias se ligaram a eles, como resgate, purificação, satisfação, propiciação. Mas permanece o pensamento fundamental de que a Expiação é uma Cobertura providenciada por Deus para a alma pecadora e culpada do homem.
Linguagem teológica. Há certas modificações desses dois termos principais que, tanto por inflexão como por acréscimo, foram introduzidas na teologia histórica. A melhor maneira de estudá-las é em alguns dos seus aspectos recíprocos.
II, 274Satisfação e expiação. 1. A ideia específica de SATISFAÇÃO foi acrescentada à de EXPIAÇÃO PROPRIAMENTE DITA. A primeira é no tribunal o que a segunda é no templo. No sofrimento de Cristo faz-se reparação à honra do Legislador e às exigências da lei: e isso é satisfação. O sangue e a vida expiatórios da Vítima cobrem a alma culpada, de modo que o seu pecado não é visitado com castigo: e isso Satisfação ao amor, é expiação. Mas a ideia, referida ao Ser divino, é na realidade dupla: é a satisfação do seu amor inefável, que providencia a Expiação; e é a satisfação da sua santidade eterna, que tem de ser fogo consumidor para o mal. Referida à e à lei. lei, é pura e simplesmente suportar a sua sentença ou sanção, sem a qual a lei não é lei: este último é o sentido teológico comum, mas o primeiro não deve ser esquecido. A palavra não se encontra nas nossas Escrituras senão uma vez: Não aceitem satisfação, כֹּפֶר, pela vida do homicida (Nm 35.31-32) [N. do T.: Pope fala da versão inglesa; a NAA traz “resgate”]. Para ele não havia expiação levítica: ele deve ser morto. No uso comum, para significar a reparação ilimitada feita pela desonra que o pecado causou à majestade da santidade, a palavra não tem no Novo Testamento apoio direto, embora tenha abundante apoio indireto. Mas ela sempre se funde com a ideia de propiciação: Deus é propício, isto é, favoravelmente trazido para perto de toda a raça humana; agora só há um ἀνθρωποκτόνος [homicida] (Jo 8.44), para o qual o direito eterno não aceitará satisfação. E a satisfação oferecida no sacrifício de Cristo é uma satisfação do amor divino antes de ser considerada reparação à justiça divina.
Expiação e propiciação. 2. Por isso, a EXPIAÇÃO PROPRIAMENTE DITA e a PROPICIAÇÃO, que nas Escrituras são uma só coisa, devem ser separadas na teologia. A expiação refere o sacrifício ao pecador e ao pecado; a propiciação o refere ao Supremo, cujo desagrado (não a sua justiça, pois a justiça não pode ser propiciada) se declara aplacado. Ambos os termos têm nas Escrituras um sentido elevado e glorificado, em comparação com a linguagem e as concepções seculares. A expiação exige sacrifício: tem de haver uma vítima, pois essa palavra, seja no paganismo, seja na revelação, pertence ao ritual do templo. As expiações pagãs consideravam apenas o sangue e a morte vicária, que a consciência culpada da humanidade sempre apresentou em vão para aplacar as divindades. A expiação revelada considera a vida como presente no sangue, tendo sempre em vista aquela morte sacrificial que foi oferecida por um Sacrifício vivo. Num só e mesmo símbolo, sofria-se a morte, e o sangue era aspergido em sinal disso; e também a vida sem mácula da vítima se interpunha entre a justiça e o pecador, cobrindo a sua pessoa e a sua culpa. Propiciação, de PROPE, perto, indica na Bíblia que o favor e o beneplácito de Deus são atraídos para o pecador pela mediação de Jesus. ELE É A PROPICIAÇÃO (1Jo 2.2) porque nele Deus está mais perto do homem pecador do que até do homem não caído. O fato de que a santa ira é desviada pela satisfação expiatória é um segredo que está por trás da encarnação: na própria essência do Deus triúno. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10). Permanece a verdade profunda de que a ira divina e o amor divino se revelam ao mesmo tempo em Cristo; mas, na nossa linguagem, o amor deve ter a primazia.
II, 275O termo moderno Expiação 3. A palavra ATONEMENT [expiação] passou por certa mudança. No Novo Testamento, é antes um termo legal, que significa a restauração de uma relação pacificada, καταλλαγή. Mas, como palavra teológica, e não bíblica, ela volta do sentido que tem no Novo Testamento ao do Antigo Testamento. Exprime a virtude divina daquela obra mediadora que reconcilia no próprio Deus o amor e a santidade, a justiça e a misericórdia: no próprio Deus, antes que a Reconciliação Expiação. fosse exibida no mundo. Da distinção entre essa Expiação, eternamente em Deus, e a Reconciliação no mundo do tempo teremos de falar outra vez. Basta dizer que a palavra, no nosso uso corrente, dá testemunho não da restauração da comunhão com Deus, mas da virtude do Grande Sacrifício pelo qual essa restauração se manifesta ou se efetua. Por A EXPIAÇÃO entendemos toda a economia da intervenção salvadora de nosso Senhor, tal como se consumou na cruz. Ela é o ἵλασμος e o ἱλάσκεσθαι que correspondem ao כַּפֵּר e ao כֹּפֶר. Assim como empregamos o termo Redenção para designar a obra de Cristo enquanto salva o homem em geral, e o termo Reconciliação para significar o ministério pelo qual essa salvação é proclamada, assim também usamos o termo Expiação para abranger a virtude da obra redentora enquanto torna a misericórdia divina propícia à nossa raça. Na verdade, é a fórmula teológica de tudo o que pertence a essa obra.
Resultado da Expiação. Depois de examinar a Expiação tal como apresentada por Cristo, com a sua virtude ou mérito expiando o pecado e satisfazendo as exigências da justiça e do amor divinos, devemos agora considerá-la no seu efeito, como ato consumado. O resultado da Oferta única é representado nas Escrituras na sua relação com Deus, com Deus e o homem, e com o homem. Quanto a Deus, é a manifestação final e salvadora da sua glória; quanto a Deus e ao homem, é a Reconciliação; quanto ao homem, mais particularmente, é a Redenção. Estes, porém, são apenas aspectos diferentes de uma só e mesma Expiação, que o Novo Testamento distingue, embora não de modo sistemático.
Quanto a Deus. Na obra consumada de Cristo, o Nome, os atributos e o governo de Deus são exibidos e glorificados da maneira mais plena. O Nome triúno é dado a conhecer; o amor e a justiça de Deus têm a sua mais alta e melhor manifestação, como expressão da vontade divina; e o governo moral do Supremo é supremamente vindicado.
O Nome triúno. O nome do Deus triúno é dado a conhecer de modo especial, e por isso glorificado, na mediação do Redentor encarnado. A revelação da Trindade está ligada à revelação da redenção; o desenvolvimento de uma foi o desenvolvimento da outra, e ambas foram aperfeiçoadas juntas. O Filho, dirigindo ao Pai uma oração que considera a Expiação como realizada, declara: Manifestei o teu nome àqueles que me deste do mundo (Jo 17.6). Isso só pode referir-se à revelação daquele novo nome de Pai que a encarnação e o ensino do Filho haviam manifestado. Pouco antes, ele dissera: Pai, glorifica o teu nome; e veio a resposta: Eu já o glorifiquei e ainda o glorificarei (Jo 12.28). O seu próprio nome de Filho era agora dado a conhecer pela primeira vez: Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele (Jo 13.31). Só no Filho o Pai é revelado; e não há Filho revelado senão na redenção. Por isso, a oração do Salvador pede que a glorificação mútua do Pai e do Filho seja completa: Pai, é chegada a hora. Glorifica o teu Filho, para que o Filho glorifique a ti (Jo 17.1). E isso deve ser interpretado à luz do discurso anterior, o qual mostra que a plena revelação do nome do Filho, aqui pedida em oração, tinha de aguardar a manifestação de um terceiro Nome, o do Espírito Santo. O Espírito divino é o Revelador tanto do Pai como do Filho; e no dia de Pentecostes o eterno mistério da Trindade foi plenamente dado a conhecer: Deus reservou a sua mais profunda revelação de si mesmo para a Expiação consumada. Nosso Senhor só pronunciou o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19) depois da sua ressurreição. O mistério do seu perfeito amor desvendou o mistério da sua perfeita essência. Mas esse assunto já foi discutido ao tratarmos da Trindade mediadora.
Os atributos divinos. Os atributos de Deus são glorificados, tanto cada um em particular como todos em conjunto, e de maneira transcendente, pela mediação do Encarnado. Isso, de fato, está incluído no sentido da oração para que o Nome de Deus fosse glorificado no seu Filho; pois esse Nome não é apenas o Nome triúno, mas o conjunto das perfeições divinas. Em todo o Antigo Testamento e no Novo, as glórias divinas, especialmente aquelas que neste contexto podemos chamar de glórias dos atributos morais, condensam-se sobre o propiciatório, recebendo dele a sua mais alta ilustração. Há uma exibição gradual da majestade eterna. Os céus proclamam a glória de Deus (Sl 19.1), ao passo que toda a terra está cheia da sua glória (Is 6.3). Além disso, Deus é conhecido em Judá; grande é o seu nome em Israel (Sl 76.1), mas é o templo de Israel que as abas de suas vestes enchiam. E o próprio templo se enche apenas do esplendor difuso: foi no Santo dos Santos que ele apareceu na nuvem sobre o propiciatório (Lv 16.2). A revelação perfeita do Deus triúno no Filho encarnado da Divindade apresentou os atributos divinos sob um novo aspecto, e de outro modo o homem mortal nunca os conhecerá. Deus, que disse: “Das trevas resplandeça a luz”, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo (2Co 4.6). E no Novo Testamento é evidente que, quase sem exceção, toda referência às perfeições de Deus, em conjunto ou individualmente, diz respeito à sua exibição na obra de Cristo. Pelo menos, todas as outras alusões conduzem a isso. Para não repetir o que já foi posto em destaque ao tratarmos dos atributos divinos, bastará mencionar a nova e perfeita revelação da santidade e do amor de Deus, tal como se manifesta na Expiação.
II, 278Amor. 1. Este último tem aqui a primazia. Nunca o amor de Deus, em sentido absoluto, é associado às obras da criação nem às dispensações gerais da providência. Sobre elas reina a benignidade, mas a caridade divina está reservada para a Expiação. Ela dá um novo nome à natureza de Deus: DEUS É AMOR (1Jo 4.8). Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho para ser a propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10), onde podemos omitir o para ser [N. do T.: a NAA traz “como propiciação”].
Santidade. 2. A SANTIDADE divina é exibida de modo tão notável quanto o amor divino, no que diz respeito ao processo da redenção. O amor é supremo na origem e será supremo no fim, pois a misericórdia se regozija contra o juízo (Tg 2.13) [N. do T.: a NAA traz “A misericórdia triunfa sobre o juízo”], não sobre ele, embora frente a frente com ele; mas, na própria obra expiatória, a justiça da santidade, que exige o castigo e o extermínio do pecado, manifesta-se da maneira mais terrível que a mente humana é capaz de conceber.
Distinção entre santidade e amor. 3. É importante lembrar que a Escritura Sagrada nunca faz entre o amor e a santidade de Deus uma distinção como a que a teologia julga necessário estabelecer. A misericórdia que providencia a Expiação e a justiça que a exige são uma só nos recônditos da natureza divina. A sua união, ou identidade, perde-se para nós nas densas trevas da luz da qual não podemos nos aproximar. A cruz de Cristo, ou melhor, toda a mediação do Redentor, revela igualmente e ao mesmo tempo as duas. Nisto consiste o amor (para citar mais uma vez a revelação final das Escrituras sobre o assunto): não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10). Na nossa fraqueza, achamos necessário corrigir a nossa avaliação de um atributo apelando para o outro. A Escritura quase não condescende com essa fraqueza. Fala da ἀγαπή [amor] divina como ordenando toda a economia daquilo que, no entanto, é um ἱλασμός, ou propiciação (1Jo 4.10), e da εὐδοκία [beneplácito] divina como ordenando toda a economia daquilo que, no entanto, é uma καταλλαγή (Cl 1.19). Veremos mais adiante como essas quatro palavras se encontram no sacrifício da cruz, onde o amor reina por meio do sacrifício infinito do amor.
II, 279Unidos. 4. Mas o que a obra de Cristo exibe é a glória e a unidade de todos os atributos na sua perfeição. Não há nada que pertença à nossa concepção da natureza divina que não se manifeste no seu Filho, o qual, tanto na sua justiça ativa como na passiva, revela tudo o que há no Pai. Na verdade, o homem só conhece a Deus como Deus de redenção, e jamais o homem o conhecerá de outro modo. Em todas as Escrituras da verdade temos uma revelação gradual do Ser divino, que só se completa quando se completa em Cristo: Deus também, tanto quanto o homem, é ἐν Αὐτῷ πεπληρωμένος, COMPLETO NELE [N. do T.: Pope adapta Cl 2.10, que a NAA traduz “nele, vocês receberam a plenitude”]. Não basta dizer que a Trindade que os cristãos adoram se dá a conhecer em Jesus, e que este ou aquele atributo que a teologia lhe confere se ilustra na sua obra. O próprio Deus, com toda ideia que formamos da sua natureza, nos é dado pela revelação de Cristo. O Ser gracioso e tremendo que se apresenta nas Escrituras cristãs não é, em todos os aspectos, uma divindade tal como a razão humana a inventaria, ou a toleraria se lhe fosse apresentada. Mas para nós há UM SÓ DEUS, e temos de recebê-lo tal como ele se dá a conhecer a nós por meio do mistério da mediação expiatória do seu Filho. O seu Nome só é proclamado na cruz; ali temos a sua divina e única bênção; e toda doxologia do Apocalipse tira da Expiação a sua força e o seu fervor.
A vindicação do governo divino. O governo do Supremo Governante do universo é perfeitamente vindicado pela Expiação. São Paulo se detém muito nesse efeito da obra de Cristo, e talvez seja este o modo mais evidente e compreensível de considerá-la. Esse efeito dá o seu colorido a grande parte da linguagem do Novo Testamento, mas sobretudo aos discursos registrados desse apóstolo e à principal das suas epístolas.
II, 280Três teorias. 1. Há nas Escrituras três concepções da Expiação. Às vezes ela é considerada o resultado de um mistério que se realizara na mente divina antes da sua manifestação no tempo. Outras vezes, é apresentada como demonstração do amor de Deus pela humanidade e do sacrifício de si mesmo em Cristo por amor dela, como que para mover o coração dos homens ao ódio do pecado e ao desejo de retribuir tamanha misericórdia. A rigor, isso não é dado como explicação da Expiação: o Novo Testamento não autoriza a ideia de que o sacrifício de si mesmo feito por nosso Senhor seja usado como argumento junto aos pecadores. Nunca é usado assim. É certo que Deus prova o seu próprio amor para conosco (Rm 5.8); mas aqui são Paulo está exortando cristãos, já salvos, a confiar na abundante provisão de graça para o futuro, garantida pela demonstração de amor no passado. Em toda parte, o amor de Deus na Expiação, seja do Pai, seja do Filho, é usado como argumento poderosíssimo em favor da entrega de si mesmo, da austeridade moral, da ternura para com o homem e da caridade universal e sem limites. Nunca é empregado para derreter o coração do pecador; certamente esse objetivo não é dado em parte alguma como explicação da obra de Cristo. E, por fim, ela é apresentada como um recurso para manter a dignidade do Governante do universo e Administrador da lei. Essas três concepções, ou, para usar a linguagem moderna, teorias da Expiação, estão combinadas nas Escrituras: nenhuma delas é tratada à parte das demais. A doutrina perfeita inclui todas. Todo erro nasce do exagero de um desses elementos à custa dos outros.
Combinadas 2. São Paulo, na epístola que trata mais plenamente do governo moral universal de Deus, dá assim ênfase à última das três, ao mesmo tempo que inclui, expressamente ou por inferência, as Reitoral. outras duas. Ele leva a doutrina para o tribunal.
(1.) O método evangélico de salvar os homens e de torná-los justos é chamado a justiça de Deus (Rm 3.21). Diz-se que ele existe para manifestar a sua justiça, por ter ele, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos (Rm 3.25), isto é, para fazer que a sua justiça, por uma interpretação retrospectiva dos seus caminhos, apareça coerente com o seu deixar passar, ou pretermissão, διὰ τὴν πάρεσιν, dos pecados de eras passadas. Isso vindica o governo reitoral de Deus, baseado num só e mesmo método de justiça, QUANTO AO PASSADO da economia preparatória, seja dos gentios, seja dos judeus. Tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, a fim de que o próprio Deus seja justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus (Rm 3.26): isto é, ela lhe permite tratar o pecador como justo e, ainda assim, ser ele mesmo justo ao considerá-lo desse modo. Isso vindica o governo reitoral de Deus QUANTO AO PRESENTE, na plenitude cristã dos tempos. Depois, com referência a esse mesmo sistema do evangelho, lemos: vocês vieram a obedecer de coração à forma de doutrina a que foram entregues. E, uma vez libertados do pecado, foram feitos servos da justiça (Rm 6.17-18). Isto é, a Expiação assegura a honra da lei depois do perdão. Isso vindica o governo reitoral de Deus QUANTO AO FUTURO, tanto em relação à raça como ao indivíduo. A característica principal dessa passagem é, portanto, a vindicação do caráter reitoral de Deus: a proteção da lei diante do universo. Aqui está a verdade daquilo que às vezes, mas sem necessidade, se chama teoria grociana, ou governamental.
II, 281(2.) As palavras justificados gratuitamente, por sua graça (Rm 3.24), graça exibida na Expiação como apelo comovente ao homem, podem ser Moral. interpretadas de modo a lançar o fundamento daquilo que às vezes se chama teoria da influência moral. Se forem tiradas do contexto e consideradas isoladamente, declaram que o plano redentor é a livre expressão da graça divina, a qual, no entanto, julgou conveniente exibir nos sofrimentos de Jesus, o Justo, o mal do pecado e a glória do zelo abnegado pela sua destruição. À parte a perversão dessas palavras, que as considera isoladas, elas de fato proclamam a supremacia do amor e da graça em toda a economia da redenção. O que quer que a nossa salvação tenha custado ao Redentor, ela é, em toda a sua história e em todos os seus resultados, a expressão da livre graça para conosco. A teoria, quando não fica assim isolada, é verdadeira.
(3.) As palavras estão ligadas a outras: recusam-se a ser Propiciação vicária. eliminadas do contexto. A expressão singular que vem a seguir, como propiciação, no seu sangue, mediante a fé (Rm 3.25), e que apresenta o Redentor como o Propiciatório, ou assento da misericórdia, torna certíssimo que havia na natureza divina uma necessidade da Expiação. O sangue não foi derramado apenas como a vida de alguém que renunciou a tudo pelo bem dos outros. Não foi apenas o sangue vital do sacrifício de si mesmo. Foi o sangue da propiciação; e essa palavra se volta para sempre para os recônditos mais íntimos da natureza divina. O coração do homem há de ser movido somente porque o coração de Deus foi movido. Isso liga o testemunho de são Paulo ao de são João na sua Primeira Epístola. Ali a primazia é dada ao amor; mas isso só torna mais impressionante a necessidade do sacrifício expiatório. Nisto consiste o AMOR: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como PROPICIAÇÃO pelos nossos pecados (1Jo 4.10).
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 263-281, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.