W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O ministério mediador
Sumo Sacerdote. O ofício central e mais importante da mediação de nosso Senhor é o seu sacerdócio, do qual o sumo sacerdote, como representante do sistema levítico de expiações, era o tipo. Como Profeta, nosso Senhor predisse e afirmou a sua obra sacrificial; mas assumiu-a de modo mais formal na véspera da sua paixão e, depois da sua ascensão, revelou por meio dos apóstolos todo o seu alcance. Segundo o ensino deles, o ofício sacerdotal do Salvador consiste na Oferta e na Apresentação de si mesmo, o sacrifício, que correspondem à sua morte e à sua ascensão; e também na Intercessão e na Bênção, ambas fundadas na Expiação sacrificial e ligadas à administração da salvação.
O seu próprio testemunho. Grande parte do ministério profético de nosso Senhor, como Profeta da sua própria dispensação, ocupou-se do anúncio, da predição e da exposição da sua expiação sacerdotal.
II, 217Os Evangelhos. 1. Quando começou a pregar, ele retomou a palavra do seu precursor, que era dupla: Arrependam-se, porque está próximo o Reino dos Céus (Mt 3.2) e Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! (Jo 1.29). Muito gradualmente, e por meio de indícios deixados para serem ampliados mais tarde, ele foi desdobrando a doutrina tanto do seu sacerdócio quanto do seu reino. Embora nunca se tenha chamado Sacerdote (nem mesmo indiretamente, como se chamou Profeta e Rei), usou constantemente uma linguagem que só esse ofício explica. Não disse expressamente que era o Sumo Sacerdote, o Sacrifício e o Ofertante; no entanto, aplicou a si mesmo e à sua missão quase todos os usos e todas as ideias do sacrifício. Isso ficará evidente por um rápido exame do Evangelho de são João, no qual encontramos o ofício sacerdotal posto em destaque; os sinóticos têm mais em vista o ofício real.
A crise do monte santo. 2. É digno de nota que nosso Senhor, antes da transfiguração, não se deteve muito na sua morte iminente. Segundo são João, ele falara de si mesmo como o pão de Deus, que desce do céu e dá vida ao mundo (Jo 6.33); isso, porém, baseava-se antes no maná no deserto (Jo 6.49) do que nos banquetes sacrificiais, embora a transição para estes se encontre nas palavras: o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne (Jo 6.51). No monte santo, nosso Senhor foi evidentemente preparado para a última etapa da sua história mediadora na terra. O assunto da conversa era a sua morte, que ele estava para cumprir em Jerusalém (Lc 9.31). Essa morte designava o seu êxodo, ou partida, em geral; mas podemos supor que, assim como antigamente a vítima era examinada pelo sacerdote para se verificar a sua integridade, assim a glória do céu esquadrinhou Jesus de ponta a ponta, e o resultado foi: Este é o meu Filho amado, em quem me agrado (Mt 17.5). Ele foi aprovado pelo Pai como o Sacrifício imaculado em favor do mundo. Desde então, nosso Senhor começou a predizer o fato, as circunstâncias e os resultados da sua morte. Passou a dar testemunho da sua cruz àqueles que muito se admiravam das suas palavras. Ainda assim, embora a sua linguagem e os seus ensinos girassem em torno do altar, não eram diretamente sacrificiais, nem mesmo quando ele falou do Filho do Homem, que veio não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20.28).
A assunção final do ofício. 3. Foi na véspera do sacrifício da cruz que nosso Senhor assumiu solenemente a sua função sacerdotal: primeiro, pela instituição da Ceia, o sacrifício memorial do cristianismo; e, em segundo lugar, pelo que às vezes se chama oração sumo-sacerdotal, tendo-se intercalado entre as duas o lava-pés simbólico, que se relaciona de modo comovente com ambas. A instituição sacramental está impregnada de ideias sacrificiais: apresenta o verdadeiro Cordeiro pascal, cujo sangue é ao mesmo tempo derramado para remissão de pecados, em virtude de uma nova aliança ratificada por sangue de propiciação, e cuja morte tem o seu benefício celebrado num contínuo banquete de oferta pacífica. A oração sumo-sacerdotal foi o ato em que Jesus se consagrou a suportar, por fim, as dores da expiação. Todos os ofícios messiânicos são santificados naquela Oração suprema. O profético: Eu lhes tenho dado a tua palavra (Jo 17.14); o real: assim como lhe deste autoridade sobre toda a humanidade (Jo 17.2); o sacerdotal: eu me santifico, para que eles também sejam santificados (Jo 17.19). Mas é, por excelência, a oração de consagração do Sumo Sacerdote: a assunção formal da sua obra expiatória diante da cruz, o seu altar.
II, 218Depois do Pentecostes. 4. Depois do Pentecostes, o ofício sacerdotal de Cristo, até então o menos destacado, passa ao primeiro lugar. A sua exposição completa encontra-se principalmente na Epístola aos Hebreus; mas todos os outros documentos do Novo Testamento contêm referências explícitas a algumas das suas relações. Tomando essa Epístola como texto e o restante como ilustração, podemos considerar tudo sob os dois aspectos do Sacrifício seguido da Apresentação, e da Intercessão seguida da Bênção. Antes, porém, é preciso considerar, como fundamento de tudo, o caráter mediador do Redentor como Sumo Sacerdote, cujos elementos principais são estes: na apresentação do sacrifício, o Sumo Sacerdote representava o povo diante de Deus; na bênção, representava Deus diante do povo. Nos tempos antigos ele era, e em Cristo é, escolhido dentre os homens (Hb 5.1); mas, então como agora, a sua função se voltava tanto para o céu quanto para a terra.
Sumo Sacerdote. O Sumo Sacerdote representava o sacerdócio em geral e era o tipo de Cristo, o Antítipo universal de todas as pessoas e de todos os ministérios sacerdotais. Basta-nos observar os pontos de correspondência, e também os de diferença, entre o tipo e o Antítipo, especialmente quanto à vocação, à consagração e às funções do sumo sacerdote.
II, 219Vocação. 1. A vocação do sacerdócio em geral, e a do sumo sacerdote em particular, estava ligada exclusivamente ao serviço típico levítico. Antes do tempo de Moisés, o chefe natural de cada família era também o seu chefe religioso: aonde quer que Abrão fosse, ali edificava um altar ao Senhor (Gn 13.18); e, quando foi instituído o sacrifício pascal, o pai de família exerceu a função de sacerdote. Moisés concentrou em si, por algum tempo, todos os ofícios, para que depois fossem novamente distribuídos. Ele não era só o legislador, mas também o sacerdote, como está escrito: Moisés pegou a metade do sangue e o pôs em bacias; e a outra metade aspergiu sobre o altar (Êx 24.6). Conferiu o sacerdócio a seu irmão Arão, como cabeça de uma ordem sacerdotal hereditária, e o restante da mesma tribo foi separado para ministérios subordinados. Havia, portanto, levitas que não eram sacerdotes; sacerdotes comuns da tribo de Levi; e o sumo sacerdote hereditário, ou chefe da família de Arão. Esse Sumo Sacerdote era, portanto, o representante de todos, chamado do meio do povo para representar o povo, que buscava aproximar-se de Deus por meio de dons sacrificiais. No Novo Testamento, lemos que ninguém toma esta honra para si mesmo, a não ser quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão. Assim, também Cristo não glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote, mas quem o glorificou foi aquele que lhe disse: “Você é meu Filho, hoje eu gerei você” (Hb 5.4-5). O Filho eterno, gerado do Espírito Santo na natureza humana, foi plenamente constituído Messias, e como tal dado ao mundo, na encarnação, completada na ressurreição. Por isso Deus o nomeou sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 5.10): o seu sumo sacerdócio tinha origem exclusivamente divina, era também o de um rei e era eterno.
Consagração. 2. O cerimonial de consagração, tal como Moisés o praticou, começava com a lavagem à porta do tabernáculo; seguia-se a investidura com os paramentos do sumo sacerdote; e sobre a pessoa sagrada, assim lavada e vestida, derramava-se o óleo da unção (Êx 29; Lv 8). Junto com isso, sacrificava-se uma oferta pelo pecado, para a remoção da culpa, um holocausto, para exprimir a consagração inteira, e uma oferta pacífica, para mostrar a aceitação de Deus. Mas a santificação estava no óleo: derramou do óleo da unção sobre a cabeça de Arão e ungiu-o, para consagrá-lo (Lv 8.12). O sumo sacerdote era הַמָּשִׁיחַ [o ungido]: o sumo sacerdote entre seus irmãos, sobre cuja cabeça foi derramado o óleo da unção (Lv 21.10), derramado em abundância. Nosso Senhor foi consagrado ao seu ofício pelo Espírito Santo, que ele recebeu sem medida: Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo (Jo 6.27). Todos os outros pormenores da consagração típica desapareceram, a não ser que o batismo de Cristo tenha correspondido à lavagem do Sumo Sacerdote. Mas a diferença essencial estava nisto: Cristo, embora recebesse, como encarnado, o Espírito da unção, também consagrou a si mesmo: a favor deles EU ME SANTIFICO (Jo 17.19). Pela glória divina da sua filiação, ele dedicou a sua Pessoa e o seu ser à propiciação dos pecados dos homens.
II, 2203. A função do Sumo Sacerdote requer cuidadosa consideração na sua referência típica ao grande Antítipo.
Função. (1.) Quanto à sua pessoa e ao seu ofício, ele era um mediador em geral; para todo o povo e para cada indivíduo, era o único sacerdote. Era a unidade do sacerdócio em pessoa: só ele, virtualmente, representava o povo diante de Deus e Deus diante do povo. As suas vestes o indicavam: sem os seus paramentos distintivos, ele era um homem comum. O peitoral, como também as ombreiras presas à estola sacerdotal, trazia os nomes das tribos: quem usava esse símbolo sagrado representava todas as tribos da congregação, levando-as, por assim dizer, tanto sobre o coração como sobre os ombros. Por isso também havia sobre o seu diadema a inscrição SANTIDADE AO SENHOR… E estará sobre a testa de Arão, para que Arão leve a iniquidade concernente às coisas santas que os filhos de Israel consagrarem em todas as ofertas de suas coisas santas. Essa lâmina sempre estará sobre a testa de Arão, para que eles sejam aceitos diante do Senhor (Êx 28.36-38). O Sumo Sacerdote antitípico, o Redentor da humanidade, era o Representante do mundo inteiro: levava sobre o coração os pecados do seu povo, e sobre os ombros o governo desse povo, e o apresentava diante de Deus como expiado e reconciliado.
Urim e Tumim. (2.) Mas o sumo sacerdote representava também Deus diante da congregação: o peitoral com a sua inscrição era chamado Urim e Tumim, isto é, Luzes e Perfeições; eram as mesmas pedras preciosas que traziam os nomes das tribos, consideradas penhores de luz, por inspiração do alto, em todas as ocasiões de consulta pública a Deus. Nessa prerrogativa, o sumo sacerdote era tipo do ofício profético, e também do sacerdotal, daquele que veio como o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão (Hb 3.1). O ofício de abençoar a congregação era comum ao sacerdócio; mas, no seu exercício mais elevado, o anual, no Dia da Expiação, quando a nação era aceita como um todo, era ato exclusivo do sumo sacerdote, como se verá adiante. A Epístola aos Hebreus, a Epístola do Templo, mostra extensamente que Jesus é o Sumo Sacerdote supremo, o Antítipo de Arão, não só a favor dos homens nas coisas referentes a Deus, mas também a favor de Deus nas coisas referentes aos homens, e os dois aspectos estão incluídos numa só frase: misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo (Hb 2.17).
Função sacerdotal. O oferecimento do sacrifício pelo Sumo Sacerdote cristão manifesta a unidade e a consumação de todos os elementos sacrificiais da oferta antiga, como também de todas as espécies e ocasiões de sacrifício, o que abrange toda a economia da instituição levítica.
Ritos do sacrifício. O sacrifício levítico consistia na apresentação de uma vítima, com imposição das mãos; na imolação e na aspersão do sangue; na queima da vítima e no banquete sacrificial. Esses elementos não se combinavam em todos os sacrifícios; mas todos pertenciam ao cerimonial expiatório, considerado completo em si mesmo e destinado a encontrar mais tarde a sua perfeição em Cristo, o Compêndio de todas as oblações.
A vítima. I. A APRESENTAÇÃO da vítima e a IMPOSIÇÃO DAS MÃOS eram ambas atos do culpado que oferecia o sacrifício.
Apresentação. 1. O lugar era o átrio do santuário, aonde o transgressor vinha, mostrando o seu desejo de encontrar o seu Deus ofendido na sua santa habitação. A vítima era sem defeito, examinada e aprovada como tal: era fornecida pelo próprio ofertante, segundo a prescrição da lei, como substituta da sua própria vida, que ele perdera. Essa ausência de defeito era simplesmente um tipo da perfeita impecabilidade do cordeiro sem defeito e sem mácula (1Pe 1.19). Aquele que era a Vítima santa a si mesmo ofereceu sem mácula a Deus (Hb 9.14), sendo ele próprio o representante do pecador que oferecia; mas também o Pai, que proveu um sacrifício para a raça culpada, por todos nós o entregou (Rm 8.32). O Novo Testamento não fala nem da Igreja nem do indivíduo como quem provê uma oblação. É prerrogativa do amor divino suprir o homem pecador da sua oferta pelo pecado, como se disse naquele monte típico dos primeiros tempos: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto (Gn 22.8). JEOVÁ-JIRÉ é a lei eterna da expiação entre Deus e o homem.
II, 222Imposição das mãos. 2. A imposição das mãos não simbolizava tanto a transferência do pecado ou da culpa quanto a submissão à determinação divina e a consequente dedicação do animal para ser o meio da expiação. Era, pois, essencialmente o ato do delinquente, que não só tocava a sua vítima, mas se apoiava nela: Porá a mão sobre a cabeça do holocausto, para que seja aceito a favor dele, para a sua expiação (Lv 1.4). Era o seu ato de fé na ordenança de Deus; e tem o seu cumprimento na fé do pecador que faz sua a morte de Cristo.
O sangue. II. Seguiam-se a IMOLAÇÃO e a ASPERSÃO DO SANGUE, ritos universais e sempre unidos.
Imolação. 1. A imolação, ou שְׁחִיטָה, tinha por objetivo obter o sangue, que seria apresentado a Deus para expiação; talvez fosse também a expressão de uma pœna vicaria [pena vicária], embora fosse o próprio ofertante que matava a vítima, e não o sacerdote, exceto no caso das ofertas pela nação. A vítima era morta pelo transgressor como reconhecimento de que ele próprio merecia a morte. Nosso Senhor deu a sua vida por iniciativa própria e entregou voluntariamente o espírito como sacrifício; mas foi por meio de homens maus que o mataram, crucificando-o (At 2.23). O mundo pecador consumou o seu pecado matando o sacrifício pelo seu pecado; a sua maior iniquidade esteve nesse ato, mas o Salvador fez da sua morte um ato seu. Ele aniquilou o pecado por meio do SACRIFÍCIO DE SI MESMO (Hb 9.26). Embora só os apóstatas estejam de novo crucificando para si mesmos o Filho de Deus (Hb 6.6), todo penitente que crê apresenta a morte de Cristo como representação da sua própria morte; e a Igreja, na santa Ceia, a comemora como sofrida por todos.
Aspersão. 2. Só o sacerdote aspergia o sangue, ou o aplicava para fins de expiação, ao redor do altar, primeiro em direção à cortina que ocultava o propiciatório e depois, na expressão mais elevada do ato simbólico, sobre o próprio Kapporeth, ou propiciatório. Porque a vida da carne está no sangue. Eu o tenho dado a vocês sobre o altar, para fazer expiação pela vida de vocês, porque é o sangue que fará expiação pela vida (Lv 17.11). Dois termos merecem atenção aqui. לְכַפֵּר, fazer expiação, significa literalmente cobrir: isto é, cobrir ou a alma do ofertante como culpado, de modo que ele seja visto sob a vida pura que, no altar, o encobre, ou a sentença condenatória do testemunho da aliança depositado debaixo do propiciatório. Em segundo lugar, é o sangue que fará expiação (Lv 17.11) בַּנֶּפֶשׁ, por meio da ou em virtude da alma que nele está. Esta é a tradução correta [N. do T.: a versão inglesa citada por Pope diz for the soul, “em favor da alma”; a NAA traz “pela vida”]; e significa que a vida inocente, tirada diante do altar como representante vicária do ofertante, é aceita por Deus, no altar, de modo representativo. Assim, a aspersão era a segunda APRESENTAÇÃO, ou a mais eficaz, sem a qual a primeira não era perfeita. A expiação do Redentor estava plenamente realizada quando o seu sangue foi derramado; mas não foi declarada aceita até que ele a apresentou nos céus (Hb 9.24): pelo seu próprio sangue, ele entrou no Santuário, uma vez por todas, e obteve uma eterna redenção (Hb 9.12). E ele, pelo Espírito eterno, A SI MESMO OFERECEU sem mácula a Deus (Hb 9.14). O símbolo da aspersão é usado com duas aplicações: voltado para o céu, para a propiciação do desagrado divino; voltado para a terra, para a expiação da culpa. A aspersão da consciência significa a aplicação da virtude da expiação ao crente cuja culpa é cancelada ou anulada por amor de Cristo. Mas o termo às vezes varia no uso evangélico: ocasionalmente é o lavar do pecado, ou a purificação da consciência.
II, 223A queima e a refeição. III. A ideia sacrificial completava-se com a QUEIMA DA OFERTA e com a REFEIÇÃO SACRIFICIAL, ou BANQUETE, que estão estreitamente unidas no seu significado simbólico.
Queima. 1. O termo usado para a queima significa fazer subir em vapor: a essência do sacrifício sobe a Deus e é aceita. Por isso, ela não podia simbolizar diretamente o castigo da perdição; embora, como queima sobre o altar, fosse símbolo da justiça punitiva, como também do poder santificador do Espírito divino. O fogo que consumia a oferta, ou partes dela, vinha de Deus: naquele grande primeiro dia do sacrifício levítico, saindo fogo de diante do Senhor, consumiu o holocausto e a gordura sobre o altar. Quando todo o povo viu isso, deu gritos de alegria e se prostrou com o rosto em terra (Lv 9.24). Esse fogo era mantido continuamente pelo sacrifício da manhã e da tarde: O fogo queimará continuamente sobre o altar; não deve ser apagado (Lv 6.13). Isso significava que todo o serviço do sacrifício havia de ser agradável para sempre, de geração em geração, por amor daquele que nos amou e se entregou por nós, como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus (Ef 5.2). Embora o símbolo tivesse o seu cumprimento mais elevado na perfeita entrega de si mesmo feita por Jesus, referia-se também a nós e à oblação de nós mesmos. Quem recebe o benefício da expiação de Cristo precisa ser aspergido com o seu sangue, para que a sua pessoa, culpada, seja coberta; e precisa entregar-se com Cristo como holocausto completo, tornado aceitável pelo Espírito Santo: um sem o outro jamais pode valer. Nada menos que isso se quer dizer com Estou crucificado com Cristo (Gl 2.19).
II, 224Refeição sacrificial. 2. Todo sacrifício entregava a sua vida no seu sangue; alguns sacrifícios eram inteiramente destruídos; mas, na oferta pacífica, uma parte era queimada e outra reservada para um banquete. Esse era o resultado mais elevado do cerimonial, como expressão da comunhão entre o céu e a terra. Em outros sacrifícios, Jeová recebia, por meio dos sacerdotes, parte da sua porção; e o que era queimado era também o pão de seu Deus (Lv 21.6). E o sacerdote queimará tudo isso sobre o altar como oferta de alimento ao Senhor (Lv 3.11). São Paulo nos diz que todos participamos do único pão (1Co 10.17). A Ceia do Senhor é posta na mesa do Senhor: um altar para Deus, uma mesa para nós. Jesus é a nossa grande Oferta pacífica, assim como a nossa Páscoa; e a expressão mais elevada da fé cristã no sacrifício evangélico é, assim, participar do pão de seu Deus e cear com ele.
Os diversos sacrifícios. Os próprios sacrifícios, na sua variedade, podem ser reunidos numa unidade. Antigamente eles se dividiam em holocaustos, ofertas pacíficas e dons sem sangue; a estes se acrescentaram, na economia levítica, as ofertas pelo pecado e as ofertas pela culpa. Todas as oblações, de todo tipo, estavam sob a jurisdição do sumo sacerdote e foram consumadas e resumidas no único sacrifício de Cristo.
Antes da Lei. I. Os sacrifícios primitivos, que prefiguraram a Expiação muito antes do serviço levítico e correspondiam, portanto, ao evangelho antes da Lei, devem ser buscados nos tempos mais remotos, até a própria porta do Paraíso.
Origem do sacrifício. 1. A origem do sacrifício não é matéria de revelação expressa. Mas a prevalência quase universal das oblações, cruentas e incruentas, indica que ele foi instituído por Deus. O registro primitivo do Gênesis é tão obscuro no que diz sobre este assunto quanto o é sobre o pecado em geral e sobre o Redentor que faz a expiação. Lemos sobre sacrifícios oferecidos por Caim e por Abel: pelo primeiro, dádivas incruentas; pelo segundo, vítimas imoladas. O Senhor se agradou de Abel e de sua oferta, mas de Caim e de sua oferta não se agradou (Gn 4.4-5). A razão da diferença estava na disposição dos ofertantes. Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício mais excelente do que Caim (Hb 11.4): a sua oferta era uma dádiva, mas era também um sacrifício expiatório e típico, o que a de Caim não era. E dificilmente se pode duvidar de que a fé que tornou aceitável aquela oblação primitiva era a fé no grande Sacrifício do futuro. Assim, o primeiro relato da aproximação ao Supremo por meio de ofertas sacrificiais ensina, quando interpretado pelo Novo Testamento, que não bastava achegar-se com dádivas que expressassem gratidão e entrega de si mesmo, mas que toda oblação de ação de graças precisava necessariamente conter um elemento propiciatório. Essa oblação primitiva, portanto, deu a lei para todo o culto posterior, que culminaria, depois de longos e variados desenvolvimentos, na expiação cristã.
II, 225Holocaustos. 2. O HOLOCAUSTO, עוֹלָה, era a mais antiga, a mais comum e a mais abrangente das oblações dedicadas ao céu como Corbã, ou Dádiva. A sua preeminência estava no seu significado simbólico, que reunia numa só coisa o derramamento expiatório do sangue e a perfeita oferta de si mesmo; por isso ele servia de base a todas as outras oblações, envolvia-as e as levava à perfeição, desde o começo da comunhão sacrificial com Deus até o Sacrifício perfeito. Foi o holocausto que Noé apresentou no segundo começo das oblações propiciatórias. Ele ofereceu holocaustos sobre o altar. E o Senhor aspirou o aroma agradável e disse consigo mesmo: Nunca mais vou amaldiçoar a terra (Gn 8.20-21). Jeová aceitou a expiação do patriarca e aspirou de longe o aroma agradável do Sacrifício perfeito pelo mundo culpado. Abraão recebeu a ordem de levar seu único filho, Isaque, à terra de Moriá e ali oferecê-lo em holocausto (Gn 22.2, 7): tipo da mesma oblação, ainda muito distante, do Unigênito. A aliança do Sinai foi ratificada com holocaustos (Êx 24.8). Eles permearam também a economia levítica posterior, constituíram o sacrifício diário ou contínuo que tipificava a expiação eterna e sempre mantiveram a sua preeminência. O duplo caráter que lhes é atribuído está declarado logo no começo de Levítico. Porá a mão sobre a cabeça do holocausto, para que seja aceito a favor dele, para a sua expiação (Lv 1.4). Depois da aspersão do sangue, punha-se fogo sobre o altar, arrumava-se a lenha, e ele se tornava oferta queimada, de aroma agradável ao Senhor (Lv 1.9). Esse duplo caráter lhe dá, além disso, um significado especial no que diz respeito ao supremo Antítipo e ao seu povo. Também Cristo nos amou e se entregou por nós, como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus (Ef 5.2). Aqui o sacrifício propiciatório de Cristo é o holocausto voluntário do seu amor perfeito. E, nisso, é o exemplo da oferta do seu povo; como oferta pelo pecado propriamente dita, ele não nos admite tão diretamente a participar do seu sacrifício, nem a continuá-lo ou completá-lo.
II, 226Ofertas pacíficas. 3. As OFERTAS PACÍFICAS (fossem ofertas de ação de graças, votos ou ofertas voluntárias) eram combinações de sacrifício expiatório e de sacrifício de consagração; mas representavam as dádivas do ofertante, e não tanto o próprio doador. Como o holocausto, significavam ao mesmo tempo a consciência do pecado e a gratidão pela libertação dele. Eram apresentadas, na medida em que eram expiatórias, para o restabelecimento de um estado de graça; e, uma vez alcançado isso, também como a expressão alegre da aceitação diante de Deus. Todas elas encontraram o seu antítipo no Cordeiro pascal: ele é a nossa paz (Ef 2.14), aquele cuja oblação apresentamos pela fé para o perdão dos pecados e recebemos sacramentalmente como penhor desse perdão. Pode-se acrescentar que as ofertas de cereais e as libações que estavam ligadas ao holocausto diário, como também às outras ofertas pacíficas, pertencem à ideia geral da aceitação divina e da comunhão com os adoradores. O nosso propósito presente não exige que as investiguemos minuciosamente. Basta dizer que, em certo sentido, elas suavizaram a severidade da antiga instituição, e que todas encontram o seu fim e a sua perfeição na Ceia cristã.
Ofertas pelo pecado. II. Próprias da economia levítica eram as OFERTAS PELO PECADO e a sua modificação, as OFERTAS PELA CULPA. Estavam intimamente ligadas à promulgação da lei, visto que esta continha a revelação mais expressa da natureza do pecado e era a base de uma aliança preparatória de sacrifício típico para a sua expiação. Temos aqui de tratar principalmente dessas ofertas, incluindo os seus acompanhamentos mais severos e os mais alegres, como o tipo preeminente, ou a prefiguração profética e simbólica, da Expiação cristã.
II, 227Ofertas pelo pecado e pela culpa. 1. É impossível formular com precisão a diferença entre a oferta pelo pecado e a oferta pela culpa na instituição levítica. Ambas eram sacrifícios expiatórios pelo PECADO, entendido como ofensa contra a lei positiva e as ordenanças cerimoniais, cometida por ignorância e inadvertência; isto é, não de mão erguida nem em rebelião deliberada. Mas a oferta pela culpa era sempre apresentada por um erro individual; a oferta pelo pecado, nem sempre. A oferta pela culpa dizia respeito à violação dos direitos da aliança; a oferta pelo pecado, antes, à negligência dos seus preceitos. Por isso a primeira tinha mais a ver com transgressões relativas à propriedade, e a segunda, com transgressões da lei. A oferta pela culpa trazia consigo a ideia de SATISFAÇÃO: E, por sua oferta pela culpa, trará, do rebanho, ao Senhor um carneiro sem defeito, devidamente avaliado, para a oferta pela culpa; trará o carneiro ao sacerdote. E o sacerdote fará expiação por essa pessoa diante do Senhor, e ela será perdoada (Lv 6.6-7). A oferta pelo pecado trazia antes a ideia de EXPIAÇÃO por meio do sacrifício de uma vida pura. Mas na oblação suprema e universal de Cristo a distinção é abolida para sempre. Ele é ao mesmo tempo a Satisfação de toda reivindicação divina e a Propiciação por toda ofensa humana.
Distinção. 2. A oferta pelo pecado, da qual a oferta pela culpa era apenas uma espécie, pôs em nítido destaque o caráter expiatório da instituição sacrificial, caráter que, antes da promulgação da lei, estava até certo ponto velado e oculto. Desde o princípio, ela mesma se chamava PECADO, חַטָּאת, na LXX ἁμαρτία, περὶ τῆς ἁμαρτίας, pelo pecado; assim como a oferta pela culpa se chamava ela mesma CULPA, אָשָׁם. Por isso se diz que nosso Senhor foi feito pecado por nós, ele que não conheceu pecado (2Co 5.21) [N. do T.: o original indica “2 Cor. 21”], e que, na sua segunda vinda, aparecerá sem pecado para a salvação (Hb 9.28) [N. do T.: a NAA traz “não para tirar pecados, mas para salvar”]. O sacrifício era, por assim dizer, a corporificação ou encarnação do pecado; e, quando a oferta fazia expiação por todo o povo, a carne era queimada fora do acampamento (Hb 13.11). Porém não se comerá nenhuma oferta pelo pecado, cujo sangue se traz à tenda do encontro, para fazer expiação no santuário (Lv 6.30). Mas nos graus inferiores e mais individuais da oferta pelo pecado havia uma diferença marcante. O animal que é oferta pelo pecado será morto no lugar onde são mortos os animais oferecidos em holocausto, diante do Senhor: COISA SANTÍSSIMA É. O sacerdote que a oferecer pelo pecado a comerá (Lv 6.25-26), mas não o próprio transgressor. Poderia parecer que, quando a carne era comida pelos sacerdotes, a santidade oficial deles neutralizava a impureza da vítima. Nosso grande Sumo Sacerdote era SANTÍSSIMO, embora levasse os pecados do mundo; e, embora representasse a oferta pelo pecado que não devia ser comida, ele era, não obstante, a Oferta da qual todos nós participamos como ofertantes sacerdotais. O Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós (Is 53.6). Isso transmite a ideia tanto de expiação quanto de substituição. A sua alma foi dada como oferta pelo pecado (Is 53.10). Jesus foi a realidade daquilo que as ofertas pelo pecado apenas tipificavam. Entretanto, nesses sacrifícios ocorre recordação de pecados todos os anos (Hb 10.3): recordação que ocorria não somente todos os anos, mas em cada ocasião em que eram apresentados. Eles apenas ensinavam o mal do pecado e a necessidade da expiação: não podia haver nada de homogêneo entre uma vítima animal e um transgressor humano. Acostumavam o povo à ideia de um SUBSTITUTO; mas nós, no Cumprimento, vemos que a suprema OFERTA PELO PECADO expiou o próprio pecado, e não apenas a ofensa contra a instituição levítica; que ele é a expiação até mesmo por aquelas ofensas cometidas de mão erguida, de cujo autor se disse: Essa pessoa será eliminada, e a sua iniquidade será sobre ela (Nm 15.31). Nele está toda a virtude, e nenhum dos defeitos, dos antigos tipos.
II, 2283. A distinção entre as duas espécies de oferta pelo pecado, uma pela congregação inteira e a outra pelas transgressões individuais, deve ser lembrada constantemente.
Pelos indivíduos. (1.) Esta última tinha relação menos direta com o Sacrifício cristão, pois se destinava a fazer expiação por ofensas contra o código teocrático cometidas não voluntariamente, mas por ignorância, precipitação ou leviandade. Essa ressalva aparece constantemente, restringindo a eficácia dessas ofertas pelo pecado. Se qualquer pessoa do povo da terra cometer pecado involuntário, בִּשְׁגָגָה, por fazer alguma das coisas que o Senhor ordenou que não se fizessem, e se tornar culpada; ou se o pecado em que ela caiu lhe for notificado, trará por sua oferta… Assim, o sacerdote fará expiação pela pessoa, e o pecado lhe será perdoado (Lv 4.27-31). Deve-se observar aqui que a palavra hebraica usada significa transgressão ou ERRO pelo predomínio do princípio mau interior, em contraste com o pecar com presunção ou de mão erguida, בְּיַד רָמָה (Nm 15.30) [N. do T.: a NAA traz “deliberadamente”]. Para esta última classe não havia oferta pelo pecado. Daí a oração do salmista: Quem há que possa discernir as suas próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo (Sl 19.12-13). Para a primeira classe havia purificação; da segunda, o suplicante pedia apenas ser guardado. E na Epístola aos Hebreus se diz que o sumo sacerdote oferecia pelos pecados de ignorância do povo (Hb 9.7), pelos seus ἀγνοήματα, e não pelas suas violações voluntárias da aliança. Nisto o tipo ficava imensamente abaixo do Antítipo. A expiação de Cristo vale para todo pecado que é confessado sobre a Expiação: se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados (1Jo 2.1-2). Contudo, a severidade da restrição no tipo é também posta a serviço da cautela cristã. Embora o grande Sacrifício valha para todo pecado, não há expiação para quem rejeita obstinadamente esse sacrifício. Se continuarmos a pecar de propósito, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados (Hb 10.26). Assim como havia pecados sem expiação na teocracia, também sob o evangelho há pecado que leva à morte (1Jo 5.16).
II, 229Pelo povo. (2.) Os sacrifícios diários e anuais pelo pecado do povo cobriam a culpa de toda a congregação como tal e valiam, a favor de todos os que confiavam na ordenança divina, para a expiação de toda espécie de ofensa que já não tivesse sido punida com a eliminação. O sangue desses sacrifícios era aspergido diante do Senhor, na direção do Santo dos Santos, e sobre os chifres do altar do incenso aromático (Lv 4.6-17); no grande Dia da Expiação, no propiciatório (Lv 16.16). Mas disso trataremos mais adiante.
Purificações. 4. As ofertas pelo pecado da economia levítica tinham às vezes ligadas a si certas purificações peculiares do indivíduo e da comunidade, considerados como tendo contraído impureza: a lepra; o contato com cadáveres; crimes suspeitos, como o adultério e o homicídio; a culpa de sangue da comunidade quando o homicida não era descoberto. As diversas cerimônias acrescentadas ao sacrifício, que geralmente as acompanhava, pertenciam ao que o Novo Testamento chama a purificação da carne (Hb 9.13). Tinham a ver principalmente com as relações teocráticas das pessoas envolvidas; mas eram todas típicas da contaminação do pecado, e muitas vezes são mencionadas como ilustrações do efeito purificador daquela Expiação. Contribuíram muito para moldar a fraseologia da aliança cristã; mas, em si mesmas, pertencem antes à arqueologia do povo antigo.
A unidade de todos os sacrifícios. III. O Redentor da humanidade representou em si mesmo toda oferta expiatória de toda espécie, e na sua única oblação, oferecida uma só vez, todas as outras oblações encontraram o seu fim e a sua perfeição espiritual. Ele é o único Sacrifício pelo pecado, apresentado por ele mesmo, o Sumo Sacerdote, por e em favor da humanidade, que ele representa. Ele é VICTIMA SACERDOTII SUI ET SACERDOS SUÆ VICTIMÆ [vítima do seu próprio sacerdócio e sacerdote da sua própria vítima]. Assim como, na Epístola aos Romanos, ele é o fim da lei para justiça (Rm 10.4), assim também, na Epístola aos Hebreus, ele é o fim dos sacrifícios para uma eterna redenção (Hb 9.12). Mas aqui é preciso fazer duas advertências importantes.
II, 230Apenas figuras. 1. Todo o sistema dos antigos sacrifícios era apenas a sombra de uma substância eterna. A Epístola que nos dá a avaliação autorizada da antiga economia diz-nos que é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados (Hb 10.4); que a lei não podia aperfeiçoar aqueles que se aproximam de Deus, livrando-os da consciência de pecados (Hb 10.1-2). Esses sacrifícios santificavam apenas quanto à purificação da carne (Hb 9.13). Por um lado, valiam apenas para a manutenção de uma relação nacional e individual com a teocracia. Por outro, não proviam nenhuma libertação da culpa como violação da lei moral. O verdadeiro segredo da paz que se pronunciava sobre as ofertas penitentes e sinceras ficava reservado, para ser dado a conhecer quando a parábola para a época presente (Hb 9.9) fosse substituída pela Realidade. E, quanto a isso, o hebreu sincero e o gentio sincero estavam no mesmo nível, com a diferença de que o primeiro tinha a revelação que anunciava constantemente um Redentor futuro e podia misturar às suas ordenanças meramente carnais uma fé obscura na Expiação ainda não revelada.
Mas contendo verdade eterna. 2. Mas, mesmo sendo isso verdade, a instituição figurativa e típica deu uma indicação profunda da natureza daquela propiciação futura. Falava da excessiva pecaminosidade do pecado, que em suas infindáveis variedades era tão rigorosamente vigiado pelo Santo de Israel e exigia tamanha variedade de sacrifícios. O significado da fraseologia sacrificial não deve perder-se quando ela é transferida para os tempos cristãos, como muitos afirmam em vão: esse significado é glorificado no espírito, mas o seu corpo e a sua letra continuam a ser de Cristo. Simples figuras, eram ainda assim figuras das coisas que estão nos céus (Hb 9.23). Muitos termos são entregues ao esquecimento no evangelho; mas EXPIAÇÃO como fundamento da REMISSÃO por meio do derramamento de SANGUE SACRIFICIAL são palavras que devem ser guardadas em perpétua lembrança. Se a economia das propiciações típicas não tivesse nenhum significado permanente, mas tivesse introduzido um sistema em que nenhuma expiação era oferecida à justiça, as Epístolas do Novo Testamento teriam de ter sido escritas num estilo totalmente diferente.
Tempos sagrados. Os vários tempos sagrados e festas da antiga aliança também foram resumidos e abolidos na única função sumo-sacerdotal de Cristo. Havia o Serviço Diário, os Dias Sabáticos, as Três Festas e o Grande Jejum. No ano, pode-se dizer que havia dois ciclos principais: a Páscoa, com os dias dos Pães sem Fermento, e a Festa das Semanas, ou Pentecostes, na primavera; o Dia da Expiação e a Festa dos Tabernáculos, com o seu Azereth [reunião solene], no outono. Todos eles estavam sob a supervisão e o controle do sumo sacerdote; e todos foram abolidos por terem sido glorificados na missão e na obra do Redentor. A Páscoa e o Dia da Expiação representarão adequadamente, para o nosso propósito, a série inteira.
A Páscoa. A Páscoa era ao mesmo tempo sacrifício pelo pecado e oferta pacífica. Se não admitirmos essa combinação, perderemos de vista o propósito da instituição e a sua profunda ligação com o Sacrifício cristão.
Origem. 1. O Anjo do Senhor passou por cima de todas as casas aspergidas com o sangue do cordeiro pascal, isto é, poupou-as; mas a aspersão em geral, ao menos a aspersão com sangue, trazia consigo a ideia de expiação. O representante da família confessava que a libertação vinha somente da graça de Deus; e o povo como um todo, no começo de cada ano eclesiástico, renovava a aliança com Deus por meio do sacrifício. Como oferta pelo pecado, a Páscoa era também oferta pacífica: celebrava, como expressão nacional de gratidão, a redenção do Egito, bem como a libertação dos primogênitos de Israel. Subordinado a isso estava o seu reconhecimento da bondade de Jeová nos dons da terra. A imolação da vítima e a participação nela andavam juntas, de ano em ano e de geração em geração: por isso a Páscoa era oferta pelo pecado e oferta pacífica numa só.
Cristo. 2. Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa (1Co 5.7-8). Estas palavras, embora sejam as únicas nesta forma, devem ser entendidas segundo o seu sentido evidente, como lançando uma torrente de luz sobre a antiga instituição e sobre o seu significado espiritual. Em virtude do sangue de Jesus, o Israel espiritual é remido de uma servidão pior que a do Egito e abençoado com uma herança melhor que Canaã. Na primeira referência ao sacrifício do Senhor, o Batista o chamou o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29), palavras em que certamente se tem em vista o cordeiro pascal, mas com a ideia expiatória e substitutiva da profecia posterior acrescentada e posta em destaque. A constante referência do próprio Senhor ao alimento sacrificial e sacramental da sua carne parece indicar que estava presente em seus pensamentos o banquete pascal, que de fato era a principal característica da Páscoa. Era uma comunhão, e nisso diferente de todos os outros sacrifícios: não um banquete em que o ofertante participava com o sacerdote, mas um banquete em que as famílias de Israel se uniam. No fim da sua vida, o Redentor instituiu a Eucaristia como a Páscoa evangélica, na qual a sua Igreja celebraria a festa para sempre: primeiro, como Sacrifício comemorativo, que celebra a morte expiatória; segundo, como Sacramento simbólico, que representa Cristo, a Páscoa, como o alimento do seu povo; e, terceiro, como emblema da unidade do seu novo Israel nele mesmo.
II, 2323. A Páscoa se prolongava por sete dias, para dar à festa o caráter de perfeição próprio da aliança: os sete dias eram a A semana pascal. FESTA DOS PÃES SEM FERMENTO, que lhe dava o nome. No primeiro dia depois da Páscoa propriamente dita, fazia-se a oferta do feixe movido. Sete semanas completas depois dessa oferta movida vinha a FESTA DAS SEMANAS, a celebração da colheita concluída, que mais tarde seria abolida e glorificada no derramamento do Espírito Santo no dia conhecido como Pentecostes. Com essa festa, o cumprimento da festividade pascal do Antigo Testamento ficava completo. A característica de toda a solenidade era a comemoração festiva da libertação do Egito, libertação que tipificava a grande Redenção. E a sua ligação com a Eucaristia, a comemoração sacramental permanente na Igreja cristã, faz da Páscoa, em certo sentido, a instituição típica preeminente do Antigo Testamento. A Ceia do Senhor é, por assim dizer, o antítipo da Festa pascal enquanto esta abrangia todo o ciclo de sete semanas: ela é, portanto, a Festa cristã que celebra todos os acontecimentos dos Cinquenta Dias.
Dia da Expiação. O Dia da Expiação, no dia dez de Tisri, o sétimo mês, efetuava uma reconciliação anual entre Deus e o povo como coletividade; e era a principal prefiguração típica e simbólica do mistério cristão no Antigo Testamento, por ser a mais abrangente. Como tal, reunia a maior parte dos Peculiaridades. outros elementos da economia sacrificial e acrescentava não poucos elementos próprios. Era o dia do sumo sacerdote por excelência, quando a sua função chegava ao ápice. Nos outros dias, ele agia por meio de delegados; naquele dia (O DIA, יומא, do Talmude) exercia o seu ofício quase sozinho: a mais sublime de todas as figuras típicas.
Primeiro por si mesmo. 1. Os sacrifícios que ele oferecia primeiro por si mesmo mostravam a distinção entre o tipo e o Antítipo: como representante do povo, e também um deles, precisava de expiação para si mesmo, para a sua ordem sacerdotal e para o próprio santuário, que está com eles no meio das suas impurezas (Lv 16.16). Os lugares santos, porém, eram purificados pela aspersão do sangue, provavelmente misturado, das vítimas oferecidas em favor do sacerdote e do povo, e não por sacrifícios distintos ordenados para esse fim: a impureza deles resultava dos pecados dos que neles entravam.
Os dois bodes. 2. A relação típica do sumo sacerdote com Cristo se mostrava no que ele fazia com cada um dos dois bodes (Lv 16.8-34). Um deles, escolhido por sorte, ele o oferecia como oferta pelo pecado. O seu sangue valia para a expiação universal: por todas as transgressões de todo o povo, ao ser aspergido sete vezes sobre o propiciatório; pelo altar e pelo santuário exterior, ao ser aspergido também sobre eles. A vítima correspondente, o bode emissário, era, em símbolo, AQUELE QUE LEVAVA PARA LONGE as iniquidades que o outro bode LEVAVA SOBRE SI. Sobre a cabeça dele o sumo sacerdote confessava todas as iniquidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados (Lv 16.21), e o bode era expulso para terra solitária (Lv 16.22): para uma terra separada, אֶרֶץ גְּזֵרָה, símbolo daquela separação completa de Deus que é o castigo do pecado. Embora os dois bodes fossem distintos, compunham uma só ideia expiatória. A vítima que era morta representava o sacrifício pelo pecado e a remissão da pena. A vítima que não era morta, mas levada ao deserto para ali morrer, simbolizava a remoção absoluta da culpa e o esquecimento divino dela: לַעֲזָאזֵל, PARA AZAZEL, ou para o bode emissário, significa literalmente para o esquecimento total ou para o completo afastamento. O duplo símbolo declarava que toda pena estava remitida e todo pecado perdoado e esquecido: cancelado como se não existisse.
II, 234Entrada na presença. 3. Mas o que fazia deste dia a Solenidade Suprema da economia levítica era o fato de que só então o sangue da expiação, do qual Jeová disse: Eu O TENHO DADO A VOCÊS sobre o altar, para fazer expiação pela vida de vocês (Lv 17.11), era levado para dentro do véu, à própria presença de Deus, onde a lei guardada na arca testemunhava contra os transgressores. Então eram confirmados todos os outros perdões do ano; então se reparavam todas as falhas do perdão, com a única exceção daqueles atos de rebeldia deliberada que não achavam lugar de arrependimento. A garantia era esta: vocês serão purificados de todos os seus pecados, diante do Senhor (Lv 16.30). Por isso, no Grande Cumprimento, o Sumo Sacerdote cristão entrou no próprio céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus (Hb 9.24). Mas o sumo sacerdote típico saía de novo da face de Jeová. O processo da expiação tinha de se repetir todos os anos. Jesus não precisa oferecer a si mesmo muitas vezes (Hb 9.25): a sua única oblação cobre toda a esfera do pecado humano, do começo ao fim da sua duração na terra. E a sua permanência por trás do Véu é a nossa segurança.
Combinação. Toda a doutrina da Expiação se baseia no cumprimento cristão do significado profético e típico destas duas solenidades, a Festa Pascal e o Jejum Expiatório. É necessário combinar os seus elementos. Nenhuma delas basta por si só. Unidas, porém, oferecem uma visão extremamente impressionante e abrangente do mistério central do cristianismo.
Separadamente. 1. Assim como a Páscoa predomina nos Evangelhos, o Dia da Expiação toma a dianteira no Novo Testamento posterior, especialmente nas Epístolas aos Romanos e aos Hebreus, nenhuma das quais alude à solenidade pascal. A primeira faz toda alusão ao assunto apontar para o grande dia de jejum: faz do próprio Cristo o propiciatório, ou assento da misericórdia, ou propiciação, apresentado na mente de Deus e no cenário da transgressão para a remissão dos pecados humanos no passado, no presente e no futuro (Rm 3.21-28); embora não exclua a intercessão de Cristo, detém-se antes na oferta feita no átrio exterior. Além disso, liga o todo mais à ideia de justiça do que à de santificação, reunindo numa coisa só o átrio evangélico e o templo evangélico. Na Epístola aos Hebreus, o grande dia da expiação ocupa um lugar muito amplo (Hb 9-10). O sacrifício no átrio exterior e a apresentação dentro do véu preenchem os capítulos centrais do tratado.
II, 235Justiça e amor. 2. Unidas, as duas solenidades demonstram tipicamente o que a expiação cristã demonstra realmente: a necessidade absoluta de satisfação à justiça divina para que o amor divino seja glorificado; que, por isso, o próprio Deus ofendido proveu o Sacrifício Supremo; que a virtude da expiação, apreendida pela fé, garante a perfeita abolição ou cancelamento do pecado e do seu castigo; que o único Redentor, que ofereceu a sua vida no altar da cruz, vive sempre para apresentar a sua intercessão pelo seu povo na terra.
A Igreja e o mundo. 3. Na sua unidade, ensinam ainda que o benefício da expiação suprema pertence à comunidade do povo de Cristo como tal. Essa é a lição geral ensinada pelos tipos da economia levítica. Se quisermos buscar o efeito e a influência universais do Sacrifício redentor, temos de ir para trás e para além da instituição mosaica, até as oblações sacrificiais primitivas, que existiram antes da Lei. Ali encontramos aquele em quem serão benditas todas as nações da terra (Gn 22.18).
Festa e jejum. 4. Combinadas, proclamam também que a condição redimida do povo de Deus, os filhos da redenção e da aliança sacrificial, é uma condição em que se mesclam jejum e festa. Se a Páscoa era a Grande Festa, o Dia da Expiação era o Grande Jejum; mas os dois estão unidos na cruz e na sua comemoração. Em outras palavras, há aqui uma prefiguração da verdade que imprime a sua marca solene nos escritos do apóstolo Paulo: a vida cristã é uma união com Cristo no seu sofrimento e na sua alegria, na sua vida e na sua morte, no processo e no resultado da sua expiação. A alegria, porém, predomina, pois ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si (Is 53.4), e as levou embora para a terra do esquecimento. O Dia da Expiação não tem, como tal, comemoração sacramental: Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa (1Co 5.7-8).
Intercessão e bênção. A função por excelência do sumo sacerdote era apresentar o sangue da expiação e, assim, interceder silenciosamente, uma vez por ano, por toda a congregação, embora o serviço sacerdotal, de modo geral, fosse de mediação e intercessão contínuas. A Bênção do povo era também ofício especial dos sacerdotes, a ser exercido depois dos sacrifícios oferecidos e com base neles. A Intercessão do nosso Senhor é a apresentação de si mesmo ao Pai, no céu, depois da oblação de si mesmo na terra; não sem oração especial por aqueles a quem ela se destina. A sua Bênção é comunicada pelo Espírito Santo e está ligada à administração de todas as bênçãos da nova aliança. Enquanto a Intercessão se liga mais diretamente ao ofício sacrificial, a Bênção se relaciona com todos os ofícios do Cristo. É a consumação final de cada um deles.
Incenso. I. A intercessão do sumo sacerdote era expressa tipicamente pelo incenso diante do propiciatório, no Santo dos Santos, no dia da expiação. Davi diz, em sentido geral: Suba à tua presença a minha oração como incenso (Sl 141.2); e no Novo Testamento lemos, também em sentido geral, das taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos (Ap 5.8). Mas o incenso oferecido pelo sumo sacerdote estava estritamente ligado à sua relação mediadora típica: Moisés disse a Arão: Pegue o seu incensário, ponha nele algumas brasas do altar, coloque incenso sobre elas, vá depressa à congregação e faça expiação por eles (Nm 16.46). O próprio Moisés, sem o incenso, havia intercedido com palavras (Êx 32.11, 32). Esse foi um procedimento extraordinário e, por assim dizer, irregular; e é o único caso em que a nuvem do incenso representa a expiação. A oração de Moisés e o incensário de Arão tipificavam igualmente a intercessão de Cristo, que intercede tanto pela apresentação do seu sacrifício como pela virtude da sua oração. A princípio, o próprio sumo sacerdote queimava incenso aromático, cada manhã, e também ao crepúsculo da tarde . . . incenso contínuo diante do Senhor, sobre o altar destinado a esse fim, que ficava em frente do véu que está diante da arca do testemunho (Êx 30.6-8). Por isso lemos na Epístola aos Hebreus sobre o Santo dos Santos, ao qual pertencia um altar de ouro para o incenso e a arca da aliança (Hb 9.3-4). Essa discrepância se explica pela íntima ligação entre os dois. O incenso diário era o símbolo da intercessão que diariamente aplacava o desagrado divino; mas era no dia da expiação que esse símbolo tinha o seu sentido mais elevado. Para que a nuvem do incenso cubra o propiciatório, que está sobre a arca do testemunho. Assim, Arão não correrá o risco de ser morto (Lv 16.13): estas últimas palavras pertenciam só ao tipo, mas permanece a verdade geral de que o incenso da intercessão cobria o propiciatório ao mesmo tempo que o sangue da expiação e se misturava com a densa nuvem da glória divina. Assim, o templo místico da vocação do Profeta se encheu de fumaça (Is 6.4): a fumaça do mesmo incenso intercessor que enche o templo onde Jesus, o Sumo Sacerdote, apresenta o seu sacrifício eterno.
II, 237A intercessão de Cristo. II. Essa intercessão antitípica de Cristo é apresentada de vários modos no Novo Testamento, especialmente na Epístola do Templo.
Ele mesmo. 1. É a apresentação DE SI MESMO diante do Pai em nosso favor. Pelo seu próprio sangue, ele entrou no Santuário, uma vez por todas, e obteve uma eterna redenção (Hb 9.12). Não que ele seja representado levando consigo o seu sangue expiatório: basta a exibição da sua Pessoa sagrada. Um exame cuidadoso da passagem clássica da Epístola aos Hebreus lança muita luz sobre isso. A Versão Autorizada inglesa menciona três aparições de Cristo que marcam o processo histórico da Expiação. Os três termos do original são diferentes e escolhidos com cuidado: o do meio expressa o fato de que o Filho de Deus, na nossa humanidade, se manifesta sem véu diante do seu Pai e nosso Pai. Ao chegar o fim dos tempos, ele se manifestou uma vez por todas, para aniquilar o pecado por meio do sacrifício de si mesmo (Hb 9.26): πεφανέρωται, foi manifestado como Deus na carne. Isso está estreitamente, e até indistinguivelmente, ligado à sua entrada no próprio céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus (Hb 9.24): ἐμφανισθῆναι, apresentar-se com ousadia e de modo permanente, sem nenhuma nuvem protetora de incenso. Esse silencioso comparecimento intercessor terminará quando ele aparecer segunda vez, não para tirar pecados, mas para salvar (Hb 9.28): ὀφθήσεται, ele será visto por anjos e homens na sua majestade, sem a humilhação da sua ligação sacrificial com o pecado. São João expressa a mesma verdade: se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados (1Jo 2.1-2). Ele mesmo é a Propiciação e o Advogado: ele mesmo, o que é mais do que o seu sangue ou a sua vida. A virtude do seu sacrifício é o valor da sua Pessoa. O MÉRITO de Cristo é o poder da sua intercessão; e esse mérito não é simplesmente o fato do seu sacrifício voluntário de si mesmo, mas o seu sacrifício de si mesmo como sacrifício do Filho em quem o Pai tem infinito comprazimento. O seu mérito é a dignidade do seu Eu encarnado. A sua presença no céu é o seu rogo plenamente eficaz. Três verdades importantes se apresentam aqui à nossa atenção. (1.) A apresentação intercessora de si mesmo no céu não é, como afirmam os socinianos e os que os seguem, o início da sua função sacerdotal. Cristo, tendo-se oferecido uma vez por todas para tirar os pecados de muitos (Hb 9.28): ἅπαξ προσενεχθεὶς εἰς τὸ πολλῶν ἀνενεγκεῖν ἁμαρτίας, termos sacrificiais que já tinham o seu pleno sentido na cruz. (2.) Não há, porém, nenhuma continuação do sacrifício no céu; e não pode haver continuação dele na terra. A Expiação subiu PARA MEMÓRIA DIANTE DE DEUS para sempre (At 10.4); e o Sacrifício romanista da Missa não tem nenhuma sanção na Epístola aos Hebreus, mas é nela inteiramente condenado. Assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez (Hb 9.27) por seus pecados, assim também Cristo foi, na mais profunda verdade, ORDENADO A MORRER UMA SÓ VEZ para a expiação dos pecados, mas apenas uma vez. (3.) Por fim, deve-se manter com o máximo cuidado a unidade entre a Expiação na terra e a intercessão no céu que nela se baseia. O AGORA do comparecer (Hb 9.24) marca todo o período do Calvário ao Juízo como o Dia da Graça e da ANIQUILAÇÃO DO PECADO, a ἀθέτησις ἁμαρτίας (Hb 9.26).
II, 238A sua oração. 2. A intercessão do nosso Senhor é também súplica direta em favor dos seus beneficiários: as palavras que a descrevem o provam. Ele intercede por nós (Rm 8.27): o termo ἐντυγχάνειν se usa geralmente para a súplica oral, seja a favor, seja contra aqueles a quem ela se refere. E Jesus Cristo, o Justo, é chamado nosso παράκλητος junto ao Pai (1Jo 2.1), nosso Advocatus ou Intercessor, cumprindo a sua promessa de que pediria ao Pai pelos seus discípulos (Jo 14.16), e continuando assim no céu a oração sumo sacerdotal começada na terra. Quanto à linguagem do Filho encarnado glorificado, a língua que não é a dos homens nem a dos anjos, as palavras indizíveis que ainda não é lícito nem ouvir nem pronunciar, é desnecessário indagar. Basta saber que a intercessão do Salvador tem todo o efeito daquilo que aqui embaixo se chama oração intercessória. Assim como não devemos esvaziar com sutilezas a verdade de que ele se compadece das nossas fraquezas (Hb 4.15), também não devemos fazer do Deus-homem, lá no alto, um Representante Silencioso da nossa humanidade.
II, 239Objetos. III. Os objetos da sua intercessão são o mundo, a Igreja mística do seu povo e cada indivíduo que apela a ele.
O mundo. 1. Pela sua presença no céu, Cristo é aquele que roga pelo mundo, isto é, pela humanidade, o gênero humano ou a natureza humana, que ele representa. O sumo sacerdote entrava no santuário mais interior do templo em favor do povo da aliança: o sangue que ele aspergia era acompanhado de incenso, que ele agitava sem dizer palavra, não para se proteger da glória insuportável de Deus, já atenuada pelas trevas espessas da nuvem (1Rs 8.12), mas para impedir que a justiça divina lhe causasse a morte como representante do povo. Esse incenso significava a intercessão de Cristo, cuja presença no céu mantém em existência a terra pecadora: eu firmarei as suas colunas (Sl 75.3). Essa intercessão valia desde o princípio, por antecipação; de nenhum modo podemos entender como uma raça culpada poderia propagar-se sob o governo moral de Deus, a não ser que a intercessão do segundo Adão tenha começado quando pela primeira vez se disse: já começou a praga (Nm 16.46). Por isso Isaías, indo além da economia levítica, diz que pelos transgressores intercedeu (Is 53.12): isso no sentido mais amplo da palavra.
Pela Igreja. 2. É verdade, porém, que a intercessão específica de Cristo se limita à sua oração pelo seu próprio povo. Antes de partir, ele derramou uma súplica intercessora que foi o penhor, o tipo e a garantia do seu rogo futuro pela sua Igreja, enquanto unida pela fé ao seu Cabeça vivo.
Não pelo mundo. (1.) Essa intercessão é somente pelos seus: não porque o Redentor esqueça o mundo que veio salvar, mas porque ela tem um caráter distinto, próprio apenas da relação do seu povo com ele. Não é apenas um pedido em favor deles, mas a sagrada exigência de Cristo em favor de si mesmo, enquanto representado no seu povo. Eles são o seu outro Eu, E CONTUDO NÃO OUTRO. Pai, a minha vontade é que, onde eu estou, também estejam comigo os que me deste (Jo 17.24). É mais estipulação do que intercessão: θέλω [quero] mais do que ἐρωτῶ [peço]. Assim, Jesus, porque continua para sempre, tem o seu sacerdócio imutável. Por isso, também pode salvar totalmente (ou perfeitamente e para sempre) os que por ele se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por eles (Hb 7.24-25). Ele os trouxe a Deus, mas também os trouxe a si mesmo; e pede apenas a parte que lhe cabe. Para eles, unidos a ele e parte dele, exige, mais do que pede, tudo o que é seu: a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja (Jo 17.26). O amor do Pai é reivindicado para eles como coisa necessária, porque o Filho amado do Pai está neles, tanto coletiva como individualmente.
II, 240Conferindo virtude. (2.) A intercessão do Salvador como Sumo Sacerdote torna aceitáveis tanto as pessoas como o culto do seu povo. A graça é concedida gratuitamente no Amado (Ef 1.6). Eles oferecem sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo (1Pe 2.5). Dele é o muito incenso, para que ele o ofereça com as orações de todos os santos (Ap 8.3): o anjo a quem foi dado era apenas um sacerdote ministrante, ou levita, sob esse grande Sumo Sacerdote. E, para que todo o serviço dos que são sacerdotes com Cristo seja agradável, o Espírito Santo representa o Intercessor Supremo dentro do coração deles. O próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus (Rm 8.26-27), e de acordo também com a vontade do Sumo Sacerdote. Não há visão mais impressionante do rogo celestial por trás do véu do que aquela que faz da voz do Espírito Santo Os Dois Intercessores. dentro do nosso coração o seu eco. Essa harmonia dos Dois Intercessores (Um no santuário do alto, o Outro no santuário do nosso espírito, mas ambos concordes num só) é a garantia infalível da nossa comunhão com Deus e da oração aceitável.
Compaixão. (3.) Esse rogo intercessor é a expressão bíblica daquela perfeita compaixão do nosso Senhor para com os seus membros na terra, que lhe vem da natureza que tem em comum com eles, e em virtude da qual ele é o Paráclito deles, ou Advogado, ou Ajudador, socorrendo-os na tentação, fortalecendo-os para o dever e concedendo-lhes ajuda em momento oportuno. Como Deus, ele conhece os segredos de todos os corações; mas a sua humanidade lhe dá um conhecimento que sem ela ele não poderia ter, e a Escritura dá muita ênfase ao benefício disso. Por isso mesmo, era necessário que, em todas as coisas, ele se tornasse semelhante aos irmãos. . . . Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, quando foi tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados (Hb 2.17-18). A sua compaixão não nasce da lembrança de pecado, nem de queda, nem de perigo de cair, mas da sua experiência humana dos ardis de Satanás, que rondam os acessos da nossa natureza. Na sua paixão expiatória, aquele que não conheceu pecado travou, contudo, conhecimento com ele como só o Deus encarnado poderia; assim também, na administração da sua graça expiatória, ele conhece a nossa necessidade como só o Deus encarnado pode conhecer.
II, 241Pelo indivíduo. 3. Mas isso nos leva ao alcance individual da intercessão do nosso Salvador. Cristo é o cabeça de todo homem (1Co 11.3): o Sumo Sacerdote sobre toda a casa tem uma relação especial com cada adorador. Na sua intercessão, ele é o Representante de toda a Igreja e de cada ramo particular: foi a respeito da igreja de Laodiceia, que não era nem quente nem fria, que ele disse: estou a ponto de vomitá-lo da minha boca (Ap 3.16), ou seja, riscar o nome dela da sua Litania celestial. Mas o seu coração é também o Amigo fiel dos pecadores, e fiel a cada transgressor mortal como o seu próprio Sumo Sacerdote. Tão certo como a Expiação valeu para toda a família de Adão, assim também o rogo de Cristo, com base na expiação, pode ser invocado por todo representante dessa família.
Por todo homem. (1.) Esta é a força do coração do penitente ao se aproximar do Deus de justiça. O único Mediador entre Deus e a humanidade (1Tm 2.5) intercede por todos os que por ele se aproximam de Deus (Hb 7.25). Porque, por meio dele, ambos (judeus e gentios, salvos e não salvos) temos acesso ao Pai em um só Espírito (Ef 2.18). Todo homem que vive e peca na terra tem, bastando que queira usá-la, uma apresentação, προσαγωγή, um direito de humilde acesso a Deus. Ele não tem apenas o fundamento de confiança que lhe dá uma propiciação aceita em favor da sua raça, mas também a certeza de um Representante divino-HUMANO que ama a sua alma individual e deixou registrada esta palavra não revogada e irrevogável: o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora (Jo 6.37). Se ele não o lança fora, com toda a certeza o Pai, que está por trás dele, também não o lançará.
Por todo crente. (2.) Isso é verdade especialmente quanto ao crente. Com base na Expiação, ele é aceito em Cristo; mas poderia ser tentado a pensar (e não seria uma tentação despropositada) que, tendo pecado contra a graça dessa Expiação, a sua esperança há de perecer. Mas a sua Cabeça, lá no alto, é um Defensor vivo, imutável e sempre disponível, que pleiteia por ele. Se alguém (qualquer cristão) pecar, temos Advogado (1Jo 2.1), que, no tribunal do céu, reivindica os direitos do seu sacrifício oferecido na terra. Para todo crente, ele é ao mesmo tempo Propiciação e Paráclito na presença do Pai.
Bênção. I. A Bênção solene, que atestava a aceitação divina, estava expressamente prevista no culto levítico. Era parte integrante do dever do sumo sacerdote, dever que, como quase todos os outros, foi confiado no devido tempo ao sacerdócio em geral. Na primeira consagração de Arão e seus filhos, depois que as ofertas foram apresentadas em favor da congregação, Arão levantou as mãos para o povo e o abençoou… e a glória do Senhor apareceu a todo o povo. A prova daquela bênção verbal foi que, saindo fogo de diante do Senhor, consumiu o holocausto e a gordura sobre o altar. Quando todo o povo viu isso, deu gritos de alegria e se prostrou com o rosto em terra (Lv 9.22-24). Dos sacerdotes, filhos de Levi, disse-se mais tarde que o Senhor, o Deus de vocês, os escolheu para o servirem, Bênção e doxologia. para abençoarem EM NOME DO SENHOR (Dt 21.5). A ênfase deve recair sobre estas últimas palavras: só Deus deve ser bendito na doxologia, e só Deus abençoa na bênção, seja no Antigo Testamento, seja no Novo. Contudo, a bênção não era dada apenas em nome do Triúno. Senhor; era também o nome do Deus triúno, Jeová, impresso sobre o povo, tornando-o seu. Fale com Arão e com os seus filhos, dizendo que abençoem os filhos de Israel do seguinte modo: “O Senhor os abençoe e os guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre vocês e tenha misericórdia de vocês; o Senhor sobre vocês levante o seu rosto e lhes dê a paz.” Assim, os sacerdotes porão o MEU NOME sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei (Nm 6.23-27). Aqui se unem as bênçãos do cuidado providencial universal, da misericórdia diante do pecado e da paz interior: para o povo em geral e para cada adorador individual preparado para recebê-la. Duas coisas devem ser observadas de passagem.
A Trindade. 1. Assim como vimos que os símbolos do sacrifício por trás do véu apontavam, de modo misterioso mas certo, para o Deus triúno, assim também o fazia a Bênção que selava para os adoradores a aceitação daqueles sacrifícios. Faltam apenas três nomes, ainda por revelar, para fazer da Bênção levítica a bênção explícita da Santíssima Trindade. A bênção EM ATO, a efusão da glória divina, embora já fosse em si mesma uma realidade, encontrou a sua grande realização quando Deus resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de [Jesus] Cristo (2Co 4.6). Dele é a Face de Deus voltada para o penitente em GRAÇA, seja neste mundo, seja no outro. A bênção EM PALAVRA encontrou o seu mais alto cumprimento no testemunho do Espírito divino, que dá PAZ pela certeza de que somos aceitos no Amado (Ef 1.6) [N. do T.: a NAA traz “que ele nos concedeu gratuitamente no Amado”].
II, 243O seu valor. 2. A antiga Bênção não era apenas típica; era mais do que uma simples fórmula verbal; era uma realidade, que pronunciava sobre o povo, e sobre cada indivíduo que cumprisse sinceramente as condições da antiga aliança, uma aceitação cujo fundamento verdadeiro e eterno ainda não fora dado a conhecer. Já se viu que a economia levítica, como tal e nas suas prescrições específicas para a expiação das ofensas individuais e nacionais, visava apenas à manutenção das relações legais externas com a teocracia. Mas, por baixo de tudo isso e em volta de tudo isso, estava o grande sistema típico do sacrifício, que era aceito em vista da Expiação Vindoura, cuja virtude indiscutível assegurava a aceitação efetiva por parte de Deus. Havia uma pretermissão, ou παρέσις (Rm 3.25) [N. do T.: o original indica Rm 3.22], de todos os pecados por algum tempo, até que a plenitude dos tempos a confirmou numa ἄφεσις, ou perdão pleno.
Cumprimento. II. É prerrogativa do único Mediador entre Deus e o homem não ser apenas o Ministro da bênção, mas também a sua Fonte. Ele é, a um só tempo, Deus e o Sumo Sacerdote. É o Antítipo de Melquisedeque, que foi ao encontro de Abraão, sendo maior do que ele, e o abençoou, e nele abençoou todo o sacerdócio levítico (Hb 7.1-11). A bênção de Jesus é a bênção do Deus encarnado e não é nada menos do que a administração de todos os benefícios da aliança evangélica: a promessa da herança eterna (Hb 9.15).
Do pecado. 1. A bênção do nosso Sumo Sacerdote é a libertação do pecado. É a bênção de Abraão, isto é, a justiça da fé (Rm 4.13) e o Espírito prometido, recebido pela fé (Gl 3.9-14), sendo esse Espírito o poder santificador do evangelho. Tendo Deus ressuscitado o seu Servo [Jesus], enviou-o… para abençoá-los, no sentido de que cada um abandone as suas maldades (At 3.26). Comparando essas passagens, que formam uma só na unidade da bênção de Abraão, concluímos que a bênção sumo-sacerdotal cristã é a nossa libertação de todo pecado.
II, 2442. Por isso, ela é a comunicação de todas as bênçãos espirituais nas regiões Bênção, palavra indefinível. celestiais em Cristo (Ef 1.3). O termo BÊNÇÃO não pode ser definido: é o mistério gracioso da manifestação do Supremo ao seu povo em graça. É uma dádiva sem definição; abrange todos os benefícios particulares que se podem pôr em palavras, mas ultrapassa cada um deles em particular e envolve o conjunto. É a soma ilimitada de tudo o que foi obtido para os filhos redimidos dos homens: primeiro, como a prerrogativa restaurada da criatura que descansa no Criador; e, segundo, como a bem-aventurança acrescida de uma união com Deus em Cristo mais próxima do que a que cabe à criatura.
O Espírito Santo. 3. Essa Bênção é comunicada por meio do Espírito Santo. Ele é o Vigário de Cristo, o Agente da sua vontade e o Meio de todo benefício da sua paixão. Por isso, o exame mais completo deste assunto pertence à próxima divisão da nossa teologia. Enquanto isso, é preciso lembrar que a Bênção do evangelho é obtida por Jesus, o Sacerdote, anunciada por Jesus, o Profeta, e comunicada por Jesus, o Rei, por meio do Espírito mediador da nova economia da graça.
Antes de passarmos ao ofício real de Cristo, devemos deter-nos por algum tempo no cenário da sua função sumo-sacerdotal, que é, seja na terra, seja no céu, o Templo, ou Tabernáculo: o lugar da revelação divina especial ao homem.
Tipo. I. No Antigo Testamento, vemos os estágios progressivos da história do culto sacrificial convergindo para o Templo cristão.
O altar. 1. Antes da economia levítica, o Altar ficava sozinho sob os céus: o מִזְבֵּחַ, cujo primeiro registro é que Noé levantou um altar ao Senhor (Gn 8.20), um θυσιαστήριον, assim chamado por causa dos holocaustos IMOLADOS diante dele. Desde então, os patriarcas levantaram altares onde Deus se revelava, como quando Abrão edificou um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido (Gn 12.7). Quando a lei foi dada no Sinai, Jeová disse ao seu povo: Vocês viram que dos céus eu lhes falei. Não façam deuses de prata ao lado de mim, nem façam para vocês deuses de ouro. Façam um altar de terra para mim e sobre ele vocês sacrificarão os seus holocaustos, as suas ofertas pacíficas, as suas ovelhas e os seus bois; em todo lugar onde eu fizer celebrar a memória do meu nome, virei até vocês e os abençoarei (Êx 20.22-24). Desde então, já não haveria um altar em cada tenda.
II, 245O tabernáculo. 2. O santuário mosaico era um tabernáculo, אֹהֶל מוֹעֵד, a Tenda do Encontro, onde Deus se encontrava com o seu povo; e também o אֹהֶל הָעֵדוּת, o Tabernáculo do Testemunho, ou da revelação da aliança. Os inúmeros pormenores da economia deste domínio da função do sumo sacerdote pertencem à arqueologia: aqui só é preciso mencionar os pontos principais, e apenas enquanto dizem respeito ao santuário mosaico. Havia uma divisão tríplice. No Átrio, que rodeava tudo, reunia-se o povo da aliança; e este átrio, no templo posterior, preparava em silêncio a futura reunião dos gentios. Ali estava o Altar do Holocausto. O santuário propriamente dito, o Lugar Santo, הַקֹּדֶשׁ, só admitia os sacerdotes; nele estava a Mesa dos Pães da Proposição, cujos doze pães, renovados a cada sábado, eram uma oferta de cereais permanente em reconhecimento dos dons divinos; em frente dela, o Candelabro de Ouro, com sete lâmpadas, símbolo de Deus no seu Espírito Santo, que ilumina para sempre o templo; e, entre os dois, diante da arca da aliança, o Altar do Incenso, que representava a intercessão diária do sacerdócio e as orações diárias da congregação. No Santo dos Santos, o Lugar Santíssimo, קֹדֶשׁ קֳדָשִׁים, só o sumo sacerdote entrava, uma vez por ano. Ali estava a Arca, o símbolo mais abrangente do culto antigo: a arca da aliança, na qual estavam as tábuas da aliança (Hb 9.4-5), as condições da boa vontade de Deus para com o seu povo e, ao mesmo tempo, o testemunho da pecaminosidade desse povo; a Arca do trono de Deus, porque a sua glória, como uma nuvem espessa, repousava sobre o Kapporeth, ou propiciatório, que cobria aos olhos divinos o registro da transgressão. Sobre o propiciatório ficavam os querubins, tão importantes na decoração simbólica das cortinas, a respeito dos quais se disse: Ó pastor de Israel… tu que estás entronizado acima dos querubins, mostra o teu esplendor! (Sl 80.1). Eles representavam todos os atributos divinos nas suas manifestações universais: barravam a entrada do paraíso e vigiavam o caminho de volta. Mas em Cristo eles se desvaneceram.
O sumo sacerdote. 3. O tabernáculo, com todas as suas divisões, formava uma unidade sob a supremacia do sumo sacerdote. Cada figura, cada símbolo e cada ato dentro dele (desde a bacia à entrada até a nuvem espessa da glória divina, nunca vista senão pela fé) prestava o seu tributo ao grande Fato: Ali eu me encontrarei com você e, de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins… falarei com você (Êx 25.22). Nem sempre será possível traçar a ligação; nem é necessário. Devemos contentar-nos em observar a alusão típica do conjunto ao templo cristão, no qual o Sacrifício Supremo foi oferecido uma vez FORA do véu e depois apresentado DENTRO dele.
II, 246Antítipo. II. O novo templo é tão evidente na revelação evangélica quanto o antigo templo o era na economia levítica.
Cristo, o templo. 1. A glória do Ofertante cristão está em ser ele o Antítipo não só do sumo sacerdote típico e de todas as ofertas que apresentou, mas também do próprio lugar em que ofereceu. E não há nada mais impressionante no grande cumprimento do que a verdade de que o Filho encarnado, enquanto encarnado, é ele mesmo o Templo. A sua primeira predição a respeito da própria Pessoa declarou isso: Destruam este santuário, e em três dias eu o levantarei… Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo (Jo 2.19, 21). A sua natureza humana (a nossa natureza humana) é o santuário em que o Verbo, cuja glória era como do unigênito, se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14). Essa verdade central lança os seus raios para trás, até o paraíso, e para a frente, até a Consumação, dando unidade a todos os registros das Escrituras sobre a habitação de Deus entre os homens. No Éden, a Presença divina, com os querubins guardiões, tinha a sua arca. Depois da Queda, a presença do Senhor (Gn 4.16) permaneceu na terra até o Dilúvio. Tornou-se, então, a glória do Senhor, כָּבוֹד, sobre a Arca da Aliança: permanente, à diferença das teofanias ocasionais, e como tipo da habitação definitiva de Deus na nossa natureza. A teologia judaica posterior deu-lhe o nome de SHEKINAH, assim como o tabernáculo se chamara outrora מִשְׁכַּן יְהֹוָה, a morada de Jeová. Mas agora, em Cristo Jesus, o Filho encarnado, Deus está permanentemente manifestado na carne (1Tm 3.16). O símbolo antigo era objeto apenas da fé; a Realidade também é objeto de fé, mas os apóstolos puderam dizer: vimos a sua glória (Jo 1.14); e ele mesmo disse: Quem vê a mim vê o Pai (Jo 14.9). Quando ele apareceu, já era verdade que o tabernáculo de Deus está com os seres humanos (Ap 21.3), embora houvesse ainda outro cumprimento no futuro. A verdadeira teologia da Pessoa de nosso Senhor sustenta que ele habitou a natureza humana como o seu templo: ele entra na carne, ou veio para dentro dela, ou em carne (1Jo 4.2). Não que a divindade seja o Sumo Sacerdote e a carne, o templo. Há, de fato, duas passagens que parecem autorizar essa opinião. Diz-se que Jesus consagrou para nós um novo e vivo caminho de acesso a Deus por meio do véu, isto é, pela sua carne (Hb 10.20): na sua natureza humana ele sofreu, e o rasgar-se desse véu abriu o caminho para o Santo dos Santos. Mas o rasgar-se da sua santa carne não partiu ao meio a sua Pessoa una: ele, pelo Espírito eterno, a si mesmo ofereceu (Hb 9.14) no céu, quando aquela cortina sagrada já tinha sido restaurada. Mas é preciso lembrar que ele ofereceu A SI MESMO. Devemos nos guardar da tentação de sutilizar demais essas distinções e não julgar necessário harmonizar todos os diversos dizeres da Escritura sobre o grande mistério, que se eleva acima de todas as figuras e analogias.
II, 247A sua Igreja, o templo. 2. O Corpo de nosso Senhor, sob outro aspecto, é a comunhão mística dos seus santos. Nela Jesus é o Sumo Sacerdote, e todos os que são dele participam do seu sacerdócio. (1.) Primeiro, a Igreja como tal é a esfera da função do Sumo Sacerdote. Ele mesmo é a sua Shekinah, cuja glória, vinda do Santo dos Santos e fundida com a Luz séptupla do Espírito, vinda do Lugar Santo, é a PLENITUDE DE DEUS pela qual o apóstolo ora (Ef 3.19). Todo aquele que está em Cristo vive e se move nele como num templo: nós somos santuário do Deus vivo (2Co 6.16). Nele, todo o edifício, bem-ajustado, cresce para ser um santuário dedicado ao Senhor (Ef 2.21). Assim se cumpre a profecia mística do óleo precioso, o qual desce pela barba, a barba de Arão (Sl 133.2). A unção do Sumo Sacerdote desce sobre todos os seus membros, pois ele e eles são um; ao passo que, na sublime confusão das figuras, os que formam a casa espiritual e o sacerdócio santo oferecem a si mesmos como sacrifícios espirituais (1Pe 2.5). (2.) E de cada cristão em particular se diz que é um templo em que o nosso Sumo Sacerdote habita: toda a economia da comunhão com o céu é transposta para o coração do crente, no qual ele é exortado a santificar a Cristo, como Senhor (1Pe 3.15). Essa habitação interior do Sumo Sacerdote é a característica mais elevada e mais profunda da religião pessoal: é aquela MORADA NELE (Jo 14.23) que o Salvador reservou para a sua última promessa a um indivíduo na terra, bem como para a sua última promessa a um indivíduo, feita do céu: entrarei em sua casa (Ap 3.20).
Céu e terra. 3. Mas há uma visão ainda mais ampla. O céu e a terra formam o novo Templo em que o nosso Sumo Sacerdote ministra. É um santuário não feito por mãos humanas (Hb 9.11). O céu é o Santo dos Santos, no qual ele entrou com a virtude do seu sacrifício. Ali estão os querubins de glória, sem o símbolo, contemplando não o propiciatório aspergido com sangue, mas a Pessoa de Jesus, que, sem sangue e sem o incenso, se apresenta com ousadia por nós, para que também nós nos aproximemos com ousadia. Levando o símbolo até as suas consequências, o expositor do templo cristão diz que era necessário que as próprias coisas celestiais fossem purificadas com sacrifícios superiores (Hb 9.23): não que o próprio céu precise de aspersão, a não ser por meio da única Propiciação do seu Deus. Em certo sentido, o Lugar Santo foi abolido: há um só Sacerdote, e todos os crentes são um sacerdócio real, que oferece sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo. Naquele átrio exterior foi erguido, uma vez, o altar de nosso Senhor, a Cruz. Ele já não existe; e, no entanto, o apóstolo diz: Temos um altar! (Hb 13.10), disfarçando, e mal disfarçando, a sua alusão à cruz. Neste átrio exterior não há distinção entre judeu e gentio: Cristo derrubou a parede de separação que estava no meio (Ef 2.14). Nem há nenhuma outra distinção. Toda a família dos crentes, ainda em estado de prova, ocupa a GRANDE CASA (2Tm 2.20) em que há muitas moradas (Jo 14.2). Mas permanece o estranho paradoxo de que, enquanto os cristãos da igreja militante pisam o pavimento do átrio exterior, estão ao mesmo tempo nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1.3). Por isso são exortados a entrar no Santuário lá do alto, tendo ousadia (Hb 10.19), quase na mesma frase que fala de não deixarmos de nos congregar aqui embaixo (Hb 10.25). Mas esses assuntos pertencem antes à doutrina da Igreja.
II, 248A expiação do Sumo Sacerdote. 4. Há ainda outra aplicação da função sumo-sacerdotal de nosso Senhor a que importa referir-se aqui, ainda que de leve. Todo o plano da expiação cristã pertence a esse ofício do Messias. Não é como Mestre, nem como Governante, que ele salva o mundo, a não ser enquanto ensina os princípios da sua obra sacrificial e administra as bênçãos que ela adquiriu. Mais adiante se verá quanto a doutrina da Expiação está ligada ao governo divino de um Legislador que administra a sua lei num novo tribunal, o Tribunal Mediador. Ali ele exige e recebe o que a linguagem teológica chama de satisfação. Mas é preciso lembrar sempre que o Templo é a verdadeira esfera do sacrifício expiatório. A sala de julgamento evangélica não é outra coisa senão um átrio do Templo [N. do T.: no inglês, court é tanto “tribunal” quanto “átrio”]. E é algo mais do que uma fantasia mística a ideia que vê no véu a separação entre o santuário exterior, onde se oferece a oblação que satisfaz a justiça, e o Santo dos Santos, onde ela é apresentada para a aceitação divina. A Expiação de nosso Senhor é a OBEDIÊNCIA SACRIFICIAL, ou o SACRIFÍCIO OBEDIENTE, que removeu o pecado: a obediência foi prestada no átrio exterior, onde o sangue reina para a morte; o sacrifício foi oferecido no santuário interior, onde a misericórdia reina para a vida. Em Cristo, todas essas coisas são uma só. E essa unidade é o objeto principal da exposição evangélica da Epístola aos Hebreus. Sobre todos os outros assuntos, mesmo os de uma economia que era divina, ela é muito breve e nunca se mostra empenhada em se alongar: dessas coisas não falaremos, agora, com mais detalhes (Hb 9.5).
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 216-248, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.