W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · A administração da redenção (continuação)

A filiação: regeneração e adoção

III, 3O ESTADO DE SALVAÇÃO (CONTINUAÇÃO).

A FILIAÇÃO CRISTÃ.

Filiação. O privilégio cristão da filiação é o da vida filial restituída ao homem em Cristo e por meio dele. Esta bênção, que liga de modo especial a Trindade mediadora, como Pai, Filho e Espírito Santo, às novas relações do crente, pode ser distinguida em Regeneração interna e Adoção externa. Mas, por distintas que sejam, essas duas devem ser unidas quando consideramos as Prerrogativas peculiares dos filhos de Deus vistos como filhos dele: são os direitos da adoção conferidos aos que, pela sua renovação, se tornaram capazes deles; ou, vistos de outro ângulo, os direitos da regeneração que na adoção são reconhecidos e concedidos.

Regeneração e adoção. 1. Não há termos mais estritamente correlatos do que Regeneração e Adoção. Eles descrevem a mesma bênção sob dois aspectos: o primeiro se refere ao caráter filial; o segundo, ao privilégio filial. Mas essa ligação estreita não é a de causa e efeito: são coordenados, e o elo entre eles é a filiação que lhes é comum. A certeza da adoção filial não produz a vida regenerada; nem a infusão da vida perfeita da regeneração investe por si mesma os filhos de Deus de todas as prerrogativas de herdeiros. Além disso, são tão distintos das outras bênçãos principais da economia da graça quanto são unidos entre si. O estado de justificado não envolve necessariamente os privilégios especiais da adoção; nem a regeneração, como tal, implica a relação específica com Deus que a santificação significa. Os dois termos que agora consideramos abrangem, na sua unidade, um departamento inteiramente distinto da administração da Nova Aliança pelo Espírito: conduzem-nos à casa da fé e à família de Deus. Embora toquem em muitos pontos aqueles outros departamentos, são, no entanto, perfeitos e completos em si mesmos.

III, 4Ligação com a Trindade. 2. O privilégio da filiação cristã liga de modo peculiar a Santa Trindade à administração da graça. Se nos for permitida tal distinção, ele tem com o Filho encarnado uma ligação mais direta do que os outros privilégios da aliança. Esta bênção específica está, em relação à justificação e à santificação, como o Filho está em relação ao Pai e ao Espírito Santo. Entre as últimas palavras do Salvador estavam estas: Subo para o meu Pai e o Pai de vocês (Jo 20.17), para aquele Pai de quem toda paternidade, nos céus e na terra, recebe o nome (Ef 3.15) [N. do T.: a NAA traz “toda a família”; o grego πατριά vem de πατήρ, “pai”]. Aquele que é o Logos para a criação em geral é o Filho para a criação filial. Mas esta relação especial com o Filho se estende aos dois aspectos da filiação, como adoção e como regeneração. Somos adotados na relação que o Filho ocupa eternamente: por isso o termo que exprime esta prerrogativa é υἱοθεσία, em que se conserva υἱός, a única palavra usada sempre para significar a relação do Filho com o Pai. Somos regenerados pela vida de Cristo comunicada por meio do Espírito: por isso é παλιγγενεσία, e somos τέκνα [filhos], termos que, por assim dizer, reproduzem ambos no tempo a geração eterna. A nossa regeneração corresponde ao eternamente Gerado; a nossa adoção, ao eternamente Amado.

Unidas. 3. Há algumas passagens no Novo Testamento que unem as duas; e elas podem ser apresentadas como prefácio geral ao que segue. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus (Jo 1.12): ἐξουσίαν τέκνα Θεοῦ γενέσθαι, autoridade ou privilégio de serem feitos filhos, porque creem no nome do Filho. Isso é exatamente o mesmo que depois se chama adoção. Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jo 1.13): temos aqui uma definição completíssima da regeneração. As duas ideias percorrem o capítulo oitavo de Romanos, embora tanto ali como na epístola aos Gálatas seja a adoção que se destaca mais. Em são Pedro temos as duas: que, segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou (1Pe 1.3): isso é regeneração; para uma herança que não pode ser destruída (1Pe 1.4) denota a adoção, à qual a herança pertence como privilégio. Mas o melhor de tudo está em são João: Vejam … a ponto de SERMOS CHAMADOS filhos de Deus; e, de fato, SOMOS filhos de Deus (1Jo 3.1-2; καὶ ἐσμέν, nos códices A, B, C e Sinaítico). Nisto, porém, como em tudo, o próprio nosso Senhor deu a palavra: Se, pois, o Filho os libertar, vocês serão verdadeiramente livres (Jo 8.36), isto é, pela posse de um lugar entre os filhos e da liberdade dos filhos. Se Deus fosse, de fato, o pai de vocês, certamente me amariam (Jo 8.42): aqui, como mostra o contexto, o que se quer dizer é a regeneração, ou a posse da nova vida.

III, 5A REGENERAÇÃO.

Regeneração. A regeneração é a obra final e decisiva operada no espírito e na natureza moral do homem quando o princípio perfeito da vida espiritual em Cristo Jesus é comunicado pelo Espírito Santo. A Escritura dá muitas e variadas descrições desta mudança fundamental, que mostram as suas relações com cada uma das Pessoas da Trindade, com a fé penitente de quem a recebe e com os meios empregados para efetuá-la. O melhor método para obter uma visão clara do ensino da palavra de Deus sobre este assunto é simplesmente ordenar e classificar essas descrições.

Divina. I. O Agente divino na nova vida é a Santa Trindade, cuja ação é de geração e de criação: cada um desses termos é, respectivamente, o centro de um círculo de expressões.

A Trindade. 1. As Pessoas da Sagrada Trindade são, cada uma por si, Agentes. Do Pai se diz: segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade (Tg 1.18). Ele lhes deu vida (Ef 2.1). Assim também Deus em geral, ou o Deus e Pai: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que … nos regenerou! (1Pe 1.3). O Filho vivifica aqueles a quem quer (Jo 5.21). Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância, περισσόν (Jo 10.10): a vida mais alta, mais profunda e mais plena que resulta da regeneração cristã, em contraste com a vida preliminar que precede o novo nascimento, e também com o privilégio imperfeito da economia antiga. É, contudo, a adoção de filhos que se atribui mais expressamente ao Filho: deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, por privilégio, aos que nasceram de Deus (Jo 1.12-13). Mas o Espírito Santo é o Agente específico: como Administrador da redenção, ele é Espírito vivificante (1Co 15.45). O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito (Jo 3.6). Não há tradução mais exata do pensamento do Novo Testamento para a linguagem eclesiástica do que a que deu ao Espírito Santo o título de τὸ πνεῦμα τὸ ζωοποιόν, o Doador da vida.

III, 62. A operação divina apresenta três classes gerais de termos.

Geração. (1.) Alguns se referem à geração. O mais simples é o de gerar: quem ama aquele que o gerou ama também o que dele é nascido, τὸν γεννήσαντα (1Jo 5.1). A ideia se modifica no nos regenerou de são Pedro, ἀναγεννήσας (1Pe 1.3). Numa passagem, o original emprega a função da mãe, embora a tradução a disfarce: segundo o seu querer, ele nos gerou: ἀπεκύησεν, assim como antes, no versículo 15, se emprega o mesmo verbo peculiar: gera a morte (Tg 1.15, 18). Essas ideias se unem na palavra geral vivificar: o Filho vivifica aqueles a quem quer, ζωοποιεῖ (Jo 5.21). Isso, por sua vez, se modifica outra vez: nos deu vida juntamente com Cristo (Ef 2.5). A de são João é uma variação notável do mesmo pensamento: Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado, porque nele permanece a semente divina (1Jo 3.9). Todas essas descrições são muito impressionantes, porque adotam e aplicam aos cristãos a linguagem sagrada usada primeiro a respeito do DEUS UNIGÊNITO (Jo 1.14) [N. do T.: a expressão “Deus unigênito” é a de Jo 1.18].

Criação. (2.) Muitos outros se referem à criação. São Tiago une esta ideia à anterior: ele nos gerou … para que fôssemos como que primícias das suas criaturas (Tg 1.18). É ao mesmo tempo criação, nova criação e a criação secundária da renovação. Se alguém está em Cristo, é nova criatura: κτίσις, criação ou criatura (2Co 5.17). Ele é criado em Cristo Jesus para boas obras (Ef 2.10). Trata-se, porém, de uma criação secundária, ou seja, de reconduzir a alma à ordem, tirando-a do seu caos: pela ação renovadora do Espírito Santo, ἀνακαινώσεως (Tt 3.5). Aqui devemos lembrar a analogia da gênese de todas as coisas no princípio: houve uma criação absoluta da matéria, isto é, o chamar à existência o que não existia; e houve a formação posterior dessa matéria nas formas que constituem o Cosmos habitável. Esta última é a criação em que a Escritura mais se detém, quer se trate da ordem física, quer da ordem espiritual. Assim como quem dorme está morto e o morto apenas dorme, Desperte, você que está dormindo, levante-se dentre os mortos (Ef 5.14), assim também a criação é apenas uma renovação, ao passo que a renovação não é menos que uma criação. Às vezes as duas se unem. E se revestiram do novo homem, τὸν νέον, que se renova, τὸν ἀνακαινούμενον (Cl 3.10) [N. do T.: em Cl 3.10 e Ef 4.24 a NAA traz “nova natureza”; mantém-se “novo homem”, de que depende o argumento de Pope, aqui e adiante]. A se deixar renovar no espírito do entendimento de vocês, ἀνανεοῦσθαι, e a se revestir do novo homem, τὸν καινὸν ἄνθρωπον, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade (Ef 4.23-24). Convém notar, sem forçar demais, a distinção entre as duas formas, νέος e καινός, e as suas combinações. A primeira se refere ao tempo: o novo homem é inteiramente diferente do seu eu ANTERIOR. A segunda se refere à qualidade: o novo homem é diferente do seu EU anterior, e a ideia de uma grande mudança fica mais marcada. Nessas passagens, o ato criador de Deus é visto como um processo que resulta no novo caráter; como um processo em que ele se vale da cooperação do homem. Mas em outra passagem a ideia criadora é usada antes para um ato definido: Pois somos feitura dele, ποίημα, criados em Cristo Jesus para boas obras (Ef 2.10). Somos salvos à parte das nossas próprias obras, por meio de uma nova obra de Deus, que nos prepara para obras que então são boas: boas porque brotam de uma natureza renovada, são praticadas sob a influência do Espírito Santo e renunciam para sempre a toda pretensão de bondade independente da graça dele.

III, 7Operada no homem. II. Como operada no homem, a regeneração é descrita de muitas maneiras: há uma variedade maior de definições indiretas e figuradas desta bênção do que de qualquer outra na aliança da graça.

Novo nascimento. 1. Os termos que indicam o nascimento espiritual vêm em primeiro lugar. Os cristãos são nascidos de Deus, ἐκ τοῦ Θεοῦ; são filhos de Deus (1Jo 3.9-10); são nascidos de novo, ἄνωθεν, que é o mesmo que do alto (Jo 3.3). Na verdade, a expressão tem sentido antes local que temporal, e significa rigorosamente do alto, ou do céu, isto é, nascido de Deus, segundo a interpretação de são João na epístola. Como descrição da regeneração, ela deve ter a primazia, por ser a primeira e única palavra formal do próprio nosso Senhor sobre o assunto. Quando ele acrescenta: O vento sopra onde quer, você ouve o barulho que ele faz, mas não sabe de onde ele vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito (Jo 3.8), somos ensinados que a graça preliminar do Espírito Santo tem o seu misterioso desfecho no novo nascimento daquele que nasceu (ὁ γεγεννημένος, no perfeito: a conclusão de um processo). É, como o definimos, a plena vida filial. A palavra distingue o novo produto do que é nascido da carne (Jo 3.3, 6-7); é uma παλιγγενεσία e indica a concessão de uma nova vida segundo a ideia original do homem na mente divina.

Ressurreição. 2. É uma ressurreição de um estado de morte; da morte, e não simplesmente um erguer-se do pecado em geral: como pessoas que passaram da morte para a vida (Rm 6.13). (1.) É, portanto, o mesmo homem que estava morto em suas transgressões e pecados (Ef 2.1); e a ideia parece ser que o novo homem é ressuscitado dentro do velho, para ser nutrido e crescer enquanto o velho morre. Isso segue a analogia das palavras do nosso Senhor: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só (Jo 12.24). A velha natureza é mortificada com Cristo, e a nova se levanta dela. Mas em outros aspectos a analogia falha. A verdadeira vida do espírito é vida na morte e morte para a vida; mas não é a dissolução da nova natureza que alimenta o novo germe. (2.) Por isso, a visão mais rigorosa deste novo nascimento interior é a de uma ressurreição na Com Cristo. comunhão do Salvador ressurreto, e a liga à comunhão da sua morte expiatória para a condenação do pecado. Em outras palavras, a nova vida é a contrapartida da morte para a lei. Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição (Rm 6.4-5). Quem está unido ao Redentor pela fé, da qual o batismo é o sinal, está justificado do pecado (Rm 6.7); mas isso não pode ser sem uma ressurreição espiritual com ele, da qual o sair da água é o símbolo, assim como o descer a ela é o símbolo da justificação. Nessa passagem, a regeneração é considerada antes como um processo que se segue à morte instantânea: para que o corpo do pecado seja destruído, e não sejamos mais escravos do pecado (Rm 6.6). Daí a expressão: Assim também vocês considerem-se [como] mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus (Rm 6.11). A mesma vida instantânea com Cristo, seguida da mesma morte em vida da mortificação espiritual, é ensinada na epístola aos Colossenses: E quando vocês estavam mortos nos seus pecados e na incircuncisão da carne, ele lhes deu vida juntamente com Cristo, perdoando todos os nossos pecados (Cl 2.13). Circuncisão espiritual. … Portanto, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena (Cl 3.5). (3.) A circuncisão espiritual com Cristo é, portanto, outro aspecto da mesma verdade. A incircuncisão da carne é a morte espiritual, em contraste com mortos nos seus pecados, que é a condenação da lei. E neste cumprimento do símbolo, quando se circuncida o coração (Jr 4.4), naquela circuncisão interior que é a do coração, pelo Espírito, não segundo a letra (Rm 2.29), temos o antítipo, no Novo Testamento, de uma grande série de tipos da futura regeneração no Antigo Testamento.

III, 9Um mundo novo. 3. É a introdução num mundo novo. Isso decorre do anterior: os filhos desta ressurreição são vivificados ou ressuscitados para uma novidade de vida (Rm 6.4). Têm novos gostos, apetites, disposições e sentidos, adaptados a um novo estado de coisas. Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas (2Co 5.17). Estado de existência. Desta mudança falou o nosso Senhor quando disse: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus (Jo 3.5). Os cristãos, tendo subido com Cristo, estão assentados nas regiões celestiais (Ef 1.20); por isso se exige deles que pensem nas coisas lá do alto (Cl 3.2). Iluminação. Este aspecto do novo nascimento o liga à Iluminação. É o Haja luz! (Gn 1.3) na alma. Porque Deus, que disse: “Das trevas resplandeça a luz”, ele mesmo resplandeceu em nosso coração (2Co 4.6): o que liga a gênese espiritual do Novo Testamento, ou palingenesia, à gênese natural do Antigo.

A vida de Cristo comunicada. 4. É participar, num sentido mais profundo do que qualquer um dos já mencionados, da vida de Cristo. O nosso Senhor, no início do seu ensino, falou do que é nascido do Espírito (Jo 3.6); no fim, apresentou a regeneração como união consigo mesmo: Eu sou a videira, vocês são os ramos (Jo 15.5). Porque eu vivo, vocês também viverão (Jo 14.19). E, entre uma coisa e outra, falou de si mesmo, recebido pela fé, como a vida da alma: se vocês não comerem a carne do Filho do Homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em vocês mesmos (Jo 6.53). Isso às vezes é chamado Cristo em vocês (Cl 1.27), e Cristo formado na natureza (Gl 4.19). É mais do que uma comunhão federal na sua morte e na sua vida, como a que resulta da fé no Redentor comum e apresenta a regeneração, em certo sentido, como bênção coletiva. É a comunicação mística de certa virtude divino-humana do ser do Salvador, que não se pode definir com palavras. Assim nos tornamos coparticipantes da natureza divina (2Pe 1.4). A isso se referia uma daquelas palavras profundas que o nosso Salvador pronunciou sem interpretação, para que o seu povo as ponderasse para sempre: eu vim para que tenham vida e a tenham EM ABUNDÂNCIA, περισσόν (Jo 10.10); para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida (Rm 6.4).

A lei interior. 5. É uma nova lei estabelecida no coração, segundo os termos da aliança evangélica: Imprimirei as minhas leis no coração deles e as inscreverei sobre a sua mente (Hb 10.16). A lei estabelecida no interior é uma definição do novo nascimento que o liga à justificação: a fim de que a justiça da lei se cumprisse em nós (Rm 8.4) [N. do T.: a NAA traz “a exigência da lei”]. O cumprimento da lei é o amor (Rm 13.10). Isso também o liga ao Espírito Santo, não só à sua ação, mas à sua habitação: a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus (Rm 8.2).

III, 10A imagem divina. 6. Por fim, a regeneração é a renovação do homem segundo a imagem divina. Esta visão específica certamente não é exclusiva de são Paulo; mas ele lhe dá destaque especial: o novo homem que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou (Cl 3.10). Um estudo cuidadoso destas palavras rende muita verdade importante. (1.) O padrão da renovação é a imagem original em que o homem foi criado. No momento em que a nova vida foi comunicada, aquela imagem foi restaurada, como se afirma mais diretamente na passagem paralela, criado segundo Deus, τὸν κατὰ Θεὸν κτισθέντα (Ef 4.24): o novo homem foi criado de novo, de uma vez por todas; e o conhecimento e a santidade da verdade que vêm depois são o fim para o qual ele foi criado. (2.) Quando são Paulo acrescenta: Aqui não pode haver mais grego e judeu … mas Cristo é tudo e está em todos (Cl 3.11), mostra-nos que a nova criação está especialmente relacionada com Cristo como o Arquétipo desta nova imagem; o que, na verdade, já valia para a imagem original que o pecado desfigurou, mas agora está revelado mais plenamente. (3.) Embora o misterioso ato regenerador tenha sido a restauração daquela semelhança, fica implícito que a renovação (pois este é o termo) é um processo que avança sempre rumo à plenitude. A imagem primitiva foi desfigurada por uma só ofensa; mas é por muitas etapas sucessivas que ela é inteiramente restaurada. E todos nós, com o rosto descoberto, contemplando (ou recebendo) a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, que é o Espírito (2Co 3.18). Assim a nova imagem é recuperada gradualmente; o Espírito Santo vai continuamente preenchendo e aprofundando o contorno; e a vida regenerada, como a justiça e a santificação, tem o seu desfecho na perfeição. Assim como a regeneração, que é uma só, conduz a uma renovação contínua, assim também a imagem, gravada de novo uma só vez, conduz a uma transformação contínua: deixem que Deus os transforme pela renovação da mente (Rm 12.2). (4.) Mais uma vez, e isto é de grande importância, o objeto desta mudança, ou o sujeito desta renovação, é toda a natureza espiritual do homem. Não o seu corpo; pois a regeneração do corpo será a sua ressurreição: o corpo, na verdade, está (e permanece) morto por causa do pecado (Rm 8.10), e tem de sofrer a sua pena. Condenado como está à dissolução, deve ser apresentado em oblação incessante como instrumento do espírito, que é vida, por causa da justiça, posto sobre o altar do serviço no presente e da esperança no futuro. Mas o espírito, como sede da razão, ou o princípio imortal no homem, e a alma, como o mesmo espírito ligado ao mundo dos fenômenos pelo corpo, são trazidos, em todas as suas complexas faculdades, que formam uma unidade na diversidade, sob o poder regenerador do Espírito Santo. Lemos que a pessoa natural, ψυχικὸς ἄνθρωπος, não aceita as coisas do Espírito de Deus (1Co 2.14); isto é, o homem cujo espírito está subjugado à alma animal, anímico, que não tem o Espírito (Jd 19) [N. do T.: a NAA traz “seguem os seus próprios instintos e não têm o Espírito”; o grego é ψυχικοί, da mesma raiz de ψυχή, “alma”]. Mas isso não significa que a alma em si, à parte do espírito, seja a única culpada: o espírito também está na transgressão; e o homem regenerado só se torna ὁ πνευματικός, a pessoa espiritual (1Co 2.15), porque o seu espírito é habitado pelo Espírito divino. Nem a alma sem o espírito, nem o espírito sem a alma, é a sede do pecado ou o sujeito da regeneração. É o homem que é renovado. (5.) Por fim, a regeneração não é, portanto, a remoção de algo que o pecado tenha infundido na essência do espírito ou da alma. Não se diz que recebemos uma nova natureza: embora nenhuma linguagem seja mais comum do que esta, ela precisa ser restringida e resguardada com muito cuidado. Coparticipantes da natureza divina nós somos (2Pe 1.4); mas como recebida na nossa própria natureza renovada. O coração é o homem, o eu; e a promessa é: Eu lhes darei um coração novo (Ez 36.26).

III, 117. Não podemos examinar esses vários aspectos da nova vida sem ficar com a impressão de que ela é, em certo sentido, a Bênção central. bênção central da aliança cristã. A justificação é para a vida, e essa vida é consagrada a Deus na santificação. Mas a vida, tal como a vida está em Jesus, é a unidade de tudo. Eu sou o caminho, a verdade e A VIDA (Jo 14.6). O último livro do Novo Testamento nos diz que todo o seu ensino se concentra no Verbo da vida (1Jo 1.1), περὶ τοῦ λόγου τῆς ζωῆς; e esse testemunho volta a ressoar nas suas últimas palavras: Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna, palavras que seguem de perto o último e mais impressionante resumo que são João faz de toda a doutrina do novo nascimento. Todo aquele que é nascido de Deus, ὁ γεγεννημένος ἐκ τοῦ Θεοῦ, é aquele que foi gerado de Deus, ὁ γεννηθεὶς ἐκ τοῦ Θεοῦ [N. do T.: a NAA traz nos dois casos “nascido de Deus”]; ele não vive em pecado, mas guarda a si mesmo; o mundo inteiro ao seu redor jaz no Maligno; mas ele, ou melhor, nós estamos naquele que é o Verdadeiro, EM SEU FILHO, JESUS CRISTO (1Jo 5.18-20). Assim, a Bíblia se encerra com todos os elementos da doutrina da regeneração. Ela é a geração divina da vida filial de Cristo em nós: por isso, acontece de uma vez por todas. É a vida progressiva que, considerada no seu ideal aperfeiçoado, não pode pecar: por isso, é a renovação rumo a um nascimento consumado. E é aquela mesma vida eterna que, começada na terra, será consumada no céu.

III, 12Os meios. III. A regeneração é descrita com referência aos meios empregados na economia da graça. O ato divino é sempre apresentado em conexão com uma instrumentalidade. Deus gera pela palavra da verdade; nosso Senhor dá a sua vida, e não somente a sustenta, no comer e no beber dele mesmo; o Espírito Santo regenera instrumentalmente por meio da ordenança ou sacramento do batismo. Basta-nos agora indicar brevemente estes pontos: eles serão discutidos mais plenamente quando chegarmos aos meios de graça e aos sacramentos.

A Palavra. 1. A Palavra de Deus é o instrumento e o poder da regeneração.

Como verdade. (1.) Não como a voz absoluta e autoritativa que chama à nova vida, mas como a verdade que é aplicada ao entendimento e aos sentimentos e, por meio deles, à vontade. É a palavra de convencimento ou de repreensão no processo preliminar: a repreensão, no entendimento, que impõe ao pecador a palavra do Senhor Vocês precisam nascer de novo (Jo 3.7), que desperta no coração um profundo senso de necessidade e o desejo da verdadeira vida da alma e, assim, prepara o espírito, ainda não regenerado, mas animado pela vida preliminar do arrependimento, para o pleno poder da regeneração. Essa influência da verdade às vezes é considerada fruto do novo nascimento; na realidade, é uma preparação para ele.

Apresentando Cristo. (2.) Ela é o instrumento, além disso, por ser o veículo pelo qual se apresenta o próprio Salvador, a Verdade, o Objeto supremo da confiança. Abraçado pela fé, que é ao mesmo tempo o último ato da alma não regenerada e o primeiro ato da alma regenerada, ele se torna a Vida, além de ser a Verdade. Da palavra que oferece e transmite o Senhor que vivifica, são Pedro diz que é a semente incorruptível (1Pe 1.23); embora são João queira dizer mais com uma semente de Deus que permanece no espírito humano (1Jo 3.9). Em são Tiago é a palavra enxertada (Tg 1.21) [N. do T.: a NAA traz “a palavra implantada”]: aqui temos uma variação notável da linguagem habitual da Escritura. Não somos nós que somos enxertados na Videira; é a Videira que é enxertada em nós; ou melhor, é a palavra divina, com a sua doutrina, que é inserida na natureza para a regeneração.

III, 13(3.) Mas, de modo ainda mais geral, é a Palavra de Deus o instrumento de toda operação divina no coração humano: O ser humano não viverá só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Mt 4.4). A palavra é a vontade soberana e graciosa dele. Assim como não é o pão que sustenta a vida, mas a virtude divina do pão, assim também não é a pregação nem o sacramento, mas a virtude divina presente em ambos, que comunica a vida. Toda energia de Deus que vem do céu remonta, afinal, à sua palavra.

Batismo. 2. O batismo também, como sacramento do novo nascimento, ou melhor, da entrada da alma em Cristo, dá à regeneração tanto um nome especial como um caráter especial. O batismo com o Espírito Santo (Mt 3.11) é uma das suas definições. O rito é o lavar regenerador (Tt 3.5), λουτρόν, o banho. É o símbolo da remoção do pecado e, nisso, se parece com o seu precursor, a circuncisão. Esta simbolizava, pelo corte de uma porção do corpo natural, a destruição do corpo do pecado (Rm 6.6). O batismo, rito mais brando, simboliza a entrada em Cristo, na sua morte e na sua vida, e não apenas a lavagem do pecado, que se refere à sua relação com a justificação ou o perdão. É o penhor do dom da regeneração, que permanece na igreja: a pia simbólica que para sempre dá a certeza do fluir invisível da fonte aberta . . . para remover o pecado e a impureza (Zc 13.1). Enquanto o λουτρόν evangélico estiver no santuário cristão, haverá regeneração para todos os seus membros. O batismo também a sela para o crente, seja como dom já comunicado, seja como dom concedido juntamente com o rito, seja como dom a ser plenamente concedido mais tarde. A sua estreita ligação com a bênção da qual é o símbolo sacramental se mostra em todo o Novo Testamento: desde as palavras de nosso Senhor, quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus (Jo 3.5), que não devem ser esvaziadas do seu sentido, passando pelo ensino e pela prática dos Atos dos Apóstolos, até as últimas palavras de são Paulo a Tito, já citadas. A água, na doutrina de Cristo, torna-se a pia, no ensino do apóstolo.

A ADOÇÃO.

Adoção. Adoção é o termo empregado algumas vezes para significar o ato divino declaratório pelo qual os que são aceitos em Cristo são reintegrados nos privilégios da filiação que se havia perdido, por amor do Filho encarnado. Emprega-se também para designar o estado a que pertencem esses privilégios.

III, 14O termo. I. O termo é usado somente por são Paulo. Talvez tenha sido incorporado ao vocabulário cristão a partir do direito romano. Cum in alienam familiam inque liberorum locum extranei sumuntur, aut per prætorem fit, aut per populum. Quod per prætorem fit ADOPTIO dicitur; quod per populum ARROGATIO [Quando estranhos são recebidos numa família alheia e no lugar de filhos, isso se faz ou por meio do pretor ou por meio do povo. O que se faz por meio do pretor chama-se ADOÇÃO; o que se faz por meio do povo, AD-ROGAÇÃO] (Aulo Gélio, Noites áticas V, 19) [N. do T.: o original indica X, 19]. Se o novo filho era recebido estando sob a autoridade do seu pai natural, o ato era a adoção; se era adotado alguém que era senhor de si mesmo, era a ad-rogação. O termo grego, υἱοθεσία, é explicado por Hesíquio: οὐ φύσει ἀλλὰ θέσει [não por natureza, mas por posição]. São Paulo o usa com três aplicações. Primeiro, a respeito dos israelitas, a quem pertence a adoção (Rm 9.4), isto é, a eleição especial dentre as nações. Segundo, a respeito dos filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus (Gl 3.26): a fim de que recebêssemos a adoção de filhos (Gl 4.5), para a qual fomos predestinados (Ef 1.5). Por fim, a respeito da plena manifestação dos filhos de Deus na sua perfeita investidura em todos os seus privilégios: aguardando a adoção de filhos (Rm 8.23). Isso corresponde à regeneração final, quando o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória (Mt 19.28): exemplo notável da verdadeira relação entre os termos regeneração e adoção. Ambos são usados a respeito da restauração final de todas as coisas, e ambos consideram essa restauração, principalmente, como a restituição do homem ao seu estado original e perdido.

A realidade. II. Quanto à coisa significada, ela pode ser considerada primeiro como ato de Deus e depois como conferida ao homem: a declaração divina e o seu resultado humano.

Ato de Deus. 1. A adoção está ligada ao Deus triúno. (1.) É o Pai quem adota na sua própria casa: de quem toda a família (toda paternidade ou relação de linhagem) nos céus e na terra recebe o nome (Ef 3.15). (2.) Mas ela se refere especialmente ao Filho: é em união com ele, o Filho, que nos tornamos filhos; somos adotados na casa por Cristo, que como Filho é fiel em sua casa (Hb 3.6) e que nos comunica, como a seus irmãos, uma participação na sua própria prerrogativa: Se, pois, o Filho os libertar, vocês serão verdadeiramente livres (Jo 8.36). (3.) Ela é declarada e atestada pelo Espírito Santo: o Espírito de adoção (Rm 8.15). É ministrada à fé, à mesma fé comum que salva, mas que neste caso tem o seu objeto específico: a promessa, isto é, da aliança superior: Serei o Pai de vocês (2Co 6.18). Não que o pecador penitente, ao vir a Deus, tome cada bênção especial de que precisa como objeto da sua confiança. A sua fé é uma só e se dirige a um só objeto; e ele, a princípio, não faz distinção alguma. Depois, porém, quando chega a compreender os seus privilégios, aprende a dirigir a sua confiança a Deus sob vários aspectos. E este, o de que ele é Pai, é um aspecto que jamais pode ser esquecido. O selo dessa fé é o testemunho do Espírito, que testifica com o nosso espírito (não ao nosso espírito, mas com ele e por meio dele) que somos filhos de Deus (Rm 8.16) [N. do T.: a NAA traz “confirma ao nosso espírito”; Pope segue a KJV, beareth witness with our spirit, e o argumento se apoia nesse “com”].

III, 15Recebida pelo homem. 2. Como recebida pelo homem, a adoção define o que é peculiar à relação filial, como filiação restaurada quanto aos seus privilégios.

Mais que a criação. (1.) Não é a filiação da criação que aqui se significa. Os anjos são os filhos de Deus (Jó 1.6), como também os que exercem autoridade entre os homens: Eu disse: Vocês são deuses; todos vocês são filhos do Altíssimo (Sl 82.6). A raça humana, na sua origem, recebeu essa designação: Adão, filho de Deus (Lc 3.38). Por isso, o filho pródigo continua sendo filho. Mesmo depois que a imagem moral se foi, a imagem natural permaneceu; a prerrogativa original jamais pode ser inteiramente tirada. Porque este meu filho estava morto e reviveu (Lc 15.24): linguagem posta nos lábios de um pai terreno, mas, com toda a certeza, apenas como o eco humano de um sentimento divino.

Não a semelhança. (2.) Também não é a filiação da semelhança: segundo o modo hebraico de falar, lemos a respeito dos filhos da luz e dos filhos do mundo (Lc 16.8), e dos ímpios nosso Senhor disse, somente com esse sentido: Vocês são do diabo, que é o pai de vocês (Jo 8.44). No sentido de conformidade com a sua vontade e de seguidores do seu exemplo, Cristo nos exorta a andar de modo digno da nossa relação filial: para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus (Mt 5.45). E fomos predestinados para sermos conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29). A relação de filhos, porém, precede a conformidade.

(3.) Mas é a restauração dos pródigos à casa de Deus, e pode ser considerada de dois pontos de vista: primeiro, como simples reintegração na posição original de filhos do Pai criador; e, segundo, como uma dotação inteiramente nova, uma investidura nas prerrogativas especiais de irmãos de Jesus, o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29). Essa distinção, porém, não é observada com frequência. A nova relação de filiação por adoção revelou, de fato, mais plenamente a paternidade primária e inextinguível de Deus; mas dela mal nos lembramos, por causa da nova glória da sua paternidade em Cristo.

III, 16OS PRIVILÉGIOS DA FILIAÇÃO CRISTÃ.

Privilégios. Os privilégios da entrada na família de Deus pela adoção (que, como privilégios, estão ligados antes à adoção do que à regeneração) são claramente apresentados no Novo Testamento. São eles: o acesso filial, na confiança da devoção; a liberdade de toda espécie de escravidão; as vantagens da eleição; a certeza de uma constante condução e direção do Espírito Santo; e o gozo da herança cristã, primeiro em penhor e depois de modo final. Todos eles, naturalmente, têm relação com as outras bênçãos da nova aliança, na medida em que essas bênçãos são uma só na sua diversidade; mas estão especialmente ligados à filiação cristã.

I. O acesso a Deus em confiança filial é a primeira prerrogativa. Vocês receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: Aba, Pai (Rm 8.15). Confiança na devoção. Este é o segredo de toda devoção e de todo culto cristão. O templo que o nosso Sumo Sacerdote consagrou é sempre a casa de Deus: casa num sentido desconhecido da antiga economia, casa em que os adoradores adoram como filhos. Depois de citar a declaração serei o seu Deus (Êx 29.45), são Paulo acrescenta outra passagem, de outro lugar: e serei o Pai de vocês (2Co 6.16, 18). Esse acréscimo é um exemplo muito impressionante da mudança que o cristianismo introduziu nas relações do povo de Deus com ele. De Salomão se havia dito: Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho (2Sm 7.14); e ainda: o escolhi para filho e eu lhe serei por pai (1Cr 28.6). O apóstolo estende esse privilégio especial a todos os crentes em Cristo, extensão da qual já se dera um indício distante: Tragam os meus filhos de longe e as minhas filhas dos confins da terra (Is 43.6), passagem em que são Paulo encontrou a sanção para incluir as filhas. Pai nosso! (Mt 6.9) é a nova invocação. Ela imprime o seu caráter ao culto, público e particular, e a toda a comunhão da alma com o céu. A comunhão cristã com Deus é filial no seu Filho e por meio dele. É confiança segura nele como Pai.

III, 17Liberdade. II. Tudo o que pertence à liberdade, ou à condição de livre, no sentido neotestamentário da palavra, está ligado à filiação. O Salvador disse: a verdade os libertará (Jo 8.32); e depois declarou que os filhos que estão na casa, libertados pelo Filho, são verdadeiramente livres (Jo 8.36), ὄντως ἐλεύθεροι, com uma ênfase no ὄντως que queria dizer mais do que o contraste com a liberdade ilusória dos judeus: a palavra profunda fica, como muitas outras, para ser interpretada pelo Espírito e compreendida pela meditação da fé. Fomos resgatados, nós que estávamos sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos (Gl 4.5). Entre a filiação e a escravidão não há afinidade nenhuma. A lei se tornou lei da liberdade (Tg 1.25). Está escrita no coração, e a obediência tem de brotar do amor filial. O privilégio cristão contrasta, assim, com o dos judeus, que estavam sob a lei e não conheciam a grande redenção: embora o povo antigo fosse um só Filho coletivo, como tal estava sob tutores e curadores, num estado de disciplina que em nada difere de um escravo, isto é, até o tempo predeterminado pelo pai (Gl 4.1-2). Em si mesmo, esse privilégio é emancipação de todo jugo: não estamos debaixo da lei, e sim da graça (Rm 6.14). A graça é a nova lei, que, pela fé, opera por meio do amor uma obediência aceitável a Deus. Aqui a justificação e a adoção se unem: aquela é uma sentença perpétua de livramento da lei que condena; esta garante a força de uma obediência nova e melhor. Mas, em comparação com o grande futuro, ainda há uma escravidão à corrupção, no que diz respeito ao corpo e às suas fraquezas. Aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo (Rm 8.23): a ressurreição trará a liberdade aperfeiçoada.

Eleição. III. Os privilégios da eleição de Deus pertencem à relação filial, que é selada pela admissão na arca da família cristã. Israel era o povo escolhido, a quem pertence a adoção (Rm 9.4), que, aos olhos de são Paulo, ainda não lhe havia sido tirada; a sua eleição e a sua adoção eram uma só e a mesma prerrogativa. No cristianismo, a eleição continua sendo sinônimo de adoção, mas é pessoal, e não nacional; ou melhor, é as duas coisas, pois os eleitos são os irmãos de Cristo conhecidos de antemão e a família de Deus glorificada na eternidade, assim como são, um a um, reunidos do mundo na casa divina por meio da sua obediência ao chamado evangélico. O Pai nos predestinou para sermos adotados como seus filhos (Ef 1.5), o que, interpretado em outro lugar, é para sermos conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29). Os filhos de Deus, como tais, são eleitos dentre o mundo; são, como o seu Irmão mais velho e por amor dele, para com Deus eleitos e preciosos (1Pe 2.4), e são indizivelmente queridos do seu Pai celestial, que dispõe todas as coisas para o bem deles: todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito (Rm 8.28). A sua mais alta prerrogativa, como separados da massa, é que são aceitos no Amado (Ef 1.6) [N. do T.: Pope segue a KJV; a NAA traz “que ele nos concedeu gratuitamente no Amado”] ou achados nele (Fp 3.9), e considerados com o mesmo comprazimento que repousa sobre a sua Cabeça: o meu escolhido, em quem a minha alma se agrada (Is 42.1). Jesus é a nossa Eleição, assim como é a nossa Justiça e a nossa Santificação: o Pai nos escolheu nele (Ef 1.4), e a nossa eleição não é nada mais e nada menos do que a nossa união com o Redentor.

III, 18A direção do Espírito. IV. Outra prerrogativa especial da adoção é a direção e a condução pessoal e infalível do Espírito Santo. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus (Rm 8.14): isso pode ser entendido como significando, inversamente, que os que são filhos de Deus são guiados pelo Espírito. Aquele que testifica dentro deles que são filhos lhes é dado como Guia que nunca se ausenta: a religião deles é uma vida, um andar, um procedimento no Espírito (Gl 5.25). Eles não vivem segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm 8.4). O que o seguir a Cristo é nos Evangelhos, o seguir o Espírito Santo é nas Epístolas. Ele é, em todos os pontos, em todas as circunstâncias e em toda a economia da vida, até o seu mais ínfimo pormenor, o Conselheiro dos filhos de Deus. E isso ele é para eles na qualidade de filhos. Em toda parte, no Novo Testamento, essa direção especial é prometida aos cristãos como filhos adotivos do Pai. A pessoa natural não aceita as coisas do Espírito de Deus (1Co 2.14); mas vocês têm a unção que vem do Santo e todos têm conhecimento (1Jo 2.20). São João estende a todos os filhinhos (1Jo 2.18, 28) a promessa feita aos apóstolos: submetendo-se ao ensino do Espírito, com perfeita renúncia à sabedoria carnal, eles são guiados em toda a verdade (Jo 16.13), pelo menos segundo é a verdade em Jesus (Ef 4.21). É a respeito dos filhos adotivos que são Paulo diz: também o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza. Porque não sabemos orar como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós . . . de acordo com a vontade de Deus (Rm 8.26-27). Ele está em nós como o Espírito da regeneração; a nossa própria natureza regenerada clama a Deus; mas é o Espírito da nossa adoção que testifica com o nosso espírito (Rm 8.16), o espírito da regeneração, sendo, também nesse sentido, o Espírito do Pai de vocês que fala por meio de vocês (Mt 10.20). É impossível exagerar a bem-aventurança dessa direção interior e exterior do Espírito Santo, dada aos filhos de Deus. Ele é literalmente para eles tudo o que o Salvador presente foi para os seus discípulos, e mais do que isso. Aquele que se une ao Senhor é um só Espírito com ele (1Co 6.17) [N. do T.: a NAA traz “espírito”, com minúscula], Espírito que, comum a Jesus e aos seus irmãos, é o Dedo de Deus, sempre presente, que dirige, e o Poder de Deus que defende os seguidores de Cristo.

III, 19Condição de herdeiros. V. A herança para a qual os cristãos são chamados é o último privilégio da sua adoção. Do antigo povo de filhos de Deus se disse: eu o amei; e do Egito chamei o meu filho (Os 11.1), isto é, da terra da escravidão. E mais: dizendo: Eu lhe darei a terra de Canaã como porção da sua herança (Sl 105.11). E eles foram tipos em todos os aspectos: na sua redenção do Egito, na sua jornada para Canaã e na posse da terra prometida.

Com Cristo 1. A herança cristã pertence aos filhos de Deus em duplo sentido. E, se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo (Rm 8.17). (1.) O pecado condenou e deserdou o homem: a justificação remove a condenação, e a adoção restitui a herança. Essa herança é a abundância dos privilégios da aliança: é toda a plenitude das promessas; mas é, sobretudo, o próprio Deus. O gozo da Fonte Suprema da bem-aventurança é o bem supremo da alma. (2.) Por isso, aquela herança santíssima e eterna que o Filho tem no Pai é, em algum sentido ainda desconhecido, compartilhada por nós. A nossa condição de herdeiros em Deus não é outra senão a nossa condição de coerdeiros de Deus com Cristo. A única alusão ao decreto eterno da salvação do homem é que somos predestinados para sermos conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29). Essa conformação, que é também transformação, é a nossa bem-aventurança eterna: nada admite além de si, pois é a perfeição do homem na perfeição de Deus. Agora somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é (1Jo 3.2). A esperança última e mais alta do cristianismo deriva do seu privilégio da filiação. Eu, porém, na justiça contemplarei a tua face (Sl 17.15). Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus (Mt 5.8). Não é, porém, a justificação da primeira passagem, nem a santificação da segunda, mas a filiação adotiva que exclama: quando acordar, me satisfarei com a tua semelhança! (Sl 17.15).

III, 20Penhor. 2. Eles entram numa herança da qual agora têm apenas o penhor. A herança dos cristãos, no seu sentido mais profundo, está reservada nos céus (1Pe 1.4). Sob qualquer aspecto que seja considerada, a herança cristã só é desfrutada nas suas primícias. É o que declara são Paulo: vocês receberam o selo do Espírito Santo da promessa, que é o penhor da nossa herança, até o resgate da sua propriedade (Ef 1.13-14). Quando Cristo nos reivindicar como sua propriedade, nós o reivindicaremos como nosso, aquele em quem fomos também feitos herança (Ef 1.11). É depois de falar da herança cristã que a epístola aos Hebreus diz: Porque temos nos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até o fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos (Hb 3.14).

Plenitude. 3. Essa participação aguarda o crente: estamos aguardando a adoção de filhos (Rm 8.23), que transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória (Fp 3.21) e que nos capacitará, na integridade do corpo e do espírito, a ser manifestados com ele, em glória (Cl 3.4). A morte de quem fez o testamento (Hb 9.16) nos pôs de posse de uma parte dos bens que nos cabem sob a sua aliança-testamento. Mas nós mesmos temos de morrer para entrar na posse do vasto restante. Então, na última grande partilha, ele dirá a cada um dos seus irmãos: tudo o que eu tenho é seu! (Lc 15.31). É ele quem encerra o Novo Testamento com a promessa da herança filial: O vencedor herdará estas coisas, e eu serei o Deus dele e ele será o meu filho (Ap 21.7). Assim a nova aliança ecoa, no seu encerramento, a promessa final da antiga: Eles serão a minha propriedade peculiar, naquele dia que prepararei, diz o Senhor dos Exércitos. Eu os pouparei como um homem poupa seu filho que o serve (Ml 3.17).

HISTÓRICO.

Teorias eclesiásticas. As variações de opinião sobre esse assunto em geral podem ser classificadas sob estes títulos: as diversas teorias sobre a relação do novo nascimento com o sacramento do batismo; as diferenças quanto à medida de cooperação humana admitida; o seu lugar no Ordo Salutis, ou plano da salvação; o seu efeito sobre os diversos elementos constitutivos da natureza humana; e o seu valor como dom divino em relação às outras bênçãos da aliança cristã.

III, 21A regeneração sacramental. A Igreja primitiva. I. Certa teoria da regeneração batismal aparece nos primeiros séculos da Igreja, e ela parece, em alguma medida, ter fundido a regeneração interior na adoção exterior.

1. A primeira questão será considerada de novo, com mais amplitude, quando chegarmos à doutrina dos sacramentos; uma breve exposição, mais histórica do que polêmica, é contudo necessária também aqui.

Rabínica. (1.) Esse foi provavelmente um entre muitos resultados da influência judaica sobre o pensamento cristão. No intervalo entre o Antigo e o Novo Testamento, dizia-se que os convertidos ao judaísmo nasciam de novo: “o convertido é como uma criança recém-nascida”. Quanto à sua nova posição, era chamado prosélito: ou da porta, por ser admitido aos privilégios civis e a um lugar no átrio dos gentios; ou da justiça, por ser circuncidado e batizado e obrigado a toda a lei. O termo, portanto, correspondia à adoção cristã. Assim diz Maimônides: “O gentio que se torna prosélito e o servo que é libertado, eis que é como uma criança recém-nascida. E, quanto a todas aquelas relações que tinha quando era gentio ou servo, elas agora cessam.” Mas no judaísmo não havia outra regeneração além dessa adoção exterior.

A regeneração em sentido mais amplo. (2.) A literatura patrística primitiva caiu, do mesmo modo, num estilo vago de ligar as duas coisas. Representava o novo nascimento como uma transladação para o estado cristão, uma iniciação, pelo batismo, nos mistérios cristãos. O processo interior de renovação era ensinado com fidelidade, mas nem sempre se ligava ao termo bíblico: na verdade, regeneração equivalia simplesmente a adoção. Da nova vida se falava como renovação ou renovamento; e assim a adoção, em vez de acompanhar o novo nascimento, era a sua precursora. A regeneração era entendida no mesmo sentido mais amplo que o nosso Salvador lhe deu quando falou da restauração final de todas as coisas; com a diferença de que, na visão deles, essa regeneração era simplesmente o estabelecimento da nova ordem do cristianismo.

Batismal (3.) Nesse sentido, a regeneração batismal tem sido entendida por muitíssimos defensores do batismo de crianças em todas as épocas. Eles empregam o termo com um significado mais amplo do que ele geralmente tem: como o estado exterior do qual brota o novo nascimento. A regeneração batismal, portanto, é, no caso das crianças, adoção batismal, visto que o batismo inegavelmente sela aos filhos de pais cristãos o seu lugar na família de Deus; é também selo ou penhor de uma graça regeneradora que aguarda todas as crianças cristãs devidamente batizadas, sendo o penhor a graça preliminar que repousa sobre elas e as impele à dedicação pessoal, no devido tempo, quando esse penhor puder ser resgatado por elas mesmas.

III, 22Confissões. 2. Num sentido mais estrito, a doutrina da regeneração batismal é sustentada pela maior parte da cristandade, a saber, pela parte que considera os sacramentos os meios de graça por excelência e propriamente ditos. As comunhões católica romana, oriental, luterana e anglicana, embora com linguagem variada, sustentam que a regeneração está em geral ligada ao batismo como ao seu instrumento. A Confissão luterana de Augsburgo diz: De baptismo docent, quod sit necessarius ad salutem [Acerca do batismo, ensinam que é necessário para a salvação]. E o que significa essa necessidade é ensinado pelo Catecismo de Lutero: Baptismus operatur remissionem peccatorum, liberat a morte [O batismo opera a remissão dos pecados, livra da morte]. O Artigo XXVII anglicano exprime assim o seu pensamento: “Mas é também sinal da regeneração ou novo nascimento, pelo qual, como por um instrumento, os que recebem retamente o batismo são enxertados na igreja: as promessas do perdão dos pecados e da nossa adoção como filhos de Deus são visivelmente assinaladas e seladas.” Aqui é evidente que se faz certa distinção entre a regeneração, da qual o batismo é o sinal, e a adoção, da qual ele é o instrumento. A Confissão de Westminster declara o mesmo, com uma ressalva necessária e outra desnecessária: “Embora seja grande pecado desprezar ou negligenciar esta ordenança, a graça e a salvação não estão tão inseparavelmente ligadas a ela que ninguém possa ser regenerado ou salvo sem ela, ou que todos os que são batizados sejam indubitavelmente regenerados. A eficácia do batismo não está presa àquele momento em que é ministrado; todavia, pelo uso correto desta ordenança, a graça prometida não só é oferecida, mas realmente manifestada e conferida pelo Espírito Santo àqueles (sejam adultos, sejam crianças) a quem essa graça pertence, segundo o conselho da própria vontade de Deus, no tempo por ele determinado.” Nessas palavras de peso, afirma-se claramente que a regeneração das crianças no batismo é possível e, no caso dos eleitos, certa. Mas o acréscimo das palavras “não está presa àquele momento” e “no tempo por ele mesmo determinado” pode parecer admitir que a regeneração plena fica reservada para o período em que a criança for capaz de receber o dom.

III, 23A adoção batismal. 3. Muitos consideram a regeneração da alma como sacramentalmente empenhada e prometida em virtude da graça geral concedida à humanidade na redenção. O batismo é, portanto, sinal da bênção em que a graça preliminar deve amadurecer, e selo da sua concessão, se essa graça preliminar for bem usada. Deve-se lembrar que, nesse esquema, a regeneração está ligada a todas as bênçãos da aliança cristã, como nas sentenças dos formulários citadas acima. O batismo não está mais intimamente unido ao novo nascimento do que à remissão dos pecados e à santificação para Deus. Há, segundo a Confissão de Niceia, “um só batismo para remissão dos pecados”, isto é, um só batismo para o perdão, a regeneração, a santificação e todos os benefícios da paixão de nosso Senhor. As crianças batizadas são exteriormente perdoadas, adotadas e santificadas: a realidade interior que corresponde a isso lhes é selada pela graça preliminar que pertence à família do homem redimido e, especialmente, aos filhos da família da fé. O batismo, nessa doutrina, que, enunciada com cuidado, é irrefutável, é para os crentes adultos o sinal, o selo e o instrumento do seu perdão, da sua renovação e da sua santificação. Para os filhos dos crentes, é o sinal, o selo e o instrumento da comunicação dessas bênçãos na medida em que são capazes delas: a culpa original é removida, a inclinação para o mal é contrabalançada pela graça inicial, e a adoção na família da fé é conferida de modo absoluto. Se aquilo que se pode chamar, em termos imprecisos, de germe da graça é regeneração na criança, então se torna novo nascimento no adulto.

Os dois sacramentos são um só. 4. O dogma sistemático rigoroso dos dois mistérios, que faz do batismo o sacramento do nascimento e da eucaristia o sacramento da nutrição, pode ter alguma medida de verdade, até onde a palavra significa o emblema sacramental. Mas não se deve esquecer que nosso Senhor fala do comer e beber sacramental de si mesmo como ligado à regeneração. Se as palavras do Evangelho de são João se referem à Ceia do Senhor, então temos uma regeneração eucarística tanto quanto uma batismal: se vocês não comerem a carne do Filho do Homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em vocês mesmos (Jo 6.53); não se diz: não terão vida permanente.

A ação humana. II. A medida da cooperação humana tem sido muito contestada.

1. O calvinismo extremado sustenta que a vida da regeneração é dada por um ato de poder soberano tão absoluto quanto aquele que deu a existência física. Por isso, como há inegavelmente nos penitentes alguns movimentos de vida espiritual, e os começos de uma tendência para a vida antes mesmo do verdadeiro arrependimento, tudo isso é considerado prova de renovação, e a regeneração é posta antes de todas as outras bênçãos do Espírito. Nessa teoria, o homem é puramente passivo. Essa doutrina apaga a graça preliminar, na medida em que essa graça tende à atividade espiritual: tal graça já não é preliminar, mas a própria regeneração. Esquece que, onde quer que a vontade humana seja um fator, não pode haver passividade pura; e que o estado real da alma, no qual ela é passiva sob o poder regenerador do Espírito, é ele mesmo produzido por uma fé que se rende, própria do desejo penitente.

III, 24Pelagianismo. 2. O pelagianismo, no extremo oposto, reduzia a grande mudança a um ato da vontade humana: como está sempre ao alcance do homem escolher e agir de acordo com a escolha, ele pode realmente regenerar-se a si mesmo, fixando plenamente o seu propósito no Bem. O semipelagianismo admitia que a primeira conversão requer poder divino, mas afirmava que a vontade humana, na sua liberdade, é esse mesmo poder; e, quanto à regeneração da alma, sempre a considerou como a bênção divina sobre a determinação humana. Mas esse dogma, em todas as suas formas, rebaixa a graça a ensino e incentivos exteriores: a própria natureza é, em certo sentido, graça, e a operação do Espírito Santo nada efetua que a vontade humana, sob a influência dele, não Semipelagianismo realize ela mesma. O erro de toda teoria semipelagiana é esquecer que o Espírito Santo sempre conclui, assim como sempre começa, a obra do bem no homem sem concurso humano. Ele começa antes que a cooperação se junte a ele; e a cooperação tem de cessar na crise em que ele completa a obra.

Sinergismo. 3. O sinergismo na Igreja luterana pouco diferia deste último; mas o apreço que tinha pela bênção sacramental do batismo dava à graça divina a sua plena honra em relação às crianças batizadas. Arminiano. O arminianismo, na sua doutrina da graça preveniente universal, faz o sinergismo, ou cooperação entre Deus e o homem, recuar até a natureza que está por trás do batismo e antes dele. Em certos sistemas americanos, que representam a regeneração como a escolha última e correta da alma, há alguns erros a assinalar. (1.) Essa escolha é convencimento e desejo anteriores à regeneração e pode ser chamada conversão; ou, na sua forma mais elevada, de inteira consagração da vontade, é fruto da renovação. Não pode ser a própria regeneração. (2.) O estado da alma diante de Deus é mais do que meramente a sua vontade e o seu ato ou exercício presentes: ela tem, subjacente a isso, uma disposição ou caráter, e é com ele que o novo nascimento tem mais a ver. (3.) Por isso, em comum com quase todos os erros sobre esse assunto, essas teorias, antes semipelagianas que arminianas, implicam que não se faz distinção entre a graça preliminar da vida e a vida da regeneração.

III, 25Ordo Salutis. III. A regeneração às vezes é posta, erroneamente, em primeiro lugar na ordem da concessão dos privilégios evangélicos. A libertação do pecador da condenação deve ter precedência; depois começa, na sua plenitude, a sua nova vida; e essa vida é consagrada a Deus na santificação. Mas em muitas confissões a regeneração vem à frente, e essa doutrina é sustentada sob várias formas por grupos que diferem fundamentalmente quanto à natureza da própria bênção.

À frente no sacramentalismo. 1. Todos os defensores da regeneração sacramental ex opere operato [em virtude do próprio ato realizado] sustentam essa opinião, pelo menos no caso das crianças batizadas. Em geral, estabelece-se uma distinção entre a regeneração, que confere no início um germe de vida espiritual, e a renovação, que prossegue até o fim por processos variados e às vezes muito irregulares. Nesse esquema, a conversão é posta depois da regeneração, que se reduz, no seu significado, à infusão de um princípio de graça que neutraliza, ou antes combate, o vício da natureza; e que, quando a queda da graça o torna necessário, contrabalança o pecado original como princípio de concupiscência.

No latitudinarismo. 2. Os latitudinários que creem na regeneração da humanidade em Cristo, e não admitem como necessária nenhuma regeneração posterior, naturalmente nutrem a mesma noção. Alguns a modificam a ponto de admitir uma diferença, por assim dizer, entre a regeneração que comunica a todos o primeiro germe de vida e o novo nascimento, ou a plena consumação dessa vida. O erro desse sistema, nas suas melhores formas, é simplesmente apagar a distinção entre a graça universal, que é para a vida, e a própria vida. A sua refutação suficiente é aquela única frase: se alguém está em Cristo, é nova criatura (2Co 5.17).

Calvinismo. 3. Essa ordem é inteiramente essencial ao calvinismo, que não admite na alma do homem nenhuma vida além da vida regenerada e faz da regeneração a precursora do convencimento, do arrependimento, da fé e da conversão. A primeira centelha da graça soberana decide tudo: uma vez acesa, introduz o restante e nunca pode ser extinta.

III, 26Se pode ser repetida. 4. O calvinismo, o sacramentalismo e o latitudinarismo concordam, portanto, de modo estranho, em negar a possibilidade de a regeneração se repetir. É certamente verdade que o Novo Testamento fala de um só banho daquele que não precisa lavar nada, a não ser os pés (Jo 13.10); também que declara a impossibilidade da renovação para arrependimento (Hb 6.6) no caso de certos apóstatas, embora não da renovação em geral; também que descreve a extinção da vida do Espírito como muito difícil. A renovação da vida regenerada, porém, nunca é negada de modo absoluto. A teoria do evangelho, tal como a estabeleceu o próprio nosso Senhor, indica uma só regeneração e uma renovação constante até a sua perfeição, como pleno nascimento de Deus. Mas a graça infinita da nova aliança não está presa a essa única teoria: o alto ideal não deve ser aplicado com rigor.

A natureza humana. IV. É importante observar as muitas opiniões sustentadas por teólogos filosóficos quanto à relação do novo nascimento com a constituição da natureza humana. Este é, literalmente, um assunto ilimitado em si mesmo, embora limitado no que diz respeito à presente questão. Os verdadeiros princípios da questão são simples.

A natureza inteira. 1. A regeneração é a vida restaurada de toda a natureza do homem: é um coração novo, sendo o coração a alma ou o eu, que inclui a mente, os afetos e a vontade, embora seja distinto deles. Esses três são um só na natureza humana e na regeneração, que, no seu pleno sentido, é uma nova criação ou uma renovação da personalidade mais íntima.

Nenhuma mudança de substância. 2. Não é uma mudança na substância da alma, nem nos seus atos individuais, mas na inclinação para o mal, que é o caráter. Essa inclinação, porém, não é destruída, embora seja detida e posta em sujeição. Na regeneração perfeita, que em outra esfera de pensamento equivale à inteira santificação, essa inclinação é totalmente suprimida e destruída.

Nenhum espírito acrescentado. 3. Por isso, não há na regeneração distinção entre o espírito e a alma, entre o πνεῦμα e a ψυχή. O regenerado é espiritual na medida em que o Espírito Santo reina no seu espírito, e não porque, pela comunicação do Espírito Santo, tenha adquirido esse elemento, ou mesmo alcançado a supremacia do espírito na sua natureza. Ambas as coisas são verdadeiras na linguagem popular e figurada da Escritura, que às vezes fala como se o espírito no homem estivesse latente até ser possuído pelo Espírito divino e como se o espírito não regenerado não fosse melhor que uma alma animal. Mas o desenvolvimento dessa visão numa teoria da natureza humana como não renovada e renovada leva a grande confusão.

III, 27O valor da regeneração. V. Por fim, as divergências quanto ao valor da regeneração como princípio de vida nova já foram mais ou menos antecipadas.

Mais que uma condição externa. 1. O grau mais baixo é o atribuído por aqueles que a consideram o simples nascer numa condição ou constituição de coisas. Contra essa virtual aniquilação do dom específico do novo nascimento, já se disse o bastante; nunca será demais, porém, insistir em oposição a uma noção que limita o alto estado da regeneração a uma bênção recebida inconscientemente. Todos os homens nascem na nova constituição da graça; multidões de crianças cristãs são batizadas nela. Mas a regeneração é mais do que essa bênção universal da redenção.

Mais que um germe. 2. Vem a seguir a opinião dos que fazem dela a simples infusão de um germe, tão tênue que (1) mal se pode distinguir da vida preliminar universal, que é o dom da redenção, e (2) é totalmente incompatível com as altas concepções do predomínio da vida regenerada que a Escritura ensina. A doutrina mais baixa sancionada pela Palavra de Deus inclui a libertação da lei do pecado e da morte.

Não elevada demais. 3. Algumas descrições dessa bênção a elevam a um tom tão alto que se tornam totalmente incompatíveis com os fatos comuns da experiência. São João e são Paulo têm de ser conciliados na verdadeira doutrina da regeneração, assim como são Paulo e são Tiago na verdadeira doutrina da justificação. São Paulo fala de um conflito entre a carne e o Espírito, que são opostos entre si (Gl 5.17) no estado regenerado ordinário; são João declara que o novo nascimento ideal e perfeito, ou o ser nascido de Deus, é incompatível com o pecado: esse não pode pecar (1Jo 3.9) [N. do T.: a NAA traz “não pode viver pecando”; Pope segue a KJV, cannot sin]. Um apóstolo se refere à regeneração nas suas fases iniciais; o outro, à sua perfeição. Mas nenhum deles nega que um filho de Deus possa recair no pecado e precisar de perdão. E a sublime doutrina de são João neste texto tem de ser harmonizada com a de são Paulo, bem como com as suas próprias palavras: se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai (1Jo 2.1).

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 3-27, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.