W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · A Igreja cristã

A Igreja: fundação e atributos

III, 259A IGREJA CRISTÃ.

A Igreja. A Igreja cristã é ao mesmo tempo a esfera e o órgão da administração da redenção pelo Espírito. Como corpo coletivo, foi fundada por nosso Senhor Jesus Cristo; está investida de certos atributos e notas, como representante da ação dele entre os homens; exerce as suas funções como instituição de culto e depositária da Fé; tem obrigações definidas para com o mundo, como instrumento da conversão dele; e, por fim, mantém, na sua forma temporal, relações especiais com o Reino eterno de Cristo.

Estes diversos ramos de um único assunto devem ser considerados em relação à teologia bíblica, à dogmática e à histórica: da Palavra de Deus colhemos os materiais para a verdadeira exposição doutrinária e fazemos dessa exposição o padrão pelo qual se provam os vários fenômenos eclesiásticos do mundo cristão. Que toda esta questão pertence, de modo geral, à administração da redenção já se mostrou no início, quando o assunto eram as relações especiais do Espírito Santo com a obra do Redentor. Pode-se acrescentar que muitos temas ligados a este departamento da teologia têm necessariamente de ser distribuídos por várias seções, especialmente a dos Três Ofícios de Cristo e a da consumação do Reino, na escatologia.

A FUNDAÇÃO HISTÓRICA DA IGREJA.

Fundação. Grande parte do Novo Testamento se ocupa dos pormenores do estabelecimento da Igreja como nova instituição de Cristo; mais particularmente, esse é um assunto destacado até o começo de Atos. Podemos abranger o todo sob dois títulos: as preparações feitas por nosso Senhor nos Evangelhos e a sua fundação efetiva no dia de Pentecostes.

III, 260AS PREPARAÇÕES NOS EVANGELHOS.

Preparações nos Evangelhos. 1. Nosso Senhor proclamou o advento, na sua própria pessoa, do O Reino. Reino dos Céus (Mt 4.17), ou Reino de Deus (Mc 1.15). A sua nova revelação à humanidade foi o evangelho do Reino (Mt 24.14): o Batista pregou a vinda do Reino, como precursor tanto de Cristo como dos apóstolos; e o Salvador fez dele o assunto do seu ensino até o dia em que foi elevado às alturas (At 1.2-3). Com esse termo, ele ligou o seu próprio governo à antiga teocracia, mas não à forma terrena dela; pois o seu era o reino dos céus (Mt 13.52), predito como tal, embora não com esse nome, em todos os profetas. O novo reino, porém, era um mistério revelado; e o principal segredo desse mistério estava no fato de que, sendo ainda o reino de Deus, era também o do Messias, o reino de nosso Senhor e do seu Cristo (Ap 11.15), o reino de Jesus (Ap 1.9), o Filho encarnado. A expressão permeia o ensino do Senhor; até o fim ele esteve falando das coisas relacionadas com o Reino de Deus (At 1.3). Não era, porém, propósito dele que ela permanecesse como nome da sua nova comunidade. A companhia do seu povo é a esfera do seu reinado até o fim dos tempos; mas o nome e o caráter do domínio ficam em suspenso até a consumação de tudo, até a sua manifestação final como o único reino do céu e da terra, de Deus e do homem, de Cristo e dos seus santos. Era disso que o Redentor encarnado falava quando, no fim do seu ministério, deixando de lado toda reserva, o chamou de meu Reino (Lc 22.30). Assim como o nosso estudo começa aqui com esse nome, assim também voltará a ele no fim; e, enquanto isso, a primeira oração da cristandade é venha o teu Reino (Mt 6.10), oração que só terminará quando toda oração cessar.

A Igreja. 2. Num momento memorável da sua história, nosso Senhor deu à sua instituição o novo nome: MINHA IGREJA. Duas vezes, e só duas, ele o usou (Mt 16.18; 18.17), e em duas ocasiões estreitamente ligadas; e ambos os casos, note-se, ocorrem bem no meio da coleção especial de parábolas e discursos acerca do reino que é própria de são Mateus. No primeiro, parece tratar-se do grande templo, ou casa de oração para todas as nações (Mc 11.17), em todas as épocas, e para o culto da eternidade; no segundo, da assembleia visível do povo cristão, reunida num só lugar para a administração das leis dele. Juntando as duas passagens, temos um resumo da vontade do Salvador acerca da sua futura congregação. Ele lhe deu então um nome que ainda não precisamos explicar mais: a palavra ἐκκλησία tem tido, desde aquele dia, a primazia sobre todas as outras com que se pode descrever a comunhão dos cristãos. Ninguém que considere essa origem do termo consentirá que ele seja substituído por qualquer outro. Os abusos do termo não devem fazê-lo cair em descrédito.

III, 261O ensino de nosso Senhor. 3. É digno de nota que nosso Senhor, depois de dar esse novo nome e de lançar um raio de luz, breve mas eficaz, primeiro sobre a congregação invisível e depois sobre a visível do futuro, não voltou a mencionar a palavra, deixando-a para uso futuro. As suas parábolas e os seus discursos continuaram a correr no leito anterior, tendo em vista o reino de Deus. Mas os últimos discursos, incluindo a última oração, oferecem alguns elementos de ensino acerca da futura Igreja que são do mais profundo interesse. Por ora, só faremos alusão a eles: a exposição mais completa do seu sentido tem de ficar para depois. Fez-se provisão para o memorial permanente da redenção na Santa Ceia, o sacramento da unidade corporativa do seu povo com ele e uns com os outros, como herdeiros de uma nova aliança. O batismo, o rito sacramental de iniciação, foi também posto no lugar do antigo rito da circuncisão, agora virtualmente abolido. A nova congregação, ou igreja, foi, por assim dizer, formalmente consagrada a Deus pelo seu Cabeça naquilo que se pode chamar a Oração Sacerdotal (Jo 17): a primeira oração em sua casa (Hb 3.6). Nela ele se refere à companhia dos crentes como dada a ele pelo Pai (a obediência sofredora que, não obstante, comprou esse dom fica oculta ou é apenas vagamente aludida); como guardada do mundo, ou, como disse mais tarde alguém que ouviu aquelas palavras, guardados em Jesus Cristo (Jd 1); e como destinada a ser aperfeiçoada na unidade, naquela unidade espiritual e eterna de perfeição cujo tipo mais elevado deve ser buscado, embora jamais possa ser encontrado, nas relações interiores da Trindade. Mas é digno de nota que o Salvador fala dessa nova comunidade, a descreve e ora por ela como coisa futura. Mesmo depois da sua paixão, quando a ressurreição tinha posto todo o poder nas mãos dele e ele apareceu no meio dos seus discípulos como o Cabeça glorificado deles, a Nova Comunhão ainda estava no futuro (At 1.3-4). Ele passou quarenta dias falando da história ou do destino dela e do dever dos seus apóstolos nos dias que viriam; sem dúvida deu muitas instruções que não foram registradas; mas sempre a sua Igreja ainda estava por vir.

III, 262O fundamento nos Evangelhos. 4. Embora seja verdade que a Igreja, no sentido estrito da palavra e como instituição corporativa, não foi fundada enquanto o Senhor estava na terra, em outro sentido ele esteve lançando o seu fundamento durante todo o seu ministério. Deixou um grande corpo de ensino a respeito dela, que só esperava o dia de Pentecostes para revelar a plenitude do seu sentido. Os germes e os princípios de tudo o que se segue neste ramo da teologia encontram-se nos Evangelhos; na verdade, podemos ser mais ousados e dizer que nada sobre este assunto, nem sobre assunto algum, pode ir além do sentido das próprias palavras do Senhor. Ele falou do Consolador como a futura Presença divina na congregação; mas o ofício deste era apenas glorificar, expor e ampliar os ditos do próprio Redentor. Veremos que isso se confirma em grau muito notável quanto à doutrina da nova Igreja ou Reino. Grande parte do ensino do Salvador nos quatro Evangelhos trata da natureza dela, dos métodos da sua expansão, do caráter dos seus súditos, das suas relações com o mundo e dos princípios do próprio governo dele nela. O desenvolvimento desse ensino aparecerá em tudo o que o assunto nos apresentar.

A FUNDAÇÃO DE PENTECOSTES.

Fundação da Igreja. O dia de Pentecostes foi o marco da fundação da Igreja cristã. Os discípulos de Cristo, já preparados, estavam reunidos, e sobre eles desceu o Espírito Santo, fazendo deles o Novo Templo do Deus triúno. Foram acrescentados aqueles cuja fé recebeu a pregação do Evangelho consumado; e os discípulos foram constituídos numa comunhão organizada e visível, destinada a continuar para sempre, durante esta dispensação, sob o governo do Espírito como representante de Jesus, o seu Cabeça.

O dia de Pentecostes. 1. A instituição da Festa das Semanas, que representava a apresentação das primícias da colheita judaica, prefigurava a oblação das primícias da colheita cristã. Ela também comemorava, embora não por disposição divina, a entrega da Lei, e teve o seu antítipo na plena revelação da nova Lei da Fé. O Senhor ressuscitado marcou um encontro com os seus discípulos na Galileia para a proclamação do seu Reino; mas mandou que esperassem em Jerusalém a fundação da sua Igreja. Ali receberam, como representantes do antigo discipulado do Salvador e germe do futuro corpo, aquele batismo do Espírito que foi para eles, como sua dignidade especial, o substituto do batismo com água. Mas o Trindade. Espírito Santo representava o Deus triúno, agora plenamente revelado, que tomou posse desse corpo consagrado e fez deles o novo Templo, ou Igreja. A Shekinah, que era o símbolo da união de Deus com o homem, apareceu pela última vez e se resolveu no Espírito pessoal, a Presença de Deus no meio do seu povo, repousando sobre cada pessoa presente, dos apóstolos para baixo. E pousou sobre cada um deles (At 2.3) [N. do T.: a NAA traz “as quais pousaram”, isto é, as línguas].

III, 263A pregação. 2. Depois que as grandezas de Deus (At 2.11) foram proclamadas pelas muitas línguas novas da assembleia em adoração, a única língua nova da irmandade que pregava deu início ao evangelho eterno. A nova Lei foi a proclamação da obra consumada de Cristo. O dia da fundação dá assim a primeira e talvez a mais completa demonstração do processo pelo qual a Igreja há de ser formada até o fim dos tempos. A ἐκκλησία é a companhia chamada para fora da massa pela pregação da redenção consumada do Mediador encarnado. É a IGREJA, enquanto recolhida do mundo; é a CONGREGAÇÃO, enquanto reunida em assembleia; é a COMUNHÃO, enquanto repleta de dons comuns. E estas três devem ser uma só.

Organização. 3. Este dia deu início também à organização da comunidade, isto é, se incluirmos as palavras finais do capítulo como pertencentes à sua história. Os elementos de ordem, preparados nos Evangelhos, tomam agora a sua forma imediata e permanente. O Pentecostes é o dia típico do futuro da cristandade: pela manhã, a assembleia em adoração, glorificando a Deus pelo cumprimento de todos os seus propósitos; ao meio-dia, a plena pregação evangélica; o resto do dia, dedicado à organização e à comunhão. Em meio a um abalo do céu e da terra como nunca se conhecera antes, enquanto a companhia cristã estava no seu primeiro êxtase de adoração e a multidão na forte comoção do convencimento, a água do batismo começa a correr como símbolo de ordem e de introdução na nova comunhão. E, assim como se lembrou o rito de iniciação em honra da ordem final do Senhor, assim também a comunidade foi imediatamente organizada por dentro. Aqui, de fato, temos pela primeira vez a ἐκκλησία, ou igreja, mencionada como fato histórico: o Senhor acrescentava à igreja, dia a dia, os que iam sendo salvos (At 2.47) [N. do T.: a NAA não traz “igreja” neste versículo]. E qual era esse curso, ou processo, de salvação? A doutrina dos apóstolos (At 2.42), isto é, a Grande Confissão de um dia anterior (Mt 16.18), ampliada pelos apóstolos; a sua comunhão, isto é, a submissão a todas as obrigações da vida comunitária iniciada naquele dia e o desfrute das bênçãos da aliança cristã sob a sanção apostólica; o partir do pão, e esta é a Ceia do Senhor, não a dos apóstolos; e, abrangendo, permeando e santificando tudo, as orações regidas pelo novo Espírito de adoção.

III, 264As Epístolas. 4. O Novo Testamento posterior (Atos e as Epístolas entrelaçados numa só história dos começos da comunhão aperfeiçoada) mostra-nos a gradual consolidação da economia da Igreja, sob a direção dos apóstolos, que foram por algum tempo tudo em todos, como Cristo tinha sido. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês (Jo 20.21). Vemos a formação de um ministério pastoral nos seus elementos, que depois se desenvolveriam. Vemos o crescimento da comunidade a partir de fora, pela pregação da Palavra, e a partir de dentro, pela incorporação dos filhos dos crentes. Enquanto isso, nunca falta a boa ordem. A nova irmandade não foi moldada por uma influência esotérica, agindo como uma filosofia: o fermento levedou uma massa que o Espírito Santo formou num corpo tão plena e exatamente organizado quanto qualquer outro conhecido entre os homens. Por simples que sejam os elementos desse regime eclesiástico primitivo, ele é definido com muita nitidez. O Jesus visível, cercado pelos seus discípulos, não estava mais isolado e separado da massa do povo ao redor do que a sua Igreja está, sob a influência do seu Espírito, demarcada e isolada do mundo. E essa organização, assim perfeitamente esboçada, permanece para sempre como padrão de ordem na congregação.

O Espírito Santo. 5. Este dia colocou a comunidade cristã sob a jurisdição e o governo do Espírito Santo. O que a presença de Cristo era nos Evangelhos (o Cabeça sem um corpo coletivo), isso é a presença do Espírito, que representa o Cabeça invisível de um corpo agora visível. Esta doutrina é vital em muitos sentidos. Ela derruba a ilusão de qualquer vigário terreno de Cristo. Há somente um corpo e um só Espírito (Ef 4.4). O que a grande teoria hierárquica atribui ao pontífice só é tomado por usurpação. A condição de cabeça, delegada ao Espírito Santo, é a garantia da infalibilidade e da indefectibilidade do Corpo cristão na conservação da verdade. O Espírito da vida (Rm 8.2) é forte contra todo inimigo da Igreja: as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18). Pois ele é o Doador da vida, de toda a vida eclesiástica, tanto orgânica quanto individual. Ele molda os seus elementos e os forma como quer, sendo τὸ Κύριον, τὸ ζωοποιόν [o Senhor, o que dá a vida], como o define o Credo Niceno. Há crises na história do cristianismo em que se dão novas formas à organização exterior, e ele faz povo os que nem eram povo (1Pe 2.10). Esta verdade pode ser pervertida, e já o foi; mas o próprio Espírito a defende a seu modo, e a história da cristandade não pode ser entendida sem ela. De modo mais geral, ele é a Fonte de toda energia e força para o corpo de Cristo na terra: é o fôlego de vidas (Gn 2.7) [N. do T.: a NAA traz “fôlego de vida”; o plural é o do hebraico], de muitas vidas, soprado nele, e ele mesmo é Aquele que sopra. Por fim, o Espírito é o Representante do Senhor, cuja condição de Cabeça permanece para sempre. Ele age por Cristo na sua Pessoa única. Assim como a Trindade inteira, em geral, é representada pelo Espírito, e não apenas o Pai, assim também é o Cristo inteiro, e não apenas o Filho eterno. Mas, como lugar-tenente do Senhor na sua Igreja, ele não exclui o próprio Senhor. Quando o Salvador declarou a necessidade da sua partida para que o Espírito viesse, falou de modo a resguardar a sua própria dignidade como a de alguém que nunca estaria ausente. Voltarei para junto de vocês. Ele vai receber do que é meu (Jo 14.18; 16.15). Não é como no caso daquele outro Precursor: Convém que ele cresça e que eu diminua (Jo 3.30). O próprio Senhor Cristo, e não o Espírito, é o cabeça sobre todas as coisas, dado à igreja (Ef 1.22). Sabemos que a presença do nosso Intercessor está por trás do véu; sabemos também que, no Espírito Santo, ele está igualmente aqui: de perto tanto quanto de longe (Jr 23.23). Um nome é comum ao Cabeça celestial e ao terreno: o de Παράκλητος, ou Advogado. Aquele que intercede PELO povo, o nosso Advogado junto ao Pai (1Jo 2.1), com palavras que não se ouvem, intercede NO povo por meio do Espírito, que intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Rm 8.26). É verdade que a linguagem de Atos introduz uma grande mudança na personalidade divina: o “eu” é o de uma Terceira Voz, que antes não se ouvia. Assim como, passando do Antigo Testamento para os Evangelhos, temos um novo Locutor divino, assim também acontece em Atos. Separem-me! (At 13.2) é a ordem do Espírito Santo. Mas, assim como o Pai às vezes se faz ouvir durante a dispensação terrena do Filho e nunca está ausente, assim também o Senhor Jesus, em Atos, nunca está ausente e às vezes fala em seu próprio nome. Ele é Rei no seu reino: tem aquela realeza universal que entregará no último dia; tem aquela realeza especial sobre os seus redimidos que não começará de fato, nem se consumará, antes do último dia. Mas, na linguagem apostólica, ele é o Cabeça sobre a sua Igreja, o Cabeça da Igreja, mais do que o seu Rei. Isso indica, se possível, uma relação ainda mais próxima e estreita. A Pessoa encarnada tem com o seu Corpo uma união não partilhada e, por excelência, sua. É a igreja de Deus, ou do Senhor, a qual ele comprou com o seu próprio sangue (At 20.28). Voltamos à sua própria primeira palavra: MINHA IGREJA! (Mt 16.18)

III, 266ATRIBUTOS E NOTAS DA IGREJA.

Notas. No Novo Testamento posterior, a Igreja é apresentada passivamente como o Templo de Deus e ativamente como o Corpo, ou órgão, da manifestação de Cristo: o primeiro, como a esfera do culto divino e da influência santa; o segundo, como o instrumento das múltiplas operações de Cristo na terra. A ambos, na sua unidade, a Escritura confere certos atributos, cujo estudo nos apresenta todo o assunto da maneira mais completa. Essas qualidades são: Unidade, Santidade, Invisibilidade, Catolicidade, Apostolicidade, Indefectibilidade, Glória. Mas encontramos também, ao lado delas, que descrevem de modo geral o Corpo no seu caráter mais elevado e ideal, qualidades que são em certa medida as suas contrapartes ou opostos, tais como: Diversidade, Imperfeição, Visibilidade, Localização, Confessionalismo, Mutabilidade e Fraqueza militante. Daí concluímos que a verdadeira igreja de Cristo é um corpo em que esses atributos opostos se unem.

III, 267Uma só personalidade. 1. Essas qualidades correlativas da única Igreja de Cristo sugerem certa analogia com a Pessoa do seu Cabeça, em quem se encontram perfeições divinas e atributos humanos. Ela também é um só corpo organizado com duas naturezas, ou modos de apresentação. O conceito de igreja não é o de um corpo divino e de um humano, mas o de uma só realidade sob duas manifestações, como no caso de nosso Senhor encarnado. Mas a analogia não deve ser forçada demais. Aqui há a mesma reserva e a mesma salvaguarda que se mostraram necessárias na doutrina mais elevada. Enquanto usa a natureza humana como seu corpo ou carne, o Filho de Deus se identifica com a humanidade. Enquanto a ocupa como templo, é distinto dela. A igreja é o templo de Cristo: é habitada por ele. É o seu corpo: o complemento, ou a plenitude, dele mesmo. A igreja superior e divina está na visível e humana como num templo: distinta dela. Age e opera na humana como num corpo: inseparável dela. Temos de falar de todos os seus atributos (superiores e inferiores, divinos e humanos, temporais e eternos) como pertencentes à única igreja. E o hábito de fazer isso livra de muita confusão.

Notas da Igreja. 2. Na teologia histórica, esses atributos se transformam em Notas, pelas quais, como provas, se supõe que a verdadeira Igreja seja reconhecida. No Credo dos Apóstolos e no Niceno, tomados em conjunto, elas são especificadas como quatro: Una, Santa, Católica, Apostólica. A teologia controversista de Roma multiplicou essas Notas com grande abundância. Adotaremos o método de ligar cada atributo à sua aparente contraparte, à medida que a comunidade ideal se realiza no mundo. Haverá, naturalmente, menos a dizer sobre cada série de opostos à medida que avançarmos, porque cada uma, mais ou menos, antecipa as que se seguem. Além disso, esses Atributos e Notas não esgotam o assunto, pois são tratados apenas como introdução ao que se segue.

UNA E MÚLTIPLA.

Unidade. A unidade e a variedade são, ambas e igualmente, essenciais à ideia da Igreja cristã; e a sua sã combinação é uma prova que se pode aplicar a todos os sistemas eclesiásticos.

III, 268A ESCRITURA.

Na Escritura. A doutrina bíblica sobre este assunto será exposta da maneira mais completa se considerarmos, primeiro, o Corpo universal de Cristo, do qual a Igreja cristã é a última forma terrena; em segundo lugar, a Comunhão cristã propriamente dita, como instituição. Quanto ao primeiro, a nota da multiplicidade é a mais evidente; quanto ao segundo, a unidade e a pluralidade se unem.

Lei universal. I. Tomando a visão mais ampla da Igreja de Cristo como a comunhão do povo de Deus em todas as épocas, podemos afirmar que a unidade na multiplicidade tem sido a lei da sua existência e do seu desenvolvimento. A sua unidade, desde o princípio, é reconhecida em toda a Escritura como fundada na redenção comum, revelada ou não revelada. A Santa Companhia de todas as épocas tem sido uma só na unidade de muitas formas e variedades de manifestação. É a companhia das nações dos que são salvos (Ap 21.24) [N. do T.: a NAA traz apenas “as nações”]; a Igreja dos Redimidos de toda tribo, língua, povo e nação (Ap 5.9); a unidade invisível de todos aqueles de quem se diz: em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável (At 10.35); os filhos de Deus, que andam dispersos (Jo 11.52), e reunidos em Cristo. Por isso, ela liga entre si as várias economias, a Igreja patriarcal, a judaica e a cristã: una como o Reino de Deus (Mc 1.15), ou a Civitas Dei [Cidade de Deus], que segue o seu curso através de todas as épocas. Neste sentido amplo, ela une todas as formas da Igreja a que nos referiremos: a Igreja como universal, ou como numa província, ou numa cidade, ou num edifício, ou numa casa.

Igreja cristã. II. Mas a Igreja cristã, como instituição fundada por Jesus, é una e múltipla; a sua unidade no Espírito do seu Cabeça é a fusão de muitos crentes numa só confissão comum e a participação deles numa só graça comum. O ensino do Novo Testamento pode ser considerado, primeiro, quanto aos elementos essenciais da unidade e, depois, quanto às rupturas dessa unidade. A partir desses dois aspectos, podemos colher a verdadeira doutrina da Escritura.

Um só fundamento da unidade. 1. A unidade da Igreja tem um único fundamento, o da união comum com Cristo; e não há nenhuma referência positiva a ela que não ponha isso em destaque. A primeira palavra sobre o assunto é a do Sumo Sacerdote, cuja Unção é o vínculo da união do seu povo com ele mesmo e de uns com os outros: a fim de que todos sejam um. E como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste (Jo 17.21). A primeira parte se refere a uma unidade que nunca há de ser vista nem compreendida pelos homens; a segunda, a uma manifestação espiritual daquela santa comunhão que possa sugerir, a todos os que testemunham os seus efeitos, o segredo do seu vínculo. Estava reservado a são Paulo expor essas palavras de nosso Senhor, na Epístola que mais se aproxima da ideia de um tratado sobre a Igreja. Ele fala de unidade nove vezes num só parágrafo, e em cinco aplicações (Ef 4.3-6). Há um só Deus e Pai de todos; e há um só Senhor, o Revelador comum desse Pai e Redentor dos homens; e nele há uma só fé, uma única confissão batismal de doutrina. Além disso, há somente um corpo e um só Espírito: o corpo místico, visível no mundo como órgão da sua Cabeça invisível, cuja unidade, note-se bem, é a unidade do Espírito no vínculo da paz, isto é, a unidade de todos os que recebem a reconciliação com o Pai por meio do Filho, e o selo dela na comunicação do Espírito Santo. Por fim, há uma só esperança para a qual vocês foram chamados: a unidade daquela aspiração celestial que faz das companhias peregrinas uma só, na esperança da bem-aventurança eterna. Este é o texto fundamental, e quase o único, sobre o assunto; e ele oferece todos os elementos do ensino evangélico direto e positivo acerca da unidade da Igreja.

III, 2692. Se nos voltarmos para o ensino negativo ou indireto, encontraremos Omissões. muita coisa instrutiva sobre o assunto. Em primeiro lugar, as omissões são notáveis. Não há prescrição de uma uniformidade necessária segundo alguma teoria suposta: nunca se alude diretamente, sequer, a uma unidade externa que exista além da congregação individual; ao passo que, por outro lado, é preciso supor certa medida de diferenças externas e de independência mútua para dar realidade às exortações à unidade. Em segundo lugar, o tom constante da doutrina apostólica aponta antes para a preservação de uma unidade espiritual que de uma unidade visível. Isso aparece na Figuras. linguagem figurada usada para descrever a comunhão cristã, a qual sempre mostra que a única unidade diretamente visada na Escritura é a mística. É a unidade do seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas (Ef 1.23): o πλήρωμα de Cristo, seja qual for o sentido exato da palavra, deve significar um único complemento espiritual, puro e perfeito, dessa Pessoa divino-humana, uno na sua unidade, ou nele mesmo. Ora, isso é dito da igreja; e esse corpo nunca é descrito como uno em nenhum sentido externo. Na alegoria de nosso Senhor, é a videira (Jo 15.1), de cuja unidade são cortados os ramos mortos: essa unidade está no próprio Cristo e pertence a uma árvore da vida, que, a rigor, não tem senão ramos vivos. As mesmas observações valem para a figura que descreve a Igreja universal como Templo, ou Casa. Nas palavras finais do Novo Testamento, quando a organização externa já devia estar quase completa, lemos apenas de unidade espiritual, não de uniformidade exterior. A comunhão cristã é com o Pai e com o seu Filho (1Jo 1.3), e isso por meio do Espírito que nos deu (1Jo 3.24). As violações dessa comunhão são doutrinárias e práticas: aquele que não confessa que Jesus Cristo veio em carne (1Jo 4.2-3) e aquele que pratica o pecado (1Jo 3.8). Do primeiro se diz que saiu do nosso meio (1Jo 2.19). Não há uma só palavra, nesse documento final, sobre a unidade do corpo exterior. No Apocalipse, as sete igrejas são uma só no Senhor central, que as segura na sua mão direita (Ap 1.20); e, entre as faltas delas, não se menciona a violação da unidade externa. Cisma. As divisões condenadas no Novo Testamento como cismas são sempre divisões facciosas ou doutrinárias dentro de igrejas particulares. Os atos manifestos de separação, segundo a noção moderna de heresia e cisma, não são contemplados no Novo Testamento. As quebras da unidade são quebras antes do espírito que da forma: destas últimas há poucos vestígios.

III, 270Unidade dogmática ou visível. 3. Daí podemos reunir esses elementos bíblicos na afirmação de que a Igreja una é a unidade de todas as congregações de crentes em Cristo nas quais o evangelho puro é pregado, os sacramentos são devidamente administrados e a disciplina da comunhão cristã é mantida em sua pureza.

Base. (1.) A base dessa unidade é a posse comum de uma sã confissão de fé em Jesus. Isso se chama reter a cabeça (Cl 2.19), ou edificar sobre o único fundamento (1Co 3.12). A isso se devem juntar a unidade do culto oferecido à Santíssima Trindade por meio do Mediador, os sacramentos cristãos como selos da admissão e da permanência na Igreja, e a manutenção da disciplina sagrada.

Expressão. (2.) Quanto à expressão dessa unidade, o Novo Testamento a considera como vista por Deus, e só por ele. Ele contempla a única grande assembleia e ouve a harmonia secreta daquilo que pode parecer resultar de muitas vozes discordantes. Quanto ao homem, ela é objeto não da vista, mas da fé: “Creio na igreja una, santa, católica” (não fé NELA, mas fé de que ela existe) é a expressão posterior do princípio bíblico. Isso admite que ela exiba a realidade da unidade manifestando-a de muitos modos: por uma concordância essencial na fé, no culto e na disciplina, testemunhada por todos os homens; por formas de associação com o propósito expresso de declarar a união, e isso não só pela admissão da fraternidade individual, mas também pelo reconhecimento de relações eclesiásticas; e pela intercomunhão e pela participação comum em todos os santos empreendimentos da caridade cristã católica.

III, 271Fundamento. (3.) O fundamento bíblico dessa unidade é a supervisão geral do Espírito Santo: O Senhor conhece os que lhe pertencem na grande casa (2Tm 2.19-20); e esta é a inscrição no selo da sua segurança, sendo o anverso apenas isto: Afaste-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor (2Tm 2.19). Nos dias apostólicos, a presença dos representantes inspirados do Senhor era o vínculo de união entre as igrejas; mas não encontramos nenhuma provisão expressa para esse vínculo depois da partida deles. Em cada igreja individual, a unidade é mantida pela disciplina, confiada às mãos de pastores responsáveis.

ECLESIÁSTICO.

História. As diferenças acerca deste atributo ou nota da Igreja estão ligadas aos seus melhores e aos seus piores desenvolvimentos. O assunto pertence estritamente à história eclesiástica; mas podemos registrar aqui algumas indicações que têm relação tanto com a doutrina quanto com a ética.

Unidade bíblica. 1. Já se viu que, dentro da Escritura, se observa uma unidade bem diferente da uniformidade. Em Israel, de fato, havia um só templo: não se permitia nenhuma quebra da unidade, e a separação dos reinos não foi sancionada por Deus. A teoria romanista, falsa agora, era verdadeira então: o Sumo Sacerdote era o vínculo da unidade absoluta do povo da aliança. Mas, depois do Cativeiro, outro templo foi construído no Egito; as sinagogas organizaram centros locais de culto; e surgiram seitas. Nosso Senhor não sancionou nenhuma das seitas como tal, nem as condenou como tal: ao monaquismo dos judeus e ao isolamento ascético dos essênios ele não se referiu uma única vez. Ele certamente condenou, de modo implícito, o culto de Samaria, não, porém, como violação da unidade, mas como falso: vocês adoram o que não conhecem. Pois a salvação vem dos judeus (Jo 4.22). Estudamos naturalmente, com grande interesse, todas as indicações da vontade do Mestre sobre este assunto importantíssimo; e certamente deduzimos de alguns indícios que não era propósito seu prender o seu povo nos laços de uma uniformidade muito rigorosa. Os discípulos repreenderam certa vez os que não os seguiam; mas eles, por sua vez, foram repreendidos pelo seu Senhor. Os apóstolos foram um vínculo de unidade depois da partida do seu Mestre. Mas não há nenhum indício de que a autoridade deles devesse continuar como laço de união de toda a Igreja; e o concílio de Jerusalém não se repetiu.

III, 272História eclesiástica. 2. Deixando as Escrituras, encontramos de imediato a tendência que fez da unidade da Igreja uma questão proeminente. Durante a era antenicena e, de modo geral, a patrística, lançaram-se os alicerces de uma doutrina de uniformidade absoluta. O crescimento das heresias e dos cismas foi a primeira ocasião dessa ideia, muito antiga, de uma unidade mecânica; e essas duas palavras logo ficaram fixadas Heresia. no seguinte sentido. HERESIA é a escolha voluntariosa de algum erro particular e o consequente afastamento da Confissão cristã. Toda igreja que renuncia às doutrinas fundamentais do cristianismo está fora da unidade da cristandade; não que deva necessariamente ser cortada de imediato: o tribunal é invisível, e a excisão vem do alto. Quanto à expressão exterior Cisma. da unidade, a violação é o CISMA: a contenda dentro da própria comunidade, ou a separação dela, seja por ato voluntário, seja por expulsão. Neste último caso, pode haver uma justificativa que livre de pecado a aparente ruptura. Mas, na era patrística, não se pensava em cisma justificável. Três homens representativos podem ser citados como os principais expoentes dessas ideias e dos diferentes modos como eram sustentadas. Inácio, Pai apostólico do primeiro século, estabeleceu o princípio de que o episcopado único era o único vínculo de união; com isso, porém, queria dizer apenas que, em cada igreja, o ministro principal era a garantia da ordem contra o cisma e da sã doutrina contra a heresia. Irineu, no segundo século, fez da Igreja una, como congregação de todas as igrejas sob esse governo episcopal, o único órgão do Espírito Santo: temos aí uma combinação singular de unidade visível e invisível. Cipriano, do terceiro século (250), na sua obra De Unitate [Da unidade], apontou Roma como o centro da unidade, embora rejeitasse a jurisdição romana: posição que foi adotada de modo muito geral.

III, 273Unidade e uniformidade. 3. O desenvolvimento ulterior do princípio de que a unidade interna deve exprimir-se por uma uniformidade externa pertence à história eclesiástica. Aos poucos, o bispo romano, bispo dos bispos, pretendeu ser para a Igreja inteira o que cada bispo era para a igreja individual. A ordem eclesiástica foi moldada pela ordem civil: o César de um império temporal universal devia ter como contrapartida o César espiritual, ou o Vigário de Cristo, como centro da unidade e instância final de apelação. O espírito de protesto contra isso começou no Oriente, que se ressentiu tanto do FILIOQUE acrescentado ao Credo Niceno quanto da autoridade com que foi acrescentado. A ruptura entre a cristandade oriental e a ocidental nunca foi sanada: permanece como protesto constante contra a doutrina errônea da unidade. Enquanto Roma denuncia as comunidades protestantes como fora dos limites do único corpo de Cristo, a Igreja Ortodoxa Grega denuncia Roma como a primeira de todos os dissidentes protestantes, hereges e cismáticos. No Ocidente, a Reforma protestante rejeitou inteiramente a teoria de uma unidade externa tal como a sustentam as duas comunidades, a católica e a ortodoxa.

Resumo. 4. Podem fazer-se algumas observações sobre as tendências modernas na interpretação da nota da unidade desde a Reforma.

Teorias errôneas. (1.) Admite-se em geral que é impraticável buscar a unidade na igreja visível, a não ser nos fundamentos da fé, do culto e da disciplina. Deve ser evidente a toda mente desapaixonada que, desde os tempos dos apóstolos, nunca houve outra unidade senão aquela que só Deus pode discernir. A cristandade oriental e a ocidental concordariam em que não houve nenhuma unidade dessas desde o século VII; e cada uma desespera da restauração da união, a não ser em termos que a outra não pode aceitar. Entre as comunidades protestantes, só um juízo deveria prevalecer neste ponto. Encontram-se, porém, certos entusiastas da hierarquia, ou da Alta Igreja, que sonham com uma unidade que uma sucessão apostólica linear das ordens dá às comunhões episcopais do Oriente e do Ocidente. Mas essa é a mais irreal das irrealidades. Tentam um meio-termo aqueles que, sejam anglicanos, com episcopado, sejam luteranos, sem ele, abandonam a esperança de uma unidade universal, mas se apegam à unidade expressa pelas igrejas nacionais em cada país. É a unidade religiosa de raça, de nação ou de território. Mas jamais se poderá provar que a Cabeça da Igreja tenha dividido o seu reino territorialmente, ou que tenha querido que ele fosse assim dividido. A teoria congregacional, que só admite a agregação voluntária de igrejas e não tem nem deseja nenhuma garantia além disso, vai a um extremo, mas na direção certa.

III, 274Heresia e cisma. (2.) Mas isso tende à correção moderna das noções de heresia e cisma. Há alguns princípios importantes que hoje são geralmente aceitos. Essas duas violações da unidade costumam andar juntas: a αἵρεσις, ou heresia, é a escolha voluntariosa da interpretação particular em oposição à Escritura, e o σχίσμα é o seguimento de um partido. Poucos cismas se podem citar que não tenham sido resultado de erro doutrinário; poucas heresias importantes que não tenham resultado em cismas. Aqui, porém, há uma distinção. A heresia nunca pode perpetuar-se; mas o resultado dos cismas pode. O cisma eclesiástico pode ser incorporado pela sabedoria divina ao desenvolvimento do reino de Cristo, por não ter sido, de fato, cisma aos olhos de Deus, ou por perder logo a mancha. O cisma aparente pode ser a única cura da heresia. Muitas heresias menores podem coexistir com o reter a Cabeça. Mas onde houver, de um lado, tal subtração incrédula da fé ou, de outro, tal acréscimo supersticioso a ela, que neutralizem os fundamentos, a separação pode ser inevitável e terrível. A disciplina pode estar tão relaxada ou pervertida que torne necessárias separações que não são cismáticas: a Dissidência e o Não Conformismo [N. do T.: nomes dados na Inglaterra às comunidades protestantes separadas da Igreja oficial] não são, necessariamente e como tais, pecaminosos. O cisma pode ser pecado tanto da comunidade deixada quanto da comunidade que a deixa. Mas tudo isso se eleva ao princípio superior de que o Espírito Santo é o Doador da vida, tanto corporativa quanto individual. Ele dá vida a quem quer. O corpo é mais do que as suas roupas: todo ato desse tipo do Espírito soberano deve visar ao crescimento mais eficaz da Igreja. Assim ele impede que a unidade degenere em uniformidade estagnada. Ele chama de seu povo os que não eram povo, a fim de provocar outros a ciúmes. Por fim, sempre que o Espírito assim se desvia do seu curso habitual para dividir igrejas existentes, nunca deixa de autenticar o seu próprio ato, como Paulo, entre os apóstolos, pôde autenticar a sua vocação e a sua obra. Quanto à heresia, ou ao cisma voluntarioso e desnecessário, continua sendo uma das obras da carne (Gl 5.19): condenada por si mesma.

III, 275Salvaguardas. (3.) Há dois erros opostos sobre todo este assunto que, sempre observáveis, são muito proeminentes nos tempos modernos. Um é a supervalorização da importância da unidade, entendida como uniformidade. Isso é repreendido pela razão, pela Escritura e pela evidência do fato de que o Espírito Santo administra, sim, a obra de Cristo por meio de seitas e divisões. Grande parte do progresso do evangelho, e muitas das suas conquistas mais gloriosas, no próprio país e no estrangeiro, podem ser atribuídas aos trabalhos de sociedades cristãs em grande medida independentes umas das outras. Mas a subvalorização da unidade é igualmente errada. Embora a variedade seja ordenada por Deus, quanto mais perto da uniformidade, ou pelo menos de um pleno reconhecimento mútuo, se puder levar o estado da cristandade, tanto melhor será para a sua paz, a sua dignidade e a sua prosperidade. No devido tempo, Cristo, que na sua primeira vinda de dois povos fez um só (Ef 2.14), unindo judeus e gentios, fundirá todas as comunhões na unidade, e a sua Igreja, pela presença dele, será, em toda a multidão dos seus ramos, aperfeiçoada na unidade (Jo 17.23).

SANTIDADE E IMPERFEIÇÃO.

Santidade. A Igreja, como órgão do Espírito Santo, é necessariamente santa. Mas a sua santidade, enquanto imputada, é compatível com muita imperfeição; e, enquanto real e interna, só gradualmente é levada adiante rumo a uma perfeição que não será alcançada neste mundo.

Separada. I. O sentido de ἁγία, sancta [santa], aplicado ao Corpo de Cristo, é o mesmo que, como se viu, o termo tem quando aplicado aos indivíduos: em ambos os casos, significa simplesmente aquilo que é separado do mundo e consagrado a Deus.

Propósito triúno. 1. A Igreja é apresentada como santa no propósito divino, isto é, no fim proposto pelo Criador. Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança (Gn 1.26) deve ser referido também à humanidade redimida. Nisso concorrem as três Pessoas. Antes da fundação do mundo, Deus nos escolheu, nele (Ef 1.4). Ele deu a si mesmo por nós, a fim de nos remir de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu (Tt 2.14). Esse alvo final (tirar do mundo um povo para o seu nome) é mantido sempre em vista pelo Espírito Santo de Deus, no qual vocês foram selados para o dia da redenção (Ef 4.30). O desígnio comum da Santíssima Trindade foi a nova criação de uma humanidade perfeita, ou corpo da humanidade, como OS CHAMADOS, κλητοί, do mundo, ou da massa dos não regenerados, para A IGREJA, ἐκκλησία.

III, 276Meios. 2. Esse desígnio se cumpre por meio de todos os meios de graça. O processo é espiritual e se dá em união com Cristo, que, como Cabeça, só pode ter membros semelhantes a ele. Por isso, a vocação deles é uma santa vocação (2Tm 1.9). Deles o Senhor diz: Eu os escolhi do mundo (Jo 15.19); e, pelo Pai, eles são aceitos no Amado (Ef 1.6) [N. do T.: Pope segue a KJV; a NAA traz “que ele nos concedeu gratuitamente no Amado”]. Santuário do Deus vivo (2Co 6.16) e santuário do Espírito Santo (1Co 6.19), que nela habita, a Igreja é sagrada: a sua santidade é real, embora a sua santificação seja, na melhor das hipóteses, um processo: para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra (Ef 5.26). O edifício, bem-ajustado, formado por membros santos e, ao mesmo tempo, formando-os, cresce para ser um santuário dedicado ao Senhor (Ef 2.21).

Ideal. 3. Esse desígnio é dado como cumprido por antecipação e em profecia. Sobre a igreja visível e imperfeita paira sempre a imagem de um Ideal santificado, que já está nas regiões celestiais em Cristo Jesus (Ef 2.6). Assim, no desígnio da redenção, no processo sobre a terra e no resultado glorioso, a congregação de Cristo já é santa diante da mente e no propósito de Deus.

Santidade externa e interna. II. Mais particularmente, a santidade da igreja una é a de uma imputação externa, a de um processo interno e a da aproximação gradual destes dois até coincidirem, coincidência que nunca é perfeita neste mundo, mas que será aperfeiçoada na vinda de Cristo.

Santidade imputada. 1. Há uma santidade relativa e imputada. Assim como Santo ao Senhor estava gravado nas campainhas dos cavalos (Zc 14.20), assim tudo o que há naquilo que nosso Senhor chamou a minha casa (Mt 21.13) traz impresso certo caráter de santidade, até o próprio pó. Por isso, tudo o que pertence à comunidade exterior e visível (a assembleia e o próprio edifício em que se reúnem, o culto divino, a mesa, os sacramentos) está entre τὰ ὅσια, as coisas santas (At 13.34) [N. do T.: a NAA traz “as santas e fiéis promessas feitas a Davi”]. Isso não é afetado pela falta de santidade que ainda persiste na comunhão externa. As Epístolas são escritas às companhias de santos (1Co 1.2), entre os quais, contudo, há muitos cuja falta de santidade é repreendida. As epístolas católicas do próprio Senhor são escritas às igrejas que são dele e que, no entanto, precisavam de muita emenda: até que ele tire o seu candelabro do lugar dele (Ap 2.5, 7), este brilha sobre uma companhia santa. Jerusalém, no seu pior momento, ainda era a cidade santa (Mt 27.53). Mas esta é apenas uma santidade relativa, que de nada vale por si mesma quando está sozinha.

III, 277Santidade real. 2. Há uma santidade interna e real, que é inerente ao corpo, derivada da santidade dos membros individuais da comunhão mística, e que nunca falta em nenhuma comunidade que retém a Cabeça. A vida, o alvo e a comunhão deles são santos; a santidade da Igreja é, na realidade, a santidade deles; e deles diz o Credo: Creio na comunhão dos santos. Essa santidade é matéria de fé; é também, necessariamente, imperfeita: pois qualquer perfeição de santidade que os membros individuais alcancem não pode ser imputada ao corpo inteiro, a menos que todos a partilhem igualmente.

Coincidem. 3. O interno e o externo vão-se tornando gradualmente um só, na Igreja inteira como no cristão individual. Dentro da comunidade universal, tida por santa, prossegue a operação silenciosa e incessante de uma graça santificadora: pelo amor, pela disciplina, pela fundição e pelo fogo, a Igreja como um todo, e cada ramo e cada congregação, é levada gradualmente rumo à pureza perfeita. Daí a importância de que, durante o intervalo do processo, nos lembremos do duplo selo de são Paulo. O Senhor conhece os que lhe pertencem (2Tm 2.19): sejam quais forem as anomalias, enquanto o candelabro permanecer, podemos ter perfeita confiança no discernimento divino dos seus. Afaste-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor: aquele que, na comunhão visível, abandona o pecado e vive em santidade pode também ter motivo de alegria em si mesmo, quando oprimido pelos erros de doutrina e pelas variações de prática observáveis na GRANDE CASA. Temos esse duplo lema a que recorrer. Uma inscrição no selo nos manda lembrar que Deus distingue os seus de todos os outros. A inscrição do anverso nos diz que devemos garantir a nossa própria salvação, segundo o princípio de nosso Senhor: O que você tem com isso? Quanto a você, siga-me (Jo 21.22). Mas o amplo e tolerante lema de são Paulo deve ser um tanto limitado no caso de qualquer comunidade particular. Na igreja individual, o caso é diferente. Não se diz dela: Deixem que cresçam juntos até a colheita (Mt 13.30). Pelo contrário, está estabelecida uma disciplina eficaz: a supervisão pastoral deve cuidar que os membros desordenados sejam repreendidos e, se persistirem no mal, excluídos; ao passo que se impõe aos cristãos o mandamento: Afastem-se de todo irmão que vive de forma desordenada (2Ts 3.6).

História. III. Isso nos leva a considerar duas correntes de erro que esta nota da Igreja deixa a descoberto: o exagero, respectivamente, da santidade relativa e da santidade absoluta.

III, 278Exagero da santidade externa. 1. Quanto ao primeiro, muitas circunstâncias tiveram o efeito de limitar a santidade do corpo à sua comunhão exterior. A noção de uma virtude inerente aos sacramentos, sobretudo quando esses sacramentos se multiplicaram a ponto de cercar a vida inteira, tendeu a exteriorizar a ideia da religião em geral e, em particular, a das ordenanças da comunhão cristã. Do mesmo modo, a aliança precoce e mal regulada do cristianismo com o Estado teve o mesmo efeito, como perversão do que em si mesmo não era necessariamente mau. Seja a teoria romana desenvolvida, de que a Igreja está investida da autoridade suprema sobre o mundo, seja a erastiana, de que ela é apenas um órgão do Estado, seja a latitudinária, de que a Igreja e o Estado são aspectos distintos da mesma coisa, a evidência dos fatos, multiplicada em casos sem fim, tende a provar que a união, tal como geralmente se viu na cristandade, sempre teve esse mau resultado. O descuido da disciplina, um dos piores frutos de pôr o mundo e a Igreja em relações estreitas demais, tendeu na mesma direção. O Tirem estas coisas daqui! (Jo 2.16) do Senhor deu uma lei e estabeleceu um precedente esquecido cedo demais. As ilustrações disso são inumeráveis, mas nos levariam à história eclesiástica mais fundo do que convém ao nosso propósito presente.

Da interna. 2. A santidade interna às vezes foi subestimada [N. do T.: assim no original, undervalued; pelo contexto, que trata do exagero da santidade interna, o sentido parece ser “superestimada”]. Alguns cismas na Igreja primitiva (o montanismo na Frígia, o novacianismo em Roma, o donatismo na África) resultaram de um rigor indevido em arrancar o joio: a consequência foi o fanatismo mais extremo. Em tempos mais recentes, o puritanismo, seja no continente europeu, seja na Inglaterra, levou longe demais o seu elevado princípio. Daí que o congregacionalismo moderno, seu descendente direto e seu representante neste país, não reconheça nenhuma santidade da Igreja externa como válida para estabelecer um caráter cristão, nem como suficiente para a admissão como membro, sem a profissão de uma fé consciente. Os batistas vão além e se recusam a admitir que a dedicação das crianças a Deus no batismo lhes confira qualquer relação, ainda que externa, com a Igreja enquanto santa. Esse, pelo menos, é o seu princípio quando levado às últimas consequências.

O meio-termo. 3. A teoria verdadeira parece ser a que busca o meio-termo.

(1.) Todos os que dão provas de ser crentes em Cristo e que, seja como adultos, seja como crianças, foram batizados pertencem ao corpo externo e têm direito a todos os seus privilégios. O devido respeito à igreja exterior e visível exige que se reconheçam todos os seus membros batizados e de conduta coerente, sem exigir testemunho pessoal de uma experiência consciente. Mas a santidade interna da comunhão também tem os seus direitos. O sacramento da Ceia do Senhor, selo da comunhão dos santos e sinal da sua profissão diante dos homens, deve ser guardado com cuidado, e o acesso a ele cercado de todos os modos possíveis que a vigilância pastoral e a mútua sugerirem. De algum modo, os comungantes devem ser examinados e aprovados um por um.

III, 279A reunião de classe. (2.) O método de realizar isso variou em cada época e quase em cada comunidade. Muitas das igrejas nacionais mais recentes o negligenciaram, com demasiada frequência, por completo: as advertências e as confissões públicas só em pequena medida são reforçadas por uma investigação particular. A REUNIÃO DE CLASSE é o método com que os metodistas enfrentam uma das maiores dificuldades da época. Ela não pretende impor uma condição nova para ser membro da Igreja cristã. É apenas uma entre as muitas formas (certamente a mais difundida e duradoura) que a Ecclesiola in Ecclesiâ, ou sociedade dentro da Igreja, assumiu. Nenhuma comunidade religiosa manteve por muito tempo o seu vigor e a sua pureza sem algum recurso desse tipo. Esta, em particular, honra a nota da santidade externa da Igreja, porque admite livremente todo aflito que a procura, sob a única condição de que, como membro batizado da Igreja de Cristo, deseje fugir da ira que está por vir e encontrar a salvação no nome de Jesus. Ela põe todos sob supervisão pastoral, direta ou indireta: indireta, porque os guias dessas classes fazem parte, eles mesmos, do rebanho do ministro; e direta, porque esses pequenos grupos ficam sob a disciplina de uma visitação trimestral. Essa instituição oferece os meios de edificação social mútua, além dos meios de graça gerais, e assim faz muito para promover tanto a santidade externa como a interna da comunidade: a externa, porque tende a dar mais realidade e dignidade à comunhão exterior da Igreja cristã; a interna, porque coloca todos os membros sob a influência de uma exortação e de uma oração mútuas e edificantes. Deixando de lado o seu nome moderno, essa forma de comunhão pode ser rastreada quase até os tempos dos apóstolos.

III, 280VISÍVEL E INVISÍVEL.

Visibilidade. Esses atributos da comunhão orgânica de Cristo desempenharam papel de destaque na controvérsia eclesiástica. Mas não há outros mais claros nos seus princípios elementares.

Invisível e visível. I. A Igreja, como corpo místico do Redentor, animado pelo seu Espírito, é essencialmente invisível. No seu sentido mais profundo e mais abrangente, é uma realidade espiritual e não vista; e, portanto, uma comunhão ideal, ou a comunhão mística. Mas, na sua manifestação como o reino sobre a terra, não é outra coisa senão a Igreja invisível que toma forma visível. Por fim, na sua consumação eterna, o invisível e o visível serão um só.

1. O meu Reino não é deste mundo (Jo 18.36): com essas palavras ele declarou a Pilatos, como representante dos de fora, o caráter espiritual e supraterreno Invisível. da comunidade; depois, dentro do círculo dos seus discípulos, o Senhor se deteve no mesmo aspecto da sua comunhão. Todo o teor da Oração Final apresenta diante de Deus um corpo místico e invisível, quase sem alusão a qualquer outro. Esse corpo, na linguagem de são Paulo aos efésios, é o corpo de Cristo (Ef 4.12) e a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas (Ef 1.23). Como corpo orgânico, organizado espiritualmente, é invisível, assim como a sua própria Cabeça; e, como todo membro fiel, está oculto juntamente com Cristo, em Deus (Cl 3.3).

Visível. 2. Mas essa linguagem acerca da comunhão mística é dirigida a uma comunidade visível como referente a ela mesma. São Paulo não fala dos santos que vivem em Éfeso como distintos dos que são fiéis em Cristo Jesus (Ef 1.1), embora toda a questão do visível e do invisível esteja nessa distinção. O Novo Testamento inteiro parte do pressuposto de que toda comunidade existente é a encarnação terrena do reino dos céus. Nisso os servos são fiéis ao ensino do seu Mestre, que ensinou a unidade, embora não a identidade, das comunhões visível e invisível. Os dois únicos casos registrados em que nosso Senhor usou a palavra ilustram a unidade e a diferença das duas. Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18): aqui está o fundamento da Igreja invisível, que é o templo edificado por Cristo, espiritual e eterno, mas edificado também por cooperadores humanos juntamente com ele; aqui a ideia mística está em primeiro plano, embora sem excluir a outra. Essa mesma Igreja aparece também circunscrita: o ofensor está no meio dela, e a disciplina é aplicada diante da presença espiritual de Jesus, que diz: onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles (Mt 18.20); aqui a realidade visível e concreta está em primeiro plano. Mas as duas igrejas são uma só. Assim também a Oração Sacerdotal, que consagra o templo espiritual, é pronunciada sobre um corpo que acabava de ser unido numa unidade sacramental visível. Voltando, porém, de nosso Senhor aos seus apóstolos: são Paulo se estende sobre a administração dos dons num ministério visível e depois passa, quase sem transição, ao crescimento do corpo invisível. Assim, a grande casa (2Tm 2.20) é visível, mas tem um fundamento eterno e invisível, como atesta o seu selo: O Senhor conhece os que lhe pertencem (2Tm 2.19); e só o Senhor.

III, 281Unidade das duas. 3. O Apocalipse nos dá uma visão clara do visível e do invisível reduzidos a uma unidade final e eterna: ainda mística, mas eternamente visível como um só todo orgânico glorificado, a Igreja é uma contraparte espiritual distinta do próprio Senhor. Além disso, ele é o Noivo, e a sua Igreja é a noiva enfeitada para o seu noivo (Ap 21.2), na última apresentação de ambos que as Escrituras contêm.

História. II. A aplicação dessa dupla nota na teologia histórica diz respeito apenas à importância relativa das duas ideias, a do visível e a do invisível. Nenhuma confissão jamais negou a realidade de qualquer delas. As diferenças entre as confissões disseram respeito apenas aos resultados que decorrem da preponderância indevida de uma ou de outra.

Roma. 1. O romanismo exalta a visibilidade quase até a supressão da invisibilidade, sem, no entanto, negar esta última. Ensina que há “um só Governante da igreja invisível, Cristo; e um só Governante da visível, o sucessor de são Pedro”. O corpo espiritual tem lugar na sua teologia interior, mas de modo nenhum é ideia dominante: a sua teoria se constrói em total independência da realidade mística, que de fato é reconhecida como a sua coroa e glória, mas apenas em outro estado e aos olhos da fé. Daí que ele inclua entre as muitas notas da verdadeira igreja (das quais às vezes se conta um grande número) a exclusividade: não há salvação fora dos limites da única instituição visível.

Protestantismo. 2. A ideia protestante procura unir os dois atributos, mas dando sempre a prioridade e a preeminência à invisibilidade. O dogma romano não quer saber de uma igreja invisível à parte da visível; o protestante rejeita a ideia de uma igreja visível que não seja criada pela invisível para ser o seu órgão. As confissões reformadas diferiram da luterana apenas na medida em que a sua doutrina da eleição as obrigava a diferir. Nas primeiras, os eleitos são a verdadeira comunhão; mas a igreja visível é uma instituição santa “da qual se afastar”, nas palavras de Calvino, “é negar a Cristo”. Calvino diz ainda: “Deus põe em seu lugar o juízo da caridade, pelo qual reconhecemos como verdadeiros membros da Igreja aqueles que, pela profissão de fé, pela bondade de vida e pela participação nos sacramentos, confessam conosco o mesmo Deus.” Os luteranos e os reformados concordavam, de início, quanto à estreita ligação entre a congregação visível e o corpo político; mas a aliança estreita da Igreja com o Estado não é tão geralmente aceita pelos seus representantes modernos.

III, 282Esforços e teorias modernos. 3. Grande parte das diferenças entre as comunhões modernas resulta de variações de teoria quanto à possibilidade de levar o visível e o invisível à coincidência ou à unidade. Há aqui dois extremos opostos e um caminho do meio entre eles. A teoria da Igreja Larga (Broad Church) sustenta que a distinção nunca deveria ser feita, exceto em casos extremos de apostasia e excomunhão: o mundo inteiro, à espera do batismo, é, por assim dizer, a igreja visível, e a invisível deve ser deixada com Deus. As teorias congregacionalistas mais estritas procuram limitar a igreja visível, tanto quanto possível, aos professantes de fé comprovada, e procuram chegar o mais perto possível de fazer do visível a medida do invisível em cada sociedade. Isso introduziu a distinção moderna entre a igreja e a Sociedade dentro da Igreja. congregação. Por fim, houve um meio-termo, adotado sob várias formas entre várias comunidades: o da sociedade dentro da igreja, que não é uma teoria do místico dentro do corpo visível, mas a tentativa de livrar a comunhão geral de alguns dos males que são inseparáveis da constituição e do funcionamento da comunhão visível tal como os apóstolos a deixaram; tentativa que, de uma forma ou de outra, foi feita em quase todas as comunhões zelosas e fiéis.

CATÓLICA E LOCAL.

Católica e local. A atribuição de catolicidade ao corpo cristão data de época muito antiga. O termo católico significa universal; e, quando se acrescenta local como sua contraparte, as duas expressões significam que a igreja una do Redentor, o seu corpo na terra, tem, no seu desígnio e no seu destino, uma universalidade tal que é compatível com a independência local das igrejas individuais. Nada mais que isso se pretende dizer; mas veremos que a palavra católico tem uma aplicação muito diferente na história eclesiástica.

III, 283Na Escritura. 1. O testemunho da Escritura sobre este assunto é muito simples. A igreja antiga, hebraica e judaica, era estritamente local e nacional. Todos os que nela quisessem entrar vindos de outras terras tinham de se submeter ao que era um rito judaico: conservando, como homens, a sua própria nacionalidade, tinham, como adoradores, de se tornar judeus. Mas as antigas Escrituras predisseram uma futura comunhão religiosa que abrangeria todas as nações e seria independente de tudo o que é nacional. O Novo Testamento explica o que, nesse ponto, as antigas predições deixaram indistinto. Nos Evangelhos, quase todos os discursos e parábolas que tocam nesse assunto se detêm muito nesse alargamento do reino: na verdade, ele quase nunca fica de fora, até a última comissão. Na parte posterior do Novo Testamento, a teoria é a de uma igreja que deve difundir-se por todas as nações; e os trabalhos dos apóstolos se dirigem nesse sentido. Mas, embora assim católica, a comunidade local nos aparece em toda parte. Lemos acerca da igreja, isto é, a de Jerusalém (At 2.47), e das igrejas da Galácia (Gl 1.2). A última vez que a palavra é mencionada, é em conexão com ramos distintos e independentes da única Comunhão universal, pois as sete igrejas que estão na província da Ásia (Ap 1.4) formam uma unidade sétupla.

História. 2. O uso mais antigo do termo católico, em meados do século II, provavelmente introduziu nele um significado a que as Escrituras não se referem. A palavra era usada para distinguir o único corpo universal e fiel dos grupos fragmentários de hereges e cismáticos, que, por isso mesmo, não eram partes do corpo católico. Esse significado a palavra jamais perdeu: a Grande Maioria. Mas, desde a divisão entre Oriente e Ocidente, e diante do fato evidente de que a maioria dos cristãos professos está do lado dos que dissentem da sé de são Pedro, o termo tem sido usado convencionalmente por Roma para significar simplesmente a única igreja, fora da qual não há salvação. As comunidades orientais não fazem tanta questão do termo e preferem os de ortodoxa e apostólica.

Como católica. 3. A Igreja cristã pode ser considerada CATÓLICA: destinada e adaptada à difusão universal, e abrangendo a totalidade das comunhões que mantêm as grandes verdades em que reside a essência do cristianismo. O termo, portanto, nunca deveria ser usado para nenhuma comunidade particular. A Igreja Local. é também LOCAL ou particular: existe em formas independentes e até isoladas, seja em corpos individuais, seja em corpos conexionais ou nacionais; e pode, mantendo as verdades católicas, sustentar na sua confissão verdades que não são católicas e adotar usos não católicos, sem prejuízo da sua catolicidade. Pois a igreja una de Cristo é ao mesmo tempo adaptada a toda variedade da humanidade e influenciada, por sua vez, por toda variedade da vida humana. Não é mais certamente Universal do que é Particular.

III, 284APOSTÓLICA E CONFESSIONAL.

Apostólica. O Novo Testamento sanciona, até certo ponto, o atributo da apostolicidade. Depois que nosso Senhor escolheu os Doze, designados por esse número quer como discípulos (Mt 10.1), quer como apóstolos (Mt 10.2), declarou que sobre eles, representados por são Pedro e proclamando uma confissão sã, edificaria a sua igreja. A eles confiou as chaves, deu a sua comissão e prometeu a efusão especial do seu Espírito. São Pedro, o apóstolo representativo, foi o instrumento para lançar o fundamento da nova comunidade tanto entre os judeus como entre os gentios. Desde o dia de Pentecostes, os discípulos perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão (At 2.42). Quando são Paulo foi acrescentado ao grupo, tornou-se, como eles, uma autoridade absoluta sob o Senhor; e é ele quem diz que os membros do corpo de Cristo são edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef 2.20). A mesma preeminência lhes é dada no Apocalipse. Deixando o Novo Testamento, logo encontramos o termo apostólico usado como nota do corpo cristão visível.

Primado e prelazia. 1. De início, a aplicação dele era sã: a verdadeira igreja fazia remontar a sua instituição, sob Deus, ao fundamento apostólico, e mantinha a fé e as tradições apostólicas ainda não corrompidas. Mas gradualmente surgiu a teoria que fundiu a autoridade dos Doze na de Pedro, e a Igreja passou a ser considerada apostólica na medida em que era uma só com a sé de Roma. Mas o primado de Pedro, apenas representativo no Novo Testamento, cessou por completo quando ele partiu; e assim fica demonstrado que essa aplicação da nota é antibíblica.

III, 285Sucessão apostólica. 2. A nota apostólica é aplicada, de modo inteiramente independente de Roma, por muitas igrejas na forma da sucessão apostólica. Que há uma sucessão ininterrupta de ministros que o olho divino pode seguir até os tempos dos apóstolos, não pode haver dúvida. Mas é totalmente impossível provar que em alguma parte do mundo exista um ministério capaz de fazer remontar as suas ordens, por mãos episcopais, até os apóstolos. Essa teoria da transmissão da autoridade apostólica está intimamente ligada a uma teoria mais ampla da graça sacramental, examinada em outro lugar. Como pertencente à nota apostólica, a doutrina da sucessão não tem lugar na sã teologia: pelo menos no seu sentido moderno convencional.

Irvingismo. 3. Outro erro, baseado numa teoria curiosamente oposta à anterior, interpreta a nota assim: a verdadeira igreja é aquela em que o Espírito, depois da longa omissão de séculos, restaurou o apostolado, com os dons e as prerrogativas originais de falar novas línguas e outros dotes miraculosos. Mas a Escritura não faz a existência da comunhão cristã depender da permanência do ofício apostólico: ao contrário, são Paulo e são João escrevem prevendo um estado de coisas em que eles e a sua prerrogativa estariam ausentes.

A Igreja evangélica. 4. Nos últimos séculos, todas as comunhões evangélicas, não presas a essa ideia de sucessão, sustentaram que a doutrina e a disciplina apostólicas podem ser mantidas em comum por comunidades que, em pontos menores, não determinados de modo absoluto pelos apóstolos, diferem segundo os seus diversos padrões de confissão. Daí podermos formular o nosso dogma: a Igreja é apostólica por ser ainda governada pela autoridade apostólica que vive nos escritos dos apóstolos, sendo essa autoridade o padrão de apelação em todas as confissões que RETÊM A CABEÇA.

INDEFECTÍVEL E MUTÁVEL.

Indefectível. A Santa Escritura dá claramente esses dois atributos à igreja una. Eles se referem à perpetuidade da comunidade cristã Na Escritura. e da fé cristã que lhe foi entregue.

Quanto à Igreja. 1. Quanto à primeira, basta citar as palavras de nosso Senhor em duas ocasiões: quando falou pela primeira vez da sua igreja e quando falou dela pela última vez. As portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18). Ele viu no grande porvir a anti-igreja (o reino da falsidade, da vaidade e da morte, o poder do Hades) esforçando-se, de época em época, para dissolver o seu reino, mas em vão. Ela não pode cair; pois, como a fé de todo verdadeiro membro seu, está construída sobre a rocha (Mt 7.25). Nas suas próprias cartas do Apocalipse, porém, ele ameaça expressamente Éfeso de tirar o seu candelabro do lugar dele (Ap 2.5), isto é, de apagar a luz e extinguir a existência de uma igreja individual. A sua profecia se cumpriu. Assim temos a autoridade dele para crer que a Igreja cristã jamais falhará, mas que igrejas cristãs podem desaparecer.

III, 286Quanto à fé. 2. Quanto à segunda, a perpetuidade da Fé, ela não precisa de nenhuma prova especial além da garantia: estou com vocês todos os dias (Mt 28.20). Nosso Senhor é a verdade (Jo 14.6); a Fé é uma só coisa com ele; e ele há de ser glorificado pelo Espírito, que na Igreja mostra as coisas de Cristo e guia os apóstolos em toda a verdade (Jo 16.13). Não precisamos de outras testemunhas. Por outro lado, que as igrejas podem corromper a fé, em parte e no todo, e tornar-se apóstatas, prova-o uma cadeia de testemunhos que remonta às próprias igrejas de fundação apostólica, que assim a corromperam. Esses testemunhos da Escritura estabelecem o nosso dogma: a Igreja cristã, na sua unidade, é ao mesmo tempo, e enquanto existe aqui embaixo, tanto indefectível como mutável.

MILITANTE E TRIUNFANTE.

Militante e triunfante. 1. Não há necessidade de nenhuma ilustração, nem da história nem da Escritura, destes últimos atributos correlativos. Aqui, enfim, Na Escritura. toda exposição, todas as confissões, todas as comunhões concordam. O mesmo e único corpo que trava guerra contra principados e potestades, ganhando lentamente as suas conquistas e mantendo-as a duras penas, é ao mesmo tempo triunfante, e se regozija no Paraíso com a sua Cabeça, na antecipação daquela alegria mais profunda, aquela alegria do seu Senhor, na qual todos entrarão juntos no fim dos dias. A Igreja militante ainda espera no futuro os seus conflitos mais severos; mas as agonias apocalípticas serão, no tempo determinado, tragadas no cântico do triunfo eterno. Esses dois atributos são os mais abrangentes, assim como são os últimos. E, como pertencem à igreja una, assim, em certo sentido, eles mesmos são um só. Ouvimos os apóstolos dizerem: Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo! (2Co 2.14). A guerra e a vitória prosseguem juntas, como ouvimos no Apocalipse, onde a assembleia que labuta aqui embaixo ouve a doxologia da assembleia geral lá do alto e quase se une a ela, como o profeta Isaías na visão típica do templo místico (Is 6).

III, 287História. 2. A medida da solidariedade entre a comunhão militante e a triunfante está claramente definida na Escritura; mas a Igreja primitiva logo começou a se impacientar com as suas restrições. A partir de Orígenes, pode-se rastrear uma corrente de doutrina cada vez mais larga, cujo resultado foi a criação de um novo estado intermediário da companhia cristã, nem propriamente militante nem ainda triunfante: o do purgatório. Ligado a isso esteve o alargamento do artigo sobre a comunhão dos santos, de modo a incluir os bons ofícios da oração entre os vivos e os que partiram: da parte dos santos na terra, a intercessão pelos mortos no purgatório; da parte dos santos no céu, a intercessão tanto pelos mortos no purgatório como pelos vivos militantes. Esse ramo da teologia é simplesmente um acréscimo à Escritura, cujo ensino, como vimos e tornaremos a ver, o repudia inteiramente.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 259-287, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.