W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · A Igreja cristã
O batismo. O batismo é uma ordenança instituída por nosso Senhor para ser o rito de iniciação na nova aliança da graça e na comunhão do seu reino. É o sinal e o selo das bênçãos dessa aliança, conferidas aos que, por meio dele, declaram aceitar a única condição, a fé em Jesus Cristo, com as obrigações que ela traz. É o sacramento da união com Cristo, do perdão e da renovação por meio do seu evangelho, e da condição de membro da sua Igreja; é o sinal exterior e visível do selo do Espírito Santo, que é o Vínculo interior da comunhão entre o crente e o Senhor, o Agente que comunica aquele perdão e aquela regeneração de que a lavagem com água é o sinal, e o Santificador do povo de Deus. A natureza, o modo de administração e os sujeitos deste rito estão claramente expostos no Novo Testamento, mas têm sido interpretados de várias maneiras na doutrina e na prática eclesiásticas. Convém, portanto, examinar primeiro a Escritura, que tem autoridade, e depois considerar brevemente o assunto à luz da controvérsia.
Escritura. A Palavra de Deus fornece uma história preliminar deste rito, ligado à antiga aliança por meio de usos que se transformam na nova; dá um relato claro da sua instituição e da sua observância; e define o seu significado e a sua relação com a economia da graça. Esses tópicos correspondem, respectivamente, ao ensino do Antigo Testamento, ao dos Evangelhos e de Atos e ao das Epístolas.
I. Muitos ritos, cerimônias, tipos, símbolos e predições apontavam para o batismo e encontraram nesta simples ordenança Antigo Testamento. o seu cumprimento. O seu representante especial no Antigo Testamento era o rito da aliança, a circuncisão: tipo do batismo enquanto rito de admissão na antiga aliança da graça, estabelecida primeiro com Abraão, para todas as nações, no seu Descendente, o Cristo, e renovada por meio de Moisés com o mesmo povo, agora mais nitidamente separado do resto da humanidade. Dada a Abraão, ela era selo da justiça da fé que teve quando ainda não havia sido circuncidado, para que ele viesse a ser o pai de todos os que creem, embora não circuncidados (Rm 4.11). Era, por assim dizer, o batismo do pai dos fiéis e, na sua própria origem, predizia a sua futura abolição. Restrita em Moisés, era o símbolo da santificação da vida física e da multiplicação natural, e o selo da participação em privilégios exteriores e limitados. Nos dois aspectos, foi ordenada somente até que viesse o descendente a quem se fez a promessa (Gl 3.19). O batismo tomou o seu lugar como sinal da santificação da vida inteira, tanto do homem como da mulher, e de um nascimento e uma multiplicação espirituais; e também como selo de privilégios interiores, universais e sem fim. De outra ordem eram os dois grandes tipos históricos: o Dilúvio, com a salvação por meio das suas águas, e a passagem do mar Vermelho. Cada um deles é mencionado de modo muito significativo. São Paulo diz do povo circuncidado que todos, em Moisés, foram batizados, tanto na nuvem como no mar (1Co 10.2): caso único em que o termo batismo é levado de volta ao Antigo Testamento. São Pedro dá um exemplo igualmente único do uso da palavra antítipo: falando do Dilúvio, ele diz: O batismo, que corresponde a isso (ἀντίτυπον), agora também salva vocês (1Pe 3.21). Deixando de lado os tipos rituais, como as abluções cerimoniais da antiga lei, encontramos um campo mais amplo nos Profetas, que predisseram a efusão do Espírito Santo, da qual o batismo cristão haveria de ser o símbolo, sob a figura de águas purificadoras: derramadas, correndo para sempre e aspergidas sobre a alma (Zc 13.1; Ez 36.25). O antigo batismo dos prosélitos vindos do paganismo (antigo em relação a nós, moderno em relação aos hebreus) provavelmente não tinha fundamento no Antigo Testamento além da prática geral de lavar-se antes de oferecer sacrifício a Deus. Mas parece indiscutível, pelas autoridades rabínicas, que depois do cativeiro todo prosélito era circuncidado e batizado e, além disso, que esse batismo incluía as mulheres e os filhos da sua casa. Isso explica a familiaridade geral com o rito que os Evangelhos pressupõem. Lança luz sobre a instituição de João Batista e sobre o batismo de discípulos por nosso Senhor. E deve ser lembrado quando interpretamos as palavras de são Pedro no Dia de Pentecostes: não pode haver dúvida sobre como os seus ouvintes entenderiam a promessa é para vocês e para os seus filhos (At 2.39).
III, 313Novo Testamento. II. A instituição do batismo cristão tem a sua história gradual. Temos os batismos preliminares dos Evangelhos; a determinação expressa e formal do Salvador, própria do Novo Testamento; e a observância do rito em ocasiões particulares, tal como a descrevem os primeiros registros da Igreja primitiva do Novo Testamento.
O batismo de João. 1. O batismo de João tem significado próprio e fica à parte: τὸ Ἰωάννου βάπτισμα (At 19.3). Era o batismo de arrependimento, como preparação para Cristo e para a nova aliança; assim como era o rito de transição do Antigo Testamento para o Novo. Enquanto pertencia ao Antigo, o próprio Jesus, nascido sob a lei (Gl 4.4), submeteu-se a ele; enquanto pertencia ao Novo, ele não o recebeu: o seu batismo do Novo Testamento foi a efusão do Espírito Santo sobre a sua natureza humana, restituindo ao HOMEM, nele, o Espírito perdido pela Queda. O ato preliminar de batizar de nosso Senhor, administrado pelos seus discípulos, foi em parte uma continuação do batismo de João Batista, assim como ele pregou de novo o arrependimento de João; em parte uma acomodação ao uso judaico posterior de batizar prosélitos; e em parte uma preparação para a sua própria ordenança definitiva. Nenhum dos seus dois sacramentos era absolutamente novo: ambos eram antes a santificação de certo remanescente de observâncias passadas, que os ligava à antiga economia.
A instituição cristã. 2. A própria instituição cristã foi estabelecida numa ordem clara e definida. Tinha sido preparada por atos, como vimos, e sem dúvida também por palavras durante os Quarenta Dias: por isso a fórmula foi entendida quando finalmente dada: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19). Os batizados deviam ser dedicados pelo homem, e consagrados pelo Espírito, à posse, ao serviço e à graça redentora da Trindade mediadora. Os dois sacramentos foram instituídos por Cristo, para serem plenamente interpretados pelo Espírito Santo. A Ceia precedeu a morte de que era a comemoração; o batismo precedeu o Pentecostes, que foi o seu cumprimento. Aquele dia declarou o seu significado: o único Nome triúno e as diversas bênçãos das Pessoas nesse nome; a sua substituição da circuncisão, como rito instituído para todas as nações; o seu caráter de aliança, como selo dos benefícios da carta cristã de privilégios a todos os que, da sua parte, creem e guardam os mandamentos.
III, 314Atos. 3. Do Dia de Pentecostes em diante, o rito é observado como ordenança indispensável. Não há nenhum caso de conversão a que ele não esteja ligado: iam sendo batizados, tanto homens como mulheres (At 8.12). Mas a fórmula completa não aparece: o batismo era em nome de Cristo ou do Senhor (At 2.38; 10.48), com ἐπί [sobre] e ἐν [em], bem como com εἰς [para dentro de] (Rm 6.3), e esse nome representava a Trindade. Uma vez, no caso de Samaria, o sacramento foi complementado pela imposição das mãos apostólicas e pelo dom do Espírito Santo (At 8.17); uma vez, no caso de Cornélio, veio depois desse dom (At 10.47); uma vez foi uma cerimônia infrutífera, no caso de Simão, o mago (At 8.13). Era sempre administrado pelos oficiais da igreja: os que pregavam admitiam assim os seus convertidos na comunidade. São Paulo foi uma notável exceção, mas ele dá a razão da sua satisfação por ter batizado tão poucos em Corinto: em parte, o seu zelo pelo nome de Cristo; em parte, a sua obrigação mais alta de pregar o evangelho. As casas dos que criam eram assim consagradas (At 16.15; 1Co 1.16), incluindo evidentemente os seus filhos, cujo batismo não é mencionado porque está implícito na bênção que o Senhor lhes deu. Que eles o receberam, porém, não precisa de outra prova senão a de que o batismo substituiu a circuncisão e a de que os filhos já são interpelados como membros da Igreja cristã (Ef 6.1).
O ensino apostólico. III. Resta considerar o ensino apostólico posterior sobre este assunto: ele se mostrará abundantemente pleno e claro.
Batismo e circuncisão. 1. A nova ordenança é considerada, em toda parte, como tendo substituído a circuncisão como sinal e selo da aliança cristã. Nada pode ser mais evidente do que a abolição do rito antigo. Se foi admitido em algum caso, foi por razões de conveniência; se praticado, não como rito de uma aliança imperfeita, mas apenas como costume nacional abandonado aos poucos, era coisa indiferente. Mas a circuncisão, como rito de iniciação da dispensação preparatória, perdeu-se no batismo. Negativa e positivamente, diz são Paulo: Nele, vocês receberam a plenitude. Ele é o cabeça de todo principado e potestade . . . Nele também vocês foram circuncidados, não com uma circuncisão feita por mãos humanas, mas pela remoção do corpo dos pecados da carne, que é a circuncisão de Cristo, tendo sido sepultados juntamente com ele no batismo (Cl 2.10-12) [N. do T.: a NAA traz “do corpo da carne”]. Notemos aqui os pontos. Já não há circuncisão alguma, senão a que NÃO É FEITA POR MÃOS; mas esse rito, que, como a Páscoa, teve em nosso Senhor a sua última observância, revive em outra cerimônia: o batismo é a circuncisão de Jesus e ensina a antiga lição de outro modo. A mesma morte da carne pecaminosa que o rito antigo significava é significada também pelo novo. Mas a circuncisão foi abolida sendo transfigurada, e o batismo é o sinal e o selo da aliança superior, ligado essencialmente a ela.
III, 3152. Podemos considerar isso de modo mais geral e de modo mais particular.
A Promessa. (1.) Todas as bênçãos da aliança cristã são apresentadas como resumidas na Promessa feita a Abraão; essa Promessa era Cristo, o descendente, e a bênção de Abraão, o Espírito Santo. Todos vocês que foram batizados em Cristo de Cristo se revestiram (Gl 3.27): aqui está a relação do batismo com o receber a Cristo e com a união com ele. Cada um de vocês seja batizado . . . e vocês receberão o dom do Espírito Santo (At 2.38): aqui está a sua relação com a concessão do Espírito. Essas passagens ligam o batismo aos dois ramos da Promessa da aliança.
As bênçãos da aliança. (2.) Mas isso é geral: podemos encontrar muitas referências às bênçãos específicas que são exibidas e empenhadas ao crente no seu batismo. A primeira delas é a justificação, ou o perdão dos pecados: são Pedro exclama: Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados (At 2.38); e Ananias diz a Paulo: receba o batismo e lave os seus pecados (At 22.16). A filiação cristã, tanto como adoção quanto como regeneração, é selada no batismo: todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos vocês que foram batizados em Cristo de Cristo se revestiram (Gl 3.26-27). Naturalmente, porém, a relação do batismo com a circuncisão sugeriria que ele se ligasse com mais frequência à regeneração do que à adoção. Depois de falar do propósito simbólico da circuncisão, o despojar-se do corpo dos pecados da carne, o apóstolo prossegue: tendo sido sepultados juntamente com ele no batismo, no qual vocês também foram ressuscitados por meio da fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos (Cl 2.12). Essa passagem faz o batismo representar o morrer para o pecado e o ressuscitar para a santidade: uma parte da cerimônia, a imersão, significa a conformidade com a morte de nosso Senhor; a outra, o sair da água, a conformidade com a sua ressurreição. A isso se pode ligar o paralelo da epístola aos Romanos (Rm 6.3). Foi nosso Senhor quem primeiro ligou o batismo ao novo nascimento: quem não nascer da água e do Espírito (Jo 3.5); e são Paulo encerra a longa série do ensino cristão com as suas palavras a Tito sobre o lavar regenerador (Tt 3.5). De modo menos direto, o batismo às vezes é ligado à santificação. Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um só corpo (1Co 12.13): aqui se fala da Igreja como o corpo santificado do Senhor, do qual se diz: para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra (Ef 5.26). São Pedro chama o batismo cristão de antítipo da salvação típica da arca, na qual poucas pessoas, apenas oito, foram salvas através da água. O batismo, que corresponde a isso, agora também salva vocês (não sendo a remoção das impurezas do corpo, mas o apelo por uma boa consciência para com Deus) (1Pe 3.20-21); nessa passagem, a justificação e a santificação se unem, embora nenhum dos dois termos seja usado. Na epístola aos Hebreus, como na primeira de são Pedro, não podemos deixar de sentir que a aspersão do sangue de Jesus Cristo (1Pe 1.2), que é interior, corresponde à aspersão exterior da água, que é o seu sinal. O mesmo se dá nas palavras misteriosas de são João: Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo. Ele não veio somente com a água, mas com a água e com o sangue (1Jo 5.6). Embora a alusão primária seja à obra ministerial do Senhor, iniciada no Jordão e terminada na cruz, há também uma referência à lavagem exterior do batismo e à lavagem interior da Expiação, da qual aquela é o sinal.
III, 316Sinal e selo da aliança. 3. Ora, em todas essas passagens o sacramento do batismo é, por assim dizer, identificado com as bênçãos que significa, e de tal modo que não nos permite pensar, nem por um momento, que seja um mero sinal ritual. São Paulo fala de um só Senhor, uma só fé, um só batismo (Ef 4.5): isso dá ao último dos três um lugar muito destacado, pois não somente faz dele o distintivo da profissão cristã, mas também parece abranger numa só palavra todas as bênçãos do cristianismo, que não são mencionadas de outro modo. De fato, supõe-se que os privilégios da aliança são selados, chancelados e comunicados aos verdadeiros crentes em ligação com o seu batismo. Esta ordenança nunca é apresentada como o único instrumento da parte de Deus, nem jamais como a única condição da parte do homem; mas é invariavelmente o selo da transação entre Deus e o crente, como que na presença da Igreja. Bênçãos podem ser concedidas antes da transação que as sela, e bênçãos ainda maiores vêm depois dela; mas, em todo caso, todas elas, segundo a regra, certamente, são seladas e empenhadas ao crente batizado como membro da congregação. Seja qual for o modo de considerá-lo (como afusão, aspersão ou imersão), ele é SINAL da descida do Espírito e da lavagem do pecado. E é SELO, dado de uma vez por todas, da concessão das bênçãos do Espírito ao crente que continua a crer. Mas deve-se lembrar sempre que, em toda referência a esta ordenança simbólica, nós a encontramos ladeada, de um lado, pela necessidade absoluta da fé como condição e, de outro, pela eficácia exclusiva do Espírito como o Agente de todo bem.
III, 317A catolicidade do rito. 4. Não se deve esquecer que o sacramento de iniciação tem, nas Epístolas, um caráter universal, pois estende e amplia o significado do rito anterior e o adapta a uma economia mais católica [universal]. A passagem capital já foi citada em parte: Porque todos vocês que foram batizados em Cristo de Cristo se revestiram. Assim sendo, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são também descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa (Gl 3.27-29). Aqui a circuncisão desaparece pela própria natureza do caso, como não precisamos explicar mais. O sinal de nosso Senhor deve estar sobre todo aquele que é dele; e o batismo para todos, para homens e mulheres, para adultos e crianças, toma o lugar dela. Em toda parte a água corre para o mundo inteiro: Eis aqui água (At 8.36). Por meio dela, o Deus da aliança cristã haveria de aspergir muitas nações (Is 52.15), numa leitura figurada da passagem [N. do T.: a NAA traz “causará admiração às nações”]. Nada do que a circuncisão significava ou selava sob a antiga economia pode perder-se sob a Crianças. nova: por isso as crianças têm os seus privilégios na aliança cristã selados no seu batismo. Assim, elas são interpeladas como membros da igreja em todas as Epístolas. Se se perguntar: Qual é a bênção que lhes é selada?, a resposta é: tudo o que são capazes de receber. Como filhos de uma raça sob condenação, são justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3.24). Filhos da ira, por pertencerem à linhagem do primeiro Adão, são enxertados no Segundo: o seu batismo é o selo da sua adoção presente e o penhor Relativamente santos. da sua regeneração quando forem capazes dela. Não santos por natureza, são santificados pela consagração batismal a Deus: Cristo os abençoou, a sua condição de estranhos passou, e agora os filhos de vocês são santos (1Co 7.14). No caso dos adultos, a fé pessoal e a aceitação consciente das condições da aliança são essenciais. Disso as criancinhas são incapazes; mas o Senhor é o seu eterno Fiador [N. do T.: Sponsor, que designa também o padrinho que responde pela criança no batismo]; e, quando disse: dos tais é o Reino dos Céus (Mt 19.14), ele as admitiu a todos os privilégios da sua aliança, inclusive ao dom do Espírito, para tirar delas a condenação da raça e lhes proporcionar todas as influências preliminares da sua salvação. O batismo dos filhos de pais crentes é, portanto, sinal da remoção da culpa original e selo da sua adoção na família de Deus; sinal da regeneração de que a sua natureza precisa e selo da sua comunicação no tempo oportuno de Deus.
O desenvolvimento da doutrina acerca desta ordenança, ou sacramento, precisa ser exposto apenas em linhas amplas e gerais.
A Igreja primitiva. I. A Igreja primitiva atribuía ao batismo altíssima importância, como o SACRAMENTO DA NOVA VIDA. No Oriente, era geralmente chamado φωτισμός, ou Iluminação; e a linguagem hiperbólica abunda na descrição das suas virtudes e dos seus privilégios. O ritual da ordenança logo começou a refletir esse ensino.
Germes de erro. 1. Muito cedo o batismo passou a ser considerado antes o instrumento da transmissão das bênçãos cristãs do que o seu sinal e selo; mas o perdão que ele transmitia era somente o dos pecados passados. Daí surgiu, aos poucos, a necessidade de um novo sacramento, o da Penitência. A necessidade absoluta do batismo foi expressa em termos sem ressalvas, embora, no caso da sua falta acidental, só o desprezo fosse motivo de condenação. Supunha-se que o martírio, com o seu batismo de sangue, o substituía ou relevava a sua falta. A Igreja oriental sempre preferiu a imersão; a ocidental, a aspersão.
O catecumenato. 2. O catecumenato, como instituição, brotou deste sacramento por uma necessidade interna: a princípio precedia o batismo dos adultos e depois passou a seguir o das crianças. Com os seus catequistas, catecúmenos e catecismos, sempre existiu de alguma forma na cristandade, embora o seu caráter primitivo nunca tenha sido plenamente mantido nos anos posteriores, com grande prejuízo para a causa cristã. No século III, os catecúmenos se dividiam, tendo em vista a sua iniciação final no mistério da Ceia, em Audientes, ou ouvintes da doutrina que ficavam do lado de fora; Genuflectentes, ou os que oravam com a Igreja; e Competentes, ou candidatos à admissão plena e definitiva a todos os privilégios do cristianismo.
Ritos. 3. O cerimonial do batismo logo se tornou elaborado: tão elaborado que veio a formar, assim como o cerimonial da Eucaristia, um perfeito contraste com a simplicidade da instituição de nosso Senhor. No século IV a água era consagrada; e a Epifania, a Páscoa e o Pentecostes eram as épocas do ano preferidas para a sua celebração. Tertuliano menciona os padrinhos, a confissão e o credo. Em algumas regiões eram usuais três imersões, e também uma tríplice aspersão, ambas em referência à Trindade. O exorcismo e a renúncia a Satanás ocupavam no rito um lugar importante, que conservaram tanto no Oriente quanto no Ocidente. Os pormenores do desenvolvimento ritual devem ser estudados em outro lugar.
III, 319Batismo infantil. 4. O BATISMO INFANTIL foi, gradualmente e por necessidade, alcançando a predominância. A objeção de Tertuliano comprova a existência da prática: contra a precipitação em realizar a cerimônia, ele alegava que a sua bênção, uma vez perdida, jamais poderia ser recuperada nem plenamente restaurada. Já no tempo de Cipriano (Concílio de Cartago, 253) se decretou o batismo precoce: no terceiro dia, embora o oitavo fosse admissível. Desde então, foi um costume incontestado da cristandade, e isso com base em ser um costume apostólico. Sobre este último ponto Orígenes é explícito, e ele é apenas um entre um amplo consenso de autores. Por exemplo, na controvérsia pelagiana foi usado como argumento em defesa do pecado original.
Batismo dos hereges. 5. No século III, o batismo administrado por hereges foi objeto de séria controvérsia. Cipriano negou a sua validade, com base em princípios eclesiásticos, mas prevaleceu a autoridade da Igreja de Roma, que fundamentava a sua defesa no valor objetivo do rito, fosse quem fosse que o realizasse em nome da Santa Trindade.
Trento. II. A doutrina romanista confirmou em Trento as decisões doutrinárias e o ritual simbólico que havia muito vigoravam na Igreja medieval. Determinou que o batismo deve ser complementado pela confirmação. Decretou que no batismo “é tirado aquilo que tem o caráter de pecado: não é apenas cortado rente, nem apenas deixa de ser imputado.” A concupiscência, que em si mesma não é pecaminosa, nem em Adão nem em nós, permanece como o fomes, ou combustível, do pecado possível, e como matéria da nossa virtude e da nossa recompensa, por meio da sua constante repressão. De fato, todos os benefícios da redenção são aplicados à alma. Nada, porém, exibe tão claramente a doutrina quanto a variedade do ritual: desde a bênção da água, passando pelo exorcismo, pelo crisma e pela veste branca, até a imposição do nome.
III, 320Luteranos e reformados. III. O luteranismo, em harmonia com a sua elevada teoria dos sacramentos, torna o batismo ordinariamente necessário para a salvação, pois ele comunica, por designação divina, as bênçãos da remissão dos pecados e da regeneração. Sem a fé, porém, o adulto não recebe nenhum benefício; e nas crianças o Espírito opera a receptividade da fé, acerca da qual, nem é preciso dizer, houve discussões sem fim. O arrependimento depois do batismo é, por assim dizer, um “regressus ad baptismum”, um retorno à posição batismal. As igrejas reformadas em geral fazem o efeito interno coincidir com o ato externo no caso dos eleitos que creem. Presume-se que as crianças sejam eleitas, e o benefício, no caso delas, é apenas seminal e prospectivo. Os formulários anglicanos, tomados em conjunto, são uma combinação do luterano e do reformado. Ensinam claramente que a regeneração é a virtude secreta do batismo, nos adultos que creem e em todas as crianças. Mas há duas maneiras de entender a doutrina que sempre tiveram os seus defensores: primeiro, a que é mais luterana e sacramentalista e supõe uma renovação da alma da criança, ou certa infusão de uma vida nova; e, segundo, a que considera o novo nascimento, nas crianças, apenas uma mudança de relação, pela qual elas são transportadas para o reino da graça: o que significa antes adoção do que regeneração.
Batistas. IV. A doutrina das comunidades batistas difere da doutrina da cristandade em geral em dois pontos: insistem em que o batismo foi instituído para ser a expressão da fé adulta em Cristo, e negam o direito e o dever do batismo infantil; e sustentam que o único batismo válido é o de imersão na água. Concordando com eles naquilo que afirmam, a maioria das igrejas diverge deles naquilo que negam; mas não atribui aos pontos de divergência tanta importância quanto eles atribuem.
Batismo infantil. 1. É importante estabelecer a validade do batismo infantil, visto que, aos poucos, nas comunidades cristãs estabelecidas que admitem crianças ao rito, ele se torna o único batismo. Além disso, a solução desta questão está ligada à questão mais ampla do que constitui a condição de membro do corpo externo, ou da comunhão, da cristandade.
Continuidade. (1.) A comunhão cristã é a continuação de uma comunidade na qual as crianças sempre foram contadas como membros. A Igreja de Deus em Cristo tem sido uma só através de todas as eras: os antigos criam no descendente que viria, a quem se fez a promessa (Gl 3.19), e eram circuncidados, eles e os seus filhos; nós cremos no Cristo que já veio, e somos batizados, nós e os nossos filhos. Os gentios foram enxertados na antiga, a oliveira boa (Rm 11.24), oliveira que é, na realidade, a Videira verdadeira. A aliança com Abraão era para todas as famílias da terra (Gn 12.3), no tempo devido; e, enquanto isso, o sinal e selo dessa aliança era impresso nas crianças não apenas como súditas da comunidade política hebraica, mas como membros da Igreja hebraica. Nenhuma palavra no Novo Testamento indica qualquer mudança: a promessa do Espírito é para vocês e para os seus filhos (At 2.39); casas inteiras eram batizadas, e a família continuava santificada; e o próprio silêncio do Novo Testamento proíbe que tiremos das crianças um direito de nascimento de que desfrutavam desde o princípio. Contra este argumento não cabe apelação.
III, 321Teoria da Igreja. (2.) A teoria da Igreja sustentada pelos que rejeitam o batismo infantil não é sólida. Ela se resume nisto: ninguém deve ser admitido como membro sem dar à congregação prova digna de crédito de que é regenerado. Esse princípio, tal como o adotam os congregacionalistas, permite que todos os que assim professam comunguem e tragam os seus filhos ao batismo, para que sejam educados rumo aos plenos privilégios da nova aliança. Tal como o adotam os batistas, não admite nenhuma condição de membro antes que se faça uma profissão digna de crédito de fé viva, selada no sacramento. Essas opiniões são estreitas demais para o espírito do evangelho universal. É impossível limitar a Igreja, ou a admissão às suas ordenanças, aos regenerados aprovados como tais pelos homens. Todos os que professam fé nas doutrinas de Cristo, que estão buscando a salvação e cuja vida não contradiz a sua profissão nem põe em dúvida a sua sinceridade podem ser aceitos para o batismo, e os seus filhos com eles. A esses estão abertas todas as ordenanças da religião; são tratados segundo a sua fé, e o Senhor conhece os que lhe pertencem (2Tm 2.19). O princípio deles recusa às crianças, que não podem crer conscientemente nem professar a fé com entendimento, um lugar na congregação dos regenerados. Nós negamos que a Igreja visível se limite aos regenerados. As crianças pertencem à comunhão cristã como instituição destinada a fazer dos homens cristãos perfeitos: são adotadas na família de Deus e na casa da fé; devem ser criadas na disciplina e na admoestação do Senhor (Ef 6.4); são membros antes de ratificar finalmente os seus votos; e a benigna suposição do cristianismo é que as influências do Espírito sobre elas abençoarão a sua instrução, em meio às ordenanças evangélicas, até a sua plena participação em todos os privilégios do aprisco, tanto o visível quanto o invisível. Enquanto isso, o Senhor ainda diz: dos tais é o Reino de Deus (Mc 10.14).
III, 322Modo. 2. O modo do batismo poderia parecer assunto menos importante numa religião que não é ritualista. Mas a comunidade batista pensa de outra maneira. Ao tratar deste assunto, basta-nos mostrar que as três formas de batismo (por imersão, por afusão e por aspersão) são igualmente válidas segundo a instituição de Cristo; mas que o peso da evidência favorece a última, ou as duas últimas, que neste argumento podem ser consideradas uma só e a mesma coisa.
Aspersão ou afusão. (1.) A igual admissibilidade das duas formas, o derramamento ou a aspersão e a imersão, é provada por três considerações. Primeiro, as influências do Espírito, das quais o batismo é o sinal exterior e visível, são descritas em toda a Escritura numa linguagem que representa adequadamente as duas. Derramarei o meu Espírito (Jl 2.28); e então aspergirei água pura sobre vocês (Ez 36.25). Estas abrem a série; ela se encerra com o lavar regenerador (Tt 3.5). Segundo, a palavra batizar, no grego original, seja no seu uso clássico, seja no uso bíblico, admite os dois significados: Então Naamã desceu e mergulhou (ἐβαπτίσατο) no Jordão sete vezes (2Rs 5.14). Não comem sem se lavar, βαπτίσωνται (Mc 7.4). A pessoa contaminada era aspergida para se purificar da sua impureza (Nm 19.13), o que nos apócrifos se diz βαπτιζόμενος ἀπὸ νεκροῦ, batizado de um cadáver (Eclesiástico 34.25); e no Apocalipse βεβαμμένον αἵματι descreve o manto do Salvador manchado de sangue (Ap 19.13), segundo a palavra do profeta: o seu sangue respingou nas minhas roupas (Is 63.3). De fato, a palavra, em todas as suas formas, se refere ao contato com a água sem prescrever a maneira. Terceiro, a prática da Igreja cristã, desde o princípio, admitiu as duas formas, como vimos, e isso deve ter o seu peso.
Aspersão. (2.) Mas há muitas considerações que nos levam a ver a afusão ou a aspersão como a forma ordenada do rito. O propósito universal do evangelho sugere que seria instituída a ordenança mais simples e mais universalmente praticável. Além disso, as realidades mais importantes, das quais o batismo é apenas o sinal, são tais como a aspersão ou a afusão as indicam: o sangue da expiação era aspergido sobre o povo e sobre o propiciatório; e os dons do Espírito Santo são geralmente ilustrados pelo derramamento da água e pela unção. Mais ainda, os numerosíssimos batismos do Novo Testamento excluem a possibilidade da imersão, sobretudo quando se lembra que famílias inteiras foram batizadas, e às vezes indivíduos, em lugares onde não se pode supor que houvesse acesso a grandes quantidades de água. Quanto às passagens que descrevem este sacramento como sepultamento com Cristo e ressurreição com ele, devem ser interpretadas pela analogia daquelas que o descrevem como morrer com Cristo e revestir-se dele. Pode-se dizer, ainda, que há palavras que obviamente teriam sido empregadas em lugar de batismo, se a prática da imersão tivesse sido considerada essencial. Este último argumento tem grande força quando lembramos com que cuidado a instituição dos dois sacramentos foi resguardada na revelação do Novo Testamento. No que diz respeito à Ceia do Senhor, não há lugar para mal-entendido: todo desvio da simplicidade da ordenança condena a si mesmo. Ora, se fosse vontade do Salvador que todo convertido e toda criança, em todas as eras, fossem imersos na torrente batismal, ele nos teria dito isso numa linguagem impossível de entender mal. Mas a grande maioria do mundo cristão entendeu por batismo o derramamento ou a aspersão da água. Pode-se dizer que isso apenas mostra que a intenção de nosso Senhor foi permitir uma grande latitude na observância. Que seja: disso ninguém pode se queixar. Mas pode-se inferir que, se o rito mais trabalhoso e difícil não foi ordenado, o mais simples seria entendido em toda parte como mais em harmonia com a vontade dele.
III, 323A doutrina metodista. V. Pode-se dizer que a doutrina ensinada pelo metodismo ocupa o meio-termo entre dois extremos quanto à eficácia deste sacramento.
Não é mero sinal. 1. Os seus padrões doutrinários autorizados repudiam a ideia de que o batismo seja apenas um sinal ou distintivo da profissão cristã; e também a ideia que, indo um pouco além, se contenta em fazer dele somente um emblema ritual expressivo da lavagem do pecado. O ensino metodista sobre os sacramentos, selos e também sinais da aliança cristã, não admite que alguma das duas ordenanças seja desprovida da graça que a acompanha, para quem a recebe cumprindo as condições da aliança. Quanto ao batismo, a nota do sr. Wesley sobre quem não nascer da água e do Espírito (Jo 3.5) diz assim: “A menos que experimente aquela grande mudança interior operada pelo Espírito e seja batizado (onde quer que se possa ter o batismo), como sinal exterior e meio dessa mudança.”
III, 324Não é absolutamente essencial. 2. Esses padrões não ensinam que o batismo seja o único meio ordinário designado para comunicar a virtude da expiação na remissão dos pecados e na concessão da vida nova. Rejeitam o dogma da regeneração batismal, por tender, de modo antievangélico, a atar um ao outro o sinal e a coisa significada. Esse termo, comum a toda teologia altamente sacramentalista (romanista, oriental, luterana e anglicana), exprime o princípio de que, na economia da graça, o batismo é o único canal ordenado do Espírito renovador. Ele é, certamente, o selo divino e autorizado; mas não o único canal, nem o canal necessário. A comunicação da vida regenerada pode ser distinta do selo: pode acompanhá-lo, pode tê-lo precedido e pode, como no caso das crianças, segui-lo. Mas, como quer que seja considerado, a sua importância é grande, como parte integrante da nova aliança em Cristo.
A sua virtude na infância. 3. O sr. Wesley foi educado para crer numa possível regeneração das crianças. No seu sermão O novo nascimento, ele diz: “É certo que a nossa Igreja supõe que todos os que são batizados na infância nascem de novo ao mesmo tempo” (Wesley, Obras VI, 74). “Nem é objeção de algum peso contra isso o fato de não podermos compreender como essa obra pode ser operada em crianças. Pois também não podemos compreender como ela é operada numa pessoa de idade mais madura.” Quanto a si mesmo, nunca definiu isso com clareza: “Mas, seja qual for o caso das crianças, é certo que nem todos os de idade mais madura que são batizados nascem de novo ao mesmo tempo.” As suas opiniões sobre a graça preliminar significada pelo novo nascimento das crianças foram expressas mais plenamente por expositores posteriores da doutrina metodista. O resumo do sr. Watson pode ser aceito como expressão do que eles querem dizer: “Para a criança pequena, é uma recepção visível na mesma aliança e igreja, um penhor de aceitação por meio de Cristo, a concessão de um título a toda a graça da aliança, conforme as circunstâncias o exijam e conforme a mente da criança seja capaz, ou se torne capaz, de recebê-la” (Watson, Institutas teológicas, em Obras XII, 266). “Assegura também o dom do Espírito Santo naquelas secretas influências espirituais pelas quais se efetua a regeneração propriamente dita das crianças que morrem na infância, e que são uma semente de vida naquelas que são poupadas.”
Eucaristia. A Ceia do Senhor é um rito ordenado por nosso Senhor para observância perpétua na sua Igreja, como banquete sacramental em que o pão e o vinho são sinais do seu sagrado corpo e sangue, oferecidos numa só oblação na cruz, e selos da comunicação presente e constante, ao crente, de todos os benefícios da sua paixão. Nesta ceia, a Igreja celebra diante do mundo, com alegria e gratidão, o sacrifício apresentado uma vez no passado, até que ele venha segunda vez, não para tirar pecados, mas para a salvação. Além disso, o povo do Senhor participa dos elementos como símbolo de uma vida e de um sustento cristãos comuns, como penhor mútuo de união e de comunhão fraterna, com todas as suas alegrias e obrigações. Assim, esta ordenança é o Sacramento, por significar e selar a nutrição mística de Cristo; a Eucaristia, por comemorar o sacrifício da redenção; e a Comunhão, por ser o distintivo da profissão cristã unida. Embora a maioria dos cristãos concorde quanto a este último ponto, houve muitas e grandes divisões, tanto no que diz respeito às bênçãos comunicadas no sacramento quanto à natureza da comemoração eucarística. Será útil, como no caso do outro sacramento, examinar o testemunho da Escritura e depois considerar as controvérsias dogmáticas.
Escritura. As declarações do Novo Testamento são poucas, mas extremamente claras. Descrevem a instituição de um novo rito em lugar da Páscoa e o ligam especialmente à ratificação da nova aliança. São Paulo acrescenta o relato que recebeu por revelação especial e, nele, alguns pontos adicionais de doutrina. Além desses quatro relatos da instituição, há diversas alusões incidentais que ajudam a completar a nossa visão das circunstâncias do próprio rito. Devemos lançar um olhar à doutrina e ao ritual do segundo sacramento, que foi instituído em ligação com a Páscoa, e para substituí-la para sempre.
III, 326Páscoa e comemoração. 1. Ora, o rito antigo era uma comemoração anual da redenção prefigurativa do povo hebreu; e a Ceia do Senhor é o ato solene de comemoração, pela Igreja, da morte redentora do Salvador do mundo. O relato de são Paulo, a última e mais completa declaração autêntica da instituição, dá grande destaque a isso. Ele acrescenta em memória de mim tanto à entrega do pão quanto à entrega do cálice; e, com referência a ambos, junta: vocês anunciam a morte do Senhor, até que ele venha (1Co 11.23-26). Nosso Salvador abençoou (Mt 26.26) os elementos e deu graças (Lc 22.19), oferecendo o louvor da sua própria expiação, louvor que o seu povo continua a oferecer para sempre. Por isso o rito é a grande expressão da gratidão da Igreja pelo dom de Cristo, e especialmente pela sua morte expiatória. É a festa de ação de graças dentro da assembleia cristã, e é a festa de testemunho diante do mundo, anunciando [publicamente] a sua morte (1Co 11.26). E a primeira palavra empregada, εὐχαριστήσας [tendo dado graças], dá nome à ordenança: Eucaristia. é uma comemoração que dá graças e se gloria, ou a EUCARISTIA.
Páscoa e ratificação sacramental. 2. A Páscoa antiga era também a ratificação anual da aliança entre Deus e o seu povo. Como tal, era em si mesma um sacrifício tanto de expiação quanto de ação de graças, e resumia ou representava todos os outros sacrifícios da aliança. Quando nosso Senhor pôs a sua Ceia no lugar dela, usou uma linguagem que incluía todos e se referia especialmente à solene transação da aliança em que Moisés dividiu o sangue da expiação em duas partes: aspergiu sobre o altar a metade do sangue (Êx 24.6-8), para denotar a propiciação de Deus; com o restante aspergiu todo o povo (Hb 9.19), para lhe significar o favor divino, e também o livro da aliança, para significar a ratificação da aliança da qual aquele livro era o registro: Este é o sangue da aliança que Deus ordenou para vocês (Hb 9.20). Nosso Senhor liga estas palavras de Moisés à nova Páscoa da sua nova aliança: Bebam todos dele; porque isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados (Mt 26.27-28). Evidentemente, as bênçãos da aliança superior, simbolizadas pelo pão e pelo vinho, a libertação da culpa e a vida em Cristo, são prometidas em penhor e seladas a todos os que recebem esses sinais com fé. Aquele que verdadeiramente discerne o corpo [sacrificial] do Senhor nos emblemas, examina a si mesmo quanto à sua submissão aos termos da aliança e, então, come e bebe, não indignamente (1Co 11.27-29), tem a sua fé confirmada por este penhor sagrado: pode pôr o seu próprio selo, atestando que todas as bênçãos da redenção são suas sempre, e suas enquanto assim recebe o selo da aliança. O Espírito Santo usa a ordenança sacramental para a certeza da fé: daí o sentido Sacramento. do termo SACRAMENTO aplicado a esta solenidade.
III, 327A Páscoa e a vida em comunidade. 3. Mas a antiga Páscoa era o rito que mantinha em lembrança, ano após ano, o nascimento do povo como tal e a sua vida comunitária no vínculo da aliança. Quando nosso Senhor instituiu a sua Ceia, distribuiu-a a cada um e deu ênfase ao TODOS. Assim, são Paulo faz dela o vínculo exterior da unidade: Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão (1Co 10.17). E isso vem depois da declaração de que o cálice é a comunhão do sangue de Cristo, e o pão, a comunhão do corpo de Cristo (1Co 10.16). A Ceia é o sacramento da união com Jesus, a Videira verdadeira, e da união uns com os outros nele; daí poderia parecer que os elementos representam não só o corpo sacrificado de Cristo, mas também o próprio corpo espiritual salvo por esse sacrifício e feito parte dele mesmo. O verdadeiro vínculo da união, porém, não é o pão e o vinho; é a participação comum na vida em Cristo pelo Espírito. Mas o comer e o beber sacramentais em conjunto são o sinal exterior e visível dessa união. A Ceia é, portanto, o distintivo perfeito do discipulado comum: o penhor mútuo de todos os deveres do amor fraternal. Está protegida pelas mais solenes sanções. Todos os que professam fé na expiação de Cristo, que desejam a sua salvação e estão dispostos a guardar as suas leis são convidados a vir e proibidos de ficar ausentes. Mas Deus é o Juiz. Ele foi provocado a ciúmes por aqueles que participavam tanto da mesa do Senhor como da mesa dos demônios (1Co 10.21-22). Feriu com juízo os que comiam e bebiam indignamente (1Co 11.27-29). A Igreja também deve vigiar a ordenança da sua santa comunhão, e cada um deve julgar a si mesmo. Depois de usada toda a vigilância, a Ceia do Senhor neste mundo nunca estará sem o seu Judas: é a festa prefigurativa e imperfeita de uma comunhão que um dia será perfeita. Enquanto isso, como sacramento da unidade em Cristo e com Cristo, é chamada por nós, com Comunhão. sanção apostólica, a COMUNHÃO.
III, 328O ritual no Novo Testamento. 4. As notícias espalhadas pelo Novo Testamento dão-nos indicações claras do ritual desta ordenança. Os elementos, ou partes constitutivas, são pão e vinho: pão comum e vinho puro. Esses elementos eram consagrados; o pão era solenemente partido, e o cálice, abençoado (1Co 10.15-17). A ordenança chamava-se o partir do pão (At 2.42), como se se preservasse simbolicamente a distribuição a cada um a partir de um só pão comum. A consagração era a separação para o uso mais sagrado possível; a ação de graças explícita pela redenção comemorada pelo pão e pelo vinho; e a invocação da graça significada. Cada elemento era recebido separadamente e pelo ato de cada participante. A comunhão era frequente: a princípio diária (At 2.46), certamente a cada dia do Senhor. É óbvio que não há preceito sobre esse assunto, embora haja dois extremos que a linguagem do Novo Testamento exclui. A celebração anual, ou muito ocasional, não condiz com as palavras todas as vezes que comerem este pão (1Co 11.26), interpretadas como são pelos sinais de comunhão frequente na primeira parte de Atos. Por outro lado, são Paulo diz quando se reúnem no mesmo lugar (1Co 11.20), ou seja, em congregação, o que implica uma assembleia formal que não podia repetir-se todos os dias. O cerimonial era simples: não se destinava simplesmente a comer e beber, mas era sacramental e simbólico. Às vezes, é verdade, estava ligado a uma refeição anterior, cujos abusos são apontados na Epístola aos Ágapes. Coríntios (1Co 11.20-34). Era celebrado pelo ministro como representante de Cristo: o pão que partimos, o cálice que abençoamos. Mas não havia nada de sacerdotal no ato ministerial, nem a Ceia do Senhor, o Κυριακὸν δεῖπνον (1Co 11.20), era em sentido algum o único ato central do culto: perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações (At 2.42). Por fim, era observada como ordenança perpetuamente obrigatória: a comunidade de Corinto não era exceção a uma regra geral.
História. A história da doutrina sobre este assunto pode ser vista, em linhas gerais, sob quatro tópicos: primeiro, o período patrístico, em que se veem germes de erro crescendo no ensino e no ritual; segundo, as controvérsias que resultaram na doutrina tridentina de Roma; terceiro, os diferentes formulários da Reforma; e, por fim, o aspecto atual da questão em toda a cristandade em geral e especialmente na teologia inglesa.
III, 329Período patrístico. I. Na era patrística, até a primeira grande controvérsia sobre o assunto, no século IX, notamos em todas as escolas de doutrina os sinais do desenvolvimento que estava por vir. Esse desenvolvimento tomou duas formas, que depois se uniram: uma referente à presença sacramental na Comunhão, outra à oferta sacrificial na Eucaristia.
Sacramento. 1. Quanto à primeira, sempre houve muita diferença de expressão. Os Pais mais antigos, embora usassem linguagem muito ambígua, nunca foram além da presença figurada. Assim, até Cipriano se refere ao Calix, quo sanguis Christi ostenditur [o cálice pelo qual se mostra o sangue de Cristo]. Falam da Eucaristia como sendo o corpo de Cristo e o alimento celestial, mas só do modo como dizem o mesmo do evangelho e da fé. Até Crisóstomo não há nenhum indício da conversão da substância, embora Inácio e Justino usem o termo μεταβολή [mudança]. Mas tanto Ambrósio como Crisóstomo dão a nota da futura transubstanciação, embora em geral usem a linguagem de uma fé mais pura: Crisóstomo declara que o sacerdote segurava na mão o que havia de mais adorável no céu; e Ambrósio diz: Hoc quod conficimus corpus ex virgine est [este corpo que consagramos é o que nasceu da Virgem].
Sacrifício. 2. A ideia sacrificial foi acrescentada à Eucaristia no século III, embora tenha entrado furtivamente. A princípio era uma oblação de gratidão pelos dons de Deus na vida, coroados na redenção: o próprio povo trazia o pão e o vinho; parte era consagrada para a Eucaristia propriamente dita, e o restante ficava para o ágape e para o uso do ministério. Essa semelhança com as antigas oblações logo foi mais longe. Até Tertuliano fala de sacrifícios pelos mortos; e Cipriano, do sacerdote como quem oferece em lugar de Cristo: Sacerdos vice Christi vere fungitur [o sacerdote verdadeiramente faz as vezes de Cristo]. Depois, os Pais gregos referem-se ao sacrifício incruento e até ao sacrifício de propiciação. Cipriano e Agostinho contentam-se com a Sacrificii peracti memoria [memória do sacrifício realizado]; mas Crisóstomo e outros comprazem-se em representar a Eucaristia como repetição da grande oblação, embora em termos que apenas sugerem o erro do futuro, sugerindo-o, porém, da maneira mais clara.
III, 330Idade Média. II. Durante a Idade Média, este sacramento teve fixada sobre si a atenção concentrada dos escolásticos. Houve duas crises de controvérsia, e depois a construção dogmática dos materiais medievais avançou firmemente em direção a Trento.
Radberto. 1. Em meados do século IX, Pascásio Radberto escreveu um tratado em que pela primeira vez se exprimiu a ideia da Transubstanciação: “que a substância terrena do pão e do vinho, sacrificada pela virtude e pela consagração do Espírito, é convertida no mesmíssimo corpo e sangue que a bem-aventurada Virgem, pela virtude do mesmo Espírito, concebeu e deu à luz: só permanecem a aparência corpórea e o sabor, para o exercício da fé.” Ratramno opôs-se a ele, afirmando apenas a mudança simbólica e negando a mudança efetiva e o uso efetivo dos elementos.
Berengário. 2. Exatamente duzentos anos depois (1030), Berengário escreveu um tratado afirmando a participação espiritual no Cristo inteiro e a contradição lógica da outra teoria. O seu protesto foi vão, e Gregório VII obrigou-o a retratar-se.
Transubstanciação. 3. A teoria da TRANSUBSTANCIAÇÃO, tal como elaborada por Tomás de Aquino e Hildeberto, recebeu sanção eclesiástica do quarto Concílio de Latrão, sob Inocêncio III, em 1215. Mas o dogma assumiu várias formas. Tomás de Aquino supunha que o poder divino conservava os acidentes sem nenhuma substância por trás deles: assim, a substância não era tanto mudada quanto aniquilada, ou havia uma simples substituição em vez de mudança; outros adotaram a noção do que se chama IMPANAÇÃO: a unidade do divino e do Concomitância e o cálice somente. humano, segundo a analogia da encarnação. As consequências seguiram-se rapidamente: o dogma da CONCOMITÂNCIA, tal como estabelecido por Tomás de Aquino, foi tomado como fundamento para retirar o cálice dos leigos, uma vez que o sangue está no corpo e o pão é suficiente; sacrilégio contra o qual se havia protestado desde Leão Magno em diante. A festa da Adoração da Hóstia, Hostia, ou sacrifício, foi instituída em 1264. A Missa (provavelmente do “Ite missa est” [ide, a assembleia está despedida] da liturgia ocidental) foi decretada como a repetição incruenta do único sacrifício em benefício dos vivos e dos mortos, ao mesmo tempo que a Transubstanciação, em 1215.
Trento. 4. O Concílio de Trento fixou o dogma romano: afirma ousadamente que a substância desaparece e só permanecem os acidentes, nos emblemas; ensina que a apresentação dos elementos a Deus é uma oferta propiciatória e inclui o corpo, a alma e a divindade do Redentor, embora a transubstanciação em si seja apenas do pão e do vinho no corpo e no sangue. Além disso, foram sancionadas missas pelos vivos e pelos mortos, e por indivíduos em particular, cujo efeito é remover as consequências temporais do pecado; e foram permitidas as missas privadas dos sacerdotes. A ligação entre a Transubstanciação e o Sacrifício da Missa governa todos os atos sacramentais: a Elevação, a Adoração, a Reserva, a Circungestação ou procissão, que apresenta a Presença Adorável à adoração de todos os que a contemplam.
III, 331Igreja grega. 5. A Igreja grega diferia em alguns pontos: conservando a Transubstanciação, impunha o pão ázimo, dava o cálice aos leigos e sempre ministrava a comunhão às crianças, peculiaridade esta que a Igreja ocidental havia abandonado gradualmente.
Protestantismo. III. O protestantismo foi principalmente uma revolta contra esse ensino: primeiro contra os seus abusos e depois contra os seus princípios fundamentais. Devemos lançar um olhar sobre as formas que ele assumiu depois da Reforma.
Luteranismo. 1. O protestantismo luterano aboliu (isto é, na sua forma e no seu padrão finais, pois a abolição foi muito gradual) o Sacrifício da Missa, com tudo o que o acompanhava. Conservou a Presença Sacramental do corpo e do sangue de Cristo, mas não na forma da Transubstanciação: a união sacramental era a base, e Sub, In, Cum. era expressa por sub, in e cum pane: sob os elementos, nos elementos e com os elementos. Daí o termo Consubstanciação, que exigia a doutrina da Ubiquidade, ou presença em toda parte do corpo glorificado de Cristo, de maneira divina e celestial. A recepção dos elementos é, para todos os que deles participam, a recepção da corporeidade de Cristo, mas em proveito somente dos crentes, como sinal e selo da remissão dos pecados; para o incrédulo, é para condenação. A comunicação da humanidade glorificada de Cristo é, portanto, em benefício de toda a natureza do homem: para o alimento da sua alma e para a sustentação do germe da ressurreição no corpo. Essa visão da doutrina luterana é muito desenvolvida na sua teologia posterior. A base de todo o sistema é o pressuposto de que as palavras da instituição devem ser tomadas literalmente, não figuradamente: Isto É o meu corpo; isto É o meu sangue (Mt 26.26, 28). E os formulários luteranos elevam o sacramento ao ponto mais alto como meio de graça: para a comunicação do perdão dos pecados, o fortalecimento da fé, a união com Cristo e uns com os outros, e todos os demais benefícios da Paixão. Mas a verdadeira distinção dessa doutrina é o seu elemento de Consubstanciação: a própria presença do corpo e do sangue glorificados do Senhor nos elementos, com eles e sob eles, os quais, no entanto, continuam sendo apenas elementos, recebidos pelos comungantes.
III, 332Reformados. 2. O protestantismo reformado afastou-se muito da doutrina de Lutero. Abandonou por completo a manducatio oralis [o comer pela boca] luterana e pôs em seu lugar a manducatio realis sed spiritualis [o comer real, mas espiritual]; abandonou, portanto, a presença hiperfísica ou física. Sustentou que Isto É o meu corpo (Mt 26.26) queria dizer Isto SIGNIFICA o meu corpo, e que o sacramento era o sinal e o penhor de uma união espiritual com o Cabeça da Igreja. Mas havia certas diferenças bem marcadas entre as próprias comunhões reformadas.
Zuínglio. (1.) Zuínglio representava a visão que tendia para o propósito meramente comemorativo; mas a sua doutrina ia além disso: Cristo, para a contemplação da fé, está presente não só subjetiva, mas objetivamente; e aquele comer espiritual do seu corpo celestial, que é a apropriação da sua graça expiatória, é um comer sacramental, ou um receber os sinais e selos de um Salvador presente. Rejeitava o “IN pane et vino” [no pão e no vinho], mas queria conservar o “CUM pane et vino” [com o pão e o vinho] e, com ele, uma bênção sacramental específica.
Calvino. (2.) Calvino aproximou-se muito mais do luteranismo. O que os elementos simbolizavam era para ele a Pessoa do Redentor, assim como a sua obra expiatória; e o seu corpo, como parte da sua pessoa. Isso é recebido espiritualmente, mas nem por isso menos realmente: o comungante é elevado pela fé ao céu, e a sua alma é tão seguramente revigorada pelo corpo espiritual de Cristo quanto o seu corpo o é pelos emblemas. Com essas ideias concordam em substância, talvez, a Confissão presbiteriana e, certamente, a anglicana.
Arminianos. (3.) Os arminianos remonstrantes inclinavam-se mais para Zuínglio do que para Calvino; e talvez tenham dado mais ênfase do que qualquer dos dois ao propósito comemorativo da ordenança. Mas que não devem ser classificados com os socinianos e os seus descendentes, que fazem do sacramento apenas um memorial da morte de Cristo, seja qual for o valor dessa morte, ficará claro por estas palavras da Confissão Remonstrante: “A santa ceia é o segundo rito sagrado do Novo Testamento, instituído na noite em que ele foi traído, para celebrar a comemoração eucarística e solene da sua morte; nela os crentes, depois de se terem examinado devidamente e provado a sua verdadeira fé, comem o santo pão publicamente partido na congregação e, ao mesmo tempo, bebem o santo vinho publicamente derramado, para anunciar com solenes ações de graças a morte sangrenta de Cristo sofrida por nós (pela qual, assim como os nossos corpos são sustentados com comida e bebida, ou com pão e vinho, assim as nossas almas são nutridas para a esperança da vida eterna), e para testemunhar publicamente diante de Deus e da sua Igreja a sua própria comunhão vivificante e espiritual com o corpo crucificado e o sangue derramado de Cristo (ou com o próprio Jesus Cristo, crucificado e morto por nós), e com todos os benefícios obtidos pelo sacrifício do Redentor, bem como a sua caridade mútua de uns para com os outros.” É verdade que se omite o selo da aliança; mas devemos lembrar o que já foi aduzido acerca da doutrina arminiana dos sacramentos em geral.
III, 333Tendências modernas. IV. Resta que nos refiramos a certas tendências modernas.
1. O protestantismo renunciou inteiramente à perversão da Eucaristia em sacrifício propiciatório ou missa, assim como à perversão do mistério da presença espiritual em sacramento da comunicação do Cristo inteiro por meio de elementos materiais que são apenas os acidentes, ou pão e vinho sem a substância. O dogma tridentino é uma violação fundamental do caráter simbólico e de aliança da ordenança, e é refutado, nos seus dois elementos principais, por tudo o que se mostrou ser a doutrina do Novo Testamento.
Presença real. 2. Mas a doutrina da PRESENÇA REAL (não a realidade da sua presença, aceita por todos, mas a sua PRESENTIA REALIS) é sustentada pela Igreja luterana, a qual, por mais que proteja a doutrina limitando a presença corporal de nosso Senhor aos elementos somente no seu uso e negando qualquer circunscrição local dessa presença, ainda erra contra a verdade da Escritura: que o Corpo sagrado está no céu e que o Cristo inteiro, e não somente a sua carne glorificada, é comunicado espiritualmente mediante uma união sacramental com ele pelo Espírito Santo.
Igreja anglicana. 3. A Igreja anglicana não conserva nos seus formulários nada que favoreça o erro romanista; mas neles se combinam muitos dos elementos da doutrina luterana, calvinista e zuingliana. O Artigo Vinte e Oito, porém, deveria ser decisivo: “o corpo de Cristo é dado, tomado e comido na Ceia somente de maneira celestial e espiritual; e o meio pelo qual o corpo de Cristo é recebido e comido na Ceia é a fé.” A teoria moderna da abrangência na Igreja da Inglaterra A presença real objetiva. permite que se sustentem todos os tipos de doutrina; mas por nenhuma interpretação justa se pode atribuir o artigo da Presença Real a essa Igreja, tal como representada pelos seus formulários autorizados. O ensino presbiteriano da Confissão de Westminster é substancialmente o mesmo e conforme à Escritura. Mas a noção de que o sacramento é apenas um rito comemorativo e representativo é sustentada por muitas das comunidades religiosas da Inglaterra.
III, 334Resumo. 4. A verdadeira doutrina, em geral, é a que tem em vista o propósito da ordenança: ser um sinal, para a Igreja que crê, de todas as bênçãos compradas pela oblação do único sacrifício pelos pecados, e um selo, para o crente, da sua participação constante e presente nessas bênçãos. Quaisquer que sejam os outros fins a que sirva (como memorial perpétuo da vida e da morte de Cristo, como distintivo de união entre os cristãos e como culto sagrado em que se avivam todos os santos afetos e propósitos), ela é também a exibição permanente aos olhos, em emblemas sensíveis, do sangue da expiação e do pão da vida, e também um penhor, para os que aceitam a propiciação tal como é oferecida à fé penitente e crente, da sua herança presente, constante e eterna de vida em Jesus. Cada um dos termos SINAL e SELO deve conservar o seu sentido pleno, ao mesmo tempo que os dois se tornam um só para os olhos, para a mão e para a experiência da fé viva. Aquilo que o sinal representa e o selo garante é um benefício que procede de Cristo e que não deve ser separado do próprio Cristo. Não é o Espírito Santo, a não ser enquanto ele é o Espírito de Jesus.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 311-334, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.