História da Igreja Metodista Livre · Volume I

Introdução e Prefácio

INTRODUÇÃO

“A Igreja Metodista Livre teve sua origem na necessidade, e não na escolha.” Ela não existe por causa do esforço de homens ambiciosos que buscavam notoriedade fundando uma nova seita, mas por causa do trabalho abnegado de homens que obedeceram à própria consciência e deixaram os resultados com Deus. O que se costuma chamar de “suas bandeiras” é acidental, e não fundamental.

Os homens que a providência levantou como fundadores deste movimento estavam firmemente plantados sobre a plataforma da santidade bíblica e só tinham zelo pela pureza moral. Mas a justiça pela qual lutavam era, no seu caráter, a mesma que se atribui ao Filho de Deus: “Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria como a nenhum dos teus companheiros” (Hb 1.9). A santidade que exigiam não era daquele tipo sentimental que, batizado com o nome de cristianismo, protesta em alta voz o seu amor à justiça, mas não ousa dar um único golpe eficaz contra a iniquidade. Esses reformadores corajosos, na sua oposição intransigente à iniquidade, logo chegaram a questões que envolviam problemas morais, e não demoraram a tomar posição nem foram ambíguos na defesa dela.

No início da segunda metade do século XIX, o Rev. B. T. Roberts, o Rev. Loren Stiles e outros membros da Conferência de Genesee, da Igreja Metodista Episcopal, viram, conforme criam, sinais de um afastamento crescente do cristianismo bíblico e do metodismo original. Por uma intuição espiritual vivificada pelo céu, esses homens perceberam e viram a inundação de mundanismo que se aproximava e, com a ajuda de Deus, puderam levantar uma bandeira contra ela.

Com pesquisa cuidadosa e minuciosa, o autor conseguiu dar, nas páginas que seguem, um relato verdadeiro e imparcial do trabalho abnegado dos homens que, sob a direção de Deus, foram instrumentos para dar origem ao movimento que resultou na formação da Igreja Metodista Livre. Com a mesma imparcialidade, acompanhou o desenvolvimento e o crescimento da igreja assim organizada ao longo dos mais de cinquenta anos da sua existência.

A Igreja Metodista Livre tem a felicidade de ter como seu historiador um homem tão eminentemente preparado para essa obra como o bispo Hogue. Ele conheceu pessoalmente muitos dos fundadores e passou boa parte da vida viajando por todo o território da igreja. Por isso escreve com conhecimento pessoal do assunto. Também está preparado para a tarefa pelo seu juízo equilibrado e pelo seu domínio da língua inglesa. Nove anos na cadeira de redator do Free Methodist cultivaram a sua facilidade natural para um inglês elegante, de modo que ele empreende esta obra com um estilo ao mesmo tempo encantador e vigoroso.

Alguém disse que uma reforma raramente sobrevive aos reformadores. Alegramo-nos em notar que, embora todos os que tiveram papel de maior destaque no começo deste movimento já tenham partido, outros corações e outras mãos se ocupam ativamente em manter a mesma bandeira de um cristianismo não mundano e combativo. Há uma necessidade urgente disso. Pois, enquanto muitos, num espírito de vanglória laodicense, dizem: “Sou rico, estou bem de vida e não preciso de nada” (Ap 3.17), há os que, com a visão ungida, lamentam o afastamento não só da sã doutrina, mas também do cristianismo prático. Muitos ainda têm forma de piedade, mas negam o poder dela (2Tm 3.5).

Se, na leitura desta obra, a acusação a algumas das personagens parecer severa, o leitor deve lembrar que isso não deve ser posto na conta do autor, mas na dos fatos.

Edward P. Hart.
Alameda, Califórnia.

[N. do T.: Edward P. Hart foi um dos primeiros pregadores da Igreja Metodista Livre e, mais tarde, um dos seus Superintendentes Gerais (a obra o chama de “bispo”). A frase de abertura é a primeira frase da “Origem da Igreja Metodista Livre”, na Disciplina de 1860, já traduzida neste site.]


PREFÁCIO

A procura por uma obra como esta é a principal justificativa do autor por tê-la escrito. A Igreja Metodista Livre existe há cerca de cinquenta e cinco anos, e até agora não se empreendeu nada parecido com uma história completa da organização. A History of the Origin of the Free Methodist Church (História da origem da Igreja Metodista Livre), de Bowen, como o título indica, trata exclusivamente da origem do movimento. Why Another Sect? (Por que outra seita?), de Roberts, embora contenha muita informação histórica valiosa, foi escrito principalmente como defesa da existência da denominação e também trata quase só de assuntos ligados à sua origem. A Outline History of the Free Methodist Church (Esboço da história da Igreja Metodista Livre), de MacGeary, pretendia ser apenas um esboço e foi preparada especialmente para o “Curso de Formação de Professores da Escola Dominical”.

[N. do T.: a obra de B. T. Roberts está traduzida neste site com o título Por Que Outra Denominação?.]

A obra do Dr. Bowen e a do Superintendente Geral B. T. Roberts estão esgotadas, e há bastante tempo; e o “Esboço” de MacGeary é tão breve que, por necessidade, omite a maior parte da história ligada à origem da igreja e não comporta nenhuma discussão mais extensa das controvérsias na Conferência de Genesee, da Igreja Metodista Episcopal, que precederam a organização da nova denominação e finalmente levaram a ela. Além disso, a primeira geração de metodistas livres já partiu quase toda, e uma nova geração tomou o seu lugar. Por isso é ainda maior a necessidade de uma história do movimento que dê à nova geração, e às que a sucederem, uma ideia ampla e inteligente daquilo pelo que os pais do metodismo livre lutavam no conflito em meio ao qual o movimento nasceu: uma ideia clara e inteligente daquilo que a Igreja Metodista Livre defende, e deve defender até o fim dos tempos.

Além disso, muitas coisas importantes da história mais antiga da igreja provavelmente seriam esquecidas (coisas, aliás, que é muito desejável preservar de forma adequada, para consulta rápida) se não fossem reunidas para preservação numa forma como esta. Como exemplo de como esses assuntos podem se perder para a igreja, o autor quis conseguir um exemplar de certo folheto histórico publicado há cerca de cinquenta anos e anunciou em toda a igreja à procura de um exemplar, sem receber uma única resposta. Felizmente, encontrou um exemplar encadernado com uma antiga coleção de revistas, que havia sido entregue à biblioteca da Editora Metodista Livre. Talvez não exista outro exemplar, e o velho volume que o contém não terá vida longa. Resgatar coisas assim do esquecimento não é pouca coisa.

No desenvolvimento da sua tarefa, o autor em geral obteve as informações nas fontes originais. Quando outros autores foram citados, em geral se deu o devido crédito no corpo da obra. Fez-se uso mais livre da Origem da Igreja Metodista Livre, de Bowen, e de Why Another Sect?, de Roberts, do que de outras obras, já que elas concordam no essencial a respeito das controvérsias antigas que resultaram na origem do metodismo livre, e, nos anos que se passaram desde a sua publicação, nunca foram contestadas. O silêncio, até o dia da sua morte, dos autores cujas afirmações sobre a Igreja Metodista Livre são contestadas em Why Another Sect? certamente parece ter sido um reconhecimento tácito de que a contestação era irrespondível.

Pelo menos uma dúzia de pessoas competentes leram esta obra em provas, algumas das quais estiveram no meio do conflito de mais de cinquenta anos atrás, e todas conhecem toda a história posterior do metodismo livre; e todas elas atestam a exatidão geral do que aqui está escrito. O autor também recebeu dessas pessoas muitas sugestões valiosas, que ajudaram muito a produzir o que ele espera que seja uma história agradável de ler e digna de confiança.

Registra-se o agradecimento pelo valioso serviço prestado pelo Rev. J. T. Logan, redator do Free Methodist, na preparação do índice do conteúdo destes volumes.

A editora, e também os leitores, devem ser felicitados pela excelência da parte material da obra, especialmente das ilustrações que a acompanham. O objetivo foi apresentar, na medida do possível, fotogravuras dos principais atores do movimento cuja história aqui se conta, e também de algumas das principais instituições da igreja. Foi necessário, porém, limitar os retratos de pessoas vivas quase inteiramente aos dos oficiais da Conferência Geral e das oficiais da Sociedade Missionária Estrangeira das Mulheres, e em alguns casos até estes tiveram de ser omitidos.

A preparação desta obra foi uma tarefa longa, mas nada tediosa. Foi realizada com consciência, mas com plena noção de que fazê-la com consciência não é garantia de perfeição. Espera-se, porém, que não se encontrem imperfeições de tal natureza que diminuam o valor da obra como história, e que não tenham escapado erros, a não ser os de pouca importância, que possam ser corrigidos numa edição futura.

Wilson T. Hogue.
Chicago, Illinois.

Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.