História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo XIV

A religião do partido dominante: o testemunho dos seus próprios representantes

Que a religião dominante se afastara dos padrões originais do metodismo tanto quanto descrevia o texto do Sr. Roberts sobre o “Metodismo da Nova Escola”, isso é plenamente confirmado por representantes do próprio partido dominante, cuja franqueza e coragem moral os levaram a expressar de tempos em tempos as suas convicções, como mostram com toda a clareza certos trechos da imprensa que logo serão transcritos. Uma comparação cuidadosa dessas reproduções com o artigo do Sr. Roberts levará, na opinião do autor, ao veredito geral de que elas constituem uma acusação mais forte contra a religião do partido dominante na Conferência de Genesee, na época da agitação em questão, do que aquela pela qual o autor do “Metodismo da Nova Escola” foi levado a julgamento e expulso pela sua Conferência.

O texto a seguir saiu como editorial no Buffalo Advocate, órgão do partido da “Regência”, e foi reproduzido no Christian Advocate and Journal, hoje conhecido como New York Christian Advocate:

INTERESSE RELIGIOSO EM BUFFALO

Não temos nenhum; não temos mais do que o habitual ao longo do ano. Com isso não queremos dar a ideia de que haja entre nós algum movimento especial, ou algum esforço marcante para converter almas, ou para manter convertidos os que já estão na igreja. O grande movimento entre nós é, a nosso ver, determinar até que ponto a igreja pode voltar ao mundo e ainda conservar a aparência de piedade, devoção e verdade. Por isso, muitos e muitos membros da igreja se tornaram a parte mais frívola, mais amante dos prazeres e mais dada às tolices da população da nossa cidade. Amam, promovem e sustentam as diversões mundanas mais populares, como bailes, jogos de cartas, festas com bebida, bailes de máscaras e “festas-surpresa”, e não têm nenhuma disposição de sair do mundo e separar-se dele. Tudo isso pode ser visto, lido e conhecido, em maior ou menor grau, nas igrejas de Buffalo.

A cidade de Buffalo era o quartel-general do partido da “Regência”, e o estado da religião ali era, com toda a probabilidade, uma amostra fiel da religião do partido dominante em geral. E submetemos ao leitor sincero esta pergunta: há no artigo do Sr. Roberts algo comparável a esse editorial, no que se refere a depreciar o estado da religião na Conferência de Genesee? Para quem examina com calma a situação, a esta distância dos acontecimentos, parece no mínimo uma grave incoerência perseguir os chamados “nazaritas”, até o ponto de excomungá-los da igreja, por afirmações sobre o declínio do metodismo tão moderadas como as do “Metodismo da Nova Escola”, e depois publicar nos periódicos oficiais da igreja uma acusação contra a igreja pelo seu estado de desvio como a que se encontra no editorial acima.

Depois que esse editorial saiu nos periódicos referidos, o Rev. William Hart publicou no Northern Independent um artigo em que o comentava assim:

A questão agora é: essas acusações são verdadeiras ou falsas? Se são falsas, o Advocate sabe quanto custa caluniar a igreja nos dias de hoje? Ele viu um par de homens decapitados por uma ofensa que se reduz à mais completa insignificância, comparada com essas acusações em massa. Vejamos quais são.

1º. “Nenhum esforço para converter almas.”

2º. “Nenhum esforço para manter as almas convertidas.”

3º. “O grande movimento”, “o esforço marcante é alcançar uma posição em que se possa ficar bem equilibrado entre Deus e o diabo.”

4º. “Os membros da igreja são frívolos, amantes das tolices e dados aos prazeres, ainda mais do que os que andam abertamente no caminho do inferno.”

5º. “Amam, promovem e sustentam bailes, jogos de cartas, festas com bebida etc., e não têm nenhuma disposição de fazer de outro modo.”

Essas são as acusações; agora, o testemunho. Chama-se o irmão Robie [redator do Advocate]: são verdadeiras as acusações acima a respeito das igrejas de Buffalo? Resposta: “Tudo isso pode ser visto, lido e conhecido, em maior ou menor grau, nas igrejas de Buffalo.”

O Dr. Stevens [então redator do Christian Advocate and Journal] envia essas acusações terríveis aos seus milhares de leitores, sobre a simples afirmação do Advocate, sem esperar para conhecer os fatos. Como ele anatematizou o Northern Independent, como difamador e caluniador da igreja! Mas, desde o início desse jornal até hoje, onde encontraremos nele algo que se iguale ao que acima disseram os irmãos Robie e Stevens? Ora, se as acusações acima não puderem ser sustentadas, não deveria o irmão Robie ser processado por caluniar as igrejas de Buffalo, e o Dr. Stevens por “publicar e fazer circular” “boatos caluniosos”? Se pertencessem à Conferência de Genesee e fossem acusados de ofender e caluniar a igreja, seriam, eclesiasticamente, pendurados mais alto do que Hamã. Na Conferência de Genesee, o trecho acima do Advocate seria considerado calunioso, fosse verdadeiro ou falso. Portanto, senhores redatores, é melhor tomarem cuidado. Que culpa tiveram os irmãos Roberts e McCreery, comparada com a de vocês? Onde ou quando esses irmãos disseram algo que tivesse a metade da severidade disto que o Advocate disse? Mas, se é verdade o que o irmão Robie escreve, por que todo esse alarido contra os chamados nazaritas? As mesmas influências ímpias, e a mesma inclinação a ceder a elas, existem em outros lugares tanto quanto em Buffalo. E seria de estranhar que causas semelhantes produzissem resultados semelhantes aos que as igrejas de Buffalo agora experimentam? O mesmo estado de coisas narrado pelo Advocate existiu e existe em outros lugares. Deu-se ouvidos às tentações do diabo, e a reunião de oração cedeu lugar à festa social; a consagração completa se extinguiu, e prevalece o espírito de transigência entre a igreja e o mundo; o formalismo e a indiferença pela salvação das almas tomaram o lugar da espiritualidade e do amor que constrange a “buscar as almas errantes dos homens”. Para contrabalançar esses efeitos, algumas almas fiéis se levantaram por Jesus e, como os jovens hebreus, declararam que não se prostrariam para adorar os deuses mundanos que esses “membros frívolos, amantes das tolices e dados aos prazeres”, e esses ministros, estão levantando. Essa, como todos sabem, todos os que sabem alguma coisa do assunto, foi a origem do nazaritismo. O antagonismo natural entre o pecado e a santidade causou todo o problema. Enquanto a correnteza seguir o seu curso, como o irmão Robie diz que segue em Buffalo, e ninguém se levantar por Jesus e proclamar toda a verdade, eles terão paz e prosperidade; mas será a paz da morte e a prosperidade daqueles cujos “olhos saltam-lhes de tanta gordura” (Sl 73.7). Se o irmão Robie se apresentasse como intérprete intransigente de toda a verdade e, no poder do Espírito, desse testemunho decidido e aberto contra todos os vínculos e associações mundanos que estão amaldiçoando as igrejas de Buffalo, veria uma agitação e uma tempestade de oposição como as que se viram e sentiram em outros lugares. Mas, glória a Deus, almas seriam despertadas e salvas! Então começaria a obra da perseguição; pois, como aquele que nasceu segundo a carne perseguia o que nasceu segundo o Espírito, “assim também acontece agora” (Gl 4.29). Se o irmão Robie tomasse essa posição, tendo em vista unicamente a glória de Deus, e procurasse arrancar o formalismo morto por meio de um cristianismo vivo e sério, e fizesse “esforços especiais” pela conversão dos pecadores, seria, para todos os efeitos, um nazarita. Tomará o irmão Robie essa posição, para ver e sentir a salvação de Deus, ou deixará as igrejas de Buffalo descerem sem aviso para a desgraça eterna, indo ele mesmo atrás delas?

[N. do T.: “um par de homens decapitados” é linguagem figurada; o próprio Hart nomeia logo adiante os irmãos Roberts e McCreery. Hamã foi enforcado na forca alta que tinha preparado para Mardoqueu (Et 7.9-10). “Os jovens hebreus” são os três companheiros de Daniel (Dn 3.18).]

O editorial em questão e a sua reprodução no principal jornal do metodismo certamente mostram que o artigo do Sr. Roberts sobre o “Metodismo da Nova Escola”, embora mostrasse claramente que a religião dominante na Conferência de Genesee naquela época tinha perdido quase toda a semelhança com o metodismo original, estava plenamente justificado pelos fatos, a juízo dos seus próprios inimigos.

Contudo, para que o leitor tenha, se possível, uma visão ainda mais clara das condições espirituais então reinantes, dedicaremos agora algumas páginas aos meios pelos quais os representantes do partido dominante procuravam promover o tipo de religião caracterizado, com bastante propriedade, como “Metodismo da Nova Escola”.

Os trechos seguintes de um longo artigo publicado no Buffalo Courier, como menção amistosa a uma “festa de mariscos e caldeirada” realizada em benefício da Igreja Metodista Episcopal da Rua Niagara, lançarão muita luz sobre esse ponto:

FESTA DE MARISCOS E CALDEIRADA

O lugar escolhido para a festa de mariscos foi o bosque Clinton, a cerca de meia milha da estrada. Esse lugar, com uns vinte acres, estava cercado por uma bonita cerca de tábuas, e cobrava-se de cada visitante dez centavos para entrar no recinto. Lá dentro encontramos milhares de pessoas, umas arejando as roupas nos balanços, outras jogando jogos de diversos tipos, centenas tomando sorvete, café, comendo presunto, aves e outras coisas substanciosas, enquanto a grande massa abria, engolia ou se empanturrava de mariscos. Mariscos era o grito; de todos os cantos vinha o eco: mariscos! mariscos! E o cheiro dos mariscos subia e descia, perfumado como finas essências e fragrante como uma cozinha dos fundos na hora do jantar.

Em outros pontos do terreno havia muitas mesas, cobertas de guloseimas de todo tipo, atrás das quais belas senhoras juntavam a voz para estimular o apetite; havia muitas mesas de flores, onde moças jovens e bonitas atraíam com os olhos os rapazes endinheirados e os persuadiam a comprar flores; barracas de sorvete, onde se trocavam xelins pelo luxo gelado, acompanhado de fatias retangulares de pão de ló; havia outros lugares onde se podia gastar dinheiro com proveito, de muitas maneiras, mas deles não nos lembramos de nenhum. Na cordoaria, um galpão que nos pareceu ter uma milha de comprimento, reunira-se uma grande multidão, que, ao som de duas bandas, pulava e suava à vontade, privilégio que custava a cada dançarino dez centavos. O ar nesse lugar era tão quente e tão carregado de cheiros que positivamente não conseguimos obter o programa das danças.

A festa foi, no todo, um sucesso, e inaugurou um novo tipo de excursão, que esperamos tenha continuidade. A arrecadação no portão passou, segundo entendemos, de quatrocentos dólares, e nas diversas barracas etc., de várias centenas de dólares mais. O resultado é em benefício da Igreja Metodista da Rua Niagara e será de grande ajuda para pagar a dívida da igreja. As senhoras, em especial, merecem os mais altos elogios pelos seus esforços e tentativas de fazer da festa um modelo e de levá-la ao triunfo.

[N. do T.: “Shilling” (xelim) era, no estado de Nova York daquele tempo, o nome popular da moeda de 12,5 centavos. A “cordoaria” (“rope-walk”) era um galpão comprido usado para fabricar cordas.]

Foi dito e publicado, e, ao que saibamos, nunca desmentido, que “a pessoa que ficava à porta da cordoaria e recebia ‘dez centavos’ de cada um que ia ao baile era membro de uma das igrejas metodistas episcopais da cidade; e que o resultado, ‘depois de pagar a música’, foi em benefício da igreja”. Por tais meios o partido dominante procurava promover a obra que professava estar fazendo no interesse do reino de Deus!

A história posterior da Igreja da Rua Niagara tem interesse especial. Em Why Another Sect?, o Sr. Roberts escreve sobre ela o seguinte:

A Igreja da Rua Niagara, em benefício da qual se realizou essa festa, era a igreja metodista episcopal mais antiga da cidade. Já foi muito próspera. Ali Eleazer Thomas pregou a santidade, segundo o modelo de Asbury, no poder do Espírito Santo. Nessa igreja fomos nomeados no quinto ano do nosso ministério. Foi a única nomeação feita para nós em que tentamos interferir. Sentíamos profundamente a nossa falta de capacidade, de experiência e de graça para ocupar uma posição tão importante. Suplicamos ao bispo que não nos mandasse para lá. Mas, quando fomos enviados, resolvemos cumprir fielmente o nosso dever. Deus nos guardou de transigir e nos deu um bom avivamento. Os membros, em geral, foram vivificados, e muitos pecadores se converteram. Uns poucos, menos de meia dúzia, formados por homens de sociedades secretas e uma ou duas mulheres orgulhosas, encorajados por um pastor anterior, também de sociedade secreta, resistiram e se opuseram à obra.

Desde que o templo fora construído, pesava sobre ele uma hipoteca de alguns milhares de dólares. Comprometemo-nos a providenciar o seu pagamento, se tornassem gratuitos os assentos. Já tínhamos boa parte da quantia necessária prometida quando, no fim do primeiro ano, pela influência acima referida, fomos removidos, e um homem do outro partido foi enviado em nosso lugar. O povo acabou persuadido de que precisava de um templo mais imponente. Assim, a igreja, um edifício de pedra muito sólido, foi reformada: construiu-se uma fachada nova, colocou-se um grande órgão na galeria e cadeiras góticas altas no púlpito. Levantou-se todo o dinheiro que se podia levantar vendendo os bancos, cobrando dos membros até o limite das suas forças e fazendo de um dos maiores comerciantes de bebidas alcoólicas da cidade curador e tesoureiro. Tão grande foi o zelo despertado entre os membros para “salvar a igreja” que uma das mulheres mais piedosas que tínhamos conhecido até então foi induzida a presidir uma das mesas da festa de mariscos e caldeirada!

Mas nada adiantou: o templo foi vendido para pagar a dívida, e os membros se dispersaram. Essa igreja é, há muitos anos, uma sinagoga judaica.1

Mais tarde ainda, quando o autor era pastor da Igreja Metodista Livre da Rua Virginia, em Buffalo, a propriedade mudou de mãos outra vez, o templo de pedra foi demolido e no terreno se ergueu um templo maçônico!

Seria natural supor que, livre a Conferência dos incômodos “nazaritas”, que tinham sido declarados “perturbadores da sua paz” e excomungados por isso, o “Metodismo da Nova Escola” fizesse rápido progresso. Não parece, porém, ter sido esse o caso, segundo o testemunho publicado pelos seus principais promotores. Seguiu-se, por muitos anos, um declínio no interesse e no número. Em 1865, exatamente uma década depois de começar a perseguição dos chamados pregadores “nazaritas” e cinco anos depois da organização da Igreja Metodista Livre, a Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal publicou um relatório sobre o “Estado da obra”, que lamentava a condição declinante dos assuntos religiosos, e sobre o qual o redator do Northern Independent comentou, com competência e coragem, o seguinte:

CONFERÊNCIA DE GENESEE DA IGREJA METODISTA EPISCOPAL

Um exemplar das atas da última sessão dessa Conferência está sobre a nossa mesa. A sua execução gráfica é excelente e honra todos os envolvidos. Com o conteúdo em geral estamos igualmente satisfeitos. Cada página, se excetuarmos o relato do “acampamento da Conferência”, traz marcas de diligência e franqueza. Mas o que mais nos impressiona é o relatório sobre o “Estado da obra”. É competente, contundente, verdadeiro, humilhante. Contudo, seria mais ainda se todos os fatos do caso tivessem vindo à tona. A sua linguagem de confissão precisa ser traduzida, e então diria mais ou menos o seguinte:

“Então disseram entre si: ‘Na verdade, estamos sendo castigados por causa de nosso irmão, pois vimos a angústia de sua alma, quando nos pedia, e não lhe demos ouvidos; por isso, nos sobrevém agora esta ansiedade.’ Rúben respondeu-lhes: ‘Não é verdade que eu disse: Não pequem contra o jovem? Mas vocês não quiseram me ouvir. Pois agora estão vendo que o sangue dele está sendo requerido de nós'” (Gn 42.21-22).

Mas vejamos a declaração deles mesmos sobre a triste condição das coisas numa Conferência da qual se excluiu cuidadosamente todo vestígio de nazaritismo e de “contumácia”. Como essa purgação custou extremamente caro ao bom senso, aos princípios morais e à Disciplina metodista, seria de supor que tivesse produzido ao menos números e certo tipo de amor-próprio. Mas até nesses pobres resultados ela falha, e por isso eles dizem:

“1. Os nossos avivamentos não foram, nem em número nem em extensão, o que desejávamos ou tínhamos razão de esperar. Somos ministros de Deus, comissionados e enviados pelo grande Cabeça da Igreja para ganhar almas para Cristo, e temos de seguir adiante, em tantos casos, ano após ano, sem resultados marcantes? Estamos cumprindo todo o nosso dever como pregadores do evangelho eterno, enquanto os anos passam e esse evangelho parece essencialmente sem poder nas nossas ministrações? Sendo nós os guardiões designados das igrejas, temos necessariamente de vê-las caminhar para a extinção inevitável? Essa não é a vontade de Deus. A culpa está, ao menos em parte, à nossa própria porta. Há, da parte de muitos de nós, motivo para profunda humilhação diante de Deus e para a mais séria indagação sobre se não estamos falhando essencialmente nos grandes fins do nosso ministério.

“2. Outro traço desfavorável da nossa condição é o fato de que em muitas, talvez na maioria das nossas igrejas, os membros são quase todos pessoas de idade avançada. Vemos entre eles pouquíssimos jovens. Em grande parte das nossas igrejas, raramente encontramos um moço na Junta Oficial. Isso indica uma lamentável falta de avivamentos amplos entre nós NOS ÚLTIMOS DEZ ANOS. Essas pessoas idosas das nossas igrejas são leais e fiéis, dignas de toda honra. Mas logo passarão para a Igreja triunfante. Há talvez dezenas de igrejas na nossa Conferência cuja própria existência parece depender da vida de um, dois ou três homens já de idade avançada. Esses homens estão partindo depressa. É evidente que, em muitos lugares, nada pode salvar a nossa causa senão avivamentos poderosos e de grande alcance.

“3. Outro mal muito grande entre nós, e cheio das consequências mais danosas para a causa de Deus e para todos os nossos interesses como Conferência, é o envolvimento de tantos dos nossos ministros em atividades seculares. Esse mal cresceu muito nos últimos dois anos. É desnecessário gastar tempo para mostrar o erro de uma prática tão obviamente contrária ao espírito e à letra da nossa comissão e dos nossos votos ministeriais. Afirmamos ter obedecido, aos altares da igreja, à voz do Mestre: ‘Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura’ (Mc 16.15). Na presença de Deus e dos homens nos comprometemos solenemente a ser homens de uma só obra; e como podemos, em sã consciência, dedicar-nos a ocupações que necessariamente dividem o nosso interesse, as nossas energias, o nosso tempo e as nossas afeições? Essa prática está abalando de modo alarmante a confiança do povo em nós como ministros do Senhor Jesus. Dizem que somos tão ávidos de lucro, tão cobiçosos de grandes posses, tão facilmente arrastados a especulações desvairadas quanto qualquer outra classe de homens. Essa perda de confiança no ministério não se limita aos que se envolvem em atividades seculares, mas se estende em certa medida a todo o corpo. Assim, os inocentes sofrem com os culpados, e perdemos a nossa influência sobre o povo.”

A cronologia do que se leu acima merece atenção, e nós a destacamos pondo as palavras em maiúsculas. Faz agora quase dez anos que aquela Conferência pôs sob acusação o caráter de um dos seus ministros mais capazes e mais úteis e, por fim, o expulsou por calúnia, calúnia que consistia em ter escrito para este jornal um artigo sobre o “Metodismo da Nova Escola”. O artigo criticava com bastante severidade alguns usos correntes naquela e em outras Conferências, mas não era nem um pouco mais contundente do que este relatório sobre o “Estado da igreja”. Na verdade, as suas alegações não eram tão amplas, nem as suas revelações tão alarmantes. Um observador perspicaz, no entanto, viu naquela época o mal no seu início: viu um ministério despojado da sua força, secularizado, sem êxito, e a igreja morrendo; viu exatamente o que este documento oficial declara ter começado a existir há dez anos. O homem corajoso cujos olhos, ungidos por Deus, viram essa condição deplorável da Conferência de Genesee deveria ter sido recompensado com algo melhor do que a expulsão, pois teve boa intenção, falou bem e está agora plenamente endossado pela própria Conferência. Vimos a injustiça cometida, vimo-la no momento em que foi cometida e demos aviso do fato; mas as nossas palavras não foram ouvidas então, como provavelmente não o serão agora, e a Conferência seguiu o seu caminho, julgando homens por “contumácia” e expulsando um número tão grande dos seus melhores ministros e leigos que agora tem diante de si a aniquilação eclesiástica completa. Esse resultado não surpreenderá ninguém. É apenas a consequência inevitável de um caminho errado. Se os líderes daquela parte da igreja, outrora próspera, tivessem ouvido bons conselhos, não estariam entoando o seu De profundis, mas o seu Nunc dimittis, e cada valente soldado da cruz, olhando para trás, para um campo bem disputado, poderia dizer: “Combati o bom combate” (2Tm 4.7).

Dez anos de esterilidade espiritual, a secularização do ministério a tal ponto que o povo perdeu a confiança nele, e muitas outras evidências de declínio deveriam convencer a Conferência de que agiu errado, de que a sua administração derrubou aqueles que Deus não derrubou. Para ajudá-los a sair dessa dificuldade, sugerimos que a Conferência reconsidere imediatamente a sua decisão no caso de todos os que foram expulsos por razões meramente técnicas, e restaure assim aqueles por cuja causa Deus enviou a magreza a todos os seus territórios.

[N. do T.: De profundis (“Das profundezas”, Sl 130) é o salmo de lamento; Nunc dimittis (“Agora despedes”, Lc 2.29-32) é o cântico de Simeão, de quem parte em paz depois de ver a salvação. A “magreza” enviada por Deus ecoa a versão inglesa de Sl 106.15.]

A Conferência, como corpo, continuou por vários anos a sua luta para promover o “Metodismo da Nova Escola”, mas com número e influência em declínio contínuo. “Muitos dos principais pregadores tinham perdido a confiança do povo a tal ponto que pediram transferência para outras Conferências. Introduziram-se homens novos para suprir a obra. Mas nada adiantou. Não conseguiam nem sequer uma aparência de prosperidade. Foram unidos a outras Conferências por algum tempo, o seu nome foi mudado, e, depois de uma troca geral de pregadores, foram de novo restabelecidos como Conferência, com o nome antigo.”

Na celebração do centenário da Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal, no outono de 1910, o seu secretário, o Rev. Ray Allen, leu um esboço histórico da Conferência; e, ao referir-se aos acontecimentos do período que agora consideramos, prestou o seguinte tributo aos irmãos que a Conferência expulsou naquela época e acrescentou dados sobre o declínio da Conferência depois daquelas expulsões:

Esse tratamento heroico pode ter parecido necessário na época, mas, visto meio século depois, parece injusto e, por isso, extremamente insensato. Aqueles irmãos expulsos estavam entre os melhores homens que a Conferência tinha, e quase ninguém pensava de outro modo, mesmo então.

Os males da Conferência de Genesee não foram curados por uma operação cirúrgica. Depois de 1859 vieram os anos mais sombrios da sua vida, e o número de membros caiu sem parar, ano após ano, até que em 1865 chegou ao nível mais baixo já atingido. Tinha então apenas 7.593, um número tristemente reduzido! Em 1866 começou a se recuperar, mas o território que em 1859 tinha 10.999 membros não voltou a esse número durante dezenove anos. Na verdade, ela veio da grande tribulação, e é de esperar que tenha lavado e alvejado as suas vestes (Ap 7.14).

Quando se lembra que a Conferência tinha mais de cem pregadores no início desse período, e que o território que abrangia era muito promissor e predisposto em favor do metodismo, a declaração acima fica ainda mais desfavorável.

Os irmãos chamados com desprezo de “nazaritas” tiveram a visão espiritual para perceber que um declínio generalizado tinha começado, e esforçaram-se com diligência para despertar outros para a mesma visão e para unir o maior número possível num esforço sério para deter a tendência descendente e virar a maré no sentido contrário. Nisso foram mal compreendidos, deturpados, amargamente combatidos, cruelmente perseguidos, acusados de deslealdade, ridicularizados como “fanáticos” e, por fim, acusados de “conduta não cristã e imoral”, julgados e expulsos da Conferência e da igreja. Assim, em certa medida, partilharam a sorte daqueles profetas de Deus de tempos antigos que se puseram na brecha em épocas de grande declínio espiritual e procuraram mudar o rumo das coisas em favor da verdadeira piedade.

Os fatos a que nos temos referido eram em considerável medida locais; mas que um declínio semelhante no metodismo era também geral, isso se evidencia, como se verá mais adiante, por acontecimentos ocorridos mais ou menos na mesma época em Illinois e em outras partes do país, e com resultados semelhantes. Além disso, há sobre o mesmo ponto o testemunho de alguns dos homens mais destacados do metodismo. Sobre o estado da religião em geral, o Rev. Jesse T. Peck, mais tarde eleito bispo, escreveu o seguinte:

Que multidão de desviados há hoje na igreja, justamente porque se contentaram sem prosseguir para a perfeição!

Sobre a recepção especial do Espírito Santo como “um batismo de luz”, ele diz:

Ele revela perigos que nunca antes se perceberam. Mostra o rumo perigoso de uma igreja errante dentro dos recintos profanos do pecado. Obriga a alma a recuar e a abominar as próprias coisas que antes cobiçava ardentemente. Ela treme ao ver que os esplendores exteriores da igreja, antes tidos como provas seguras de êxito, não passam de trajes de prostituta, que revelam e convidam a um comércio ilícito com um mundo sem Deus.

O Rev. E. Bowen, doutor em teologia, ao pregar um sermão de jubileu de cinquenta anos perante a Conferência de Oneida da Igreja Metodista Episcopal, em 1864, sentiu-se obrigado a pregar sobre o tema geral “O afastamento da igreja de Deus” e, na sua peroração, disse:

A nossa tarefa foi de interesse doloroso; não só pela dor que sentimos ao sermos chamados, na ordem da Providência, a apresentar à igreja o feio retrato do seu próprio caráter, mas sobretudo porque ela não estava em condições de posar para um retrato melhor. Lamentamos o seu afastamento de Deus e do metodismo, que ainda amamos, como sempre, com uma devoção quase idólatra. Ainda amamos a Igreja Metodista Episcopal e não queremos desrespeitá-la em nada do que dissemos neste sermão. E, se nos sentimos no dever de soar o alarme e de admoestá-la, dessa maneira, da sua ruína iminente, não é porque desejemos tal catástrofe, mas porque a tememos.

Depois de preparados os parágrafos acima, o autor obteve uma carta autógrafa do Dr. Bowen, escrita na época referida, da qual segue uma cópia:

Cortland, N. Y., 13 de julho de 1864.

Prezado irmão Roberts:

Agradeço o bondoso interesse que o senhor tomou na divulgação do meu sermão de jubileu. Tenho me afligido muito, nos últimos anos, com o rápido declínio da piedade experimental e prática na nossa igreja; e não ousei deixar de expor, na nossa recente Conferência Anual, as minhas sinceras convicções sobre o assunto, como indicavam as claras aberturas da Providência. Se, ao dar um retrato fiel da igreja, fiz uma pintura feia, ela deve lembrar que as suas próprias feições feias, e não a mão do retratista, são responsáveis por isso. Senti que se exigia “um remédio de vida ou morte”; e, tendo-o ministrado em nome do Senhor, devo deixar o resultado com ele…

Respeitosamente seu,
Elias Bowen.

Os trechos seguintes de um editorial do Buffalo Christian Advocate de 19 de novembro de 1856 também mostram que, naquele tempo, especialmente nas igrejas das cidades de todo o país, o estado da religião era de fé falida, de pretensão falsa e hipócrita, de encenação e de falta de poder espiritual:

A RELIGIÃO DAS IGREJAS DAS CIDADES

Muitas das nossas igrejas das cidades são abominavelmente corruptas, e não há como disfarçar o fato. Homens e mulheres corruptos pertencem a elas. Têm dinheiro, moda e posição, mas, com tudo isso, têm uma fé falida e um coração tão depravado quanto o de Satanás.

As nossas cidades estão cheias de religião de fachada, de pretensões falsas e hipócritas, de formas e cerimônias sem poder, e de uma aparência sem graça e sem forma que passa pelo que é real e salvador na economia do evangelho.

Ao escrever este capítulo, o nosso objetivo foi mostrar, pelo artigo do Sr. Roberts sobre o “Metodismo da Nova Escola”, pelo endosso caloroso desse artigo por metodistas destacados de outras Conferências, por confissões feitas por representantes do partido dominante e por notícias não desmentidas da imprensa secular, aquelas condições religiosas dentro da Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal que exigiam reforma, se o metodismo genuíno havia de ser resgatado do perigo da completa apostasia; e também mostrar, pelo testemunho de homens destacados nos conselhos da igreja, que as condições que prevaleciam na Conferência de Genesee não eram de modo algum apenas locais, mas estavam espalhadas por todo o país. O leitor poderá decidir por si mesmo se cumprimos ou não a nossa tarefa. Não conseguimos, ao menos, mostrar a mentes imparciais que a exposição que o Sr. Roberts fez do caso no “Metodismo da Nova Escola” era moderada e, no sentido mais pleno da palavra, justificável?

Notas do autor

  1. Why Another Sect?, págs. 105-106. ↩

Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.