História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo XXI

Novas perseguições: um reinado de terror

Depois dos julgamentos de Roberts e de McCreery, e enquanto as suas apelações para a Conferência Geral estavam pendentes (um período de cerca de dois anos), o espírito de perseguição, que até ali agira como loucura, inflamou-se num grau muito mais alto, assim como a fornalha ardente de Nabucodonosor foi aquecida “sete vezes mais do que de costume” (Dn 3.19) para receber os jovens hebreus. Na sua História da origem da Igreja Metodista Livre, o Rev. Elias Bowen, doutor em teologia, referindo-se a esse período, diz:

O espírito de perseguição, já inflamado contra os chamados nazaritas, tornou-se desenfreado e irrompeu com uma violência que ameaçava a sua rápida e completa extirpação. A loucura de Saulo de Tarso ao perseguir os santos do seu tempo, “até em cidades estrangeiras” (At 26.11), mal superou a fúria com que a parte viva da igreja foi caçada, nesse período, pela maioria apóstata, mundana e ligada às sociedades secretas, da Conferência. Os verdadeiramente fiéis, sem distinção de idade, sexo ou condição, foram levados perante comissões inquisitoriais; e grande número, de leigos e de clérigos, foi empurrado para fora da igreja de um modo ou de outro, ou forçado a andar na rédea curta do partido dominante. Foi, de fato, um reinado de terror. O ridículo, a privação de direitos, os julgamentos de fachada e vários outros expedientes, bem conhecidos da ordem dos jesuítas, foram postos a serviço da tarefa de esmagar a vida e o poder da religião; e via-se, como resultado dessas perseguições ultrajantes, uma desolação generalizada espalhada pela Conferência em todo o seu território.

O autor tinha idade suficiente na época para lembrar bem vivamente algumas das cenas tempestuosas então comuns e a agitação geral e intensa que produziam. A sua primeira formação e as suas primeiras impressões religiosas foram recebidas no meio dessas cenas agitadas, nas quais lhe ensinaram, pelo preceito e pelo exemplo, a nobreza de sacrificar todo o resto pela justiça e pela fidelidade a Deus.

Naqueles dias, metodistas leais não raro eram impedidos de entrar nos templos que o seu dinheiro ajudara a construir; e, quando passavam a pregar nas escolas, tudo costumava correr bem até que algum pregador ou leigo descontente instigava os ateus, os incrédulos, os católicos romanos e os espíritas da comunidade, e às vezes também membros de outras igrejas, a se oporem ao uso da escola para cultos religiosos. Então esses lugares lhes eram fechados, e eles iam para casas particulares, para as ruas, para os bosques, para oficinas alugadas, para os celeiros dos fazendeiros, às vezes para os fóruns e para os teatros; e o autor se lembra de um caso em que se realizou um culto grande e excelente debaixo do telheiro dos cavalos de uma igreja, porque o templo estava fechado e trancado para eles. O povo estava sentado em carroças e carruagens, ou agarrado às vigas do telheiro, enquanto lá fora caía uma chuva copiosa.

Mas nem nesses lugares estavam livres do espírito de perseguição que se enfurecia contra eles. Muitas vezes se tentava dissolver os seus cultos; por meio de falsas queixas, induziam-se os agentes da lei a intervir, e havia prisões e encarceramentos; e, em outras ocasiões, os fiéis eram vítimas de vandalismo maldoso, tendo os arreios cortados em pedaços ou outros bens destruídos enquanto estavam no culto a Deus. Eram também caricaturados e vilmente deturpados por alguns jornais seculares, e às vezes difamados de púlpitos evangélicos. Até os seus filhos eram, em alguns casos, vítimas desse espírito de perseguição nas escolas públicas, e poderiam contar-se casos desse tipo, do conhecimento pessoal do autor, que pareceriam totalmente incríveis.

Naturalmente, algumas das formas mais grosseiras dessa oposição e perseguição vinham dos elementos desordeiros dos vários bairros e não devem ser atribuídas diretamente a membros da igreja; mas o espírito de oposição religiosa aos “nazaritas” era intenso, e o espírito de perseguição contra eles era forte da parte do elemento da “Regência” e dos que lhe serviam de instrumento; e foi principalmente isso que pôs em movimento “alguns homens maus dentre a malandragem” (At 17.5) para cobri-los de algumas das afrontas mais grosseiras da lista acima.

O relato seguinte dos ultrajes cometidos contra membros inofensivos da Igreja Metodista Episcopal no condado de Niágara, Nova York, por instigação de um dos pregadores da Conferência de Genesee, foi publicado no Niagara City Herald de 8 de outubro de 1859; e ilustra tão bem o espírito com que se procurava, naqueles dias, exterminar os “nazaritas” que pareceu apropriado inseri-lo aqui:

PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA

Ultrajes em Cayuga Creek: metodistas algemados e mandados para a cadeia no domingo

Voltaram os dias das perseguições. O espírito da velha Inquisição está entre nós. Os nossos informantes, que estão entre os cidadãos mais respeitáveis de Cayuga Creek, e são senhores abastados, testemunharam o estranho espetáculo de cristãos pacíficos e dedicados, enquanto ouviam tranquilamente a pregação de um pregador local idoso e honrado da Igreja Metodista Episcopal, serem presos, algemados como criminosos e levados às pressas para a cadeia, sob acusações fabricadas para esse fim. Mal podíamos crer que éramos moradores de um país livre e esclarecido, no século XIX. Parecia que a roda do tempo nos fizera rolar de volta à Idade das Trevas.

A história desse ultraje é, em resumo, a seguinte. A igreja de Cayuga Creek faz parte do cargo de Niagara Falls. O mesmo pregador oficia nas Cataratas pela manhã e em Cayuga Creek à tarde, todos os domingos. Logo depois da Conferência, o pastor pôs-se a trabalhar às escondidas para executar a doutrina antimetodista da “Carta Pastoral”,1 adotada pelo partido mais forte, ou da “Regência”, da Conferência de Genesee. O fiel e eficiente superintendente da escola dominical e os líderes de classe foram trocados, e nomearam-se pessoas de que o pastor pudesse servir-se.

A chave da igreja, até 15 de fevereiro, estivera em poder de A. M. Chesbrough, curador, que até então também era amigo pessoal caloroso do pregador. O Sr. C. sempre abria a casa para as reuniões, fornecia a iluminação e pagara mais do que qualquer outro homem pela construção e pelo sustento da igreja. O Sr. Simpkins, o pregador, obteve a chave e a deu a outro curador, que não é membro de nenhuma igreja e que fora o principal agente da “Regência” nessas operações em Cayuga Creek. Na noite de 16 de fevereiro, o Rev. John Cannon, que era pregador local havia mais de trinta anos e membro da Igreja Metodista Episcopal de Niagara Falls havia uns vinte e três anos, tinha um compromisso para pregar em Cayuga Creek. Quando chegou a hora de abrir a reunião, a casa estava bem cheia e, para espanto de todos, o Sr. Simpkins, que sabia do compromisso, entrou e assumiu o controle da reunião, sem dizer uma palavra ao Sr. Cannon. Isso causou grande agitação, pois o Sr. C. pregara ali muitas vezes e é muito querido.

Na noite de 23 de março, quando o povo se reuniu para a reunião de oração, a igreja estava trancada. Pela primeira vez desde que a igreja fora construída, as janelas estavam travadas. O Sr. Chesbrough forçou uma janela, abriu-se o ferrolho da porta e realizou-se uma reunião. A reunião de oração da manhã de domingo, que durante alguns meses se fizera numa casa desocupada em outro bairro, fora transferida para a igreja.

O Sr. Simpkins convocou uma reunião dos curadores, dois dos quais estavam sob a sua influência. Veio à baila a questão de abrir a casa para a reunião de oração do domingo de manhã. Um dos curadores, que não professava religião, objetou que “as reuniões eram barulhentas demais”. O curador recém-eleito disse que “o povo podia orar em casa, no seu quarto, ou nos seus campos; que não precisava vir à igreja para orar”.

O Sr. Chesbrough insistiu em que a casa fosse aberta para a reunião de oração. Desde então até 17 de abril, as reuniões se fizeram como de costume. Nesse dia, domingo de manhã, o povo se reuniu na igreja para a habitual reunião de oração. Um dos curadores da Regência estava postado do lado de fora da porta com três ou quatro empregados e cães, para impedir o povo de entrar na igreja. O Sr. Chesbrough lhe perguntou com que autoridade fechava a porta. Ele disse que “com a autoridade do pregador responsável e da maioria dos [dois] curadores”. Disse também que “fora mandado para guardar a porta e ia fazê-lo a qualquer custo”. O povo, desgostoso, voltou para casa. Durante quatro semanas não houve reunião de oração na manhã de domingo. O Sr. Chesbrough visitou duas vezes o pregador para obter o seu consentimento para abrir a casa, o que lhe foi recusado das duas vezes, e o pregador disse que o curador que guardava a porta “conhecia a vontade dele”.

Enquanto isso, os membros ficaram inquietos por não terem reuniões nas longas manhãs de domingo. Não havia cultos religiosos no lugar, a não ser na igreja metodista, e era longe demais para ir a outro lugar. Anunciou-se que o pai Cannon pregaria na manhã de domingo, 19 de junho. O Sr. Chesbrough, tendo obtido uma chave, abriu a porta. Enquanto ele e outros dois estavam sentados na igreja esperando a congregação, o novo curador chegou com outro homem, trancou-os lá dentro e disse: “O Sr. Cannon não vai falar aqui; o Sr. Simpkins me disse para guardar a porta a qualquer custo.” O seu companheiro disse: “Se houver briga, quero participar.” O Sr. Cannon fez tranquilamente a sua reunião debaixo de uma árvore e marcou outra para dali a duas semanas. Quando chegou a hora, o curador da Regência estava à porta com seis ou sete empregados e disse que, se entrassem na igreja naquele dia antes da hora regular, teriam de passar por cima do seu cadáver. De novo a reunião se fez debaixo das árvores, e marcou-se outra para dali a duas semanas.

Quando chegou aquela manhã de domingo, o curador da Regência, Samuel Tompkins, estava postado à porta com onze homens (nenhum deles, a não ser o seu irmão, jamais pagara um centavo para a construção da igreja), a maioria empregados e rapazes, com cinco cães. Os bancos postos ao lado da igreja foram derrubados, e traçou-se uma linha que, disseram ao povo, não deviam ultrapassar, por sua conta e risco.

Na noite de 28 de julho, havia uma reunião de oração marcada. O Sr. Chesbrough pusera, nesse meio-tempo, uma fechadura nova na porta, e por sua autoridade a igreja foi aberta. Antes que o povo se reunisse, um empregado do curador da Regência entrou na igreja e travou a porta, escorando-a. Os membros se reuniram, mas, como o guarda lhes disse que não podiam entrar na igreja, dispersaram-se tranquilamente. Quando já se tinham afastado umas cinquenta varas ou mais, alguns rapazes atiraram um punhado de bombinhas, por uma vidraça quebrada, no homem que segurava a porta. Na noite de sábado, enquanto os guardas da Regência vigiavam a igreja para tomarem posse dela no domingo de manhã, disseram que duas pessoas se aproximaram da janela, sussurraram “Lá estão eles, deitados perto da porta” e depois quebraram umas oito ou dez vidraças.

O mais provável é que isso tenha sido feito por alguns do partido da Regência, para montar uma história tão feia quanto melhor conviesse ao seu lado, pois, de fato, nem sequer foram à porta para ver quem estava ali quebrando as janelas.

O curador da Regência obteve mandados de um juiz de paz, amigo especial e sócio dele nos negócios. Os mandados foram guardados durante a semana e, na manhã de domingo, 7 de agosto, enquanto o Rev. John Cannon pregava num bosque, uns quatro ou cinco policiais armados de revólveres, cassetetes e grilhões, conduzidos pelo curador da Regência, chegaram à congregação e prenderam um dos membros da Igreja Metodista Episcopal, cidadão respeitável. Foram depois à casa de outro membro, arrancaram-no da cabeceira da esposa doente, levaram-no para perto da reunião e o algemaram junto com o outro. Ficaram acorrentados perto da reunião até que parte dos policiais pudesse ir à vila e prender mais uns cinco ou seis. Foram postos em grilhões e depois tocados sob o sol quente, pela poeira, por cerca de uma milha. Foram amontoados numa velha carroça de carga usada para transportar tijolos e levados às pressas para a cadeia. Enquanto estavam detidos perto da reunião, alguns dos homens mais idôneos do condado de Niágara se ofereceram para dar qualquer fiança que se exigisse; mas nada adiantava: tinham de ir para a cadeia. Fez-se a formalidade de um interrogatório e, embora não se apresentasse nenhuma prova de culpa, o juiz de paz, para proteger o seu amigo, segundo se supõe, os pronunciou para julgamento.

Assim as nossas instituições livres foram desonradas por um ato de perseguição religiosa que ficaria melhor na Itália ou em Roma. Os cristãos presos são homens tão tranquilos e inofensivos como os que mais o sejam. A sua verdadeira ofensa consiste em não quererem pôr a consciência sob a guarda do seu pastor e no seu empenho sincero em ganhar o céu. Em suma, são metodistas à moda antiga, designados pelos seus opositores da Conferência de Genesee pelo nome perseguido de nazaritas.

[N. do T.: a “vara” (“rod”) é medida de cerca de cinco metros; cinquenta varas são uns 250 metros.]

Outra espécie de perseguição, e das preferidas naqueles dias, consistia em submeter à guilhotina eclesiástica os que não se submetiam mansamente ao poder da Regência. Era perigoso, então, para um homem ou uma mulher, ter a consciência despertada e a coragem de obedecer aos seus ditames. Tal pessoa bem poderia ter vivido sob o domínio católico romano, nos dias da Inquisição espanhola, em vez de ser membro da Igreja Metodista Episcopal na Conferência de Genesee. A máquina da igreja logo se poria em ação para a sua decapitação eclesiástica. Como amostra de como se fazia isso, mesmo no caso de leigos que sempre tinham sido dedicados a Deus e leais à igreja, reproduzimos aqui trechos de um artigo publicado originalmente no Olean (N. Y.) Advertiser de 26 de abril de 1860, sem outra desculpa pelo tamanho da citação senão a sua pertinência ao assunto em exame:

DIFICULDADES DA IGREJA METODISTA

Solene arremedo de julgamento: a guilhotina eclesiástica no pescoço de Seymour J. Noble!

SR. REDATOR: Depois das suas observações e sugestões tão apropriadas sobre esse julgamento, talvez alguns achassem aconselhável deixar o assunto em paz, sem mais comentários. Mas há alguns aspectos do caso que pedem a atenção do público e que dizem respeito a todo homem que tenha uma reputação que queira preservar e pôr fora do alcance de danos causados por ataques como esses e com meios como os empregados nesse caso.

Na sexta-feira, 6 de abril, às nove da manhã, as partes componentes de um tribunal inquisitorial estavam reunidas, na devida ordem, no subsolo do templo. O juiz apareceu, solenemente grave. O ministro responsável parecia complacentemente satisfeito ao contemplar os arranjos, e o júri exprimia no semblante uma “certa convicção” ao olhar para o acusado, de pé diante deles, consciente da própria retidão e rodeado pelos seus muitos amigos e simpatizantes.

Leu-se um hino, em tom lento e compassado. Depois todos se ajoelharam em oração, enquanto o Rev. Sr. Hammond, de Portville, que ia presidir como juiz, suplicava ao trono da graça sabedoria do alto para cumprir bem os deveres que lhe tinham sido impostos; e, quando as palavras “que nenhum ato se interponha no caminho da salvação das almas” romperam o silêncio, um longo, alto e sincero “Amém” foi a resposta, que brotou, como que involuntariamente, dos lábios da vítima ajoelhada do seu desagrado.

Encerrados os exercícios religiosos, o caráter inquisitorial do tribunal começou a revelar-se: o presbítero presidente levantou-se no seu lugar e fez a farsa transparente de destituir formalmente W. C. Willing da sua posição oficial de pastor da Primeira Igreja Metodista Episcopal de Olean. Não se deu nenhuma razão para esse procedimento sumário, mas era fácil adivinhar por que se fazia. Ele formulara a acusação, escolhera o juiz, formara o júri e citara a testemunha, mas ainda não havia acusador! O arranjo não estaria completo se ele não fizesse o papel desse funcionário! Todo o tribunal era criação sua, cuidadosamente escolhido e reunido para a denúncia, o julgamento e a expulsão certa de um dos membros da Igreja Metodista Episcopal. Ele fizera tudo o que podia na sua posição oficial sem infringir a “Disciplina”, e daí essa “destituição”, para lhe permitir fazer o que nenhum membro leigo de toda a sociedade estava disposto a fazer: processar SEYMOUR J. NOBLE sob a acusação de “CONDUTA IMORAL E NÃO CRISTÔ!!!

O Sr. Noble alegou negação geral e pediu ao tribunal que lhe permitisse a assistência de Wm. Culver e do Doutor Bigelow como defensores.

O tribunal decidiu que este último não teria permissão para participar do julgamento, pois não era membro da sociedade.

O Dr. Bigelow levantou-se do seu lugar, num canto afastado da sala, e disse que era desnecessária qualquer decisão no que lhe dizia respeito, pois diante de tal tribunal ele seria como “ovelha muda diante dos seus tosquiadores” (Is 53.7).

O Sr. Noble objetou a que W. C. Willing atuasse como acusador, pelo motivo de não pertencer à sociedade.

O tribunal, com uma distinção tão sutil que a diferença era imperceptível às mentes comuns, decidiu exatamente o contrário da sua última decisão, e permitiu-se que W. C. Willing atuasse.

O Sr. Noble objetou a que Hiram Webster fizesse parte do júri, por ter dito que “não acreditaria num nazarita mais depressa do que no diabo”. Chamou uma testemunha, que confirmou a afirmação de Webster, e ofereceu-se para trazer mais, dizendo ao tribunal que, na sua defesa, teria de contar com o testemunho dos estigmatizados como nazaritas e que, se fizessem parte do júri homens que não acreditariam neles mais depressa do que no “pai da mentira” (Jo 8.44), parecia-lhe que o caso já estava prejulgado.

O tribunal, com uma frieza sem precedente, decidiu muito amavelmente que o Sr. Webster era apto.

Ao ser proclamada essa decisão, o acusado, agindo sob a impressão que muito naturalmente lhe causou, prendeu o tribunal por meia hora com um discurso sincero e sentido, dizendo-lhes que não podia esperar justiça das mãos deles; que esse julgamento fora decidido muito antes da suposta consumação do ato pelo qual estava sendo processado; que era coisa decidida de antemão que ele seria expulso da igreja, e que essas formas e cerimônias só se destinavam a uma aparência exterior de justiça. Os rostos afogueados, as cabeças baixas e os semblantes desviados de todos os ligados ao tribunal mostraram quão agudamente se sentiam essas verdades contundentes.

Quando o acusado transpôs a soleira, os seus amigos o seguiram, deixando a Inquisição praticamente sozinha. Ela começou o seu trabalho e, com pressa indecente, concluiu-o às pressas. Algumas testemunhas foram interrogadas às pressas, o acusador resumiu às pressas o caso, e o júri deu às pressas o seu veredito.

O veredito foi exatamente o que se pretendia que fosse e o que todos os que conheciam o processo tinham previsto com toda a clareza; e SEYMOUR J. NOBLE, homem cujo coração e cuja bolsa, nos últimos dezoito anos, estiveram abertos às exigências e necessidades da igreja, cujos bens ganhos com esforço durante todo esse tempo fluíram constantemente para o seu tesouro, e cujas orações foram oferecidas regularmente nos seus altares sagrados, é declarado por um emissário estranho, * * * * *, indigno da comunhão. Embora o seu coração anseie pela igreja como o de um filho terno pela mãe, não lhe permitem dobrar ali o joelho; é mandado para o mundo com um estigma no nome e uma mancha no caráter cristão.

Diante de tudo isso, não podemos perguntar com razão que valor tem a reputação humana numa comunidade em que se podem praticar com êxito tentativas tão arbitrárias de arruiná-la e destruí-la? Se tais ataques ao caráter particular podem de algum modo prejudicar o seu alvo, isso mostra a necessidade de alguma disposição legal que proteja os homens honestos da ação de tal maquinaria e da influência de um espírito que, em outros países e em outras épocas do mundo, mandou homens para o cavalete e para o cadafalso por heresias alegadas ou suspeitas.

Mas, neste caso particular e nesta comunidade, a malícia que originou esse processo e o pôs em movimento é relativamente impotente e inofensiva. O Sr. Noble mora aqui há muito tempo, é bem conhecido demais, e a sua posição de cristão sincero e sério está bem estabelecida demais para que sofra dano permanente de tais perseguidores. Pode ter algum efeito fora, onde as partes são desconhecidas; mas aqui é visto como uma farsa e só prejudica os que tomaram parte na transação. As acusações não se referem de modo algum a qualquer ato seu como cidadão, como homem ou como cristão. Para ter uma aparência de acusação contra ele, os seus acusadores foram obrigados a agarrar-se ao que sempre foi considerado, em todas as comunidades civilizadas, um ato protegido. Ele atuara como defensor de JAMES H. BROOKS quando este foi processado perante um tribunal semelhante, e o defendera com um zelo e uma competência que, perante qualquer outro corpo de homens, não teriam deixado de ter efeito salvador. No calor do debate e no empenho da sua argumentação, usou sem dúvida expressões fortes e qualificou o processo como merecia. É por linguagem usada nessas circunstâncias que ele agora foi acusado, processado e expulso da sua igreja.

Os poderes dominantes da denominação metodista proclamaram com esse ato que nenhum homem pode permanecer no meio deles se tiver a coragem de afirmar a sua dignidade e independência; e que nenhum irmão da igreja poderá defender outro acusado de heresias sem correr o risco de ser também expulso, se empregar linguagem ofensiva para a Inquisição perante a qual comparece. Em todos os outros tribunais em que homens são acusados de ofensas, permite-se ao defensor que se apresenta em favor do acusado expressar as suas convicções honestas sobre o caso nos termos que o seu juízo ditar; e em nenhum lugar e em nenhuma circunstância ele fica sujeito a ser chamado a prestar contas, ou mesmo a ser censurado, pela escolha de adjetivos que o caso ou as provas lhe sugiram. Quando um homem entra na Igreja Metodista Episcopal, deve-se entender que ele abre mão de todos os seus direitos e privilégios a esse respeito e que, se for acusado de ofensas, o modo do seu julgamento, o caráter das provas que oferece e a linguagem que emprega na sua defesa serão todos ditados e prescritos pelos que forem constituídos seus juízes? Se é assim, é bom que a comunidade o saiba, para que se governe de acordo.

Casos de má administração como esse eram então o costume do dia; e não só passavam sem repreensão da parte dos que tinham as rédeas da autoridade, como eram motivo de glória, assim como o romanismo outrora se gloriava no sangue dos mártires, e ainda se gloriaria nele na maior parte do mundo, se os poderes civis não refreassem o seu espírito perseguidor.

O eclesiasticismo tomara em grande parte o lugar do cristianismo primitivo, e o denominacionalismo suplantara lamentavelmente a simplicidade fervorosa e a espiritualidade do metodismo primitivo. A lealdade à Igreja Metodista, representada por uma plataforma denominacional, interpretada e imposta “por ‘resoluções de Conferência’, decisões episcopais, os precedentes de julgamentos de fachada e coisas semelhantes, administrados arbitrariamente”, constituía na prática o único sistema autorizado de jurisprudência eclesiástica no metodismo daquele tempo. Sob esse regime, podia-se alegar lei, constitucional, estatutária ou interpretativa, para quase qualquer linha de administração que alguém estivesse inclinado a seguir, por mais repugnante que fosse ao bom senso e à justiça comum. Dava-se relativamente pouca atenção à Constituição ou às leis estatutárias do metodismo; estavam praticamente obsoletas. A legislação especial tomara em grande parte o lugar daquela legislação igual para todos que deveria ser a glória de qualquer corpo eclesiástico, na medida em que exerce funções legislativas.

A administração tinha agora como objetivos gerais garantir interesses pessoais, fins partidários e popularidade eclesiástica, em vez de conservar e promover a “justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.24). Adotavam-se medidas que irmãos conscienciosos não podiam subscrever e, depois, pela recusa deles em apoiá-las, punha-se em movimento a máquina da igreja, por uma administração corrupta, para puni-los com a difamação e a expulsão da igreja.

O Dr. Bowen nos dá uma excelente ilustração do funcionamento desse princípio nos seguintes parágrafos:

O clero, que constitui ao mesmo tempo o poder legislativo e o executivo da igreja, consciente do seu grosseiro afastamento de Deus e do metodismo e da falta de esperança de obter o seu sustento, pelo princípio voluntário, de um povo que perdera toda a confiança neles como ministros cristãos, decidiu-se por medidas coercitivas; e, para garantir um sustento que de outro modo não poderia receber, fez dele uma condição para ser membro. Essa nova lei, introduzida na Disciplina de modo tão clandestino que o povo ficou sem perceber, ao menos por algum tempo, se não a sua existência, ao menos o seu verdadeiro alcance e efeito, devia ser considerada dali em diante uma prova de lealdade; o seu grande objetivo era obrigar o povo a sustentar os pregadores que a Conferência lhe enviasse, fosse qual fosse o caráter deles, ou, se falhassem, autorizar a expulsão de todos os membros que não pagassem.

Muitos já foram expulsos da igreja, ostensivamente por outra coisa, mas na verdade por negligenciarem ou se recusarem a sustentar um ministério sem Cristo e perseguidor. Ultimamente, porém, deixou-se de lado o disfarce, e membros foram expulsos pela razão declarada de se recusarem a sustentar o pregador que a Conferência pusera sobre eles.

Os fatos narrados neste capítulo mostram o espírito que prevalecia na Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal antes daquela ruptura na comunhão metodista que levou à formação da Igreja Metodista Livre. Esse espírito levou aos julgamentos de Roberts e McCreery e os instigou, e foi o principal responsável pela divisão final da igreja e pela organização de outra comunhão metodista. O espírito de perseguição continuou contra os representantes da piedade vital até que centenas foram expulsos do seu lar eclesiástico, e centenas mais foram tão cruelmente oprimidos dentro daquele corpo que supunham ser o seu lar eclesiástico que preferiram separar-se dele e sair “fora do acampamento, levando a mesma desonra que ele suportou” (Hb 13.13), em vez de fazer as concessões de princípio que lhes eram exigidas para que pudessem ter a comunhão dos seus irmãos.

Aqueles foram tempos que puseram à prova a alma dos homens e testaram a sua têmpera espiritual. No meio de todas essas coisas desagradáveis e cruéis, porém, os perseguidos em geral conservaram a alma na perseverança (Lc 21.19) e até se alegraram por terem sido “considerados dignos de sofrer afrontas” (At 5.41) pelo nome do seu Mestre. A palavra do Senhor prevalecia poderosamente, a obra do Senhor prosperava grandemente, e o perseguido povo de Deus se enchia de paz, de amor e de santa alegria, e podia dizer, com as palavras tantas vezes ditas por John Wesley enquanto a perseguição ímpia se enfurecia em volta da cabeça dos primeiros metodistas: “O melhor de tudo é que Deus está conosco.”

Notas do autor

  1. Uma mensagem apresentada pelo Rev. I. Chamberlayne, da Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal, na sessão realizada em Perry, Nova York, no outono de 1858, e adotada pela maioria da “Regência” daquele corpo. Embora se apresentasse como um apelo à união, era antes uma repreensão geral aos chamados “nazaritas” pela sua suposta insubordinação, pelo fanatismo, pelo descaso com a reputação e com as conveniências comuns da vida e pela introdução de cisma nas igrejas. A essa Carta Pastoral uma minoria muito respeitável da Conferência apresentou, e depois publicou, um Protesto muito digno e forte, que, para quem lê a história dos dois lados daqueles acontecimentos quase sessenta anos depois, com a visão mental não obscurecida por preconceitos, parece ter sido uma negação muito justificável dos atos de que eram acusados. O Protesto foi assinado por L. Stiles, secretário da Comissão do Protesto. Foi também publicada uma Resenha da Carta Pastoral por “Jonadab”, presumivelmente Joseph McCreery, na qual, com o seu vigor habitual, ele declarou a Carta “partidária”, “caluniosa” e “falsa”, e reuniu um forte conjunto de provas para sustentar as suas afirmações. ↩

Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.