Eusébio, História Eclesiástica · Livro II
Marcos no Egito; os ascetas descritos por Fílon e as obras dele; Jerusalém sob Nero; Paulo em Roma; o martírio de Tiago, irmão do Senhor; Pedro e Paulo mártires sob Nero; o começo da guerra dos judeus.
1. Dizem que esse Marcos foi o primeiro a ser enviado ao Egito, que lá anunciou o Evangelho que havia escrito e que foi o primeiro a fundar igrejas em Alexandria.
2. E a multidão de crentes, homens e mulheres, que ali se reuniu desde o princípio e levava uma vida de ascetismo extremo e altamente filosófico, era tão grande que Fílon julgou valer a pena descrever as suas ocupações, as suas reuniões, as suas refeições e todo o seu modo de vida.
1. Diz-se também que Fílon, no reinado de Cláudio, conheceu em Roma a Pedro, que então pregava ali. E isso não é de fato improvável, pois a obra de que falamos, composta por ele alguns anos depois, contém claramente aquelas regras da Igreja que até hoje são observadas entre nós.
2. E, visto que ele descreve com a maior exatidão possível a vida dos nossos ascetas, é claro que não apenas conhecia, mas também aprovava, venerava e exaltava os homens apostólicos do seu tempo. Estes, ao que parece, eram de raça hebreia e por isso observavam, à maneira dos judeus, a maior parte dos costumes dos antigos.
3. Na obra a que deu o título Sobre a vida contemplativa ou Sobre os suplicantes, depois de afirmar, em primeiro lugar, que não acrescentará ao que vai relatar nada contrário à verdade nem de sua própria invenção, ele diz que esses homens eram chamados terapeutas, e as mulheres que estavam com eles, terapêutrides. Em seguida, acrescenta as razões desse nome. Explica-o pelo fato de aplicarem remédios e curarem as almas dos que os procuravam, aliviando-as das paixões más como médicos, ou pelo fato de servirem e adorarem a Divindade com pureza e sinceridade.
4. Se o próprio Fílon lhes deu esse nome, usando um epíteto bem apropriado ao seu modo de vida, ou se os primeiros deles realmente assim se chamavam no princípio, já que o nome de cristãos ainda não era conhecido em toda parte, não precisamos discutir aqui.
5. Ele dá testemunho, porém, de que antes de tudo renunciam aos seus bens. Quando começam o modo de vida filosófico, diz ele, entregam os seus bens aos parentes e depois, renunciando a todas as preocupações da vida, saem para além das muralhas e moram em campos e jardins solitários, sabendo bem que o convívio com pessoas de caráter diferente é inútil e prejudicial. Faziam isso naquele tempo, ao que parece, sob a influência de uma fé viva e ardente, praticando por emulação o modo de vida dos profetas.
6. Pois nos Atos dos Apóstolos, obra universalmente reconhecida como autêntica, está registrado que todos os companheiros dos apóstolos vendiam as suas posses e os seus bens e os distribuíam a todos, segundo a necessidade de cada um, de modo que ninguém entre eles passava necessidade. “Porque os que possuíam terras ou casas”, como diz o relato, “vendendo-as, traziam os valores correspondentes e os depositavam aos pés dos apóstolos; então se distribuía a cada um conforme a sua necessidade” (At 4.34-35).
7. Fílon dá testemunho de fatos muito semelhantes aos que aqui se descrevem e depois acrescenta o seguinte relato: “Em toda parte do mundo se encontra esta raça. Pois convinha que tanto o grego como o bárbaro participassem do que é perfeitamente bom. Mas a raça abunda particularmente no Egito, em cada um dos seus chamados nomos, e sobretudo em torno de Alexandria.
8. Os melhores homens de toda parte emigram, como para uma colônia da pátria dos terapeutas, para um lugar muito apropriado, situado acima do lago Maria, sobre uma colina baixa, excelentemente localizada por causa da segurança e da suavidade do clima.”
9. E então, um pouco adiante, depois de descrever o tipo de casas que tinham, fala assim das suas igrejas, espalhadas aqui e ali: “Em cada casa há um aposento sagrado, chamado santuário e mosteiro, onde, inteiramente sós, celebram os mistérios da vida religiosa. Nada levam para ali, nem bebida, nem comida, nem qualquer outra coisa das que servem às necessidades do corpo, mas somente as leis, os oráculos inspirados dos profetas, hinos e outras coisas semelhantes, que aumentam e aperfeiçoam o seu conhecimento e a sua piedade.”
10. E, depois de algumas outras coisas, diz:
“Todo o intervalo, da manhã à tarde, é para eles um tempo de exercício. Pois leem as santas Escrituras e explicam a filosofia dos seus pais de modo alegórico, considerando as palavras escritas como símbolos de uma verdade oculta, que se comunica em figuras obscuras.
11. Têm também escritos de homens antigos, que foram os fundadores da sua seita e deixaram muitos monumentos do método alegórico. Usam-nos como modelos e imitam os seus princípios.”
12. Essas coisas parecem ter sido ditas por um homem que os ouvira expor os seus escritos sagrados. É muito provável, porém, que as obras dos antigos que, segundo ele, eles possuíam fossem os Evangelhos e os escritos dos apóstolos, e provavelmente algumas exposições dos antigos profetas, como as que se encontram na Epístola aos Hebreus e em muitas outras epístolas de Paulo.
13. Depois ele escreve ainda o seguinte a respeito dos novos salmos que compunham: “Assim, não só passam o tempo em meditação, mas também compõem cânticos e hinos a Deus em toda variedade de métrica e melodia, embora os dividam, naturalmente, em medidas de solenidade mais que comum.”
14. O mesmo livro contém o relato de muitas outras coisas, mas pareceu necessário escolher aqueles fatos que mostram as características do modo de vida eclesiástico.
15. Mas, se alguém pensa que o que foi dito não é próprio da comunidade do Evangelho e pode aplicar-se a outros além dos mencionados, convença-se pelas palavras seguintes do mesmo autor, nas quais, se não tiver preconceito, encontrará um testemunho indiscutível sobre este assunto. As palavras de Fílon são estas:
16. “Tendo posto a temperança na alma como uma espécie de alicerce, edificam sobre ela as outras virtudes. Nenhum deles pode tomar comida ou bebida antes do pôr do sol, pois consideram o filosofar uma obra digna da luz, e o cuidado com as necessidades do corpo próprio somente das trevas. Por isso destinam o dia àquele e a este uma pequena parte da noite.
17. Alguns, porém, em quem habita um grande desejo de conhecimento, esquecem-se de comer por três dias; e alguns se deleitam tanto e se banqueteiam tão fartamente com a sabedoria, que lhes fornece doutrinas com riqueza e sem medida, que se abstêm até o dobro desse tempo e costumam, depois de seis dias, mal tomar o alimento necessário.” Consideramos que essas afirmações de Fílon se referem clara e indiscutivelmente aos da nossa comunhão.
18. Mas, se depois disso alguém ainda persiste obstinadamente em negar essa referência, renuncie à sua incredulidade e convença-se por exemplos ainda mais marcantes, que não se encontram em nenhum outro lugar senão na religião evangélica dos cristãos.
19. Pois dizem que havia também mulheres com aqueles de quem falamos, e que a maioria delas eram virgens idosas que tinham guardado a castidade, não por necessidade, como algumas das sacerdotisas entre os gregos, mas antes por escolha própria, por zelo e desejo de sabedoria. E que, no seu ardente desejo de viver com ela como companheira, não davam atenção aos prazeres do corpo, buscando não uma descendência mortal, mas imortal, que somente a alma piedosa é capaz de gerar de si mesma.
20. Depois, um pouco adiante, acrescenta com ênfase ainda maior: “Expõem as Sagradas Escrituras figuradamente, por meio de alegorias. Pois toda a lei parece a esses homens semelhante a um organismo vivo, cujo corpo são as palavras faladas, enquanto o sentido oculto guardado dentro das palavras constitui a alma. Esse sentido oculto foi estudado em particular, antes de todos, por esta seita, que vê, revelada como num espelho de nomes, a beleza extraordinária dos pensamentos.”
21. Por que é necessário acrescentar a essas coisas as suas reuniões e as respectivas ocupações dos homens e das mulheres durante essas reuniões, e as práticas que até hoje são habitualmente observadas por nós, especialmente as que costumamos observar na festa da paixão do Salvador, com jejum, vigílias noturnas e estudo da palavra divina?
22. Essas coisas o autor acima mencionado relatou na sua própria obra, indicando um modo de vida que até o presente só nós preservamos. Registra especialmente as vigílias guardadas por ocasião da grande festa, os exercícios realizados durante essas vigílias e os hinos que costumamos recitar. Descreve como, enquanto um canta com ritmo regular, os outros escutam em silêncio e se juntam ao canto apenas no final dos hinos; e como, nos dias mencionados, dormem no chão sobre leitos de palha e, para usar as suas próprias palavras, “não provam vinho algum, nem carne alguma, mas a água é a sua única bebida, e o tempero do seu pão é sal e hissopo”.
23. Além disso, Fílon descreve a ordem das dignidades que existe entre os que realizam os serviços da igreja, mencionando o diaconato e o ofício de bispo, que tem precedência sobre todos os outros. Mas quem desejar um conhecimento mais exato dessas coisas pode obtê-lo da história já citada.
24. Mas que Fílon, quando escreveu essas coisas, tinha em vista os primeiros arautos do Evangelho e os costumes transmitidos desde o princípio pelos apóstolos, é claro para todos.
1. Rico na linguagem, amplo no pensamento, sublime e elevado nas suas concepções da divina Escritura, Fílon produziu múltiplas e variadas exposições dos livros sagrados. De um lado, expõe em ordem os acontecimentos registrados no Gênesis, nos livros a que dá o título Alegorias das leis sagradas; de outro, faz divisões sucessivas dos capítulos das Escrituras que são objeto de investigação e apresenta objeções e soluções, nos livros que chama, com muita propriedade, Questões e respostas sobre o Gênesis e o Êxodo.
2. Há, além desses, tratados expressamente elaborados por ele sobre certos assuntos, como os dois livros Sobre a agricultura e outros tantos Sobre a embriaguez; e alguns outros, distinguidos por títulos diferentes, correspondentes ao conteúdo de cada um. Por exemplo: Sobre as coisas que a mente sóbria deseja e detesta, Sobre a confusão das línguas, Sobre a fuga e a descoberta, Sobre a reunião para fins de instrução, Sobre a pergunta ‘Quem é o herdeiro das coisas divinas?’ ou Sobre a divisão das coisas em iguais e desiguais, e ainda a obra Sobre as três virtudes que, com outras, foram descritas por Moisés.
3. Além dessas, há a obra Sobre aqueles cujos nomes foram mudados e por que foram mudados, na qual diz que escrevera também dois livros Sobre as alianças.
4. Há também uma obra sua Sobre a migração e outra Sobre a vida do sábio aperfeiçoado na justiça, ou Sobre as leis não escritas; e ainda a obra Sobre os gigantes ou Sobre a imutabilidade de Deus, e um primeiro, segundo, terceiro, quarto e quinto livro Sobre a proposição de que os sonhos, segundo Moisés, são enviados por Deus. Esses são os livros sobre o Gênesis que chegaram até nós.
5. Sobre o Êxodo, porém, conhecemos o primeiro, segundo, terceiro, quarto e quinto livros de Questões e respostas; também a obra Sobre o tabernáculo e a obra Sobre os dez mandamentos, e os quatro livros Sobre as leis que se referem especialmente às divisões principais dos dez mandamentos, e outra Sobre os animais destinados ao sacrifício e Sobre os tipos de sacrifício, e outra Sobre as recompensas fixadas na lei para os bons e sobre os castigos e maldições fixados para os ímpios.
6. Além de todas essas, existem também algumas obras suas de um só volume, como, por exemplo, a obra Sobre a providência, o livro que compôs Sobre os judeus e O estadista; e ainda Alexandre, ou Sobre a posse da razão pelos animais irracionais. Além dessas, há uma obra Sobre a proposição de que todo homem mau é escravo, à qual se segue a obra Sobre a proposição de que todo homem bom é livre.
7. Depois dessas, compôs a obra Sobre a vida contemplativa, ou Sobre os suplicantes, da qual extraímos os fatos referentes à vida dos homens apostólicos; e diz-se ainda que a Interpretação dos nomes hebraicos da lei e dos profetas é fruto do seu trabalho.
8. Diz-se também que, no reinado de Cláudio, ele leu diante de todo o Senado romano a obra que havia escrito, quando veio a Roma sob Caio, sobre o ódio de Caio aos deuses, e à qual dera, com ironia quanto ao seu caráter, o título Sobre as virtudes. E os seus discursos foram tão admirados que foram julgados dignos de um lugar nas bibliotecas.
9. Nesse tempo, enquanto Paulo completava a sua viagem “desde Jerusalém e arredores até o Ilírico” (Rm 15.19), Cláudio expulsou os judeus de Roma; e Áquila e Priscila, deixando Roma com os outros judeus, vieram para a Ásia e ali ficaram com o apóstolo Paulo, que confirmava as igrejas daquela região, cujos alicerces ele lançara pouco antes. O livro sagrado dos Atos também nos informa dessas coisas.
1. Sendo Cláudio ainda imperador, aconteceu que, na festa da Páscoa, houve em Jerusalém tão grande tumulto e desordem que pereceram trinta mil judeus, só entre os que se haviam aglomerado à força junto à porta do templo, pisoteados uns pelos outros. Assim a festa se tornou tempo de luto para toda a nação, e houve choro em todas as casas. Essas coisas são relatadas textualmente por Josefo.
2. Cláudio nomeou Agripa, filho de Agripa, rei dos judeus, tendo enviado Félix como procurador de toda a região de Samaria e da Galileia, e da terra chamada Pereia. E, depois de reinar treze anos e oito meses, morreu e deixou Nero como seu sucessor no império.
1. Josefo relata ainda, no vigésimo livro das suas Antiguidades, a contenda que surgiu entre os sacerdotes durante o reinado de Nero, quando Félix era procurador da Judeia.
2. As suas palavras são estas: “Surgiu uma contenda entre os sumos sacerdotes, de um lado, e os sacerdotes e líderes do povo de Jerusalém, de outro. E cada um deles reuniu um bando dos homens mais ousados e turbulentos e se pôs à frente deles; e, sempre que se encontravam, lançavam injúrias e pedras uns contra os outros. E não havia ninguém que interviesse; essas coisas se faziam à vontade, como numa cidade privada de governante.
3. E tão grande era a falta de pudor e a audácia dos sumos sacerdotes que ousavam mandar os seus servos às eiras para tomar os dízimos devidos aos sacerdotes; e assim se viam perecer de necessidade os sacerdotes que eram pobres. Desse modo a violência das facções prevalecia sobre toda a justiça.”
4. E o mesmo autor relata ainda que por esse mesmo tempo surgiu em Jerusalém certo tipo de bandidos “que de dia”, como ele diz, “e no meio da cidade matavam os que encontravam”.
5. Pois, sobretudo nas festas, misturavam-se à multidão e, com punhais curtos que escondiam sob as vestes, apunhalavam os homens mais ilustres. E, quando estes caíam, os próprios assassinos estavam entre os que expressavam indignação. E assim, pela confiança que todos depositavam neles, permaneciam sem ser descobertos.
6. O primeiro a ser morto por eles foi Jônatas, o sumo sacerdote; e depois dele muitos eram mortos a cada dia, até que o medo se tornou pior do que o próprio mal, cada um esperando a morte a toda hora, como numa batalha.
1. Depois de outras coisas, prossegue assim: “Mas os judeus foram afligidos com uma praga maior do que essas pelo falso profeta egípcio. Pois apareceu na terra um impostor que despertou fé em si mesmo como profeta e reuniu cerca de trinta mil dos que havia enganado. Conduziu-os do deserto ao chamado monte das Oliveiras, de onde estava pronto para entrar à força em Jerusalém, dominar a guarnição romana e tomar o governo do povo, usando como guarda-costas os que fizessem o ataque com ele.
2. Mas Félix antecipou-se ao seu ataque e saiu ao seu encontro com os legionários romanos, e todo o povo se juntou à defesa. Assim, travada a batalha, o egípcio fugiu com alguns seguidores, mas a maioria deles foi destruída ou feita prisioneira.”
3. Josefo relata esses acontecimentos no segundo livro da sua História. Mas vale a pena comparar o relato sobre o egípcio aqui apresentado com o que se encontra nos Atos dos Apóstolos. No tempo de Félix, quando a multidão dos judeus provocou um tumulto contra o apóstolo, o centurião em Jerusalém disse a Paulo: “Você não é aquele que, algum tempo atrás, provocou uma revolta e levou para o deserto quatro mil homens assassinos?” (At 21.38). Esses são os acontecimentos que se deram no tempo de Félix.
1. Festo foi enviado por Nero para ser o sucessor de Félix. Sob ele, Paulo, depois de fazer a sua defesa, foi enviado preso a Roma. Aristarco estava com ele, a quem, em algum lugar das suas epístolas, chama com toda a naturalidade de seu companheiro de prisão (Cl 4.10). E Lucas, que escreveu os Atos dos Apóstolos, encerrou a sua história nesse ponto, depois de declarar que Paulo passou dois anos inteiros em Roma como prisioneiro em liberdade vigiada e pregou a palavra de Deus sem impedimento (At 28.30-31).
2. Assim, depois de feita a sua defesa, diz-se que o apóstolo foi enviado de novo ao ministério da pregação e que, vindo pela segunda vez à mesma cidade, sofreu o martírio. Nessa prisão escreveu a sua segunda epístola a Timóteo, na qual menciona a sua primeira defesa e a sua morte iminente.
3. Mas ouçam o seu testemunho sobre essas coisas: “Na minha primeira defesa”, diz ele, “ninguém foi a meu favor; todos me abandonaram. Que isto não lhes seja posto na conta! Mas o Senhor esteve ao meu lado e me revestiu de forças, para que, através de mim, a pregação fosse plenamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem. E fui libertado da boca do leão” (2Tm 4.16-17).
4. Ele indica claramente com essas palavras que, na ocasião anterior, foi livrado da boca do leão para que a pregação fosse cumprida por meio dele, referindo-se com essa expressão a Nero, como é provável, por causa da crueldade deste. Por isso não acrescentou depois a afirmação semelhante “Ele me livrará da boca do leão”, pois viu em espírito que o seu fim não tardaria.
5. Por essa razão, às palavras “E fui libertado da boca do leão” acrescenta esta frase: “O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu Reino celestial” (2Tm 4.18), indicando o seu martírio próximo. Isso ele prediz ainda mais claramente na mesma epístola, quando escreve: “Quanto a mim, já estou sendo oferecido por libação, e o tempo da minha partida chegou” (2Tm 4.6).
6. Na sua segunda epístola a Timóteo, além disso, indica que Lucas estava com ele quando escreveu (2Tm 4.11), mas que na sua primeira defesa nem mesmo ele estava (2Tm 4.16). Daí é provável que Lucas tenha escrito os Atos dos Apóstolos naquele tempo, continuando a sua história até o período em que esteve com Paulo.
7. Mas essas coisas foram apresentadas por nós para mostrar que o martírio de Paulo não ocorreu no tempo daquela permanência em Roma que Lucas registra.
8. É provável, de fato, que, estando Nero mais inclinado à brandura no princípio, a defesa que Paulo fez da sua doutrina tenha sido recebida mais facilmente; mas que, depois que ele avançou para a prática de atos ousados e ímpios, tenha feito dos apóstolos, como de outros, alvo dos seus ataques.
1. Depois que Paulo, em consequência da sua apelação a César, foi enviado a Roma por Festo, os judeus, frustrados na esperança de apanhá-lo nas ciladas que lhe haviam armado, voltaram-se contra Tiago, o irmão do Senhor, a quem os apóstolos tinham confiado a cátedra episcopal de Jerusalém. Contra ele empreenderam as seguintes medidas audaciosas.
2. Levando-o para o meio deles, exigiram que renunciasse à fé em Cristo na presença de todo o povo. Mas, contra a expectativa de todos, com voz clara e com maior ousadia do que haviam previsto, ele falou diante de toda a multidão e confessou que o nosso Salvador e Senhor Jesus é o Filho de Deus. Eles, porém, não conseguiram suportar por mais tempo o testemunho do homem que, pela excelência da virtude ascética e da piedade que mostrava na sua vida, era estimado por todos como o mais justo dos homens, e por isso o mataram. A ocasião para esse ato de violência foi dada pela anarquia reinante, causada pelo fato de Festo ter morrido justamente nesse tempo na Judeia, e de a província ter ficado assim sem governador e sem chefe.
3. O modo da morte de Tiago já foi indicado pelas palavras de Clemente citadas acima, que registra que ele foi lançado do pináculo do templo e espancado até a morte com um porrete. Mas Hegesipo, que viveu logo depois dos apóstolos, dá o relato mais exato no quinto livro das suas Memórias. Escreve assim:
4. “Tiago, o irmão do Senhor, sucedeu no governo da Igreja juntamente com os apóstolos. Ele tem sido chamado o Justo por todos, desde o tempo do nosso Salvador até os dias de hoje; pois havia muitos que levavam o nome de Tiago.
5. Ele era santo desde o ventre de sua mãe; não bebia vinho nem bebida forte, nem comia carne. Navalha não passou sobre a sua cabeça; não se ungia com óleo e não frequentava os banhos.
6. Só a ele era permitido entrar no lugar santo, pois não usava vestes de lã, mas de linho. E costumava entrar sozinho no templo, e era encontrado com frequência de joelhos, pedindo perdão pelo povo, de modo que os seus joelhos se tornaram duros como os de um camelo, por dobrá-los constantemente na adoração a Deus, pedindo perdão pelo povo.
7. Por causa da sua grandíssima justiça, era chamado o Justo e Oblias, que significa em grego ‘Baluarte do povo’ e ‘Justiça’, conforme o que os profetas declaram a seu respeito.
8. Ora, alguns das sete seitas que existiam no meio do povo, e que mencionei nas Memórias, perguntaram-lhe: ‘Qual é a porta de Jesus?’ E ele respondeu que este era o Salvador.
9. Por causa dessas palavras, alguns creram que Jesus é o Cristo. Mas as seitas acima mencionadas não criam nem numa ressurreição nem na vinda de alguém para dar a cada um segundo as suas obras. Mas todos os que creram, creram por causa de Tiago.
10. Por isso, como muitos até dentre as autoridades creram, houve agitação entre os judeus, os escribas e os fariseus, que diziam haver o perigo de todo o povo passar a esperar Jesus como o Cristo. Vindo, pois, juntos a Tiago, disseram: ‘Nós te rogamos, contém o povo, pois se desviou a respeito de Jesus, como se ele fosse o Cristo. Nós te rogamos que persuadas a respeito de Jesus todos os que vieram para a festa da Páscoa, pois todos nós confiamos em ti. Pois damos testemunho de ti, como todo o povo, de que és justo e não fazes acepção de pessoas.
11. Persuade, pois, a multidão a não se desviar a respeito de Jesus. Pois todo o povo, e também todos nós, confiamos em ti. Põe-te, pois, sobre o pináculo do templo, para que dessa posição elevada sejas visto claramente e as tuas palavras sejam facilmente ouvidas por todo o povo. Pois todas as tribos, e também os gentios, se reuniram por causa da Páscoa.’
12. Os referidos escribas e fariseus puseram, pois, Tiago sobre o pináculo do templo e lhe gritaram, dizendo: ‘Ó justo, em quem todos devemos confiar, já que o povo se desvia atrás de Jesus, o crucificado, declara-nos qual é a porta de Jesus.’
13. E ele respondeu em alta voz: ‘Por que me perguntais a respeito de Jesus, o Filho do Homem? Ele mesmo está sentado no céu, à direita do grande Poder, e está para vir sobre as nuvens do céu.’
14. E, como muitos ficaram plenamente convencidos e se gloriaram no testemunho de Tiago, dizendo ‘Hosana ao Filho de Davi’, esses mesmos escribas e fariseus disseram de novo uns aos outros: ‘Fizemos mal em proporcionar tal testemunho a Jesus. Vamos subir e lançá-lo abaixo, para que tenham medo de crer nele.’
15. E gritaram, dizendo: ‘Oh! Oh! Até o justo está no erro.’ E cumpriram a Escritura escrita em Isaías: ‘Tiremos o justo, porque nos é incômodo; por isso comerão do fruto das suas ações’ (Is 3.10).
16. Subiram, pois, e lançaram abaixo o justo, e diziam uns aos outros: ‘Apedrejemos Tiago, o Justo.’ E começaram a apedrejá-lo, pois ele não morrera com a queda; mas ele se voltou, ajoelhou-se e disse: ‘Eu te rogo, Senhor Deus, nosso Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem’ (Lc 23.34).
17. E, enquanto assim o apedrejavam, um dos sacerdotes dos filhos de Recabe, filho dos recabitas, de quem fala o profeta Jeremias, gritou, dizendo: ‘Parai! Que fazeis? O justo está orando por vós.’
18. E um deles, que era pisoeiro, pegou o porrete com que batia as roupas e golpeou o justo na cabeça. E assim ele sofreu o martírio. E o sepultaram ali mesmo, junto ao templo, e o seu monumento ainda permanece junto ao templo. Ele se tornou verdadeira testemunha, tanto para judeus como para gregos, de que Jesus é o Cristo. E logo em seguida Vespasiano os sitiou.”
19. Essas coisas são relatadas por extenso por Hegesipo, que concorda com Clemente. Tiago era um homem tão admirável e tão célebre entre todos pela sua justiça que até os mais sensatos dentre os judeus eram de opinião que essa fora a causa do cerco de Jerusalém, que lhes sobreveio logo depois do seu martírio, por nenhuma outra razão senão o ato ousado que cometeram contra ele.
20. Josefo, ao menos, não hesitou em testemunhar isso nos seus escritos, onde diz: “Essas coisas aconteceram aos judeus para vingar Tiago, o Justo, que era irmão de Jesus, chamado o Cristo. Pois os judeus o mataram, embora fosse um homem justíssimo.”
21. E o mesmo escritor registra também a sua morte no vigésimo livro das suas Antiguidades, com as seguintes palavras: “Mas o imperador, quando soube da morte de Festo, enviou Albino como procurador da Judeia. Ora, o jovem Anano, que, como já dissemos, obtivera o sumo sacerdócio, era de temperamento extremamente ousado e temerário. Pertencia, além disso, à seita dos saduceus, que são os mais cruéis de todos os judeus na execução da justiça, como já mostramos.
22. Anano, portanto, sendo desse caráter e julgando ter uma ocasião favorável pelo fato de Festo estar morto e Albino ainda estar a caminho, convocou o Sinédrio e levou diante dele o irmão de Jesus, o chamado Cristo, de nome Tiago, juntamente com alguns outros. Acusou-os de violar a lei e os condenou a ser apedrejados.
23. Mas os que na cidade pareciam mais moderados e versados na lei ficaram muito irritados com isso e mandaram dizer secretamente ao rei, pedindo-lhe que ordenasse a Anano que cessasse tais procedimentos. Pois nem mesmo dessa primeira vez ele agira corretamente. E alguns deles foram também ao encontro de Albino, que vinha de Alexandria, e lembraram-lhe que não era lícito a Anano convocar o Sinédrio sem o seu conhecimento.
24. E Albino, persuadido pelas suas representações, escreveu irado a Anano, ameaçando-o com castigo. E o rei Agripa, em consequência, privou-o do sumo sacerdócio, que ocupara por três meses, e nomeou Jesus, filho de Daneu.”
25. Essas coisas estão registradas a respeito de Tiago, de quem se diz ser o autor da primeira das chamadas epístolas católicas. Mas deve-se observar que ela é contestada; pelo menos, não muitos dos antigos a mencionaram, como acontece também com a epístola que leva o nome de Judas, que também é uma das sete chamadas epístolas católicas. Sabemos, contudo, que também estas, com as demais, têm sido lidas publicamente em muitíssimas igrejas.
1. Estando Nero no oitavo ano do seu reinado, Aniano sucedeu a Marcos, o evangelista, na administração da igreja de Alexandria.
1. Quando o governo de Nero já estava firmemente estabelecido, ele começou a mergulhar em práticas ímpias e armou-se até contra a religião do Deus do universo.
2. Descrever a grandeza da sua depravação não faz parte do plano da presente obra. Como há muitos, de fato, que registraram a sua história em narrativas muito exatas, cada um pode, se quiser, aprender com eles a grosseria da extraordinária loucura desse homem. Sob a influência dela, depois de ter causado a destruição de tantas miríades sem razão alguma, chegou a tal ponto de culpa de sangue que não poupou nem os parentes mais próximos e os amigos mais queridos, mas destruiu a mãe, os irmãos e a esposa, com muitíssimos outros da sua própria família, como faria com inimigos particulares e públicos, com vários tipos de morte.
3. Mas, com todas essas coisas, ainda faltava no catálogo dos seus crimes este particular: ele foi o primeiro dos imperadores a mostrar-se inimigo da religião divina.
4. O romano Tertuliano é igualmente testemunha disso. Escreve assim: “Examinem os seus registros. Ali verão que Nero foi o primeiro a perseguir esta doutrina, particularmente quando, depois de subjugar todo o Oriente, exerceu a sua crueldade contra todos em Roma. Gloriamo-nos de ter tal homem como o iniciador do nosso castigo. Pois quem o conhece pode entender que nada foi condenado por Nero a não ser que fosse algo de grande excelência.”
5. Assim, proclamando-se publicamente o primeiro entre os principais inimigos de Deus, foi levado ao massacre dos apóstolos. Registra-se, portanto, que Paulo foi decapitado na própria Roma e que Pedro também foi crucificado sob Nero. Esse relato sobre Pedro e Paulo é confirmado pelo fato de que os seus nomes se conservam até hoje nos cemitérios daquele lugar.
6. É confirmado igualmente por Caio, membro da Igreja, que surgiu no tempo de Zeferino, bispo de Roma. Ele, numa disputa publicada com Proclo, o chefe da heresia frígia, fala assim dos lugares onde estão depositados os corpos sagrados dos referidos apóstolos:
7. “Mas eu posso mostrar os troféus dos apóstolos. Pois, se fores ao Vaticano ou à Via Ostiense, encontrarás os troféus daqueles que lançaram os alicerces desta igreja.”
8. E que ambos sofreram o martírio ao mesmo tempo é afirmado por Dionísio, bispo de Corinto, na sua epístola aos romanos, com as seguintes palavras: “Assim, por meio de tal admoestação, vocês uniram a plantação de Pedro e de Paulo em Roma e em Corinto. Pois ambos plantaram e igualmente nos ensinaram na nossa Corinto. E ensinaram juntos, do mesmo modo, na Itália, e sofreram o martírio ao mesmo tempo.” Citei essas coisas para que a verdade da história fosse ainda mais confirmada.
1. Josefo, mais uma vez, depois de relatar muitas coisas a respeito da calamidade que sobreveio a toda a nação judaica, registra, além de muitas outras circunstâncias, que muitíssimos dos judeus mais honrados foram açoitados na própria Jerusalém e depois crucificados por Floro. Aconteceu que ele era procurador da Judeia quando a guerra começou a acender-se, no décimo segundo ano de Nero.
2. Josefo diz que naquele tempo uma terrível agitação se levantou em toda a Síria em consequência da revolta dos judeus, e que em toda parte estes eram destruídos sem misericórdia, como inimigos, pelos habitantes das cidades, “de modo que se podiam ver cidades cheias de cadáveres insepultos, os corpos dos velhos espalhados com os corpos das crianças, e mulheres sem sequer uma coberta para a sua nudez, e toda a província cheia de calamidades indescritíveis, enquanto o pavor das coisas ameaçadas era maior do que os próprios sofrimentos que em qualquer lugar suportavam”. Tal é o relato de Josefo; e tal era a condição dos judeus naquele tempo.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.