Eusébio, História Eclesiástica · Livro III
Histórias do apóstolo João; a ordem dos Evangelhos; os escritos reconhecidos, contestados e espúrios; ebionitas, Cerinto e nicolaítas; Trajano; Inácio e as suas cartas; os escritos de Papias.
1. Naquele tempo, o apóstolo e evangelista João, aquele a quem Jesus amava, ainda vivia na Ásia e governava as igrejas daquela região, pois voltara do exílio na ilha depois da morte de Domiciano.
2. Que ele ainda estava vivo naquela época, pode-se comprovar pelo testemunho de duas testemunhas. Dignas de crédito devem ser as que mantiveram a ortodoxia da Igreja; e tais foram, de fato, Irineu e Clemente de Alexandria.
3. O primeiro, no segundo livro de sua obra Contra as heresias, escreve o seguinte: “E todos os presbíteros que conviveram na Ásia com João, o discípulo do Senhor, testemunham que João lhes transmitiu isso. Pois ele permaneceu entre eles até o tempo de Trajano.”
4. E no terceiro livro da mesma obra ele atesta a mesma coisa com estas palavras: “Mas também a igreja de Éfeso, fundada por Paulo, e onde João permaneceu até o tempo de Trajano, é testemunha fiel da tradição apostólica.”
5. Clemente, do mesmo modo, em seu livro intitulado Que rico pode ser salvo?, indica o tempo e acrescenta uma narrativa muito atraente para os que gostam de ouvir o que é belo e proveitoso. Tome e leia o relato, que diz o seguinte:
6. “Escute uma história, que não é mera história, mas uma narrativa a respeito do apóstolo João, transmitida e guardada na memória. Quando, depois da morte do tirano, ele voltou da ilha de Patmos para Éfeso, ia, a convite deles, aos territórios vizinhos dos gentios, em alguns lugares para estabelecer bispos, em outros para pôr em ordem igrejas inteiras, em outros ainda para escolher para o ministério algum dos que tinham sido indicados pelo Espírito.
7. Tendo chegado a uma das cidades não muito distantes (cujo nome alguns chegam a dar) e tendo consolado os irmãos em outros assuntos, voltou-se por fim para o bispo que ali fora estabelecido e, vendo um jovem de físico vigoroso, de aparência agradável e de temperamento ardente, disse: ‘Este eu te confio com todo o empenho, na presença da Igreja e tendo Cristo por testemunha.’ E, quando o bispo aceitou o encargo e prometeu tudo, João repetiu a mesma recomendação, apelando às mesmas testemunhas, e então partiu para Éfeso.
8. O presbítero, levando para casa o jovem que lhe fora confiado, criou-o, guardou-o, cuidou dele e por fim o batizou. Depois disso, afrouxou o cuidado e a vigilância mais estritos, pensando que, ao pôr sobre ele o selo do Senhor, lhe havia dado uma proteção perfeita.
9. Mas alguns jovens da mesma idade, ociosos e dissolutos, acostumados a más práticas, corromperam-no, assim libertado antes do tempo. Primeiro o atraíram com banquetes caros; depois, quando saíam à noite para roubar, levavam-no consigo; e por fim exigiram que se unisse a eles em algum crime maior.
10. Ele foi se acostumando pouco a pouco a essas práticas e, pela firmeza de seu caráter, deixando o caminho reto e tomando o freio nos dentes como um cavalo forte e de boca dura, precipitou-se com mais violência ainda para o abismo.
11. E por fim, desesperando da salvação em Deus, já não pensava em coisas pequenas, mas, tendo cometido algum grande crime, visto que estava perdido de uma vez por todas, esperava sofrer a mesma sorte que os demais. Tomando-os, pois, consigo e formando um bando de salteadores, tornou-se um chefe de bandidos ousado, o mais violento, o mais sanguinário, o mais cruel de todos.
12. O tempo passou e, surgindo alguma necessidade, mandaram chamar João. Ele, depois de pôr em ordem os outros assuntos por causa dos quais viera, disse: ‘Vamos, bispo, devolve-nos o depósito que eu e Cristo te confiamos, sendo testemunha a igreja que presides.’
13. O bispo a princípio ficou confuso, pensando que estava sendo falsamente acusado a respeito de um dinheiro que não recebera; não podia crer na acusação acerca do que não tinha, nem podia descrer de João. Mas, quando João disse: ‘Reclamo o jovem e a alma do irmão’, o ancião, gemendo profundamente e ao mesmo tempo rompendo em lágrimas, disse: ‘Ele está morto.’ ‘Como, e de que morte?’ ‘Está morto para Deus’, disse ele, ‘pois tornou-se mau e perdido e, por fim, salteador. E agora, em vez da igreja, frequenta o monte com um bando semelhante a ele.’
14. Então o apóstolo rasgou as vestes e, batendo na cabeça com grande lamento, disse: ‘Belo guarda deixei para a alma de um irmão! Mas tragam-me um cavalo, e alguém me mostre o caminho.’ Partiu da igreja a cavalo, assim como estava, e, chegando ao lugar, foi feito prisioneiro pela sentinela dos salteadores.
15. Ele, porém, nem fugiu nem suplicou, mas gritou: ‘Para isto vim; levem-me ao chefe de vocês.’
16. Este, enquanto isso, esperava, armado como estava. Mas, quando reconheceu João que se aproximava, envergonhado, voltou-se para fugir.
17. João, porém, esquecido de sua idade, perseguiu-o com todas as forças, gritando: ‘Por que foges de mim, meu filho, de teu próprio pai, desarmado e velho? Tem compaixão de mim, meu filho; não temas; ainda tens esperança de vida. Eu prestarei contas a Cristo por ti. Se for preciso, suportarei de boa vontade a tua morte, como o Senhor sofreu a morte por nós. Por ti darei a minha vida. Para, crê; Cristo me enviou.’
18. E ele, ao ouvir, primeiro parou e baixou os olhos; depois lançou fora as armas e então tremeu e chorou amargamente. E, quando o ancião se aproximou, abraçou-o, fazendo confissão com lamentos como podia, batizando-se pela segunda vez com lágrimas e escondendo apenas a mão direita.
19. Mas João, empenhando a palavra e assegurando-lhe com juramento que encontraria perdão junto ao Salvador, suplicou-lhe, caiu de joelhos, beijou-lhe a própria mão direita, como já purificada pelo arrependimento, e o reconduziu à igreja. E, intercedendo por ele com abundantes orações, lutando junto com ele em jejuns contínuos e subjugando-lhe a mente com palavras variadas, não partiu, como dizem, enquanto não o restituiu à igreja, oferecendo um grande exemplo de verdadeiro arrependimento e uma grande prova de regeneração, troféu de uma ressurreição visível.”
1. Inseri aqui este trecho de Clemente por amor à história e para proveito dos meus leitores. Indiquemos agora os escritos incontestados deste apóstolo.
2. Em primeiro lugar, deve-se reconhecer como genuíno o seu Evangelho, conhecido de todas as igrejas debaixo do céu. Que os antigos o colocaram com boa razão em quarto lugar, depois dos outros três Evangelhos, pode-se mostrar da maneira seguinte.
3. Aqueles homens grandes e verdadeiramente divinos, quero dizer, os apóstolos de Cristo, eram purificados em sua vida e adornados de toda virtude da alma, mas eram incultos no falar. Confiavam, sim, no poder divino e operador de maravilhas que o Salvador lhes concedera, mas não sabiam nem tentavam anunciar as doutrinas de seu mestre em linguagem estudada e artística. Valendo-se apenas da demonstração do Espírito divino, que operava com eles, e do poder milagroso de Cristo, que se manifestava por meio deles, divulgaram o conhecimento do reino dos céus pelo mundo inteiro, dando pouca atenção à composição de obras escritas.
4. E faziam isso porque eram assistidos em seu ministério por alguém maior que o homem. Paulo, por exemplo, que superou a todos no vigor da expressão e na riqueza do pensamento, não pôs por escrito mais que epístolas brevíssimas, embora tivesse inúmeras coisas misteriosas para comunicar, pois chegara até as visões do terceiro céu, fora arrebatado ao próprio paraíso de Deus e fora julgado digno de ouvir ali palavras indizíveis (2Co 12.2-4).
5. Também os demais seguidores de nosso Salvador, os doze apóstolos, os setenta discípulos e inúmeros outros além deles, não ignoravam essas coisas. Contudo, de todos os discípulos do Senhor, somente Mateus e João nos deixaram memórias escritas, e, segundo diz a tradição, só foram levados a escrever sob a pressão da necessidade.
6. Pois Mateus, que a princípio pregara aos hebreus, quando estava para ir a outros povos, pôs por escrito o seu Evangelho na língua materna e assim compensou, para aqueles que era obrigado a deixar, a perda de sua presença.
7. E, quando Marcos e Lucas já tinham publicado os seus Evangelhos, dizem que João, que empregara todo o seu tempo em anunciar o Evangelho de viva voz, finalmente se pôs a escrever pelo motivo seguinte. Tendo os três Evangelhos já mencionados chegado às mãos de todos, e também às dele, dizem que ele os aceitou e deu testemunho de sua veracidade; mas que lhes faltava um relato dos feitos de Cristo no começo do seu ministério.
8. E isso de fato é verdade. Pois é evidente que os três evangelistas registraram apenas os feitos do Salvador durante um ano depois da prisão de João Batista, e indicaram isso no começo do seu relato.
9. Pois Mateus, depois do jejum de quarenta dias e da tentação que se seguiu, indica a cronologia de sua obra quando diz: “Ao ouvir que João tinha sido entregue, retirou-se da Judeia para a Galileia” (Mt 4.12).
10. Marcos, do mesmo modo, diz: “Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia” (Mc 1.14). E Lucas, antes de começar o relato dos feitos de Jesus, marca igualmente o tempo, quando diz que Herodes, “acrescentando a todas as más ações que havia praticado, encerrou João na prisão” (Lc 3.20).
11. Dizem, pois, que o apóstolo João, solicitado a fazê-lo por esse motivo, deu em seu Evangelho um relato do período omitido pelos evangelistas anteriores e dos feitos do Salvador durante esse período, isto é, dos que foram realizados antes da prisão do Batista. E isso, dizem, é indicado por ele nestas palavras: “Jesus deu início a seus sinais” (Jo 2.11); e de novo quando se refere ao Batista, em meio aos feitos de Jesus, como ainda batizando em Enom, perto de Salim (Jo 3.23), onde declara a coisa claramente com as palavras: “Pois João ainda não havia sido preso” (Jo 3.24).
12. Assim João, em seu Evangelho, registra os feitos de Cristo realizados antes que o Batista fosse lançado na prisão, ao passo que os outros três evangelistas mencionam os acontecimentos posteriores a esse tempo.
13. Quem entende isso já não pode pensar que os Evangelhos estejam em desacordo entre si, visto que o Evangelho segundo João contém os primeiros atos de Cristo, enquanto os outros relatam a parte final de sua vida. E a genealogia de nosso Salvador segundo a carne, João naturalmente a omitiu, porque já fora dada por Mateus e Lucas, e começou pela doutrina da sua divindade, que, por assim dizer, lhe fora reservada pelo Espírito divino, como superior a eles.
14. Bastem estas coisas que dissemos a respeito do Evangelho de João. O motivo que levou à composição do Evangelho de Marcos já foi exposto por nós.
15. Quanto a Lucas, no começo do seu Evangelho ele mesmo expõe os motivos que o levaram a escrevê-lo. Declara que, visto que muitos outros haviam empreendido com certa temeridade compor uma narrativa dos acontecimentos de que ele adquirira perfeito conhecimento, ele próprio, sentindo a necessidade de nos livrar das opiniões incertas deles, apresentou em seu Evangelho um relato exato daqueles acontecimentos cuja plena verdade tinha aprendido, ajudado pela intimidade e pela convivência com Paulo e pelo conhecimento dos demais apóstolos.
16. Isso basta quanto ao nosso próprio relato dessas coisas. Mas, em lugar mais oportuno, procuraremos mostrar, com citações dos antigos, o que outros disseram a respeito delas.
17. Dos escritos de João, não só o Evangelho, mas também a primeira de suas epístolas tem sido aceita sem contestação, tanto agora como nos tempos antigos. Mas as outras duas são contestadas.
18. Quanto ao Apocalipse, as opiniões da maioria ainda estão divididas. Mas, no momento próprio, também essa questão será decidida pelo testemunho dos antigos.
1. Já que tratamos deste assunto, convém resumir os escritos do Novo Testamento já mencionados. Em primeiro lugar, deve-se pôr o santo quaternário dos Evangelhos; depois deles, os Atos dos Apóstolos.
2. Depois disso devem ser contadas as epístolas de Paulo; em seguida, deve-se admitir a primeira epístola de João que chegou até nós e, igualmente, a epístola de Pedro. Depois delas deve ser colocado, se de fato parecer conveniente, o Apocalipse de João, a respeito do qual daremos as diferentes opiniões no momento próprio. Estes, pois, pertencem aos escritos reconhecidos.
3. Entre os escritos contestados, que no entanto são conhecidos de muitos, encontram-se a chamada epístola de Tiago e a de Judas, também a segunda epístola de Pedro e as que são chamadas segunda e terceira de João, quer pertençam ao evangelista, quer a outra pessoa do mesmo nome.
4. Entre os escritos rejeitados devem ser contados também os Atos de Paulo, o chamado Pastor e o Apocalipse de Pedro, e, além destes, a epístola de Barnabé que chegou até nós e os chamados Ensinos dos Apóstolos; e ainda, como eu disse, o Apocalipse de João, se parecer conveniente, que alguns, como eu disse, rejeitam, mas que outros classificam entre os livros reconhecidos.
5. E entre estes alguns colocaram também o Evangelho segundo os Hebreus, com o qual se deleitam especialmente os hebreus que aceitaram a Cristo. E todos esses podem ser contados entre os livros contestados.
6. Ainda assim, sentimo-nos obrigados a dar um catálogo também destes, distinguindo as obras que, segundo a tradição eclesiástica, são verdadeiras, genuínas e comumente aceitas, daquelas outras que, embora não canônicas mas contestadas, são ao mesmo tempo conhecidas da maioria dos escritores eclesiásticos. Sentimo-nos obrigados a dar este catálogo para que possamos conhecer tanto essas obras como as que são citadas pelos hereges sob o nome dos apóstolos, incluindo, por exemplo, livros como os Evangelhos de Pedro, de Tomé, de Matias ou de quaisquer outros além deles, e os Atos de André, de João e dos outros apóstolos, que ninguém pertencente à sucessão dos escritores eclesiásticos julgou dignos de menção em seus escritos.
7. Além disso, o caráter do estilo destoa do uso apostólico, e tanto os pensamentos como o propósito das coisas que neles se relatam estão tão completamente em desacordo com a verdadeira ortodoxia que se mostram claramente ficções de hereges. Por isso, não devem ser colocados sequer entre os escritos rejeitados, mas devem todos ser lançados fora como absurdos e ímpios.
Prossigamos agora com a nossa história.
1. Menandro, que sucedeu a Simão Mago, mostrou-se em sua conduta outro instrumento do poder diabólico, não inferior ao primeiro. Também ele era samaritano e levou suas feitiçarias não menos longe que seu mestre, deleitando-se ao mesmo tempo em contos ainda mais prodigiosos que os dele.
2. Pois dizia que ele mesmo era o Salvador, enviado dos éons invisíveis para a salvação dos homens; e ensinava que ninguém poderia dominar os próprios anjos criadores do mundo se antes não tivesse passado pela disciplina mágica transmitida por ele e recebido dele o batismo. Os que fossem julgados dignos disso participariam, já na vida presente, de uma imortalidade perpétua e nunca morreriam, mas permaneceriam aqui para sempre e, sem envelhecer, se tornariam imortais. Esses fatos podem ser facilmente conhecidos pelas obras de Irineu.
3. E Justino, na passagem em que menciona Simão, dá notícia também deste homem, com estas palavras: “E sabemos que um certo Menandro, também samaritano, da aldeia de Caparateia, foi discípulo de Simão e que também ele, impelido pelos demônios, veio a Antioquia e enganou a muitos com sua arte mágica. E persuadiu seus seguidores de que não morreriam. E ainda há alguns deles que afirmam isso.”
4. Foi, de fato, um artifício do diabo procurar, por meio desses magos que tomavam o nome de cristãos, difamar com a arte mágica o grande mistério da piedade e, por meio deles, tornar ridículas as doutrinas da Igreja sobre a imortalidade da alma e a ressurreição dos mortos. Mas os que escolheram esses homens como seus salvadores decaíram da verdadeira esperança.
1. O demônio maligno, porém, não conseguindo arrancar alguns outros de sua fidelidade ao Cristo de Deus, achou-os, contudo, vulneráveis por outro lado, e assim os atraiu para os seus próprios desígnios. Os antigos, com muita propriedade, chamaram esses homens de ebionitas, porque tinham opiniões pobres e baixas a respeito de Cristo.
2. Pois o consideravam um homem simples e comum, justificado apenas por sua virtude superior, e fruto da união de um homem com Maria. Em sua opinião, a observância da lei cerimonial era absolutamente necessária, sob o argumento de que não podiam ser salvos somente pela fé em Cristo e por uma vida correspondente.
3. Havia, porém, além deles, outros do mesmo nome, que evitavam as crenças estranhas e absurdas dos primeiros e não negavam que o Senhor nasceu de uma virgem e do Espírito Santo. Mas, ainda assim, visto que também eles se recusavam a reconhecer que ele preexistia, sendo Deus, Verbo e Sabedoria, desviaram-se para a impiedade dos primeiros, sobretudo quando, como eles, procuravam observar estritamente o culto corporal da lei.
4. Esses homens, além disso, julgavam necessário rejeitar todas as epístolas do apóstolo, a quem chamavam apóstata da lei; e usavam apenas o chamado Evangelho segundo os Hebreus, fazendo pouco caso dos demais.
5. O sábado e o restante da disciplina dos judeus, eles os observavam exatamente como estes, mas ao mesmo tempo, como nós, celebravam os dias do Senhor como memorial da ressurreição do Salvador.
6. Por isso, em consequência de tal conduta, receberam o nome de ebionitas, que significava a pobreza do seu entendimento. Pois é por esse nome que entre os hebreus se chama o homem pobre.
1. Soubemos que nesse tempo apareceu Cerinto, autor de outra heresia. Caio, cujas palavras citamos acima, na Disputa que lhe é atribuída, escreve o seguinte a respeito desse homem:
2. “Mas também Cerinto, por meio de revelações que pretende terem sido escritas por um grande apóstolo, apresenta-nos coisas prodigiosas que falsamente afirma lhe terem sido mostradas por anjos; e diz que, depois da ressurreição, o reino de Cristo será estabelecido na terra e que a carne, habitando em Jerusalém, estará de novo sujeita a desejos e prazeres. E, sendo inimigo das Escrituras de Deus, afirma, com o propósito de enganar os homens, que haverá um período de mil anos de festas nupciais.”
3. E Dionísio, que foi bispo da igreja de Alexandria em nossos dias, no segundo livro de sua obra Sobre as promessas, onde diz algumas coisas acerca do Apocalipse de João que tira da tradição, menciona esse mesmo homem com estas palavras:
4. “Mas (dizem que) Cerinto, que fundou a seita chamada, por causa dele, cerintiana, desejando uma autoridade respeitável para a sua ficção, prefixou-lhe o nome. Pois a doutrina que ensinava era esta: que o reino de Cristo será terreno.
5. E, como ele próprio era dado aos prazeres do corpo e inteiramente sensual por natureza, sonhava que aquele reino consistiria nas coisas que ele desejava, a saber, nos deleites do ventre e da paixão sexual, isto é, em comer, beber e casar, e em festas, sacrifícios e imolações de vítimas, sob cujo disfarce julgava poder satisfazer seus apetites com melhor aparência.”
6. Estas são as palavras de Dionísio. Mas Irineu, no primeiro livro de sua obra Contra as heresias, apresenta algumas falsas doutrinas ainda mais abomináveis do mesmo homem e, no terceiro livro, relata uma história digna de registro. Diz, com base na autoridade de Policarpo, que o apóstolo João entrou certa vez numa casa de banhos para se banhar; mas, sabendo que Cerinto estava lá dentro, saltou do lugar e correu porta afora, pois não suportava permanecer sob o mesmo teto que ele. E aconselhou os que estavam com ele a fazer o mesmo, dizendo: “Fujamos, para que a casa de banhos não desabe, pois Cerinto, o inimigo da verdade, está lá dentro.”
1. Nesse tempo apareceu a chamada seita dos nicolaítas, que durou pouquíssimo tempo. Ela é mencionada no Apocalipse de João. Gabavam-se de que o autor da sua seita era Nicolau, um dos diáconos que, com Estêvão, foram estabelecidos pelos apóstolos para servir aos pobres. Clemente de Alexandria, no terceiro livro dos seus Stromata, relata a respeito dele as seguintes coisas:
2. “Dizem que ele tinha uma bela esposa e que, depois da ascensão do Salvador, acusado de ciúme pelos apóstolos, levou-a ao meio deles e deu permissão a quem quisesse para desposá-la. Pois dizem que isso estava de acordo com aquele seu dito, de que se deve abusar da carne. E os que seguiram a sua heresia, imitando cega e insensatamente o que foi feito e dito, cometem fornicação sem pudor.
3. Mas eu entendo que Nicolau não teve relações com outra mulher além daquela com quem era casado e que, quanto aos seus filhos, as filhas permaneceram virgens até a velhice e o filho permaneceu incorrupto. Se é assim, quando levou ao meio dos apóstolos a esposa que amava com ciúme, evidentemente renunciava à sua paixão; e, quando usou a expressão ‘abusar da carne’, inculcava o domínio de si diante dos prazeres avidamente buscados. Pois suponho que, de acordo com o mandamento do Salvador, ele não queria servir a dois senhores, o prazer e o Senhor (Mt 6.24).
4. Mas dizem que também Matias ensinou da mesma maneira que devemos combater a carne e abusar dela, e não ceder a ela por amor ao prazer, mas fortalecer a alma pela fé e pelo conhecimento.” Isso basta a respeito dos que então tentaram perverter a verdade, mas que, em menos tempo do que se leva para contá-lo, se extinguiram por completo.
1. Clemente, cujas palavras acabamos de citar, depois dos fatos acima mencionados, apresenta, por causa dos que rejeitavam o casamento, uma relação dos apóstolos que tiveram esposa. “Ou rejeitarão”, diz ele, “até os apóstolos? Pois Pedro e Filipe geraram filhos; e Filipe também deu suas filhas em casamento. E Paulo não hesita, numa de suas epístolas, em saudar sua esposa, a quem não levava consigo, para não ser embaraçado em seu ministério.”
2. E, já que mencionamos este assunto, não é impróprio acrescentar outro relato, dado pelo mesmo autor, que vale a pena ler. No sétimo livro dos seus Stromata ele escreve o seguinte: “Dizem, pois, que o bem-aventurado Pedro, quando viu a própria esposa ser levada à morte, alegrou-se por causa do chamado dela e do seu regresso à casa, e falou-lhe de modo muito encorajador e consolador, chamando-a pelo nome e dizendo: ‘Ó tu, lembra-te do Senhor.’ Tal era o casamento dos bem-aventurados e a perfeita disposição deles para com os que lhes eram mais caros.” Este relato, por estar em harmonia com o assunto tratado, eu o relatei aqui, no lugar que lhe é próprio.
1. O tempo e o modo da morte de Paulo e de Pedro, bem como o lugar de sua sepultura, já foram mostrados por nós.
2. O tempo da morte de João também já foi indicado de modo geral, mas o lugar de sua sepultura é indicado por uma epístola de Polícrates (que foi bispo da igreja de Éfeso), dirigida a Vítor, bispo de Roma. Nessa epístola ele o menciona juntamente com o apóstolo Filipe e suas filhas, com estas palavras:
3. “Pois também na Ásia adormeceram grandes luzeiros, que ressuscitarão no último dia, na vinda do Senhor, quando ele vier do céu com glória e buscar todos os santos. Entre eles estão Filipe, um dos doze apóstolos, que dorme em Hierápolis, e suas duas filhas, que envelheceram virgens, e outra filha, que viveu no Espírito Santo e agora repousa em Éfeso; e, além disso, João, que foi ao mesmo tempo testemunha e mestre, que se reclinou sobre o peito do Senhor e, sendo sacerdote, usou a lâmina sacerdotal. Também ele dorme em Éfeso.”
4. Isso basta a respeito da morte deles. E, no Diálogo de Caio, que mencionamos pouco acima, Proclo, contra quem ele dirigiu a sua disputa, em concordância com o que foi citado, fala assim a respeito da morte de Filipe e de suas filhas: “Depois dele houve quatro profetisas, as filhas de Filipe, em Hierápolis, na Ásia. O túmulo delas está lá, e também o túmulo do pai delas.” Tal é a sua declaração.
5. Mas Lucas, nos Atos dos Apóstolos, menciona as filhas de Filipe, que estavam naquele tempo em Cesareia, na Judeia, com o pai, e eram honradas com o dom de profecia. Suas palavras são estas: “Fomos para Cesareia. E, entrando na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete, ficamos com ele. Filipe tinha quatro filhas solteiras, que profetizavam” (At 21.8-9).
6. Expusemos assim nestas páginas o que chegou ao nosso conhecimento a respeito dos próprios apóstolos e da era apostólica, e a respeito dos escritos sagrados que eles nos deixaram, bem como dos que são contestados, mas que, no entanto, foram usados publicamente por muitos num grande número de igrejas, e ainda a respeito dos que são inteiramente rejeitados e estão em desacordo com a ortodoxia apostólica. Feito isso, prossigamos agora com a nossa história.
1. Conta-se que, depois do tempo de Nero e de Domiciano, sob o imperador cuja época estamos agora registrando, levantou-se contra nós uma perseguição em certas cidades, em consequência de um levante popular. Nessa perseguição, segundo soubemos, Simeão, filho de Clopas, que, como mostramos, foi o segundo bispo da igreja de Jerusalém, sofreu o martírio.
2. Hegesipo, cujas palavras já citamos em vários lugares, é testemunha também deste fato. Falando de certos hereges, acrescenta que Simeão foi acusado por eles nesse tempo; e, como era evidente que ele era cristão, foi torturado de vários modos durante muitos dias, deixando assombrados no mais alto grau o próprio juiz e os que o acompanhavam, e por fim sofreu uma morte semelhante à de nosso Senhor.
3. Mas nada se compara a ouvir o próprio historiador, que escreve o seguinte: “Alguns desses hereges acusaram Simeão, filho de Clopas, de ser descendente de Davi e cristão; e assim ele sofreu o martírio, com a idade de cento e vinte anos, sendo Trajano imperador e Ático governador.”
4. E o mesmo escritor diz que também os seus acusadores, quando se fazia a busca dos descendentes de Davi, foram presos como pertencentes àquela família. E pode-se razoavelmente supor que Simeão foi um dos que viram e ouviram o Senhor, a julgar pela extensão de sua vida e pelo fato de o Evangelho mencionar Maria, mulher de Clopas, que era o pai de Simeão, como já foi mostrado.
5. O mesmo historiador diz que houve também outros, descendentes de um dos chamados irmãos do Salvador, cujo nome era Judas, que, depois de terem dado testemunho diante de Domiciano em favor da fé em Cristo, como já foi registrado, viveram até o mesmo reinado.
6. Ele escreve o seguinte: “Vieram, pois, e assumiram a direção de todas as igrejas, como testemunhas e como parentes do Senhor. E, estabelecida profunda paz em todas as igrejas, permaneceram até o reinado do imperador Trajano e até que o acima mencionado Simeão, filho de Clopas, tio do Senhor, foi denunciado pelos hereges e foi também ele acusado pela mesma causa diante do governador Ático. E, depois de ser torturado durante muitos dias, sofreu o martírio, e todos, inclusive o próprio procônsul, se maravilharam de que, com a idade de cento e vinte anos, ele pudesse suportar tanto. E deu-se ordem de que fosse crucificado.”
7. Além disso, o mesmo autor, ao narrar os acontecimentos daquele período, registra que a Igreja até então permanecera virgem pura e incorrupta, visto que, se havia alguns que tentavam corromper a sã norma da pregação da salvação, ficavam até então escondidos em obscuras trevas.
8. Mas, quando o sagrado colégio dos apóstolos sofreu a morte de várias formas e passou a geração dos que tinham sido julgados dignos de ouvir com os próprios ouvidos a sabedoria inspirada, então a conspiração do erro ímpio teve início, em consequência da insensatez dos mestres hereges, os quais, porque nenhum dos apóstolos ainda vivia, tentaram daí em diante, com o rosto descarado, anunciar, em oposição à pregação da verdade, aquilo que falsamente chamam de “conhecimento” (1Tm 6.20).
1. Tão grande perseguição se abriu então contra nós em muitos lugares que Plínio Segundo, um dos mais notáveis governadores, perturbado pelo grande número de mártires, comunicou-se com o imperador acerca da multidão dos que eram mortos por causa da fé. Ao mesmo tempo, informou-o em sua comunicação de que não ouvira dizer que fizessem nada de profano ou contrário às leis, exceto que se levantavam ao amanhecer e cantavam hinos a Cristo como a um Deus; mas que renunciavam ao adultério, ao homicídio e a crimes semelhantes, e faziam tudo de acordo com as leis.
2. Em resposta a isso, Trajano baixou o seguinte decreto: que a raça dos cristãos não fosse procurada, mas que, quando encontrada, fosse punida. Por causa disso, a perseguição, que ameaçava ser terribilíssima, foi em certa medida contida, mas ainda restavam pretextos de sobra para os que queriam nos fazer mal. Às vezes o povo, às vezes as autoridades de vários lugares armavam ciladas contra nós, de modo que, embora não houvesse grandes perseguições, ocorriam ainda assim perseguições locais em determinadas províncias, e muitos dos fiéis sofreram o martírio de várias formas.
3. Tiramos o nosso relato da Apologia latina de Tertuliano, que mencionamos acima. A tradução diz o seguinte: “E de fato verificamos que a busca contra nós foi proibida. Pois, quando Plínio Segundo, governador de uma província, condenou alguns cristãos e os privou de sua dignidade, ficou confuso diante da multidão e não sabia que outro rumo tomar. Comunicou-se, portanto, com o imperador Trajano, informando-o de que, afora a recusa deles em sacrificar, não achara neles nenhuma impiedade.
4. E relatou também isto: que os cristãos se levantavam de madrugada e cantavam hinos a Cristo como a um Deus e, para preservar a sua disciplina, proibiam o homicídio, o adultério, a avareza, o roubo e coisas semelhantes. Em resposta a isso, Trajano escreveu que a raça dos cristãos não fosse procurada, mas que, quando encontrada, fosse punida.” Tais foram os acontecimentos daquele tempo.
1. No terceiro ano do reinado do imperador acima mencionado, Clemente entregou a Evaristo o governo episcopal da igreja de Roma e partiu desta vida, depois de ter presidido ao ensino da palavra divina nove anos ao todo.
1. Quando também Simeão morreu do modo descrito, um judeu de nome Justo sucedeu no trono episcopal de Jerusalém. Ele era um dos muitos milhares da circuncisão que naquele tempo creram em Cristo.
1. Naquele tempo, Policarpo, discípulo dos apóstolos, era homem eminente na Ásia, pois lhe fora confiado o episcopado da igreja de Esmirna por aqueles que tinham visto e ouvido o Senhor.
2. E ao mesmo tempo tornaram-se conhecidos Papias, bispo da igreja de Hierápolis, e também Inácio, escolhido bispo de Antioquia, o segundo na sucessão de Pedro, cuja fama ainda é celebrada por muitíssimos.
3. Conta-se que ele foi enviado da Síria para Roma e se tornou alimento das feras por causa do seu testemunho de Cristo.
4. E, enquanto fazia a viagem pela Ásia sob a mais rigorosa vigilância militar, fortalecia as igrejas das várias cidades onde parava com homilias e exortações orais, e advertia-as sobretudo a se guardarem especialmente das heresias que então começavam a prevalecer, exortando-as a se apegarem firmemente à tradição dos apóstolos. Além disso, julgou necessário atestar por escrito essa tradição e dar-lhe forma fixa, para maior segurança.
5. Assim, quando chegou a Esmirna, onde estava Policarpo, escreveu uma epístola à igreja de Éfeso, na qual menciona Onésimo, seu pastor; outra à igreja de Magnésia, situada junto ao Meandro, na qual menciona também um bispo Damas; e, por fim, uma à igreja de Trales, cujo bispo, afirma, era naquele tempo Políbio.
6. Além dessas, escreveu também à igreja de Roma, suplicando-lhes que não procurassem livrá-lo do martírio, roubando-lhe assim a sua ardente esperança. Em confirmação do que foi dito, convém citar brevemente essa epístola.
7. Ele escreve o seguinte: “Desde a Síria até Roma luto com feras, por terra e por mar, de noite e de dia, preso entre dez leopardos, isto é, uma tropa de soldados, que só se tornam piores quando são bem tratados. Em meio às suas maldades, porém, aprendo mais plenamente o discipulado, mas nem por isso me dou por justificado (1Co 4.4).
8. Que eu tenha alegria das feras que estão preparadas para mim; e oro para que as encontre prontas; até as afagarei para que me devorem depressa, para que não me tratem como a alguns que, por medo, se recusaram a tocar. E, se não quiserem, eu as obrigarei. Perdoem-me.
9. Sei o que me convém. Agora começo a ser discípulo. Que nada das coisas visíveis e invisíveis me inveje, para que eu alcance Jesus Cristo. Fogo e cruz e ataques de feras, deslocamento dos ossos, mutilação dos membros, esmagamento de todo o corpo, tormentos do diabo, que tudo isso venha sobre mim, contanto que eu alcance Jesus Cristo.”
10. Isso ele escreveu da cidade acima mencionada às igrejas referidas. E, tendo deixado Esmirna, escreveu de novo, de Trôade, aos filadelfos e à igreja de Esmirna, e particularmente a Policarpo, que presidia esta última igreja. E, como o conhecia bem como homem apostólico, recomendou-lhe, qual verdadeiro e bom pastor, o rebanho de Antioquia, e pediu-lhe que cuidasse dele com diligência.
11. E o mesmo, escrevendo aos esmirnenses, usou as seguintes palavras a respeito de Cristo, tiradas não sei de onde: “Mas eu sei e creio que ele estava na carne depois da ressurreição. E, quando veio a Pedro e aos seus companheiros, disse-lhes: ‘Tomem, apalpem-me e vejam que não sou um espírito incorpóreo.’ E imediatamente o tocaram e creram” (cf. Lc 24.39).
12. Também Irineu conhecia o seu martírio e menciona as suas epístolas com estas palavras: “Como disse um dos nossos, quando foi condenado às feras por causa do seu testemunho de Deus: ‘Sou trigo de Deus, e sou moído pelos dentes das feras, para que me encontrem pão puro.'”
13. Também Policarpo menciona essas cartas na epístola aos filipenses que lhe é atribuída. Suas palavras são estas: “Exorto, pois, a todos vocês a obedecer e a praticar toda a paciência, tal como a viram com os próprios olhos não só nos bem-aventurados Inácio, Rufo e Zósimo, mas também em outros do meio de vocês, bem como no próprio Paulo e nos demais apóstolos; persuadidos de que todos eles não correram em vão, mas na fé e na justiça, e de que estão no lugar que lhes é devido junto ao Senhor, com quem também sofreram. Pois não amaram o mundo presente, mas aquele que morreu por nós e foi ressuscitado por Deus em nosso favor.”
14. E depois acrescenta: “Vocês me escreveram, tanto vocês como Inácio, que, se alguém for à Síria, leve consigo as cartas de vocês. E isso eu farei, se tiver ocasião oportuna, ou eu mesmo ou alguém que eu enviar como embaixador também em favor de vocês.
15. As epístolas de Inácio que ele nos enviou e as outras que tínhamos conosco, nós as enviamos a vocês, como pediram. Vão anexadas a esta epístola, e delas vocês poderão tirar grande proveito. Pois contêm fé, paciência e toda espécie de edificação que diz respeito ao nosso Senhor.” Isso basta a respeito de Inácio. Ele teve por sucessor Heros no episcopado da igreja de Antioquia.
1. Entre os que se tornaram célebres naquele tempo estava Quadrato, que, segundo se conta, foi afamado, juntamente com as filhas de Filipe, por seus dons proféticos. E houve muitos outros além destes, conhecidos naqueles dias, que ocupavam o primeiro lugar entre os sucessores dos apóstolos. Também eles, sendo ilustres discípulos de homens tão grandes, edificaram sobre os fundamentos das igrejas que os apóstolos haviam lançado em toda parte, pregaram o Evangelho cada vez mais amplamente e espalharam as sementes salvadoras do reino dos céus, perto e longe, pelo mundo inteiro.
2. Pois, de fato, a maior parte dos discípulos daquele tempo, animados pela palavra divina com um amor mais ardente pela filosofia, já tinham cumprido o mandamento do Salvador e distribuído os seus bens aos necessitados. Depois, partindo em longas viagens, exerciam o ofício de evangelistas, cheios do desejo de pregar Cristo aos que ainda não tinham ouvido a palavra da fé e de lhes entregar os Evangelhos divinos.
3. E, quando apenas tinham lançado os fundamentos da fé em lugares estrangeiros, constituíam outros como pastores e confiavam-lhes o cuidado dos que tinham sido trazidos recentemente, enquanto eles mesmos seguiam de novo para outros países e nações, com a graça e a cooperação de Deus. Pois muitíssimas obras maravilhosas eram feitas por meio deles pelo poder do Espírito divino, de modo que, logo ao primeiro ouvir, multidões inteiras de homens abraçavam ansiosamente a religião do Criador do universo.
4. Mas, como nos é impossível enumerar os nomes de todos os que se tornaram pastores ou evangelistas nas igrejas do mundo inteiro na época imediatamente posterior aos apóstolos, registramos, como era conveniente, os nomes apenas daqueles que nos transmitiram a doutrina apostólica em escritos que ainda existem.
1. Assim fez Inácio nas epístolas que mencionamos, e Clemente em sua epístola, aceita por todos, que escreveu em nome da igreja de Roma à igreja de Corinto. Nessa epístola ele apresenta muitos pensamentos tirados da Epístola aos Hebreus e também cita literalmente algumas de suas expressões, mostrando assim com toda a clareza que ela não é uma produção recente.
2. Por isso pareceu razoável contá-la entre os outros escritos do apóstolo. Pois, como Paulo escrevera aos hebreus em sua língua materna, alguns dizem que o evangelista Lucas, outros que este mesmo Clemente, traduziu a epístola.
3. Esta última hipótese parece mais provável, porque a epístola de Clemente e a epístola aos Hebreus têm caráter semelhante quanto ao estilo e, além disso, porque os pensamentos contidos nas duas obras não são muito diferentes.
4. Mas deve-se observar também que se fala de uma segunda epístola de Clemente. Não sabemos, porém, que ela seja reconhecida como a primeira, pois não achamos que os antigos tenham feito uso dela.
5. E certos homens apresentaram recentemente, sob o nome dele, outros escritos prolixos e extensos, contendo diálogos de Pedro e Ápion. Mas os antigos não fizeram menção deles, pois nem sequer conservam o cunho puro da ortodoxia apostólica. O escrito reconhecido de Clemente é bem conhecido. Falamos também das obras de Inácio e de Policarpo.
1. Existem cinco livros de Papias, que trazem o título de Exposições dos oráculos do Senhor. Irineu os menciona como as únicas obras escritas por ele, com estas palavras: “Estas coisas são atestadas por Papias, homem antigo, que foi ouvinte de João e companheiro de Policarpo, em seu quarto livro. Pois por ele foram escritos cinco livros.” Estas são as palavras de Irineu.
2. Mas o próprio Papias, no prefácio aos seus discursos, de modo algum declara que ele mesmo foi ouvinte e testemunha ocular dos santos apóstolos, mas mostra, pelas palavras que usa, que recebeu as doutrinas da fé daqueles que eram amigos deles.
3. Ele diz: “Não hesitarei também em pôr por escrito para você, juntamente com as minhas interpretações, tudo o que em qualquer tempo aprendi cuidadosamente dos presbíteros e cuidadosamente guardei na memória, garantindo a sua verdade. Pois eu não me comprazia, como a multidão, nos que falam muito, mas nos que ensinam a verdade; não nos que relatam mandamentos estranhos, mas nos que transmitem os mandamentos dados pelo Senhor à fé e que procedem da própria verdade.
4. Se, pois, vinha alguém que tivesse sido seguidor dos presbíteros, eu o interrogava sobre as palavras dos presbíteros: o que disse André ou o que disse Pedro, ou o que foi dito por Filipe, ou por Tomé, ou por Tiago, ou por João, ou por Mateus, ou por qualquer outro dos discípulos do Senhor, e o que dizem Aristião e o presbítero João, discípulos do Senhor. Pois eu não pensava que o que se pudesse tirar dos livros me fosse tão proveitoso quanto o que vinha da voz viva e permanente.”
5. Vale a pena observar aqui que o nome João é por ele enumerado duas vezes. O primeiro ele o menciona juntamente com Pedro, Tiago, Mateus e os demais apóstolos, referindo-se claramente ao evangelista; mas o outro João ele o menciona depois de um intervalo e o coloca entre outros fora do número dos apóstolos, pondo Aristião antes dele, e o chama expressamente de presbítero.
6. Isso mostra que é verdadeira a afirmação dos que dizem que houve na Ásia duas pessoas com o mesmo nome e que havia em Éfeso dois túmulos, cada um dos quais, até hoje, é chamado túmulo de João. É importante notar isso. Pois é provável que tenha sido o segundo, se não se quiser admitir que foi o primeiro, quem viu o Apocalipse que traz o nome de João.
7. E Papias, de quem estamos falando agora, confessa que recebeu as palavras dos apóstolos dos que os seguiram, mas diz que ele mesmo foi ouvinte de Aristião e do presbítero João. Pelo menos os menciona frequentemente pelo nome e apresenta as tradições deles em seus escritos. Esperamos que estas coisas não tenham sido aduzidas por nós inutilmente.
8. Mas convém acrescentar às palavras de Papias que foram citadas outras passagens de suas obras, nas quais ele relata alguns outros acontecimentos maravilhosos que afirma ter recebido da tradição.
9. Que o apóstolo Filipe morou em Hierápolis com suas filhas, já foi dito. Mas deve-se notar aqui que Papias, contemporâneo delas, diz ter ouvido das filhas de Filipe uma história maravilhosa. Pois relata que em seu tempo alguém ressuscitou dos mortos. E conta outra história maravilhosa a respeito de Justo, de sobrenome Barsabás: que bebeu um veneno mortal e, no entanto, pela graça do Senhor, não sofreu dano algum.
10. O livro de Atos registra que os santos apóstolos, depois da ascensão do Salvador, propuseram este Justo, juntamente com Matias, e oraram para que um deles fosse escolhido em lugar do traidor Judas, para completar o seu número. O relato é o seguinte: “Então propuseram dois: José, chamado Barsabás, também conhecido como Justo, e Matias. E, orando, disseram” (At 1.23-24).
11. O mesmo escritor apresenta também outros relatos que, segundo diz, lhe chegaram por tradição não escrita, algumas parábolas e ensinos estranhos do Salvador e algumas outras coisas mais fabulosas.
12. Entre elas está a sua afirmação de que haverá um período de cerca de mil anos depois da ressurreição dos mortos e de que o reino de Cristo será estabelecido em forma material nesta mesma terra. Suponho que ele chegou a essas ideias por uma má compreensão dos relatos apostólicos, não percebendo que as coisas ditas por eles foram faladas misticamente, em figuras.
13. Pois parece ter sido de entendimento muito limitado, como se pode ver pelos seus discursos. Mas deveu-se a ele que tantos Pais da Igreja depois dele adotassem opinião semelhante, alegando em seu apoio a antiguidade do homem; como, por exemplo, Irineu e qualquer outro que tenha proclamado ideias semelhantes.
14. Papias apresenta também em sua obra outros relatos das palavras do Senhor, com base na autoridade de Aristião, mencionado acima, e tradições transmitidas pelo presbítero João; para elas remetemos os amantes do saber. Mas agora devemos acrescentar às palavras dele que já citamos a tradição que ele apresenta a respeito de Marcos, o autor do Evangelho.
15. “Isto também dizia o presbítero: Marcos, tendo-se tornado intérprete de Pedro, escreveu com exatidão, embora não em ordem, tudo de que se lembrava das coisas ditas ou feitas por Cristo. Pois ele nem ouviu o Senhor nem o seguiu, mas depois, como eu disse, seguiu Pedro, que adaptava o seu ensino às necessidades dos ouvintes, mas sem a intenção de dar um relato ordenado dos discursos do Senhor; de modo que Marcos não cometeu erro algum ao escrever assim algumas coisas conforme se lembrava delas. Pois teve cuidado com uma coisa: não omitir nada do que tinha ouvido e não afirmar nada falsamente.” Estas coisas são relatadas por Papias a respeito de Marcos.
16. Mas a respeito de Mateus ele escreve o seguinte: “Assim, pois, Mateus escreveu os oráculos na língua hebraica, e cada um os interpretou como podia.” E o mesmo escritor usa testemunhos da primeira Epístola de João e igualmente da de Pedro. E relata outra história, de uma mulher acusada de muitos pecados diante do Senhor, que se encontra no Evangelho segundo os Hebreus. Estas coisas julgamos necessário observar, além do que já foi dito.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.