Eusébio, História Eclesiástica · Livro IV
Os bispos de Roma, de Alexandria e de Jerusalém; os judeus sob Trajano e Adriano; os apologistas; os gnósticos; os rescritos de Adriano e de Antonino; a Apologia de Justino; o martírio de Policarpo em Esmirna.
1. Por volta do duodécimo ano do reinado de Trajano, morreu o bispo da igreja de Alexandria mencionado acima, e Primo, o quarto na sucessão a partir dos apóstolos, foi escolhido para o cargo.
2. Naquela mesma época, Alexandre, o quinto na linha de sucessão a partir de Pedro e Paulo, recebeu o episcopado em Roma, depois que Evaristo exercera o cargo por oito anos.
1. O ensino e a Igreja de nosso Salvador floresciam grandemente e progrediam dia após dia; mas as calamidades dos judeus aumentavam, e eles sofriam uma sucessão contínua de males. No décimo oitavo ano do reinado de Trajano houve outra revolta dos judeus, na qual pereceu uma grande multidão deles.
2. Pois em Alexandria e no restante do Egito, e também em Cirene, como se incitados por algum espírito terrível e faccioso, lançaram-se a ações sediciosas contra seus concidadãos, os gregos. A insurreição cresceu muito e, no ano seguinte, quando Lupo era governador de todo o Egito, transformou-se numa guerra de proporções nada pequenas.
3. No primeiro ataque, aconteceu que eles venceram os gregos, os quais fugiram para Alexandria e prenderam e mataram os judeus que estavam na cidade. Mas os judeus de Cirene, embora privados do auxílio destes, continuaram a saquear a terra do Egito e a devastar os seus distritos, sob o comando de Lucuas. Contra eles o imperador enviou Márcio Turbo com uma força de infantaria e de marinha, e também com uma força de cavalaria.
4. Ele sustentou a guerra contra eles por muito tempo, travou muitas batalhas e matou muitos milhares de judeus, não só dos de Cirene, mas também dos que habitavam no Egito e tinham vindo em socorro de seu rei Lucuas.
5. Mas o imperador, temendo que também os judeus da Mesopotâmia atacassem os habitantes daquela região, ordenou a Lúcio Quinto que limpasse deles a província. E este, tendo marchado contra eles, matou uma grande multidão dos que ali habitavam; e, em consequência do seu êxito, foi feito governador da Judeia pelo imperador. Esses acontecimentos são registrados também, com estas mesmas palavras, pelos historiadores gregos que escreveram relatos daquele tempo.
1. Depois que Trajano reinou dezenove anos e meio, Élio Adriano tornou-se seu sucessor no império. A ele Quadrato dirigiu um discurso que continha uma apologia da nossa religião, porque certos homens perversos haviam tentado perturbar os cristãos. A obra ainda está nas mãos de muitíssimos irmãos, como também nas nossas, e oferece provas claras do entendimento do homem e da sua ortodoxia apostólica.
2. Ele mesmo revela a época antiga em que viveu, com as seguintes palavras: “Mas as obras de nosso Salvador estavam sempre presentes, pois eram verdadeiras: os que foram curados e os que foram ressuscitados dos mortos, os quais foram vistos não só quando foram curados e quando foram ressuscitados, mas também estavam sempre presentes; e não apenas enquanto o Salvador estava na terra, mas também depois de sua morte, permaneceram vivos por bastante tempo, de modo que alguns deles viveram até os nossos dias.” Assim era Quadrato.
3. Também Aristides, crente zelosamente dedicado à nossa religião, deixou, como Quadrato, uma apologia da fé dirigida a Adriano. Também a sua obra tem sido conservada até hoje por muitíssimas pessoas.
No terceiro ano do mesmo reinado, Alexandre, bispo de Roma, morreu, depois de exercer o cargo por dez anos. Seu sucessor foi Xisto. Por volta da mesma época, Primo, bispo de Alexandria, morreu no duodécimo ano do seu episcopado, e foi sucedido por Justo.
1. A cronologia dos bispos de Jerusalém não a encontrei conservada por escrito em parte alguma; pois a tradição diz que todos eles tiveram vida curta.
2. Mas isto aprendi de escritos: até o cerco dos judeus, que ocorreu sob Adriano, houve ali quinze bispos em sucessão, todos os quais, segundo se diz, eram de origem hebraica e haviam recebido o conhecimento de Cristo em pureza, de modo que foram aprovados pelos que eram capazes de julgar tais assuntos e considerados dignos do episcopado. Pois toda a sua igreja era composta então de hebreus crentes, que permaneceram desde os dias dos apóstolos até o cerco que ocorreu nessa época; cerco no qual os judeus, tendo-se rebelado de novo contra os romanos, foram vencidos depois de duras batalhas.
3. Mas, como os bispos da circuncisão cessaram nessa época, convém dar aqui uma lista de seus nomes desde o princípio. O primeiro, pois, foi Tiago, o chamado irmão do Senhor; o segundo, Simeão; o terceiro, Justo; o quarto, Zaqueu; o quinto, Tobias; o sexto, Benjamim; o sétimo, João; o oitavo, Matias; o nono, Filipe; o décimo, Sêneca; o décimo primeiro, Justo; o décimo segundo, Levi; o décimo terceiro, Efres; o décimo quarto, José; e, por fim, o décimo quinto, Judas.
4. Esses são os bispos de Jerusalém que viveram entre a época dos apóstolos e o tempo mencionado, todos eles pertencentes à circuncisão.
5. No duodécimo ano do reinado de Adriano, Xisto, tendo completado o décimo ano do seu episcopado, foi sucedido por Telésforo, o sétimo na sucessão a partir dos apóstolos. Nesse meio-tempo, passados um ano e alguns meses, Eumenes, o sexto na ordem, sucedeu na direção da igreja de Alexandria, depois que seu predecessor exercera o cargo por onze anos.
1. Como a rebelião dos judeus nessa época se agravou muito, Rufo, governador da Judeia, depois que o imperador lhe enviou uma força auxiliar, tomando a loucura deles como pretexto, avançou contra eles sem misericórdia e destruiu indistintamente milhares de homens, mulheres e crianças, e, segundo as leis da guerra, reduziu o país deles a completa sujeição.
2. O líder dos judeus nessa época era um homem chamado Barcoquebas (que significa “estrela”), que tinha o caráter de um salteador e assassino, mas que, apesar disso, confiando no seu nome, gabava-se diante deles, como se fossem escravos, de possuir poderes maravilhosos; e fingia ser uma estrela que descera do céu até eles para lhes trazer luz em meio às suas desgraças.
3. A guerra atingiu o auge da violência no décimo oitavo ano de Adriano, junto à cidade de Bitara, fortaleza muito segura, situada não longe de Jerusalém. Depois que o cerco durou muito tempo, e os rebeldes foram levados ao extremo pela fome e pela sede, e o instigador da rebelião sofreu o seu justo castigo, toda a nação foi proibida, daí em diante, por um decreto e pelas ordens de Adriano, de jamais subir à região em volta de Jerusalém. Pois o imperador ordenou que nem sequer de longe vissem a terra de seus pais. Esse é o relato de Aristão de Pela.
4. E assim, quando a cidade foi esvaziada da nação judaica e sofreu a destruição total de seus antigos habitantes, foi colonizada por uma raça diferente, e a cidade romana que depois surgiu mudou de nome e passou a chamar-se Élia, em honra do imperador Élio Adriano. E, como a igreja dali passou a ser composta de gentios, o primeiro a assumir o governo dela depois dos bispos da circuncisão foi Marcos.
1. Como as igrejas por todo o mundo já resplandeciam como as estrelas mais brilhantes, e a fé em nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo florescia em todo o gênero humano, o demônio que odeia tudo o que é bom, que é sempre hostil à verdade e o mais amargo adversário da salvação do homem, voltou todas as suas artes contra a Igreja. No princípio, armou-se contra ela com perseguições externas.
2. Mas agora, impedido de usar tais meios, maquinou toda sorte de planos e empregou outros métodos em sua luta contra a Igreja, usando homens vis e enganadores como instrumentos para a ruína das almas e como ministros de destruição. Instigados por ele, impostores e enganadores, assumindo o nome da nossa religião, levavam ao fundo da ruína os crentes que conseguiam conquistar e, ao mesmo tempo, pelos atos que praticavam, afastavam do caminho que conduz à palavra da salvação os que ignoravam a fé.
3. Assim, procedeu daquele Menandro, que já mencionamos como sucessor de Simão, certo poder semelhante a uma serpente, de língua dupla e de duas cabeças, que produziu os líderes de duas heresias diferentes: Saturnino, antioqueno de nascimento, e Basílides, alexandrino. O primeiro deles estabeleceu escolas de heresia ímpia na Síria; o segundo, em Alexandria.
4. Irineu afirma que o falso ensino de Saturnino concordava na maioria dos pontos com o de Menandro, mas que Basílides, a pretexto de mistérios inefáveis, inventou fábulas monstruosas e levou as ficções de sua heresia ímpia muito além de todos os limites.
5. Mas, assim como havia naquele tempo muitíssimos membros da Igreja que lutavam pela verdade e defendiam a doutrina apostólica e eclesiástica com eloquência incomum, havia também alguns que forneceram à posteridade, por meio de seus escritos, meios de defesa contra as heresias a que nos referimos.
6. Destes chegou até nós uma refutação vigorosíssima de Basílides, feita por Agripa Castor, um dos escritores mais renomados daquele tempo, que mostra a terrível impostura do homem.
7. Ao expor os mistérios dele, diz que Basílides escreveu vinte e quatro livros sobre o Evangelho, e que inventou para si profetas chamados Barcabás e Barcof, e outros que nunca existiram, e que lhes deu nomes bárbaros para impressionar os que se admiram de tais coisas; que ensinou também que comer carne sacrificada aos ídolos e renunciar sem cautela à fé em tempos de perseguição eram coisas indiferentes; e que impôs a seus seguidores, à maneira de Pitágoras, um silêncio de cinco anos.
8. Outras coisas semelhantes o escritor acima mencionado registrou a respeito de Basílides, e expôs com habilidade o erro de sua heresia.
9. Irineu também escreve que Carpócrates foi contemporâneo desses homens e que foi o pai de outra heresia, chamada a heresia dos gnósticos, os quais não queriam mais transmitir as artes mágicas de Simão em segredo, como aquele havia feito, mas abertamente. Pois se gabavam, como de algo grandioso, de filtros de amor cuidadosamente preparados por eles, e de certos demônios que lhes enviavam sonhos e lhes davam proteção, e de outros meios semelhantes; e, de acordo com essas coisas, ensinavam que os que desejassem entrar plenamente em seus mistérios, ou antes em suas abominações, deviam praticar todos os piores tipos de maldade, sob a alegação de que não podiam escapar dos poderes cósmicos, como os chamavam, de nenhum outro modo senão pagando a todos eles as suas obrigações mediante uma conduta infame.
10. Assim aconteceu que o demônio maligno, servindo-se desses ministros, por um lado escravizava, para a sua própria destruição, os que eram tão lamentavelmente desencaminhados por eles, enquanto, por outro lado, fornecia aos pagãos incrédulos abundantes ocasiões para caluniar a palavra divina, visto que a fama desses homens trazia infâmia sobre toda a raça dos cristãos.
11. Foi desse modo, portanto, que se espalhou a nosso respeito, entre os incrédulos daquela época, a suspeita infame e absurdíssima de que praticávamos relações ilícitas com mães e irmãs e participávamos de banquetes ímpios.
12. Ele, porém, não teve êxito por muito tempo com esses artifícios, porque a verdade se firmou e, com o tempo, brilhou com grande esplendor.
13. Pois as maquinações dos seus inimigos foram refutadas pelo seu poder e logo desapareceram. Uma heresia nova surgia depois da outra, e as anteriores sempre passavam e, ora numa época, ora noutra, ora de um modo, ora de outros, perdiam-se em ideias de vários tipos e de várias formas. Mas o esplendor da Igreja católica e única verdadeira, que é sempre a mesma, cresceu em grandeza e poder, e irradiou a sua piedade e simplicidade e liberdade, e a modéstia e pureza de sua vida e filosofia inspiradas, a todas as nações, tanto de gregos como de bárbaros.
14. Ao mesmo tempo, desapareceram também as acusações caluniosas que haviam sido levantadas contra toda a Igreja, e restou somente o nosso ensino, que prevaleceu sobre todos e que é reconhecido como superior a todos em dignidade e temperança, e em doutrinas divinas e filosóficas. De modo que nenhum deles ousa agora lançar uma calúnia vil contra a nossa fé, nem nenhuma difamação como as que os nossos antigos inimigos outrora se deleitavam em proferir.
15. Apesar disso, naqueles tempos a verdade suscitou de novo muitos campeões, que lutaram em sua defesa contra as heresias ímpias, refutando-as não só com argumentos orais, mas também escritos.
1. Entre estes foi bem conhecido Hegesipo. Já citamos várias vezes as suas palavras, que relatam acontecimentos ocorridos no tempo dos apóstolos segundo o seu relato.
2. Ele registra, em cinco livros, a verdadeira tradição da doutrina apostólica, num estilo muito simples, e indica a época em que floresceu quando escreve o seguinte a respeito dos que primeiro levantaram ídolos: “Aos quais erigiram cenotáfios e templos, como se faz até hoje. Entre os quais está também Antínoo, escravo do imperador Adriano, em cuja honra se celebram também os jogos antinoianos, instituídos em nossos dias. Pois ele [isto é, Adriano] também fundou uma cidade com o nome de Antínoo e nomeou profetas.”
3. Na mesma época, também Justino, autêntico amante da verdadeira filosofia, ainda continuava a ocupar-se com a literatura grega. Ele indica esse tempo na Apologia que dirigiu a Antonino, onde escreve o seguinte: “Não julgamos fora de propósito mencionar aqui também Antínoo, que viveu em nossos dias, e a quem todos foram levados pelo medo a adorar como deus, embora soubessem quem ele era e de onde viera.”
4. O mesmo escritor, falando da guerra judaica que ocorreu naquele tempo, acrescenta o seguinte: “Pois na recente guerra judaica Barcoquebas, o líder da rebelião judaica, ordenou que somente os cristãos fossem submetidos a castigos terríveis, a menos que negassem e blasfemassem Jesus Cristo.”
5. E na mesma obra mostra que a sua conversão da filosofia grega ao cristianismo não foi sem razão, mas resultou de deliberação de sua parte. Suas palavras são as seguintes: “Pois eu mesmo, enquanto me deleitava com as doutrinas de Platão e ouvia os cristãos serem caluniados, e via que não temiam nem a morte nem coisa alguma que comumente se considera terrível, concluí que era impossível que vivessem na maldade e no prazer. Pois que homem amante dos prazeres ou intemperante, ou que homem que considera bom banquetear-se com carne humana, poderia acolher a morte, para ser privado de seus gozos, e não procuraria antes prolongar para sempre a sua vida presente e escapar à atenção dos governantes, em vez de entregar-se para ser morto?”
6. O mesmo escritor relata, além disso, que Adriano, tendo recebido de Serênio Graniano, governador muito ilustre, uma carta em favor dos cristãos, na qual este afirmava que não era justo matar os cristãos sem acusação e julgamento regulares, só para satisfazer os clamores do povo, enviou um rescrito a Minúcio Fundano, procônsul da Ásia, ordenando-lhe que não condenasse ninguém sem denúncia formal e acusação bem fundamentada.
7. E ele dá uma cópia da carta, conservando o latim original em que foi escrita, e a precede com as seguintes palavras: “Embora, com base na carta do grandíssimo e ilustríssimo imperador Adriano, vosso pai, tenhamos bom fundamento para pedir que ordeneis que o julgamento seja feito como desejamos, não pedimos isso por ter sido ordenado por Adriano, mas antes porque sabemos que o que pedimos é justo. E anexamos a cópia da carta de Adriano, para que saibais que também nisto falamos a verdade. E esta é a cópia.”
8. Depois dessas palavras, o autor mencionado dá o rescrito em latim, que traduzimos para o grego tão exatamente quanto pudemos. Ele diz o seguinte:
1. “A Minúcio Fundano. Recebi uma carta escrita a mim por Serênio Graniano, homem ilustríssimo, a quem sucedeste. Não me parece certo que o assunto seja deixado sem exame, para que os homens não sejam perturbados e não se dê aos delatores oportunidade de praticar a velhacaria.
2. Se, portanto, os habitantes da província puderem sustentar claramente essa petição contra os cristãos, de modo a responder diante de um tribunal, que sigam somente esse caminho, mas não recorram a petições e clamores populares. Pois é muito mais apropriado, se alguém quiser fazer uma acusação, que tu a examines.
3. Se, portanto, alguém os acusar e mostrar que estão fazendo algo contrário às leis, julga segundo a gravidade do crime. Mas, por Hércules!, se alguém apresentar uma acusação por mera calúnia, decide sobre a culpa dele e cuida de aplicar-lhe castigo.”
Esse é o conteúdo do rescrito de Adriano.
Tendo Adriano morrido depois de um reinado de vinte e um anos, foi sucedido no governo dos romanos por Antonino, chamado o Pio. No primeiro ano do seu reinado, Telésforo morreu no décimo primeiro ano do seu episcopado, e Higino tornou-se bispo de Roma. Irineu registra que a morte de Telésforo foi tornada gloriosa pelo martírio e, no mesmo contexto, afirma que no tempo do mencionado bispo romano Higino, Valentino, fundador de uma seita própria, e Cerdão, o autor do erro de Marcião, eram ambos bem conhecidos em Roma. Ele escreve o seguinte:
1. “Pois Valentino veio a Roma sob Higino, floresceu sob Pio e permaneceu até Aniceto. Também Cerdão, predecessor de Marcião, entrou na Igreja no tempo de Higino, o nono bispo, e fez confissão, e continuou desse modo, ora ensinando em segredo, ora fazendo confissão de novo, ora denunciado por doutrina corrupta e afastando-se da assembleia dos irmãos.”
2. Essas palavras se encontram no terceiro livro da obra Contra as heresias. E de novo, no primeiro livro, fala o seguinte a respeito de Cerdão: “Certo Cerdão, que tomara o seu sistema dos seguidores de Simão e viera a Roma sob Higino, o nono na sucessão episcopal a partir dos apóstolos, ensinava que o Deus proclamado pela lei e pelos profetas não era o pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois o primeiro era conhecido, mas o segundo desconhecido; e o primeiro era justo, mas o segundo bom. Marcião do Ponto sucedeu a Cerdão e desenvolveu a sua doutrina, proferindo blasfêmias desavergonhadas.”
3. O mesmo Irineu desvenda com o maior vigor o abismo insondável dos erros de Valentino a respeito da matéria, e revela a sua maldade, secreta e oculta como uma serpente escondida no seu ninho.
4. E, além desses homens, diz que houve também outro que viveu naquela época, chamado Marcos, extraordinariamente hábil nas artes mágicas. E descreve também as suas iniciações profanas e os seus mistérios abomináveis, com as seguintes palavras:
5. “Pois alguns deles preparam um leito nupcial e realizam um rito místico, com certas fórmulas dirigidas aos que estão sendo iniciados, e dizem que é um casamento espiritual o que celebram, à semelhança dos casamentos do alto. Outros, porém, os levam à água e, enquanto os batizam, repetem as seguintes palavras: Para o nome do pai desconhecido do universo, para a verdade, mãe de todas as coisas, para aquele que desceu sobre Jesus. Outros repetem nomes hebraicos, para melhor confundir os que estão sendo iniciados.”
6. Mas, tendo Higino morrido no fim do quarto ano do seu episcopado, Pio o sucedeu no governo da igreja de Roma. Em Alexandria, Marcos foi constituído pastor, depois que Eumenes exercera o cargo por treze anos ao todo. E, tendo Marcos morrido depois de exercer o cargo por dez anos, foi sucedido por Celadião no governo da igreja de Alexandria.
7. E em Roma Pio morreu no décimo quinto ano do seu episcopado, e Aniceto assumiu a liderança dos cristãos dali. Hegesipo registra que ele mesmo esteve em Roma nesse tempo e que ali permaneceu até o episcopado de Eleutério.
8. Mas Justino destacou-se especialmente naqueles dias. Em trajes de filósofo, pregava a palavra divina e lutava pela fé em seus escritos. Escreveu também uma obra contra Marcião, na qual afirma que este estava vivo no tempo em que ele escrevia.
9. Ele fala o seguinte: “E há certo Marcião do Ponto, que ainda agora continua a ensinar os seus seguidores a pensar que existe algum outro Deus maior que o criador. E com o auxílio dos demônios persuadiu muitos de todas as raças de homens a proferir blasfêmias, e a negar que o autor deste universo seja o pai de Cristo, e a confessar que algum outro, maior do que ele, foi o criador. E todos os que os seguiram são, como dissemos, chamados cristãos, assim como o nome de filosofia é dado aos filósofos, ainda que não tenham doutrinas em comum.”
10. A isso acrescenta: “E escrevemos também uma obra contra todas as heresias que existiram, a qual vos daremos, se quiserdes lê-la.”
11. Mas esse mesmo Justino lutou com grande êxito contra os gregos e dirigiu discursos que continham uma apologia da nossa fé ao imperador Antonino, chamado Pio, e ao senado romano. Pois vivia em Roma. E quem era e de onde vinha, ele mostra na sua Apologia, com as seguintes palavras.
“Ao imperador Tito Élio Adriano Antonino Pio César Augusto, e a Veríssimo, seu filho, o filósofo, e a Lúcio, o filósofo, filho natural de César e filho adotivo de Pio, amante do saber, e ao sagrado senado e a todo o povo romano, eu, Justino, filho de Prisco e neto de Báquio, natural de Flávia Neápolis, na Palestina da Síria, apresento este discurso e petição em favor dos homens de todas as nações que são injustamente odiados e perseguidos, sendo eu mesmo um deles.” E o mesmo imperador, tendo sabido também por outros irmãos da Ásia das injúrias de toda espécie que sofriam da parte dos habitantes da província, julgou conveniente dirigir a seguinte ordenança à Assembleia Comum da Ásia.
1. “O imperador César Marco Aurélio Antonino Augusto, Armênico, Pontífice Máximo, tribuno pela décima quinta vez, cônsul pela terceira vez, à Assembleia Comum da Ásia, saudação.
2. Sei que também os deuses cuidam para que tais pessoas não escapem de ser descobertas. Pois eles prefeririam muito mais punir os que não querem adorá-los do que vocês.
3. Mas vocês os lançam em confusão e, enquanto os acusam de ateísmo, apenas os confirmam na opinião que sustentam. Seria de fato mais desejável para eles, quando acusados, parecer morrer pelo seu Deus do que viver. Por isso também saem vitoriosos quando entregam a vida, em vez de obedecer às ordens de vocês.
4. E, a respeito dos terremotos que ocorreram e ainda ocorrem, não é impróprio admoestar vocês, que perdem o ânimo sempre que acontecem e, no entanto, costumam comparar a sua conduta com a deles.
5. Eles, de fato, tornam-se mais confiantes em Deus, enquanto vocês, durante todo o tempo, negligenciam, em aparente ignorância, os outros deuses e o culto do Imortal, e oprimem e perseguem até a morte os cristãos que o adoram.
6. Mas, a respeito dessas pessoas, muitos dos governadores das províncias escreveram também a nosso diviníssimo pai, e ele lhes respondeu que não perturbassem essa gente, a menos que ficasse evidente que estavam tentando algo contra o governo romano. E também a mim muitos enviaram comunicações a respeito desses homens, mas eu lhes respondi do mesmo modo que meu pai.
7. Mas, se alguém ainda insistir em apresentar acusações contra alguma dessas pessoas como tal, o acusado será absolvido da acusação, mesmo que fique evidente que é um deles, mas o acusador será punido. Publicado em Éfeso, na Assembleia Comum da Ásia.”
8. Dessas coisas Melitão, bispo da igreja de Sardes e homem bem conhecido naquele tempo, é testemunha, como fica claro por suas palavras na Apologia que dirigiu ao imperador Vero em favor da nossa doutrina.
1. Nessa época, quando Aniceto estava à frente da igreja de Roma, Irineu relata que Policarpo, que ainda vivia, esteve em Roma e teve uma conferência com Aniceto sobre uma questão relativa ao dia da festa da Páscoa.
2. E o mesmo escritor dá outro relato sobre Policarpo, que me sinto obrigado a acrescentar ao que já foi contado a respeito dele. O relato é tirado do terceiro livro da obra de Irineu Contra as heresias, e é o seguinte:
3. “Mas também Policarpo não só foi instruído pelos apóstolos e conviveu com muitos que tinham visto a Cristo, como também foi constituído pelos apóstolos, na Ásia, bispo da igreja de Esmirna.
4. Também nós o vimos em nossa primeira juventude; pois viveu muito tempo e, já muito idoso, morreu com uma gloriosa e ilustríssima morte de mártir, tendo sempre ensinado as coisas que aprendera dos apóstolos, que também a Igreja transmite e que são as únicas verdadeiras.
5. Dessas coisas dão testemunho todas as igrejas da Ásia, como também os que, até o tempo presente, sucederam a Policarpo, o qual foi testemunha da verdade muito mais digna de confiança e mais segura do que Valentino e Marcião e o restante dos hereges. Ele também esteve em Roma no tempo de Aniceto e fez com que muitos se afastassem dos hereges acima mencionados e se voltassem para a Igreja de Deus, proclamando que recebera dos apóstolos este único e exclusivo sistema de verdade, que tem sido transmitido pela Igreja.
6. E há os que ouviram dele que João, o discípulo do Senhor, indo banhar-se em Éfeso e vendo Cerinto lá dentro, saiu correndo da casa de banhos sem se banhar, exclamando: ‘Fujamos, para que nem a casa de banhos desabe, porque Cerinto, o inimigo da verdade, está lá dentro.’
7. E o próprio Policarpo, quando Marcião certa vez o encontrou e disse: ‘Tu nos conheces?’, respondeu: ‘Conheço o primogênito de Satanás.’ Tal cautela tinham os apóstolos e seus discípulos, que nem sequer conversavam com algum dos que perverteram a verdade; como também disse Paulo: ‘Evite a pessoa que provoca divisões, depois de admoestá-la uma ou duas vezes, pois você sabe que tal pessoa está pervertida, vive pecando e por si mesma está condenada’ (Tt 3.10-11).
8. Há também uma carta muito vigorosa de Policarpo, escrita aos filipenses, pela qual os que quiserem, e que se preocupam com a própria salvação, podem conhecer o caráter da sua fé e a pregação da verdade.” Esse é o relato de Irineu.
9. Mas Policarpo, na sua carta aos filipenses acima mencionada, que ainda existe, serviu-se de certos testemunhos tirados da Primeira Carta de Pedro.
10. E quando Antonino, chamado Pio, completou o vigésimo segundo ano do seu reinado, Marco Aurélio Vero, seu filho, que também se chamava Antonino, sucedeu-o, juntamente com seu irmão Lúcio.
1. Nessa época, quando as maiores perseguições agitavam a Ásia, Policarpo terminou a vida pelo martírio. Mas considero da maior importância que a sua morte, da qual ainda existe um relato escrito, seja registrada nesta história.
2. Há uma carta, escrita em nome da igreja que ele mesmo presidia, às igrejas do Ponto, que relata os acontecimentos que lhe sobrevieram, com as seguintes palavras:
3. “A igreja de Deus que habita em Esmirna à igreja de Deus que habita em Filomélio, e a todas as igrejas da santa Igreja católica em todo lugar: misericórdia, paz e amor da parte de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo lhes sejam multiplicados. Escrevemos a vocês, irmãos, um relato do que aconteceu aos que sofreram o martírio e ao bem-aventurado Policarpo, que pôs fim à perseguição, tendo-a, por assim dizer, selado com o seu martírio.”
4. Depois dessas palavras, antes de darem o relato sobre Policarpo, registram os acontecimentos que sobrevieram aos demais mártires e descrevem a grande firmeza que mostraram em meio às suas dores. Pois dizem que os presentes ficaram tomados de espanto ao vê-los dilacerados por açoites até as veias e artérias mais profundas, de modo que as partes internas e ocultas do corpo, tanto as entranhas como os membros, ficavam expostas à vista; e depois deitados sobre conchas marinhas e certas pontas aguçadas, e submetidos a toda espécie de castigo e de tortura, e por fim lançados como alimento às feras.
5. E registram que o nobilíssimo Germânico se distinguiu especialmente, vencendo pela graça de Deus o medo da morte corporal implantado pela natureza. Quando o procônsul quis persuadi-lo, e alegou a sua juventude, e lhe suplicou, por ser ele muito jovem e vigoroso, que tivesse compaixão de si mesmo, ele não hesitou, mas atraiu ansiosamente a fera para si, quase a obrigando e irritando, a fim de ser mais depressa libertado da vida injusta e iníqua deles.
6. Depois de sua morte gloriosa, toda a multidão, admirada da bravura do mártir amado de Deus e da fortaleza de toda a raça dos cristãos, começou de repente a gritar: “Fora com os ateus! Procurem Policarpo!”
7. E, quando se levantou um tumulto muito grande em consequência dos gritos, certo frígio chamado Quinto, recém-chegado da Frígia, ao ver as feras e as torturas adicionais, foi tomado de covardia e renunciou à conquista da salvação.
8. Mas a carta acima mencionada mostra que ele, precipitadamente demais e sem o devido discernimento, se lançara com outros ao tribunal, mas, quando preso, deu a todos uma prova clara de que não é correto que tais pessoas se exponham ao perigo de modo temerário e imprudente. Assim terminaram as coisas a respeito deles.
9. Mas o admirabilíssimo Policarpo, quando ouviu falar dessas coisas pela primeira vez, permaneceu imperturbável, conservou a mente tranquila e inabalável e decidiu ficar na cidade. Mas, persuadido pelos amigos, que lhe suplicavam e o exortavam a retirar-se em segredo, foi para uma propriedade rural não muito distante da cidade e ali ficou com alguns companheiros, noite e dia sem fazer outra coisa senão lutar com o Senhor em oração, suplicando e implorando e pedindo paz para as igrejas do mundo inteiro. Pois esse era sempre o seu costume.
10. E três dias antes de ser preso, enquanto orava, viu numa visão noturna o travesseiro debaixo de sua cabeça subitamente tomado pelo fogo e consumido; e, ao despertar, interpretou imediatamente a visão aos que estavam presentes, quase predizendo o que estava para acontecer, e declarando claramente aos que estavam com ele que seria necessário que morresse pelo fogo por amor de Cristo.
11. Então, como os que o procuravam prosseguiam a busca com vigor, dizem que de novo foi constrangido pela solicitude e pelo amor dos irmãos a ir para outra propriedade. Para lá vieram seus perseguidores, não muito tempo depois, e prenderam dois dos servos dali, e torturaram um deles para saber dele o esconderijo de Policarpo.
12. E, chegando tarde da noite, encontraram-no deitado num quarto do andar de cima, de onde poderia ter ido para outra casa, mas ele não quis, dizendo: “Seja feita a vontade de Deus.”
13. E, quando soube que estavam ali, como diz o relato, desceu e falou-lhes com semblante muito alegre e manso, de modo que os que ainda não conheciam o homem julgaram estar vendo um milagre, ao observarem a sua idade avançada e a gravidade e firmeza do seu porte, e admiraram-se de que se fizesse tanto esforço para capturar um homem como ele.
14. Mas ele não hesitou, e imediatamente deu ordens para que lhes servissem uma mesa. Depois convidou-os a participar de uma refeição farta e pediu-lhes uma hora para orar sem ser perturbado. E, tendo eles dado permissão, pôs-se de pé e orou, cheio da graça do Senhor, de modo que os que estavam presentes e o ouviam orar ficaram admirados, e muitos deles já se arrependiam de que um ancião tão venerável e piedoso estivesse para ser morto.
15. Além dessas coisas, a narrativa a respeito dele contém o seguinte relato: “Mas, quando finalmente terminou a sua oração, depois de lembrar-se de todos os que alguma vez tiveram contato com ele, pequenos e grandes, ilustres e obscuros, e de toda a Igreja católica espalhada pelo mundo, chegada a hora da partida, puseram-no sobre um jumento e o levaram à cidade, sendo um grande sábado. E foi recebido por Herodes, o capitão da polícia, e por seu pai Nicetes, que o tomaram em sua carruagem e, sentados ao lado dele, procuravam persuadi-lo, dizendo: ‘Pois que mal há em dizer: Senhor César, e sacrificar, e salvar a sua vida?’ A princípio ele não respondeu; mas, como insistissem, disse: ‘Não vou fazer o que vocês me aconselham.’
16. E, não conseguindo persuadi-lo, proferiram palavras terríveis e o empurraram com violência, de modo que, ao descer da carruagem, feriu a canela. Mas, sem se voltar, seguiu seu caminho com prontidão e rapidez, como se nada lhe tivesse acontecido, e foi levado ao estádio.
17. Mas havia tal tumulto no estádio que não muitos ouviram uma voz do céu que veio a Policarpo quando ele entrava no lugar: ‘Sê forte, Policarpo, e porta-te como homem.’ E ninguém viu quem falava, mas muitos dos nossos ouviram a voz.
18. E, quando foi conduzido adiante, houve grande tumulto, ao ouvirem que Policarpo fora preso. Por fim, quando ele se aproximou, o procônsul perguntou se ele era Policarpo. E, quando confessou que era, procurou persuadi-lo a negar, dizendo: ‘Tem consideração pela tua idade’, e outras coisas semelhantes, que costumam dizer: ‘Jura pelo gênio de César; arrepende-te e dize: Fora com os ateus.’
19. Mas Policarpo, olhando com semblante digno para toda a multidão reunida no estádio, acenou-lhes com a mão, gemeu e, erguendo os olhos para o céu, disse: ‘Fora com os ateus.’
20. Mas, como o magistrado o pressionasse, dizendo: ‘Jura, e eu te soltarei; injuria a Cristo’, Policarpo disse: ‘Há oitenta e seis anos eu o sirvo, e ele não me fez nenhum mal; como então posso blasfemar o meu rei, que me salvou?’
21. “Mas, como ele insistisse de novo e dissesse: ‘Jura pelo gênio de César’, Policarpo respondeu: ‘Se em vão supões que jurarei pelo gênio de César, como dizes, fingindo ignorar quem eu sou, ouve com franqueza: eu sou cristão. Mas, se desejas aprender a doutrina do cristianismo, marca um dia e ouve.’
22. O procônsul disse: ‘Persuade o povo.’ Mas Policarpo disse: ‘Quanto a ti, julguei-te digno de uma explicação; pois fomos ensinados a dar aos príncipes e às autoridades constituídas por Deus a honra que lhes é devida (cf. Rm 13.1; 1Pe 2.13), desde que isso não nos cause dano; mas, quanto a estes, não os considero as pessoas apropriadas diante das quais eu deva fazer a minha defesa.’
23. Mas o procônsul disse: ‘Tenho feras; a elas te lançarei, se não te arrependeres.’ Mas ele disse: ‘Chama-as; pois arrepender-se do melhor para o pior é mudança que não podemos fazer. Mas é coisa nobre passar da maldade para a justiça.’
24. Mas ele lhe disse de novo: ‘Se desprezas as feras, farei que sejas consumido pelo fogo, se não te arrependeres.’ Mas Policarpo disse: ‘Tu me ameaças com um fogo que arde por uma hora e pouco depois se apaga; pois não conheces o fogo do juízo vindouro e do castigo eterno, que está reservado para os ímpios. Mas por que tardas? Faze o que quiseres.’
25. Dizendo essas e outras palavras mais, encheu-se de coragem e alegria, e o seu rosto se cobriu de graça, de modo que não só não ficou aterrorizado nem abatido pelas palavras que lhe foram ditas, mas, ao contrário, o procônsul ficou espantado e mandou o seu arauto proclamar três vezes no meio do estádio: ‘Policarpo confessou que é cristão.’
26. E, quando isso foi proclamado pelo arauto, toda a multidão, tanto de gentios como de judeus, que habitavam em Esmirna, gritou com fúria incontrolável e em alta voz: ‘Este é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor dos nossos deuses, que ensina muitos a não sacrificar nem adorar.’
27. Dito isso, gritaram e pediram ao asiarca Filipe que soltasse um leão contra Policarpo. Mas ele disse que não lhe era lícito, visto que já havia encerrado os jogos. Então resolveram gritar a uma só voz que Policarpo fosse queimado vivo.
28. Pois era necessário que se cumprisse a visão que lhe fora mostrada a respeito do travesseiro, quando o viu queimar enquanto orava e, voltando-se, disse profeticamente aos fiéis que estavam com ele: ‘É preciso que eu seja queimado vivo.’
29. Essas coisas foram feitas com grande rapidez, mais depressa do que foram ditas, pois a multidão logo juntou, das oficinas e dos banhos, lenha e feixes de gravetos, mostrando-se os judeus especialmente zelosos nessa obra, como é o seu costume.
30. Mas, quando a pira ficou pronta, tirando todas as suas vestes de cima e desatando o cinto, procurou também tirar as sandálias, embora nunca antes tivesse feito isso, por causa do esforço que cada um dos fiéis sempre fazia para ser o primeiro a tocar-lhe a pele; pois, por causa de sua vida virtuosa, fora tratado com toda a honra mesmo antes de lhe virem os cabelos brancos.
31. Logo então os materiais preparados para a pira foram dispostos em volta dele; e, como também estavam para pregá-lo à estaca, ele disse: ‘Deixem-me assim; pois aquele que me deu forças para suportar o fogo me concederá também forças para permanecer imóvel no fogo, sem que vocês me prendam com pregos.’ Assim, não o pregaram, mas o amarraram.
32. E ele, com as mãos para trás e amarrado como um nobre carneiro tomado de um grande rebanho, holocausto aceitável a Deus onipotente, disse:
33. ‘Pai do teu amado e bendito Filho Jesus Cristo, por meio de quem recebemos o conhecimento de ti, Deus dos anjos e das potestades e de toda a criação e de toda a raça dos justos que vivem na tua presença, eu te bendigo porque me julgaste digno deste dia e desta hora, para que eu recebesse uma parte no número dos mártires, no cálice de Cristo, para a ressurreição da vida eterna (cf. Jo 5.29), tanto da alma como do corpo, na imortalidade do Espírito Santo.
34. Entre eles possa eu ser recebido hoje diante de ti, como sacrifício rico e aceitável, assim como tu, o Deus fiel e verdadeiro, de antemão preparaste e revelaste, e cumpriste.
35. Por isso também te louvo por todas as coisas; eu te bendigo, eu te glorifico, por meio do eterno sumo sacerdote, Jesus Cristo, teu Filho amado, por meio de quem, com ele, no Espírito Santo, seja a ti a glória, agora e pelos séculos vindouros. Amém.’
36. Quando ele pronunciou o seu amém e terminou a oração, os encarregados do fogo acenderam a pira e, quando se ergueu uma grande chama, nós, a quem foi dado ver, vimos uma maravilha, e fomos preservados para relatar aos demais o que aconteceu.
37. Pois o fogo tomou a forma de uma abóbada, como a vela de um navio enfunada pelo vento, e fez um muro em volta do corpo do mártir, e ele estava no meio, não como carne que queima, mas como ouro e prata refinados na fornalha. Pois sentimos um perfume tão agradável como o dos vapores do incenso ou de alguma outra especiaria preciosa.
38. Por fim, os homens iníquos, vendo que o corpo não podia ser consumido pelo fogo, ordenaram que um carrasco se aproximasse e o traspassasse com a espada.
39. E, quando ele fez isso, saiu tanta quantidade de sangue que apagou o fogo; e toda a multidão se admirou de que houvesse tamanha diferença entre os incrédulos e os eleitos, dos quais também este homem foi um, o mestre mais admirável dos nossos tempos, apostólico e profético, que foi bispo da Igreja católica em Esmirna. Pois toda palavra que saiu de sua boca se cumpriu e se cumprirá.
40. Mas o Maligno, ciumento e invejoso, o adversário da raça dos justos, quando viu a grandeza do seu martírio e a sua vida irrepreensível desde o princípio, e quando o viu coroado com a coroa da imortalidade e conquistando um prêmio incontestável, cuidou para que nem mesmo o seu corpo fosse levado por nós, embora muitos desejassem fazê-lo e ter comunhão com a sua santa carne.
41. Assim, alguns sugeriram em segredo a Nicetes, pai de Herodes e irmão de Alce, que intercedesse junto ao magistrado para que não entregasse o corpo, ‘para que’, dizia-se, ‘não abandonem o crucificado e comecem a adorar este homem.’ Disseram essas coisas por sugestão e instigação dos judeus, que também vigiavam quando estávamos para tirá-lo do fogo, não sabendo que nunca poderemos abandonar a Cristo, que sofreu pela salvação de todo o mundo dos que são salvos, nem adorar a nenhum outro.
42. Pois a ele, que é o Filho de Deus, adoramos; mas aos mártires, como discípulos e imitadores do Senhor, amamos como merecem, por causa do seu afeto incomparável para com o seu próprio rei e mestre. Que também nós sejamos feitos participantes e condiscípulos com eles.
43. O centurião, portanto, ao ver a disposição contenciosa mostrada pelos judeus, colocou-o no meio e o queimou, como era o costume deles. E assim recolhemos depois os seus ossos, mais valiosos do que pedras preciosas e mais estimáveis do que o ouro, e os depositamos num lugar conveniente.
44. Ali o Senhor nos permitirá reunir-nos, conforme pudermos, com alegria e júbilo, para celebrar o dia natalício do seu martírio, em memória dos que já combateram e para o exercício e preparação dos que hão de fazer o mesmo no futuro.
45. Esses são os acontecimentos que sobrevieram ao bem-aventurado Policarpo, que sofreu o martírio em Esmirna com os onze de Filadélfia. Este único homem é lembrado por todos mais do que os outros, de modo que até pelos pagãos se fala dele em todo lugar.”
46. De tal fim foi julgado digno o admirável e apostólico Policarpo, conforme registraram os irmãos da igreja de Esmirna na carta que mencionamos. No mesmo volume a respeito dele vêm anexados também outros martírios que ocorreram na mesma cidade, Esmirna, por volta do mesmo período do martírio de Policarpo. Entre eles também Metrodoro, que parece ter sido um prosélito da seita marcionita, sofreu a morte pelo fogo.
47. Mártir célebre daqueles tempos foi um homem chamado Piônio. Os que desejam conhecer as suas diversas confissões, e a ousadia de sua palavra, e as suas apologias em favor da fé diante do povo e dos governantes, e os seus discursos instrutivos e, além disso, as suas saudações aos que haviam cedido à tentação na perseguição, e as palavras de encorajamento que dirigiu aos irmãos que vinham visitá-lo na prisão, e as torturas que ainda suportou, e além destas os sofrimentos e as cravações, e a sua firmeza na pira, e a sua morte depois de todas as provações extraordinárias, a esses remetemos àquela carta que foi incluída nos Martírios dos antigos, coletados por nós, e que contém um relato muito completo a respeito dele.
48. E existem também registros de outros que sofreram o martírio em Pérgamo, cidade da Ásia: de Carpo e Papilo, e de uma mulher chamada Agatônica, os quais, depois de muitos e ilustres testemunhos, terminaram gloriosamente a vida.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.