Eusébio, História Eclesiástica · Livro VII
Nepos e o seu cisma; Dionísio sobre o Apocalipse de João; Paulo de Samósata em Antioquia e a carta dos bispos contra ele; a heresia dos maniqueus; os eclesiásticos ilustres até a perseguição.
1. Além de tudo isso, ele compôs também os dois livros Sobre as promessas. A ocasião deles foi Nepos, bispo no Egito, que ensinava que as promessas feitas aos santos nas Divinas Escrituras deviam ser entendidas de modo mais judaico, e que haveria um certo milênio de deleites corporais sobre esta terra.
2. Julgando que podia firmar sua opinião particular pelo Apocalipse de João, escreveu sobre esse assunto um livro intitulado Refutação dos alegoristas.
3. Dionísio se opõe a ele em seus livros Sobre as promessas. No primeiro expõe sua própria opinião sobre o dogma; no segundo trata do Apocalipse de João e, mencionando Nepos logo no começo, escreve a respeito dele desta maneira:
4. “Mas, como apresentam certa obra de Nepos, na qual confiam plenamente, como se ela provasse sem contestação que haverá um reino de Cristo sobre a terra, confesso que em muitos outros aspectos aprovo e amo Nepos, por sua fé, sua dedicação e sua diligência nas Escrituras, e por sua vasta salmodia, com a qual muitos dos irmãos ainda hoje se deleitam; e tenho-o em reverência ainda maior porque já foi descansar antes de nós. Mas a verdade deve ser amada e honrada acima de tudo. E, se devemos louvar e aprovar sem reservas o que se diz com acerto, devemos também examinar e corrigir o que não parece ter sido escrito com solidez.
5. Se ele estivesse presente para expor de viva voz a sua opinião, bastaria uma simples conversa, sem nada escrito, que persuadisse e reconciliasse os opositores por meio de perguntas e respostas. Mas alguns consideram sua obra muito convincente, e certos mestres têm a lei e os profetas por coisa de nenhuma importância, não seguem os Evangelhos e tratam com desdém as epístolas apostólicas, enquanto fazem promessas a respeito do ensino desta obra, como se fosse algum grande mistério oculto. Eles não permitem que nossos irmãos mais simples tenham pensamentos sublimes e elevados sobre a gloriosa e verdadeiramente divina manifestação de nosso Senhor, sobre a nossa ressurreição dentre os mortos, sobre a nossa reunião com ele e sobre o sermos feitos semelhantes a ele; ao contrário, levam-nos a esperar coisas pequenas e mortais no reino de Deus, coisas como as que existem agora. Sendo assim, é necessário que discutamos com nosso irmão Nepos como se ele estivesse presente.” Mais adiante, diz:
6. “Quando estive no distrito de Arsínoe, onde, como vocês sabem, essa doutrina prevaleceu por muito tempo, a ponto de resultar em cismas e apostasias de igrejas inteiras, reuni os presbíteros e os mestres dos irmãos nas aldeias (estando presentes também os irmãos que o quiseram) e exortei-os a fazer um exame público dessa questão.
7. Assim, quando me trouxeram esse livro, como se fosse uma arma e uma fortaleza inexpugnável, sentei-me com eles da manhã até a tarde durante três dias seguidos e procurei corrigir o que nele estava escrito.
8. E alegrei-me com a constância, a sinceridade, a docilidade e a inteligência dos irmãos, enquanto considerávamos com ordem e moderação as questões, as dificuldades e os pontos de acordo. Abstivemo-nos de defender de qualquer maneira e com espírito de contenda as opiniões que antes havíamos sustentado, a não ser que parecessem corretas. Tampouco fugimos das objeções, mas procuramos, tanto quanto possível, ater-nos às questões propostas e confirmá-las; e, se a razão apresentada nos convencia, não nos envergonhávamos de mudar de opinião e concordar com os outros. Ao contrário, com consciência e sinceridade, e com o coração aberto diante de Deus, aceitamos tudo o que ficava estabelecido pelas provas e pelos ensinos das Sagradas Escrituras.
9. Por fim, o autor e promotor desse ensino, chamado Coracião, na presença de todos os irmãos que ali estavam, reconheceu e nos testemunhou que não sustentaria mais essa opinião, nem a discutiria, nem a mencionaria, nem a ensinaria, pois estava plenamente convencido pelos argumentos contrários. E alguns dos outros irmãos manifestaram sua satisfação com a conferência e com o espírito de conciliação e de harmonia que todos haviam demonstrado.”
1. Depois disso, fala desta maneira sobre o Apocalipse de João.
“Alguns antes de nós puseram de lado e rejeitaram inteiramente o livro, criticando-o capítulo por capítulo, declarando-o sem sentido e sem lógica e afirmando que o título é fraudulento.
2. Dizem, com efeito, que ele não é obra de João, nem é uma revelação, pois está coberto por um véu espesso e denso de obscuridade. E afirmam que nenhum dos apóstolos, nenhum dos santos, nem pessoa alguma na Igreja é o seu autor, mas que Cerinto, que fundou a seita chamada, por causa dele, cerintiana, desejando uma autoridade respeitável para a sua ficção, antepôs-lhe esse nome.
3. Pois a doutrina que ensinava era esta: que o reino de Cristo será terreno. E, como ele próprio era dado aos prazeres do corpo e inteiramente sensual por natureza, sonhava que aquele reino consistiria nas coisas que ele desejava, isto é, nos deleites do ventre e da paixão sexual; quer dizer, em comer, beber e casar, e em festas, sacrifícios e imolação de vítimas, sob cujo pretexto julgava poder satisfazer seus apetites com mais decoro.
4. “Eu, porém, não ousaria rejeitar o livro, pois muitos irmãos o têm em alta estima. Suponho, antes, que ele ultrapassa a minha compreensão e que em cada parte há um sentido oculto e mais admirável. Pois, se não entendo, suspeito que um sentido mais profundo jaz sob as palavras.
5. Não as meço nem as julgo pela minha própria razão, mas, deixando mais espaço à fé, considero-as elevadas demais para que eu as alcance. E não rejeito o que não consigo compreender; antes, admiro-me justamente por não entendê-lo.”
6. Depois disso, examina todo o livro do Apocalipse e, tendo provado que é impossível entendê-lo segundo o sentido literal, prossegue assim:
“Tendo concluído, por assim dizer, toda a profecia, o profeta declara bem-aventurados os que a guardarem, e também a si mesmo. Pois diz: ‘Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro, e eu, João, que vi e ouvi estas coisas’ (Ap 22.7-8).
7. Que ele se chamava João e que este livro é obra de um João, portanto, não nego. E concordo também que é obra de um homem santo e inspirado. Mas não posso admitir facilmente que fosse o apóstolo, o filho de Zebedeu, o irmão de Tiago, por quem foram escritos o Evangelho de João e a Epístola Católica.
8. Pois julgo, pelo caráter de ambos, pelas formas de expressão e por toda a composição do livro, que este não é dele. O evangelista, com efeito, em parte alguma dá o seu nome nem se proclama a si mesmo, nem no Evangelho nem na Epístola.”
9. Mais adiante, acrescenta:
“João nunca fala como quem se refere a si mesmo, nem como quem se refere a outra pessoa. Mas o autor do Apocalipse apresenta-se logo no começo: ‘Revelação de Jesus Cristo, a qual lhe deu para mostrar em breve aos seus servos; e ele a enviou e a deu a conhecer por meio do seu anjo ao seu servo João, que deu testemunho da palavra de Deus e do seu testemunho, isto é, de tudo o que viu’ (Ap 1.1-2).
10. Depois escreve também uma epístola: ‘João, às sete igrejas que estão na Ásia: graça e paz estejam com vocês’ (Ap 1.4). O evangelista, porém, não antepôs seu nome nem mesmo à Epístola Católica, mas, sem introdução, começa pelo próprio mistério da revelação divina: ‘O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos próprios olhos’ (1Jo 1.1). Pois foi por causa de uma revelação assim que também o Senhor declarou Pedro bem-aventurado, dizendo: ‘Bem-aventurado é você, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que revelaram isso a você, mas meu Pai celestial’ (Mt 16.17).
11. Mas nem na segunda nem na terceira epístola atribuídas a João, embora sejam muito breves, aparece o nome de João; está escrita apenas a expressão anônima ‘o presbítero’ (cf. 2Jo 1; 3Jo 1). Este autor, ao contrário, não julgou suficiente dar seu nome uma só vez e prosseguir com a obra, mas o retoma: ‘Eu, João, irmão de vocês e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus’ (Ap 1.9). E perto do fim fala assim: ‘Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro, e eu, João, que vi e ouvi estas coisas’ (Ap 22.7-8).
12. “Que aquele que escreveu essas coisas se chamava João, deve-se crer, pois ele o diz; mas quem ele era não se sabe. Pois não disse, como muitas vezes no Evangelho, que era o discípulo amado do Senhor (cf. Jo 13.23; 19.26; 20.2; 21.7, 20), ou o que se reclinou sobre o seu peito (cf. Jo 13.23, 25), ou o irmão de Tiago, ou a testemunha ocular e ouvinte do Senhor.
13. Pois teria falado dessas coisas se quisesse mostrar-se claramente. Mas não diz nenhuma delas; fala de si mesmo como nosso irmão e companheiro, testemunha de Jesus e bem-aventurado por ter visto e ouvido as revelações.
14. Sou de opinião, porém, que houve muitos com o mesmo nome do apóstolo João, os quais, por amor a ele, porque o admiravam e imitavam e desejavam ser amados pelo Senhor como ele foi, tomaram para si o mesmo nome, assim como muitos dos filhos dos fiéis se chamam Paulo ou Pedro.
15. Há, por exemplo, também outro João, de sobrenome Marcos, mencionado nos Atos dos Apóstolos, a quem Barnabé e Paulo levaram consigo, e de quem também se diz: ‘Tinham também João como auxiliar’ (At 13.5). Mas que seja ele quem escreveu isto, eu não diria. Pois não está escrito que foi com eles para a Ásia, mas: ‘E, navegando de Pafos, Paulo e seus companheiros viajaram a Perge da Panfília. João, porém, deixando-os, voltou para Jerusalém’ (At 13.13).
16. Penso, antes, que foi algum outro dos que estavam na Ásia, pois dizem que há em Éfeso dois túmulos, cada um com o nome de João.
17. “E, pelas ideias, pelas palavras e por sua disposição, pode-se razoavelmente conjecturar que este é diferente daquele.
18. Pois o Evangelho e a Epístola concordam entre si e começam da mesma maneira. Um diz: ‘No princípio era o Verbo’ (Jo 1.1); a outra: ‘O que era desde o princípio’ (1Jo 1.1). Um: ‘E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai’ (Jo 1.14); a outra diz o mesmo com ligeira alteração: ‘O que ouvimos, o que vimos com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida, e a vida se manifestou’ (1Jo 1.1-2).
19. Pois ele apresenta essas coisas no começo, sustentando-as, como fica evidente pelo que se segue, contra os que diziam que o Senhor não tinha vindo em carne. Por isso acrescenta também com cuidado: ‘E nós a vimos e dela damos testemunho, e anunciamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada. O que vimos e ouvimos anunciamos também a vocês’ (1Jo 1.2-3).
20. Ele se atém a isso e não se desvia do seu assunto, mas trata de tudo sob os mesmos títulos e nomes, alguns dos quais mencionaremos brevemente.
21. Quem examinar com atenção encontrará as expressões ‘a vida’, ‘a luz’, ‘o afastar-se das trevas’ ocorrendo com frequência em ambos; também, continuamente, ‘verdade’, ‘graça’, ‘alegria’, ‘a carne e o sangue do Senhor’, ‘o juízo’, ‘o perdão dos pecados’, ‘o amor de Deus para conosco’, ‘o mandamento de que nos amemos uns aos outros’, ‘que guardemos todos os mandamentos’; ‘a condenação do mundo, do Diabo, do Anticristo’, ‘a promessa do Espírito Santo’, ‘a adoção de Deus’, ‘a fé que continuamente se exige de nós’, ‘o Pai e o Filho’ aparecem por toda parte. De fato, vê-se claramente que um só e mesmo caráter marca o Evangelho e a Epístola do começo ao fim.
22. O Apocalipse, porém, é diferente desses escritos e estranho a eles; não os toca nem confina minimamente com eles; quase, por assim dizer, nem uma sílaba tem em comum com eles.
23. Mais ainda: a Epístola (pois deixo de lado o Evangelho) não menciona o Apocalipse nem contém qualquer indício dele, nem o Apocalipse da Epístola. Paulo, porém, em suas epístolas, dá alguma indicação de suas revelações (cf. 2Co 12.1; Gl 2.2), embora não as tenha escrito à parte.
24. “Além disso, pode-se mostrar também que a linguagem do Evangelho e da Epístola difere da do Apocalipse.
25. Pois aqueles foram escritos não só sem erros quanto à língua grega, mas também com elegância na expressão, nos raciocínios e em toda a estrutura. Estão muito longe de revelar qualquer barbarismo, solecismo ou vulgarismo, seja qual for. Pois o escritor possuía, ao que parece, ambos os requisitos do discurso, isto é, o dom do conhecimento e o dom da expressão, já que o Senhor lhe concedera os dois.
26. Não nego que o outro escritor tenha visto uma revelação e recebido conhecimento e profecia. Percebo, porém, que seu dialeto e sua linguagem não são um grego exato, mas que ele usa expressões bárbaras e, em alguns lugares, solecismos.
27. Não é necessário apontá-los aqui, pois não quero que ninguém pense que eu disse essas coisas em tom de zombaria; disse o que disse apenas com o propósito de mostrar claramente a diferença entre os escritos.”
1. Além dessas, existem ainda muitas outras epístolas de Dionísio, como as escritas contra Sabélio, dirigidas a Amon, bispo da igreja de Berenice, uma a Telésforo, uma a Eufranor e ainda outra a Amon e Êuporo. Escreveu também, sobre o mesmo assunto, outros quatro livros, que dirigiu ao seu homônimo Dionísio, em Roma.
2. Além dessas, temos conosco muitas de suas epístolas e grandes livros escritos em forma de carta, como os que tratam Sobre a natureza, dirigidos ao jovem Timóteo, e um Sobre as tentações, que ele dedicou também a Eufranor.
3. Além disso, numa carta a Basílides, bispo das igrejas da Pentápole, diz que escrevera uma exposição do começo do Eclesiastes. E deixou-nos também várias cartas dirigidas a essa mesma pessoa. Isso quanto a Dionísio.
Agora, porém, concluído o nosso relato sobre esses assuntos, permitam-nos mostrar à posteridade o caráter da nossa própria época.
1. Depois que Xisto presidiu a igreja de Roma por onze anos, sucedeu-lhe Dionísio, homônimo do de Alexandria. Por esse mesmo tempo morreu Demetriano em Antioquia, e Paulo de Samósata recebeu aquele episcopado.
2. Como ele sustentava, contra o ensino da Igreja, ideias baixas e aviltantes a respeito de Cristo, a saber, que por natureza ele era um homem comum, Dionísio de Alexandria foi instado a comparecer ao sínodo. Não podendo ir, por causa da idade e da fraqueza física, deu por carta o seu parecer sobre a questão em exame. Todos os outros pastores das igrejas, porém, vindos de todas as direções, apressaram-se a reunir-se em Antioquia, como contra um saqueador do rebanho de Cristo.
1. Destes, os mais eminentes eram Firmiliano, bispo de Cesareia da Capadócia; os irmãos Gregório e Atenodoro, pastores das igrejas do Ponto; Heleno, da igreja de Tarso, e Nicomas, de Icônio; além disso, Himeneu, da igreja de Jerusalém, e Teotecno, da igreja vizinha de Cesareia; e ainda Máximo, que presidia com distinção os irmãos de Bostra. Quem os contasse não deixaria de notar muitíssimos outros, além de presbíteros e diáconos, que naquele tempo se reuniram pela mesma causa na referida cidade. Mas estes eram os mais ilustres.
2. Quando todos eles se reuniram, em ocasiões diferentes e com frequência, para considerar esses assuntos, os argumentos e as questões eram debatidos em cada encontro. Os partidários do samosatense procuravam cobrir e ocultar a sua heterodoxia, e os outros se esforçavam com zelo para desnudar e tornar manifesta a sua heresia e a sua blasfêmia contra Cristo.
3. Nesse meio-tempo, Dionísio morreu no décimo segundo ano do reinado de Galieno, depois de ocupar o episcopado de Alexandria por dezessete anos, e Máximo lhe sucedeu.
4. Galieno, depois de reinar quinze anos, teve por sucessor Cláudio, que dois anos depois entregou o governo a Aureliano.
1. Durante o reinado deste, realizou-se um último sínodo, composto de muitíssimos bispos, e o líder da heresia em Antioquia foi desmascarado. Sua falsa doutrina ficou claramente exposta diante de todos, e ele foi excomungado da Igreja Católica que está debaixo do céu.
2. Foi sobretudo Malquião quem o tirou do seu esconderijo e o refutou. Era homem culto em outros aspectos e diretor da escola sofística de letras gregas em Antioquia; contudo, pela superior nobreza da sua fé em Cristo, fora feito presbítero daquela igreja. Esse homem, tendo sustentado com ele uma discussão que foi registrada por taquígrafos e que, como sabemos, ainda existe, foi o único capaz de desmascarar aquele homem dissimulado que enganava os outros.
1. Os pastores que se haviam reunido por causa desse assunto prepararam, de comum acordo, uma epístola dirigida a Dionísio, bispo de Roma, e a Máximo, de Alexandria, e a enviaram a todas as províncias. Nela tornam manifestos a todos o seu próprio zelo e o erro perverso de Paulo, bem como os argumentos e as discussões que tiveram com ele, e mostram toda a vida e a conduta do homem. Talvez seja bom registrar agora os seguintes trechos do seu escrito:
2. “A Dionísio e Máximo, e a todos os nossos companheiros de ministério pelo mundo inteiro, bispos, presbíteros e diáconos, e a toda a Igreja Católica debaixo do céu, Heleno, Himeneu, Teófilo, Teotecno, Máximo, Proclo, Nicomas, Eliano, Paulo, Bolano, Protógenes, Hiérax, Eutíquio, Teodoro, Malquião e Lúcio, e todos os demais que habitam conosco nas cidades e nações vizinhas, bispos, presbíteros e diáconos, e as igrejas de Deus, aos amados irmãos no Senhor, saudação.”
3. Um pouco mais adiante, prosseguem assim: “Mandamos buscar e chamamos muitos dos bispos que estavam longe, para nos livrarem dessa doutrina mortífera, como Dionísio de Alexandria e Firmiliano da Capadócia, aqueles bem-aventurados. O primeiro deles, não julgando o autor desse engano digno de que se lhe dirigisse a palavra, enviou uma carta a Antioquia, não escrita a ele, mas a toda a igreja, da qual damos uma cópia abaixo.
4. Firmiliano, porém, veio duas vezes e condenou as inovações dele, como nós, que estávamos presentes, sabemos e testemunhamos, e como muitos outros sabem. Mas, como ele prometeu mudar de opinião, Firmiliano acreditou nele e esperou que, sem nenhum descrédito para a Palavra, se faria o que era necessário. Assim, adiou o assunto, enganado por aquele que negava até o seu próprio Deus e Senhor e não guardara a fé que antes professava.
5. E agora Firmiliano estava de novo a caminho de Antioquia e chegara até Tarso, porque aprendera por experiência a perversidade daquele homem que negava a Deus. Mas, enquanto nós, já reunidos, o chamávamos e aguardávamos a sua chegada, ele morreu.”
6. Depois de outras coisas, descrevem da seguinte maneira o modo de vida que ele levava:
7. “Visto que ele se afastou da regra da fé e se desviou para ensinos vis e espúrios, não é necessário, estando ele fora, que julguemos as suas práticas. Por exemplo: embora antes fosse necessitado e pobre, sem ter recebido riqueza de seus pais nem ganho coisa alguma por ofício ou comércio, agora possui grande riqueza por meio de suas iniquidades e sacrilégios, e por meio daquilo que extorque dos irmãos. Ele priva os lesados de seus direitos e promete ajudá-los a troco de recompensa, mas os engana, e despoja os que, em sua aflição, estão dispostos a dar para obter reconciliação com seus opressores, ‘supondo que a piedade é fonte de lucro’ (1Tm 6.5);
8. ou o fato de ser altivo e enfatuado e de assumir dignidades mundanas, preferindo ser chamado ducenário a bispo; e de pavonear-se pelas praças, lendo cartas e recitando-as enquanto anda em público, escoltado por guarda-costas, com uma multidão à sua frente e atrás de si, de modo que a fé é invejada e odiada por causa do seu orgulho e da altivez do seu coração;
9. ou o fato de usar de artifícios nas assembleias eclesiásticas, de maquinar a própria glória, de enganar com aparências e de deslumbrar a mente dos simples, preparando para si um tribunal e um trono elevado (não como discípulo de Cristo) e possuindo um ‘secretum’ (como os governantes do mundo), dando-lhe esse nome, batendo na coxa com a mão e pisoteando o tribunal com os pés; ou o fato de repreender e insultar os que não aplaudem nem agitam os lenços como nos teatros, nem gritam e saltam como os homens e as mulheres postados ao seu redor, que o ouvem dessa maneira indecorosa, mas escutam com reverência e ordem, como na casa de Deus; ou o fato de atacar em público, com violência e grosseria, os intérpretes da Palavra que já partiram desta vida, e de engrandecer-se a si mesmo, não como bispo, mas como sofista e charlatão,
10. e de fazer cessar os salmos a nosso Senhor Jesus Cristo, como se fossem produções recentes de homens recentes, e de preparar mulheres para cantar salmos a ele mesmo no meio da igreja, no grande dia da Páscoa, coisa que faria estremecer quem a ouvisse; e de persuadir os bispos e presbíteros dos distritos e cidades vizinhos que o bajulam a apresentar as mesmas ideias em seus discursos ao povo.
11. Pois, para antecipar algo do que logo escreveremos, ele não quer reconhecer que o Filho de Deus desceu do céu. E isso não é mera afirmação, mas fica amplamente provado pelos registros que lhes enviamos; e não menos onde diz que ‘Jesus Cristo é de baixo’. E os que cantam para ele e o exaltam diante do povo dizem que o seu ímpio mestre desceu do céu como um anjo. E ele não proíbe tais coisas; ao contrário, o arrogante está presente quando são proferidas.
12. E há as mulheres, as ‘subintroductae’, como as chama o povo de Antioquia, que pertencem a ele e aos presbíteros e diáconos que estão com ele. Embora ele conheça esses homens e os tenha convencido de culpa, faz vista grossa a isso e aos seus outros pecados incuráveis, para que lhe fiquem presos e, por medo de si mesmos, não ousem acusá-lo por suas palavras e ações perversas. Além disso, ele os enriqueceu, e por isso é amado e admirado pelos que cobiçam tais coisas.
13. Sabemos, amados, que o bispo e todo o clero devem ser para o povo exemplo de todas as boas obras. E não ignoramos quantos caíram ou incorreram em suspeita por causa das mulheres que assim introduziram em casa. De modo que, mesmo se admitíssemos que ele não comete nenhum ato pecaminoso, deveria evitar a suspeita que nasce de tal coisa, para não escandalizar alguém nem levar outros a imitá-lo.
14. Pois como pode ele repreender ou admoestar outro a não ser íntimo demais com mulheres, para que não caia, como está escrito, quando ele próprio já despediu uma e agora tem duas consigo, viçosas e belas, e as leva consigo aonde quer que vá, ao mesmo tempo que vive no luxo e na glutonaria?
15. Por causa dessas coisas, todos gemem e se lamentam em particular; mas temem tanto a sua tirania e o seu poder que não ousam acusá-lo.
16. Mas, como dissemos, embora se pudesse pedir contas ao homem por essa conduta, se ele sustentasse a doutrina católica e fosse contado entre nós, uma vez que desprezou o mistério e se pavoneia na abominável heresia de Artemas (pois por que não mencionar seu pai?), julgamos desnecessário exigir dele explicação dessas coisas.”
17. Depois, no fim da epístola, acrescentam estas palavras:
“Por isso fomos obrigados a excomungá-lo, já que ele se levanta contra Deus e se recusa a obedecer, e a constituir em seu lugar outro bispo para a Igreja Católica. Por direção divina, como cremos, constituímos Domno, adornado de todas as qualidades que convêm a um bispo, filho do bem-aventurado Demetriano, que antes presidiu com distinção a mesma igreja. Comunicamos isso a vocês para que lhe escrevam e recebam dele cartas de comunhão. Quanto a esse homem, que escreva a Artemas; e os que pensam como Artemas, que tenham comunhão com ele.”
18. Tendo Paulo caído do episcopado, assim como da fé ortodoxa, Domno, como se disse, tornou-se bispo da igreja de Antioquia.
19. Mas, como Paulo se recusasse a entregar o edifício da igreja, recorreu-se ao imperador Aureliano; e ele decidiu a questão com toda a equidade, ordenando que o edifício fosse entregue àqueles a quem os bispos da Itália e da cidade de Roma o adjudicassem. Assim esse homem foi expulso da igreja, com extrema vergonha, pelo poder secular.
20. Tal foi o tratamento que Aureliano nos deu naquele tempo; mas, no decorrer do seu reinado, mudou de ideia a nosso respeito e foi movido por certos conselheiros a instaurar uma perseguição contra nós. E muito se falou disso por toda parte.
21. Mas, quando estava para fazê-lo e, por assim dizer, no próprio ato de assinar os decretos contra nós, o juízo divino caiu sobre ele e o deteve à beira mesmo do seu empreendimento. Mostrou, de um modo que todos podiam ver claramente, que os governantes deste mundo jamais podem encontrar ocasião contra as igrejas de Cristo, a não ser que a mão que as defende o permita, por juízo divino e celestial, para disciplina e correção, nos tempos que lhe parecerem melhores.
22. Depois de um reinado de seis anos, Aureliano teve por sucessor Probo. Este reinou o mesmo número de anos, e sucedeu-lhe Caro, com seus filhos Carino e Numeriano. Depois que estes reinaram menos de três anos, o governo passou a Diocleciano e aos que lhe foram associados. Sob eles ocorreu a perseguição do nosso tempo e a destruição das igrejas que a acompanhou.
23. Pouco antes disso, Dionísio, bispo de Roma, morreu depois de ocupar o cargo por nove anos, e teve por sucessor Félix.
1. Nesse tempo, o louco [N. do T.: no grego, “o louco” faz trocadilho com o nome de Mani.], que deu nome à sua heresia demoníaca, armou-se na perversão da sua razão, quando o Diabo, Satanás, que luta ele mesmo contra Deus, o lançou à frente para a ruína de muitos. Era um bárbaro na vida, tanto em palavras como em atos, e de natureza demoníaca e insana. Em consequência disso, procurou fazer-se passar por Cristo e, enfatuado em sua loucura, proclamou-se o Paráclito e o próprio Espírito Santo; e depois, como Cristo, escolheu doze discípulos como participantes da sua nova doutrina.
2. Ele remendou doutrinas falsas e ímpias, recolhidas de uma multidão de impiedades há muito extintas, e espalhou-as, como veneno mortífero, da Pérsia até a nossa parte do mundo. Dele vem o nome ímpio dos maniqueus, que ainda hoje prevalece entre muitos. Tal foi o fundamento desse “conhecimento falsamente assim chamado” (cf. 1Tm 6.20), que surgiu naqueles tempos.
1. Nesse tempo, Félix, depois de presidir a igreja de Roma por cinco anos, teve por sucessor Eutiquiano; este, em menos de dez meses, deixou o cargo a Caio, que viveu em nosso tempo. Caio o ocupou cerca de quinze anos e teve, por sua vez, por sucessor Marcelino, que foi alcançado pela perseguição.
2. Por esse mesmo tempo, Timeu recebeu o episcopado de Antioquia depois de Domno, e Cirilo, que viveu em nosso tempo, sucedeu-lhe. No tempo dele conhecemos Doroteu, homem erudito entre os de sua época, honrado com o ofício de presbítero em Antioquia. Era amante do belo nas coisas divinas e dedicou-se à língua hebraica, de modo que lia com facilidade as Escrituras hebraicas.
3. Pertencia aos de formação especialmente liberal e não desconhecia a propedêutica grega. Além disso, era eunuco, e assim fora desde o nascimento. Por isso, como se fosse um prodígio, o imperador o acolheu em sua casa e o honrou pondo-o à frente das tinturarias de púrpura de Tiro. Nós o ouvimos expor sabiamente as Escrituras na igreja.
4. Depois de Cirilo, Tirano recebeu o episcopado da igreja de Antioquia. No tempo dele ocorreu a destruição das igrejas.
5. Eusébio, que viera da cidade de Alexandria, governou as igrejas de Laodiceia depois de Sócrates. A ocasião de sua mudança para lá foi o caso de Paulo. Por esse motivo foi à Síria e foi impedido de voltar para casa pelos que ali eram zelosos das coisas divinas. Entre os nossos contemporâneos, foi um belo exemplo de religião, como se vê facilmente pelas palavras de Dionísio que citamos.
6. Anatólio foi nomeado seu sucessor; um homem bom seguindo a outro, como se diz. Também ele era alexandrino de nascimento. Em erudição e em habilidade na filosofia grega, como aritmética e geometria, astronomia e dialética em geral, bem como na teoria da física, ocupava o primeiro lugar entre os homens mais capazes do nosso tempo, e era também o primeiro na ciência retórica. Conta-se que por isso foi solicitado pelos cidadãos de Alexandria a fundar ali uma escola de filosofia aristotélica.
7. Narram dele muitos outros feitos notáveis durante o cerco do Piruquio, em Alexandria, pelos quais foi especialmente honrado por todos os que ocupavam altos cargos; mas darei apenas o seguinte como exemplo.
8. Dizem que o pão faltara aos sitiados, de modo que era mais difícil resistir à fome do que ao inimigo de fora; mas ele, estando presente, providenciou-lhes socorro desta maneira. Como a outra parte da cidade estava aliada ao exército romano e, por isso, não se achava sitiada, Anatólio mandou chamar Eusébio (pois este ainda estava lá, antes de sua mudança para a Síria, entre os que não estavam sitiados, e possuía, além disso, grande reputação e um nome célebre que chegara até o general romano) e informou-o sobre os que pereciam de fome no cerco.
9. Ao saber disso, Eusébio pediu ao comandante romano, como o maior favor possível, que concedesse salvo-conduto aos desertores do inimigo. Obtido o pedido, comunicou-o a Anatólio. Este, assim que recebeu a mensagem, convocou o senado de Alexandria e, a princípio, propôs que todos chegassem a uma reconciliação com os romanos. Mas, percebendo que se irritavam com esse conselho, disse: “Não penso, porém, que vocês se oporão a mim se eu os aconselhar a mandar para fora das portas os supérfluos e os que de nada nos são úteis, como as velhas, as crianças e os velhos, para irem aonde quiserem. Pois por que reter inutilmente estes, que de qualquer modo logo hão de morrer? E por que destruir pela fome os aleijados e mutilados no corpo, quando devemos prover somente para os homens e os jovens e distribuir o pão necessário entre os que são indispensáveis à guarnição da cidade?”
10. Com tais argumentos persuadiu a assembleia e, levantando-se primeiro, deu o seu voto para que toda a multidão, de homens ou de mulheres, que não fosse necessária ao exército saísse da cidade, porque, se ficassem e permanecessem sem necessidade na cidade, não haveria para eles esperança de salvação, mas pereceriam de fome.
11. Como todos os outros no senado concordaram com isso, ele salvou quase todos os sitiados. Providenciou que escapassem primeiro os que pertenciam à igreja e, depois, dos outros da cidade, os de todas as idades: não só as classes incluídas no decreto, mas também, sob a cobertura destas, uma multidão de outros, secretamente vestidos com roupas de mulher. E, por sua direção, saíram pelas portas de noite e fugiram para o acampamento romano. Ali Eusébio, como pai e médico, recebeu a todos, consumidos pelo longo cerco, e os restabeleceu com toda espécie de prudência e cuidado.
12. A igreja de Laodiceia foi honrada com dois pastores assim, um após o outro, que, pela providência de Deus, vieram de Alexandria para aquela cidade depois da referida guerra.
13. Anatólio não escreveu muitas obras; mas nas que chegaram até nós podemos discernir a sua eloquência e a sua erudição. Nelas expõe em particular as suas opiniões sobre a Páscoa. Parece importante dar aqui os seguintes trechos delas.
14. Dos Cânones pascais de Anatólio. “No primeiro ano, portanto, a lua nova do primeiro mês, que é o começo de todo ciclo de dezenove anos, cai no vigésimo sexto dia do Famenot egípcio; mas, segundo os meses dos macedônios, no vigésimo segundo dia de Distro, ou, como diriam os romanos, no décimo primeiro dia antes das calendas de abril.
15. No referido vigésimo sexto de Famenot, o sol se acha não só entrado no primeiro segmento, mas já percorrendo nele o quarto dia. Costumam chamar a esse segmento o primeiro dodecatemório, o equinócio, o princípio dos meses, a cabeça do ciclo e o ponto de partida do curso dos planetas. Ao que o precede, porém, chamam o último dos meses, o duodécimo segmento, o dodecatemório final e o término do curso dos planetas. Por isso afirmamos que os que põem nele o primeiro mês e por ele determinam o décimo quarto dia da Páscoa cometem um erro nada pequeno nem comum.
16. E esta não é uma opinião nossa; já era conhecida dos judeus de antigamente, ainda antes de Cristo, e era cuidadosamente observada por eles. Isso se pode aprender do que dizem Fílon, Josefo e Museu; e não só eles, mas também os ainda mais antigos, os dois Agatóbulos, de sobrenome ‘Mestres’, e o famoso Aristóbulo, que foi escolhido entre os setenta intérpretes das sagradas e divinas Escrituras hebraicas por Ptolomeu Filadelfo e por seu pai, e que dedicou aos mesmos reis os seus livros exegéticos sobre a lei de Moisés.
17. Esses escritores, explicando questões relativas ao Êxodo, dizem que todos igualmente deviam sacrificar as ofertas da Páscoa depois do equinócio da primavera, no meio do primeiro mês. Ora, isso ocorre enquanto o sol percorre o primeiro segmento do círculo solar, ou, como alguns deles o chamaram, do círculo zodiacal. Aristóbulo acrescenta que é necessário, para a festa da Páscoa, que não só o sol percorra o segmento equinocial, mas também a lua.
18. Pois, havendo dois segmentos equinociais, o da primavera e o do outono, diretamente opostos um ao outro, e tendo sido fixado o dia da Páscoa no décimo quarto do mês, a começar da tarde, a lua ocupará uma posição diametralmente oposta ao sol, como se pode ver nas luas cheias; o sol estará no segmento do equinócio da primavera, e a lua, necessariamente, no do outono.
19. Sei que muitas outras coisas foram ditas por eles, umas prováveis, outras próximas da demonstração rigorosa, com as quais procuram provar que é absolutamente necessário celebrar a Páscoa e a festa dos pães sem fermento depois do equinócio. Mas abstenho-me de exigir esse tipo de demonstração para assuntos dos quais foi removido o véu da lei mosaica, de modo que agora, enfim, com o rosto descoberto, contemplamos continuamente como num espelho a Cristo e os ensinos e sofrimentos de Cristo (cf. 2Co 3.18). Mas que entre os hebreus o primeiro mês ficava perto do equinócio, mostram-no também os ensinos do Livro de Enoque.”
20. O mesmo escritor deixou também as Instituições aritméticas, em dez livros, e outras provas da sua experiência e proficiência nas coisas divinas.
21. Teotecno, bispo de Cesareia da Palestina, foi o primeiro a ordená-lo bispo, com o propósito de fazê-lo seu sucessor na própria igreja depois de sua morte. E por pouco tempo ambos presidiram a mesma igreja. Mas o sínodo que se reuniu para tratar do caso de Paulo chamou-o a Antioquia e, ao passar pela cidade de Laodiceia, estando Eusébio morto, foi retido ali pelos irmãos.
22. E, depois que Anatólio partiu desta vida, o último bispo daquela igreja antes da perseguição foi Estêvão, admirado por muitos por seu conhecimento de filosofia e das demais letras gregas. Mas não era igualmente devotado à fé divina, como o curso da perseguição manifestou; pois mostrou que era antes um dissimulado covarde e sem hombridade do que um verdadeiro filósofo.
23. Isso, porém, não prejudicou gravemente a igreja, pois Teódoto restaurou os seus negócios, feito logo bispo daquela igreja pelo próprio Deus, o Salvador de todos. Ele justificou por suas obras tanto o seu nome senhorial [N. do T.: Teódoto quer dizer, em grego, “dado por Deus”.] como o seu ofício de bispo. Pois se distinguia na arte médica para os corpos e na arte de curar as almas. Nenhum outro homem se igualava a ele em bondade, sinceridade, compaixão e zelo em ajudar os que precisavam do seu auxílio. Era também muito dedicado ao saber divino. Tal era ele.
24. Em Cesareia da Palestina, Agápio sucedeu a Teotecno, que cumprira com todo o zelo os deveres do seu episcopado. Também dele sabemos que trabalhou com diligência e mostrou a mais genuína providência na supervisão do povo, cuidando em especial de todos os pobres com mão generosa.
25. No tempo dele conhecemos Pânfilo, homem eloquentíssimo, de vida verdadeiramente filosófica, que foi considerado digno do ofício de presbítero naquela igreja. Não seria pequena tarefa mostrar que homem ele era e de onde vinha. Mas descrevemos, na obra especial que lhe dedicamos, todos os pormenores da sua vida, da escola que fundou, das provações que suportou em muitas confissões durante a perseguição e da coroa do martírio com que por fim foi honrado. De todos os que ali estavam, ele foi de fato o mais admirável.
26. Entre os mais próximos do nosso tempo, conhecemos Piério, dos presbíteros de Alexandria, e Melécio, bispo das igrejas do Ponto, homens raríssimos.
27. O primeiro distinguiu-se por sua vida de extrema pobreza e por seu saber filosófico, e era extremamente diligente na contemplação e na exposição das coisas divinas e nos discursos públicos na igreja. Melécio, a quem os eruditos chamavam “mel da Ática”, era um homem que todos descreveriam como o mais completo em todo gênero de saber; e seria impossível admirar suficientemente a sua habilidade retórica. Poder-se-ia dizer que a possuía por natureza; mas quem poderia superar a excelência da sua grande experiência e erudição nos demais aspectos?
28. Pois, em todos os ramos do conhecimento, se você tivesse tentado prová-lo uma vez sequer, teria dito que era o mais hábil e o mais douto. Além disso, as virtudes da sua vida não eram menos notáveis. Nós o observamos bem no tempo da perseguição, quando durante sete anos inteiros esteve fugindo do seu furor nas regiões da Palestina.
29. Zambdas recebeu o episcopado da igreja de Jerusalém depois do bispo Himeneu, que mencionamos um pouco acima. Morreu pouco tempo depois, e Hermon, o último antes da perseguição do nosso tempo, sucedeu na cátedra apostólica, que se tem conservado ali até o presente.
30. Em Alexandria, Máximo, que depois da morte de Dionísio fora bispo por dezoito anos, teve por sucessor Teonas. No tempo dele tornou-se célebre Áquilas, que fora constituído presbítero em Alexandria ao mesmo tempo que Piério. Foi posto à frente da escola da fé sagrada e exibiu frutos de filosofia raríssimos e inferiores a nenhum, e uma conduta genuinamente evangélica.
31. Depois que Teonas ocupou o cargo por dezenove anos, Pedro recebeu o episcopado em Alexandria e foi muito eminente entre eles por doze anos inteiros. Destes, governou a igreja menos de três anos antes da perseguição, e no restante da sua vida submeteu-se a uma disciplina mais rigorosa e cuidou, de modo nada oculto, do interesse geral das igrejas. Por isso foi decapitado no nono ano da perseguição e adornado com a coroa do martírio.
32. Tendo escrito nestes livros o relato das sucessões desde o nascimento de nosso Salvador até a destruição dos lugares de culto, um período de trezentos e cinco anos, permitam-me passar agora aos combates daqueles que, em nosso tempo, lutaram heroicamente pela religião, e deixar por escrito, para informação da posteridade, a extensão e a grandeza desses conflitos.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.