Agostinho, Enquirídio · Parte 1
O pedido de Laurêncio; a verdadeira sabedoria é a piedade; Deus é cultuado pela fé, pela esperança e pelo amor; o Criador fez boas todas as coisas e o mal é ausência do bem; o erro e a mentira.
Tendo Laurêncio pedido a Agostinho que lhe fornecesse um manual de doutrina cristã, com respostas breves a várias perguntas que havia proposto, Agostinho lhe mostra que essas perguntas podem ser plenamente respondidas por quem conhece os objetos próprios da fé, da esperança e do amor. Passa então, na primeira parte da obra (caps. 9 a 113), a expor os objetos da fé, tomando por texto o Credo dos Apóstolos; e, no curso dessa exposição, além de refutar diversas heresias, lança muitas observações sobre a conduta da vida. A segunda parte da obra (caps. 114 a 116) trata dos objetos da esperança e consiste numa brevíssima exposição dos vários pedidos da Oração do Senhor. A terceira e última parte (caps. 117 a 122) trata dos objetos do amor, mostrando a preeminência dessa graça no sistema do evangelho: que o amor é o fim do mandamento e o cumprimento da lei, e que o próprio Deus é amor.
Não sou capaz de exprimir, meu amado filho Laurêncio, o prazer com que vejo o seu progresso no conhecimento, nem o ardente desejo que tenho de que você seja um homem sábio: não um daqueles de quem se diz: “Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o questionador deste mundo? Não é fato que Deus tornou louca a sabedoria deste mundo?” (1Co 1.20), mas um daqueles de quem se diz: “A multidão dos sábios é a salvação do mundo” (Sb 6.24), e tal como o apóstolo deseja que se tornem aqueles a quem diz: “Quero que sejam sábios no que diz respeito ao bem e simples no que diz respeito ao mal” (Rm 16.19). Ora, assim como ninguém pode existir por si mesmo, assim também ninguém pode ser sábio por si mesmo, mas somente pela influência iluminadora daquele de quem está escrito: “Toda a sabedoria vem do Senhor” (Eclo 1.1).
A verdadeira sabedoria do homem é a piedade. Você a encontra no livro do santo Jó. Pois ali lemos o que a própria sabedoria disse ao homem: “Eis que o temor do Senhor (pietas), isso é a sabedoria” (Jó 28.28). Se você perguntar, além disso, o que se entende naquele lugar por pietas, o grego a chama, de modo mais definido, theosebeia, isto é, o culto de Deus. Os gregos às vezes chamam a piedade de eusebeia, que significa culto correto, embora isso, naturalmente, se refira especialmente ao culto de Deus. Mas, quando estamos definindo em que consiste a verdadeira sabedoria do homem, a palavra mais conveniente é aquela que exprime distintamente o temor de Deus. E você, que deseja que eu trate de grandes assuntos em poucas palavras, poderia desejar uma forma de expressão mais breve? Ou talvez você deseje que essa mesma expressão seja explicada brevemente, e que eu exponha num discurso curto o modo próprio de cultuar a Deus?
Ora, se eu respondesse que Deus deve ser cultuado com fé, esperança e amor, você logo diria que essa resposta é breve demais, e me pediria que expusesse brevemente os objetos de cada uma dessas três graças, a saber: o que devemos crer, o que devemos esperar e o que devemos amar. E, quando eu o tiver feito, você terá a resposta a todas as perguntas que fez em sua carta. Se guardou uma cópia da carta, pode facilmente procurá-la e relê-la; se não guardou, não terá dificuldade em recordá-la quando eu lhe refrescar a memória.
Você deseja, segundo diz, que eu escreva para você uma espécie de manual, que possa ter sempre à mão, contendo respostas às perguntas que fez, a saber: qual deve ser o fim principal do homem na vida; o que ele deve principalmente evitar, em vista das diversas heresias; até que ponto a religião é sustentada pela razão; o que há na razão que não presta apoio algum à fé, quando a fé está sozinha; qual é o ponto de partida e qual é a meta da religião; qual é a suma de todo o corpo da doutrina; qual é o fundamento seguro e próprio da fé católica. Ora, sem dúvida você saberá as respostas a todas essas perguntas se conhecer a fundo os objetos próprios da fé, da esperança e do amor. Pois estes devem ser os principais, ou melhor, os únicos objetos de busca na religião. Quem fala contra eles ou é totalmente estranho ao nome de Cristo, ou é herege. Eles devem ser defendidos pela razão, que há de ter seu ponto de partida ou nos sentidos corporais ou nas intuições da mente. E aquilo que nem experimentamos pelos sentidos corporais, nem pudemos alcançar pelo intelecto, deve sem dúvida ser crido com base no testemunho daquelas testemunhas por quem foram escritas as Escrituras, justamente chamadas divinas; e que, com o auxílio divino, foram capacitadas, seja pelo sentido corporal, seja pela percepção intelectual, a ver ou a prever as coisas em questão.
Além disso, quando a mente foi impregnada dos primeiros elementos daquela fé que atua pelo amor (Gl 5.6), ela se esforça, pela pureza de vida, por chegar à visão, onde os puros e perfeitos de coração conhecem aquela beleza indizível cuja visão plena é a suprema felicidade. Aqui está, certamente, a resposta à sua pergunta sobre qual é o ponto de partida e qual é a meta: começamos na fé e somos aperfeiçoados pela visão. Esta é também a suma de todo o corpo da doutrina. Mas o fundamento seguro e próprio da fé católica é Cristo. “Porque ninguém pode lançar outro fundamento”, diz o apóstolo, “além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11). Nem devemos negar que este seja o fundamento próprio da fé católica pelo fato de se poder supor que alguns hereges o tenham em comum conosco. Pois, se considerarmos atentamente as coisas que dizem respeito a Cristo, descobriremos que, entre aqueles hereges que se chamam cristãos, Cristo está presente só de nome: de fato e em verdade, ele não está entre eles. Mas mostrar isso nos ocuparia tempo demais, pois teríamos de percorrer todas as heresias que existiram, que existem ou que poderiam existir sob o nome cristão, e mostrar que isso é verdade em cada caso, discussão que ocuparia tantos volumes que seria quase interminável.
Ora, você me pede um manual, isto é, algo que se possa levar na mão, não algo que carregue as suas estantes. Voltando, então, às três graças pelas quais, como eu disse, Deus deve ser cultuado, a fé, a esperança e o amor: dizer quais são os objetos verdadeiros e próprios de cada uma delas é fácil. Mas defender essa doutrina verdadeira contra os ataques dos que sustentam opinião contrária exige instrução muito mais ampla e elaborada. E o verdadeiro modo de obter essa instrução não é ter um breve tratado posto nas mãos, mas ter um grande zelo aceso no coração.
Pois você tem o Credo e a Oração do Senhor. Que pode haver mais breve de ouvir ou de ler? Que há de mais fácil de guardar na memória? Quando, em consequência do pecado, o gênero humano gemia sob uma pesada carga de miséria e tinha urgente necessidade da compaixão divina, um dos profetas, antecipando o tempo da graça de Deus, declarou: “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Jl 2.32). Daí a Oração do Senhor. Mas o apóstolo, depois de citar esse testemunho profético para recomendar essa mesma graça, logo acrescentou: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram?” (Rm 10.14). Daí o Credo. Nesses dois você tem exemplificadas aquelas três graças: a fé crê, a esperança e o amor oram. Mas sem a fé as duas últimas não podem existir, e por isso podemos dizer que também a fé ora. Por isso está escrito: “Como invocarão aquele em quem não creram?”
Além disso, pode-se esperar alguma coisa que não seja objeto de fé? É verdade que se pode crer numa coisa que não é objeto de esperança. Que verdadeiro cristão, por exemplo, não crê no castigo dos ímpios? E, no entanto, não o espera. E o homem que crê que esse castigo paira sobre ele mesmo, e que recua horrorizado diante dessa perspectiva, dele se diz com mais propriedade que teme, e não que espera. E esses dois estados de espírito o poeta distingue cuidadosamente, quando diz: “Permite aos que temem ter esperança.”1 Outro poeta, em geral muito superior a este, faz uso errado da palavra quando diz: “Se pude esperar uma dor tão grande como esta.”2 E alguns gramáticos tomam esse caso como exemplo de impropriedade de linguagem, dizendo: “Ele disse sperare (esperar) em vez de timere (temer).” Por conseguinte, a fé pode ter por objeto tanto o mal quanto o bem; pois tanto o bem quanto o mal são cridos, e a fé que os crê não é má, mas boa. A fé, além disso, diz respeito ao passado, ao presente e ao futuro, aos três. Cremos, por exemplo, que Cristo morreu, acontecimento passado; cremos que ele está sentado à direita de Deus, estado de coisas presente; cremos que ele virá para julgar os vivos e os mortos, acontecimento futuro. Também a fé se aplica tanto às próprias circunstâncias de alguém quanto às dos outros. Cada um, por exemplo, crê que a sua própria existência teve começo e não foi eterna, e crê o mesmo tanto dos outros homens quanto das outras coisas. Muitas das nossas crenças em matéria religiosa, por sua vez, referem-se não apenas a outros homens, mas também aos anjos. Mas a esperança tem por objeto só o que é bom, só o que é futuro e só o que diz respeito ao homem que nutre a esperança. Por essas razões, portanto, a fé deve ser distinguida da esperança, não apenas por propriedade verbal, mas porque são essencialmente diferentes. O fato de não vermos nem o que cremos nem o que esperamos é tudo o que há de comum entre a fé e a esperança. Na Epístola aos Hebreus, por exemplo, a fé é definida (e eminentes defensores da fé católica usaram essa definição como norma) como “a convicção de fatos que não se veem” (Hb 11.1). Contudo, se alguém disser que crê, isto é, que fundou a sua fé não em palavras, nem em testemunhas, nem em raciocínio algum, mas na evidência direta dos próprios sentidos, não seria culpado de tamanha impropriedade de linguagem que merecesse com justiça a crítica: “Você viu, portanto não creu.” E daí não se segue que um objeto de fé não seja objeto de vista. Mas é melhor usarmos a palavra “fé” como as Escrituras nos ensinaram, aplicando-a àquelas coisas que não se veem. Quanto à esperança, por sua vez, diz o apóstolo: “Esperança que se vê não é esperança. Pois quem espera o que está vendo? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.24-25). Quando, pois, cremos que um bem está para vir, isso não é outra coisa senão esperá-lo. E agora, que direi do amor? Sem ele, a fé de nada aproveita; e, na sua ausência, a esperança não pode existir. O apóstolo Tiago diz: “Até os demônios creem e tremem” (Tg 2.19), isto é, eles, não tendo nem esperança nem amor, mas crendo que está para vir aquilo que nós amamos e esperamos, ficam aterrorizados. E assim o apóstolo Paulo aprova e recomenda “a fé que atua pelo amor” (Gl 5.6); e esta certamente não pode existir sem esperança. Portanto, não há amor sem esperança, nem esperança sem amor, nem amor ou esperança sem fé.
Quando, pois, se pergunta o que devemos crer em matéria de religião, não é necessário sondar a natureza das coisas, como faziam aqueles a quem os gregos chamam physici; nem precisamos nos alarmar se o cristão ignorar a força e o número dos elementos, o movimento, a ordem e os eclipses dos corpos celestes, a forma dos céus, as espécies e as naturezas dos animais, das plantas, das pedras, das fontes, dos rios, dos montes; a cronologia e as distâncias; os sinais das tempestades que se aproximam; e mil outras coisas que aqueles filósofos descobriram, ou julgam ter descoberto. Pois nem esses mesmos homens, dotados embora de tanto engenho, ardendo de zelo, abundando em ócio, rastreando algumas coisas com o auxílio da conjectura humana e investigando outras com o auxílio da história e da experiência, descobriram todas as coisas; e mesmo as suas alardeadas descobertas são mais vezes meras suposições do que conhecimento certo. Basta ao cristão crer que a única causa de todas as coisas criadas, sejam celestes ou terrenas, visíveis ou invisíveis, é a bondade do Criador, o único Deus verdadeiro; que nada existe, além dele mesmo, que não receba dele a existência; e que ele é a Trindade, a saber, o Pai, o Filho gerado do Pai e o Espírito Santo que procede do mesmo Pai, mas é um só e o mesmo Espírito do Pai e do Filho.
Pela Trindade, assim suprema, igual e imutavelmente boa, todas as coisas foram criadas; e estas não são suprema, igual e imutavelmente boas, mas ainda assim são boas, mesmo tomadas separadamente. Tomadas em conjunto, porém, são muito boas, porque o seu conjunto constitui o universo em toda a sua admirável ordem e beleza.
E no universo, mesmo aquilo que se chama mal, quando é regulado e posto no seu devido lugar, só faz realçar a nossa admiração pelo bem; pois desfrutamos e apreciamos mais o bem quando o comparamos com o mal. Pois o Deus Todo-Poderoso, que, como até os pagãos reconhecem, tem poder supremo sobre todas as coisas, sendo ele mesmo supremamente bom, jamais permitiria a existência de algo mau entre as suas obras se não fosse tão onipotente e bom que pudesse tirar o bem até do mal. Pois o que é aquilo que chamamos mal senão a ausência do bem? Nos corpos dos animais, a doença e as feridas não significam outra coisa senão a ausência da saúde; pois, quando se efetua a cura, isso não quer dizer que os males que estavam presentes, isto é, as doenças e as feridas, saiam do corpo e vão habitar noutro lugar: eles deixam inteiramente de existir; pois a ferida ou a doença não é uma substância, mas um defeito na substância carnal, sendo a própria carne uma substância e, portanto, algo bom, do qual esses males, isto é, privações do bem que chamamos saúde, são acidentes. Exatamente do mesmo modo, aquilo que se chama vício na alma não é senão privação do bem natural. E, quando são curados, não são transferidos para outro lugar: quando deixam de existir na alma sã, não podem existir em parte alguma.
Todas as coisas que existem, portanto, visto que o Criador de todas elas é supremamente bom, são elas mesmas boas. Mas, porque não são, como o seu Criador, suprema e imutavelmente boas, o seu bem pode ser diminuído e aumentado. Ora, ser o bem diminuído é um mal, embora, por mais que seja diminuído, seja necessário, para que o ser continue, que reste algum bem que constitua o ser. Pois, por menor ou de qualquer espécie que seja o ser, o bem que o faz ser não pode ser destruído sem que se destrua o próprio ser. Uma natureza incorrupta é com justiça tida em estima. Mas se, além disso, ela for incorruptível, é sem dúvida considerada de valor ainda mais alto. Quando, porém, se corrompe, a sua corrupção é um mal, porque ela é privada de algum bem. Pois, se não fosse privada de bem algum, não sofreria dano algum; mas sofre dano, logo é privada de bem. Portanto, enquanto um ser está em processo de corrupção, há nele algum bem de que está sendo privado; e, se restasse uma parte do ser que não pudesse ser corrompida, esta seria certamente um ser incorruptível, e assim o processo de corrupção resultaria na manifestação desse grande bem. Mas, se não cessar de ser corrompido, também não pode cessar de possuir um bem de que a corrupção possa privá-lo. Se, porém, for total e completamente consumido pela corrupção, não restará então bem algum, porque não haverá ser algum. Por isso a corrupção só pode consumir o bem consumindo o ser. Todo ser, portanto, é um bem: um grande bem, se não pode ser corrompido; um pequeno bem, se pode; mas, em todo caso, só os tolos ou ignorantes negarão que é um bem. E, se for inteiramente consumido pela corrupção, então a própria corrupção deve deixar de existir, já que não resta ser algum em que possa habitar.
Por conseguinte, não há nada daquilo que chamamos mal se não houver nada de bom. Mas um bem que está inteiramente isento de mal é um bem perfeito. Um bem, por outro lado, que contém mal é um bem defeituoso ou imperfeito; e não pode haver mal onde não há bem. De tudo isso chegamos a um resultado curioso: visto que todo ser, enquanto é ser, é bom, quando dizemos que um ser defeituoso é um ser mau, parece que simplesmente dizemos que o que é bom é mau, e que nada pode ser mau senão o que é bom, já que todo ser é bom e nenhum mal pode existir senão num ser. Nada, pois, pode ser mau senão algo que é bom. E, embora isso, quando enunciado, pareça uma contradição, o rigor do raciocínio não nos deixa escapar da conclusão. Devemos, porém, ter cuidado para não incorrer na condenação profética: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem chamam mal; que fazem das trevas luz e da luz fazem trevas; que mudam o amargo em doce e o doce mudam em amargo!” (Is 5.20). E, no entanto, nosso Senhor diz: “O homem mau tira o mal do mau tesouro do seu coração” (Lc 6.45). Ora, o que é um homem mau senão um ser mau? Pois o homem é um ser. Ora, se o homem é uma coisa boa porque é um ser, o que é um homem mau senão um bem mau? Contudo, quando distinguimos com exatidão essas duas coisas, descobrimos que não é por ser homem que ele é um mal, nem por ser ímpio que é um bem; mas que é um bem porque é homem, e um mal porque é ímpio. Quem quer que diga, portanto: “Ser homem é um mal”, ou: “Ser ímpio é um bem”, cai sob a denúncia profética: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem chamam mal!” Pois condena a obra de Deus, que é o homem, e louva o defeito do homem, que é a impiedade. Portanto, todo ser, ainda que defeituoso, enquanto é ser é bom, e enquanto é defeituoso é mau.
Por conseguinte, no caso desses contrários que chamamos bem e mal, não vale a regra dos lógicos segundo a qual dois contrários não podem ser predicados ao mesmo tempo da mesma coisa. Nenhum céu está ao mesmo tempo escuro e claro; nenhuma comida ou bebida é ao mesmo tempo doce e amarga; nenhum corpo é ao mesmo tempo e no mesmo lugar preto e branco; nenhum é ao mesmo tempo e no mesmo lugar disforme e belo. E verifica-se que essa regra vale para muitos, na verdade para quase todos os contrários: não podem existir ao mesmo tempo numa mesma coisa. Mas, embora ninguém possa duvidar de que o bem e o mal são contrários, não apenas podem existir ao mesmo tempo, como o mal não pode existir sem o bem, ou em algo que não seja bom. O bem, porém, pode existir sem o mal. Pois um homem ou um anjo pode existir sem ser ímpio; mas nada pode ser ímpio senão um homem ou um anjo; e, enquanto é homem ou anjo, é bom; enquanto é ímpio, é um mal. E esses dois contrários coexistem a tal ponto que, se o bem não existisse naquilo que é mau, tampouco o mal poderia existir; porque a corrupção não poderia ter nem lugar onde habitar, nem fonte de onde brotar, se não houvesse nada que pudesse ser corrompido; e nada pode ser corrompido senão o que é bom, pois a corrupção não é outra coisa senão a destruição do bem. Do que é bom, portanto, surgiram os males, e fora do que é bom eles não existem; nem havia outra fonte de onde pudesse surgir alguma natureza má. Pois, se houvesse, então, enquanto fosse um ser, certamente seria um bem: e um ser incorruptível seria um grande bem; e mesmo um ser corruptível teria de ser em alguma medida um bem, pois só corrompendo o que nele havia de bom a corrupção poderia lhe fazer dano.
Mas, quando dizemos que o mal brota do bem, não se pense que isso contradiz o dito de nosso Senhor: “A árvore boa não pode produzir frutos maus” (Mt 7.18). Pois, como diz aquele que é a Verdade, não se colhem uvas de espinheiros (Mt 7.16), porque as uvas não crescem em espinheiros. Mas vemos que em solo bom se podem cultivar tanto videiras quanto espinheiros. E, do mesmo modo, assim como a árvore má não pode produzir frutos bons, assim também a vontade má não pode produzir boas obras. Mas da natureza do homem, que é boa, pode brotar tanto uma vontade boa quanto uma vontade má. E certamente não havia, a princípio, outra fonte de onde pudesse brotar uma vontade má, senão a natureza do anjo ou do homem, que era boa. E nosso próprio Senhor o mostra claramente no mesmo lugar em que fala da árvore e do seu fruto. Pois diz: “Tornem a árvore boa e o seu fruto será bom, ou tornem a árvore má e o seu fruto será mau” (Mt 12.33), advertindo-nos com bastante clareza que frutos maus não crescem em árvore boa, nem frutos bons em árvore má; mas que, apesar disso, o próprio solo, com o qual ele se referia àqueles a quem então se dirigia, podia produzir árvores de uma ou de outra espécie.
Ora, em vista dessas considerações, quando nos agrada aquele verso de Marão: “Feliz o homem que alcançou o conhecimento das causas das coisas”,3 não devemos supor que seja necessário à felicidade conhecer as causas das grandes convulsões físicas, causas que se escondem nos recessos mais secretos do reino da natureza, “de onde vem o terremoto cuja força faz os mares profundos incharem e romperem as suas barreiras, e de novo voltarem sobre si mesmos e se acalmarem”.4 Mas devemos conhecer as causas do bem e do mal tanto quanto o homem pode conhecê-las nesta vida, a fim de evitar os enganos e as aflições de que esta vida está tão cheia. Pois o nosso alvo deve ser sempre alcançar aquele estado de felicidade em que nenhuma aflição nos perturbe e nenhum erro nos desencaminhe. Se tivermos de conhecer as causas das convulsões físicas, nenhuma nos interessa mais conhecer do que as que afetam a nossa própria saúde. Mas, visto que, ignorando-as, somos obrigados a recorrer aos médicos, parece que poderíamos suportar com bastante paciência a nossa ignorância dos segredos que se escondem na terra e nos céus.
Pois, embora devamos evitar o erro com o maior cuidado possível, não só nas coisas grandes mas até nas pequenas, e embora não possamos errar senão por ignorância, não se segue que, se um homem ignora uma coisa, deva imediatamente cair em erro. Esse é antes o destino de quem julga saber o que não sabe. Pois aceita o falso como se fosse verdadeiro, e nisso está a essência do erro. Mas é ponto de grandíssima importância qual seja o assunto sobre o qual alguém se engana. Pois, sobre um mesmo assunto, com razão preferimos o instruído ao ignorante, e quem não está em erro a quem está. No caso de assuntos diferentes, porém, isto é, quando um homem sabe uma coisa e outro sabe outra diferente, e quando o que o primeiro sabe é útil, e o que o segundo sabe não é tão útil, ou é até nocivo, quem não preferiria, quanto às coisas que o segundo sabe, a ignorância do primeiro ao conhecimento do segundo? Pois há pontos em que a ignorância é melhor do que o conhecimento. E, do mesmo modo, às vezes foi vantajoso desviar-se do caminho certo, em viagem, porém, não na moral. Aconteceu a mim mesmo tomar o caminho errado onde dois caminhos se encontravam, de modo que não passei pelo lugar onde um bando armado de donatistas estava de emboscada à minha espera. Contudo, cheguei ao lugar para onde me dirigia, embora por um caminho mais longo; e, quando soube da emboscada, felicitei-me pelo meu engano e dei graças a Deus por ele. Ora, quem não preferiria ser o viajante que cometeu um engano como esse a ser o salteador que não cometeu engano algum? E talvez seja por isso que o príncipe dos poetas põe estas palavras na boca de um amante infeliz:5 “Como estou perdido, como fui arrastado por um mau erro!”, pois há um erro que é bom, já que não só não faz mal algum, como produz alguma vantagem real. Mas, quando examinamos mais de perto a natureza da verdade, e consideramos que errar é justamente tomar o falso pelo verdadeiro e o verdadeiro pelo falso, ou ter o certo por incerto e o incerto por certo, e que o erro na alma é tanto mais hediondo e repulsivo quanto mais belo e plausível parece quando o proferimos ou lhe damos assentimento, dizendo: “Sim, sim; não, não”, certamente esta vida que vivemos é realmente miserável, quando mais não fosse por isto: que às vezes, para preservá-la, é necessário cair em erro. Deus não permita que assim seja aquela outra vida, onde a própria verdade é a vida da alma, onde ninguém engana e ninguém é enganado. Aqui, porém, os homens enganam e são enganados, e são mais dignos de pena quando desencaminham os outros do que quando eles mesmos são desencaminhados por confiar em mentirosos. Contudo, tanto a alma racional recua diante do que é falso, e tão ardentemente luta contra o erro, que mesmo os que gostam de enganar detestam ser enganados. Pois o mentiroso não pensa que erra, mas que leva ao erro outro que confia nele. E certamente ele não erra quanto ao assunto sobre o qual mente, se ele mesmo conhece a verdade; mas é enganado nisto: em pensar que a sua mentira não lhe faz mal, ao passo que todo pecado é mais nocivo a quem o comete do que a quem o sofre.
Mas aqui surge uma questão dificílima e muito intrincada, sobre a qual escrevi certa vez um livro extenso, por achar necessário dar-lhe resposta. A questão é esta: se em algum momento pode tornar-se dever de um homem bom contar uma mentira. Pois alguns chegam a sustentar que há ocasiões em que é obra boa e piedosa até cometer perjúrio e dizer o que é falso sobre assuntos relativos ao culto de Deus e sobre a própria natureza de Deus. A mim, porém, parece certo que toda mentira é pecado, embora faça grande diferença com que intenção e sobre que assunto alguém mente. Pois o pecado de quem mente para ajudar outro não é tão grave quanto o de quem mente para prejudicar outro; e quem, com a sua mentira, põe um viajante no caminho errado não faz tanto mal quanto quem, com representações falsas ou enganosas, desvirtua todo o curso de uma vida. Ninguém, naturalmente, deve ser condenado como mentiroso por dizer o que é falso crendo que é verdadeiro, porque esse não engana conscientemente, mas antes é ele mesmo enganado. E, pelo mesmo princípio, não se deve acusar de mentira, embora às vezes se possa acusar de temeridade, aquele que por descuido acolhe o que é falso e o tem por verdadeiro; mas, por outro lado, quem diz o que é verdadeiro crendo que é falso é, no que toca à sua própria consciência, um mentiroso. Pois, ao dizer o que não crê, diz o que para a sua própria consciência é falso, ainda que de fato seja verdadeiro; nem está de modo algum livre da mentira quem com a boca diz a verdade sem o saber, mas no coração quer mentir. Por isso, olhando não para a coisa dita, mas unicamente para a intenção de quem fala, o homem que sem saber diz o que é falso, pensando o tempo todo que é verdadeiro, é melhor do que aquele que sem saber diz o que é verdadeiro, mas na consciência pretende enganar. Pois o primeiro não pensa uma coisa e diz outra; mas o segundo, embora as suas afirmações possam ser verdadeiras de fato, tem um pensamento no coração e outro nos lábios: e essa é a própria essência da mentira. Mas, quando passamos a considerar a verdade e a falsidade quanto aos assuntos de que se fala, o ponto sobre o qual alguém engana ou é enganado torna-se questão da maior importância. Pois, embora, no que toca à consciência de cada um, seja mal maior enganar do que ser enganado, é, no entanto, mal muito menor mentir em assuntos que não dizem respeito à religião do que ser levado ao erro em assuntos cujo conhecimento e cuja crença são essenciais ao culto correto de Deus. Para ilustrar isso com um exemplo: suponha que um homem diga de alguém que morreu que ele ainda está vivo, sabendo que isso não é verdade; e que outro homem, enganado, creia que Cristo, ao fim de algum tempo (faça-se o tempo tão longo quanto se queira), há de morrer; não seria incomparavelmente melhor mentir como o primeiro do que ser enganado como o segundo? E não seria mal muito menor levar alguém ao primeiro erro do que ser levado por alguém ao segundo?
Em algumas coisas, pois, é um grande mal ser enganado; em algumas, um pequeno mal; em algumas, mal nenhum; e em algumas, é até uma vantagem. É para grave dano seu que um homem é enganado quando não crê no que conduz à vida eterna, ou crê no que conduz à morte eterna. É um pequeno mal ser enganado quando, tomando a falsidade pela verdade, alguém atrai sobre si aborrecimentos temporais; pois a paciência do crente converterá até isso em bom uso, como quando, por exemplo, tomando um homem mau por bom, sofre dano da parte dele. Mas quem crê que um homem mau é bom e, no entanto, não sofre dano algum, não fica em nada pior por ter sido enganado, nem cai sob a denúncia profética: “Ai dos que ao mal chamam bem!” (Is 5.20). Pois devemos entender que isso é dito não acerca dos homens maus, mas acerca das coisas que tornam maus os homens. Por isso, quem chama bom o adultério cai com justiça sob aquela denúncia profética. Mas quem chama bom o adúltero, julgando-o casto e sem saber que é adúltero, não cai em erro algum quanto à natureza do bem e do mal, mas apenas se engana quanto aos segredos da conduta humana. Chama o homem de bom por crer que ele é aquilo que sem dúvida é bom; chama mau o adúltero e bom o homem puro; e chama este homem de bom não sabendo que é adúltero, mas crendo que é puro. Além disso, se por um engano alguém escapa da morte, como eu disse acima que certa vez me aconteceu, chega até a tirar alguma vantagem do seu engano. Mas, quando afirmo que em certos casos um homem pode ser enganado sem dano algum para si, ou até com alguma vantagem para si, não quero dizer que o engano em si não seja mal, ou seja em algum sentido um bem; refiro-me apenas ao mal que se evita, ou à vantagem que se obtém, por meio do engano. Pois o engano, considerado em si mesmo, é um mal: um grande mal se diz respeito a um grande assunto, um pequeno mal se diz respeito a um pequeno assunto, mas sempre um mal. Pois quem, em seu juízo perfeito, pode negar que é um mal aceitar o falso como se fosse verdadeiro e rejeitar o verdadeiro como se fosse falso, ou ter o incerto por certo e o certo por incerto? Mas uma coisa é julgar bom um homem que na realidade é mau, o que é um engano; outra coisa é não sofrer nenhum dano ulterior em consequência do engano, supondo que o homem mau que julgamos bom não nos cause prejuízo algum. Do mesmo modo, uma coisa é pensar que estamos no caminho certo quando não estamos; outra coisa é quando esse nosso engano, que é um mal, conduz a algum bem, como nos livrar de uma emboscada de homens perversos.
Não tenho certeza se enganos como os seguintes, e outros desse tipo, devem ser chamados pecados: quando alguém forma boa opinião de um homem mau, sem saber que tipo de homem ele é; ou quando, em lugar das percepções ordinárias pelos sentidos corporais, apresentam-se outras aparências de tipo semelhante, que percebemos no espírito mas julgamos perceber no corpo, ou percebemos no corpo mas julgamos perceber no espírito, engano como o que cometeu o apóstolo Pedro quando o anjo de repente o livrou das cadeias e da prisão, e ele pensava que era uma visão (At 12.9); ou quando, no caso dos próprios objetos sensíveis, tomamos o áspero pelo liso, ou o amargo pelo doce, ou pensamos que uma matéria pútrida tem bom cheiro; ou quando tomamos a passagem de uma carruagem por um trovão; ou tomamos um homem por outro, por serem os dois muito parecidos, como frequentemente acontece com os gêmeos (por isso o nosso grande poeta o chama “engano agradável aos pais”6). Nem me proponho agora resolver uma questão muito espinhosa, que deixou perplexos aqueles pensadores agudíssimos, os filósofos acadêmicos: se o sábio deve dar assentimento a alguma coisa, visto que pode cair em erro ao assentir à falsidade; pois todas as coisas, como afirmam, são ou desconhecidas ou incertas. Ora, escrevi três volumes pouco depois da minha conversão, para remover do meu caminho as objeções que jazem, por assim dizer, no próprio limiar da fé. E sem dúvida era necessário, logo no início, remover esse total desespero de alcançar a verdade, que parece fortalecido pelos argumentos desses filósofos. Ora, aos olhos deles todo erro é tido por pecado, e pensam que o erro só pode ser evitado suspendendo inteiramente o assentimento. Pois dizem que quem assente ao que é incerto cai em erro; e se esforçam, com os argumentos mais agudos, mas também mais audaciosos, por mostrar que, ainda que a opinião de alguém seja por acaso verdadeira, não há certeza da sua verdade, dada a impossibilidade de distinguir a verdade da falsidade. Mas, para nós, “o justo viverá por fé” (Rm 1.17). Ora, se se tira o assentimento, vai-se também a fé; pois sem assentimento não pode haver crença. E há verdades, quer as conheçamos quer não, que devem ser cridas se quisermos alcançar a vida feliz, isto é, a vida eterna. Mas não tenho certeza se se deve argumentar com homens que não só não sabem que há uma vida eterna diante deles, como não sabem se estão vivos neste momento; mais ainda, dizem não saber aquilo que é impossível que ignorem. Pois é impossível que alguém ignore que está vivo, visto que, se não estiver vivo, é impossível que ignore; pois não só o conhecimento, mas também a ignorância, só pode ser atributo dos vivos. Mas eles, ao que parece, julgam que, ao não reconhecer que estão vivos, evitam o erro, quando até o seu próprio erro prova que estão vivos, já que quem não está vivo não pode errar. Assim, pois, como não só é verdadeiro mas certo que estamos vivos, assim também há muitas outras coisas ao mesmo tempo verdadeiras e certas; e Deus não permita que algum dia se chame sabedoria, e não o cúmulo da insensatez, recusar-lhes o assentimento.
Mas quanto àqueles assuntos em que a nossa crença ou descrença, e mesmo a sua verdade, suposta verdade ou falsidade, não têm importância alguma no que toca a alcançar o reino de Deus: enganar-se em tais assuntos não deve ser considerado pecado, ou pelo menos é pecado muito pequeno e leve. Em suma, um engano em matérias desse tipo, qualquer que seja a sua natureza e grandeza, não diz respeito ao caminho de acesso a Deus, que é a fé de Cristo que “atua pelo amor” (Gl 5.6). Pois o “engano agradável aos pais” no caso dos filhos gêmeos não foi desvio desse caminho; nem o apóstolo Pedro se desviou desse caminho quando, pensando que via uma visão, tomou de tal modo uma coisa por outra que, até o anjo que o livrou se retirar dele, não distinguiu os objetos reais entre os quais se movia dos objetos visionários de um sonho (At 12.9-11); nem o patriarca Jacó se desviou desse caminho quando creu que o seu filho, que na verdade estava vivo, tinha sido morto por uma fera (Gn 37.33). No caso dessas e de outras impressões falsas do mesmo tipo, somos de fato enganados, mas a nossa fé em Deus permanece segura. Andamos extraviados, mas não deixamos o caminho que nos conduz a ele. Contudo, esses erros, embora não sejam pecaminosos, devem ser contados entre os males desta vida, que está de tal modo sujeita à vaidade que aceitamos o falso como se fosse verdadeiro, rejeitamos o verdadeiro como se fosse falso e nos apegamos ao incerto como se fosse certo. E, embora não atinjam aquela fé verdadeira e certa pela qual alcançamos a bem-aventurança eterna, têm muito a ver com a miséria em que agora vivemos. E certamente, se estivéssemos agora no gozo da verdadeira e perfeita felicidade que está diante de nós, não estaríamos sujeitos a engano algum por meio de qualquer sentido, seja do corpo, seja da mente.
1. Lucano, Farsália, II, 15.
2. Virgílio, Eneida, IV, 419.
3. Virgílio, Geórgicas, II, 490.
4. Ibidem.
5. Virgílio, Éclogas, VIII, 41.
6. Virgílio, Eneida, X, 392.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. F. Shaw (Nicene and Post-Nicene Fathers, 1ª série, vol. 3, Nova York, 1887), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é latino: esta é, portanto, tradução de tradução. Os títulos dos capítulos e o argumento inicial são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Agostinho cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela antiga Bíblia latina, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.