“Mas há um Deus no céu, que revela os mistérios.”Daniel 2.28 · NAA
A crise
Nabucodonosor teve um sonho que o perturbou e fez aos sábios uma exigência sem precedentes: que contassem o sonho e a interpretação.
A ameaça foi explícita: “se não me contarem o sonho e a sua interpretação, vocês serão despedaçados, e as casas de vocês serão reduzidas a ruínas” (Dn 2.5). Os caldeus responderam a verdade, e a resposta deles é uma confissão involuntária: nenhum homem sobre a terra podia fazer aquilo, e nenhum rei jamais pedira coisa semelhante.
O rei então “mandou matar todos os sábios da Babilônia” (Dn 2.12). Daniel e seus companheiros estavam nessa lista, e nem sequer haviam sido chamados. Eles foram condenados por uma decisão da qual não participaram. Acontece.
“Então Daniel, com cautela e prudência, foi falar com Arioque, chefe da guarda do rei” (Dn 2.14). Diante de uma sentença de morte, ele procurou informação antes de reagir.
“Daniel foi falar com o rei, para pedir que lhe desse tempo” (Dn 2.16). Foi pessoalmente ao homem que assinara a sentença. Coragem serena, sem arrogância.
“Daniel foi para casa e explicou a situação a Hananias, Misael e Azarias, seus companheiros, para que pedissem misericórdia ao Deus do céu sobre este mistério” (Dn 2.17-18).
Note a ordem inteira: informar-se, ganhar tempo, reunir os irmãos e orar. Não há nem heroísmo solitário nem passividade. Daniel agiu com prudência humana e dependeu inteiramente de Deus, sem que uma coisa anulasse a outra.
O pedido
A palavra que o texto usa não é “exigir”, nem “reivindicar”: eles pediram misericórdia (Dn 2.18).
Daniel não se apresentou a Deus como quem tem direito. Não alegou fidelidade anterior, nem lembrou a Deus a recusa da mesa do rei no capítulo anterior. Pediu misericórdia, como quem não tem nada a oferecer. E pediu acompanhado.
Essa é uma marca do livro inteiro: Daniel quase nunca aparece sozinho quando o assunto é oração. Ele tem três companheiros que oram com ele, e mais tarde oraria pelo povo inteiro. A fé dele é pessoal, e nunca é privada.
“Então o mistério foi revelado a Daniel numa visão de noite” (Dn 2.19). A resposta veio à noite, depois da oração, e não durante uma sessão de esforço intelectual.
Daniel 2.20-23
Recebida a resposta, Daniel tinha a vida salva e uma audiência real pela frente. A primeira coisa que fez foi adorar.
O cântico de Daniel
“É ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz.”
Daniel 2.20-22
Guarde a frase do meio: “remove reis e estabelece reis”. Ela é dita por um exilado, dentro da capital do império mais poderoso do mundo, a respeito do rei que acabara de condená-lo à morte. É a tese do livro de Daniel inteiro. Os impérios passam; o Deus do céu governa.
E a oração termina em gratidão e em plural: “eu te agradeço e te louvo, porque me deste sabedoria e poder, e agora me revelaste o que te pedimos” (Dn 2.23). Ele recebeu sozinho e agradeceu lembrando dos que oraram com ele.
Diante do rei
Levado à presença de Nabucodonosor, Daniel começa desmontando qualquer expectativa a respeito de si mesmo.
“O mistério que o rei exige, nem sábios, nem magos nem encantadores o podem revelar. Mas há um Deus no céu, que revela os mistérios” (Dn 2.27-28). Ele primeiro declara a falência de toda a sabedoria da Babilônia, inclusive a própria, e só então aponta para Deus.
E insiste: “Quanto a mim, este mistério me foi revelado, não porque exista em mim mais sabedoria do que em todos os outros homens, mas para que a interpretação fosse revelada ao rei” (Dn 2.30). Ele tinha diante de si a chance da vida: podia ter deixado o rei impressionado consigo. Recusou o crédito antes que alguém pensasse em dá-lo.
Daniel conta o sonho: uma estátua enorme, de ouro, prata, bronze, ferro e barro, sucessivas potências humanas, e uma pedra cortada sem auxílio de mãos, que despedaça tudo e enche a terra. E a interpretação: “Nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que jamais será destruído e que não passará a outro povo… ele mesmo subsistirá para sempre” (Dn 2.44).
A leitura detalhada da estátua, das quatro potências e da pedra está na aula Daniel 2 e 7: a pedra e o Filho do Homem, do curso de Profecias do Antigo Testamento. Aqui o que interessa é o efeito sobre o homem que a interpretou, e sobre o rei que a ouviu.
Nabucodonosor se prostrou e reconheceu: “Certamente o Deus que vocês adoram é o Deus dos deuses e o Senhor dos reis” (Dn 2.47). Foi um reconhecimento sincero e, como o capítulo seguinte mostrará, ainda muito incompleto: o mesmo rei que confessou o Deus dos deuses mandaria construir uma estátua de ouro e exigiria que todos a adorassem.
E há um detalhe final que revela caráter. Daniel foi feito governador da província e chefe dos sábios. Poderia ter ficado com tudo. Em vez disso: “A pedido de Daniel, o rei pôs Sadraque, Mesaque e Abede-Nego como administradores da província” (Dn 2.49). Ele levou junto os que oraram com ele.
Para a nossa vida
Daniel se informou, pediu prazo e orou. Espiritualidade não é substituto de bom senso, e bom senso não é substituto de oração.
Ele chamou três amigos para pedir misericórdia com ele. Muita gente enfrenta crises graves sem contar a ninguém e chama isso de fé.
Ele adorou ao receber a resposta, antes de ir ao rei e antes de saber se seria promovido ou morto. O louvor veio pela revelação, e não pela recompensa.
“Não porque exista em mim mais sabedoria.” Quando um dom nos abre portas, a tentação de ficar com a glória é imediata. Daniel recusou o crédito antes de recebê-lo.
A tese do livro
Um exilado, dentro do palácio do império, canta que Deus é quem muda tempos e derruba tronos. Toda a coragem de Daniel nos capítulos seguintes vem dessa convicção: quem sabe quem governa o mundo não teme quem governa o país.
Fixação
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Avaliação
Cinco questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.
0 de 7
Para pensar e conversar
Prudência e oração não competem. O texto mostra as duas coisas na mesma pessoa e na mesma semana.
Daniel tinha, no capítulo anterior, um belo histórico de fidelidade, e não o mencionou. Pediu como quem não tem nada a oferecer.
Muita gente enfrenta crises graves sem contar a ninguém e chama isso de fé. A fé de Daniel é pessoal, e nunca é privada.
“Bendito seja o nome de Deus… porque dele é a sabedoria e o poder.” O motivo do louvor foi quem Deus é, e não o que aconteceria depois.
A tentação aparece justamente quando um dom nos abre portas. Daniel recusou o crédito antes que alguém pensasse em dá-lo.
Daniel 2.49 é um versículo pequeno e revelador. O caráter de uma pessoa aparece no que ela faz com o próprio sucesso.
O sonho que ninguém podia contar · Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil