Igreja Metodista Livre · Disciplina de 1860 · Abertura

Origem da Igreja Metodista Livre

AS DOUTRINAS
E A
DISCIPLINA
DA
Igreja Metodista Livre

ADOTADAS EM 23 DE AGOSTO DE 1860.

BUFFALO:
PUBLICADO POR B. T. ROBERTS,
para a Igreja Metodista Livre.
1860.

(No verso: “Clapp, Matthews & Co., tipografia a vapor, oficina do Buffalo Morning Express”.)


A Igreja Metodista Livre teve sua origem na necessidade, e não na escolha. Não nasceu de uma secessão, nem de uma tentativa frustrada de reformar o governo da Igreja. Os que tomaram parte na sua formação nunca esperaram separar-se da Igreja Metodista Episcopal, até o momento em que foram injustamente excluídos do seu seio. Buscaram reparação no tribunal competente. Ela não lhes foi concedida. Negaram-lhes até mesmo uma audiência imparcial. Lançados assim para fora, cortada a possibilidade de serem restituídos, e crendo que Deus ainda os chamava a trabalhar pela salvação das almas, não tinham outra alternativa senão formar uma nova organização. Na doutrina, na disciplina e no espírito eram metodistas, e por isso não podiam oferecer-se a nenhuma outra denominação.

A questão pela qual foram expulsos era a disputa entre o formalismo morto e a vida e o poder da piedade. Por isso não se sentiam em casa naqueles ramos da família metodista em cuja formação entraram principalmente outras questões.

Jesus sempre teve um povo: um povo simples, humilde, sincero, para pregar o evangelho aos pobres (Lc 4.18) e espalhar a santidade bíblica por todo o mundo. Cremos que os metodistas foram levantados para esse propósito. Deus estava com eles e lhes deu grande êxito na salvação de almas.

Mas, à medida que se tornaram fortes e ricos, o orgulho e o amor à popularidade se infiltraram entre eles. A Disciplina passou a ser geralmente desprezada. Tornou-se evidente, até para o observador mais desatento, que havia entre muitos ministros e membros da Igreja Metodista Episcopal nos Estados Unidos um afastamento muito grande, e cada vez maior, do espírito original do metodismo. Esse afastamento aparece também nas alterações feitas recentemente na Disciplina.

Em 1852, a regra que exigia que as nossas casas de culto fossem construídas “simples e com bancos gratuitos” foi, na prática, anulada pelo acréscimo das palavras “sempre que possível”. [N. do T.: “free seats”, bancos gratuitos, isto é, sem o costume então comum de alugar ou vender lugares na igreja às famílias que podiam pagar. Os bancos gratuitos foram uma das bandeiras do movimento e um dos sentidos da palavra “Livre” no nome da igreja.] A conformidade com o mundo foi grandemente incentivada em 1856, quando se revogou a lei que estava na Disciplina desde o princípio, proibindo receber membros enquanto não tivessem deixado os “enfeites supérfluos”, e se pôs em seu lugar uma simples exortação a “conformar-se ao espírito do preceito apostólico”, como se fosse possível violar mandamentos claros de Deus sem violar o seu espírito.

Na Conferência de Genesee, esse abandono das veredas antigas foi apressado pela ligação de vários dos seus membros mais destacados com sociedades secretas. Unidos por um laço desconhecido do resto do corpo, e traçando os seus planos no mais estrito segredo, eles formaram um núcleo sólido, em torno do qual naturalmente se reuniram os formalistas e os ambiciosos. Uma parte da Conferência desejava permanecer fiel ao metodismo primitivo. Amavam a doutrina da santidade e a pregavam com êxito. O seu trabalho prosperava, e os seus serviços eram procurados. Enquanto tiveram o apoio dos bispos, não foram incomodados.

Na Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal, realizada em 1856, os bispos se posicionaram firmemente contra a aprovação de uma lei que excluísse da igreja os donos de escravos. Os membros da Conferência de Genesee ligados às sociedades secretas e à política mundana, alguns dos quais haviam sido abolicionistas radicais, ficaram do lado dos bispos na questão da escravidão. Na sessão seguinte, trinta deles se uniram, combinando não aceitar nomeação a menos que o Rev. L. Stiles e o Rev. I. C. Kingsley, homens cujas simpatias e cujo trabalho estavam a serviço da religião espiritual, fossem retirados do gabinete. [N. do T.: o “gabinete” era o grupo de presbíteros presidentes que, com o bispo, preparava as nomeações dos pregadores.] Eles foram transferidos, e os seus lugares foram ocupados por homens que os trinta (os quais, com os seus partidários, passaram a ser conhecidos como “a Regência”) podiam submeter aos seus propósitos.

Mas a obra da santidade continuou. Os ministros mortos e formais não passaram a ser mais procurados do que antes. Na sessão seguinte da Conferência de Genesee, numa reunião secreta realizada pela Regência, decidiram levar a julgamento o Rev. B. T. Roberts e o Rev. W. C. Kendall. Apresentaram-se as acusações. O Sr. Roberts foi declarado culpado de “conduta imoral e não cristã” por ter publicado no Northern Independent, num artigo intitulado “Metodismo da Nova Escola”, coisas que não estavam naquele artigo nem em nenhum outro que ele tenha escrito.

Depois disso, o seu caráter foi aprovado, e ele foi enviado a pregar. [N. do T.: na prática metodista, o “caráter” de cada pregador era examinado e aprovado (“passed”) anualmente pela Conferência, antes da nova nomeação.] Por falta de tempo, o julgamento do Sr. Kendall foi adiado. Na Conferência seguinte, realizada em Perry, em outubro de 1858, a Regência fez reuniões secretas, como havia feito nas duas sessões anteriores. O Sr. Roberts foi acusado de “contumácia” por publicar e fazer circular uma segunda edição de “Metodismo da Nova Escola” e um folheto assinado por “Geo. W. Estes”, que trazia um breve relato do julgamento do ano anterior. Com base nessa acusação, e no depoimento de uma só testemunha, cuja veracidade foi inteiramente contestada, o Sr. Roberts foi expulso da Conferência e da Igreja Metodista Episcopal. O Sr. McCreery também foi expulso na mesma ocasião, pelas mesmas acusações.

Chamados por Deus para pregar, eles não podiam parar só porque lhes fora tirada a autoridade humana de que tinham sido investidos. Os membros da igreja que haviam testemunhado o seu trabalho e o seu espírito entenderam que eles deviam continuar a se esforçar para salvar o próximo. Cento e noventa e cinco leigos de destaque se reuniram em convenção em Albion, no dia 1º de dezembro de 1858, e aprovaram resoluções que expressavam confiança total e inabalável nos pregadores expulsos e recomendavam que eles continuassem a trabalhar pela salvação das almas.

Na sessão seguinte da Conferência de Genesee, realizada em Brockport, em outubro de 1858, os reverendos L. Stiles, C. D. Burlingham, J. A. Wells e W. Cooley foram expulsos por “contumácia”, por simpatizarem com os que haviam sido expulsos no ano anterior. [N. do T.: o original traz “1858”, mas a sessão de Brockport foi a de 1859, um ano depois da de Perry, como o próprio texto dá a entender (“no ano anterior”) e como confirma W. T. Hogue, History of the Free Methodist Church, vol. I.] Os reverendos J. W. Reddy e H. H. Farnsworth foram “localizados” pelo mesmo motivo. [N. do T.: “located”, isto é, retirados da itinerância e privados de nomeação, passando à condição de pregadores locais.]

Membros da Igreja que demonstraram simpatia ativa pelos pregadores expulsos foram eles mesmos expulsos em grande número. Muitos, sem o seu consentimento e contra a sua vontade, foram anunciados pelos pregadores como “desligados”. Entre esses dois grupos havia muitos de piedade indiscutível e de longa permanência na igreja, que tinham contribuído muito, com o seu dinheiro e com a sua influência, para a prosperidade dela, e cujo amor por ela não havia diminuído.

Mil e quinhentos membros da Igreja Metodista Episcopal, dentro dos limites da Conferência de Genesee, pediram respeitosamente à Conferência Geral, reunida em Buffalo em maio de 1860, que investigasse as decisões judiciais da Conferência de Genesee. Para isso foi nomeada uma comissão de quarenta e dois membros. Apresentou-se um memorial expondo as queixas, junto com declarações juramentadas e documentos que comprovavam as denúncias. Os partidários da maioria da Conferência de Genesee fizeram um esforço decidido para dissolver a comissão. A comissão foi dissolvida, e a investigação foi abafada.

Os recursos foram despachados sumariamente. O do Rev. C. D. Burlingham, que, desde a sua expulsão, havia desistido de todo esforço público para fazer o bem às almas, foi, sem sombra de razão, devolvido para novo julgamento. No primeiro recurso do Sr. Roberts, o da sentença de repreensão, a comissão ficou dividida meio a meio. Os demais recursos nem foram examinados, embora a constituição da Igreja Metodista Episcopal declare, da maneira mais enfática, que a Conferência Geral não privará os ministros do direito de recurso.

A mesma Conferência Geral autorizou os pregadores a ir além dos limites do seu campo para formar uma comissão que julgasse os seus membros.

Com essa nova regra, a obra de expulsão continuou. Homens piedosos, conhecidos havia muito tempo pelo seu forte apego ao metodismo, que eram conscienciosos e tementes a Deus demais para aprovar o que consideravam grandes iniquidades, foram excomungados.

Comissões trazidas de longe para esse fim expulsaram, depois de uma farsa de julgamento, homens de Deus dedicados. Cortada toda esperança de mudança para melhor, e sendo evidente que as autoridades da Igreja Metodista Episcopal estavam decididas a esmagar o que almas piedosas criam ser a obra de Deus, uma convenção de leigos e ministros se reuniu em Pekin, condado de Niagara, Nova York, no dia 23 de agosto de 1860, e adotou a forma de Disciplina que segue.

Não desejamos que ninguém a subscreva, a menos que creia que isso será para a glória de Deus e para o bem da sua alma. Não temos desejo de formar simplesmente uma igreja grande; mas esperamos, sim, que as nossas sociedades sejam compostas exclusivamente daqueles que estão decididos a ganhar o céu e que estão resolvidos, pela graça de Deus, a viver à altura das exigências da Bíblia.

Onde sociedades já organizadas pretenderem unir-se à Igreja Metodista Livre, recomendamos que adotem a Disciplina como um todo e que, depois disso, cada membro seja admitido individualmente, como prevê a seção terceira do capítulo primeiro, intitulada “Da recepção de membros na Igreja”.

É da maior importância que os que entram na nova organização sejam de um só coração e de um só pensamento.

Tradução para o português a partir de The Doctrines and Discipline of the Free Methodist Church, adopted August 23, 1860 (Buffalo: B. T. Roberts, 1860), em fac-símile publicado pela First Fruits Press (Asbury Theological Seminary, 2016); domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.