História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo X
Os homens das sociedades secretas da Conferência de Genesee, embora em minoria, eram muito hábeis na maneira de assegurar o controle dos assuntos da Conferência. A sua ligação com o império secreto parece ter-lhes sugerido o caminho, que nenhum escrúpulo de consciência os impediu de seguir com eficácia. “Em qualquer assembleia deliberativa, uma minoria composta de homens de inteligência mediana, unidos por juramentos secretos, desconhecidos dos demais, geralmente consegue aprovar as suas medidas. Espalhados pela assembleia, a sua ação combinada parece espontânea; e muitas vezes obtêm uma decisão favorável antes que os adversários tenham tempo de se reorganizar. Foi assim que o Clube dos Jacobinos conquistou o controle da Assembleia Nacional, ou Legislativo, da França. Foi assim que os homens das sociedades secretas da Conferência de Genesee obtiveram a influência dominante.”1
Durante vários anos, sem que os seus irmãos de fora da loja suspeitassem, esses homens vinham fazendo exatamente aquilo de que acusavam falsamente os outros: unindo-se em segredo para alcançar os seus próprios fins na condução dos assuntos da Conferência. Mostrou-se que a “União Nazarita” foi inteiramente uma ficção, e produto de um único cérebro; mas o conclave secreto composto dos pregadores da “Regência” na Conferência de Genesee não foi ficção, e sim uma realidade das mais desastrosas. Nem foi, em nenhum sentido, coisa de um homem só, como a suposta “União Nazarita”, e sim um conclave de trinta a sessenta homens, agindo às escondidas, cada um comprometido com os outros a manter em segredo o que faziam. E a sua conduta não teria sido tão condenável se se dirigisse apenas a moldar a política geral da Conferência; mas é o fato de suas reuniões secretas terem sido usadas como meio de esmagar os irmãos da Conferência que não se submetiam mansamente à política proposta por eles que revela o caráter iníquo dos seus planos e das suas operações. Tendo assim tentado alcançar fins iníquos por meios tortuosos, parecem ter procurado desviar a atenção do que tinham feito, e ainda estavam fazendo, acusando os objetos inocentes da sua aversão e das suas tramas de uma ofensa semelhante. Uma incoerência gritante, de fato, mas natural e comum entre os que tramam em segredo contra o bem de homens bons.
“Mas, se essas coisas foram feitas em segredo, e sob o compromisso de mantê-las em segredo, como pode o público ter certeza do que se fez?” A pergunta é muito natural, mas também admite uma resposta fácil e satisfatória. Um amigo do Rev. B. T. Roberts lhe entregou as atas originais de uma das reuniões deles. Depois, durante o seu julgamento, o Sr. Roberts chamou como testemunhas vários pregadores que tinham comparecido às reuniões secretas, e pelo seu depoimento ficamos sabendo algo do que fazia o conclave secreto. Segue uma cópia das atas entregues ao Sr. Roberts pelo seu amigo:
LeRoy, 3 de setembro de 1857. Reunião convocada conforme o adiamento; o irmão Parsons na presidência. Oração pelo irmão Fuller. Os irmãos presentes se comprometeram, levantando-se, a guardar para si os trabalhos desta reunião.
Resolvido: Que não permitiremos que o caráter do Rev. B. T. Roberts seja aprovado enquanto ele não tiver um julgamento justo. Aprovado.
Proposto: Que não aprovaremos o caráter do Rev. W. C. Kendall enquanto ele não tiver um julgamento justo. Aprovado.
Proposto: Que o irmão Carlton seja acrescentado à comissão do caso do irmão Kendall. Aprovado.
Esse documento, embora breve, é cheio de significado. Os seguintes pontos a seu respeito merecem atenção especial:
1. Foi lido perante a Conferência e publicado repetidas vezes, e, no entanto, a sua autenticidade nunca foi posta em dúvida; ao passo que, se não fosse autêntico acima de toda possibilidade de contestação, não se teria mantido tal silêncio a respeito de um papel tão importante.
2. O documento contém prova evidente de que se realizavam reuniões secretas, organizadas e com oficiais da maneira regular.
3. O papel acima prova também que a reunião de que ele é o registro foi uma reunião secreta, e que cada membro se comprometeu a guardar para si o que se fez nela.
4. O conteúdo do documento mostra também, de maneira conclusiva, que o objetivo da reunião era assegurar um acordo secreto e compromissado para embaraçar e, se possível, destruir a posição de certos membros da Conferência, que não tinham a menor ideia dessas manobras dissimuladas: objetivo e método mais dignos de perseguidores jesuíticos do que de cristãos protestantes de confissão metodista.
5. As atas acima tornam evidente também que os presentes àquela reunião, embora fossem uma minoria da Conferência, como as provas posteriores mostrarão, se propunham, pela sua ação combinada, a assumir prerrogativas que pertenciam somente à Conferência como um todo; como, por exemplo, quando dizem: “Resolvido: Que não permitiremos que o caráter de fulano seja aprovado enquanto ele não tiver um julgamento justo.” Só a Conferência tinha competência para decidir se algum dos seus membros devia ser posto sob acusação quanto ao caráter, ou se o seu caráter devia ser aprovado.
[N. do T.: sobre a “aprovação do caráter” dos pregadores pela Conferência, ver a nota à “Origem da Igreja Metodista Livre”, na Disciplina de 1860.]
O que se fez naquela reunião lembra o que fez o Sinédrio judeu na noite anterior à crucificação de Jesus.
A pista que as atas acima deram ao Sr. Roberts foi seguida com cuidado; e, como resultado, vários dos pregadores que tinham comparecido a essas reuniões secretas foram chamados como testemunhas no seu julgamento e interrogados sobre o caráter e os trabalhos dessas reuniões. Isso os pôs numa posição embaraçosa. Alguns foram honestos o bastante para dar informações importantes, embora com maior ou menor relutância. Outros recorreram a evasivas difíceis de conciliar com a simplicidade e a sinceridade cristãs.
Pelo depoimento dos que deram informações com relutância, soube-se que existia na Conferência uma organização secreta de ministros pelo menos desde a sessão de 1856, e não se pôde apurar desde quanto tempo antes. Isso parece ter sido uma vil prostituição da sua ligação com as sociedades secretas, que não só era um erro moral para com os seus irmãos da Conferência, como também uma propaganda nada invejável das lojas que eles representavam.
O Rev. Sanford Hunt foi um dos homens que o Sr. Roberts chamou como testemunha, e depôs o seguinte: “Estive presente a reuniões na casa de John Ryan. Penso que havia um presidente e um secretário na reunião. Tivemos umas três reuniões. Geralmente havia vinte ou trinta na reunião” [claramente uma minoria da Conferência].
Numa sessão posterior, realizada em LeRoy, o número aumentou, porque outros foram induzidos a entrar na conspiração, até ficar cerca de duas vezes maior do que antes; mas ainda assim os que compunham o conclave eram uma clara minoria da Conferência.
O Rev. Thomas Carlton, chamado como testemunha, depôs: “Compareci a três das reuniões realizadas na casa de John Ryan durante a sessão da Conferência de Medina. Compareci a algumas das reuniões secretas em LeRoy; não a todas. Penso que pode ter havido sessenta numa das reuniões, quarenta noutra; variavam de trinta a sessenta.”
O Rev. D. F. Parsons também foi chamado e deu o seguinte depoimento: “Fui presidente dessas reuniões realizadas em LeRoy. Havia uma pessoa que fazia breves atas das reuniões.”
Os depoimentos acima estabelecem claramente que se realizaram reuniões secretas em várias Conferências, que foram organizadas na devida forma, pela eleição ou nomeação de oficiais, e que se faziam atas regulares dos trabalhos.
Além disso, as operações dessa associação eram tão secretas que os seus membros vinham fazendo o seu trabalho às escondidas e adquirindo o controle da Conferência havia pelo menos dois anos antes que os seus irmãos sequer suspeitassem da existência de tal combinação secreta. Tinham notado a unanimidade com que uns trinta ou mais pregadores votavam em todas as questões ligadas de modo mais direto às divergências entre o metodismo do tipo primitivo e o do tipo moderno, mas isso era explicado pela inclinação natural e pela influência das ligações com as lojas. Os representantes do metodismo de John Wesley, embora dotados de sagacidade comum e atentos a táticas espertas dos adversários, nem sequer tinham sonhado com um golpe como aquele que o partido da Regência havia ocultado com tanto êxito e posto em prática com tanta eficácia durante pelo menos duas sessões da Conferência. É significativo, também, que, quando os fatos sobre essa associação secreta dentro da Conferência finalmente vieram à luz, por circunstâncias providenciais, foram certos membros do conclave que, com relutância, mas com precisão, forneceram as informações.
Se o bispo Simpson, o Dr. Buckley e outros que pretenderam remontar a origem última do metodismo livre a uma “Associação Nazarita” com natureza de sociedade secreta não puderam crer no testemunho daqueles dezessete ministros da Conferência de Genesee, acusados de pertencer à dita associação, na sua declaração unânime de que não existia nem nunca existira tal associação ou organização, deram eles crédito, ou não, aos depoimentos de Sanford Hunt, Thomas Carlton e D. F. Parsons sobre as várias reuniões secretas e organizadas a que eles e de trinta a sessenta outros compareceram de tempos em tempos?
Dezessete homens negaram a existência de uma “Associação Nazarita”, e um homem declarou que só ele era responsável pela ficção que deu ocasião às alegações sobre a sua existência; três homens testemunharam a existência de uma associação de ministros organizada regularmente, que realizava as suas reuniões em segredo e comprometia cada membro a guardar segredo do que se fazia nelas, e também testemunharam que compareceram a essas reuniões de tempos em tempos.
Eis, pois, a única sociedade secreta que jamais existiu dentro dos limites da Conferência de Genesee, da Igreja Metodista Episcopal. Esta foi também a única “associação de ministros” da referida Conferência que, como associação, teve algo a ver com a formação da Igreja Metodista Livre. Foi nas reuniões secretas dessa “associação de ministros” que se instigaram as perseguições e se predeterminaram as proscrições que fizeram a organização da Igreja Metodista Livre parecer necessária aos que foram por elas privados do seu lar eclesiástico.
Convém agora dar mais atenção à obra realizada nessas reuniões secretas, bem como ao método de realizá-la.
A primeira tentativa parece ter sido no sentido de conseguir certas mudanças entre os presbíteros presidentes. Nisso, L. Stiles Jr. e I. C. Kingsley foram as vítimas. O Sr. Stiles foi descrito como “um dos homens mais dedicados, eloquentes, talentosos e nobres de coração no ministério da sua denominação”. Era especialmente bem aceito no distrito e eficaz em conservar e edificar tanto os interesses materiais como os espirituais confiados à sua supervisão. O Sr. Kingsley também era popular no seu distrito e muito útil no avanço da obra de Deus.
Ao que parece, a única coisa contra esses dois homens era o fato de serem fortes defensores da inteira santificação e de não simpatizarem com os pregadores das sociedades secretas que tramavam para assegurar o controle da Conferência. Por isso, numa reunião secreta dos pregadores da Regência,2 decidiu-se que esses homens deviam ser removidos. Preparou-se uma petição, assinada por uns trinta pregadores, e apresentada ao bispo, pedindo a sua remoção. O bispo foi também informado de que, se eles não fossem removidos, os trinta signatários da petição se recusariam a aceitar nomeação. A prova disso está no depoimento posterior de alguns deles próprios na Conferência de LeRoy.
O Rev. William Barrett, chamado, depôs: “Vi na Conferência de Medina uma petição pedindo a remoção dos irmãos Stiles e Kingsley do cargo de presbítero presidente. Não sei dizer as palavras da petição, mas entendi que era isto: que nos recusaríamos a aceitar nomeação se os irmãos Stiles e Kingsley continuassem no cargo de presbítero presidente.”
O Rev. J. M. Fuller também foi chamado e deu o seguinte depoimento:
Pergunta. “O senhor declarou na Conferência de Medina que não aceitaria nomeação sob Stiles ou Kingsley?”
Resposta. “Declarei.”
Pergunta. “Ouviu mais alguém dizer o mesmo?”
Resposta. “Ouvi outros dizerem algo que equivalia mais ou menos ao mesmo.”
Quem, ao ler os depoimentos acima, pode ter dúvida de que se realizaram reuniões secretas, e isso com o propósito de assegurar à minoria o controle da Conferência, sem respeito à equidade ou à justiça das medidas empregadas?
Para alcançar o fim desejado, homens bons tinham de ser sacrificados, e homens de qualificação e piedade inferiores postos no seu lugar. Na verdade, esses pregadores das sociedades secretas, nas suas reuniões eclesiásticas secretas e não autorizadas, faziam habitualmente exatamente aquilo de que tinham acusado os seus irmãos, e por cuja suposta prática procuravam agora, de maneira dissimulada, removê-los do cargo e expulsá-los da igreja. Os chamados “nazaritas” foram falsamente acusados de ter formado uma “Organização Nazarita” com natureza de sociedade secreta, com o propósito de assegurar o controle da Conferência; e esse foi o verdadeiro fundamento de todos os processos contra Roberts, Stiles, McCreery e outros, como também o fundamento com que se procurou remover Stiles e Kingsley do cargo de presbítero presidente.
Tal conduta carece da equidade e da honestidade comuns que homens respeitáveis, sem nenhuma profissão de cristianismo, costumam mostrar. Qualquer argumento para justificar tal conduta seria igualmente válido para justificar os que, vivendo do crime, conseguem o castigo de homens honestos e retos acusando-os falsamente de cometer crimes semelhantes.
Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.