História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo XI
A sessão da Conferência realizada em Medina, em 1856, foi um tempo de dura provação para os metodistas do oeste de Nova York que simpatizavam com a doutrina e a obra da santidade tal como Wesley e os seus colaboradores as promoveram no metodismo primitivo. O Rev. L. Stiles Jr., que, como presbítero presidente do distrito de Genesee, tomara firme posição em favor da obra radical e profunda de Deus já em andamento no seu distrito, foi levado a julgamento com base em acusações forjadas; e, embora tenha sido absolvido, em consequência da petição apresentada ao bispo, tanto ele como o presbítero presidente Kingsley foram retirados do gabinete e também transferidos para a Conferência de Cincinnati. Na verdade, convencidos de que um deles, ou ambos, seriam removidos, os dois pediram essa transferência. Nomearam-se para os seus lugares homens mansamente submissos à vontade do partido da Regência. O homem que sucedeu a Stiles como presbítero presidente do distrito de Genesee distinguiu-se, e distinguiu a sua chegada ao poder, numa das suas primeiras reuniões trimestrais, ao aceitar, pôr em votação e deixar aprovar e registrar como “Atas da Conferência Trimestral” um preâmbulo e resoluções que condenavam, na sua ausência, certas pessoas do partido contrário, que de modo algum estavam sujeitas àquele tribunal.
Só perto do fim da Conferência, quando se leu a lista das nomeações para o ano seguinte, os amigos da obra da santidade perceberam até onde os seus inimigos tinham triunfado. Ignorando até então o que se passava, quando os fatos lhes ficaram claros sentiram grande desânimo, e por algum tempo o coração lhes desfaleceu. Aquele homem de Deus admirável, o Rev. William C. Kendall, foi, porém, uma notável exceção. E não porque deixasse de compreender a situação, pois via as coisas como os seus irmãos desanimados as viam. Além do estado geral deplorável das coisas, ele mesmo fora tirado do seu circuito depois de um só ano de pastorado e posto à frente de uma obra muito menos importante. Mas, quando os trabalhos da Conferência terminaram e o bispo pediu que alguém cantasse antes da oração final, sem anunciar nenhum hino em particular, Kendall se levantou e, com voz clara e firme, começou:
O bispo ia fazer a oração, mas Kendall, todo absorvido no seu canto, continuou:
De novo o bom bispo quis dirigir a oração, mas a voz clara do cantor continuou a terceira estrofe:
A essa altura, o ânimo abatido dos “peregrinos” perseguidos se reergueu; levantaram a cabeça, o coração se inflamou e, quando também eles entraram no canto, a fé reviveu, a esperança se fortaleceu, e brados de vitória ressoaram de todos os lados. Enquanto isso, a voz de Kendall continuava a encher o auditório de melodia celestial, enquanto ele conduzia o canto até o fim da última estrofe:
[N. do T.: hino de Charles Wesley, publicado em Hymns and Sacred Poems (1749), já traduzido neste site; seguimos aquela tradução, ajustada às pequenas variantes do texto citado por Hogue (“heavenly place”, “suffer with our Master”). A estrofe do original que começa “See, where the Lamb in glory stands” não é citada aqui.]
Então o bispo fez a oração final, cantou-se a doxologia, deu-se a bênção, e os pregadores “peregrinos” foram sem queixa para as suas nomeações, sentindo que podiam ir com alegria até os confins da terra, se fosse preciso, para proclamar o evangelho de uma salvação livre e plena.
Outra medida adotada pelo partido da Regência foi barrar a admissão na Conferência de jovens piedosos que se apresentavam como candidatos, quando se supunha que hesitariam em colocar-se inteiramente sob a sua direção e controle. Vários jovens promissores, de boa formação e profunda piedade, que professavam e pregavam a inteira santificação, foram obrigados a bater à porta de outras Conferências para serem admitidos. A respeito dessa ação, e mostrando que era o propósito firme do partido da Regência, o Buffalo Advocate, que era o seu órgão, publicou o seguinte:
Cabeças quentes e fanáticos, de onde quer que venham, acharão daqui em diante um solo difícil para produzir qualquer dos seus males ou escândalos. Alguns tentaram ser admitidos na Conferência na sua última sessão, mas foram repelidos no limiar e foram-se embora, desgostosos com os presságios de ordem e de hombridade que, se uma Providência bondosa o permitir, governarão daqui em diante.
Estes, com os seus simpatizantes dentro e fora do corpo, são os agentes empregados em escrever escândalos sobre os que agora seguram as rédeas e que pretendem viver e governar para Deus e para a santidade, e para uma posição respeitável.
Temos aqui a confissão pública do que se afirma no parágrafo anterior; e o tom de superioridade imaginária e de autossatisfação triunfante com que é dita, bem como o que sugere por meio de insinuações e alfinetadas sarcásticas, são sinais claros do espírito amargo e perseguidor que inspirou tanto o texto como a ação a que ele se refere.
Por estranho que pareça, a causa da santidade, que se supunha ter sofrido um sério revés por causa das condições e circunstâncias narradas acima, continuou a avançar com firmeza. Na verdade, prosperou mais do que nos anos anteriores. Os acampamentos dos distritos de Genesee e de Niágara, embora realizados sem a cooperação dos presbíteros presidentes, foram maiores e mais frutíferos do que todos os realizados nos últimos anos. Os distritos estavam em chamas de avivamento. As conversões eram numerosas, e grande número de pessoas buscou e alcançou a bênção da salvação plena, ou “perfeito amor”. “Assim, a palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente” (At 19.20).
O ano logo completou o seu ciclo e, na sessão seguinte da Conferência de Genesee, a pedido de grande número de pregadores e leigos, I. C. Kingsley e L. Stiles Jr. foram de novo transferidos para aquele corpo. Isso levou certo presbítero presidente da Regência a comentar: “Se esses homens voltarem, estaremos metidos numa guerra de sete anos.” E, de fato, a guerra começou naquela mesma sessão, com a apresentação, por influência do conclave ministerial, de um libelo de acusações contra B. T. Roberts e dois contra William C. Kendall. O processo contra Roberts foi levado adiante, e as acusações foram declaradas procedentes. Os procedimentos serão apresentados e examinados num capítulo posterior. As acusações contra Kendall foram adiadas por falta de tempo para processá-las, mas com a garantia de que o seriam no ano seguinte.
Na verdade, os mais graves erros jamais cometidos pelo conclave de ministros de Genesee foram os de usar a sua organização para proteger os culpados e punir os inocentes. “Acusações apoiadas pelas pessoas mais responsáveis, feitas contra alguns dos seus membros por transações desonestas que quase chegavam a crimes de prisão estadual, foram arquivadas sumariamente; ao passo que homens de vida imaculada, acusados de ser nazaritas, foram expulsos da igreja sob pretextos tão leves que não admitiam defesa.”1
William C. Kendall foi uma das suas primeiras vítimas. Vinha de uma antiga e muito respeitada família metodista do condado de Wyoming, Nova York. Ele e B. T. Roberts foram colegas de classe na academia, na faculdade e no curso da Conferência, e os seus corações se uniram como os de Davi e Jônatas. Kendall buscou e alcançou a experiência da santidade durante o seu curso na Universidade Wesleyana, em Middletown, Connecticut. Exemplificava a graça que professava e mantinha viva a chama do perfeito amor trabalhando com diligência para levar outros à mesma bendita experiência. Formou-se em 1848 e, pouco tempo depois, entrou em experiência na Conferência de Genesee. Pelos dons naturais, pela formação e por uma rica experiência da graça de Deus, estava eminentemente preparado para trabalhar com êxito em qualquer setor da vinha do Senhor. Foi descrito como de “uma bela figura varonil, de porte nobre; um semblante franco e aberto, no qual repousava um doce sorriso celestial; uma voz agradável, de extensão e força incomuns, inteiramente sob o seu domínio; uma mente cuidadosamente abastecida de verdade divina e também de saber clássico; e, acima de tudo, um coração inteiramente santificado para Deus”.
O Sr. Kendall era reconhecido como um dos ministros metodistas mais piedosos, zelosos e bem-sucedidos do oeste de Nova York. Um leigo inteligente que o conhecera intimamente por muito tempo disse certa vez ao autor: “Conheci muitos homens bons, muitos homens espirituais, muitos homens santos, mas considero William C. Kendall o homem mais divino que já encontrei.” Essa parece ter sido, em substância, a opinião geral dos que foram abençoados pelo seu ministério. E, no entanto, grande, bom e santo como era, foi um dos homens mais perseguidos do metodismo do oeste de Nova York. O conclave ministerial nunca se rebaixou a uma obra mais desprezível e vergonhosa do que quando instigou as acusações contra esse nobre homem de Deus a que nos referimos. Ele não foi julgado, como notamos, por falta de tempo, mas foi enviado a um circuito com as acusações ainda pendentes e com a garantia de que seria julgado pelos dois libelos na sessão seguinte da Conferência.
Os que desejavam e esperavam a sua decapitação eclesiástica ficaram, porém, providencialmente decepcionados, pois ele foi levado pela morte, e livrado do mal que o ameaçava, antes do fim do ano conferencial. Nisso foi comparado ao santo Rutherford, com quem tanto se parecia no espírito, e que, ao saber no leito de morte que fora intimado a responder no Parlamento seguinte por alta traição, observou com calma que recebera outra intimação, para comparecer perante um Juiz e um tribunal superiores, e mandou a seguinte resposta: “Devo atender à minha primeira intimação; e, antes que chegue o vosso dia, estarei onde poucos reis e grandes personagens chegam.”
[N. do T.: Samuel Rutherford (c. 1600-1661), pastor e teólogo escocês, autor de cartas devocionais muito lidas.]
A única ofensa real que o Sr. Kendall cometera era simpatizar de coração com o avivamento de santidade que varria o oeste de Nova York e outras regiões do metodismo, e por isso era classificado entre os “nazaritas”. Desde o início do seu ministério, fez da pregação da salvação plena a sua especialidade, levado a isso, pelo menos em parte, por uma observação do bispo Hamline que impressionou profundamente a sua mente. Certos pregadores tinham sido acusados de fazer “da santidade a sua mania”, e o bispo observou: “Ai do pregador metodista, esse filho da perdição, que não faz da santidade a sua mania!”
O primeiro circuito do Sr. Kendall foi Cambria, condado de Niagara, Nova York. Ele foi para o seu trabalho plenamente decidido, segundo uma interpretação inteligente das palavras do bispo, a “fazer da santidade a sua mania”. Durante os seus dois anos de pastorado em Cambria, o seu ministério prosperou. Muitos se converteram, e muitos crentes foram inteiramente santificados. Serviu também, sucessivamente, em Royalton e Pike, e em ambos os campos o seu trabalho foi acompanhado de avivamentos bem-sucedidos. Em Pike recebeu na igreja cem pessoas convertidas no avivamento que dirigiu ali. Em todos esses campos pregou a santidade, ou inteira santificação, como privilégio e obrigação de todos os crentes, insistindo na pureza interior e na retidão exterior, e nunca rebaixando o padrão bíblico da justificação ao apresentar a santificação como segunda obra da graça.
É claro que tal ministério não podia deixar de ser frutífero; e os convertidos por meio desse trabalho tinham uma experiência clara e eram cristãos vigorosos e em crescimento desde o início. Muitos deles avançaram rapidamente para a experiência definida da santificação e mostravam, no trabalho pela salvação dos outros, uma liberdade e um poder muito acima dos de quem comumente professa a religião. Mas isso, em vez de ser em geral saudado com alegria por muitos membros mais antigos da igreja, foi motivo de crítica ciumenta e oposição amarga. Por fim, nomeou-se uma comissão para procurar o Sr. Kendall e pedir-lhe que pregasse menos sobre a santidade, “para não afastar homens de influência de que a igreja precisava”. “À frente dos que tinham medo da santidade, para que ela não dividisse a igreja, estava um membro de destaque, havia muito tempo proeminente na comunidade. Provou-se depois que, durante dez anos, incluindo esse período, esse homem vinha falsificando avais em notas promissórias! Ele as pagava no vencimento; mas, por fim, estando doente quando uma nota venceu, o seu crime foi descoberto, e ele foi punido. Principalmente por influência desse homem, o irmão Kendall foi removido no fim do ano. No circuito de Covington, para onde foi enviado, grande número de pessoas foi salvo.”2
Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.