História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo XII
No outono de 1854, o Sr. Kendall foi enviado para o campo de Albion. Foi para o seu circuito decidido como sempre a “nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1Co 2.2), e a pregar, por meio de Cristo, a salvação total (Hb 7.25). Foi avisado, porém, pelos seus antecessores, de que ali nunca daria certo insistir na sua pregação, como fizera em outros lugares, na simplicidade do vestuário, pois o povo não aceitaria. Não se desviou nem um pouco das suas convicções de dever por causa desses avisos, mas, com firmeza e bondade, anunciou o que cria ser “todo o plano de Deus” (At 20.27), considerando os membros da Igreja Metodista sob uma obrigação especial, por causa do seu pacto com a igreja, de aceitar e também de exemplificar a verdade que ele costumava pregar a respeito do vestuário.
A sua fidelidade às convicções e aos princípios característicos do metodismo provocou violenta oposição da sua junta oficial e o envolveu numa luta muito desagradável; mas Deus estava com ele, e o seu trabalho resultou num dos avivamentos mais amplos e profundos que Albion já conhecera. “Centenas foram convertidos e santificados, e mais de cem foram acrescentados à igreja.”
Vários anos depois, o autor foi pastor da Igreja Metodista Livre em Albion, onde ministrou a muitos dos que tinham sido salvos naquele avivamento, e onde encontrou o nome do Sr. Kendall como “perfume derramado” (Ct 1.3). A fama do avivamento de Kendall na Igreja Metodista de Albion ainda estava viva por toda parte.
No fim de um ano ele foi tirado de Albion e enviado a Brockport. Por quê, só podemos adivinhar. Em Brockport, estava destinado a enfrentar uma oposição mais feroz do que qualquer outra que conhecera. Ali a oposição era de caráter mais organizado. Ele seguiu firme o seu caminho, porém, e viu muitos serem salvos pela graça sob o seu ministério. Em vez de se alegrarem com isso, os elementos dominantes da igreja rotularam os convertidos de fanáticos, e um antigo pregador itinerante tomou para si a tarefa de escrever um folheto contra a obra, que foi posto em ampla circulação.
Mais alguma ideia das provações que oprimiam esse ministro de Jesus Cristo é dada no seguinte trecho de uma carta que ele escreveu por essa época: “À tarde tivemos a nossa reunião oficial, no fim da qual se dedicaram duas horas ao meu caso. O conselho, é claro, estava dividido; temos alguns irmãos firmes do lado da religião. Eu mesmo pouco fiz além de negar afirmações falsas. Encerramos sem decisão final sobre o meu caso. Na próxima segunda-feira à noite temos de novo a nossa reunião regular. O que me acontecerá então, não sei.”1
Em meio a todas essas dificuldades, ele costumava dizer na sua pregação: “Estou firmado na Bíblia e na Disciplina metodista; quando eu sair delas, ponham as mãos em mim.”
No fim de um ano foi de novo removido e, desta vez, enviado a Chili, um campo muito menos importante. Isso foi na Conferência de Medina, mencionada no capítulo anterior. Já vimos a serenidade com que recebeu essa nomeação e como, quando o coração dos fiéis desfalecia de desânimo diante dos triunfos do partido da Regência, ele os reanimou com um dos cânticos inspiradores de Sião. Com esse otimismo calmo e triunfante, seguiu para o campo que lhe foi designado, decidido a fazer para Deus uma obra mais profunda do que nunca.
A sessão seguinte da Conferência foi realizada em LeRoy. Foi ali que se apresentaram contra ele os dois libelos de acusações que não foram processados por falta de tempo. Dessa Conferência ele foi enviado, com os dois libelos ainda pendentes, ao circuito de West Falls, considerado em geral um dos mais pobres da Conferência. Parecia que, tendo falhado as outras medidas da Regência, pretendiam vencê-lo pela fome. O seu presbítero presidente lhe disse que, “se ele agradasse razoavelmente ao povo, talvez o hospedassem com a esposa de casa em casa, mas não teriam condições de sustentá-lo se ele tivesse casa própria”. O povo do campo também ouvira do seu presbítero presidente, antes da Conferência, que ele “duvidava que houvesse na Conferência um homem pequeno o bastante para eles”.
Essa foi a recompensa que esse fiel homem de Deus recebeu da Conferência de Genesee, da Igreja Metodista Episcopal, pelos seus anos de serviço sincero, abnegado e frutífero nos vários campos para onde fora enviado. Ali estava um homem eminente em piedade, dotado de raros dons naturais, formado pela principal universidade do metodismo americano, de cultura sólida e capaz, em todos os sentidos, de ocupar os melhores púlpitos do país, que provara a sua eficiência com trabalhos bem-sucedidos em sete campos diferentes, agora nomeado para o circuito mais obscuro, menos promissor e menos remunerado dentro dos limites da Conferência!
Para esse “circuito da fome” o Sr. Kendall foi, manso mas corajoso. Talvez algumas lágrimas tenham caído quando ele compreendeu plenamente o que a decisão da Conferência no seu caso significava, mas logo enxugou as lágrimas e, sorridente e triunfante, foi ouvido dizer: “Confiarei em Deus para fazê-los arrepender-se de me terem mandado a West Falls para me curar ou me castigar.” Ao chegar ao seu circuito, encontrou as coisas piores do que lhe tinham descrito. Piedade vital praticamente não havia, e até a forma da verdadeira religião quase desaparecera. Pôs-se a trabalhar, porém, com muita fé, coragem e zelo, na esperança de ver um avivamento genuíno; e o seu trabalho logo foi abundantemente abençoado e frutífero além de toda expectativa. Um dos primeiros a se colocar ao seu lado foi um velho amigo quacre, que, no fim de um dos seus sermões mais penetrantes, se aproximou dele, pôs uma quantia em dinheiro na sua mão e disse: “William, percebo que Deus está contigo.”
O seu biógrafo, escrevendo sobre o seu trabalho nesse campo, diz:
Irrompeu um avivamento que varreu toda aquela região com força quase irresistível. Com zelo incansável, ele ia de casa em casa e orava com as pessoas. Famílias inteiras se converteram. Incrédulos de coração duro caíam prostrados sob o poder de Deus e ficavam felizes de ver orando por eles aqueles que antes odiavam. Dizia-se que, por oito milhas ao longo da estrada principal, não havia uma casa em que algum dos moradores não se tivesse convertido nesse avivamento. Na vila, quando ele chegou, só havia três casas com culto doméstico; quando saiu, só havia três em que não se fazia o culto doméstico.
Uns vinte anos depois, West Falls fazia parte do distrito da Conferência que o autor foi nomeado para presidir, e ali de novo ele encontrou frutos preciosos do avivamento de Kendall e soube que, embora o homem de Deus tivesse adormecido vinte anos antes, a sua memória estava viva e inspirava todos os que o tinham conhecido e frequentado o seu ministério.
O seu trabalho no circuito de West Falls e as perseguições da Regência acabaram, porém, sendo demais para as suas forças, e a sua constituição, naturalmente forte, foi por fim minada e cedeu. No sábado, 16 de janeiro de 1858, ele apresentou sintomas de febre tifoide. Como não havia ninguém disponível para cumprir o seu compromisso de pregação no dia seguinte, ele mesmo se encarregou de fazê-lo. Cavalgou oito milhas para chegar lá, pregou duas vezes com muita unção e poder e depois voltou para casa e, sentindo-se mal, foi para a cama, de onde não se levantaria mais. O seu estado foi se tornando aos poucos mais alarmante, mas ele permaneceu consciente e feliz. Às vezes cantava alguns dos seus hinos preferidos. Ora era:
e ora:
Ao acordar certa manhã, exclamou: “Vi o Rei da Glória e dormi no seu palácio. Eu estava tão íntimo dos anjos!”
Os seus sofrimentos às vezes eram terríveis, mas eram suportados sem queixa. “Na manhã do domingo, 31 de janeiro, julgaram que ele estava morrendo, e o seu quarto se encheu de uma multidão em lágrimas. A voz lhe faltou, e ele ficou contemplando o céu, todo extasiado com as suas glórias, que resplandeciam sobre ele. Agitava as mãos em triunfo. A esposa inclinou o ouvido aos seus lábios e o ouviu sussurrar: ‘Salve! Salve! Salve!’
“Depois de um breve silêncio, ele de repente se reanimou e cantou:
“‘Nós o louvaremos de novo
quando passarmos o Jordão.’
“O seu pai perguntou: ‘William, está tudo bem?’ Com um olhar de alegria indizível, ele respondeu três vezes: ‘Está tudo bem.’
“Aos poucos se desatou o cordão de prata e, na segunda-feira de manhã, 1º de fevereiro de 1858, às dez e meia, esse guerreiro cristão, que sempre fora valente pela verdade, depôs a sua armadura para usar a sua coroa. Mas foi vitorioso na morte, como na vida.”2
[N. do T.: “How happy every child of grace” é um hino de Charles Wesley. “Cordão de prata” alude a Ec 12.6.]
Logo que o bom homem partiu, os que tinham sido os seus perseguidores mais amargos foram os primeiros a proclamar as suas sólidas e varonis virtudes e a disputar entre si quem mais honraria a sua memória. Esse tem sido o costume secular dos perseguidores religiosos.
Na sessão seguinte à morte do Sr. Kendall, a Conferência de Genesee, em vez de processar os dois libelos apresentados contra ele na sessão anterior e deixados para o ano seguinte por falta de tempo (com base nos quais, com toda a probabilidade, o teriam expulsado da Conferência e da igreja, se ele vivesse), adotou o seguinte tributo, merecido e caloroso, à sua memória, que está registrado no livro de atas da Conferência e foi depois publicado em Why Another Sect? e, com algumas omissões, na História da Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal, de Conable:
Ele caiu no seu posto, em meio a um dos avivamentos mais promissores que jamais acompanharam o seu trabalho. O seu presbítero presidente, o Rev. G. Fillmore, observou que, apesar de todo o seu êxito ministerial anterior, nunca conhecera um tempo em que houvesse diante dele tal perspectiva de ampla utilidade como quando adoeceu; e nunca conhecera um caso em que um pregador se tivesse entrelaçado tanto no afeto de todo o povo.
Pode-se dizer do irmão Kendall que caiu mártir do seu trabalho. No dia seguinte àquele em que adoeceu, foi a um compromisso e pregou com muito fervor e poder; e, quando a esposa procurou dissuadi-lo de ir a outro, a sua resposta cristã foi: “Quero dizer ao povo de Potter’s Corners algo de que se lembrem para sempre.” Fez o esforço, mas logo teve de parar. Foi o seu último esforço. Foi levado para casa e nunca mais saiu dela, até ser conduzido ao seu lugar de descanso na sepultura.
O seu fim foi tal como uma vida como a sua não pode deixar de garantir. Não foi só tranquilo, mas triunfante. Pouco antes de morrer, disse: “Estive nadando nas águas da morte por dois dias, e elas são como incenso suave por todo o meu corpo.” Às vezes agitava as mãos em êxtase, dizendo: “Ora, o céu está descendo à terra! Isto é o céu! Vejo os anjos! Estão voando por toda a casa.” Cantava muitas vezes os seus hinos preferidos, que lembravam a bem-aventurança do céu.
Pouco antes da sua partida, a sua aflita companheira aproximou o ouvido para captar o que ele parecia dizer num sussurro e o ouviu distintamente exalar, como do mais íntimo da alma: “Salve! Salve! Salve! Vejo luz, luz!” O “vejo” foi dito com ênfase. Alguém perguntou: “Está tudo bem?” Ele respondeu com doçura, e repetiu três vezes: “Está tudo bem!” Sofreu um breve combate com os poderes das trevas, mas logo alcançou a vitória e exclamou: “Jesus, o Vencedor, reina!” Assim viveu e morreu o nosso amado irmão William C. Kendall, homem honrado por Deus e muito amado por todos os que o conheceram.
Segundo todas as aparências humanas, William C. Kendall deveria ter vivido e trabalhado mais vinte anos ou mais. Descendia de uma família bastante conhecida pela longevidade, tinha uma constituição forte e vigorosa e, durante anos, mostrara capacidade incomum para o trabalho duro e resistência fora do comum. Mas a constituição mais forte não podia suportar indefinidamente o peso das indignidades e privações que lhe foram impostas durante anos, simplesmente por causa da sua lealdade a Deus e aos princípios do metodismo.
Se a sugestão acima parecer pouco caridosa, lembre-se que ela expressa uma opinião sustentada, na época da morte do Sr. Kendall, por muitos dos seus amigos, não só entre os que eram chamados por zombaria de “nazaritas”, mas também entre os que nunca foram suspeitos de ser cismáticos, ou de alguma forma desleais à Igreja Metodista Episcopal. O seguinte trecho de uma carta escrita ao Rev. B. T. Roberts pelo Rev. Seymour Coleman, membro destacado da Conferência de Troy, homem que viveu e morreu na Igreja Metodista, ilustra o pensamento e os sentimentos de muitos a respeito da responsabilidade pela morte aparentemente prematura do Sr. Kendall:
Esta manhã recebi a sua carta, com a notícia da morte do nosso querido irmão Kendall. O senhor diz que ele morreu em triunfo. Levantemos aqui o brado de vitória por ele, enquanto ele canta louvores lá em cima. Não terá mais nomeações difíceis; graças a Deus!
As horas que passei com ele são muito agradáveis na lembrança. Penso que a igreja e o mundo poderiam tê-lo tido por mais tempo, se o tivessem tratado melhor.
As palavras finais desse trecho, “penso que a igreja e o mundo poderiam tê-lo tido por mais tempo, se o tivessem tratado melhor”, expressam a convicção geral de todos os que conheciam as circunstâncias, exceto os seus inimigos amargos; e não duvidamos de que, no fundo, também eles o consideravam um mártir, vítima das perseguições que por tanto tempo e com tanta violência se levantaram contra ele.
Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.