História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo XIX
A determinação de esmagar o “nazaritismo”, que era apenas outro nome do “movimento de santidade”, tornara-se agora a política fixa e assentada do poder da Regência na Conferência de Genesee; e o propósito de ser fiel a Deus e à obra de “espalhar a santidade bíblica pela terra”, para a qual o metodismo originalmente afirmava ter sido levantado, estava igualmente assentado da parte dos pregadores perseguidos e dos seus amigos. Os dois partidos estavam plenamente comprometidos com o conflito, que se aprofundava constantemente, e tinham avançado demais nele para pensar agora em recuar ou render-se. Os conspiradores que queriam esmagar o “nazaritismo” afiavam as suas ferramentas e traçavam os seus planos para fazer uma execução desesperada na sessão seguinte da Conferência. Veremos logo como procederam.
Na sua Ciclopédia do metodismo, no artigo “Free Methodists”, o bispo Simpson diz: “Em 1858, dois dos líderes foram expulsos da Conferência.” Isso é em parte incorreto. Dois pregadores foram expulsos naquela época, mas um deles, Joseph McCreery, embora estivesse destacadamente identificado com o movimento de santidade e com a obra de avivamento e reforma na Conferência, não só nunca foi líder na Igreja Metodista Livre, como se opôs à sua organização em 1860 e só se uniu a ela cinco anos depois de organizada.
Quanto às penas, a declaração do bispo é igualmente enganosa. Ela levaria quem não soubesse de outro modo a supor que a expulsão da Conferência foi toda a pena aplicada nesses casos. Não foi isso, porém. Os dois foram “expulsos da Conferência e da igreja”. Por que não se diz toda a verdade é coisa em grande parte de conjectura. Já se sugeriu que talvez o bispo “não quisesse que parecesse que as leis da Igreja Metodista Episcopal, tal como eram então administradas, eram como as leis de Drácon, que puniam com a morte a mais leve ofensa, ou mesmo nenhuma ofensa; ou, pior ainda, como os editos de Nero, que torturavam os homens por serem cristãos”.
Naturalmente, seria de supor que as ofensas cometidas por esses pregadores tivessem sido de caráter extremamente grave, para merecer a aplicação da pena mais alta conhecida pela lei eclesiástica. Se foi ou não esse o caso, ficará plenamente evidente quando examinarmos os trabalhos do julgamento.
O leitor há de lembrar o que se disse no capítulo anterior sobre a notícia espalhada depois do primeiro julgamento do Sr. Roberts, de que ele fora condenado pela sua Conferência por “conduta imoral”. Essa notícia foi evidentemente redigida e posta em circulação para dar a impressão de que ele fora culpado de grave iniquidade. E que vergonha! Não é de admirar que muitos dos seus amigos pessoais íntimos se sentissem profundamente feridos por essa afronta, somada ao que ele já suportara. Nem é estranho que tal tratamento dado a um ministro de Jesus Cristo temente a Deus fosse fortemente ressentido e reprovado por alguns. A tentativa de um dos seus amigos de desafogar a própria alma a respeito do que considerava um veredito muitíssimo injusto no caso foi por fim aproveitada pela Regência e imputada ao próprio Sr. Roberts, como base do segundo libelo de acusações, pelo qual ele foi julgado e expulso da Conferência e da igreja.
Esse amigo era um leigo chamado George W. Estes, que morava no circuito de Clarkson. Era homem inteligente, como mostrará o desfecho da história. Era também homem de influência na sua comunidade. Era decididamente vivo na experiência religiosa e trabalhara com eficácia ao lado do Sr. Roberts nas reuniões de avivamento que este dirigira em Brockport, quando era pastor ali.
Por iniciativa inteiramente própria, e sem que o Sr. Roberts soubesse nada do que ele pretendia fazer, o Sr. Estes reeditou durante o ano, em forma de folheto, o artigo sobre o “Metodismo da Nova Escola”, junto com um breve relato do julgamento, pagando todas as despesas do próprio bolso. Segue o texto completo do artigo de Estes, exceto o libelo de acusações, que já demos no capítulo anterior:
A QUEM INTERESSAR POSSA
O artigo acima,1 publicado no Northern Independent, foi objeto de consultas gerais em reuniões privadas da Regência de Buffalo, realizadas numa sala sobre a livraria de Bryant & Clark, em LeRoy, nas noites de quinta, sexta e sábado da primeira semana da Conferência, e o resultado foi o libelo de acusações transcrito abaixo. O modo de comprometer de antemão os pregadores mais fracos com a condenação do irmão Roberts foi este, segundo o relato de um dos presentes. Um dos chefes da Regência, atuando como presidente, perguntou: “Que se deve fazer no caso do irmão Roberts? Todos os que são a favor de processá-lo levantem a mão.” Os “trinta imortais” levantaram a mão, e também alguns presbiterzinhos presidentes. O presidente então fez uma exortação inflamada à unanimidade: deviam estar unidos o bastante para levar o caso até o fim, ou não convinha empreendê-lo. Depois de várias exortações, a votação foi feita de novo, e mais alguns votaram. Depois de outro período de exortação fervorosa, fez-se uma terceira votação, em que todos, menos um, concordaram; e decidiram-se o julgamento e a condenação. Belo trabalho esse para pregadores metodistas piedosos, que tiram o seu sustento de sociedades religiosas honestas do nosso meio! Registramos aqui, perante o povo, o seu libelo de acusações, com toda a sua engenhosa distorção dos fatos, como segue. (Ver págs. 148 e 151 [no Cap. XVIII].)
Já há vários anos se faz, na Conferência, o sacrifício anual de uma vítima humana. Tornou-se costume. Os ritos e cerimônias religiosos que acompanham essa purificação anual assumem aparência legal. A vítima é imolada segundo a lei. E. Thomas, J. McCreery, I. C. Kingsley, L. Stiles e B. T. Roberts formam até aqui o “nobre exército dos mártires”. Quem está escolhido para a próxima vítima anual ainda não se sabe. O conclave da meia-noite dos “trinta imortais” ainda não fez a sua escolha. Nenhum homem está seguro se ousar sequer sussurrar uma palavra contra essa Inquisição secreta no nosso meio. O crime comum pode obter as suas indulgências (falências e adultérios são faltas veniais), mas a oposição aos seus planos e à sua política é “pecado mortal”, um crime “sem benefício do clero”. Os mesmos cinquenta homens que votaram o irmão Roberts culpado de “conduta não cristã e imoral” por escrever o artigo [acima] votaram readmitir um irmão das regiões em volta de Buffalo pelo serviço prestado de beijar uma moça no vestíbulo da sala da Conferência enquanto corria o julgamento do irmão Roberts. “Nero tocava lira enquanto os mártires ardiam.”
O julgamento do irmão Roberts, se merece o nome de julgamento, foi marcado por uma grosseira iniquidade de procedimentos. Não há na Igreja Metodista Episcopal cânones regulares que regulem o modo específico de conduzir os julgamentos. Tudo é indefinido. Reina uma gloriosa incerteza e independência de toda regulamentação legal. A discrição do presidente tem necessariamente grande latitude e alcance, para cima ou para baixo, conforme o preconceito ou a política incline. Assim, quando se perguntou a uma testemunha se sabia de uma reunião privada de cerca de trinta pregadores em Medina durante a Conferência, ela respondeu: “Sim.” Quando se perguntou para que se reuniram, respondeu que para “consulta”. Aqui a acusação, percebendo que provavelmente viria à tona toda essa articulação secreta na Conferência de Medina para fechar as reuniões de oração, arranjar as nomeações, derrubar presbíteros presidentes etc., objetou a todas as perguntas do caso que não estivessem exatamente cobertas pelos termos literais das especificações que ela mesma redigira com astúcia. E as objeções foram acolhidas pelo bispo. Toda pergunta sobre as reuniões dos “trinta imortais”, o que faziam e o que ensinavam, foi objetada e descartada como irrelevante para as especificações. Acusado de afirmar a existência de um corpo associado de cerca de trinta pregadores na Conferência, com os propósitos indicados no seu artigo, negou-se a ele [o direito] de apresentar os fatos em sua justificação, que ele poderia ter provado com trinta testemunhas. Esse direito, que qualquer tribunal civil ou militar lhe teria concedido, foi negado. Naturalmente, quando as testemunhas se recusam a depor e o juiz se recusa a obrigá-las, não adiantava perder tempo com a defesa. O irmão Roberts recusou-se a continuar a defesa.
Também foi enviada a Buffalo uma comissão para colher depoimentos. Mas, quando chegaram, descobriram que um emissário da Conferência fora mandado antes deles para tomar conta do escritório do Advocate, e ele se recusou a vender, emprestar ou deixar copiar qualquer dos originais dos jornais ou artigos relacionados com o caso, e pôs todos “no esquadro” para recusarem depoimento. Sem poder para obrigar as testemunhas a depor, a comissão voltou só com os depoimentos que homens honestos ofereceram voluntariamente, os quais serão publicados mais tarde.
Um venerável doutor em teologia leu o sermão do “auto de fé” (preparado para a vítima do ano anterior), no qual entregou, em verdadeiro estilo inquisitorial, o irmão Roberts, de corpo e alma, ao inferno. Fê-lo do seu modo mais magistral, sem mostrar nenhuma quantidade embaraçosa de excentricidade ou de outra causa mental que justificasse a sua jubilação. Esse venerável doutor, embora nominalmente jubilado e beneficiário anual de alta cota dos fundos da Conferência, é, no entanto, bastante eficiente em embaraçar os pregadores ativos no seu trabalho, fabricando “denúncias” e “libelos de acusações” e mandando-os para o inferno com a sua arenga, pelo crime de pregar e escrever a verdade. Se a sua arenga aumentará o valor das coletas para os jubilados no ano que vem, ainda está por ver.
Propôs-se que a votação no caso do irmão Roberts fosse nominal, com “sim” e “não”; mas o mesmo espírito de ocultação e medo da luz, alimentado pelas ligações com sociedades secretas, prevaleceu também aqui. Como alguns de antigamente, “temiam o povo” (Lc 22.2) e derrotaram a proposta. A votação para confirmar a acusação de “conduta não cristã e imoral”, por escrever e publicar essas críticas ao Metodismo da Nova Escola, foi de cinquenta e dois a quarenta e três, uma maioria de nove. Vários membros da Conferência estavam ausentes, e vários se esquivaram por medo da influência dos presbíteros presidentes sobre as suas nomeações.
Os seguintes pregadores, tanto quanto se pode apurar, votaram para confirmar a acusação: I. Chamberlayne, G. Lanning, E. C. Sanborn, H. May, D. Nichols, M. Seager, R. C. Foote, G. Fillmore, A. D. Wilbor, P. Woodworth, R. L. Waite, H. Butlin, S. M. Hopkins, E. E. Chambers, G. W. Terry, J. Latham, H. W. Annis, Z. Hurd, T. Carlton, J. M. Fuller, W. H. Depuy, D. F. Parsons, S. Hunt, J. B. Lanckton, J. McEwen, H. R. Smith, S. C. Smith, G. Smith, L. Packard, C. S. Baker, W. S. Tuttle, J. McClelland, J. G. Miller, J. N. Simpkin, S. Y. Hammond, A. P. Ripley, H. M. Ripley, M. W. Ripley, E. L. Newman, A. Plumley, B. F. McNeal, R. S. Moran, E. M. Buck, J. J. Roberts, S. Parker, F. W. Conable, J. B. Wentworth, S. H. Baker, J. Timmerman, K. D. Nettleton, G. Delamater, W. C. Willing.
Outro fato significativo ficou evidente no caso: o poder do cargo de presbítero presidente. Um bom número de pregadores não quis votar de modo algum. Honestos demais para ajudar a conspiração e covardes demais para enfrentar o argumento dos “pães e peixes” apresentado pela influência dos presbíteros presidentes, ficaram sentados e viram a condenação do inocente, quando poderiam tê-la impedido.
A influência da Casa Publicadora [Book Concern] teve o seu efeito no caso. Tornou-se máxima na política “que o devedor vota na chapa do credor”. Assim, alguns que deviam à Casa Publicadora se abstiveram discretamente de votar; ao passo que dois pregadores, que se tinham recusado a participar das reuniões privadas dos conspiradores e a comprometer-se de antemão a votar pela condenação do irmão Roberts, foram expostos ao escândalo com uma comunicação pública de inadimplência, em plena Conferência, feita pelo agente da Casa Publicadora.
Mas foi a influência da questão da escravidão que predominou no caso. Entende-se que o episcopado é conservador nesse assunto e que “o leva em conta judiciosamente em todas as nomeações principais”. Por isso a Regência de Buffalo nestes dias (apesar das grandes declarações em contrário feitas há pouco, às vésperas da eleição dos delegados para a última Conferência Geral) é também eminentemente conservadora nesse assunto, e precisa recomendar-se à simpatia do centro episcopal com grande zelo contra o Northern Independent. O redator associado desse jornal nesta Conferência tem de ser difamado, em vingança pela ousadia do povo de assinar o jornal. Não podiam descarregar a sua vingança sobre o povo, a não ser proscrevendo aquele que era reconhecido, acima de todos os outros na Conferência, como o HOMEM DO POVO.
As infames Resoluções de Brockport2 contra os nazaritas foram tacitamente endossadas pela Conferência, ao recusar-se a examinar a questão de administração oficial envolvida na sua aprovação. Essa é a recompensa pela sua lealdade de cão de colo ao Northern Advocate e a tudo o que traz o rótulo de “lei e ordem”, afixado por uma administração escravagista. Diz-se que dois ou três nazaritas votaram com a Regência contra a publicação do relatório sobre a escravidão no Independent. Deve certamente ser verdade, a respeito deles, o que se diz: que buscam perseguições e se alegram em ser abatidos em cada Conferência. A sua forte influência sobre o espírito popular não pode sobreviver por muito tempo se continuarem a fechar os olhos à questão da escravidão. Veremos.
Assim, irmãos membros da Conferência de Genesee, vocês veem que temos entre nós uma panelinha chamada Regência de Buffalo, que conspira e age em conclave secreto para raptar ou expulsar, ou proscrever e destruir, por meio de julgamentos de fachada e de nomeações de fome, todo aquele que tenha a ousadia de questionar a sua supremacia na Conferência. Com ameaças de insubordinação e gritos farsescos de contenda e divisão, assustam o episcopado para que lhes dê o poder dos distritos presbiterais, com o seu patrocínio das nomeações; e, tendo isso, naturalmente controlam o voto da Conferência, até onde ousam, por medo do povo. Estamos perdendo depressa os nossos melhores homens. Os campeões destemidos do verdadeiro metodismo estão sendo abatidos, um após outro, diante dos nossos olhos; e nós ficamos lealmente quietos, choramos, oramos e pagamos o nosso dinheiro, mais um ano e mais outro, esperando que a coisa chegue ao fim.
Mil de nós pedimos ao bispo que nos livrasse desse íncubo que nos está esmagando contra a terra.
“Faremos o melhor que pudermos” foi a resposta estereotipada às nossas súplicas leais. Quantas vítimas mais terão de ser imoladas, quantas sociedades terão de ser assoladas, enquanto o episcopado se decide a lutar com esse poder monstruoso, que vai enroscando as suas espirais viscosas em volta da igreja de Deus e esmagando-lhe a vida? Tendo o episcopado, o único que tem o poder, deixado de reparar as nossas queixas e de nos livrar dessa dinastia estranha e contrária ao metodismo, não há outro remédio senão o recurso aos direitos pessoais. O remédio de cada membro está ao seu alcance. Da minha parte, aplicarei esse remédio. Quanto a mim, enquanto olhava aqueles pregadores de pé para serem contados (não admira que se opusessem à votação nominal) na votação para condenar o irmão Roberts, em LeRoy, decidi que nenhum deles, pregador, presbítero presidente ou jubilado, jamais receberia um centavo do meu dinheiro, sob qualquer pretexto ou por qualquer combinação. Irei pontualmente à igreja na minha própria casa de culto: reuniões de oração, reuniões de classe, festas de amor e todos os meios de graça; mas, se um daqueles homens vier ali para pregar, não posso evitá-lo, não é assunto meu. Mas não darei um passo nem pagarei um centavo. E se, como se tem dito, todas as verbas missionárias domésticas desta Conferência variam de ano para ano, feitas e negadas conforme convém aos bolsos dos homens da Regência nomeados para elas, isso, enquanto continuar, me desobrigará para com essa causa. O mesmo quanto ao fundo dos jubilados, enquanto for controlado por essa dinastia. Comprometi-me a sustentar a Igreja Metodista Episcopal como igreja do Deus vivo, não como mero apêndice de uma panelinha secular ou política.
GEORGE W. ESTES.
[N. do T.: “Sem benefício do clero” (“without benefit of clergy”) era, no direito inglês, o crime para o qual não valia o antigo privilégio que livrava os clérigos da pena capital. “Pôr no esquadro” (“on the square”) é expressão maçônica. “Pães e peixes” refere-se às vantagens materiais, isto é, às boas nomeações. O Northern Independent era um jornal abolicionista, e Roberts era um dos seus redatores correspondentes.]
A respeito desse texto, o Sr. Roberts diz:
Nunca vi esse artigo senão algum tempo depois de publicado, e não tive nenhuma responsabilidade pela sua publicação. Mas o Sr. Estes, homem de posses, exortador na Igreja Metodista Episcopal, era responsável e, como homem, assumiu a responsabilidade. Na última Conferência Trimestral do ano, surgiu a questão da renovação da sua licença. O presbítero presidente perguntou a George W. Estes se ele era o autor daquele folheto. Ele respondeu que sim. Sem uma palavra de objeção, o presbítero presidente renovou a sua licença de exortador e, pouco depois, foi à Conferência e votou para me expulsar da Conferência e da igreja, sob a acusação de publicar esse mesmo folheto.3
Este é claramente mais um caso de sacrificar a coerência e a justiça no altar da conveniência. O presbítero presidente em questão era instrumento da facção da Regência, um daqueles homens tão desprovidos de firmeza moral que, quando “Simão dizia: polegar para baixo”, obedecia servilmente, sem considerar a incoerência ou a injustiça do seu ato. Em reunião secreta, o poder da Regência decidira de antemão que a cabeça eclesiástica do Sr. Roberts tinha de cair; e, quando chegou a hora da prova, o presbítero presidente, embora plenamente informado de que o autor do folheto era George W. Estes, e não B. T. Roberts, deu o seu voto para expulsar o Sr. Roberts da Conferência e da igreja, sob o fundamento de ter reeditado e posto em circulação o “Metodismo da Nova Escola”, ou de ter ajudado a fazê-lo.
[N. do T.: a frase parece aludir à brincadeira infantil inglesa “Simon says” (“Simão diz”), em que só se obedece à ordem precedida dessas palavras, combinada com o polegar para baixo da arena romana.]
Segue o segundo libelo de acusações apresentado contra o Sr. Roberts:
ACUSAÇÕES. Acuso pela presente Benjamin T. Roberts de conduta não cristã e imoral.
ESPECIFICAÇÕES
Primeira, contumácia: por desprezar a admoestação desta Conferência na sua decisão sobre o caso dele na última sessão.
Segunda, por reeditar, ou ajudar a reeditar e a pôr em circulação, um documento intitulado “Metodismo da Nova Escola”, cuja publicação original fora declarada por esta Conferência “conduta não cristã e imoral”.
Terceira, por publicar, ou ajudar a publicar e a pôr em circulação, um documento impresso em Brockport, assinado “George W. Estes” e anexado ao intitulado “Metodismo da Nova Escola”, que contém, entre outros libelos contra esta Conferência em geral e contra alguns dos seus membros em particular, o seguinte, a saber:
1. “Já há vários anos se faz, na Conferência, o sacrifício anual de uma vítima humana.”
2. “Nenhum homem está seguro se ousar sequer sussurrar uma palavra contra essa Inquisição secreta no nosso meio.”
3. “O crime comum pode obter as suas indulgências; falências e adultérios são faltas veniais; mas a oposição aos seus planos e à sua política é pecado mortal, um crime sem benefício do clero.”
4. Que “os mesmos cinquenta homens que votaram o irmão Roberts culpado de conduta não cristã e imoral votaram readmitir um irmão pelo serviço prestado de beijar uma moça”.
5. Que “o julgamento do irmão Roberts foi marcado por uma grosseira iniquidade de procedimentos”.
6. Que “no julgamento, foi negado um direito que qualquer tribunal civil ou militar lhe teria concedido”.
7. Que “um venerável doutor em teologia leu o sermão do ‘auto de fé’, no qual entregou, em verdadeiro estilo inquisitorial, o irmão Roberts, de corpo e alma, ao inferno”.
8. Que “esse venerável doutor é bastante eficiente em embaraçar os pregadores ativos no seu trabalho e em mandá-los para o inferno com a sua arenga, pelo crime de pregar e escrever a verdade”.
9. Que “há entre nós uma panelinha chamada Regência de Buffalo, que conspira e age em conclave secreto para raptar ou expulsar, ou proscrever e destruir, por meio de julgamentos de fachada e de nomeações de fome, todo aquele que tenha a ousadia de questionar a sua supremacia na Conferência”.
10. Que “os campeões destemidos do metodismo estão sendo abatidos, um após outro, diante dos nossos olhos”.
11. Que “os referidos membros desta Conferência são um ‘poder monstruoso’, que vai enroscando as suas espirais viscosas em volta da igreja de Deus e esmagando-lhe a vida”.
Assinado, David Nichols.
Perry, 11 de outubro de 1858.
O Rev. Thomas Carlton e o Rev. James M. Fuller atuaram como advogados da acusação. O Sr. Roberts não estava inteiramente sem pressentimento da tempestade que vinha. Fora informado, por fonte digna de crédito, de ameaças feitas contra ele. A seguinte é dada como exemplo.
O Rev. S. C. Church, antigo presbítero presidente e também maçom, mas um daqueles membros de espírito nobre da fraternidade que são melhores do que os princípios da sua ordem, e que estava indignado por ver a maçonaria escandalizada ao ser posta a serviço de ministros de Jesus Cristo para controlar os assuntos da Conferência, avisou-o do que poderia ter de enfrentar, na seguinte comunicação:
Durante a última sessão da nossa Conferência, em LeRoy, eu conversava com o Rev. H. Ryan Smith sobre a observação feita pelo Rev. B. T. Roberts, no plenário da Conferência, de que a Comissão de Educação estava viciada.
Smith disse: “Mais uma declaração dessas apagará Roberts.”
Na mesma conversa, ele disse: “É melhor o senhor sair do caminho, ou será esmagado.”
Caryville, 20 de outubro de 1857.
Samuel C. Church.
Prevendo que o seu caráter seria posto sob acusação, o Sr. Roberts contratara o Rev. B. L. Ives, da Conferência de Oneida, para atuar como seu defensor, e o Sr. Ives estava presente com esse fim. Mas o bispo decidiu que não se admitia defensor de outra Conferência e manteve firmemente essa decisão.
Então, como a maioria da Conferência alegava ter sido caluniada no seu caráter individual pelo que o Sr. Roberts escrevera, e como ele agora fora informado de que já tinham praticamente votado, na sua reunião secreta, a sua condenação, ele pediu o desaforamento do processo, citando a sábia disposição da lei civil:
O foro pode ser mudado para outro condado quando o réu entender que não pode ter um julgamento justo e imparcial no condado em que o foro está estabelecido.
Alegou também que “nenhum homem da maioria teria permissão, em circunstâncias semelhantes, de fazer parte de um júri num tribunal civil, ainda que só vinte e cinco centavos estivessem em jogo”. Citou também o seguinte, como autoridade para o atendimento do seu pedido:
Se a lei disser que um homem será juiz em causa própria, sendo isso contrário à equidade natural, será nula, pois jura naturae sunt immutabilia; são leges legum. Os direitos naturais são imutáveis. São as leis das leis. (Hobart’s Report, pág. 87, Day contra Savage.)
Ficará claro para toda mente imparcial que, num caso como esse, em que estava em jogo a reputação ministerial, coisa que o verdadeiro ministro de Jesus tem tão querida quanto a própria vida, o acusado deveria ter direito a tudo o que pudesse impedir a injustiça e contribuir para um julgamento justo. Mas as inquisições eclesiásticas costumam ser surdas a todos os apelos dos oprimidos e perseguidos por qualquer coisa parecida com equidade e justiça. O pedido foi persistentemente recusado.
Tendo falhado nas duas tentativas acima de obter algo parecido com um julgamento justo, o Sr. Roberts, como último recurso, insistiu em ser julgado por uma comissão, segundo a disposição da Disciplina. Expressou a sua preferência por uma comissão pequena o bastante para que cada membro sentisse a responsabilidade pessoal pelo seu ato, ainda que fosse formada pelos que estavam mais fortemente comprometidos contra ele, em vez de levar o caso a toda a Conferência, onde os membros poderiam esconder-se uns atrás dos outros. Para quem lê a história mais de meio século depois, quando todo o calor da controvérsia e todas as animosidades pessoais que entraram no caso naquela época já passaram, isso parece um pedido inteiramente justo e razoável. Mas de novo o seu pedido foi recusado!
Um escritor eminente disse que “a lei não é lei se viola os princípios da justiça eterna”. E certamente “os princípios da justiça eterna” estavam de tal modo envolvidos nesse caso que, do ponto de vista de hoje, é difícil ver como, com algum respeito por esses princípios, todos os pedidos acima puderam ser negados. Não nos surpreende que o Sr. Roberts, escrevendo sobre essas decisões quase vinte anos depois, tenha dito:
Tudo isso, sabemos, soa mais como os procedimentos da “Alta Comissão” inglesa nos dias de Jaime II e de Carlos I do que como os atos de uma Conferência de ministros cristãos, presidida por um bispo piedoso, no século XIX. Macaulay diz desses comissários, que se cobriram de infâmia e mandaram muitos ministros piedosos à mendicância ou à prisão: “Eles eram ao mesmo tempo acusadores e juízes.”
Mas os fatos que aqui relatamos nunca foram contestados.
Essas são as condições e circunstâncias em que o Sr. Roberts foi por fim submetido a julgamento. Quem as considerar com cuidado não pode deixar de ver que os seus inimigos tinham feito tudo o que podiam fazer, conservando ainda a aparência de um processo eclesiástico formal, para travar as rodas da justiça. O “nazaritismo” tinha de ser extirpado a qualquer custo; Roberts era um líder entre os supostos “nazaritas”; portanto, fora decidido de antemão golpear a cabeça do sistema ofensivo; e, quando o golpe estava para ser dado, era muito necessário excluir a possibilidade de uma defesa eficaz da parte do homem escolhido para o sacrifício. De que outro modo se pode explicar tal desprezo gratuito pelos direitos pessoais e pelo “princípio da justiça eterna”?
Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.