História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo III
Outro sinal do afastamento da Igreja Metodista dos seus primeiros princípios foi a mudança da sua atitude em relação àquilo que John Wesley chamou de “aquela execrável soma de todas as vilanias, comumente chamada de tráfico de escravos”.
Durante toda a sua vida pública, o Sr. Wesley foi intensamente hostil à escravidão em todas as suas formas; e talvez nada que já se tenha escrito tenha tratado do assunto de maneira mais completa, ou exposto o seu caráter diabólico com mais clareza e vigor, especialmente em tão pouco espaço, do que o seu folheto intitulado Thoughts upon Slavery. Ele o escreveu em 1774, antes de se formar a primeira sociedade para a supressão da escravidão e dezessete anos antes dos esforços de Wilberforce e outros para abolir o sistema sob o domínio britânico. A sua publicação lhe trouxe muita censura e oposição e também o expôs a grande ridículo nas diversas publicações da época. O folheto se mostrou decididamente eficaz na Inglaterra, porém, e acabou publicado na América pelo Sr. Benezet, “que lhe enviou uma carta amigável por William Dillwyn, a quem se refere como ‘uma pessoa valiosa, de mente religiosa, que vai fazer uma viagem ao seu país'”.
[N. do T.: o folheto de Wesley está traduzido neste site com o título Reflexões sobre a escravidão. Anthony Benezet (1713-1784) foi um quacre de Filadélfia, pioneiro da luta contra a escravidão.]
Como coroamento adequado do seu ódio de toda a vida ao sistema e do seu testemunho contra ele, Wesley dirigiu uma exortação, no leito de morte, a Wilberforce, o abolicionista britânico, por ocasião de este ter apresentado ao Parlamento um projeto, ou resoluções, para a supressão da escravidão nas Índias Ocidentais. Foi escrita em 26 de fevereiro de 1791, apenas quatro dias antes da morte do Sr. Wesley, no seu octogésimo oitavo ano de vida. Nessa exortação, ele se expressou com o vigor e o fervor que lhe eram característicos:
“A menos que o poder divino o tenha levantado para ser como Atanásio contra o mundo, não vejo como o senhor poderá levar adiante o seu glorioso empreendimento, em oposição àquela execrável vilania que é o escândalo da religião, da Inglaterra e da natureza humana. A menos que Deus o tenha levantado exatamente para isso, o senhor será esgotado pela oposição de homens e demônios. Mas, ‘se Deus é por vocês, quem será contra vocês?’ (Rm 8.31). Serão todos eles juntos mais fortes do que Deus? ‘Não se canse de fazer o bem!’ (Gl 6.9). Siga em frente, em nome de Deus e na força do seu poder, até que até mesmo a escravidão americana (a mais vil que o sol já viu) desapareça diante dela.”1
O metodismo na Inglaterra parece ter estado em geral (talvez se pudesse dizer universalmente) de acordo com o Sr. Wesley nesse assunto; e o mesmo valeu para o metodismo na América durante o início da sua história. Na verdade, parece não ter havido necessidade de legislar contra a compra, a venda ou a posse de seres humanos como escravos pelos metodistas deste país antes da Guerra da Independência, já que o sistema da escravidão era tão uniforme, forte e persistentemente denunciado nos púlpitos metodistas que os convertidos e membros das sociedades metodistas não se teriam tornado cúmplices de um sistema tão iníquo mais do que de um assalto na estrada ou de um assassinato.
Apesar das mudanças ocorridas no período da luta pela independência, pelas quais uma boa porcentagem de donos de escravos se tornou membro das sociedades metodistas, o metodismo americano continuou a testemunhar nos termos mais inequívocos contra a torpeza moral do sistema e, de tempos em tempos, aprovou resoluções que condenavam com firmeza toda cumplicidade com ele. Mas, por volta do início do século XIX, a igreja começou a assumir uma atitude de transigência e um tom mais brando a respeito desse grande mal.
Diz o Dr. James M. Buckley: “Desde a sua fundação nos Estados Unidos até o ano de 1800, o metodismo testemunhou contra a escravidão como mal moral. Muitas das suas determinações eram intransigentes, e todas iam além da posição tomada por outras igrejas e à frente da opinião pública; embora, muito pouco depois de organizada a Igreja Metodista, começassem a ser feitas concessões em vista das necessidades do Sul.
“O tom da condenação foi suavizado em 1804, e em 1808 tudo o que se referia à posse de escravos por membros comuns foi suprimido, e desde então não existe nenhuma regra sobre o assunto.”2
Escrevendo sobre a organização da Conexão, ou Igreja, Metodista Wesleyana em 1843, o Dr. John Alfred Faulkner diz:
“Do ponto de vista de um reformador antiescravagista, a posição da Igreja Metodista Episcopal sobre o assunto [da escravidão], […] especialmente depois de 1800, deve ser considerada decepcionante e insustentável. Não só tinha havido um constante recuo do testemunho, como a participação ativa em medidas antiescravagistas, ou até a defesa de opiniões firmes sobre a liberdade, por parte dos ministros, os sujeitava à perda de reputação e de posição, ou até à disciplina. As Conferências do Norte frequentemente aprovavam resoluções condenando a abolição e os ministros que de alguma forma se ligassem a movimentos antiescravagistas. Matlack teve negada a admissão à Conferência por causa das suas opiniões sobre a escravidão, e Charles K. True, James Floy e Paul R. Brown, da Conferência de Nova York, foram julgados e suspensos por terem supostamente ajudado a distribuir um folheto antiescravagista (seria um dos de Wesley?) e participado de uma convenção antiescravagista.”3
A Igreja Metodista Wesleyana foi organizada principalmente como protesto contra a cumplicidade da Igreja Metodista Episcopal com a abominação da escravidão e contra o abuso do episcopado para oprimir os membros e ministros cuja consciência os levava a falar com franqueza contra o sistema iníquo e a unir-se em esforços para suprimi-lo. Muitos homens fortes, tanto ministros como leigos, se separaram do corpo de onde saíram e se uniram à nova organização. Nunca se alistou em defesa dos direitos e das liberdades humanas um grupo de reformadores mais heroico do que os que compunham a igreja recém-organizada. A organização se mostrou um fator poderoso na agitação e na ação que finalmente levaram à derrubada da escravidão americana. Honra a quem honra (Rm 13.7).
A Igreja Metodista Episcopal, porém, não foi reformada pelos esforços nem dos abolicionistas que permaneceram no seu seio nem dos que se separaram e formaram a nova denominação. Ela continuou a sua política de transigência com o poder escravagista e cresceu na sua hostilidade à abolição e aos que simpatizavam com ela. Em 1856, depois que 500 mil metodistas do Sul se separaram e organizaram a Igreja Metodista Episcopal do Sul, por causa da decisão da Conferência Geral de que o bispo Andrews, que se casara com uma mulher dona de escravos, “deveria abster-se do exercício do seu cargo até que os impedimentos fossem removidos”, a Igreja Metodista Episcopal inseriu na sua Disciplina um novo capítulo sobre a escravidão, declarando-se contra a posse de escravos em todas as suas formas; mas a Regra Geral que favorecia o sistema permaneceu inalterada até 1864.
[N. do T.: a separação do Sul ocorreu em 1844-1845, por causa do caso do bispo James O. Andrew, e não em 1856; o texto de Hogue diz que o novo capítulo sobre a escravidão foi inserido em 1856, “depois” daquela separação. O nome do bispo é Andrew; o original grafa “Andrews”.]
Durante o período da agitação que levou à formação da Igreja Metodista Livre, a escravidão era a questão que absorvia todas as atenções na Igreja Metodista Episcopal, como no país. A igreja estivera dividida durante anos na questão da escravidão, mas, por estranho que pareça, a divisão era sobre o direito dos ministros de possuir escravos. O direito dos membros de possuí-los era admitido pela Disciplina. Com a decisão da Conferência Geral de 1860 sobre a escravidão na igreja, “o último vestígio de proibição obrigatória daquele mal foi abrandado para uma simples questão de conselho”, sem nenhuma pena pela violação da seção que a aconselhava. “Até o dia em que a escravidão foi abolida pela espada, havia milhares de donos de escravos em plena comunhão na Igreja Metodista Episcopal. A Disciplina metodista episcopal tolerou a escravidão até o fim.”4
A atitude da igreja numa questão que afetava tão vitalmente tanto a religião como o bem-estar da nação, e isso numa época de tamanha agitação geral sobre a escravidão em toda parte, foi certamente um grave afastamento “dos ideais heroicos dos tempos antigos”.
Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.