História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo IV

O declínio espiritual do metodismo americano: as sociedades secretas

Mais uma prova de que o metodismo se afastara da sua original separação do mundo e da sua pureza era a medida em que os seus membros, e os seus ministros em particular, tinham entrado em “jugo desigual” (2Co 6.14) com a maçonaria e com a Ordem dos Odd Fellows. Na agitação que se seguiu ao sequestro e assassinato de William Morgan, de Batavia, Nova York, em 1826, as lojas maçônicas tinham em geral se dissolvido. Mas, com o tempo, um renascimento da maçonaria, para o qual os Odd Fellows tinham preparado o caminho em grande parte, levou à sua reorganização. Vários ministros da Conferência de Genesee tinham se ligado a uma dessas fraternidades, ou a ambas. Tinham ocorrido choques sérios entre esses pregadores e alguns dos irmãos mais antigos e mais conscienciosos das igrejas que eles tinham sido designados para servir. “Homens de Deus, em cuja mente a lembrança da tragédia de Morgan estava fresca, sentiam que não podiam, em consciência, apoiar homens que assumiam juramentos que os obrigavam a cometer crimes semelhantes, se a ocasião o exigisse. Tais homens muitas vezes eram postos para fora da igreja. Mas essa ação provocou descontentamento e divisão.”1

[N. do T.: William Morgan desapareceu em 1826, depois de anunciar a publicação de um livro que revelaria os segredos da maçonaria; o caso deu origem a um forte movimento antimaçônico nos Estados Unidos. A Independent Order of Odd Fellows era uma fraternidade com juramentos e ritos secretos, semelhante à maçonaria.]

Em confirmação do que foi dito acima, segue o trecho de um folheto escrito e publicado em 1860 pelo Rev. C. D. Burlingham, da Conferência de Genesee, intitulado An Outline History of the Genesee Conference Difficulties (Esboço histórico das dificuldades da Conferência de Genesee):

Há uns dezesseis ou dezoito anos, um elemento perturbador foi introduzido na Conferência de Genesee. A nossa igreja, assim como a comunidade em geral, tinha estado por vários anos muito agitada pela questão maçônica e pela agitação antimaçônica que se seguiu ao sequestro e assassinato de William Morgan, de Batavia, em 1826. Quando as ondas tumultuadas iam aos poucos se acalmando, esse novo elemento de discórdia começou a introduzir-se na nossa igreja, professando ser uma companhia de seguro mútuo contra a necessidade material e um instrumento evangélico recém-descoberto e notavelmente eficaz para trazer o mundo, reformado e salvo, para dentro da igreja. Mas o nosso povo, muito naturalmente, o viu com desconfiança. Temendo o seu poder como agência secreta que agia por meio de sociedades filiadas, e duvidando da sua utilidade como esquema financeiro, receava que ele arrastasse a igreja, rebaixada e corrompida, para dentro do mundo.

Não só na Conferência de Genesee os ministros metodistas, em número considerável, tinham se ligado aos Odd Fellows e à maçonaria; situação semelhante prevalecia de modo bastante geral em todo o país. Tornou-se muito visível também que, entre os pregadores ligados a sociedades secretas, o vínculo da comunhão da loja se tornou mais forte do que o vínculo da comunhão cristã e da comunhão da igreja. Os pregadores que tinham entrado nas lojas e os que eram de caráter oportunista e tímido naturalmente se aproximaram, e de tal modo que os primeiros puderam assumir a liderança dos últimos e usá-los como instrumentos para alcançar os seus objetivos. Isso foi especialmente verdade no caso da Conferência de Genesee; e não há muita dúvida de que a divisão naquele corpo, que finalmente se espalhou por várias partes do metodismo e resultou na formação da Igreja Metodista Livre, teve a sua verdadeira origem exatamente nessas circunstâncias.

Havia muitos na Conferência que, com visão profética, previram as más consequências que provavelmente surgiriam da aliança da igreja, por meio dos seus ministros, com o sistema do segredo selado por juramento, e que por isso se esforçaram com empenho para resistir às investidas da loja sobre a igreja. Sabiam muito bem que, nos dias da sua maior pureza e poder, o metodismo não poderia ter sido levado a uma fusão tão enfraquecedora e corruptora com o mundo. Como cristãos de coração simples, a quem se ensinara e que criam na verdade expressa no dito do apóstolo Paulo, “Cristo é tudo e está em todos” (Cl 3.11), não sentiam necessidade de escorar a sua fé em Cristo com a filiação e a dedicação a nenhuma outra sociedade além da igreja cristã, e viam apenas o declínio espiritual como resultado inevitável da comunhão jurada com homens do mundo em lojas que rejeitavam a Cristo, ainda que para fins de seguro mútuo contra a necessidade material.

Esses homens eram metodistas por uma convicção profunda e duradoura de que o metodismo foi levantado pela providência para “espalhar a santidade bíblica por estas terras”. Também criam que esse fim só podia ser alcançado por homens santos e pelo uso de meios e métodos santos. Criam de coração nas doutrinas do metodismo, como também criam na sua atitude primitiva de separação do mundo e no seu testemunho original e intransigente contra um tipo de religião conformado ao mundo. Fiéis à responsabilidade solene que os seus votos de ordenação lhes impunham, esforçavam-se fielmente para se conformar ao padrão estabelecido pelos pais, de acordo com as Sagradas Escrituras, tanto na experiência como na prática, e também para levar todos os que estavam sob o seu ministério a se conformar ao mesmo padrão, a fim de “apresentar cada pessoa perfeita em Cristo” (Cl 1.28). Criam na Disciplina metodista episcopal como livro de regras para a vida santa, que tinham prometido solenemente fazer cumprir, e eram incansáveis nos seus esforços para cumprir essa promessa com sabedoria e eficácia.

“Esses homens, serenos, confiantes e ignorantes das táticas da loja, recebiam as suas nomeações como vindas do Senhor, sem saber que havia um poder agindo em segredo para preencher os principais postos da Conferência com homens que pelo menos não se opunham às atividades da loja.” Esse parece ter sido o caso, porém, como se mostrará num capítulo posterior. Nessas condições, esses filhos leais do metodismo, por terem experiências semelhantes de dedicação a Cristo e de sofrimento por ele, foram levados à mais estreita afinidade e comunhão e a uma gloriosa fraternidade cristã.

Pelo que se contou neste capítulo e nos dois anteriores, ver-se-á agora que surgira na Conferência de Genesee, da Igreja Metodista Episcopal, uma questão que aos poucos foi se definindo cada vez mais claramente; e que essa questão, provocada pelo afastamento da igreja dos seus ideais anteriores e mais elevados, era sobre a santidade bíblica, a escravidão, a não conformidade com o mundo e a separação dele, esta última envolvendo a questão das sociedades secretas. Na verdade, resumindo tudo mais brevemente, a questão era a santidade, já que os outros pontos mencionados estão todos envolvidos na santidade de tipo bíblico.

Fez-se um esforço honesto para reformar esses abusos sem que fosse necessária uma separação da Igreja Metodista Episcopal, mas em vão. Esses esforços só revelaram mais plenamente a falta de esperança da situação e apressaram os acontecimentos pelos quais os que procuravam com diligência restaurar a igreja à sua simplicidade e pureza primitivas foram forçados a uma separação.

“Quem estuda a Reforma com atenção”, diz John Clark Ridpath, o eminente historiador, “não deixará de perceber que o êxito do movimento na Alemanha, sob a liderança de Lutero, se seguiu a duas outras tentativas, sem êxito, de chegar ao mesmo resultado. A primeira delas, primeira no tempo e primeira na sequência natural, foi o esforço da igreja para fazer uma reforma dentro da sua própria organização. Vã quimera! Credulidade ingênua e infantil supor que aquilo que precisava ser reformado pudesse emendar-se a si mesmo, que os que abusavam abolissem o abuso! A história do mundo ainda não apresentou o exemplo de uma organização que, tendo engordado e perdido a consciência pela destruição da liberdade humana e pela espoliação da humanidade, tivesse a virtude e a honestidade de fazer restituição e voltar a uma vida exemplar; nem esse fenômeno será jamais visto debaixo do sol. Seja a organização religiosa, política ou social, aquela lei é igualmente irreversível, pela qual Efraim está entregue aos seus ídolos (Os 4.17). Ele e eles estão presos por um laço indissolúvel e perecerão juntos.”2

Notas do autor

  1. Roberts, Why Another Sect?, p. 48. ↩
  2. Cyclopedia of Universal History (Ciclopédia de história universal), vol. II, p. 570. ↩

Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.