História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo V

Uma crise se aproxima na Conferência de Genesee

Os ministros e leigos da Conferência de Genesee que permaneceram leais aos ideais heroicos dos primeiros tempos e lutaram com empenho pelas “veredas antigas” (Jr 6.16) do cristianismo, tal como o metodismo primitivo as exemplificava, não só estavam comprometidos com a visão wesleyana da santidade, ou inteira santificação, e com a manutenção da simplicidade, da modéstia e da espiritualidade originais do metodismo, mas eram todos abolicionistas do tipo mais declarado e estavam também unidos na oposição às sociedades secretas.

Na Conferência Geral de 1856, o Rev. F. G. Hibbard tinha sido eleito redator do Northern Christian Advocate, no lugar do redator anterior, o Rev. William Hosmer, pelos partidários da escravidão, que parecem ter estado em maioria, embora Hosmer fosse o escolhido das Conferências que mais sustentavam aquela publicação. Os antiescravagistas consideraram isso uma usurpação injustificada da parte dos delegados favoráveis à escravidão, e um ultraje grande demais para ser aceito com mansa submissão. Por isso, lançaram uma nova publicação, conhecida como Northern Independent, e elegeram Hosmer como seu redator.

Esse jornal logo alcançou ampla circulação e exerceu uma influência poderosa. O seu redator era um homem de Deus de mente aberta e coração generoso, mas intransigente, que fez sentir amplamente a sua influência em todas as linhas da verdade que se concentram na santidade bíblica e dela se irradiam. Estava entre os primeiros reformadores. Disse-se dele: “Em inteligência e coragem, Hosmer foi o John Knox do seu tempo. O seu antiescravagismo não era daquele tipo sentimental que se opunha à escravidão no Sul e defendia a tirania em casa. Com verdadeira nobreza de alma, odiava a injustiça e a opressão em toda parte e as condenava com a mesma força quando as encontrava no Norte ou no Sul, na sua própria igreja ou no mundo. Não só abriu as suas colunas aos que o partido dominante da Conferência de Genesee proscrevia, mas falou abertamente, nos seus editoriais, em vigorosa condenação dos atos opressivos da maioria da Conferência.”

Ficava cada vez mais evidente que as coisas caminhavam para uma crise na Conferência de Genesee. Desde o início da década de 1840, travava-se um conflito em que a santidade era a questão principal, mas que envolvia outras questões, especialmente a escravidão e as sociedades secretas. A linha de batalha ficou mais definidamente traçada na sessão da Conferência realizada em Buffalo em 1848. Numa das sessões, o Rev. Eleazer Thomas, doutor em teologia, entregou a cada pregador, no seu lugar, um exemplar de um folheto bem escrito, de autoria do Rev. C. D. Burlingham, que expunha o caráter incrédulo da maçonaria e dos Odd Fellows. Com a visão de um vidente, o autor apontara as más consequências que resultariam da união de pregadores metodistas com tais sociedades. Segue um trecho:

Crê-se que a tendência direta da Ordem dos Odd Fellows é a formação de partidos na Conferência, na igreja e na sociedade civil; partidos prejudiciais à causa de Deus e perigosos para o Estado. Como todas as operações e movimentos da ordem são combinados em reuniões secretas, supõe-se que todas as pessoas, exceto os iniciados, ignoram as suas transações noturnas. Deve ser bem sabido que um pequeno partido, agindo em perfeito acordo e em segredo, unido por um forte sentimento partidário e sob a influência de uma obrigação imposta aos seus membros e considerada por eles sagrada, talvez um juramento, é capaz de controlar, em quase qualquer caso, uma multidão de homens desprevenidos, que não estão sob a influência de tais afinidades. E não podemos temer, com razão, que, quando uma ou duas dezenas de membros da nossa Conferência, abrangendo os diversos graus intelectuais do ministério, se unirem sob influências como as mencionadas acima, se pratique o favoritismo (se não coisa pior), por causa da ligação com a Ordem, o que criará invejas e ciúmes no ministério e prejudicará muito todos os interesses da igreja?

A introdução desse folheto entre os pregadores provocou um furor de agitação na Conferência. Os que eram maçons e Odd Fellows insistiram que os irmãos Burlingham e Thomas os tinham acusado de ser incrédulos. Um deles, Thomas Carlton, declarou abertamente, e com muita ênfase, que, se fosse “obrigado a deixar uma das duas, deixaria a igreja antes de deixar a loja”. “Os conservadores ficaram muito alarmados. Rogaram aos irmãos ofendidos que não despedaçassem a igreja. Os homens das sociedades secretas foram [finalmente] apaziguados por uma resolução de compromisso que, como eles a interpretaram, concedia tudo o que desejavam.” O sentido dessa resolução era que nenhum dos dois lados faria, no futuro, nada que tendesse a perpetuar a agitação. Os homens das sociedades secretas entenderam que isso significava que a sua filiação à loja não seria contestada, nem os seus esforços para levar o maior número possível de outros a se filiarem, e que, diante dessa conduta da parte deles, os outros não deviam fazer nem dizer nada que tendesse a continuar a agitação. Os adversários das sociedades secretas entenderam que significava que os membros de lojas secretas deviam desligar-se delas o mais depressa possível, e que os outros não deviam filiar-se.

Assim se travou a questão, e começou uma ruptura que nunca pôde ser curada. As palavras proféticas do trecho do folheto de Burlingham citado acima já começavam a se cumprir, e com consequências mais graves do que o autor imaginara, como o restante da história mostra. Os homens das sociedades secretas se dedicaram com diligência a recrutar forças, tanto nas fileiras do ministério como entre os leigos. “Usaram todos os incentivos para convencer os pregadores jovens a se filiarem, dando-lhes a entender que a sua posição na Conferência dependeria do partido a que se ligassem. Tão depressa quanto puderam, levaram a igreja para dentro da loja e a loja para dentro da igreja. Em poucos anos o poder da loja era exercido para controlar os assuntos da igreja.”1

O caso seguinte é um entre muitos que poderiam ser citados como prova dessa afirmação. O Rev. J. B. Alverson, membro venerável, respeitado e influente da Conferência, procurou dissuadir Thomas Carlton de se candidatar a Agente da Book Concern, alegando que ele não seria eleito. Carlton respondeu: “Posso dispor de influência suficiente das sociedades secretas na Conferência Geral para garantir a minha eleição.” O tempo mostrou que ele sabia o que estava calculando. Não só foi eleito, mas reeleito, “e se tornou um homem rico!”.

[N. do T.: a Book Concern era a editora oficial da Igreja Metodista Episcopal; o “Agente” era o seu administrador, cargo eleito pela Conferência Geral.]

Por alguns anos as coisas seguiram sem choque aberto na Conferência, embora o fogo ardesse sem ser visto. Os pregadores das sociedades secretas e os que se opunham ao segredo trabalhavam cada um à sua maneira, sem se chocarem seriamente uns com os outros: os primeiros, em geral, procurando agradar à opinião pública e buscando popularidade pelo caminho do compromisso, e os outros procurando promover a religião pura e sem mácula pela proclamação intransigente da verdade mais radical, “em demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.4). O povo em geral começou a perceber a diferença entre essas duas classes. Viam que os campos servidos pelos irmãos mais radicais costumavam ter avivamentos cheios de graça e eram edificados tanto em espiritualidade como em número, ao passo que os servidos pelos ministros mais liberais tinham poucas visitações da graça do alto, se é que tinham alguma, e não eram edificados espiritualmente, ainda que de vez em quando houvesse aumento numérico. Por isso os pregadores cujo ministério dava resultados espirituais passaram a ser tão procurados que os campos que eles tinham ocupado aceitavam com muita relutância a nomeação de um homem das sociedades secretas, ao passo que os que tinham sido ocupados por homens das sociedades secretas recebiam de muito bom grado uma mudança, na esperança de conseguir pastores mais espirituais e eficientes.

Algumas palavras sobre os que, nessa época, estavam principalmente empenhados na obra de procurar restaurar o metodismo na Conferência de Genesee à sua pureza e ao seu poder primitivos parecem caber aqui. Citamos Why Another Sect?, de Roberts, já que o seu autor esteve associado a esses homens, conheceu-os intimamente, bem como os fatos ligados à história daqueles dias decisivos, e podia escrever sobre eles com um grau de conhecimento negado a quem é obrigado a escrever mais de meio século depois dos acontecimentos:

Os que se opunham a essa união da igreja com o mundo saíram para promover, da melhor forma que podiam, a vida e o poder da religião. Procuraram fazer cumprir a Disciplina e pregaram de maneira clara e franca a doutrina da santidade.

Entre eles se destacavam Asa Abell, Eleazer Thomas e William C. Kendall. Asa Abell professou claramente a bênção da inteira santificação no acampamento de Byron, em 1851. Pregou-a no seu distrito e conseguiu, em diversas ocasiões, os serviços de Fay H. Purdy, então no vigor da juventude, um advogado que recebera um poderoso batismo do Espírito e cujos esforços para despertar igrejas formalistas tiveram um êxito notável. Avivamentos profundos e poderosos irromperam em Parma, Kendall e outros lugares, e o distrito em geral estava em condição espiritual próspera.

O Rev. Eleazer Thomas mantinha em chamas de avivamento o distrito de Cattaraugus, para o qual fora designado. Dizia que, como Asbury, se sentia comissionado por Deus para pregar a santidade em todo sermão. Num acampamento que realizou em Collins, condado de Erie, Nova York, no qual estiveram presentes o Dr. e a Sra. Palmer, recebemos a bênção da santidade; e daquele momento em diante começaram os nossos problemas na Conferência. O irmão Thomas apresentou em cada uma das suas Conferências Trimestrais, e conseguiu aprovar, resoluções contra o canto de corais e a música instrumental no culto. Os seus acampamentos eram tempos de grande poder. As linhas eram traçadas com o mesmo rigor, e a verdade pregada com a mesma clareza, que hoje entre os metodistas livres.

O Rev. William C. Kendall teve avivamentos extensos e poderosos nos seus campos; e, sob o seu trabalho, muitos passaram a desfrutar e a professar a bênção da santidade. Outros pregadores, especialmente nos distritos mencionados, entraram de coração na obra de salvar almas, e houve um crescimento constante, tanto no número de membros como na sua espiritualidade, em muitos dos campos.

Enquanto isso, os homens das sociedades secretas e os seus partidários estavam ocupados em procurar edificar a igreja em esplendor exterior. Liam sermões elegantes, às vezes sem se preocupar muito com a fonte de onde os tiravam.

“Não foi um sermão eloquente o que o nosso pregador fez ontem?”, disse um dos mordomos a John A. Latta, numa segunda-feira de manhã.

“Talvez o senhor tenha gostado tanto que queira ouvi-lo de novo”, respondeu o Sr. Latta. Então pegou um livro e leu para ele o mesmo sermão, palavra por palavra.

Sob um pretexto enganoso, o Rev. Eleazer Thomas, o líder reconhecido do partido da salvação, foi enviado à Califórnia, onde, como é bem sabido, foi depois morto pelos modocs. O venerável Dr. Samuel Luckey foi designado para o distrito de Genesee. Embora se tivessem feito grandes esforços para estigmatizar a obra como fanática, esse pregador veterano a reconheceu de imediato como obra de Deus e, com toda a sua grande capacidade, ajudou-a a avançar. Os acampamentos de Bergen tinham se tornado famosos pelas suas notáveis manifestações de poder salvador. O interesse religioso não diminuiu sob a sua administração. Ele incentivou o que se chamava de fanatismo do distrito e não foi reconduzido como presbítero presidente.

Foi sucedido pelo Rev. Loren Stiles. O Sr. Stiles era um homem jovem, formado pelo Seminário Teológico Metodista de Concord, New Hampshire. Já se tornara célebre no oeste de Nova York como orador do púlpito. De disposição amável, maneiras agradáveis e perfeito cavalheiro em todo o seu porte, supunha-se que recuaria instintivamente diante do que se rotulava de “fanatismo grosseiro” dominante no distrito. Supunha-se que ele conquistaria o coração do povo e o levaria pouco a pouco, sem atrito, de volta à quietude respeitável da morte espiritual. Mas nunca homens se decepcionaram tão amargamente. Os preconceitos dele se baseavam apenas nos relatos que ouvira e lera. Inteiramente sincero, reconheceu, logo que chegou ao distrito, as marcas da obra de Deus. Viu que muitos tinham um poder espiritual que ele mesmo ainda não recebera. Buscou-o de imediato; e ele, que fora enviado para pôr fim à obra da santidade, ajudou-a a avançar com toda a influência que possuía. As suas reuniões trimestrais ficavam lotadas, e muitas pessoas se consagraram inteiramente a Deus.

No distrito de Niágara houve uma decepção semelhante. O Rev. Isaac C. Kingsley, o presbítero presidente, era formado por uma faculdade de Ohio. Fora criado presbiteriano e ainda conservava muitos dos seus hábitos presbiterianos. Às vezes lia os sermões e era um tanto rígido nas maneiras e meticuloso no modo de fazer as coisas. Era um homem intelectualmente forte, examinava as coisas por si mesmo e, quando chegava a uma conclusão, tinha a honestidade e a coragem de declará-la, ainda que divergisse dos outros. Depois de examinar cuidadosamente a obra, concluiu que o que se rotulava de “fanatismo” era apenas a piedade vital que ele esperava encontrar quando entrou na Igreja Metodista. Assim, em vez de se opor a ela, deu-lhe o seu apoio cordial.

O Rev. Charles D. Burlingham fazia avançar a obra de Deus no distrito de Olean, com zelo sincero e êxito abundante. O interesse pelo tema da santidade se mantinha, e as reuniões trimestrais eram animadas e interessantes.

Os homens das sociedades secretas, agitados por esse estado de coisas, começaram a publicar críticas desfavoráveis aos que se destacavam no movimento de santidade e a lançar insinuações contra eles. O seu órgão reconhecido era o Buffalo Advocate.

Um dos primeiros ataques diretos feitos pelo Buffalo Advocate foi num editorial com insinuações contra o ex-bispo Hamline. Dizia o seguinte:

“Circula pelos jornais um artigo que afirma que o bispo Hamline doou 25 mil dólares a uma faculdade do Oeste. Não acreditamos numa só palavra disso. Aquele que foi bispo é, se estamos bem informados, tão cauteloso e esperto na administração das suas finanças quanto qualquer outro homem de posses. Pode ter dado alguma coisa, mesmo assim.” (The Advocate, 12 de abril de 1855.)

Depois de vários esforços dos amigos do bispo para que o texto acima fosse corrigido, o redator finalmente admitiu que estava corrigido, que o bispo tinha dado aquela quantia, e acrescentou com escárnio:

“Nobre homem! Terá todo o nosso louvor, se isso lhe servir de alguma coisa.”

Outros artigos com insinuações ainda mais graves contra o bispo foram publicados de tempos em tempos no Advocate. Por que tudo isso?

“O bispo Hamline se destacava pela defesa da doutrina da santidade.”

O trecho acima, que pode ser atestado por homens de caráter irrepreensível ainda vivos (1915), lança muita luz sobre a verdadeira natureza da questão em torno da qual se travou o conflito, bem como sobre o caráter dos que foram os seus principais participantes.

[N. do T.: o Dr. e a Sra. Palmer são Walter e Phoebe Palmer, líderes do movimento de santidade nos Estados Unidos. Leonidas L. Hamline foi bispo da Igreja Metodista Episcopal de 1844 a 1852 e um conhecido defensor da doutrina da santidade. “Presbítero presidente” (“presiding elder”) era o supervisor de um distrito na Igreja Metodista Episcopal.]

Notas do autor

  1. Roberts, Why Another Sect?, p. 52. ↩

Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.