História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo VI
Nos últimos trinta e poucos anos apareceram três obras literárias de importância, de três autores diferentes, todos representantes da Igreja Metodista Episcopal, nas quais o público leitor recebeu o que, em cada caso, se apresenta como um esboço histórico da origem da Igreja Metodista Livre.
A primeira dessas obras é a History of the Genesee Annual Conference of the Methodist Episcopal Church (História da Conferência Anual de Genesee da Igreja Metodista Episcopal), do falecido Rev. F. W. Conable, por muitos anos membro daquela Conferência. Não conseguimos determinar o ano exato em que saiu a primeira edição, pois nada no volume que temos diante de nós (a segunda edição) indica quando apareceu a primeira, a não ser que o prefácio é datado de março de 1876. O autor dedicou entre trinta e quarenta páginas in-octavo a expor o que pretende ser a história do “nazaritismo” até o seu suposto ponto culminante na formação da Igreja Metodista Livre.
Em seguida vem a Cyclopedia of Methodism (Ciclopédia do metodismo), um volume in-quarto de 1.031 páginas em duas colunas, editado pelo falecido bispo Matthew Simpson e publicado pela primeira vez em 1878. É uma obra muito mais importante do que a história do Sr. Conable, já que esta trata principalmente de assuntos de natureza mais local, ao passo que a Ciclopédia trata do metodismo no mundo inteiro e é de uso geral entre os povos de língua inglesa em todo o mundo. Nesse grande volume, cerca de uma página é dedicada aos “metodistas livres”. Ao que parece, o autor do artigo tirou as suas informações da História da Conferência de Genesee, de Conable, embora as tenha apresentado de forma muito resumida. Se o artigo não foi tirado substancialmente do livro do Sr. Conable, então deve ter sido escrito por alguém em estreita afinidade com as ideias daquele autor e do partido da Conferência de Genesee que ele representava.
Em 1897 apareceu a History of Methodism in the United States (História do metodismo nos Estados Unidos), do Dr. James M. Buckley. São dois grandes volumes in-octavo, que somam perto de mil páginas. O autor dessa obra dedica pouco mais de duas páginas à “Origem da Igreja Metodista Livre” e parece ter tomado as suas informações de um ou dos dois volumes acabados de mencionar. Se não foi assim, deve tê-las obtido das mesmas fontes tradicionais. Não nos deu nenhuma fonte para as suas afirmações, a não ser uma única referência ao Journal da Conferência Geral de 1860, a respeito dos recursos de B. T. Roberts e de William Cooley, que aquele corpo se recusou a examinar.
Pois bem, por desagradável que seja a tarefa, torna-se nosso dever dizer, e depois mostrar com certa extensão, que quem lesse uma ou todas as obras mencionadas acima a respeito da origem da Igreja Metodista Livre, se não tivesse outra fonte de informação, ficaria inteiramente mal informado e enganado sobre o assunto. Quando, em obras de tanta importância como histórias eclesiásticas e ciclopédias, autores e editores permitiram, intencionalmente ou não, que ocorressem graves deturpações de fatos históricos, torna-se dever dos que escrevem a história mais tarde, e que têm as provas de tal distorção e deturpação literária, apresentar essas provas para melhor esclarecimento do público leitor. Não é, porém, com espírito hostil, mas antes com lealdade inabalável à verdade e à justiça, que o autor passa agora a tratar das deturpações históricas a respeito da origem da Igreja Metodista Livre a que se referiu. É lamentável que erros tão graves tenham permanecido por tanto tempo nos volumes mencionados.
As três obras em exame atribuem igualmente a origem remota do metodismo livre ao descontentamento de certos ministros da Conferência de Genesee, da Igreja Metodista Episcopal, por não serem tratados tão bem quanto achavam que o seu caráter e a sua capacidade mereciam. Esses homens, segundo se alega, formaram uma associação, secreta no seu caráter e no seu funcionamento, na esperança de assim obter o controle da Conferência, e sob o pretexto de procurar realizar uma reforma muito necessária na Igreja Metodista. Essa associação, dizem-nos, era conhecida por vários nomes, como “União Nazarita”, “Bando Nazarita”, “Associação Nazarita”; e os que pertenciam a ela, ou simpatizavam com os seus objetivos, eram comumente chamados de “nazaritas”. Os três escritores afirmam com muita segurança a existência dessa associação; os três declaram que ela era de caráter secreto; e os três ligam a origem remota da Igreja Metodista Livre à dita “União”, ou “Associação”, nazarita.
A exposição do Sr. Conable sobre esse aspecto do assunto é longa demais para ser reproduzida aqui. Contém os “Documentos” da chamada “União Nazarita”, que são extensos. Eles, e também um exame do livro do Sr. Conable, aparecerão no apêndice do volume II.1 Como a Ciclopédia do metodismo e a História do metodismo nos Estados Unidos apresentam de forma muito mais concisa o essencial do que a obra do Sr. Conable contém sobre o assunto, decidiu-se inserir o texto completo (exceto as estatísticas) do que essas duas obras dizem a respeito e deixar que isso responda aqui por todas.
Segue o artigo da primeira edição da Ciclopédia, que permanece inalterado na segunda edição em todos os seus pontos mais importantes:
A IGREJA METODISTA LIVRE2
A organização da Igreja Metodista Livre data de 23 de agosto de 1860, numa convenção composta de ministros e leigos que tinham sido membros da Igreja Metodista Episcopal, mas ficaram insatisfeitos com o funcionamento do seu governo. Embora organizado nessa data, o movimento começou vários anos antes, dentro dos limites da Conferência de Genesee, e teve origem numa associação de ministros que achavam não ter sido devidamente tratados pelos líderes da Conferência. Eles adotaram em particular uma plataforma e, nessa organização, eram conhecidos como “nazaritas”. Nos seus escritos e discursos, queixavam-se do declínio da espiritualidade na igreja, acusando-a de tolerar, por interesse, as práticas mundanas dos seus membros, e de ter se afastado, tanto na doutrina como na disciplina, dos ensinos dos pais. Diziam-se movidos pelo Espírito Santo e criam ser seu dever dar testemunho público contra o que alegavam ser os pecados da igreja. Essa organização, e as suas publicações, que continham tais acusações contra os principais membros da Conferência, levaram, em 1855, a um estado de ânimos muito desagradável e resultaram em diversos julgamentos eclesiásticos. Em 1858, dois dos líderes foram expulsos da Conferência; recorreram à Conferência Geral seguinte, realizada em Buffalo em 1860; mas, como se tinham recusado a reconhecer a autoridade da igreja e continuado a exercer o seu ministério e a organizar sociedades, a Conferência Geral se recusou a examinar o recurso. Mesmo antes do julgamento, alguns dos ministros tinham estabelecido pontos de pregação e organizado sociedades em oposição aos cultos regulares da igreja.
Na organização desta igreja, em 1860, aceitaram as doutrinas do metodismo tal como estão nos Artigos de Religião e deram ênfase especial à perfeição cristã, ou santificação. Acrescentaram um artigo que diz: “Os que são inteiramente santificados são salvos de todo pecado interior, dos maus pensamentos e das más disposições. Nenhuma disposição errada, nenhuma contrária ao amor, permanece na alma. Todos os seus pensamentos, palavras e ações são governados pelo amor puro.
“A inteira santificação ocorre depois da justificação e é obra de Deus realizada instantaneamente na alma consagrada e que crê. Depois que a alma é purificada de todo pecado, ela está então plenamente preparada para crescer na graça.”
Acrescentaram também um segundo artigo sobre recompensas e castigos futuros.
No governo da igreja, abandonou-se o título de bispo e pôs-se em seu lugar uma Superintendência Geral. Mantiveram-se as Conferências como na Igreja Metodista Episcopal, e leigos, em número igual ao dos ministros, foram admitidos em cada um desses corpos. O título de presbítero presidente foi mudado para presidente de distrito. Ninguém é admitido como membro, mesmo depois do período de experiência, sem uma confissão de fé salvadora em Cristo. A razão que alegam é que grande parte da deserção em outras igrejas metodistas se deve ao fato de que multidões que entraram na igreja como interessados deixaram de levar uma vida estritamente espiritual. Também exigem que os seus membros sejam extremamente simples no vestir e proíbem a qualquer pessoa ligada à igreja ser membro de qualquer sociedade secreta. Exigem não só a abstinência de bebidas alcoólicas, mas também do uso de tabaco, a não ser como remédio.
No início da sua história, alguns dos seus líderes incentivaram um espírito de fanatismo desenfreado, reivindicando o poder de curar pela imposição de mãos. Em muitos casos, a agitação ligada às suas reuniões passou à extravagância, que os seus principais homens aprovavam como prova da influência do Espírito Santo. À medida que a denominação progrediu e ampliou os seus limites, embora os seus cultos ainda se caracterizem por muito fervor, há menos dessas manifestações. A Igreja Metodista Livre está quase exclusivamente nos estados do Norte. Há atualmente [1878] dez Conferências Anuais.
[N. do T.: o artigo cita, com pequenas diferenças, o Artigo XIII da Disciplina de 1860, “Inteira santificação”, traduzido aqui na mesma redação publicada neste site.]
O DR. BUCKLEY SOBRE A ORIGEM DA IGREJA METODISTA LIVRE
Escrevendo sobre a Conferência Geral de 1860, ele diz: “Esta Conferência teve de examinar os recursos do Rev. Benjamin T. Roberts e de outros, surgidos de uma agitação no oeste de Nova York, cujos germes apareceram já em 1850, mas que só chamou a atenção geral alguns anos depois, quando se formou uma associação de ministros dentro dos limites da Conferência de Genesee. Eles alegavam que não tinham sido devidamente tratados pelos principais membros daquele corpo; que, por causa dos seus princípios em certos assuntos, eram marginalizados e não recebiam a consideração pessoal ou oficial a que o seu caráter e a sua capacidade lhes davam direito. Eram conhecidos como ‘nazaritas’, e a sua associação era, no início, secreta.
“Enquanto se limitaram, nas suas publicações e discursos, a queixar-se do declínio da espiritualidade na igreja, ou do descaso com a Disciplina, e do abandono de algumas das doutrinas fundamentais do metodismo, e a dar testemunho contra os pecados da igreja, não estavam sujeitos à disciplina. Mas, quando fizeram acusações específicas contra membros destacados da Conferência, tornaram-se objeto de investigação. O Rev. Benjamin T. Roberts foi julgado culpado, em 1857, de conduta imoral e não cristã decorrente dessas acusações e condenado a ser repreendido pelo bispo que presidia. Como não mudou o seu procedimento durante o ano seguinte, na Conferência seguinte foi acusado de contumácia e expulso da igreja. Procedimentos semelhantes foram tomados contra outros.
“Contra essas duas decisões, Roberts recorreu à Conferência Geral. Foi tomada esta decisão:
“‘A comissão, tendo ouvido e examinado as atas, os documentos e a defesa do primeiro recurso de Benjamin T. Roberts, que recorre da decisão da Conferência de Genesee pela qual foi condenado a ser repreendido diante da Conferência, passou a votar o caso, com o seguinte resultado: na questão de confirmar a decisão, dezenove votaram a favor e dezenove contra. Na questão de devolver o caso para novo julgamento, a comissão votou quase por unanimidade pela negativa. Na questão de reformar a decisão da Conferência, dezoito votaram a favor e vinte e oito contra, resultado que, como a Conferência Geral decidiu, deixa a decisão da Conferência de Genesee como a sentença final do caso. J. T. Crane, secretário.
“‘A comissão examinou o segundo recurso de B. T. Roberts, que recorre da decisão da Conferência de Genesee pela qual ele foi expulso do ministério e da igreja.
“‘Os representantes da Conferência de Genesee se opuseram à admissão do recurso pelos seguintes motivos:
“‘1. Que B. T. Roberts, depois do seu julgamento e condenação, entrou na Igreja Metodista Episcopal como membro em experiência e assim, ao menos tacitamente, confessou a justiça da decisão da Conferência no seu caso.
“‘2. Que B. T. Roberts, depois de privado, pela expulsão, da sua autoridade e posição ministerial, continuou a pregar e assim se rebelou contra a autoridade da Conferência e da igreja.
“‘3. Que B. T. Roberts, depois de declarar a sua intenção de recorrer à Conferência Geral, se ligou a outra organização, com fins eclesiásticos independentes da igreja a cuja Conferência Geral agora recorre, e hostis a ela.
“‘A comissão, depois de ouvir as declarações e a defesa dos representantes das partes,
“‘Resolveu que o recurso de B. T. Roberts não seja admitido.’
“Decisão semelhante foi tomada no caso de William Cooley (Journal da Conferência Geral de 1860).
“Os ministros e membros da Igreja Metodista Episcopal que simpatizavam com eles se reuniram em Pekin, condado de Niagara, Nova York, em 23 de agosto de 1860, e organizaram a Igreja Metodista Livre, adotando, com pequenas modificações, os Artigos de Religião da Igreja Metodista Episcopal, mas estabelecendo no governo que os membros teriam voz igual à dos ministros nos conselhos da igreja.”3
Os trechos acima são dados por extenso, primeiro, para que o leitor tenha as declarações completas desses autores, a fim de compará-las com o que teremos a apresentar a respeito delas, como crítica e discordância; e, segundo, por causa das várias ocasiões que teremos de nos referir às diferentes partes dessas declarações.
No livro intitulado Why Another Sect?, escrito e publicado pelo Rev. B. T. Roberts em 1879, o autor, que escreve examinando o artigo sobre “A Igreja Metodista Livre” na Ciclopédia do metodismo do bispo Simpson, diz: “Neste artigo há umas quinze afirmações ou reafirmações que são inteiramente falsas, e umas cinco ou seis afirmações que, embora num sentido verdadeiras, são enganosas pela maneira como são feitas.”4 O Sr. Roberts parece apresentar provas abundantes das suas afirmações antes de concluir o seu exame. Além disso, não hesitamos em afirmar que pelo menos meia dúzia das afirmações mais importantes do trecho acima, da versão do Dr. Buckley sobre “A origem da Igreja Metodista Livre”, são também inteiramente incorretas.
Os únicos pontos dos trechos acima de que nos ocuparemos de imediato, porém, são aqueles em que a origem remota da Igreja Metodista Livre é atribuída a uma “Organização”, “União” ou “Bando” nazarita, formado dentro da Conferência de Genesee alguns anos antes da organização da Igreja Metodista Livre, como uma espécie de sociedade secreta. Afirmações nesse sentido tinham sido feitas tão comumente, e por tanto tempo, tanto em particular como pela imprensa metodista episcopal, que o bispo que editou a Ciclopédia do metodismo e o eminente autor da História do metodismo nos Estados Unidos podem ter passado a acreditar que eram verdadeiras; embora seja difícil ver como os que foram originalmente responsáveis por afirmações tão infundadas puderam fazê-las a não ser com a intenção de enganar os desinformados. Além disso, é igualmente difícil conceber como homens tão honrados quanto os dois últimos autores mencionados puderam ser levados a dar circulação geral a afirmações tão infundadas, inexatas e prejudiciais, especialmente quando ambos sabiam que essas afirmações tinham sido contestadas e negadas por homens tão respeitáveis e dignos de crédito quanto o metodismo jamais produziu, muitos dos quais ainda viviam, e cujas contestações e negações tinham sido todas publicadas com as suas próprias assinaturas. A interpretação mais caridosa que se pode dar à atitude deles nesse assunto é atribuí-la ao preconceito. Mas até isso põe em dúvida a sua credibilidade como historiadores.
[N. do T.: “nazaritas” era o apelido dado pelos adversários aos pregadores da santidade da Conferência de Genesee, a partir dos “Documentos da União Nazarita” escritos por Joseph McCreery, de que tratam os capítulos seguintes.]
Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.