História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo VII

Deturpações históricas: o Superintendente Geral Roberts e o bispo Simpson

Até onde o autor pôde verificar, nenhuma história publicada até hoje por algum membro da Igreja Metodista Episcopal, abrangendo o período das dificuldades na Conferência de Genesee que levaram à organização da Igreja Metodista Livre, expôs os fatos do caso de maneira justa e verdadeira. Pelo contrário, os escritores que trataram desses assuntos pareceram decididos, de comum acordo, a pôr a marca do opróbrio e da desonra sobre o movimento metodista livre, deturpando os fatos de maneira uniforme. Quando a Conferência Geral de 1860 se recusou a examinar o recurso de Roberts contra a sentença que o expulsara da Conferência de Genesee e da igreja, aquele homem bom se retirou dizendo: “Apelo a Deus e ao povo.” Referindo-se ao assunto, cerca de vinte anos depois, no prefácio de Why Another Sect?, ele disse:

Aqui teríamos deixado o assunto descansar, mas os que se opõem a nós não o permitem. Publicaram e aprovaram as falsidades mais descaradas e escandalosas, que pretendem que passem por história do caso. Faltaríamos ao nosso dever para com a causa que nos é mais cara do que a vida, e para com os nobres homens e mulheres que nos deram a sua confiança, se deixássemos essas falsidades passar sem contestação.1

O volume de onde foi tirado o trecho acima foi motivado pelas graves deturpações contidas na Ciclopédia do metodismo, mas não sem um esforço sincero do seu autor para conseguir que se fizessem as correções necessárias nos periódicos da Igreja Metodista Episcopal e nas futuras edições do livro, e assim evitar a necessidade de publicá-lo. É o que mostra a seguinte carta, escrita por ele:

Rochester, Nova York, 13 de setembro de 1878.
Rev. M. Simpson, doutor em teologia,
bispo da Igreja Metodista Episcopal.

Prezado senhor: Penso que, quando alguém faz afirmações incorretas, deve ter o privilégio de corrigi-las. Tomo, portanto, a liberdade de dirigir-me ao senhor a respeito do artigo sobre a Igreja Metodista Livre na sua Ciclopédia do metodismo. No seu prefácio, o senhor diz: “O objetivo foi dar uma visão justa e imparcial de cada ramo da família metodista. Para isso, foram escolhidos, na medida do possível, colaboradores e correspondentes identificados com os diversos ramos e que, pela sua posição, estavam mais bem preparados para fornecer informações sobre os seus respectivos corpos.”

Ou não se fez tal escolha entre os metodistas livres, ou as informações que eles forneceram, com exceção das simples estatísticas, não foram dadas ao público naquele artigo. Num caso ou noutro, o que fica da pretensão de imparcialidade?

Neste artigo há umas quinze afirmações ou reafirmações que são inteiramente falsas, e umas cinco ou seis afirmações que, embora num sentido verdadeiras, são enganosas pela maneira como são feitas.

Se lhe forem apresentadas provas, satisfatórias para mentes sinceras, de que essas afirmações são falsas e enganosas, o senhor as corrigirá nos periódicos da igreja e nas futuras edições do seu livro? Se não, o senhor dirá em que fonte se baseiam as afirmações de que me queixo?

Muito respeitosamente,
B. T. Roberts.

A essa carta o bispo deu a seguinte resposta:

Filadélfia, 23 de outubro de 1878.
Rev. B. T. Roberts.

Prezado senhor: Voltando para casa de uma longa viagem pelo Oeste, encontro a sua carta de 13 de setembro, em que se queixa de inexatidões no artigo sobre o metodismo livre, mas sem especificar quais são essas inexatidões.

Não tenho conhecimento de nenhuma afirmação incorreta no artigo, mas, se o senhor me fornecer as correções e as provas correspondentes, farei com prazer quaisquer alterações numa edição futura, se tal edição for solicitada. Desejo que haja perfeita exatidão em todos os artigos, e terei tanto prazer em corrigir quanto o senhor em fornecer as correções.

Atenciosamente,
M. Simpson.

As cartas acima merecem leitura e comparação atentas. Uma atenção cuidadosa ao seu conteúdo revelará ao leitor inteligente os seguintes pontos:

1. O Sr. Roberts propõe ao bispo: (a) fornecer “provas, satisfatórias para mentes sinceras, de que as afirmações de que se queixa são falsas e enganosas”; (b) que ele (o bispo), se receber essas provas, “as corrija nos periódicos da igreja e nas futuras edições do [seu] livro”; (c) que, se não estiver disposto a fazê-lo, “diga em que fonte se baseiam as afirmações de que se queixa”.

2. A carta do bispo Simpson revela os seguintes fatos: (a) que ele assume plenamente toda a responsabilidade pelo conteúdo do artigo em questão; (b) que não mostra nenhuma disposição, por mais convincentes que sejam as provas da sua inexatidão, de fazer correções nos periódicos da igreja ou de outra forma, até que, e a menos que, seja solicitada uma nova edição do seu livro. Em outras palavras, propõe-se a deixar o artigo, por inexato que seja, criar todo o preconceito que puder e fazer toda a injustiça de que for capaz, até que se peça uma segunda edição do seu livro, e para sempre, se esse pedido não vier; (c) que ele se cala inteiramente quanto a dar a fonte das afirmações ofensivas; (d) que não alega aqui, como no prefácio do livro, que, para “dar uma visão justa e imparcial” desse “ramo da família metodista”, tenha escolhido da Igreja Metodista Livre um “colaborador” identificado com o movimento e que, “pela sua posição, estivesse mais bem preparado para dar informações” sobre esse corpo em particular. Nem dá nenhuma razão por que isso não foi considerado “possível”. Na própria cidade onde ele morava havia homens plenamente informados sobre o assunto e em todos os sentidos preparados para dar um relato exato e digno de confiança do caso.

A carta do Sr. Roberts não acusa o bispo de deturpar deliberadamente um único fato; pelo contrário, supõe que os erros entraram no livro sem que ele percebesse e que, convencido da sua inexatidão, ele teria prazer em fazer as devidas correções. Isso o bispo não aceitou fazer, a não ser numa segunda edição do livro, se uma fosse solicitada. Como isso poderia nunca acontecer, o Sr. Roberts passou a escrever e publicar, a pedido da Conferência Geral da Igreja Metodista Livre, Why Another Sect?, um volume de 333 páginas. Sobre a produção dessa obra, ele escreve o seguinte no prefácio:

Conheci pessoalmente os principais fatos que narro neste volume. Procurei expô-los com clareza, num espírito cristão e sem o menor exagero. Dei provas que não podem ser postas de lado sem negar, na prática, a validade do testemunho humano. Mas tenho consciência de trabalhar com esta grande desvantagem: a ação da Conferência de Genesee, confirmada pela Conferência Geral, foi tão injusta e tão sem provocação, tão contrária a tudo o que se poderia esperar de um corpo de homens respeitáveis, ainda que não tivessem nenhuma pretensão à piedade, que a narrativa mais simples dos acontecimentos parece um exagero desenfreado. Mas procurei dar a simples verdade, sem o menor colorido. Li o meu manuscrito para vários irmãos inteligentes e sensatos, que conhecem os fatos, e eles lhe dão o seu apoio sincero.

A História do metodismo nos Estados Unidos, do Dr. Buckley, só apareceu dezoito anos depois da publicação de Why Another Sect?, do Sr. Roberts. Ou o seu autor sabia da existência e do caráter dessa obra, ou não sabia. Se sabia, e se recusou a levar em conta as acusações feitas pelo Sr. Roberts e a abundância de provas apresentadas para sustentá-las, isso parece pôr seriamente em dúvida o seu tão alardeado amor à exatidão histórica e a sua lealdade à verdade; e, se não sabia de Why Another Sect? e do seu conteúdo, então afirmamos que ele deve ter escrito essa parte da sua História do metodismo nos Estados Unidos sem aquela pesquisa completa que uma obra de tal importância exige, e para a qual um historiador respeitável não deveria poupar esforços.

Pois bem, a respeito da afirmação feita na Ciclopédia do metodismo, e repetida pelo Dr. Buckley, que identifica a origem remota do movimento metodista livre com “uma associação de ministros” da Conferência de Genesee que “adotaram em particular uma plataforma e, nessa organização, eram conhecidos como ‘nazaritas'”, o autor está preparado para mostrar que a suposta “Organização”, “União” ou “Bando” nazarita nunca existiu, mas foi inteiramente uma ficção. Ainda assim, com a autoridade de volumes tão pretensiosos como a Ciclopédia do metodismo, do bispo Simpson, e a História do metodismo nos Estados Unidos, do Dr. Buckley, ela tem sido descrita como verdade histórica, e como algo com caráter de sociedade secreta, na qual teria se originado o movimento que resultou na formação da Igreja Metodista Livre. Durante todos os anos que se passaram, as afirmações errôneas e prejudiciais foram se espalhando, e a sua influência nociva foi crescendo.

Durante as dificuldades na Conferência de Genesee, na década de 1850, os ministros que se opunham à obra característica de santidade então em andamento afirmavam com segurança, tanto em particular como pela imprensa, que existia dentro dos seus limites uma “União” ou “Bando” nazarita, e que os pregadores identificados com a obra da santidade eram membros dessa suposta organização e a defendiam especialmente com o fim de realizar a reforma desejada na Igreja Metodista Episcopal. Jornais oficiais deram espaço a afirmações feitas especialmente para alimentar esse engano.

Embora se tenham feito repetidas negações, do caráter mais enfático, quanto à existência de qualquer organização desse tipo, e feitas pelos ministros da Conferência de Genesee que estavam em condições de conhecer os fatos e que se supunha serem membros do “Bando Nazarita”, as suas negações foram ignoradas, e os seus adversários continuaram a afirmar com persistência a existência de tal sociedade; e é difícil, mesmo com a mais ampla caridade, atribuir-lhes sinceridade e honestidade nessas afirmações.

Por maior que seja essa dificuldade, porém, é muito mais difícil entender como homens honestos e sem preconceito, escrevendo de vinte a quarenta anos depois, e com todos os fatos históricos disponíveis que foram levados ao público desde então, e que refutam abundantemente aquelas alegações anteriores sobre a existência de um “Bando Nazarita”, se sentissem obrigados a perpetuar essas inexatidões.

“Será pelo princípio de que uma história muitas vezes contada acaba sendo acreditada? Ou será porque é a única sombra de desculpa que se pode dar para um ato de tirania e proscrição eclesiástica que, olhando para trás depois de passados vinte anos, declaramos deliberadamente não ter paralelo nos tempos modernos, pela sua injustiça?”

Ao continuar a discussão dessa questão, faremos citações frequentes de Why Another Sect?, do Sr. Roberts, por causa da indiscutível honestidade e integridade do seu autor, do seu conhecimento pessoal, incontestado e abrangente dos fatos, da abundância das provas que apresenta para sustentar as suas posições e do espírito geral de equidade e justiça com que escreve. Além disso, o autor espera apresentar provas tais do caráter inteiramente fictício do suposto “Bando Nazarita” que satisfaçam plenamente qualquer leitor sincero de que o que vários autores escreveram, pretendendo ligar a origem remota do metodismo livre a tal organização, não tem nenhum fundamento.

Notas do autor

  1. Página vi. ↩

Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.