História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo VIII

Deturpações históricas: a suposta União Nazarita negada

Apresentamos agora o seguinte documento, preparado e assinado por dezessete ministros da Conferência de Genesee que se supunha serem membros destacados da “organização nazarita”, no qual eles negam com ênfase que tal organização tenha existido. O documento foi publicado na época no Northern Independent e também em folha avulsa. Um exemplar dele foi também entregue ao bispo Simpson.

ASSUNTOS DA CONFERÊNCIA DE GENESEE
Leia e depois julgue

Tendo sido postos em circulação certos boatos que acusam uma parte dos ministros da Conferência de Genesee, da Igreja Metodista Episcopal, do ato desonroso e indigno de terem organizado uma sociedade “com certas marcas de segredo”, com o nome de “Bando ou União Nazarita”, cujo objetivo, segundo se diz, é controlar as nomeações e dirigir os assuntos da Conferência; e implicando essa acusação muitos dos nossos ministros como tendo dado passos indignos do cristão e ofensivos ao caráter ministerial:

Nós, os abaixo assinados, membros da Conferência de Genesee, declaramos que, depois de cuidadosa investigação, estamos plenamente convencidos de que tal sociedade nunca existiu nos limites desta Conferência. Toda a agitação a respeito da suposta organização nasceu de certas cartas, que indicavam a existência de tal sociedade, escritas por um único indivíduo, o qual, no plenário da Conferência de Olean, em 1855, declarou publicamente que só ele era responsável por todo o assunto. Essas cartas foram escritas sem o nosso conhecimento e nunca receberam a nossa aprovação. Embora a existência de tal sociedade tenha sido negada repetidamente, de várias maneiras e em numerosas ocasiões, esses boatos foram espalhados em público e em particular, e especialmente pelas colunas do Buffalo Christian Advocate, em prejuízo da reputação ministerial, da influência cristã e da utilidade de vários dos nossos ministros, ao criar contra eles um preconceito injusto; entre eles estão alguns dos nossos homens mais capazes e eficientes.

Ligada à acusação de associação está a de incentivar o fanatismo e a extravagância nos exercícios religiosos e no culto. Declaramos que essa acusação é tão sem fundamento quanto a outra. Nunca incentivamos excessos e não temos a menor simpatia por eles. Mas, embora nos oponhamos a todas as impropriedades nos exercícios religiosos e no culto, declaramo-nos a favor de uma religião coerente e cheia de vida; não um formalismo morto, mas o poder da piedade. Não aquela forma de religião que se expressa, de um lado, em irregularidades confusas, ou, do outro, em sermões sem vida e sem adequação, no abandono das reuniões de comunhão e no descaso com a oração em família e em particular; mas uma religião que move o coração e impele a toda boa obra, não só de beneficência, mas também de devoção.

Essas acusações, pois, de formar uma associação ou incentivar o fanatismo, que, na opinião de alguns, têm origem na ambição e no ciúme, feitas e repetidas, como se temia, com intenção e para produzir efeito, se aplicadas a nós, declaramos sem hesitar que são injustas, iníquas, caluniosas e falsas.

A. Abell, Isaac C. Kingsley, John P. Kent, C. D. Burlingham, Samuel C. Church, A. Hard, Loren Stiles Jr., B. T. Roberts, John B. Jenkins, E. S. Furman, W. Gordon, R. E. Thomas, A. W. Luce, Daniel B. Lawton, J. Miller, Wm. Kellogg, J. Bowman.
LeRoy, setembro de 1857.

Os signatários do documento acima são os homens de quem se dizia que a “Associação Nazarita” era composta principalmente. Se tivesse existido tal “Associação”, eles seriam os homens que o saberiam. O seu testemunho unânime, porém, é: “Estamos plenamente convencidos de que tal sociedade nunca existiu nos limites desta [a de Genesee] Conferência.”

A posição e o caráter dessas testemunhas eram tais que davam a mais forte garantia da sua veracidade. Cinco deles tinham servido como presbíteros presidentes, e quatro como membros da Conferência Geral. Todos eram ministros da Igreja Metodista Episcopal. Dos dezessete, só três chegaram a ser membros da Igreja Metodista Livre. Diz-se que um deles se tornou depois presbiteriano, e outro entrou para os Irmãos Unidos. Os demais parecem todos ter permanecido no rebanho metodista episcopal, e alguns acabaram se tornando decididamente hostis ao metodismo livre. Até hoje, porém, nenhum deles, até onde pudemos saber, retratou as afirmações do documento acima nem fez qualquer afirmação incompatível com o seu conteúdo.

Em vista do caráter e da posição desses homens, bem como do seu indiscutível conhecimento dos fatos, quem ousará sequer sugerir que o documento em questão, ao qual todos juntos puseram a assinatura, é falso ou de alguma forma enganoso? Se o bispo Simpson considerasse algum desses homens culpado de assinar deliberadamente uma mentira escandalosa para ser publicada, teria ele, de tempos em tempos, nomeado esse homem pastor de igrejas metodistas, para alimentar e cuidar do rebanho de Deus e guiar os membros desse rebanho no caminho do céu? Estaria disposto a deixar parecer que um pecado tão grave quanto a mentira deliberada e persistente não desqualificava ninguém para o ministério na Igreja Metodista Episcopal? E, no entanto, pense nisto! Se se der crédito à versão do bispo sobre a “Associação Nazarita”, ela põe esses dezessete ministros de Jesus Cristo, contra os quais nunca se tinha apresentado nenhuma queixa, sob a acusação de conspirar para escrever, assinar e publicar uma mentira deliberada e escandalosa sobre um assunto de que tinham pleno conhecimento e a respeito do qual não podiam de modo algum estar enganados! Lançar tal acusação sobre homens inocentes seria, de fato, um triste comentário sobre a caridade cristã.

Mas a situação é esta; que o leitor tire dela o melhor partido que conseguir com a sua habilidade no uso das palavras. O bispo Simpson diz do movimento metodista livre que ele “teve origem numa associação de ministros que achavam não ter sido devidamente tratados pelos líderes da Conferência. Eles adotaram em particular uma plataforma e, nessa organização, eram conhecidos como ‘nazaritas'”. O Dr. Buckley repete a afirmação, em substância e de forma mais agravada. Os dezessete ministros que assinaram o documento em questão dizem: “Estamos plenamente convencidos de que tal sociedade nunca existiu nos limites desta Conferência.” Essas afirmações são contradições claras e inconciliáveis, e, portanto, uma ou outra tem de ser falsa.

Aqueles dezessete homens disseram da afirmação sobre a existência de um “Bando Nazarita”, na época em que ela começou a circular na Conferência de Genesee: “Essa acusação de formar uma associação para incentivar o fanatismo, se aplicada a nós, declaramos sem hesitar que é injusta, iníqua, caluniosa e falsa.” Não se poderia formular uma negação mais específica. As duas afirmações, a assinada pelos dezessete ministros e a feita pelo bispo Simpson e pelo Dr. Buckley, não podem de modo algum ser ambas verdadeiras. Ou a negação dos dezessete, ou a afirmação do bispo e do doutor, tem de ser falsa. Se a afirmação era “injusta, iníqua, caluniosa e falsa” quando começou a circular, é necessariamente igualmente falsa quando feita de vinte anos a uma geração depois, e seja por quem for. Aqueles dezessete homens falaram por conhecimento pessoal; e, se o que disseram era falso, foi a declaração deliberada de uma falsidade, e isso os colocaria na “Associação de Ananias”. O bispo Simpson e o Dr. Buckley não dizem ter falado por conhecimento pessoal; e, como evidentemente se basearam em informações dadas por outros, podem ter sido enganados. As afirmações, porém, são feitas com tanta segurança como se fossem por conhecimento pessoal e, assim, se são falsas, ficam livres para fazer todo o mal de que são capazes. Parece que esses autores deveriam ao menos ter indicado alguma fonte para as suas afirmações.

[N. do T.: a “Associação de Ananias” é uma alusão irônica a Ananias, que mentiu ao Espírito Santo (At 5.1-5).]

Além de assinar a declaração que nega a existência de uma “organização nazarita” nos limites da Conferência de Genesee, discutida neste capítulo, o Rev. Asa Abell, um dos homens mais piedosos que o metodismo americano produziu, num artigo publicado no Northern Independent de 10 de março de 1859, deu ainda o seu testemunho pessoal sobre o assunto nos seguintes parágrafos:

Parece-me que estive em tais circunstâncias que, se tivesse realmente existido tal união ou sociedade, ela não poderia ter deixado de chegar ao meu conhecimento; e declaro solenemente que não conheço agora, nem nunca conheci, nenhuma sociedade chamada pelo nome em questão, nem na forma nem de fato; nem nenhuma associação semelhante àquela cuja existência é afirmada com tanta ousadia e segurança; nem nenhuma liga ou combinação desse tipo, com qualquer nome que seja.

Tudo isso pretendo afirmar sem nenhuma restrição mental que deixasse o que digo ser verdade e, no entanto, num sentido oculto e misterioso, verdade [também] que haja ou tenha havido tal organização ou sociedade. Ninguém provou até hoje, e estou certo de que ninguém jamais poderá provar, a existência de tal liga ou sociedade, pela razão de que ninguém pode provar que um não-ser seja um ser. Nunca soube nem ouvi falar de nenhuma reunião para formar tal sociedade, ou liga, ou união, nem de nenhuma reunião de tal sociedade, nem de nenhuma reunião de supostos oficiais de tal sociedade.

Asa Abell foi um dos nobres pioneiros do metodismo no oeste de Nova York. Era membro da Igreja Metodista Episcopal desde 1821. A sua carreira no ministério tinha sido longa, e durante dezoito anos desse tempo ele serviu no cargo de presbítero presidente. Foi eleito quatro vezes seguidas delegado à Conferência Geral da sua igreja e exerceu o cargo com honra para si e para os que o elegeram. Quando a Igreja Metodista Livre foi finalmente organizada, ele mostrou a sua desaprovação da conduta da Conferência de Genesee, na sua política de proscrição e expulsão dos chamados pregadores “nazaritas”, e da conduta da Conferência Geral, ao recusar-se a examinar os seus recursos; e também mostrou a sua dedicação aos princípios que defendera durante todo o seu ministério, rompendo a sua ligação com a igreja que tinha sido a sua mãe espiritual, e à qual dera as suas melhores energias durante muitos anos, e unindo-se ao pequeno grupo proscrito e perseguido que compunha a seita recém-organizada. E não esperou para dar esse passo até que ficasse claro que o novo empreendimento provavelmente teria êxito, mas entrou desde o início, disposto a partilhar a sorte dos seus irmãos perseguidos, qualquer que ela fosse. Foi leal às suas convicções até o fim, e nenhum sopro de escândalo ou de calúnia jamais manchou o seu histórico impecável. Certamente o testemunho de um homem assim deve ser considerado irrepreensível e convincente em todos os sentidos.

Os homens que, com o Sr. Abell, assinaram a negação de uma “organização nazarita” eram também homens tementes a Deus e santos, como se mostrou: homens de integridade e veracidade indiscutíveis, cuja inteligência geral e credibilidade nunca foram sequer questionadas até hoje. Os registros necrológicos da Conferência metodista episcopal a que alguns deles pertenciam na época da sua morte dão forte testemunho das suas sólidas virtudes como cristãos e da sua lealdade e utilidade como ministros cristãos. Em vista desses fatos, perguntamos, com o Sr. Roberts:

Ao escrever a história de acontecimentos em que tais homens tiveram papel destacado, deve-se pôr de lado o seu testemunho sobre esses acontecimentos sem sequer apresentar uma razão? Deve-se supor, sem provas, que eles se registraram como falsificadores de fatos que conheciam bem? E deve essa suposição passar à história sem contestação? Deve o preconceito partidário, ou o orgulho denominacional, dispensar a necessidade de pesar com sinceridade as provas e de procurar honestamente apurar e expor a verdade? Se não se deve levar em conta o testemunho de homens como esses, de que serve o testemunho humano? Seria melhor escrever a história inteiramente com a imaginação.

Se se deve crer nesses homens, então é inteiramente falsa a afirmação do bispo Simpson de que a Igreja Metodista Livre teve origem numa “associação de ministros” que “adotaram em particular uma plataforma e, nessa organização, eram conhecidos como nazaritas”.1

É no mínimo extremamente lamentável que homens de tal posição e reputação como o bispo Simpson e o Dr. Buckley tenham ajudado a dar circulação geral a afirmações tão gravemente enganosas como as que estamos examinando, publicando-as como se fossem fatos históricos comprovados, quando não há nelas uma só palavra de verdade histórica. Parece que eles devem ter sido levados a tomar as difamações lançadas pelos inimigos contra os chamados “nazaritas” como afirmações de verdade histórica, sem investigação, e assim foram enganados nas suas afirmações publicadas. Mas o efeito foi tão prejudicial como se as afirmações fossem deliberadamente falsas.

[N. do T.: os Irmãos Unidos (United Brethren in Christ) eram uma denominação de origem alemã nos Estados Unidos, próxima do metodismo.]

Notas do autor

  1. Why Another Sect? ↩

Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.