História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo XXXV
Os fatos relatados até aqui sobre os primeiros desenvolvimentos do metodismo livre aconteceram no oeste de Nova York e no norte de Illinois. Condições semelhantes, porém, existiam em outros lugares, embora um tanto menos agravadas nas suas manifestações. Nas partes central e oriental do estado de Nova York, e também no leste da Pensilvânia, muitos estavam ficando inteiramente cansados e fartos do metodismo conformado com o mundo e desejavam profundamente que acontecesse alguma coisa que os livrasse da escravidão ao formalismo e à morte espiritual e lhes abrisse um lar eclesiástico acolhedor, onde pudessem gozar de liberdade e participar de um culto espiritual. Ouvindo falar da organização da Igreja Metodista Livre e esperando encontrá-la conforme ao tipo original do metodismo, em vez de participar das características da “Nova Escola”, escreveram ao superintendente geral Roberts e a outros que se destacavam no novo movimento, dirigindo-lhes o clamor macedônio por ajuda (At 16.9). Chegavam de desconhecidos, de regiões distantes, cartas como a seguinte, do Leste, ao Sr. Roberts:
Vejo no número de março do Earnest Christian um relato da adesão do irmão Asa Abell à Igreja Metodista Livre. As convicções dele de deixar a Igreja Metodista Episcopal e unir-se à Igreja Metodista Livre são as convicções do meu coração, e sem dúvida as de muitíssimos; e quando, ah, quando teremos a oportunidade de respirar ar livre? A oportunidade dele chegou. Ó Senhor, dá-nos uma porta aberta, é a nossa oração. Conheço muitos que nunca ficarão satisfeitos enquanto não forem livres. Esse anseio de ser livre é como a alma que anseia pela plena salvação, e não pode ser satisfeito sem a sua liberdade, assim como ela. Por uma boa razão Jesus os libertou, e eles têm de ser “verdadeiramente livres” (Jo 8.36). Muitos nestas regiões distantes ficariam felizes de entrar nas suas reuniões e gozar a liberdade com vocês, adorando a Deus em espírito e em verdade. Somos como os outros cativos lá do Sul, num sentido: eles têm uma ideia da terra da liberdade, anseiam ser livres, mas não sabem dizer quando nem como a obterão. Assim é com muitos aqui. Ouvimos falar da liberdade de vocês, das suas alegrias e do seu povo, mas ainda não tivemos oportunidade de provar a liberdade. Mas a nossa confiança está em Deus. Cremos que virá o tempo em que os livres de Deus serão conhecidos em toda a terra. Deus apresse esse tempo.
O superintendente Roberts, William Cooley e Zenas Osborne parecem ter aberto o caminho para a introdução do metodismo livre na região hoje abrangida pela Conferência de Susquehanna. Durante 1860-1861, o Sr. Roberts “realizou muitas reuniões em Nova York, Binghamton, Union, Syracuse, Utica, Rome, Rose e Clyde, além de estar presente em reuniões em bosques e acampamentos em outros lugares daquela parte do estado a leste dos limites da Conferência de Genesee”. Alguém que o conhecia bem escreve sobre esses cultos que “a sua pregação, as suas orações, o seu modo de dirigir as reuniões eram muito bem aceitos e causaram uma impressão profunda e duradoura nos seus ouvintes. Isso foi especialmente verdade em Binghamton.”1
A primeira sociedade metodista livre dessa região foi organizada pelo Sr. Roberts numa escola de pedra perto de Rose Valley, condado de Wayne, Nova York, em 2 de dezembro de 1860. Era formada pelos seguintes membros: Josephus Collins, John Glen, o Sr. e a Sra. William Glen, o Sr. e a Sra. Harrison Holcomb, o Sr. e a Sra. John Barrett, Leonard Mitchell, Sarah Mitchell, o Sr. e a Sra. William Sherman, Margaret Nusbickel, Elizabeth Finch e John Weeks. Em 12 de fevereiro de 1861, ele organizou uma segunda sociedade na casa de Aaron Winget, no município de Huron, no mesmo condado, da qual foram membros: o Sr. e a Sra. Aaron Winget, Benjamin Winget, Lovilla Winget, o Sr. e a Sra. John B. Stacy, Hervey Perkins e Sophia Perkins. Entre os que formaram essas duas sociedades, três se tornaram depois pregadores itinerantes da Igreja Metodista Livre: John B. Stacy e John Glen, que deram ambos bom testemunho e terminaram a sua carreira em triunfo há alguns anos, e Benjamin Winget, que há cerca de vinte anos é o honrado, fiel e eficiente secretário de missões da denominação.
A partir desses pontos, a obra se espalhou aos poucos em várias direções sob o trabalho fiel de homens como William Cooley, Zenas Osborne e outros, até que, por fim, os que desenvolviam o campo, crendo que os interesses da obra poderiam ser mais bem conservados e promovidos assim, começaram a insistir com o superintendente Roberts sobre a importância de organizar a obra numa Convenção (ou Conferência), semelhante às Convenções do Leste e do Oeste já organizadas.
Assim, em 10 de abril de 1862, o Sr. Roberts organizou o que então se chamou Convenção (hoje Conferência) de Susquehanna da Igreja Metodista Livre, em Union, Nova York, com seis ministros. Como as Convenções do Leste e do Oeste na sua organização, foi um corpo deliberativo ao ar livre, com as sessões realizadas sobre uma pilha de mourões num pomar de macieiras. Fez-se a seguinte lista de nomeações: circuito de Union, James Guien; Madison e Otsego, J. Olney; Rose, W. Cooley; Missão do Rio Hudson, A. B. Burdick; Susquehanna, T. F. Johnson; White Haven, a ser suprido.
A organização dessa pequena Conferência tornou-se mais tarde fonte de muito desconforto dentro da denominação infante, e por pouco, ao que parece, não provocou uma divisão. As circunstâncias que levaram ao desconforto foram as seguintes.
O livro de Disciplina adotado na organização da denominação não continha nenhuma disposição específica para a organização de novas Conferências nos intervalos das Conferências Gerais. Dizia, porém, expressamente que o superintendente geral devia viajar por toda a conexão e trabalhar pelo avanço e pela edificação da obra. Considerando seu direito e dever, segundo essa exigência da Disciplina, o Sr. Roberts, atendendo ao pedido dos diretamente interessados, organizou a Convenção de Susquehanna. Parece ter havido já antes alguma insatisfação da parte de uns poucos que consideravam prematura a organização em Pekin, e também de outros que evidentemente sentiam certa decepção com a decisão daquela Convenção quanto à superintendência geral. Uma minoria respeitável se opunha a qualquer superintendência geral, preferindo a eleição de um presidente a cada ano, como acontece com a Igreja Wesleyana da Inglaterra e com a Conexão Metodista Wesleyana da América. Além disso, era esse o ano marcado para a primeira sessão da Convenção Geral, e pode ser que alguns estivessem ansiosos por conseguir o que não tinham conseguido na Convenção de Pekin, a derrota da superintendência geral, e que considerassem a formação da Convenção de Susquehanna um fator que tornava o seu êxito nessa direção menos provável do que de outro modo seria.
Sabendo que esse sentimento existia em certa medida quanto à superintendência, o Sr. Roberts evitara cuidadosamente qualquer referência, no Earnest Christian, à sua elevação a esse cargo, e também tudo o que razoavelmente pudesse ser interpretado como se ele se considerasse em algum sentido superior ao mais humilde dos seus irmãos. Publicava relatos das Convenções sem a menor referência a si mesmo como presidente delas, para não ofender ninguém que estivesse sensível quanto à decisão da Convenção de Pekin.
O fato de ter organizado a Convenção de Susquehanna estava destinado, porém, a lhe causar bastante problema no futuro próximo e a lhe dar uma noção clara de que a elevação a um cargo, mesmo em corpos eclesiásticos, não garante passagem tranquila pela vida. A questão de saber se ele tinha ou não direito legal, segundo a Disciplina, de organizar uma Convenção Anual era daquelas em que homens igualmente bons podiam divergir. Mas, quando alguns supuseram que ele ultrapassara a sua autoridade de supervisor dos interesses da denominação e começaram a falar de modo malicioso no exercício de um “poder de um homem só”, embora fossem poucos, isso o feriu profundamente. Foi uma decepção séria para ele perder em qualquer grau a confiança e a simpatia de irmãos que amava e com quem sofrera nas provações de fogo que lhe vieram na Igreja Metodista Episcopal. Não deixou que isso o desviasse, porém, do que entendia ser o seu dever como oficial administrativo da igreja, nem que esfriasse ou azedasse o seu espírito para com os que divergiam dele, nem que diminuísse o seu zelo pela obra de Deus. Prosseguiu no seu trabalho com todo o empenho possível e, com santa alegria, levou adiante os múltiplos deveres do seu chamado como principal oficial administrativo da igreja, como redator do Earnest Christian e como pregador do evangelho, com o coração em fogo de zelo pela conversão dos pecadores e pela santificação dos crentes. Encontrava a obra prosperando por onde ia dentro da denominação recém-organizada e via numerosos cargos novos surgirem e somarem-se aos já existentes, enquanto pregadores e membros eram grandemente fortalecidos em toda parte sob o seu ministério, em resultado da sua proclamação simples, direta e séria da verdade.
Nas Convenções de outono de 1862, elegeram-se delegados à Convenção Geral seguinte, que se realizaria em St. Charles, Illinois, a partir de 8 de outubro. Por isso a Convenção de Susquehanna, organizada em abril, realizou a sua segunda sessão em setembro e elegeu regularmente delegados à Convenção Geral. Num breve relato dessa reunião no Earnest Christian, o Sr. Roberts disse: “Há nove pregadores pertencentes à Convenção, todos os quais cremos inteiramente dedicados a Deus e à sua obra, gozando o claro testemunho da inteira santificação. Confiamos que, pelo trabalho deles, se dará grande impulso à causa da santidade em toda a região por onde viajam.”
A Convenção Geral foi de muita desarmonia, devida principalmente à oposição dos delegados da Convenção do Leste (ou de Genesee) à admissão dos delegados da Convenção de Susquehanna, sob o fundamento de que a Convenção de Susquehanna fora organizada de modo irregular e ilegal e, por isso, não tinha posição legítima nem competência para eleger delegados à Convenção Geral. O propósito dos delegados de Genesee era recusar a admissão dos delegados de Susquehanna, e o sentimento foi tão intenso sobre o assunto por algum tempo, e a disputa tão acirrada, que se temeram consequências graves. Na biografia de B. T. Roberts, dá-se a versão dele do caso, escrita do próprio punho, como segue:
Os delegados nomeados pelas várias Convenções Anuais da Igreja Metodista Livre reuniram-se em St. Charles em 8 de outubro de 1862. Fomos convocados para as duas horas. Um dos delegados da Convenção de Illinois, B. Hackney, estava ausente, servindo num júri, e não podia estar presente na Convenção Geral até o dia seguinte. Propôs-se, por isso, organizar provisoriamente e adiar a organização definitiva até que todos os delegados pudessem estar presentes. O Rev. L. Stiles se opôs ao adiamento. Disse que o simples ato de organizar não tinha importância suficiente para causar qualquer demora. Deveríamos organizar, insistiu ele, e estar prontos para os trabalhos quando todos os delegados estivessem presentes. Outros delegados de Genesee disseram que o seu tempo era precioso e que estavam ansiosos por terminar o mais depressa possível. Fez-se uma tentativa de organizar. Quando se leram as credenciais dos delegados da Convenção de Susquehanna, o Rev. A. Abell disse que, no momento próprio, se oporia à admissão deles. Levantada a questão, suspenderam-se os trabalhos até as dez horas do dia seguinte, para que todos os delegados pudessem estar presentes. À noite chegou O. P. Rogers, delegado suplente da Convenção do Oeste.
Na reunião de oração das cinco da manhã, estando presentes todos os delegados, menos os de Genesee, achou-se melhor, para acomodá-los, convocar a sessão para as oito e meia. Mandou-se, por isso, um pregador até eles às sete horas, informando-os da mudança de horário. Trouxe-se de volta a resposta de que tinham dito: “Suspendemos os trabalhos até as dez e não nos reuniremos antes disso. Um homem só não tem poder para convocar esta Convenção.” Às dez nos reunimos. Os delegados de Genesee queriam que os delegados de uma das Convenções fossem admitidos em virtude das suas credenciais e considerados o núcleo, e que estes então votassem a admissão dos demais. O presidente decidiu que todos os que vinham com credenciais apropriadas eram membros à primeira vista e deviam ser considerados assim para o fim de organizar. Depois de organizados, se alguém ocupasse um lugar indevidamente, poderia ser privado dele pela Convenção Geral. Todo corpo organizado deve ser juiz das qualificações dos seus próprios membros. Os delegados do Oeste concordaram com essa visão do caso. Insistiram em que, se houvesse alguma boa razão para excluir os delegados de Susquehanna, que se organizasse primeiro, e então eles seriam excluídos. Insistiram nesse ponto. Disseram repetida e enfaticamente: “Entrem conosco e organizemos, e então, se a Convenção de Susquehanna não for uma Convenção legal, ou se houver alguma razão pessoal pela qual os delegados de Susquehanna não devam ter lugar, nós os ajudaremos a pô-los para fora.” Mas os delegados de Genesee se recusaram a organizar, embora, na votação para secretário, dois deles tenham depositado cédulas. Depois de eleito o secretário e organizada a Convenção Geral, o Rev. L. Stiles sussurrou algo a G. W. Holmes, delegado leigo da Convenção de Genesee, e o Sr. Holmes propôs: “Que os delegados de Susquehanna sejam admitidos.” O presidente decidiu “que os delegados já tinham sido admitidos em virtude das suas credenciais” e que a forma apropriada da moção seria propor “que eles não têm direito a lugar como delegados”. Eles se recusaram a fazer a moção nessa forma. Discutiram longamente o assunto. Disseram que a única coisa que nos dividia era a formação da Convenção de Susquehanna. Quando o presidente observou que essa não era a dificuldade principal, que havia outras coisas por trás da Convenção de Susquehanna que eram a verdadeira causa da dificuldade, o Sr. Stiles ressentiu-se da observação e perguntou, com bastante vivacidade, se se punha em dúvida a veracidade deles. Disse que a única coisa que nos dividia era a Convenção de Susquehanna. O Sr. Hartshorn disse o mesmo. Os delegados do Oeste insistiram em que eles tomassem os seus lugares e depois propusessem a exclusão dos delegados de Susquehanna, e que, se houvesse alguma boa razão para excluí-los, eles, os delegados do Oeste, os ajudariam a fazê-lo.
Os seguintes documentos foram apresentados e aprovados em 10 e 11 de outubro:
“A Igreja Metodista Livre como corpo, assim como esta Convenção Geral, está organizada com base na Disciplina adotada em Pekin, em 23 de agosto de 1860, e impressa em Buffalo em 1860, com o título de Doutrinas e Disciplina da Igreja Metodista Livre. Essa Disciplina é o vínculo exterior e visível de união entre nós como povo.
“Os delegados da Convenção de Genesee estão descontentes com a admissão dos delegados da Convenção de Susquehanna e se recusam, em consequência, a participar dos nossos atos, e manifestaram a intenção de sair e ir para casa.
“Portanto, propomos que, já que nos reunimos com base na Disciplina, ajamos juntos com a mesma base, façamos as mudanças com que todos possam concordar e, onde nem todos puderem concordar com alguma mudança, não se faça nenhuma mudança.
“Aprovado em 11 de outubro de 1862.
“Considerando que os delegados da Convenção Anual de Genesee entregaram o livro de atas da referida Convenção, que certificava a sua eleição como membros deste corpo; e considerando que parte deles votou depois para secretário e, depois de organizados, apresentou moção e fez discursos; e considerando que depois declararam que não eram membros deste corpo e, em consequência, se ausentaram e continuaram ausentes; e considerando que retiraram o seu livro de atas; portanto,
“Resolvido, que nós, a Convenção Geral da Igreja Metodista Livre, os consideramos retirados deste corpo e passamos a cumprir os deveres que nos foram confiados pela igreja, da qual somos representantes.”2
[N. do T.: o título Doutrinas e Disciplina da Igreja Metodista Livre é o da nossa tradução publicada no site.]
Depois de ter ficado em sessão de 8 a 16 de outubro, em St. Charles, Illinois, a Convenção Geral suspendeu os trabalhos para se reunir de novo em Buffalo, Nova York, em 4 de novembro seguinte. Na sessão retomada, como alguns dos delegados de Genesee que tinham estado em St. Charles estavam ausentes, permitiu-se que os delegados suplentes tomassem os seus lugares. O Rev. Levi Wood ocupou assim o lugar de Loren Stiles Jr., e Titus Roberts o de George W. Holmes.
O Rev. Moses N. Downing era então pastor da Igreja Metodista Livre de Buffalo, e da sua pena aparece na Life of B. T. Roberts o seguinte relato dessa sessão retomada da Convenção Geral:
Vários delegados da delegação de Genesee recusaram-se a tomar os seus lugares a menos que a Convenção Geral se organizasse sem a delegação de Susquehanna, já que consideravam ilegal esta última delegação e sustentavam que o superintendente não tinha direito de organizar a Convenção de Susquehanna; estipulavam, porém, que, se a Convenção Geral se organizasse assim, sem a delegação de Susquehanna, consentiriam em que a legalidade da organização da Conferência de Susquehanna fosse julgada pela Convenção Geral. Benjamin Hackney, delegado do Oeste, homem de destaque que fora membro do Congresso, levantou-se e disse que, por mais que amasse a Igreja Metodista Livre, preferiria vê-la partida em duas na sua infância a fazer concessão num princípio de justiça. Sustentou que os delegados da Convenção de Susquehanna tinham sido legalmente eleitos e que, na falta de qualquer lei específica que regulasse a organização das Convenções Anuais, o superintendente geral tinha o direito de organizar a Convenção de Susquehanna, e que os delegados de Susquehanna, ao apresentarem as suas credenciais, deviam ser admitidos. Diante disso, o Rev. Loren Stiles e Asa Abell, delegados ministeriais, e os delegados leigos se retiraram, e os suplentes tomaram os seus lugares.3
[N. do T.: Downing diz que Hackney “fora membro do Congresso”; no Cap. XXVIII, Hogue diz que ele representou o seu distrito no Legislativo do estado. Mantivemos as duas informações como estão nas fontes.]
Essa decisão causou um sentimento decididamente intenso, que estava destinado a manifestar-se de forma muito positiva algum tempo depois do encerramento da Convenção Geral.
[Esse corpo reuniu-se com o nome de Convenção Geral, mas, antes do seu encerramento final, mudou sabiamente o seu nome para Conferência Geral. Seguindo o exemplo da Convenção Geral, as Convenções Anuais também logo mudaram os seus nomes para Conferências Anuais, e assim serão chamadas daqui em diante neste volume. O AUTOR.]
O desfecho da história do problema causado pela organização da Conferência de Susquehanna é contado assim na Life of B. T. Roberts, do seu filho, B. H. Roberts, mestre em artes, e principalmente nas próprias palavras do pai:
O FIM DA QUESTÃO DE SUSQUEHANNA
A Convenção Anual de Genesee, realizada em Albion de 18 a 22 de setembro, foi um tempo um tanto tempestuoso; a ocasião principal se referia à admissão de alguns à Convenção. Por causa da insatisfação, que vinha em grande parte do caso de Susquehanna, limitada, porém, a uma pequena minoria, tentou-se convocar uma segunda sessão da Convenção de Genesee, para reunir-se em Perry em 4 de novembro. Essa convocação foi feita pelo Rev. Loren Stiles, Asa Abell, G. W. Holmes e H. Hartshorn. A prova que temos da sua existência está na cópia da seguinte carta, dirigida a esses irmãos:
“Aos ministros e membros da Igreja Metodista Livre reunidos em Perry em 4 de novembro de 1862, por convocação do Rev. L. Stiles Jr., do Rev. A. Abell, de G. W. Holmes e de H. Hartshorn.
“Amados irmãos:
“Eu teria tido prazer em reunir-me com vocês, e teria tomado providências para isso, se tivesse sabido a tempo que vocês tinham sido convocados. Eu estava na mesma vila que os irmãos que os convocaram na ocasião em que, suponho, decidiram fazê-lo. Não me disseram nada das suas intenções; nem soube que tinham feito uma convocação até uma semana antes do último sábado. Soube do fato por acaso. Os meus compromissos são tais (pois a Convenção Geral suspendeu os trabalhos para se reunir em Buffalo no mesmo dia) que, com muito pesar, não posso reunir-me com vocês. Pelo que ouvi, deduzo que o objetivo dos que os convocaram é obter uma condenação dos meus atos oficiais. Se é esse o caso, parece-me que eu deveria ter sido consultado quanto à data. ‘Será que a nossa lei condena um homem sem primeiro ouvi-lo e saber o que ele fez?’ (Jo 7.51). A franqueza cristã exige menos do que vocês suspenderem não só qualquer decisão formal sobre os meus atos oficiais, mas até a formação da sua opinião particular, até ouvirem as explicações que tenho a dar? Poderia a franqueza comum, para não falar do amor fraternal, pedir que vocês formem e exprimam os seus juízos sobre assuntos que afetam profundamente os interesses da nossa igreja infante com base em exposições de um só lado? Sei dos esforços bem-sucedidos que se fizeram entre vocês para despertar preconceito contra mim; mas vocês devem a si mesmos, bem como à causa de Deus, pôr de lado todo preconceito, tanto quanto possível, e adiar qualquer decisão sobre o assunto até que eu possa ter uma audiência justa e completa.
“Medidas precipitadas prejudicarão sensivelmente a causa de Deus, ao passo que nenhum mal possível pode vir de esperarem até a sessão regular da nossa Convenção, informando-se nesse meio-tempo, tanto quanto possível, de todos os fatos do caso. ‘Aquele que crer não foge’ (Is 28.16). Procurei cumprir todos os meus deveres oficiais de superintendente da Igreja Metodista Livre com fidelidade e amor, em mansidão e humildade. Evitei cuidadosamente tudo o que pudesse despertar inveja ou ciúme em alguém. Nunca me apresentei em nenhum dos periódicos como ocupante de um cargo oficial e tive o cuidado de não ferir os sentimentos nem a reputação de nenhum de vocês.
“Ao organizar a última Convenção Geral, segui o único caminho que, segundo me parece, com o meu conhecimento limitado dos usos parlamentares, me era próprio seguir. A Disciplina (cap. 2, seç. 2, parte I, pág. 34) prescreve como se comporá a Convenção Geral. Os que vêm com credenciais devidamente certificadas têm, segundo me parece, direito a um lugar até que se possa efetuar a organização. Então, se alguém ocupa um lugar a que não tem direito, a Convenção Geral pode privá-lo do lugar indevidamente ocupado. Assim decidi. Nessa decisão sou apoiado pela mais alta autoridade em usos parlamentares. A Constituição dos Estados Unidos diz: ‘Cada uma das casas será juiz das eleições, dos resultados e das qualificações dos seus próprios membros’ (art. I, seç. 5, par. 1). O presidente não diz quem terá lugar no Senado, nem o Senado quem se sentará na Câmara. Os representantes de Nova York não dizem, na sua qualidade local, se os representantes de Illinois serão admitidos ou não; mas todos os que têm certificado de eleição são inscritos, e a casa se organiza; e então, depois de efetuada a organização, se alguém ocupa um lugar indevidamente, é excluído. Acusam-me de ‘uma usurpação de poder como nunca foi exercida por nenhum bispo, ou por qualquer número de bispos, na história do metodismo’, quando o verdadeiro motivo da queixa é a minha recusa em usurpar o poder que pertence só à Convenção Geral e, por minha própria prerrogativa, excluir dos seus lugares pessoas cujas credenciais de delegados de uma Convenção Anual tinham sido apresentadas e lidas. Esse poder, creio, pertence só à Convenção Geral; mas, porque não usurpei esse poder, sou apresentado sob uma luz odiosa e acusado de uma usurpação sem precedentes. Depois de organizados, o irmão Stiles sussurrou algo ao irmão Holmes, e este apresentou uma moção: ‘Que os delegados da Convenção de Susquehanna sejam admitidos.’ Decidi que a moção, nessa forma, estava fora de ordem, pois eles já tinham sido admitidos em virtude das suas credenciais. Declarei que estaria em ordem uma moção no sentido de que os delegados da Convenção de Susquehanna não têm direito a lugar. Mas ninguém quis fazê-la. Os delegados de Genesee discutiram longamente o caso, mas, não conseguindo fazer prevalecer os seus pontos, saíram. Antes que saíssem, porém, apresentei-lhes em plena Convenção a seguinte proposta: ‘A Igreja Metodista Livre como corpo, assim como a Convenção Geral, está organizada com base na Disciplina adotada em Pekin, em 23 de agosto de 1860, e impressa em Buffalo em 1860, com o título de Doutrinas e Disciplina da Igreja Metodista Livre. Essa Disciplina é o vínculo exterior e visível de união entre nós como povo. Os delegados da Convenção de Genesee estão descontentes com a admissão dos delegados da Convenção de Susquehanna e se recusam, em consequência, a participar dos nossos atos, e manifestaram a intenção de sair e ir para casa. Portanto, propomos que, já que nos reunimos com base na Disciplina, ajamos juntos com a mesma base, façamos as mudanças com que todos possam concordar e, onde nem todos puderem concordar com alguma mudança, não se faça nenhuma mudança.’. Os delegados de Genesee não deram a menor atenção a essa proposta. Se tivessem desejado a preservação da Igreja Metodista Livre essencialmente tal como foi organizada, não teriam aceitado essa proposta? Quaisquer pequenas mudanças necessárias teriam sem dúvida sido aceitas por unanimidade por homens de piedade e amantes da paz. Mas, sob essa proposta, uma tentativa de revolucionar a igreja não poderia ter tido êxito.
“A ‘usurpação de poder’ de que se queixam pode referir-se à organização da Convenção de Susquehanna. Mas foi isso alguma usurpação? A primeira coisa a resolver é: tinha o superintendente, antes da reunião da primeira Convenção Geral, o direito de organizar alguma Convenção Anual? A Disciplina não faz em palavras expressas o dever do superintendente organizar Convenções. Nem diz que não o fará. Nem faz dever de nenhum outro organizar Convenções Anuais. Na Igreja Metodista Episcopal, as Conferências Anuais são feitas pela Conferência Geral. Mas esse uso não podia valer no nosso caso, pois não tínhamos Convenção Geral, nem podíamos ter enquanto não se formassem Convenções Anuais, já que a Convenção Geral se compõe de delegados eleitos pelas Convenções Anuais. A Convenção Geral não podia organizar as Convenções Anuais em primeiro lugar. Quem, então, devia fazê-lo? A Disciplina não o diz em termos expressos, mas faz dever do superintendente presidir as Convenções Anuais. É máxima da interpretação da lei que a exigência de fazer alguma coisa traz consigo o direito de fazer tudo o que é essencial para fazer a coisa exigida. Isso é bom senso e direito comum. Uma ordem a um general de conduzir um exército através de um rio implica o direito de construir uma ponte, se não houver outro modo de atravessar.
“A Disciplina diz (cap. 3, seç. 1, par. 2, pág. 46) que será dever do superintendente presidir as Convenções Anuais. Mas como pode ele presidir uma Convenção Anual antes que ela seja organizada? Parece claro, então, que, na falta de qualquer outra disposição para organizar uma Convenção Anual, o superintendente tem um direito indiscutível de fazê-lo. Nem se pode dizer com justiça que isso estabelece um precedente perigoso, pois a primeira Convenção Geral poderia, e sem dúvida o faria, tomar providências para organizar as Convenções Anuais no futuro. O superintendente organizou a Convenção de Genesee do mesmo modo. Alguns irmãos apresentaram credenciais como delegados de sociedades metodistas livres, ou de pessoas que desejavam ser organizadas em sociedades metodistas livres. Em virtude das suas credenciais, foram organizados como membros. Depois, por voto, admitiram os pregadores. A Convenção do Oeste e a Convenção de Susquehanna foram organizadas do mesmo modo. Em nenhum caso o superintendente disse quais pregadores deviam e quais não deviam pertencer a uma Convenção Anual; nem, a nosso juízo, tem uma Convenção Anual o direito de dizer quais pregadores pertencerão a outra Convenção Anual. Alguns supuseram que, quando se formou a Disciplina, os que a adotaram pensavam ter apenas duas Convenções Anuais até depois da Convenção Geral. Mas isso é mera suposição, sem sombra de prova. Não há nada disso na Disciplina. Nada disso se disse na Convenção de Pekin. A Disciplina dá claramente a entender que poderia haver mais de duas. Diz (cap. 2, seç. 2, pág. 34): ‘Cada Convenção Anual.’ Se se quisesse dizer só duas, teria dito ‘ambas’ as Convenções Anuais. O pequeno número de delegados de que se comporia a Convenção Geral, supondo-se que houvesse só duas Convenções Anuais, mostra claramente que, a juízo dos que formaram e adotaram a Disciplina, haveria mais de duas Convenções Anuais antes da primeira Convenção Geral.
“A Convenção de Susquehanna foi formada de boa-fé, com o propósito de espalhar a obra de Deus, e por razões boas e suficientes, como creio que posso mostrar a qualquer mente sem preconceito. Mas, suponha-se que tivesse havido alguma irregularidade na formação dessa Convenção: não está ela plenamente justificada pelo fato de estarmos em estado de formação? Muitas irregularidades foram toleradas entre nós e justificadas com esse fundamento. A igreja de Albion foi formada sem que se fizessem aos recebidos como membros as perguntas exigidas pela Disciplina (cap. 1, seç. 3, pág. 32). Os delegados à Convenção Geral eleitos pela Convenção Anual de Genesee foram eleitos contra as disposições expressas da Disciplina. A Disciplina (cap. 2, seç. 2, parte I, pág. 34) exige que os delegados ministeriais sejam eleitos pelos ministros em plena conexão. Mas se permitiu que votassem membros em experiência e supridores. A Disciplina diz que os ministros elegerão os seus delegados e os leigos os seus. Mas todos votaram juntos. Se a alegação de que estamos em estado de formação pode cobrir, na administração em Albion e na ação da Convenção de Genesee, irregularidades que não eram necessárias e que estão em conflito com disposições expressas da Disciplina, será negado a mim o benefício dessa alegação quando organizei Convenções Anuais do único modo como, nas circunstâncias, podiam ser organizadas? Justificarão outros por violarem disposições claras da Disciplina sem nenhuma necessidade e depois, para obter a minha condenação, recorrerão aos usos de outra igreja que existe há muito tempo? Onde está a justiça, a caridade de tal procedimento? Podem homens de Deus agir de modo tão incoerente e pouco caridoso?
“Toquei apenas em alguns pontos principais referentes a esse assunto. Escrevi muito às pressas, rodeado de visitas e cheio de preocupações; mas confio que disse o bastante para levá-los a suspender o seu veredito até ouvirem o assunto apresentado pelos dois lados.
“Que o Senhor os abençoe e guie no caminho certo, e mande paz e prosperidade ao nosso meio.
“Afetuosamente seu em Jesus,
“B. T. Roberts.”
Essa exposição clara e cortês do caso teve peso. Desistiu-se do assunto da Convenção. Certamente a igreja infante não teve nascimento tranquilo, nem berço suave; inimigos de fora e dissensões de dentro tinham de ser enfrentados, e com espírito semelhante ao de Cristo, mostrando na prática a graça que se pregava.
Esse inquietante caso de Susquehanna não teve permissão, porém, de morrer tão cedo. Mais uma prova seria preciso enfrentar antes que essa questão se resolvesse. A Convenção de Genesee de 1863 reuniu-se em Parma, N. Y. Como a Disciplina fora emendada na Convenção Geral do ano anterior, na qual os delegados de Susquehanna tiveram lugar, uma minoria liderada por John W. Reddy objetou a que o superintendente presidisse as suas sessões. Mas não sabiam como organizar-se legalmente, pois ele estava presente. Devia ser uma cena curiosa vê-lo sentado tranquilamente ao lado, submetendo-se com mansidão a que a sua posição fosse debatida em público. Por fim John W. Reddy arriscou o pedido espantoso: “Não permitiria ele que a Convenção fizesse o seu trabalho sem ele na presidência?” Um “Não, senhor” suave mas firme deixou claro que mansidão e força não são incompatíveis. Para aplacar a minoria, ele consentiu num acordo, como sabia fazer quando não havia princípio em jogo. Acalmou-lhes os ânimos consentindo em usar a Disciplina tal como fora adotada originalmente, e não como emendada pela Convenção Geral, de que os detestados delegados de Susquehanna fizeram parte. Esse ato, creio, encerrou o incidente.4
Há, porém, mais uma referência ao caso registrada: a da ata impressa da Conferência de Genesee de 1864. O registro da Conferência diz:
O seguinte documento foi apresentado e aprovado:
Aos membros das Conferências Anuais de Illinois e de Susquehanna.
Prezados irmãos: Na nossa última sessão, os pontos de divergência entre nós foram considerados com franqueza. Estávamos dispostos a reconhecer em vocês a mais perfeita honestidade e reivindicávamos o mesmo para nós. Agindo nessa base, concordamos por unanimidade em ceder metade do terreno e pedimos que vocês fizessem igual concessão e nos encontrassem no meio do caminho. Sentíamos que isso seria mutuamente justo e generoso. Mas, como vocês recusaram a nossa proposta, ainda desejamos ser “um só coração e uma só alma” (At 4.32). Portanto, mantendo a mesma visão do nosso caso de antes, concordamos em abrir mão de todo o terreno da controvérsia e em adotar a nova edição da Disciplina.
Aprovado por 35 a 2.
Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.