W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · Escatologia
O Dia. A segunda vinda de nosso Senhor é o acontecimento único que domina toda a profecia e todo o futuro: supremo em si mesmo, ele está sempre associado à ressurreição universal, ao juízo da humanidade e à consumação de todas as coisas. Embora essas épocas e crises sejam apresentadas juntas, no estilo da profecia, numa perspectiva encurtada, elas são bem distintas. Mas, ao tratá-las como distintas, devemos ter o cuidado de lembrar a relação comum que todas têm com o Dia do Senhor, que é um período fixo e determinado, prefigurado em muitos períodos menores aos quais se aplica o mesmo termo, mas que é o desfecho e a consumação de todos eles.
A vinda. Em toda a antiga economia, um período futuro chamado o dia de Jeová aparece como a única perspectiva de toda a profecia. No Novo Testamento, declara-se que esse dia chegou: todos os propósitos da misericórdia e do juízo divinos são considerados cumpridos no advento de Cristo, que é o último tempo ou o fim do mundo. Mas o dia se desdobra em dias; e o que a predição do Antigo Testamento contemplava como um todo indistinto agora se divide em tempos e épocas, que, no entanto, convergem todos para um único acontecimento, decisivo e fixo: o retorno de Jesus do mundo invisível. Uma luz rica e constante é lançada sobre o dia cristão de Jeová, que é descrito de várias maneiras, em relação à manifestação final da Pessoa de Cristo e à consumação final da sua obra. Quanto a esta última, há algumas teorias históricas de importância muito considerável que precisam ser examinadas.
Quanto à sua Pessoa. Esse acontecimento não pode ser estudado com proveito à parte da obra do Redentor. Mas algumas observações sobre a manifestação final da sua Pessoa prepararão o caminho, além de serem um tributo apropriado ao próprio Senhor. A grande crise está ligada a ele como a sua missão final, a sua segunda vinda e, em ambas, o seu Dia. Nessa ordem temos certa progressão ascendente, que termina na dignidade divino-humana do Senhor, cujo dia está sempre associado à sua glória mais alta. A primeira expressão sugere que, mesmo no céu, o Encarnado continua subordinado e será Enviado. ENVIADO pelo Pai, sendo este o fim do seu estado mediador de humilhação. Ele enviará o Cristo, que já foi designado para vocês, a saber, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até os tempos da restauração de todas as coisas (At 3.20-21). Em harmonia com isso, o Novo Testamento termina com a Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu (Ap 1.1). Mas, nessa revelação, ele anuncia de antemão que aguarda a hora em que, na sua majestade, voltará à terra sem nenhum vestígio do seu estado de humilhação. Como Pessoa divino-humana glorificada, ele Vinda. VIRÁ. Assim ele havia prometido aos seus discípulos: Virei outra vez (Jo 14.3) [N. do T.: a NAA traz “voltarei”]. Esse Jesus que foi levado do meio de vocês para o céu virá do modo como vocês o viram subir (At 1.11), disseram os anjos da ascensão, omitindo o “outra vez”. Eis que ele vem com as nuvens (Ap 1.7) é o testemunho humano correspondente do último apóstolo, quando, em visão profética, contemplou a glória dele e falou a seu respeito. Assim, num sentido, é a vinda; noutro, é a segunda vinda, ou a volta do Senhor. Por isso, também, a Escritura se eleva O Dia. acima dessas duas expressões e fala daquele acontecimento futuro como o seu dia (Lc 17.24), ou aquele Dia (2Tm 1.18), ou o Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6), que é, na nova economia, tudo o que o dia de Jeová era na antiga. O Dia do Senhor (1Ts 5.2) é o horizonte de todo o Novo Testamento: o período da sua manifestação mais decisiva, numa revelação gloriosa de si mesmo que não poderia ser predicada, e nunca é predicada, de ninguém senão de uma Pessoa divina. E esta pode ser considerada a palavra mais enfática usada a respeito do grande futuro.
Consumação. A segunda vinda de nosso Senhor é a sua aparição final e definitiva para a consumação de todas as coisas que dizem respeito à sua obra de redenção.
Termos usados. 1. Os termos usados para descrevê-la são tais que se referem tanto à sua Pessoa quanto ao seu ofício. Devem ser tomados em conjunto, como abrangendo ambos. O mais proeminente é Παρουσία, que indica que, quando ele vier, estará sempre presente: o tempo da sua ausência terá passado para sempre. Pode ser que a palavra não signifique o bendito paradoxo de que ele, sempre presente pelo seu Espírito, estará então sempre presente em pessoa; mas ela significa simplesmente a sua Presença, que então será tão diferente do que é agora que a mudança de uma para a outra não é nada menos que uma nova vinda. Por isso, ela é Ἀποκάλυψις, o desvelamento ou a manifestação de si mesmo desde o céu, que o recebeu. É a Ἐπιφάνεια, a sua manifestação numa glória que o seu povo compartilhará: Quando Cristo, que é a vida de vocês, se manifestar, ou for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele, em glória (Cl 3.4). Na sua primeira vinda, quando se encarnou, a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação, ἐπεφάνη; e nós ainda aguardamos a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador (Tt 2.11-13). Esses diversos termos precisam ser unidos. Eles se encontram todos juntos numa passagem clássica. Quando do céu se manifestar o Senhor Jesus, ἐν τῇ ἀποκαλύψει τοῦ Κυρίου Ἰησοῦ [na revelação do Senhor Jesus] (2Ts 1.7), o iníquo, que também há de ser revelado, ele o destruirá pela manifestação de sua vinda, τῇ ἐπιφανείᾳ τῆς παρουσίας αὐτοῦ (2Ts 2.8). Assim, da combinação de todos eles se segue que, embora esteja sempre presente pelo seu Espírito, ele ainda será revelado desde o outro mundo, de onde também aguardamos o Salvador (Fp 3.20); e o seu poder glorioso e as suas perfeições o acompanharão, para a alegria dos seus santos e a confusão dos seus inimigos.
O fim da sua obra. 2. É muito importante notar que esse grande acontecimento está sempre ligado a um fim e a uma consumação completos daquela obra que o Senhor começou na sua primeira aparição: obra que, na verdade, tinha começado com o início da história humana, mas que, mais propriamente, começou na plenitude do tempo. Com respeito à sua expiação, diz-se que ele aparecerá segunda vez, não para tirar pecados, mas para salvar (Hb 9.28): isto é, sem nenhuma relação redentora com o pecado que ainda encontrará, e para a salvação completa e corporal daqueles que ele já salvou em espírito. Este é um texto capital, e deve-se observar a variação da fraseologia, escolhida com grande precisão. Neste versículo, a palavra é ὀφθήσεται, enquanto noutro, que diz que ele se manifestou… para aniquilar o pecado, era πεφανέρωται; a sua manifestação entre essas duas, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus, é ἐμφανισθῆναι (Hb 9.24, 26, 28). A primeira é a exibição mais visível de si mesmo como Rei, na forma judicial do seu ofício real. Ele vindica a sua expiação contra todos os que a desprezaram. O pecado será finalmente castigado como rejeição dele mesmo e da sua redenção. Quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus (2Ts 1.7-8): sobre todos os ouvintes desse evangelho que então forem encontrados sem o conhecimento evangélico de Deus. Disso trataremos mais adiante.
III, 390A expectativa. 3. Por isso, a Παρουσία é objeto de expectativa somente para a Igreja como tal, como o comprovará o cotejo das passagens em que a palavra é usada. Literalmente, a palavra significa a PRESENÇA do Senhor com o seu povo para sempre, correspondendo à שְׁכִינָה do hebraico posterior e, em são João, ao tabernáculo de Deus com os seres humanos (Ap 21.3). Na Escritura e na teologia corrente, ela se aplica ao começo dessa presença, por uma metonímia comum: a vinda é posta no lugar daquilo que se segue à vinda. O cristão individual tem a sua parte na esperança, mas não como quem espera necessariamente vê-la. Para ele, a noite vem, quando ninguém pode trabalhar (Jo 9.4). Quanto ao corpo coletivo, vai alta a noite, e o dia vem chegando (Rm 13.12). A Igreja nunca morre nem pensa na morte, embora sepulte os seus mortos. Mas, em todo o Novo Testamento, as duas perspectivas estão sempre à vista e são mencionadas no mesmo estilo. Assim como o indivíduo deve lembrar que a morte está próxima, embora tenha toda a probabilidade de sobreviver muitos anos, assim também a Igreja deve lembrar a vinda do Senhor, embora essa vinda possa estar, provavelmente, a séculos de distância.
O tempo. O período da segunda vinda é mencionado continuamente no Novo Testamento, mas de tal modo que exige a máxima cautela do intérprete. A revisão histórica da questão a trará novamente à consideração; enquanto isso, as indicações seguintes são importantes.
III, 391καίρος e χρόνοι. 1. É evidente que o Dia do Senhor é uma estação definida, ou καιρός, precedida por tempos, ou χρόνοι. Mas é evidente também que esses diversos termos se aplicam a outros acontecimentos que prefiguram a sua vinda. Todo o espaço da dispensação cristã é descrito como estes últimos dias (Hb 1.1-2), dos quais se diz que as trevas vão se dissipando, e a verdadeira luz já brilha (1Jo 2.8). É a isso que o Senhor se referiu ao dizer: Abraão, o pai de vocês, alegrou-se por ver o meu dia; e ele viu esse dia e ficou alegre (Jo 8.56). Ele também falou de acontecimentos anteriores à consumação final como sendo a sua vinda. Por exemplo, quando declarou: Dos que aqui se encontram, existem alguns que não passarão pela morte até que vejam o Filho do Homem vir no seu Reino (Mt 16.28), referia-se à destruição da comunidade política judaica e à glória pentecostal do seu Reino, assumido na ascensão. A esse grande acontecimento, que pairava iminente sobre a geração para a qual o Senhor era profeta, podem ser referidas muitas das predições que às vezes são referidas à catástrofe final. Além disso, não há dúvida de que toda intervenção especial para juízo, seja no caso de uma igreja, seja mesmo no de um indivíduo, é descrita como uma vinda do Senhor. Na verdade, às vezes é muito difícil decidir quando a profecia deixa para trás todos os cumprimentos menores e aponta para a consumação suprema. Mas, admitido tudo isso, há uma alusão constante e clara a um dia definido que marca a segunda vinda, ou o retorno de Jesus à terra que ele deixou.
Data desconhecida. 2. Além disso, é evidente que o Profeta supremo da sua própria dispensação estabeleceu como lei do seu Reino que a consumação final deste seja para sempre incerta quanto à data. Mesmo depois da sua ressurreição, ele disse: Não cabe a vocês conhecer tempos ou épocas que o Pai fixou pela sua própria autoridade (At 1.7). Durante o seu estado de humilhação, ele condescendeu em participar dessa ignorância nas suas faculdades humanas: Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai (Mc 13.32). Por isso, nos seus discursos escatológicos, ele respondeu à dupla pergunta dos discípulos, Diga-nos quando essas coisas vão acontecer (Mt 24.3), de modo a impedir que eles tentassem definir tanto a data do mais próximo fim dos tempos, a destruição do judaísmo, quanto a do mais distante fim de todas as coisas. À maneira da profecia antiga, ele deu uma resposta que abrangia todo o futuro numa só série sublime de predições, dando a proeminência àquela catástrofe mais imediata que dizia respeito à geração de então; tanto que não hesitou em dizer: Em verdade lhes digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça (Mt 24.34). A consumação final, porém, estava presente no seu pensamento, e nada menos que ela, quando acrescentou: Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão (Mt 24.35). Nas suas revelações escatológicas no Apocalipse, a ordem se inverte. Primeiro se diz: Eis que ele vem com as nuvens, e todo olho o verá, até mesmo aqueles que o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão por causa dele (Ap 1.7); e depois se segue uma série de vindas subordinadas antes do fim, Eis que venho sem demora (Ap 22.12), que volta de novo ao começo. Esta é uma das chaves de todas as notas escatológicas do Novo Testamento. São Pedro, falando do grande acontecimento, diz que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos são como um dia (2Pe 3.8), a fim de reprimir o espírito de impaciência inquieta. E não há uma única passagem em todos os escritos apostólicos que preste alguma ajuda a uma determinação cronológica exata.
III, 392Perspectiva do Novo Testamento. 3. Em harmonia com essa verdade, deve-se sustentar também que o Novo Testamento dá alguns indícios de um desenvolvimento histórico na sua escatologia. Há alguns acontecimentos que são preditos como devendo ocorrer antes do retorno de Jesus.
A plenitude dos gentios. (1.) O próprio Senhor deu uma indicação clara: E será pregado este evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim (Mt 24.14). Ele não diz que todas as nações o receberão, embora são Paulo profetize que a plenitude dos gentios, τὸ πλήρωμα τῶν ἐθνῶν (Rm 11.25), entrará na cristandade, por uma conversão geral que deixa intocada a questão da conversão pessoal de todos os indivíduos. Naturalmente, entende-se que essas nações são, literalmente, a congregação inteira das tribos do paganismo espalhadas por toda a terra. Relacione-se isso com a comissão dada à comunidade cristã, representada pelos apóstolos, e ficará manifesto que os tempos dos gentios (Lc 21.24) se estendem por todo o percurso da presente obra missionária da cristandade. A vinda final e propriamente dita do Senhor não pode acontecer até que o mundo inteiro tenha sido evangelizado, no sentido neotestamentário da palavra. O Senhor nunca mais pregará pessoalmente o seu próprio evangelho, embora esteja sempre com aqueles que o pregam até o fim dos tempos (Mt 28.20).
III, 393A entrada dos judeus. (2.) O chamado dos gentios implicava, em certo sentido, a diminuição da prerrogativa de Israel; mas se o fato de eles terem sido rejeitados trouxe reconciliação ao mundo, que será o seu restabelecimento, senão vida dentre os mortos? (Rm 11.15). A conversão de Israel deve seguir-se à colheita dos pagãos e resultar numa virtual ressurreição da cristandade. Todo o teor da Escritura aponta para uma restauração da nação judaica por meio da sua aceitação do Messias, e isso como algo que acontecerá antes do retorno final. Também aqui são Paulo é o intérprete da profecia, além de ser ele mesmo um profeta. No fim da Epístola aos Romanos, ele dá o devido destaque à revelação do MISTÉRIO, que agora, afinal, foi dado a conhecer… para a obediência da fé, entre todas as nações (Rm 16.25-26); mas, a caminho desse fim, já havia aludido ao mesmo segredo do céu no que diz respeito aos judeus: Porque não quero, irmãos, que vocês ignorem este MISTÉRIO, para que não fiquem pensando que são sábios: veio um endurecimento em parte a Israel, até que tenha entrado a plenitude dos gentios (Rm 11.25). O endurecimento do coração que caiu sobre os que rejeitaram Jesus deve continuar até que a grande massa das nações pagãs esteja convertida, ao menos nominalmente. Isso não se dá por algum conselho determinado de Deus, mas na ordem do próprio curso de provação deles, como pregou o mesmo apóstolo: Mas, como vocês a rejeitam e se julgam indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios (At 13.46). Mas a hora deles chegará. Quanto à eleição, são amados por causa dos patriarcas (Rm 11.28). Os descendentes de Abraão hão de desfrutar, mais cedo ou mais tarde, o cumprimento de mil promessas, e desfrutá-las como povo; pois os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis (Rm 11.29). Haverá para eles tempos de refrigério (At 3.19-21), para os quais a fé penitente os preparará. Mas isso não envolve nenhuma restauração à sua própria terra, nem distinção alguma entre eles e o restante da humanidade: a vocação e os dons dos gentios também são irrevogáveis; também eles podem dizer: nós é que somos a circuncisão (Fp 3.3); e os filhos da promessa é que são contados como descendência (Rm 9.8). A parede de separação que estava no meio foi derrubada para sempre (Ef 2.14). E todas as predições do evangelho que introduzem o cenário inteiro da Lei e do templo devem ser entendidas como representações figuradas da Igreja cristã.
III, 394Vida milenar dentre os mortos. (3.) O que essa vida dentre os mortos (Rm 11.15) pode significar faz parte do MISTÉRIO (Rm 11.25) da grande mudança que ocorrerá na posição relativa de Israel e dos gentios. Não é a ressurreição literal, pois o Senhor ainda não terá vindo. É, sem dúvida, o grande resultado para a Igreja católica [universal]; e podemos fazer disso o fundamento das mais amplas esperanças a respeito do milênio que já alegraram o coração do povo sofredor de Cristo. Há em perspectiva um estado de ressurreição da sua causa, em comparação com o qual toda a vida anterior foi morte. Embora a primeira ressurreição tenha começado há muito tempo, e multidões de almas tenham ouvido a voz do Filho de Deus e vivido, a era futura ainda reserva a vida mais abundante, da qual desfrutamos, no máximo, apenas as primícias.
Apostasia. (4.) Contudo, nem mesmo então a vinda do Senhor estará literalmente próxima. Uma grande apostasia, ou uma série de apostasias, governada por um só espírito do Anticristo e resultando num só desenvolvimento misterioso, está na história ainda não desenrolada da Igreja, antes do Dia do Senhor. Esse inimigo da Fé é descrito como tendo duas características: é um poder político e uma gigantesca ilusão espiritual, separados e combinados. Mas estes serão finalmente concentrados numa só personalidade, o ἄνομος, o iníquo (2Ts 2.8) [N. do T.: o original indica 2Ts 1.8], que às vezes é chamado, por excelência, o Anticristo. Quem é esse Anticristo, se esse é o seu nome, ninguém sabe. Manifestações anteriores, como ensina são João, nunca faltaram. O poder romano, ou a Besta, foi quebrado, mas outras forças, políticas e intelectuais, sempre se opuseram e chegarão a uma altura até agora sem paralelo. A corrupção espiritual e eclesiástica numa igreja carnal tem lançado a sua sombra sobre a cristandade há séculos; mas ainda lhe resta uma carreira a percorrer antes de desaparecer. A teologia profética tem as suas muitas hipóteses para a explicação dos símbolos de Daniel e do Apocalipse e das palavras claras de são Paulo. Mas ainda não se encontrou na terra o poder ou o ser ao qual todos os termos de são Paulo sejam aplicáveis. Antes do fim, ele será manifestado. Da tribulação que daí resultará, quando Satanás, até então preso, for solto por pouco tempo, o nosso Salvador disse que será como nunca houve desde o princípio do mundo até agora e nunca jamais haverá (Mt 24.21). Pois será a última: a longanimidade de Jesus estará esgotada. Quando a sua Igreja estiver oprimida ao extremo, ele aparecerá de repente, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus, mas para ser glorificado nos seus santos (2Ts 1.8-10).
História. Sobre o tema do retorno de nosso Senhor, a especulação cristã encontrou desde o princípio matéria de interesse profundo e inesgotável. Os erros têm sido abundantes, tanto mais porque a norma a que se apela é a parte profética e, portanto, a mais obscura da Escritura. A história das opiniões pode ser traçada com facilidade no que diz respeito à ideia principal (a do reino milenar), que tem sido o seu centro. Não houve seitas baseadas unicamente em opiniões sobre esse tema; mas quase todas as comunhões cristãs foram mais ou menos contaminadas por elas. Será suficiente notar os estágios críticos do pensamento na era pré-nicena, o aspecto da questão durante a Idade Média até a Reforma e o seu desenvolvimento na teologia mais moderna.
Era apostólica. 1. Mas, antes de tudo, deve-se observar que o próprio Novo Testamento contém os germes de toda a especulação posterior sobre esse tema. Começando pelos apóstolos, encontramos o espírito inquieto de investigação sobre as datas futuras das dispensações divinas reprimido de imediato por nosso Senhor, numa interdição que nunca foi retirada depois. Quem pesa bem as palavras de Jesus nunca sentirá nenhuma disposição para calcular os tempos e as épocas, nem mesmo quando o Apocalipse recomenda com insistência o seu estudo em geral. Os tessalonicenses estavam inclinados a errar nesse ponto; e o apóstolo simplesmente declara que a vinda do Senhor não deve ser considerada iminente de imediato: na verdade, ele dá a entender que todo pensamento sobre esse assunto precisa levar em conta acontecimentos intermediários. As visões do Apocalipse descreviam, para a comunidade daquele tempo, cenas que em breve deviam acontecer, para o encorajamento da Igreja sofredora; mas os que as leram primeiro não foram ensinados com precisão sobre quando esperar a queda do imperador perseguidor e os acontecimentos que se seguiriam. E, de modo geral, o tom do ensino do Novo Testamento considera o Dia do Senhor, a sua vinda e o seu reinado eterno como sempre próximos. Nem os apóstolos nem as igrejas sabiam quando ele viria. E não podemos, sem presunção, supor que algum estudo das profecias nos dará um conhecimento que foi negado a eles.
III, 396Período pré-niceno. 2. Houve um QUILIASMO, ou MILENARISMO, primitivo (as formas grega e latina, respectivamente, dos mil anos do suposto reinado de nosso Senhor na terra), que predominou nos primeiros tempos, especialmente entre os cristãos judeus ou judaizantes: parte do resíduo da sua expectativa messiânica carnal, mantida com tanta tenacidade. No século II, essa doutrina foi amplamente sustentada por cristãos ortodoxos e foi adotada pelos montanistas heréticos. Foi, sem dúvida, a fé de alguns dos Pais da Igreja, como Papias, Justino, Irineu, Cipriano, Tertuliano e Lactâncio; mas de modo nenhum, em tempo algum, a fé da Igreja, como se prova pela sua ausência de todos os credos primitivos. Pode-se dizer, além disso, que, como crença geral, o quiliasmo desapareceu da cristandade com o século IV. Opuseram-se a ele resolutamente aqueles que, como Caio de Roma e Dionísio de Alexandria, negavam a apostolicidade do Apocalipse, em cujo capítulo 20 se baseia principalmente a noção de um advento pré-milenista. A teologia alexandrina, sempre espiritualista e alegórica, condenou-o por causa da sua concepção grosseiramente carnal do reinado terreno de Cristo com os santos. Clemente e Orígenes argumentaram fortemente contra ele em todas as suas formas. Com a adesão do império ao cristianismo, sob Constantino, desapareceu o principal incentivo para acalentar a esperança de um retorno visível e breve de um Redentor vitorioso. Agostinho e outros mestres introduziram uma interpretação da primeira ressurreição e do reinado milenar que referia ambos ao estado presente do cristianismo; e esta tem sido, nos tempos posteriores, a interpretação católica [universal] predominante. Credos primitivos. Por isso, a doutrina de uma vinda pré-milenista de Cristo foi excluída de todas as formas dos credos primitivos, cuja nota dominante é: DE ONDE HÁ DE VIR PARA JULGAR OS VIVOS E OS MORTOS.
Medieval. 3. O quiliasmo medieval foi, em geral, a marca de seitas fanáticas e heréticas. No fim do século X, a cristandade foi profundamente perturbada pela expectativa indefinida de que, decorridos os mil anos (contados a partir do primeiro advento), viria o fim do mundo. Quando esse temor foi abafado, a ideia voltou a adormecer profundamente. Mas, depois da Reforma, os anabatistas na Alemanha pregaram um reinado carnal de Cristo sobre a terra, como mais tarde fizeram na Inglaterra os Homens da Quinta Monarquia, e com consequências terríveis para a vida e para os costumes. Por isso, os símbolos luteranos foram enfáticos em condená-lo. A principal confissão reúne na mesma condenação a ideia de um reinado pessoal e a da restauração final de todas as almas: “Damnant Anabaptistas, qui sentiunt hominibus damnatis ac diabolis finem pœnarum futurum esse. Damnant et alios, qui spargunt Judaicos opiniones, quod ante resurrectionem mortuorum pii regnum mundi occupaturi sint, ubique oppressis impiis” [Condenam os anabatistas, que pensam que haverá fim para as penas dos homens condenados e dos diabos. Condenam também outros, que espalham opiniões judaicas, segundo as quais, antes da ressurreição dos mortos, os piedosos ocuparão o reino do mundo, oprimidos em toda parte os ímpios] (Confissão de Augsburgo). O mesmo fazem os Artigos ingleses mais antigos, ou Confissão de Eduardo VI. As igrejas reformadas foram igualmente firmes. A Confissão Belga fixa a data da vinda de Cristo como aquela em que o número dos eleitos estiver completo: “Credimus Dominum nostrum Jesum Christum, quando tempus a Deo præstitum, quod omnibus creaturis est ignotum, advenerit, et numerus electorum completus fuerit, e cœlo rursus venturum” [Cremos que nosso Senhor Jesus Cristo, quando tiver chegado o tempo determinado por Deus, que é desconhecido de todas as criaturas, e o número dos eleitos estiver completo, virá de novo do céu]. Os Artigos e Formulários da Igreja Anglicana não são favoráveis ao pré-milenarismo: “Cristo subiu ao céu, e ali está assentado até que volte para julgar todos os homens no último dia” (Artigo IV). Pode-se afirmar com segurança que as confissões da Reforma, assim como os seus principais teólogos, se opunham à doutrina de duas ressurreições e de um reinado pessoal de Cristo sobre a terra intercalado entre elas.
Advento pré-milenista. Como nenhuma igreja incorporou essa doutrina à sua profissão de fé, ela ficou, nos tempos modernos, restrita a escolas de pensamento dentro das diversas comunhões, influenciadas, na maior parte, e conduzidas por estudiosos individuais da profecia. As hipóteses modernas para a solução do mistério de uma dupla ressurreição são numerosas demais e diversificadas demais para serem esboçadas, mesmo em linhas gerais. Elas se espalham numa grande variedade de esquemas, e quase todos os que sustentam a ideia geral têm a sua própria interpretação. Desde Mede, talvez o seu primeiro e mais hábil defensor na Inglaterra, e Bengel na Alemanha, um século depois, passando por uma multidão de estudiosos da profecia em quase todas as comunidades religiosas, tem havido um número sempre crescente de crentes na vinda intermediária do Senhor. Divergindo amplamente em mil pontos secundários, eles concordam neste, e pode-se dizer que todas as suas especulações são variações sobre o tema de um advento pré-milenista. Essa crença foi, durante o presente século, incorporada a muitos sistemas, sendo quase a característica principal de alguns. Ainda assim, de modo geral, ela é sustentada apenas por indivíduos e por escolas particulares de interpretação: de modo incoerente, por teólogos das confissões luterana, anglicana, de Westminster e de algumas outras; de modo coerente, somente por aqueles que, em outros aspectos, negam a analogia da fé tal como expressa nos antigos credos, nos formulários da Reforma e no consenso geral da Igreja católica, pois não estão limitados por nenhuma confissão.
III, 3981. O principal fundamento do sistema é a passagem do Apocalipse (Ap 20.1-9) que, segundo se pensa, prediz a prisão de Satanás por mil anos, a primeira ressurreição dos mártires e de outros santos eleitos, que reinam com Cristo sobre a terra, a soltura posterior de Satanás por um pouco de tempo, uma apostasia final e a vinda do Redentor para vindicar a si mesmo e à sua Igreja. Ora, vimos que o nosso Senhor fala expressamente, num só e mesmo discurso, de uma primeira ressurreição, entendida espiritualmente, e de uma segunda ressurreição, entendida fisicamente (Jo 5.28-29). Se aplicarmos aqui o mesmo princípio, essa profecia simbólica, tão disputada, fica em perfeita harmonia com o restante da Escritura, e o fundamento mais sólido do advento pré-milenista é removido.
Várias hipóteses. 2. Os que entendem literalmente as duas ressurreições constroem sobre essa passagem sistemas tão numerosos e tão contraditórios que é impossível chegar a qualquer resultado dogmático coerente. Alguns, como Mede, admitem uma presença gloriosa de Cristo, mas não um reinado pessoal visível. Outros, seguindo Bengel, pensam que haverá dois períodos de mil anos. Outros ainda sustentam que o reinado de Cristo será visível, em Jerusalém, no meio dos seus santos ressuscitados e glorificados; que o templo de Jerusalém será reconstruído e os antigos sacrifícios restaurados, embora apenas como comemorativos; e que o fim da economia cristã, enquanto precede a consumação final, será pouco mais que outra dispensação judaica glorificada. Rejeitando isso, muitos pensam que o Senhor reinará desde o céu, no meio dos seus santos ressuscitados, sendo ele e eles visíveis apenas de vez em quando, segundo a analogia do intervalo dos quarenta dias entre o Cristo visível e o invisível, antes da ascensão. Uma classe ainda mais moderada admite que há certos acontecimentos no programa da profecia que precisam ocorrer antes, e espera por eles com paciência, embora o esforço de inserir esses acontecimentos antes da volta, na verdade, solape a sua doutrina. Frustrada nesse esforço, a maioria se contenta em viver na expectativa diária de um Salvador cuja vinda vencerá toda oposição e dará início a uma dispensação do evangelho nova, melhor, mais eficaz e mais gloriosa; mas isso a obriga a supor que os processos remanescentes da obra mediadora serão miraculosamente condensados ou abreviados, de um modo para o qual as Escrituras não dão nenhum respaldo. Por fim, desesperando de qualquer outra solução, não poucos misturam todas as teorias numa só confusão indiscriminada e professam crer que a volta de Jesus cumprirá todas as profecias de um modo do qual nenhuma teoria jamais concebida dá sequer um indício: que ele conduzirá um juízo por um período indefinido e glorificará gradualmente a terra, até torná-la morada adequada para uma geração de santos que se propagará, como alguns deles pensam, por toda a eternidade.
III, 399Incompatibilidade com a Escritura. 3. A incompatibilidade dessa hipótese com as representações bíblicas da obra de Cristo é refutação suficiente dela. Há uma só aparição visível de Cristo posta diante da expectativa do seu povo. Já vimos os diversos termos que descrevem essa aparição; mas convém observar que um deles, ainda não mencionado, é reservado por são João para o seu último escrito. Ele fala da manifestação do Senhor para tirar os pecados, ἐφανερώθη (1Jo 3.5); e fala de apenas uma outra manifestação: quando ele se manifestar, ὅταν φανερωθῇ (1Jo 2.28). Eis o testemunho final da Bíblia, claro e suficiente. Além disso, o testemunho de Jesus declara que a vinda do Senhor trará libertação à Igreja em aflição: fiquem de cabeça erguida, porque a redenção de vocês se aproxima (Lc 21.28). Isso é incompatível com um milênio como o que as teorias modernas pintam; nele, a terra é transformada em cenário de um reinado que diz respeito apenas a uma parte escolhida dos santos, e no qual, além disso, a redenção do pecado e da tristeza ainda não se realizou: só depois já não existirá mais morte, já não haverá luto (Ap 21.4). E a ideia de tal reinado pessoal depois da sua vinda gloriosa está carregada de dificuldades sem saída. Uma igreja aperfeiçoada em espírito e corpo, glorificada com o Cristo Glorificado, no meio de um mundo ainda em pecado e morte, não se concilia com uma interpretação sóbria da Escritura. Uma rebelião do mundo contra tal domínio seria algo inacreditável; a recaída de tal cristandade seria morte nascida da vida, uma segunda e mais profunda QUEDA DO HOMEM. E, no entanto, essa teoria é obrigada a supor tal recaída. Além disso, onde haveria lugar para o juízo que aguarda a todos igualmente? Teria de haver outra ressurreição daqueles que se converteram durante o milênio, e uma segunda vinda do Senhor para ressuscitá-los e conduzir o juízo mais geral. Por fim, a intercessão de Cristo é apresentada como contínua para sempre, assim como a sua presença espiritual na sua Igreja missionária dura até o fim do mundo; mas ambas são incompatíveis com a hipótese milenarista, em qualquer forma que a sutileza lhe possa dar.
III, 400A fé católica. 4. Não se pode negar que há muitas dificuldades em qualquer visão do assunto, também na nossa. Há grandes diferenças de opinião entre os intérpretes que mantêm firme o princípio geral de que há uma só segunda vinda, correspondente à primeira. Alguns supõem, com Hengstenberg, que o milênio data do estabelecimento do Império Germânico, por volta do ano 800 d.C., e que ele já ficou para trás, estando o fim muito próximo. Outros, e são a maioria, entendem que os mil anos descrevem, de modo indefinido, um estado futuro de triunfo da Igreja, ao qual se seguirá uma recaída temporária, depois da qual o Senhor aparecerá de repente para a destruição do líder, ainda não revelado, da oposição final. Outros se voltam para a interpretação que se pode chamar católica, visto que governou o pensamento da Igreja desde o tempo de Agostinho. Ela se contenta em entender em sentido figurado as representações ardentes das antigas profecias, como aplicáveis à presente Igreja cristã. Toma o Apocalipse como um livro de símbolos, que não apresenta uma história consecutiva, mas volta continuamente ao começo e mostra, em visões variadas, a mesma e única grande verdade final. Satanás foi preso, ou expulso (Jo 12.31), quando o Salvador subiu ao céu: desde então, nunca mais foi o deus e sedutor das nações, como era antes e como lhe será permitido ser de novo por algum tempo. Os santos, os mártires e outros (os mártires em primeiro lugar) reinam agora com Cristo: e nos constituiu reino! (Ap 1.6), cantam eles mesmos; e eles reinam sobre a terra (Ap 5.10) [N. do T.: a NAA traz “eles reinarão sobre a terra”]. Os apóstolos e todos os santos têm parte na primeira ressurreição (Ap 20.6) e, na Regeneração presente, reinam com Jesus, embora a Regeneração futura venha a ser ainda mais abundante. O teor unânime da profecia acerca da glória do reino do Messias deve ser interpretado, em parte, como cumprido no reinado espiritual de Cristo neste mundo, que ainda não se manifestou plenamente como se manifestará, e, em parte, como a figura terrena de uma realidade celestial futura. Pode haver pouca dúvida de que é correto o princípio que faz dessa grande visão uma recapitulação de todo o combate do nosso Senhor com Satanás: o valente que foi amarrado pelo mais valente do que ele (Lc 11.21-22; Mt 12.29). O Anjo é aquele que se manifestou para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8) e que deu ao seu povo o penhor da vitória sobre todo o poder do inimigo (Lc 10.19).
Ressurreição. A ressurreição dos mortos, como efeito imediato da vinda do nosso Senhor, será o primeiro ato, ou ato preliminar, da consumação da sua obra redentora. Para toda a família de Adão, ela será a restituição dos corpos aos espíritos dos quais a morte os havia separado; mas é da ressurreição específica dos santos, em união com a sua Cabeça, que o Novo Testamento fala especialmente. A ideia principal que nos é dada é que o homem recupera a sua integridade, sendo a sua carne adaptada a uma nova esfera e retomada em vista da sua glorificação final.
Cristo. Em relação a Cristo. Em sua relação com o Redentor, a ressurreição tem importância essencial, fundamental e universal. Ela lhe dá um dos seus nomes mais elevados: EU SOU A RESSURREIÇÃO (Jo 11.25). E não há função do seu ofício messiânico que seja atribuída a ele mesmo de modo mais habitual e mais exclusivo. Como Profeta, ele foi o primeiro a revelá-la plenamente, não como doutrina nova, mas como doutrina que estivera na obscuridade; como Sacerdote, ele a obteve por sua expiação, que foi o resgate da natureza inteira do homem; e a palavra da sua autoridade como Rei a realizará. Sem seguir essa disposição específica, podemos, com proveito, acompanhar através do Novo Testamento a conexão entre a obra do Salvador e a ressurreição de todos os homens.
III, 402Revelação cristã. I. Nosso Senhor confirmou e aperfeiçoou a revelação imperfeita do Antigo Testamento: isso fazia parte daquela vida e imortalidade sobre as quais ele derramou a sua luz.
Antigo Testamento. 1. Ele declara expressamente que a ressurreição era pressuposta em toda parte na antiga economia. A repreensão aos saduceus foi muito explícita. E que os mortos ressuscitam, Moisés o indicou no trecho referente à sarça, quando afirma que o Senhor é o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó (Lc 20.37, 36). Assim como os filhos de Deus, assim chamados na nova terminologia do Salvador, são filhos da ressurreição, assim também os antigos pais eram, são e serão sempre dele em sua integridade: dele agora em seu espírito, e no futuro em espírito e corpo. Os seus apóstolos nos ensinaram a usar livremente a chave que o Mestre assim pôs em nossas mãos. A respeito de Abraão, ouvimos de novo que ele ofereceu Isaque, considerando que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde também figuradamente o recebeu de volta (Hb 11.19): essa FIGURA da futura ressurreição de Jesus e da ressurreição geral percorre, sob outras formas, o Antigo Testamento. Foi com essa confiança que os patriarcas desejaram uma pátria superior, isto é, celestial (Hb 11.16), e não sem alusão a ela José deu ordens a respeito de seus próprios ossos (Hb 11.22). Os Salmos muitas vezes se elevam à esperança de uma redenção do Hades em geral, e em linguagem que implica a restauração de tudo o que a morte consome na cova: mas Deus remirá a minha alma do poder da morte (Sl 49.14-15), sendo o objeto da redenção a alma psíquica, que anima um corpo, bem como a alma espiritual guardada na prisão. E a essa esperança Deus responde em Oseias: Eu os remirei do poder da sepultura (Os 13.14) [N. do T.: a NAA traz “do poder do inferno” (no hebraico, sheol, o mundo dos mortos)], onde há o acréscimo notável de que uma verdade figurada se apoia numa verdade literal. O mesmo se pode dizer de muitas passagens que se referem do mesmo modo figurado à ressurreição, como a maravilhosa profecia Os teus mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão (Is 26.19) e a visão dos ossos secos em Ezequiel. A trasladação de Enoque e de Elias lançou mais ou menos claridade sobre todas as concepções das épocas seguintes. Pode-se dizer, em geral, que a restauração literal do corpo só foi aludida vagamente, e com referência especial aos santos. Em Daniel, porém, a ressurreição literal é proclamada estritamente como universal e como ligada ao juízo: Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, outros para vergonha e horror eterno (Dn 12.2). Nisso, como em alguns outros pontos da revelação, a profecia de Daniel parece dar um grande passo em direção ao Novo Testamento, o que se observa especialmente na combinação de ressurreição e juízo.
III, 403Novo Testamento. 2. Mas são Paulo fala do aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, que não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho (2Tm 1.10). Embora a distinção entre fariseus e saduceus prove que a ressurreição era aceita e crida por muitos, e embora o nosso Senhor apele à fé latente de Marta nela, ele sempre fala, como também os seus discípulos, da ressurreição como uma verdade que só no evangelho é plenamente anunciada e confirmada. A proclamação das boas-novas combate a morte em todas as suas manifestações. Retomando aquela última predição de Daniel, o Redentor, que dá a vida, resume o seu grande dom como consumado em duas etapas. Depois de dizer que o crente passou da morte para a vida, ele fala da hora que vem, e JÁ CHEGOU, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão; e então fala da hora que vem, e que ainda não chegou, em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a voz dele e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo (Jo 5.24-29). A revelação mais plena da imortalidade e da vida eterna inclui, portanto, o anúncio antecipado de uma ressurreição do homem inteiro, e da raça humana inteira, para uma existência sem fim. Assim, quando ouvimos o Salvador unir a vida do seu próprio povo à ressurreição deles, que todo aquele que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6.40), devemos lembrar que essa limitação, como a de são Paulo e a de são João mais tarde, pressupõe o pano de fundo daquela passagem anterior.
A pessoa e a obra de Cristo. II. Quanto à relação da pessoa e da obra do Redentor com esse acontecimento, o testemunho do Novo Testamento é pleno e explícito, e as próprias palavras do Senhor abrem aqui o caminho.
Ele mesmo. 1. Ele chama a si mesmo, e é chamado em geral, a vida (Jo 14.6); e esse nome, o mais amplo de todos, é numa ocasião solene restringido à ressurreição do corpo, com o sublime Ἐγώ εἰμι acrescentado: EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA (Jo 11.25-26). O testemunho do Redentor aqui é o mais grandioso e abrangente que temos sobre o assunto: o EU SOU inclui uma fonte de vida e de poder mais profunda que a mediadora: Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo (Jo 5.26). Mas a ordem das palavras indica que a vida, no que nos diz respeito, está ligada à ressurreição. O homem está destinado a passar por um ressurgimento, em vista da vida final e imutável: precisa conhecer o poder de uma primeira ressurreição, para a alma, e de uma segunda, para o corpo. Ambas são descritas nas palavras que se seguem, que apresentam a relação do Senhor conosco. Aqui, porém, tratamos do corpo. E o Salvador mostra a importância dessa ressurreição pelo fato dos seus milagres progressivos nos três atos de chamar de volta à vida: para mostrar que o Filho do Homem tinha autoridade sobre a terra, tanto para perdoar pecados como para ressuscitar os mortos, ele restituiu o espírito da filha de Jairo, que mal havia deixado o corpo; deteve a Morte a caminho do sepulcro com a sua presa, no milagre de Naim; e a obrigou a entregar Lázaro depois de alguns dias no túmulo.
III, 404A sua obra. 2. Mas aqui é difícil separar a Pessoa da obra. A ressurreição universal é, como tudo no processo do desenvolvimento humano, fruto da Expiação; embora isso não seja declarado claramente, a não ser em conexão com o juízo universal, decorre necessariamente da mediação do Deus-homem. Porque é o Filho do Homem (Jo 5.27), ele tem autoridade tanto para ressuscitar como para julgar todos os homens. Essa será a última função do senhorio mediador, que exige poder divino nas mãos de um Homem. Será, como a própria ressurreição do Senhor, a soma e a consumação de todo milagre; ou antes, será como que uma segunda criação, a formação de TODOS os corpos humanos a partir do pó, como no princípio Adão foi formado, mas numa ressurreição que preservará para sempre a identidade deles. A nova criação será também uma reconstrução.
Para nós. III. Com referência especial ao seu povo, o Senhor ressuscitado é o Penhor, o Modelo e a Fonte da vida de ressurreição deles.
Penhor. 1. Ele mesmo, como PENHOR, é chamado as primícias dos que dormem (1Co 15.20) e o Primogênito dos mortos (Ap 1.5); nesse sentido também ele é o Πρωτότοκος, além de sê-lo como o Filho, antes de toda a criação (Cl 1.15), e como o Encarnado introduzido no mundo (Hb 1.6). Em nenhuma relação ele e o seu povo salvo são um de modo mais enfático do que nesta: a ressurreição é dos justos e para a vida; é ἐξανάστασις [ressurreição dentre os mortos]. Quando são Paulo usa esse termo, indica que os que não ressuscitam para a glória eterna permanecem, por assim dizer, mortos, ou ressuscitam apenas para morrer de novo. A ressurreição deles é apenas para a segunda morte (Ap 20.6, 14). Assim como há uma superior ressurreição (Hb 11.35), em comparação com a ressurreição que traz de volta à vida presente, também há uma ressurreição superior, ou verdadeira, em comparação com a ressurreição do juízo (Jo 5.29). E desse ressurgimento específico dentre os mortos Cristo é o penhor.
III, 405Modelo. 2. O corpo glorificado do Redentor é o MODELO segundo o qual serão ressuscitados os corpos dos seus santos. Falando da nossa pátria espiritual, que está nos céus, e com a qual, portanto, o corpo nada tem a ver, o apóstolo diz: de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória (Fp 3.20-21). Há aqui duas palavras de grande importância. A primeira, σύμμορφον [conforme], sugere a mesma ideia que aparece pouco antes em me tornar como ele na sua morte (Fp 3.10): o corpo há de estar sujeito à bendita lei da nossa predestinação para sermos conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29). A outra, TRANSFORMAR, não é a mesma do capítulo aos Coríntios; aqui é μετασχηματίσει, que se refere apenas à nova forma do corpo ressuscitado; lá é ἀλλαγησόμεθα, todos seremos transformados (1Co 15.51), que se refere à transformação total dos corpos já existentes. Ora, é somente desta última que o nosso Salvador foi o modelo. Ele não viu corrupção (At 13.37) e, por isso, não podia ser um exemplo perfeito, em todos os pontos, da nossa restauração da morte, assim como não é o modelo, em todos os pontos, da nossa redenção da pena final do pecado. Há aqui uma analogia com o seu exemplo de santidade: ele não vai à frente no processo da conquista, mas é o exemplar consumado apenas daquilo que devemos alcançar. Viveremos em corpos glorificados como o dele; mas, em nossa redenção do pó, ele não tem parte conosco.
União com Cristo. 3. E o Jesus ressuscitado é a FONTE dessa vida, como a vida comum do homem em corpo e alma. A união com ele é o fundamento, a condição e o segredo da ressurreição dos crentes. Talvez não seja possível demonstrar que aqui está o segredo da ênfase posta na ἐξανάστασις, a ressurreição dentro da ressurreição. Mas é certo que as passagens que mais longamente se detêm nesse acontecimento se referem apenas à ressurreição dos santos. Se Cristo está em vocês, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o Espírito é vida, por causa da justiça. Se em vocês habita o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também o corpo mortal de vocês, por meio do (ou melhor, por causa do) seu Espírito, que habita em vocês (Rm 8.10-11). Por isso, o grande capítulo da ressurreição é, por assim dizer, uma ampliação da própria palavra do Senhor: Porque eu vivo, vocês também viverão (Jo 14.19).
O corpo. O seu objeto. O objeto da ressurreição, como exercício ativo do poder divino-humano, é o corpo. Mas essa fórmula deve ser entendida num sentido bem amplo. Ela deve incluir a integridade perfeita ou indivisa do homem ressuscitado; a identidade real, ou unidade, do corpo como órgão do espírito; e a mudança que o adapta ao seu novo estado, quando ressuscitado. Por isso, três termos são as palavras de ordem da nossa doutrina: a integridade, a identidade e a glorificação da carne ressuscitada no último dia.
Integridade do homem. I. O ensino principal da Escritura, ou pelo menos o mais importante, é o do retorno do homem inteiro à existência: à existência, isto é, na integridade da natureza que, na ideia do Criador, era a de um ser espiritual que se serve de uma organização corporal. Na morte, o homem sofre a pena de uma dissolução que então será reparada. Ele só é perfeito como espírito, alma e corpo. Da morte física se diz: e o pó volte à terra, de onde veio (Ec 12.7); a alma psíquica, o espírito enquanto se serve da organização material, nesse sentido desaparece necessariamente com ele. E o espírito volte a Deus, que o deu: não para a essência dele, mas para a sua guarda, em vista de destinos finais que não foi dado ao antigo Pregador conhecer. Eis que todas as pessoas são minhas (Ez 18.4), disse Jeová certa vez, vindicando a sua justiça como aquela que determina o destino de cada indivíduo da raça envolvida na culpa hereditária; e ouvimos, repetidas vezes, a mesma vindicação com referência aos corpos deles. O homem na sua inteireza é o homem diante do seu Criador, tanto agora como no porvir. Por isso, a ressurreição é a meta de todos os atos redentores. Temos, diz o apóstolo, as primícias do Espírito; mas isso não é a realização de toda a nossa esperança: ainda gememos em nosso íntimo (Rm 8.23). A ressurreição é a redenção consumada do homem: aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo (Rm 8.23). Agora gememos, angustiados, à espera do descanso; depois da morte gemeremos, despidos, desejando ser revestidos (2Co 5.2-4). Em toda a Escritura, diz-se que é a pessoa que ressuscitará. Nenhuma crítica pode nos roubar o antigo testemunho de Jó: Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus (Jó 19.26). Os patriarcas morreram e foram reunidos, cada um, ao seu povo (Gn 25.8). Embora para ele todos vivam, Deus espera pela ressurreição deles para se mostrar plenamente o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó (Lc 20.37-38). Assim como ele não se envergonha de ser chamado o seu Deus, porque lhes preparou uma cidade (Hb 11.16), também não se envergonhará deles como habitantes dela. Falando daquela cidade em que temos o nosso πολίτευμα, a nossa cidadania, são Paulo diz que o Senhor transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória (Fp 3.21). Somos inscritos na nossa integridade presente, e é nela que tomaremos posse. Essa visão geral da ressurreição é de grande importância.
III, 407Identidade do corpo. II. A ressurreição específica é a da carne; e a revelação expressa da Escritura é que os mesmos corpos se levantarão das sepulturas. Mas a identidade do corpo não é a identidade do homem; nem a identidade do corpo depende de que continuem unidas as partículas que foram depositadas na sepultura. Uma breve referência aos exemplos e aos testemunhos da Escritura basta para evitar equívocos nesse assunto.
Analogia com o Senhor ressuscitado. 1. Se se apela para o corpo ressurreto do nosso Senhor, é preciso lembrar que não há analogia. Vimos que a morte nunca completou nele a sua obra de dissolução: a sua organização corporal permaneceu inviolada. O único argumento admissível é que, assim como a glorificação dele se deu numa estrutura física, assim também se dará a nossa. Mas não se diz que seremos ressuscitados como ele foi, para depois sermos glorificados: ressuscita corpo espiritual (1Co 15.44); ressuscita imediatamente como tal. Tampouco os outros casos de ressurreição a que às vezes se faz alusão têm qualquer relação com a questão da identidade. Alguns poucos foram restituídos à vida terrena pelo próprio Salvador; mas não se fala deles como modelos ou ilustrações da ressurreição geral; nem sequer sabemos se foi permitido que Lázaro (a não ser na suposição de Marta) entrasse em decomposição. O mesmo Lázaro foi, sem dúvida, restituído.
III, 408São Paulo. 2. A única referência expressa ao assunto está no capítulo de são Paulo sobre a ressurreição. O apóstolo repreende a insensatez de quem duvida e usa o argumento da analogia, não para resolver o que ele deixa como mistério, mas para afastar a objeção. O mundo presente fornece analogias abundantes da ressurreição futura, mas nenhuma semelhança. Nada na carne sepultada germina como a vida num grão de semente: a nova vida é uma criação direta. Deus lhe dá corpo como ele quer dar (1Co 15.38). Ele não quer dizer que o espírito separado do corpo formará para si um novo veículo; mas que, na ressurreição, será dado ao espírito um organismo espiritual-psíquico, que, pela maravilha do poder divino, será para ele o mesmo órgão que tinha no tempo. O retorno literal do corpo dissolvido ele nunca afirma.
Glorificação. III. A mudança operada adaptará o corpo a novas condições de existência espiritual e psíquica.
1. Haverá novo céu e nova terra (Ap 21.1), aos quais os novos habitantes serão adaptados. Os filhos da ressurreição serão ἰσάγγελοι [iguais aos anjos] (Lc 20.36): nem casam, nem se dão em casamento (Mt 22.30); e, assim como cessará a reprodução, cessará também a nutrição: Deus destruirá tanto o estômago quanto os alimentos, ἡ κοιλία τοῖς βρώμασιν (1Co 6.13). Embora as relações de sexo não venham a ser inteiramente destruídas (pois isso destruiria a individualidade), serão glorificadas. A alma será renovada a ponto de ser uma nova criação, e o corpo será mais do que uma simples restauração: será também uma nova criação. Uma ressurreição estritamente carnal fazia parte de um sistema de erro judaizante que afetava as expectativas ligadas à segunda vinda de Cristo, assim como havia pervertido a doutrina da sua primeira vinda e da sua relação com a lei. São Paulo combate isso. Mas ele dá uma visão ainda mais elevada quando não está combatendo heresia: o qual transformará o nosso corpo vil (o corpo da nossa humilhação) para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas (Fp 3.21) [N. do T.: a NAA traz “corpo de humilhação”]. O que há de ser esse corpo glorioso, a última revelação de Jesus a são João em Patmos nos diz (Ap 1.13-16); mas isso apenas deslumbra a nossa imaginação, enquanto acende a nossa esperança. Os que nunca passarem pela morte física serão transformados (1Co 15.51). É uma palavra muito forte e ilustra aquela série esplêndida de pares contrastantes em que são Paulo se estende: corrupção e incorrupção; desonra e glória; fraqueza e poder; corpo natural e corpo espiritual; tudo isso consumado quando o corpo mortal se revestir da imortalidade (1Co 15.42-44, 53).
III, 409Duas ressurreições. 2. Há uma passagem profética expressa, que algumas alusões incidentais supostamente confirmam, a qual parece predizer uma primeira ressurreição de mártires e santos antes da aparição e do reinado milenar do Senhor. Supondo-se que o profeta se refira a uma ressurreição literal, supõe-se além disso que são Paulo aludiu a ela quando disse: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. E então virá o fim (1Co 15.23-24). Mas aqui tudo é deixado fora de vista, exceto a ordem de relação entre a ressurreição da Cabeça e a dos seus membros. Não se insinua nenhuma distinção nem intervalo entre a ressurreição deles e a de todos os homens. Também se pensa que são Paulo aludiu a isso quando falou da sua esperança de alcançar a ressurreição dentre os mortos, τὴν ἐξανάστασιν τὴν ἐκ νεκρῶν (Fp 3.11). Mesmo que se admita τὴν ἐκ na leitura do texto, isso não prova que o apóstolo aspirasse à distinção de participar de uma primeira ressurreição antes dos restantes dos mortos. Ἐξανάστασις e ἀνάστασις, como se pode ver, são usadas indistintamente. E a sequência do capítulo já citado (1Co 15.44) prova que são Paulo, como os demais escritores do Novo Testamento, não conhece nenhuma ressurreição para as condições físicas desta vida. Não há passagem que se possa fazer servir, sem forçá-la, à teoria de uma dupla ressurreição, excetuada a da visão simbólica do Apocalipse (Ap 20.5). Sobre esse texto duvidoso diz-se mais na doutrina do milênio. Basta agora afirmar que se deve aplicar a ele um princípio de interpretação que o ponha em conformidade com o teor universal do Novo Testamento, que fala de uma só ressurreição comum para um só juízo comum. E esse princípio é dar um sentido espiritual à primeira ressurreição naquela passagem.
Histórico. 1. A ressurreição é, por excelência, uma doutrina do cristianismo. Os germes dela, como de todas as outras verdades, encontram-se no Antigo Testamento; mas o seu pleno desenvolvimento, como um ramo da vida e da imortalidade trazidas à luz por Jesus Cristo, ficou reservado ao Revelador final. No Novo Testamento, o seu desenvolvimento começa de novo. Antes da sua própria ressurreição, nosso Senhor a anunciou de modo geral como uma verdade, em parte em ligação com o seu ofício judicial último, em parte como protesto contra o erro; mas os apóstolos, e especialmente são Paulo, nos deram a base positiva plena da nossa expectativa. E, na forma que eles lhe imprimiram, é uma doutrina nova para o mundo, da qual as antigas especulações hindus, zoroastrianas, egípcias e outras mal deram indício. Como doutrina, seja da antropologia, seja da escatologia, é uma revelação cristã nova e distintiva.
III, 410Igreja antiga. 2. Todas as recensões do Credo Apostólico continham este artigo: principalmente εἲς σάρκος ἀνάστασιν [na ressurreição da carne], às vezes ἀνάστασιν νεκρῶν [ressurreição dos mortos]. Os primeiros Pais da Igreja trataram do assunto com grande amplitude, seja em pura exposição, seja em oposição aos gregos, que negavam essa verdade, e aos gnósticos, que a dissolviam em sutilezas. As seitas gnósticas, na sua aversão à matéria e interpretando mal a primeira ressurreição, a espiritual, afirmavam que a ressurreição já aconteceu (2Tm 2.18). A escola alexandrina, com Orígenes à frente, insistia no corpo espiritual de são Paulo (1Co 15.44) e na diferença entre νεκρῶν e σαρκός ligados a ἀνάστασις: a sua filosofia cristã estava contaminada pelo platonismo, que em alguns casos, embora não neste, elevou as suas concepções. Mas a eles se opôs uma teoria muito literal, que foi ao extremo oposto: Irineu e Tertuliano aceitavam uma primeira ressurreição, segundo a analogia do corpo do Senhor durante os Quarenta Dias, a ser seguida por uma espiritualização final e mais plena. Essas duas visões opostas, a espiritual e a carnal, alternaram-se, até que Agostinho abriu um caminho intermediário: Erit spiritui subdita caro spiritualis, sed tamen caro, non spiritus; sicut carni subditus fuit spiritus ipse carnalis, sed tamen spiritus, non caro [A carne espiritual estará sujeita ao espírito, mas ainda será carne, não espírito; assim como o próprio espírito carnal esteve sujeito à carne, mas ainda era espírito, não carne]. Ele pensava, além disso, que todos ressuscitariam na idade de trinta anos, o padrão de perfeição que Cristo tornou normativo. Os escolásticos medievais tomaram os dois lados opostos, mas na maioria seguiram Agostinho. Os que foram aos extremos eram muitíssimo fantasiosos: alguns deles ensinavam que os mesmos corpos ressuscitariam; os mesmos, até nos cabelos e nas unhas, e em cada característica do corpo entregue à sepultura.
Confissões protestantes. 3. A doutrina protestante foi em geral fiel aos antigos credos: o Apostólico, Credo carnis resurrectionem [Creio na ressurreição da carne]; o Niceno, Exspecto resurrectionem mortuorum [Aguardo a ressurreição dos mortos]; e o Atanasiano, Ad cujus adventum omnes homines resurgere habent cum corporibus suis [Em cuja vinda todos os homens hão de ressuscitar com os seus corpos]. As confissões posteriores conformam-se a eles com notável unanimidade. Os teólogos luteranos discorreram com muita abundância sobre esse tema. Ensinavam que o novo corpo seria a mesma substância, mas revestido de novas qualidades: differunt non ratione substantiæ, sed quoad qualitates et dona (corpora gloriosa, potentia, spiritualia, cœlestia) [diferem não em razão da substância, mas quanto às qualidades e aos dons (corpos gloriosos, poderosos, espirituais, celestes)]. Impiorum corpora sunt vasa ad ignominiam et contumeliam [Os corpos dos ímpios são vasos para a ignomínia e a afronta] (J. Gerhard, XIX, 26; XX, 416). A sua elevada doutrina sacramental expressava-se assim: “Os nossos corpos foram formados em Adão para a imortalidade; pela encarnação do Filho de Deus foram assumidos em afinidade com ele; na ressurreição dele começaram a ser glorificados; foram lavados do pecado no lavar da regeneração; pela fé tornaram-se membros de Cristo no seu corpo místico, templos do Espírito; e foram alimentados e santificados pelo corpo e pelo sangue de Cristo para a vida eterna.”
III, 411Especulações modernas. 4. As especulações modernas são variadas demais para serem examinadas em detalhe: na maior parte, são modificações de erros sustentados nos primeiros tempos. Há algumas que devem ser mencionadas, pois uma teologia sã precisa se opor a elas. Alguns literalistas restaurariam o corpo terreno de modo absoluto; outros, errando para o lado oposto, ensinam que será criado um novo corpo espiritual, sem nenhum ponto de união com o antigo, ou supõem que na restituição a forma humana, ou εἶδος, será conservada sem a substância humana. Não poucos pensam que há um germe de uma corporeidade superior que permanece no corpo dissolvido e que formará para si, de algum modo inexplicável, uma nova estrutura: fazendo assim, de fato, do CORPO o princípio da ressurreição. Outros ainda, como os antigos Pais gregos, ensinam que anima corpus suum creat [a alma cria o seu próprio corpo] e que a ALMA, pelo poder miraculoso de Deus, formará o seu próprio veículo a partir da matéria transfigurada que a cerca. Há uma hipótese bem conhecida segundo a qual o Espírito Santo reveste os que estão sem corpo de um veículo etéreo, que será o núcleo do corpo da ressurreição. Mas nessa matéria devemos nos contentar em esperar: ainda não se manifestou o que haveremos de ser (1Jo 3.2). A nova criação no fim terá, afinal, alguma analogia com a do princípio, quando Deus criou o corpo. Eis que faço novas todas as coisas (Ap 21.5): uma segunda vez, Façamos o ser humano (Gn 1.26).
Juízo. O juízo é, de modo enfático, a revelação final do Juiz e, como tal, a consumação de uma obra judicial que sempre esteve em andamento no mundo. Será executado por Cristo como Deus-homem, em estreita ligação com a sua vinda para ressuscitar os mortos; e o seu alcance será universal e individual. Os princípios do juízo consistirão na aplicação de provas diversas e justas, que revelarão o caráter de todos, seguida de uma distinção ou separação final e eterna. No caso dos ímpios, esse juízo será condenação, em graus diversos, mas eterna; e, no caso dos piedosos, a sua confirmação perpétua na glória e as recompensas do céu.
O Juiz. O JUIZ é nosso Senhor Jesus Cristo, na sua Pessoa indivisível como Deus-homem; mas a sua Pessoa pode ser considerada tanto como divina quanto como humana. O ofício exige ambas: cada uma delas e as duas juntas.
Como Deus. 1. Certamente Deus é o Juiz de todos (Hb 12.23), mesmo na dispensação cristã. E Cristo é Deus. Ninguém senão o Criador pode determinar o destino das suas criaturas e trazer ao seu tribunal todos os súditos do seu domínio; mas nosso Senhor Jesus tem poder para subordinar a si todas as coisas (Fp 3.21). O Juiz tem de ser, necessariamente, aquele que sonda todos os corações: aquele em cuja mão estão a sua vida e todos os seus caminhos (Dn 5.23). Ao Salvador se dirige esta oração: Tu, Senhor, que conheces o coração de todos (At 1.24). Não poderia haver delegação do juízo universal à criatura, assim como não poderia haver delegação de um poder miraculoso universal e absoluto. Será que há outro Deus além de mim? … Não, não há outra Rocha que eu conheça! (Is 44.8). Se o Redentor fosse constituído Juiz simplesmente como homem, segundo as noções de alguns, a sua função seria apenas a execução visível do juízo e da sentença do Deus invisível; mas esse não é o estilo da Escritura. A nossa causa está inteira e unicamente nas mãos dele.
Como homem. 2. Contudo, na economia da redenção, o Pai lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do Homem (Jo 5.27). E Deus julgará o mundo com justiça, por meio de um homem que escolheu (At 17.31). Em relação a nenhuma parte do seu ofício a humanidade de Cristo é mais necessária aos nossos corações desfalecidos, e de nenhum ofício, portanto, ela é declarada mais expressamente. Ele não tem paixões semelhantes às nossas, mas tem carne e sangue semelhantes aos nossos; ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó (Sl 103.14). A sua experiência da tentação (apesar da sua necessária ausência de pecado) faz dele um Sumo Sacerdote que se compadece e um Juiz misericordioso, em cuja alma divino-humana, agora e sempre, até o último extremo do que é compatível com a santidade e a lei imutáveis, a misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg 2.13).
III, 413O Deus-homem. 3. O próprio Senhor declara que o Pai não julga ninguém, mas confiou todo julgamento ao Filho, para que todos honrem o Filho (Jo 5.22-27). Em outras palavras, o juízo, como o último ato Sua dignidade como Juiz. mediador, é confiado pela santíssima Trindade à Segunda Pessoa, enquanto encarnada, porque ele é o Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem; e o exercício dessa função tem de redundar em honra dele. Por isso, será a vindicação final da sua própria dignidade. Aquele que, na sua primeira vinda, era manso e humilde de coração (Mt 11.29), nunca fala da sua segunda vinda senão na linguagem da mais elevada afirmação de si mesmo. Só aqui ele é o Rei, no trono da sua glória (Mt 25.31-34). A sua majestade divino-humana receberá os seus direitos no juízo. Naquele dia ele mesmo será DISCERNIDO (1Co 11.29), isto é, julgado corretamente, e visto como é: então todos os povos da terra se lamentarão (Mt 24.30) por causa da desonra que a raça humana lhe fez. Assim, será a derrota dos seus inimigos, que então serão, de modo enfático, os seus próprios adversários: esses meus inimigos (Lc 19.27). Seja aquele único inimigo, sejam os que estão do lado dele, a vingança do Senhor aguarda a todos igualmente. O pecado será reduzido à sua essência, como incredulidade em Jesus, e o seu castigo é decretado como o ato pelo qual o próprio Cristo vindica a si mesmo. E será a manifestação final dos seus atributos salvadores para com os seus santos. Os segredos mais profundos da vontade graciosa do Salvador para com o seu povo nunca poderão ser conhecidos antes disso. Vocês não o podem suportar agora (Jo 16.12): palavras que se aplicavam tanto às bênçãos da aliança cristã quanto aos seus mistérios. Também nesse sentido aquele dia será o dia da revelação de Cristo. E, por fim, nosso Senhor vindicará então o seu governo moral, exercido ao longo de todas as eras da sua história mediadora. Ele mesmo foi o exemplo mais notável da anomalia de a bondade perfeita ser enfrentada pela perfeita injustiça. Ele então se vindicará como o Administrador do governo moral desde o princípio. O argumento profundo e forte em favor de um juízo final é a necessidade de tal retificação final. Ele provará que esse instinto da natureza humana não foi implantado em vão.
Os julgados. Os JULGADOS são a raça humana, em todas as suas gerações, e especificamente cada membro individual da raça.
A raça. 1. Em toda a economia das coisas humanas mantém-se a unidade da raça. Embora nem todos os homens venham a sofrer literalmente a pena, aos homens está ordenado morrerem uma só vez; e, de modo ainda mais absoluto, depois disso, o juízo (Hb 9.27): as outras coisas, até a morte, são contingentes; o juízo, como o pecado, é certo. Vem julgar a terra (Sl 96.13); o que em Daniel é exposto mais plenamente: Foi instalada a sessão do tribunal e foram abertos os livros, quando o Ancião de Dias se assentou (Dn 7.9-10). No Novo Testamento, a doutrina do juízo eterno tornou-se um dos princípios elementares da nova fé (Hb 6.1-2). Todas as nações serão reunidas em sua presença (Mt 25.32): essas palavras do Evangelho judicial são muito explícitas. São confirmadas em Atos: julgará o mundo com justiça (At 17.31); e na passagem que, tomada no seu conjunto, dá talvez a visão mais ampla e mais solene e, ao mesmo tempo, mais graciosa do juízo: no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos das pessoas, de acordo com o meu evangelho (Rm 2.16). A visão que se apresenta da vasta assembleia da raça humana, vivos e mortos (2Tm 4.1; At 10.42), é a mais maravilhosa que a mente humana jamais foi chamada a conceber: nenhum pensamento finito pode fazer-lhe justiça. Entre as últimas declarações da Palavra de Deus sobre esse assunto, há dois pontos que devem ser notados especialmente: a assembleia das nações é composta de vivos e mortos (1Pe 4.5) e de grandes e pequenos (Ap 20.12): muitos que nunca morreram serão julgados, e também todos os pequeninos do nosso Salvador que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão (Rm 5.14) em sentido algum. O juízo, portanto, deve ser concebido como parte de uma administração final em geral, da qual a investigação da iniquidade e a sua retribuição serão apenas uma parte.
O indivíduo. 2. A individualidade do juízo está implícita em todas as passagens já aduzidas; e é o segredo mais solene do instinto do próprio homem. Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disso, o juízo (Hb 9.27); assim como estabeleceu um dia, e também o Juiz (At 17.31). A única coisa ao mesmo tempo universal e individual em sentido absoluto é o juízo: nem mesmo o pecado e a dor se comparam a ele nisso. No Antigo Testamento, lemos: Deus lhe pedirá contas (Ec 11.9); e, no Novo: que retribuirá a cada um segundo as suas obras (Rm 2.6). Isso afasta toda falsa presunção de um juízo por classes, Nenhum juízo de classes. seja qual for a forma que essa noção assuma. Uma teoria nunca formulada em palavras, mas que às vezes se chama MULTITUDINISMO, contamina silenciosamente muitas especulações. É difícil conciliar o detalhe infinito com a dignidade divina; mas não é mais difícil aceitar um juízo especial do que uma providência especial. Além disso, não existe consciência coletiva: a consciência de cada homem vivo é o penhor Os cristãos incluídos. seguro e a garantia de um juízo individual. E isso exclui a ideia de que os crentes escaparão da prova final. Porque é necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo (2Co 5.10). Aqui poderia haver alguma dúvida, pois se diz apenas que cada um receba. Mas, em outra passagem, o contrário teria de ser afirmado, se fosse verdade: Assim, pois, cada um de nós prestará contas de si mesmo diante de Deus (Rm 14.12); diante do Senhor Cristo. Deus tem de ser justificado no último dia, assim como agora, ao absolver o pecador: agora, pela Expiação; então, pela forma e pela realidade do juízo, que declara o resultado consumado da graça e distribui aos santos as suas diversas recompensas. Deve-se observar, porém, que se estabelece uma diferença entre o juízo dos bons e o dos maus. É preciso começar o juízo pela casa de Deus, tanto agora como no porvir; mas no porvir não será verdade que é com dificuldade que o justo é salvo (1Pe 4.17-18). A prova não será então incerta; o seu rigor e a sua severidade peculiares estão confinados à vida presente.
III, 415Argumento. 3. A universalidade e, ao mesmo tempo, a individualidade do juízo formam um dos argumentos mais poderosos que se podem usar no trato com os homens. A aplicação que são Paulo faz dele no caso de Félix é um exemplo em relação aos não convertidos: Quando Paulo começou a falar sobre a justiça, o domínio próprio e o Juízo vindouro, Félix ficou amedrontado (At 24.25). Quanto ao crente, ele faz dele um uso soleníssimo em outra passagem: E assim, conhecendo o temor do Senhor, procuramos persuadir as pessoas (2Co 5.11). Assim também, com uma repreensão especial ao espírito de julgamento humano e de censura: Você, porém, por que julga o seu irmão? E você, por que despreza o seu irmão? Pois todos temos de comparecer diante do tribunal de Deus (Rm 14.10). E aqui podemos nos referir às sublimes descrições do cenário do grande dia que se encontram tanto no Antigo Testamento como no Novo: algumas literais, como o ministério de todos os anjos (Mt 25.31) e, especialmente, a voz do arcanjo e a trombeta de Deus (1Ts 4.16); outras figuradas, como a de que foram abertos livros (Ap 20.12); mas todas são a tradução, para a linguagem humana, das realidades mais tremendas que a mente do homem pode conceber. Pode-se dizer que o grande dia quase nunca é mencionado sem esses acompanhamentos de pavor.
O juízo. Os princípios do juízo podem ser expostos e resumidos nas cinco palavras-chave seguintes: o Critério, aplicado segundo as diversas medidas de privilégio no estado de provação; a Revelação do caráter; a Separação das classes; a Execução da sentença condenatória; e a Confirmação, ou ratificação, da aceitação dos salvos. Tudo isso se combinará num só resultado. O Senhor onisciente aplicará com justiça os seus critérios infalíveis.
O critério da consciência. 1. A universalidade da lei da consciência é o primeiro critério e, em certo sentido, o mais abrangente, pois precede todos os outros ou está na base deles. A fé ou a incredulidade em Cristo serão assim atestadas, embora esse padrão não costume ser mencionado nesse caso. Mas se fará apelo à consciência moral de todos os homens que não ouviram o evangelho: assim como ela, na vida presente, às vezes os acusa e às vezes os defende, segundo o padrão da obra da lei gravada no seu coração, assim será, diz são Paulo, no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos das pessoas, de acordo com o meu evangelho (Rm 2.15-16). Por isso esse critério, o do juiz e delegado interior, será o único para um grande número de seres humanos. O apóstolo fala enfaticamente da revelação de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras (Rm 2.5-6); e isso com referência ao judeu primeiro e também ao grego. Porque Deus não trata as pessoas com parcialidade (Rm 2.10-11). Como esse critério será aplicado a homens individuais e a vastas nações que nunca ouviram nem puderam ouvir o evangelho, temos de deixar a Deus, o Juiz de todos (Hb 12.23). Podemos ter certeza de que não há na Bíblia nenhuma palavra que proclame a perdição dos gentios como tais. Como o único Deus sábio, nosso Salvador (Jd 25) [N. do T.: a NAA traz “o único Deus, nosso Salvador”, sem “sábio”, palavra que está na KJV seguida por Pope], conciliará esse justo juízo com a verdade de que debaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos (At 4.12), senão o de Jesus, é um mistério; mas não um mistério insondável. São Pedro percebeu, como são Paulo ensinava, que Deus não trata as pessoas com parcialidade; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável (At 10.34-35); e muitos se atreveram a supor que uma preparação semelhante para Cristo será, no porvir, aceita por ele e também o aceitará. Mas isso está além dos limites da teologia dogmática.
III, 417Revelação. 2. A medida da verdade revelada que foi concedida será outro critério ou padrão do juízo. Com referência a esse mesmo assunto, nosso Senhor disse dos judeus: Eles têm Moisés e os Profetas (Lc 16.29); e o Antigo Testamento termina assim a sua predição do juízo: Lembrem-se da Lei de Moisés (Ml 4.4). As próprias palavras de nosso Senhor serão o padrão, especificamente, para a sua própria geração: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para você! (Mt 11.24). De modo mais geral, este será o critério para todos os que ouviram o evangelho: a própria palavra que falei, essa o julgará no último dia (Jo 12.48). E a medida de conhecimento religioso do evangelho concedida aos povos e aos indivíduos constituirá, segundo a exposição repetida que o próprio Senhor fez do princípio do juízo, um critério subordinado: àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido (Lc 12.48). Há, dentro da própria cristandade, variedades de luz e de manifestação quase tão nítidas quanto a linha que separa o melhor paganismo do cristianismo.
Fé e obras. 3. Os critérios da fé e das obras, tomados separadamente e em conjunto, são apresentados como o padrão aplicado somente aos cristãos; mas a eles se aplicarão ambos.
Uma só coisa. (1.) Ora, em relação ao juízo e à sua decisão final, a fé e as obras são realmente uma só coisa. A obra da fé (1Ts 1.3) [N. do T.: a NAA traz “operosidade da fé”; o argumento de Pope se apoia na palavra work, “obra”, da KJV] é a soma e a substância de toda a vida. As obras serão o critério, e a fé será o critério; mas serão uma e a mesma coisa: a fé, o princípio, e as obras, a expressão de uma vida cristã em Cristo. Agora somos justificados não pela fé e pelas obras, mas pela fé, sem o mérito das obras e com a evidência das obras. Assim será na suprema vindicação da justiça da fé.
III, 418Obras. (2.) São muitas as razões por que as obras se tornam tão proeminentes, em todo o Novo Testamento, como critério judicial. É a repreensão permanente e mais solene a todo antinomismo. Refere-se também àquela manifestação final e plena da justiça divina, contra todos os que pudessem impugná-la, que recebe tanto destaque em toda parte. E, por fim, como se verá adiante, as obras serão o padrão pelo qual se determinará a distribuição dos vários graus de recompensa. As gradações serão então tão variadas quanto agora: elas não serão decididas pela fé, mas pelas obras. Comigo está a recompensa que tenho para dar a cada um segundo as suas obras (Ap 22.12): este é o último testemunho de nosso Senhor sobre o assunto.
Manifestação. Tanto no Antigo Testamento como no Novo, o dia do juízo é apresentado como a manifestação final de todos os segredos: de todos os segredos, quer sejam, como tais, não plenamente conhecidos pelo homem, quer conhecidos só por ele mesmo, quer escondidos por ele de propósito e conhecidos somente por Deus. As profundezas, quer do espírito satânico, quer do espírito humano, só são penetradas pelo Perscrutador dos corações. Mas nada se inculca com mais constância do que isto: todos os segredos serão então Segredos. manifestados. O termo SEGREDOS só é usado em duas aplicações: aos mistérios da providência de Deus na terra e aos mistérios do coração e da vida humanos. Mas, quanto a ambos, conserva-se o verdadeiro sentido da palavra mistério: o que está oculto no mundo presente será dado a conhecer no mundo vindouro.
Juízo de si mesmo. 1. Por isso todos os julgados serão, em certo sentido, os seus próprios juízes. Nosso Senhor insiste nisso nas parábolas dos talentos e das minas: Servo mau, eu o julgarei usando as suas próprias palavras (Lc 19.22). O Espírito Santo é, nesta vida, o representante da função judicial de Cristo; e ele faz o pecador condenar a si mesmo no convencimento do pecado, que é a aceitação voluntária da justiça da sentença. Podemos também nos referir às memoráveis palavras de são Paulo: se julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados (1Co 11.31). Esse princípio, aplicado à Ceia do Senhor, tem aplicação geral: para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança (1Jo 4.17).
III, 419O Juiz vindicado. 2. A justiça do Juiz será assim vindicada: Para que sejas justificado nas tuas palavras e venhas a vencer quando fores julgado (Rm 3.4). O Juiz futuro, pela perfeita correspondência entre os livros da sua própria memória infalível e os livros da consciência humana, lidos à luz daquele dia por cada homem para si mesmo, comprovará a sua própria retidão, tanto na justiça como na misericórdia. E o Juiz presente já agora nos traz isso à lembrança: Se eu não tivesse vindo e lhes falado, eles não teriam nenhum pecado; mas, agora, não têm desculpa do seu pecado (Jo 15.22).
A glória somente a Deus. 3. E assim o Redentor manterá a sua glória não partilhada. O último exercício do juízo será o último exercício da misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg 2.13). A revelação dos santos mais santos a si mesmos provará que só a misericórdia infinita os salvou: por isso haverá também, para eles, a revelação do próprio coração. Mas não se permitirá que essa revelação produza vergonha nos que são julgados: se for necessário um milagre para apagar esse elemento da lembrança do pecado, ele será operado; pois nada pode interromper a continuidade entre o paraíso e o céu.
Separação. A ideia de separação, ou discernimento, é inerente ao termo grego κρίσις e a todas as manifestações do juízo.
Distinção final. 1. Será a separação final, o joeiramento do mundo. O juízo já agora está em curso, contínua e mesmo decisivamente. O Salvador disse: Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo (Jo 12.47). Isso deve ser entendido no sentido de que a sua obra preeminente era a salvação e de que o juízo final estava reservado para o último dia. Em outro lugar ele disse: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos (Jo 9.39). Assim como nosso Senhor, em pessoa, por algum tempo, assim agora o Espírito, pela pregação do evangelho, exerce continuamente as funções de Juiz. Mas nenhum juízo na economia da graça, e dentro dos limites da provação temporal, é irreversível: há um grande abismo entre os caracteres, mas não é um abismo fixado (Lc 16.26) [N. do T.: a NAA traz “há um grande abismo”, sem “fixado” (fixed, na KJV), palavra em que o argumento se apoia]; mas o Juízo vindouro (At 24.25) será final, absoluto e imutável. Por isso é o JUÍZO ÚLTIMO OU ETERNO (Hb 6.2).
Duas classes. 2. Essa separação, por sua vez, será dupla em dois sentidos: uma separação ampla entre duas classes, e também um discernimento dentro dessas mesmas classes. Quanto à primeira, a distinção será entre as ovelhas e os cabritos (Mt 25.33); os maus e os justos (Mt 13.49); os santos e os que não obedecem ao evangelho (2Ts 1.8). Em toda parte se mantém essa divisão em duas vastas massas, sendo a alternativa aceitar ou rejeitar Cristo. Mas, dentro dessas grandes massas, prossegue o mesmo processo de joeiramento, discernimento e decisão. Para cada homem haverá um juízo distinto, posterior ao primeiro ou nele incluído, pelo qual se determinarão a sua posição e o seu grau, seja na salvação, seja na perdição.
Condenação. Não pode haver dúvida de que o termo juízo está ligado com mais frequência à condenação: esse é, de fato, o sentido mais κρίσις e κατάκρισις. comum de κρίσις. O juízo, que determina a sentença, a condenação, que a pronuncia, e a execução, que a aplica, são termos quase sinônimos em relação aos ímpios: na Escritura, como na linguagem comum da justiça humana. É κατάκρισις.
Castigo. 1. Isso exige o sentido mais estrito do termo castigo. Não é da correção de um Pai que o testemunho fala: essa se exprime por παιδεία, como quando lemos, em três formas dessa palavra, a respeito do Senhor que castiga todo filho a quem aceita (Hb 12.6). Dessa disciplina se diz: Será que, então, não nos sujeitaremos muito mais ao Pai espiritual, PARA VIVERMOS? (Hb 12.9) Mas esta sentença é sempre para a morte. Não há, em toda a Escritura, uma só insinuação de uma disciplina a que o grande dia entregue os rebeldes para que sejam purificados e emendados. Certamente, se assim fosse, nenhuma economia de reserva teria retido essa revelação.
Perda ou danação. 2. Quanto à natureza da condenação, ela é, negativamente, perda, ou a pœna damni [pena de dano], ou danação: sendo a qualidade e a essência do pecado a separação de Deus, e a sua pena direta, a separação da vida, do centro e do repouso da alma. O pecado não é outra coisa senão o rompimento da vontade com a vontade divina. Nosso misericordioso Senhor nunca pronunciou, nem jamais pronunciará, sentença mais terrível do que esta: estar sem Deus na eternidade é o inferno. Afastem-se de mim, malditos (Mt 25.41): malditos, acima de tudo, nesse mesmo afastamento. Temos aqui um exemplo daquela série de correlativos que percorre todas as revelações desta severa doutrina e que nenhuma sutileza de exposição consegue abrandar até fazê-la desaparecer. Venham, benditos de meu Pai! (Mt 25.34) Afastem-se de mim, malditos! Os homens vêm na sua inteireza; os homens se afastam na sua inteireza. Mas, também positivamente, a condenação do juízo é para um castigo interior e exterior: o afastamento não é apenas de Cristo, mas para o castigo eterno, κόλασιν αἰώνιον. O lamento interior por causa dele (Ap 1.7) está sempre ligado, na linguagem figurada da Escritura, ao sofrimento exterior, e a um sofrimento infligido pela ira do Cordeiro (Ap 6.16). Mas não é possível definir o que significam essas figuras temíveis. Sabemos que nenhum emblema material pode descrever, e certamente não pode aumentar, a bem-aventurança da visão de Deus; e sabemos também que nenhum emblema material pode descrever a miséria da exclusão eterna e consciente dessa visão. E a pena será eterna. E estes irão para o castigo eterno (Mt 25.46). Aqui não há lugar para uma abstração atemporal na interpretação do termo αἰώνιος. O que quer que signifique para os justos, significa também para os ímpios, que sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor (2Ts 1.9). A palavra castigo implica a permanência contínua daquele sobre quem permanece a ira de Deus (Jo 3.36).
III, 421O fruto dos próprios atos. 3. A Escritura considera o juízo sobre o perdido como condenação a suportar o fruto das suas próprias ações. Aquilo que a pessoa semear, isso também colherá (Gl 6.7). Há o pecador de quem se retira o talento negligenciado, o que deixa o espírito sem ofício, sem honra e excluído: Tirem dele a mina. E há os inimigos de quem se diz: tragam-nos aqui e os matem na minha presença (Lc 19.24-27). Mas o terrível fardo é sempre posto sobre o próprio pecador. Ele é visto como o autor do seu próprio caráter e como responsável pela sua própria ruína. Na inteireza do seu corpo e da sua alma, ele colhe o fruto dos seus próprios desígnios: parte do seu pecado foi o mau uso sensual do corpo; parte do seu pecado foi o desvio do seu espírito para longe de Deus; na reunião do corpo e da alma, ele sofre o resultado. E daí se segue que a condenação final é a de uma natureza já ajustada a ela: a colheita é o caráter formado no tempo da semeadura. Aí está o aspecto mais terrível deste terrível assunto. Não é que o Juiz atribua castigo eterno a um pecado temporal, mas que o pecado é levado, já confirmado, para a eternidade. Non cessante peccato nequit cessare pœna [não cessando o pecado, não pode cessar a pena]. Não é só porque o homem pecou, mas porque a sua natureza está desviada de Deus e ele continua pecando: uma das palavras mais solenes de predição ameaçadora de nosso Senhor foi esta: vocês morrerão nos seus pecados (Jo 8.24).
III, 422Aceito por todos. 4. Esse juízo será aceito e acatado por todos, em todo o universo. Não há no Apocalipse mistério mais profundo do que os aleluias pronunciados sobre as demonstrações da ira divina, à medida que avançam de juízo em juízo na sua terrível procissão. Nosso Senhor dá indícios de algum tipo de protesto no fim. Ele interpreta de antemão os pensamentos de muitos corações, quando recebem dele a recompensa por atos feitos, ou não feitos, a ele na pessoa dos homens, seus representantes: como se, na sua própria ausência como Salvador revelado, a fé humana que atua pelo amor pudesse encontrar nos seus necessitados a ele mesmo sob outra forma. Mas ele nada diz de algum pensamento que permaneça em qualquer espírito criado, suspeitando ou censurando um erro judiciário. Sobre isso, porém, não ousamos nos deter.
Confirmação. Faz parte da dignidade dos santos que o juízo, no caso deles, seja apenas a ratificação de um decreto anterior em seu favor e já conhecido por eles mesmos.
Julgados, mas não condenados. 1. Embora julgados, no sentido mais geral dessa palavra administrativa, eles não entrarão em condenação (Jo 5.24) [N. do T.: a NAA traz “não entra em juízo”; Pope segue a KJV (condemnation), e o argumento distingue juízo de condenação]. A morte foi realmente o juízo para eles; os homens muitas vezes a personificaram, na sua esperança instintiva, como o Grande Revelador. Por ela passam à presença de Cristo, que os recebe como Juiz e Separador. Além disso, algumas descrições da ressurreição, e notadamente a grande descrição de são Paulo, apresentam-na, no discernimento que opera, como uma decisão preliminar. Isso pode ser harmonizado com o fato de haver um juízo e, mesmo no caso deles, um Juízo vindouro (At 24.25).
Posição no futuro. 2. O seu lugar e a sua ordem no estado de salvação ainda estão por ser determinados. Vergonha e horror eterno são só para os ímpios (Dn 12.2); mas o próprio Daniel há de, ao fim dos dias, se levantar para receber a sua herança (Dn 12.13): no grau adquirido por uma vida de dever. E isso sugere um paradoxo admirável: os crentes estão em Cristo mesmo enquanto comparecem diante dele, e esperam, como são Paulo, ser achados nele (Fp 3.9). E ainda outra passagem encontra aqui a sua solução: Ou vocês não sabem que os santos hão de julgar o mundo? (1Co 6.2), que é a versão de são Paulo do julgar as doze tribos de Israel de nosso Senhor (Mt 19.28). Cada santo, individualmente, será confirmado no estado e na posição para os quais o seu caráter cristão o preparou. Terá a sua própria morada entre as muitas moradas; a sua própria jurisdição específica, seja sobre as dez, seja sobre as cinco cidades; o seu próprio grau da Visão de Deus.
III, 423No céu não há juízo por vir. 3. Pode-se dizer, por fim, que o último juízo, no caso dos crentes, introduzirá uma nova economia de serviço no reino universal do Deus triúno, que já não será o reino do Mediador. A variedade infinita de ocupações que o Salvador, nas suas parábolas, sempre sugere à nossa expectativa e esperança ocupará para sempre os talentos e os dons individuais dos remidos. Mas naquele novo mundo eles não estão, nem podem voltar a estar, em estado de provação. O seu estado está confirmado e só admitirá um desenvolvimento necessário do bem. Por isso não há, nem pode haver, nenhum Segundo Dia do Juízo.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 387-423, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.