W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · Escatologia

A consumação

III, 424A CONSUMAÇÃO.

A consumação. Pode-se dizer que os desfechos finais do retorno de nosso Senhor são a consumação de todas as coisas. Com referência ao Redentor, ela será o fim do seu reino mediador como tal; com respeito ao homem, será a redenção completa da raça e a sua restauração ao ideal divino e ao propósito primordial do Criador. Quanto ao cenário da redenção, o mundo, ela trará uma renovação ou transformação; e, quanto à Igreja de Cristo, coletiva e individualmente, selará a sua perfeição na visão eterna de Deus e na bem-aventurança do estado celestial.

Fim e novo começo. De modo geral, há um encerramento de todas as coisas que é apenas um novo começo de tudo. O supremo τέλος [fim] é o ponto, o ponto de fuga, para o qual convergem todos os raios da revelação: Então virá o fim (1Co 15.24). Com referência a ele, bem como a todos os processos subordinados da sua obra, nosso Senhor disse: O que a mim se refere tem fim (Lc 22.37) [N. do T.: a NAA traz “o que a mim se refere está sendo cumprido”]. Assim como cada parte da Bíblia, e o volume inteiro do Livro, termina com o seu Amém, assim também o grande e ilimitado plano que ela registra aguarda o seu desfecho, quando o universo inteiro responderá com o seu próprio Amém. Mas a isso se junta sempre a ideia de um novo começo. Eis que faço novas todas as coisas (Ap 21.5). A ordem restabelecida será tão nova que as coisas antigas mal virão à lembrança; mas a relação entre o novo e o antigo é, em muitos pontos, um mistério reservado. Enquanto isso, a combinação dessas duas coisas é a única noção de CONSUMAÇÃO: um fim que se abre para um novo começo. O fim do desenvolvimento humano, composto de pecado e de redenção, não passa de uma contribuição de uma pequena parte daquilo que, para nós, é um universo ilimitado, presidido por um Ser cujos recursos infinitos preparam a nossa mente débil para maravilhas que não conseguimos esboçar para a nossa imaginação, nem mesmo em linhas gerais. A ciência humana nos ensinou muito sobre a assombrosa consumação a que o universo físico chegou; a ciência da fé não conhece limites para a sua esperança. Há um terceiro τετέλεσται [está consumado] da economia divina, a plenitude do tempo no sentido mais pleno, que aguardamos. O primeiro foi quando o mundo foi acabado como cenário da redenção; o segundo, quando o brado do Senhor declarou consumada a nova criação. Devemos olhar com reverência o reflexo tênue do terceiro, tal como ele nos é projetado somente a partir da Palavra de Deus. Essa contemplação deve ser de admiração e de alegria. Assim como Abraão se alegrou por ver de longe o dia de Cristo, assim também todos os filhos do fiel Abraão podem alegrar-se por ver no futuro o dia para o qual todos os outros dias foram feitos.

III, 425O REINO MEDIADOR.

Do reino. Quanto a Cristo. Haverá um fim e um começo do reino do Redentor, na medida em que é um reino da graça trasladado para a glória.

Fim da mediação. 1. A economia mediadora cessará na sua relação com o Deus triúno: a Trindade redentora, que introduziu a economia da subordinação nas duas Pessoas, voltará a ser a Trindade absoluta. O Filho encarnado deixará de mediar; como encarnado, ele será para sempre subordinado, mas nada haverá que declare a sua subordinação: nenhum governo mediador sobre inimigos, nenhum serviço ou culto mediador do seu povo. O Deus triúno será visto por toda a humanidade na face de Jesus Cristo (2Co 4.6); e a mediação da graça se tornará a mediação da glória. O Intercessor não orará mais por nós, mas revelará abertamente o Pai para sempre. O mediador não é de um só (Gl 3.20); mas então se terá cumprido a oração de nosso Senhor: que também eles sejam um em nós (Jo 17.21) [N. do T.: a NAA traz “também eles estejam em nós”]. O homem, acolhido no NÓS do Deus triúno, não precisará mais de mediador.

Fim do reino. 2. O reino cessará porque os seus fins terão sido alcançados. Então virá o fim, quando ele entregar o Reino ao Deus e Pai: ao Pai como Representante da Trindade; quando houver deposto todo principado, bem como toda potestade e poder (1Co 15.24) [N. do T.: a NAA traz “quando houver destruído todo principado”]. O processo das suas vitórias é descrito no Apocalipse: em primeiro e em último lugar, o Anticristo, que é um espírito de incredulidade, ἀντί, CONTRA CRISTO, com muitas formas, como a Besta e o Homem da Iniquidade, e também com uma manifestação pessoal final; toda espécie de paganismo até os confins da terra; as corrupções do cristianismo, representadas na Babilônia, na Segunda Besta e na Prostituta; e, finalmente, a Morte, o último inimigo a ser destruído. Em todos esses conflitos, a Igreja é a comunhão dos companheiros na tribulação, no reino e na perseverança em Jesus (Ap 1.9). Somos um com o nosso Senhor, e ele é um conosco, nessa guerra progressiva e na vitória final. É como o cabeça sobre todas as coisas, dado à igreja (Ef 1.22), que o Redentor exerce agora o seu governo e que então o encerrará; e não se alude a nenhuma outra supressão de autoridade senão a daquela que se opôs aos desígnios do seu reino mediador. Além disso, nada se diz da destruição, mas apenas da deposição, de toda autoridade e poder hostis.

III, 426Novo reino. 3. O reino terá um novo começo: novo como o reino dos novos céus e nova terra (2Pe 3.13) unidos num só. O Espírito de Cristo será o vínculo imanente entre ele e nós, entre nós e a Santíssima Trindade: aquele que se une ao Senhor é um só espírito com ele (1Co 6.17). A Pessoa encarnada será então glorificada como nunca antes: a sua personalidade, como divina, não será mais velada nem obscurecida por humilhação alguma, nem será revelada de modo intermitente. DEUS SERÁ TUDO EM TODOS (1Co 15.28): primeiro na Santíssima Trindade e depois, por meio de Cristo, em nós.

ERROS.

Histórico. Sobre este assunto podem-se notar alguns erros, principalmente antigos.

1. Entre os primeiros esforços para conciliar a unidade absoluta de Deus com a Trindade econômica, encontramos vestígios da heresia noeciana Erro patrístico. e sabeliana segundo a qual, com a consumação da obra de Cristo, a essência triúna da Divindade será dissolvida: o Espírito Santo deixaria de ser o nome da manifestação operante de Deus, e o Filho renunciaria ao seu ofício e submergiria na Divindade, de modo que, nesse sentido, Deus seria tudo em todos. Mas a relação do Filho com o Pai é claramente pessoal no fim, como em todo o percurso: a palavra que nos descreve a derradeira atuação daquele que tanto fez como Mediador entre Deus e os homens define o último ato do Filho na sua própria relação de filiação, pois o reino é entregue ao Deus e Pai (1Co 15.24). A multidão santificada da humanidade é uma com Cristo; e assim a obra santificadora do Espírito chega ao fim. A economia trinitária cessou; e Deus, a Santíssima Trindade, é tudo em todos.

III, 427O Filho, um com o homem para sempre. 2. Pensou-se que o Filho, tendo realizado o objetivo para o qual assumiu a nossa natureza, renunciaria a essa natureza e a entregaria também ao Pai. Mas nem nós podemos abrir mão da nossa Cabeça, nem a Cabeça abrirá mão dos seus membros. A sua natureza humana é uma veste que ele não despirá; na verdade, é mais do que a sua veste: é parte do seu Eu eterno. Não há nenhuma personalidade humana independente a que renunciar.

Uma economia nova e desconhecida. 3. Uma noção sutil, que às vezes adormece e às vezes desperta na teologia, pode ser detectada aqui e ali: a de que no fim será instituído outro governo, mais amplo, mais profundo, mais católico e mais eficaz do que o antigo; e de que, entre as coisas feitas novas, haverá novos expedientes que corrigirão as deficiências e as anomalias da economia substituída. Recuando diante da afirmação clara de que o fracasso do Filho encarnado será reparado por alguma dispensação nova e melhor, ainda assim insinuam isso continuamente. Na verdade, toda especulação que insiste em encontrar uma base para a esperança de uma restauração universal de todas as criaturas a Deus procede realmente de um pensamento como esse.

A HUMANIDADE SALVA COMO RAÇA.

O homem. A raça salva. Na consumação, a humanidade como tal, e como raça, será salva. O propósito divino na criação do homem à sua própria imagem será cumprido, por meio da mediação expiatória daquele que veio para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8) entre os homens. Toda a história da raça tem sido a execução de um só desígnio: um só desígnio, em cuja realização muitos outros foram subsumidos e cuja realização pode abrir caminho para muitos outros. Aqui é importante lembrar que o propósito da vinda de nosso Senhor é sempre considerado como cumprido. Ele veio como o Salvador predestinado e necessário. O triunfo profético do Antigo Testamento foi: Não desanimará, nem será esmagado (Is 42.4); a resposta do Novo Testamento é: é necessário que ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés (1Co 15.25); e o cântico de toda a Escritura é que a sua mão direita e o seu braço santo lhe alcançaram a vitória (Sl 98.1). O propósito redentor de Cristo quanto à família de Adão tem de ser cumprido, e foi cumprido: não apenas na reunião de um remanescente eleito tirado das gerações, mas na salvação da humanidade. Mas como se pode dizer que é assim? Há duas respostas: a raça, na sua vasta maioria, a raça como tal, é efetivamente salva; e, quanto ao restante, será lançado fora não só de Deus, mas também da humanidade, e não será levado em conta.

III, 428A raça salva. 1. A maioria dos objetos da redenção já pertence, ou certamente pertencerá, ao Senhor para sempre; ele não é Senhor de mortos (Rm 14.9) apenas por prerrogativa, mas também por posse efetiva. Todas as crianças cujo desenvolvimento foi interrompido na terra passam a ele por direito adquirido. E podemos crer, sem sermos capazes de declarar positivamente os fundamentos da nossa certeza, que muitos dos homens de boa vontade que nunca ouviram a paz na terra anunciada pelos anjos ainda assim cantarão glória a Deus nas maiores alturas (Lc 2.14) [N. do T.: a NAA traz “paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem”]. É o que parecemos ouvir na descrição proléptica que o Rei faz daqueles que se maravilharão com o seu livramento e com o seu Libertador: Quando foi que vimos o senhor…? (Mt 25.37). Pouco sabemos de como ele estenderá o seu governo (Is 9.7) à parte da pregação direta do seu evangelho, mas podemos esperar muito. E, à medida que essa extensão prossegue pelas melhores eras do milênio, o afluxo das nações para a cidade será cada vez mais abundante. Embora deva haver uma grande apostasia, e o Filho do Homem nos deixe a sua pergunta, será que ainda encontrará fé…? (Lc 18.8), essa defecção durará apenas pouco tempo.

2. No mesmo sentido em que se diz: todo o Israel será salvo (Rm 11.26), pode-se dizer que a humanidade é salva. Os perdidos não prejudicarão a unidade da raça: repudiados por Deus, são renegados pelos homens. O que é que a palha tem a ver com o trigo? (Jr 23.28). Supõe-se que deixem a comunhão da humanidade e passem à companhia do diabo e seus anjos (Mt 25.41), para vergonha e horror eterno (Dn 12.2); e deles também podemos dizer: Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos (1Jo 2.19). Mas o nosso melhor argumento e a nossa maior certeza é que aquele que conhece o preço da sua própria vida e morte ficará satisfeito (Is 53.11).

HIPÓTESES ERRÔNEAS.

Histórico. Há duas teorias opostas a respeito da redenção da raça que diferem daquela que é dada na Escritura: a dos que sustentam a doutrina de uma restauração final de todas as inteligências morais, e dos homens em particular; e a dos que pensam que os membros réprobos da raça serão aniquilados. Algumas especulações intermediárias conservam a doutrina de uma permanência eterna dos perdidos, mas se esforçam de várias maneiras para atenuar a ideia do seu castigo ou mitigar o seu horror.

III, 429UNIVERSALISMO.

Restauração universal. A crença ou a esperança de que a consumação de todas as coisas será a restauração de todos os seres inteligentes à imagem e ao favor de Deus tem encontrado defensores em todas as épocas. Essa esperança sempre buscou o seu melhor apoio no que se pode chamar argumentos a priori [anteriores à experiência]; também reivindica algumas passagens da Escritura como sustentação do seu princípio; mas nunca foi aceita pela Igreja cristã em geral, desde o princípio, nem por nenhum dos seus ramos até o seu desenvolvimento recente.

Princípios. I. Os seus princípios gerais, por mais plausíveis que sejam, admitem em todos os casos uma resposta suficiente.

O castigo não é remediador. 1. Se se diz que o castigo, pela natureza das coisas, é apenas remediador, essa afirmação não pode ser sustentada. A reforma é o propósito da correção; e a emenda do ofensor está necessariamente ligada à nossa noção de disciplina corretiva; mas a ideia de pena, que está na base de todo o pensamento humano sobre este assunto, não contém nenhum outro elemento senão o da retribuição. Se se apela da jurisprudência humana para a divina, basta-nos dizer que a Escritura, pelo menos, distingue cuidadosamente entre a correção pura, que visa emendar o ofensor e dissuadir outros de ofensa semelhante, e a vindicação da lei. Assim como a prevenção, a reforma e a retribuição coexistem nos princípios judiciais da jurisprudência humana (ninguém pode negar isso), também coexistem na economia divina. Assim como o último extremo na primeira é a aplicação da pena pura, assim também na segunda: há um pecado que leva à morte (1Jo 5.16) no tribunal da justiça humana, e há também no da divina. Como argumento a favor de uma restauração necessária, isso Experiência. também falha quando se lhe aplica a prova da experiência. Não há conexão entre sofrer a pena da transgressão e a emenda de vida. Se esta segue aquela, é pela operação de alguma outra coisa além da pena. Embora não se suponha que já estejamos em terreno bíblico, não podemos deixar de apontar o tom constante da advertência da Escritura contra o descaso para com os propósitos da disciplina, descaso cujo desfecho, segundo ela, é um estado de reprovação que não pode ser emendado. O que a Bíblia descreve, nós o vemos na vida humana: homens que, rebelando-se contra as correções e contra o Espírito da graça que as aplica, avançam cada vez mais na impiedade, endurecidos pelas suas calamidades. E, se a pena permanece, sem a graça do estado de prova, que juízo racional pode fazer do propósito do castigo um argumento a favor de uma restauração necessária a Deus? A religião natural da humanidade, com um instinto certeiro, regulou as suas concepções do futuro pelo princípio de uma retribuição final e estrita como tal. E na religião revelada da Bíblia encontramos um testemunho como este: A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor (Rm 12.19). Antes, na mesma epístola, são Paulo pergunta: Seria Deus injusto por aplicar a sua ira? (Falo em termos humanos.) É claro que não. Do contrário, como Deus julgará o mundo? (Rm 3.5-6). Se se pesarem as duas sentenças, ἐμοὶ ἐκδίκησις [a mim a vingança] e ὁ ἐπιφέρων τὴν ὀργήν [o que aplica a ira], e se observar a ênfase da última, a ira, será impossível duvidar de que há uma manifestação vindoura da indignação divina contra o pecado, com a qual a emenda de quem a sofre nada tem a ver. Isso é sentido por todos os que consideram a morte ameaçada como uma extinção do espírito condenado, dos quais falaremos mais adiante.

III, 430Tendência à perfeição. 2. O argumento contra uma condenação final de qualquer criatura inteligente é muitas vezes defendido, em termos gerais, com base na tendência de todas as obras de Deus para a perfeição. Assume-se como princípio que, se existe um Controlador supremo de todo desenvolvimento, ele deve fazer com que todas as suas obras acabem bem no fim. É difícil resistir a esse argumento: ele parece logicamente irrespondível. Essa é a Otimismo. forte alegação do otimismo: aquilo que chamamos mal é convertido na etapa necessária para o bem final. Às vezes se traça uma analogia com os fenômenos do universo físico; mas é uma analogia infeliz, pois o desenvolvimento perfeito sacrifica muitos indivíduos pelo caminho. Seria apenas responder ao argumento segundo a sua tolice dizer que a perfectibilidade da raça é compatível com a perda final de muitos indivíduos dela. Mas o fato é que nenhuma perfectibilidade desse tipo, à parte do fermento do evangelho, parece uma teoria razoável. Pode-se conceder o progresso da raça, intelectual, social e esteticamente; no conjunto, ela avança de modo constante. Esse progresso, por um lado, deve muito ao evangelho; e, por outro, de modo algum é sinônimo de melhora moral. Alta cultura e conformidade com a lei perfeita não andam necessariamente juntas. Quanto ao indivíduo, vemos muitas vezes uma progressão manifesta em tudo o que é mau, até o fim, em infeliz ligação com uma progressão constante em tudo o que é intelectualmente bom. Além disso, o argumento, como um todo, prova demais: se se insiste em que todas as obras de Deus devem atingir um padrão de perfeição, somos obrigados a inverter a aplicação e perguntar por que elas foram imperfeitas em alguma etapa. Esta e muitas outras alegações do universalista devem ser reduzidas ao silêncio pelo simples fato de que o mal existe.

III, 431A Escritura. II. O argumento tirado da Escritura está mais estritamente ao alcance das nossas faculdades; e este deve ser, para nós, o árbitro final. Aqui encontramos invocadas, primeiro, as representações gerais do caráter divino; depois, o propósito especial da Expiação; e, por último, as declarações expressas do Novo Testamento quanto ao desfecho de toda a obra de Cristo.

O caráter divino. 1. A força da primeira alegação é simplesmente esta: se o Ser divino é infinito em amor, infinito em poder e infinito em sabedoria, é impossível que alguma criatura das suas mãos seja excluída eternamente da sua presença. Há nessa alegação algo que quase desarma a resistência, até que nos lembremos de que tanto a revelação da natureza, que conhece os terrores do Senhor e persuade os homens, quanto a da revelação conspiram para nos apresentar um Ser que contradiz o argumento. O amor de Deus como atributo é sempre cuidadosamente qualificado, de modo a protegê-lo da perversão. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho [como] propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10): esse amor exige um ἱλασμός, provê-o para o mundo e lamenta que muitos o rejeitem. Há limites necessários ao exercício do poder divino, se não ao próprio poder; e a relação de um Governador moral com inteligências livres impõe uma dessas limitações necessárias, pelo menos na doutrina da Escritura. E, na Escritura, é literalmente a Sabedoria de Deus que prediz o seu próprio fracasso: porque clamei, e vocês se recusaram a ouvir! (Pv 1.24). Esse estilo de argumento leva ao ateísmo, ou ao maniqueísmo, conforme o caso; mas não, legitimamente, ao universalismo. Qualquer força que tenha neste assunto há de redundar em favor do princípio aniquilacionista. Mas o fato é que, por mais estranha que pareça a afirmação, com a Bíblia nas mãos não devemos fazer nenhum apelo à natureza de Deus em abstrato. Esse apelo, se levado ao extremo, tornaria a grande Expiação uma exibição supérflua de recursos contra o mal; mais ainda, levaria a dificuldade mais para trás e perguntaria por que o mal chegou a ser permitido. Tanto o começo quanto a continuação do pecado são inescrutáveis; mas um não mais do que o outro.

III, 432O propósito da Expiação. 2. O argumento tirado do propósito da Expiação é ainda mais fácil de responder. Temos, naturalmente, de aceitar as declarações do Novo Testamento sobre este assunto, pois aqui não há lugar para uma discussão abstrata do que poderíamos conceber que a Redenção deveria ser. Diz-se que Cristo veio para aniquilar o pecado (Hb 9.26), ἀθετῆσαι, o que de fato é muito forte, mas não envolve a ideia de abolição universal, como mostra o contexto. Nem a envolve a passagem que diz que Cristo se manifestou para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8), λύσῃ. Não há uma única alusão ao Sacrifício que faça do seu objeto a aniquilação do mal moral. A Expiação providenciou a destruição eficaz do pecado naqueles que a recebem; e sustentamos, com a Escritura, que ela valeu para muitos que, apesar disso, perecem, seja qual for o sentido dessa palavra. Alegam-se as palavras de são Paulo, segundo as quais Deus haveria de fazer convergir nele, em Cristo, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra (Ef 1.10); e com elas se devem ligar estas outras: por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas (Cl 1.20). O contexto mostra que essas passagens se referem principalmente à redenção da humanidade, como o reconduzir da raça à sua unidade com as outras ordens do universo. Devemos lembrar aqui o cânon fundamental da analogia da Escritura. Do mesmo Redentor se declara que não socorre anjos (Hb 2.16); e, seja qual for o sentido da misteriosa reconciliação entre o homem e as outras ordens de inteligências, ela não pode significar que o Salvador reconciliou com Deus o diabo e os seus anjos. Ele foi feito, por um pouco, menor do que os anjos, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos (Hb 2.9). Este é um texto flexível. O predestinacionista entende ὑπὲρ παντός como a massa total dos efetivamente redimidos: todos aqueles por quem o Senhor morreu são salvos. O universalista toma a palavra na sua extensão mais ampla: pode seguir Orígenes, que interpretava ὑπὲρ παντός não como por todo homem, mas como por todas as coisas, e lia não χάριτι Θεοῦ, pela graça de Deus, mas χωρὶς Θεοῦ, fora de Deus, trazendo assim todos os pecadores, do maior ao menor, para dentro da esfera da redenção. Sustentamos que o contexto a limita ao homem; e que todo o Novo Testamento fala de dois propósitos na Expiação: um que se estende a toda a raça, e outro limitado aos que de fato se beneficiam dela. Assim, diz-se que [veio a graça] sobre todos para a justificação que dá vida (Rm 5.18). Mas o Novo Testamento fala de Deus, Salvador de todos, como o Salvador especialmente dos que creem (1Tm 4.10).

III, 433Passagens da Escritura. 3. Diz-se que umas poucas alusões à consumação final anunciam expressamente, de antemão, uma restauração de todas as coisas a Deus. Que sejam poucas não é argumento contra elas: as afirmações expressas de um castigo eterno também são poucas. Nem é refutação o fato de parecerem contradizer outras; pois há, sobre muitos assuntos, declarações aparentemente antitéticas, cuja conciliação tem de ser adiada para a eternidade. Mas as passagens citadas a serviço da Restauração não têm referência direta à questão; as que se citam contra ela foram ditas expressamente sobre este assunto, e sobre nenhum outro. São Paulo, nas declarações do capítulo da ressurreição, tantas vezes invocadas, refere-se evidentemente apenas ao propósito da morte de Cristo enquanto realizado nos seus santos: a nota dominante do todo é Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda (1Co 15.23). Estes são os TODOS de quem se diz que, assim como morreram em Adão, em Cristo serão vivificados: será verdade que toda a raça dos mortos viverá de novo, mas não em Cristo. O Senhor deporá todo principado, bem como toda potestade e poder (1Co 15.24) [N. do T.: a NAA traz “houver destruído”]. Tanto destes como da morte se usa o verbo καταργεῖν, que não inclui a ideia de destruição literal; e, quando se acrescenta para que Deus seja tudo em todos (1Co 15.28), devemos entender que DEUS é tudo, em distinção do governo mediador e intermediário exercido por meio do Representante do homem, e que Deus está em todos os salvos, os únicos ali mencionados. Aos inimigos postos debaixo dos seus pés (1Co 15.27) opõe-se, em outro lugar, a propriedade que ele remiu e purificou para si mesmo (Tt 2.14): eis os polos opostos por toda a eternidade.

Histórico III. Houve, desde o princípio, um protesto constante contra este dogma na Igreja católica de Cristo, embora muitos indivíduos influentes o tenham sustentado nos primeiros tempos e algumas seitas Orígenes. mais modernas tenham se esforçado por pô-lo em voga. Orígenes, às vezes com mais ousadia, às vezes com mais timidez, defendeu a ideia de uma restituição universal: não uma Restauração apenas do homem, mas o UNIVERSALISMO, que inclui Satanás e os seus anjos. Destrui novissimus inimicus ita intelligendus est, non ut substantia ejus, quæ a Deo est, pereat sed ut voluntas inimica, quæ non a Deo sed ab ipso processit, intereat. Destruetur ergo non ut non sit, sed ut inimicus non sit et mors. Nihil enim Omnipotenti impossibile est, NEC INSANABILE EST aliquid Factori suo…. [Que o último inimigo seja destruído deve ser entendido assim: não que pereça a sua substância, que vem de Deus, mas que se extinga a vontade inimiga, que procedeu não de Deus, mas dele próprio. Será, pois, destruído, não para que deixe de existir, mas para que deixe de ser inimigo e morte. Pois nada é impossível ao Onipotente, NEM É INCURÁVEL coisa alguma para o seu Criador….] (Orígenes, Tratado sobre os princípios III, 6, 5) Quæ quidem a nobis etiam cum magno metu et cautela dicuntur, discutientibus magis quam pro certo et definito statuentibus. [Estas coisas, na verdade, são ditas por nós com grande temor e cautela, como quem antes discute do que estabelece algo como certo e definido.] (Orígenes, Tratado sobre os princípios I, 6, 1). Orígenes foi combatido por escrito e formalmente condenado. Teve poucos seguidores, embora Diodoro de Tarso, Gregório de Nissa, Teodoro e alguns outros Os credos. tenham seguido, com hesitação, as suas pegadas. Os primeiros credos assinalam o progresso da doutrina católica. O dos Apóstolos e o Niceno falam apenas da vida eterna. O Atanasiano acrescenta: Ad cujus adventum omnes homines resurgere habent cum corporibus suis, et redituri sunt de factis propriis rationem, et qui bona egerunt ibunt in vitam æternam, qui mala in ignem æternum. [Na sua vinda, todos os homens hão de ressuscitar com os seus corpos e prestarão contas dos seus próprios atos; e os que fizeram o bem irão para a vida eterna, e os que fizeram o mal, para o fogo eterno.] Na Idade Média, os místicos panteístas favoreceram ora a extinção do mal, ora a sua transformação em bem. Alguns dos sectários que perturbaram a época da Reforma reavivaram a noção de uma restauração universal e foram expressamente condenados pelas confissões luteranas. Nos tempos modernos surgiu grande número de seitas, especialmente na América, que sustentam esta doutrina, e algumas delas tiram dela o próprio nome. Mas ela nunca foi ensinada em nenhuma confissão da cristandade, por mais que entre nas especulações e nas esperanças particulares de pensadores individuais.

III, 434ANIQUILAÇÃO.

Aniquilação. O fim a que o universalismo chega por um caminho, a hipótese da ANIQUILAÇÃO o alcança por outro: ela salva a raça como um todo à custa da própria existência da parte não salva. Como na hipótese alternativa, temos de considerar alguns princípios fundamentais; depois, os testemunhos diretos da Escritura; e, por fim, as suas relações históricas com o credo da Igreja.

Princípios I. Os princípios subjacentes a esta opinião podem ser considerados aspectos opostos de um único argumento fundamental: o de que o homem não tem imortalidade à parte do dom de Cristo, e de que essa imortalidade é a única bênção da sua redenção.

III, 435Imortalidade natural. 1. Não se admite que a questão da imortalidade natural do homem seja absolutamente decisiva; e talvez se tenha feito depender dela, na controvérsia, mais do que ela pode sustentar. Os que afirmam que na imagem de Deus impressa no homem havia, na criatura, um reflexo da eternidade de Deus, e que essa imagem natural não foi destruída pela Queda, possuem um argumento que resolve o assunto de imediato. Essa é, sem dúvida, a visão da Escritura, que em parte alguma afirma ou prova a imortalidade do espírito humano, assim como também não afirma nem prova a existência de Deus. Para nós, portanto, a questão está decidida desde o início. Mas a nossa convicção não tem força contra os que sustentam que o dom da imortalidade foi perdido quando o homem pecou.

Vida em Cristo. 2. A questão, portanto, tem de voltar-se para o outro aspecto dela. O benefício da redenção foi a restauração da imortalidade, ou um novo dom dela, para a comunhão dos que são achados em Cristo? É isso que afirmam os defensores da aniquilação, cujos argumentos múltiplos podem ser enfrentados de múltiplas maneiras.

A redenção da raça como tal. (1.) Em primeiro lugar, há dois aspectos da intervenção redentora de Cristo: um absolutamente universal e outro particular. Quanto ao primeiro, em qualquer sentido em que a raça humana morreu em Adão, ela vive de novo em Cristo. A ressurreição universal é a prova disso; e, com base nela, todos os homens são tratados não como estando em provação para a existência eterna, mas como estando em provação quanto ao seu destino nessa existência eterna. A reconciliação de Deus com o homem, ou com o mundo inteiro, implica que todos os homens são, pelo próprio direito de nascimento, membros de uma raça salva da extinção. Cremos nisso porque cremos na redenção universal. Os aniquilacionistas não creem. Limitam o benefício da relação do nosso Senhor com a raça à oferta de viver para sempre. Chegam, por um caminho próprio, ao mesmo fim do predestinacionismo: o predestinacionismo entrega os não redimidos à reprovação eterna; a teoria aniquilacionista, à extinção eterna. Ambos negam à raça, enquanto raça, a realidade de uma redenção em Cristo, e fazem dela matéria de experiência individual.

A vida no sistema cristão. (2.) Sem dúvida existe uma redenção especial e individual; ela não consiste, porém, na imortalidade negativa, mas na vida positiva, que no sistema cristão nunca é mera existência, nem o simples continuar a existir. Sobre isso, as palavras do próprio Senhor são decisivas: eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10.10). A vida é um dom que o homem pode ter ou não ter já agora: quem crê no Filho tem a vida eterna; quem se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus (Jo 3.36). Certamente οὐκ ὄψεται ζωήν não é uma expressão que possa significar extinção: não se diz que ele verá a morte, mas que não verá a vida. E a Epístola de são João torna isso, se possível, ainda mais claro: quem não tem o Filho de Deus não tem a vida (1Jo 5.12). A vida está em Cristo; a vida é Cristo; e Cristo é uma posse que o homem pode ter ou não ter, seja no tempo, seja na eternidade. Isso não tem absolutamente nada a ver com a existência continuada como tal. A única passagem que parece sequer insinuar o contrário está na mesma epístola: aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre (1Jo 2.17). Mas ali o contraste é com o mundo e os seus desejos passageiros, em comparação com os quais a religião e os seus frutos são permanentes; assim como, em outra passagem, a vida da regeneração é contrastada com as coisas perecíveis do tempo: vocês foram regenerados não de semente corruptível, mas de semente incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente [para sempre]. Porque toda a humanidade é como a erva do campo, e toda a sua glória é como a flor da erva. A erva seca, e a flor cai; mas a palavra do Senhor permanece para sempre (1Pe 1.23-25). Nessas passagens não há ideia de extinção em sentido algum. O mundo não perece, a não ser nas suas aparências. O universo fenomênico, de alguma forma, permanecerá para sempre. Mas a existência pura e perfeita, revestida de toda a bem-aventurança da vida de Deus, só será revelada quando os fenômenos, como tais, tiverem desaparecido.

III, 436As duas hipóteses opostas. 3. A hipótese aniquilacionista encontra-se com a universalista num terreno comum quanto a certos princípios fundamentais, ou a priori; ao passo que, em alguns outros, as duas divergem singularmente.

O que têm em comum. (1.) É comum aos dois sistemas alongar-se sobre a impossibilidade de conciliar a miséria eterna de uma alma castigada com os atributos de Deus tal como ele é retratado na Escritura. Mas não há nisso nenhum argumento sólido; pelo menos, a força que tiver deve estar do lado universalista. Que Deus destrua uma alma que ele criou é tão incompatível com alguns dos seus atributos (o seu poder, por exemplo, tomado isoladamente) quanto o castigo eterno é incompatível com o seu amor, tomado isoladamente. De fato, este sistema de pensamento não alivia a dificuldade, a não ser na aparência. Como poderia o poder de um ser onipotente permitir que a rebelião começasse? Tendo permitido que começasse, como poderia ser frustrado, final e eternamente, na tentativa de salvar o pecador? A permanência contínua do pecado e da sua necessária condenação é, em certo sentido, uma ideia mais concebível, mais tolerável, do que a sua origem. Esses aperfeiçoamentos da teologia da Escritura parecem, de fato, concorrer para remover do universo todo vestígio de que o pecado existiu, para restaurar a supremacia de Deus e, assim, para livrar a nossa mente de um dos fardos mais pesados que ela pode suportar. Mas não podem apagar o fato de que o mal foi permitido, combatido e severamente castigado por gerações sem conta, tanto neste como em outros mundos. Reconstroem o nosso Deus; mas o Deus que nos dão ainda precisa ser reconstruído, se certas noções humanas a seu respeito hão de prevalecer. Certamente o Ser divino nunca se vindica dessa maneira. Ele não fala como se fosse coisa estranha que o universo pague tributo eterno à sua santa justiça. Mas isto, afinal, é falar como insensato. Todas as teorias, igualmente, ficam confundidas diante deste assunto tremendo.

III, 437O castigo temporal do pecado temporal. (2.) Outro argumento comum aos dois é que o castigo de ofensas cometidas no tempo tem necessariamente de ter um limite temporal. Mas a analogia das próprias penas temporais pesa fortemente contra medir as consequências do pecado pela sua importância aparente; o pecado persistente contra Deus está além de todo cálculo finito; e, por fim, não há castigo eterno senão de um pecar eterno: o estado eterno de separação de Deus é ao mesmo tempo o pecado e o seu castigo. Pode-se acrescentar que a aniquilação é, para todos os efeitos, um castigo eterno do pecado cometido no tempo: o universalista escapa dessa dificuldade, mas apenas para mergulhar em outra, a de fazer do Supremo o Autor de uma ameaça de condenação eterna que haveria de impedir a sua própria execução. Mas é em vão que falamos das relações do tempo com a eternidade. E é certo que o preço atribuído à Expiação, e a pena por rejeitá-la, são apresentados no Novo Testamento num estilo muito diferente daquele que esta teoria adota. Para quem despreza a cruz já não resta sacrifício pelos pecados (Hb 10.26): o seu pecado permanece sem cobertura, e sobre ele permanece a ira de Deus (Jo 3.36). Os pecadores ressuscitam numa ressurreição do juízo (Jo 5.29): já estão condenados (Jo 3.18), mas então a sua condenação será para o castigo eterno (Mt 25.46). Diz-nos a Escritura que eles são chamados à sua existência perfeita em espírito, alma e corpo, como que criados de novo, para perecer, encontrando a sua miséria na consciência da sua perda? Então a terrível expectativa de juízo e fogo vingador (Hb 10.27) não tem sentido; pois, seja qual for a pena do Hades, a aniquilação tem de ser, em comparação, uma bênção, e somente uma bênção. Além disso, a segunda morte não é aniquilação. Da besta e do falso profeta se diz que os dois foram lançados vivos dentro do lago de fogo (Ap 19.20). Do diabo se diz que foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde já se encontram a besta e o falso profeta; e serão atormentados de dia e de noite, para todo o sempre (Ap 20.10) … ESTA É A SEGUNDA MORTE (Ap 20.14): correspondente à segunda e melhor vida dentro da vida, aquela que é dada em abundância (Jo 10.10).

III, 438Termos bíblicos. II. O argumento a favor da aniquilação final da parte não salva da humanidade dá muito peso aos termos do vocabulário bíblico relativos à vida e à morte, e ao sentido de “eterno” como predicado de ambas. Considera-se a vida sinônimo de existência, e a morte, sinônimo de deixar de existir; e “eterno” é um termo que se faz servir à teoria em cada caso, respectivamente: aplicado à vida, tem o seu pleno significado de duração sem fim; aplicado à morte, o seu significado reduz-se a absoluto ou perfeito. Apela-se ao sentido em que essas palavras, com os seus vários correlatos de destruição, perecimento e assim por diante, são usadas no grego clássico.

A fraseologia do Novo Testamento grego. 1. Quanto a este último argumento, basta dizer que toda a fraseologia da revelação, especialmente da revelação do Novo Testamento, passou por uma mudança grande e decisiva. Dificilmente haverá um só dos termos religiosos e éticos do grego clássico que não tenha sido elevado a um sentido mais alto. Nenhum escritor teria protestado com mais veemência do que Platão contra a aplicação dos seus termos de destruição ao destino final daquilo que ele considerava o espírito imortal do homem. Pode-se dizer, além disso, que o Novo Testamento não tomou essas palavras diretamente do grego clássico, mas da Septuaginta. A Septuaginta falará por si mesma. Poderiam citar-se muitíssimas passagens em que os termos mais fortes que exprimem Septuaginta. destruição são usados sem envolver nada parecido com a ideia de extinção. Tomemos, por exemplo, uma passagem que reúne de modo singular alguns dos mais fortes de todos; é preciso citá-la por inteiro: Ποιμένες πολλοὶ διέφθειραν τὸν ἀμπελῶνά μου, ἐμόλυναν τὴν μερίδα μου, ἔδωκαν τὴν μερίδα μου ἐπιθυμητὴν εἰς ἔρημον ἄβατον. ἐτέθη εἰς ἀφανισμὸν ἀπωλείας· δι’ ἐμὲ ἀφανισμῷ ἠφανίσθη πᾶσα ἡ γῆ, ὅτι οὐκ ἔστιν ἀνὴρ τιθέμενος ἐν καρδίᾳ· [Muitos pastores arruinaram a minha vinha, contaminaram a minha porção, fizeram da minha porção aprazível um deserto intransitável. Foi reduzida à destruição da perdição; por minha causa toda a terra foi destruída com destruição, porque não há homem que o ponha no coração.] (Jr 12.10-11). Eis aqui uma constelação de toda a terminologia. Mas a terra aprazível de Jeová foi abolida, ou aniquilada? A resposta é dada pelo próprio Jeová. Nas palavras sublimes que se seguem, lemos: Semearam trigo e colheram espinhos; cansaram-se, mas sem proveito algum. Ficarão envergonhados das suas colheitas, por causa do furor da ira do Senhor (Jr 12.13). A aplicação destas palavras ao nosso presente assunto é óbvia: não há paz para ninguém (Jr 12.12), e isso por esta razão: não há ninguém que se importe com isso (Jr 12.11). Mas elas são citadas para mostrar quão pouca verdade há nas afirmações categóricas de que a terminologia inspirada da destruição é a terminologia da aniquilação. O estudante fará bem, neste assunto e na interpretação do Novo Testamento em geral, em acompanhar cada palavra pela Concordância de Trommius [N. do T.: concordância grega da Septuaginta, de Abraham Trommius (1718)].

III, 439Vida e morte. 2. Um exame cuidadoso dos termos principais, Vida e Morte, tal como são usados no Novo Testamento, mostrará que, quando aplicados ao espírito do homem, significam algo acrescentado à mera existência, seja como bênção, seja como o oposto da bênção. A vida é sempre a comunicação do Espírito da vida, em Cristo Jesus (Rm 8.2); é o correlato da salvação, da bem-aventurança e da união com Deus. É o oposto da condenação, da miséria, do desagrado divino; nunca a antítese da aniquilação, nem sequer em relação à existência corporal, e muito menos em relação à existência do espírito. A morte é o correlato da sentença de condenação, da retirada do Espírito e de um estado de alienação de Deus: os que não passaram da morte para a vida (Jo 5.24) são ditos mortos em suas transgressões e pecados (Ef 2.1); e podemos ampliar a aplicação da palavra de são Paulo sobre aquela que, mesmo viva, está morta (1Tm 5.6). Quem acompanhar esse termo pelo Novo Testamento tem de chegar à conclusão de que ele exprime o exato oposto da nova vida, a vida eterna, que é comunicada por Cristo. Por isso, os defensores da opinião que agora consideramos são obrigados a recorrer a um sentido proléptico: os pecadores são contados como mortos por antecipação. Mas seria o mesmo que dizer que os santos não têm a vida eterna, mas apenas a terão. Do mesmo modo, os sinônimos que variam a ideia de morte, ou antes, que descrevem a maneira como ela é infligida, não trazem a noção de supressão absoluta da existência. O termo mais forte que jamais se usa é aplicado pelo nosso Senhor ao estado do qual o filho pródigo foi resgatado: ele estava perdido, ou estava destruído, ἀπολωλὼς ἦν, e foi achado (Lc 15.32). Com essa única palavra, Jesus resgatou para sempre este verbo da má aplicação que se lhe impõe: a perda da alma é um estado oposto ao de ela ser achada de novo. O pródigo perdido na terra distante primeiro caiu em si e depois foi até o pai; mas ele tinha sido destruído, ou tinha destruído a si mesmo. Se os restauracionistas, usando esta passagem contra aquela doutrina da aniquilação, contra a qual ninguém argumenta com mais força do que eles, apelam para ela como confirmação da esperança de que os que estão perdidos no outro mundo serão achados de novo, deparam com outra palavra de Cristo, das mais peremptórias: Melhor seria para ele se nunca tivesse nascido (Mc 14.21); isto é, para aquele homem que era o filho da perdição (Jo 17.12), o υἱὸς τῆς ἀπωλείας, um pródigo que não foi achado; pois, se houvesse certeza da sua volta da terra distante, a vida eterna teria feito do seu nascimento uma bênção, apesar de todas as aflições intermediárias. Um membro da mesma família de termos é usado por são Paulo quando diz que, na manifestação de Cristo, os que forem achados sem ter obedecido ao evangelho sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor (2Ts 1.9), ὄλεθρον αἰώνιον. A construção desta passagem é tal, em todos os pontos, que serve de advertência aos teóricos sobre este assunto solene. O acréscimo de αἰώνιον seria desnecessário se o ὄλεθρον significasse o que eles supõem que signifique: a extinção absoluta do ser. Assim como a vida eterna é a confirmação para sempre de uma vida que já existe agora em Cristo, assim também a eternidade é acrescentada à palavra que são Paulo usa em outro lugar para exprimir uma pena presente dos desejos nocivos, que levam as pessoas a se afundar na destruição e na perdição (1Tm 6.9) [N. do T.: a NAA traz “ruína”]: os homens ἐμπίπτουσιν εἰς [caem em] tentação, em armadilhas; e estes também βυθίζουσιν εἰς [afundam em] destruição. Essa destruição eterna deve acontecer quando ele vier (2Ts 1.10): não é, portanto, antes do juízo, nem depois do juízo. É da presença do Senhor [N. do T.: a NAA traz aqui “da face do Senhor”], ἀπὸ προσώπου τοῦ Κυρίου; e, quanto ao sentido disso, que a Septuaginta dê testemunho, pois é assim que ela traduz em Gênesis: eles se esconderam da presença do Senhor Deus (Gn 3.8), como o primeiro efeito do pecado; e Caim se retirou da presença do Senhor (Gn 4.16), como o segundo efeito, ainda pior; sendo o nosso texto o terceiro e o pior de todos. Por fim, quanto ao αἰώνιον, o εἰς αἰσχυνὴν αἰώνιον de Daniel basta plenamente: o que é vergonha e horror eterno (Dn 12.2)? Mas o próprio são Paulo dá a lei do seu uso desta palavra nesta relação, quando diz: as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas (2Co 4.18); as coisas fenomênicas ou passageiras e as coisas permanentes ou eternas são os únicos correlatos.

III, 441História. III. A história desta fase da especulação cristã não lhe presta nenhum auxílio substancial.

Período pré-niceno. 1. A maioria dos primeiros Pais da Igreja cria na eternidade absoluta do castigo dos réprobos. O primeiro testemunho depois que cessou a inspiração é o de Clemente Romano: μετὰ γὰρ τὸ ἐξελθεῖν ἡμᾶς ἐκ τοῦ κόσμου οὐκ ἔτι δυνάμεθα ἐκεῖ ἐξομολογήσασθαι ἢ μετανοεῖν [pois, depois que sairmos do mundo, já não poderemos ali confessar-nos nem arrepender-nos] (Clemente, Segunda Epístola aos Coríntios, cap. 8). Justino Mártir afirma isso, em oposição ao ensino de Platão de que os castigos durariam mil anos (Justino Mártir, Apologia I, 8); mas pensa-se que algumas passagens dos seus escritos hesitam, por exemplo, quando ele diz a Trifão: ἐστ’ ἂν αὐτὰς καὶ εἶναι καὶ κολάζεσθαι ὁ θεὸς θέλῃ [enquanto Deus quiser que elas (as almas) existam e sejam castigadas], o que, no entanto, é uma verdade que todos têm de admitir. Dos escritores pré-nicenos podem-se recolher frases que pendem para quase todas as direções; mas a ideia de uma cessação total do ser, ou da sua extinção gradual, não se encontra, a não ser talvez em algumas passagens isoladas de Hermas, de Irineu e de Clemente de Alexandria. A questão dessas opiniões esporádicas, porém, tem pouquíssima importância, a não ser por mostrar que as sementes de quase todas as especulações posteriores foram lançadas cedo.

Arnóbio. 2. Arnóbio, numa época posterior, deu expressão à ideia de uma cessação gradual dos sofrimentos, que termina na aniquilação do indivíduo: “A corporalibus vinculis exsolutos expectat mors sæva, non repentinam adferens extinctionem, sed per tractum temporis cruciabilis pœnæ acerbitate consumens.” [Os que foram soltos dos vínculos do corpo, espera-os uma morte cruel, que não traz uma extinção repentina, mas os consome ao longo do tempo pela amargura de uma pena torturante.] Essa estranha inversão do dogma do purgatório foi sustentada, aqui e ali, por muitos dos Pais. Dídimo de Alexandria, Gregório de Nissa, talvez Teodoro de Mopsuéstia, e Gregório de Nazianzo inclinaram-se a ela por ser φιλανθρωπότερον καὶ τοῦ κολάζοντος ἐπαξίως, mais caridosa e mais digna do Punidor divino. Mas admite-se que a corrente forte, plena e quase sem obstáculos da Orígenes e Arnóbio. doutrina depois de Arnóbio seguiu na direção contrária, sem se desviar nem para a Restituição de Orígenes nem para a Aniquilação de Arnóbio. Durante a Idade Média, uma concepção panteísta da absorção em Deus de todo o bem, e também de todo o mal, moldou boa parte do pensamento; mas geralmente, embora nem sempre, ela tomou a forma da Apocatástase.

III, 442Período moderno. 3. Nos tempos modernos, a tese de uma aniquilação final da alma que perece tem sido defendida com grande habilidade por alguns indivíduos, que a ofereceram aos seus irmãos cristãos como refúgio contra a temível doutrina que a Igreja de Deus, em todas as épocas, tem encontrado na Bíblia. A noção tem sido elaborada com muitas variações de hipótese, e com uma determinação entusiástica de fazer todas as coisas se dobrarem a ela. Não é possível, nem é necessário, sistematizar as formas que a ideia central está em processo de assumir: as suas testemunhas não concordam entre si, e temos de esperar até que haja ao menos mais aparência de acordo. Enquanto isso, podem-se fazer algumas observações finais.

Alguns princípios sólidos. (1.) É preciso admitir que os teólogos desta nova escola têm afirmado com firmeza alguns princípios fundamentais. Apegam-se à doutrina do castigo eterno do pecado, e à das exigências absolutas e inerentes da justiça divina. Fazem justiça, a seu modo, aos terrores do Senhor, e defendem a realidade da ira celestial contra os transgressores impenitentes e obstinados. Estão entre os adversários mais decididos da teoria da Restituição em todas as suas formas, pois a consideram a sua rival mais temível na disputa pelos sufrágios da misericórdia e da esperança humanas. Ambas as hipóteses partem da conclusão já assentada de que todo vestígio do mal tem de ser varrido do universo; cada uma deixa de lado a consideração de que ele existiu, e de que a mesma Vontade suprema que permitiu que ele existisse pode, na sua eterna sabedoria, permitir que continue sob novas condições. Mas elas são mutuamente intolerantes: cada uma, do seu próprio lado da cruz da redenção, julga que a outra despreza essa cruz. As duas hipóteses, a da extinção e a do universalismo, não encontram em parte alguma refutação tão completa quanto nos escritos dos defensores de uma e de outra, respectivamente. Os aniquilacionistas, porém, prestam à santidade divina, à liberdade da vontade humana e ao mal essencial do pecado um tributo que os seus adversários do outro extremo deixam de prestar.

O que não é sólido. (2.) Mas isso é tudo o que se pode dizer. O seu dogma é incompatível com o testemunho do Espírito acerca do pecado, da justiça e do juízo, tais como esses três são ilustrados pelo dom de Cristo à raça humana. No Novo Testamento, o pecado é avaliado pelo preço da sua expiação; é o ato do homem, genérico e individual, dotado de uma natureza capaz de ofender um Ser infinito. Antes que ele fosse cometido, essa mesma natureza foi, no conselho eterno, assumida pelo Filho de Deus para reparar as suas consequências em favor de toda a raça; qualquer que seja a objeção que se levante contra essa concepção elevada e católica, é preciso sustentar que o valor infinito da oferta implicava uma ofensa infinita. Segundo essa nova concepção, o homem, no tempo da sua transgressão, era apenas uma alma vivente, sem ter ainda o Espírito vivificante, e portanto totalmente incapaz de tal ofensa. Cristo não vem salvar um pecador imortal, mas dar a um pecador mortal, que havia pecado, a oferta da imortalidade. Um pecado como esse, de um Adão como esse que essa doutrina inventou, não é matéria para tal intervenção. Essa doutrina também não condiz com a justiça consumada e aceita do Redentor. Essa justiça foi realizada em favor da raça e restituiu, como dom gratuito, tudo o que o pecado havia perdido. Ora, o homem, repetimos, não perdeu a possibilidade de viver para sempre; perdeu essa mesma vida. Se a morte fosse aniquilação, isso foi revertido para a natureza do homem por aquele que a assumiu; se a morte fosse a perda da vida eterna em Deus, essa vida foi devolvida a todos os que cressem. [Veio a graça] sobre todos para a justificação que dá vida (Rm 5.18). Por isso, o juízo, com todas as suas preliminares, circunstâncias acessórias e resultados, é igualmente mal compreendido. A ressurreição pertence a todos os homens como fruto da Expiação, porque todos os homens, pela encarnação, são vivificados por uma Cabeça comum a todos. O mistério da união entre Cristo e a sua Igreja assenta-se sobre um mistério ainda mais profundo, embora não mais bendito: o da sua união com a humanidade. É o Filho do Homem que vem na sua majestade (Mt 25.31), e não a Cabeça da Igreja; e, na separação final, os que não são dele, ele os PERDEU (Jo 17.12) [N. do T.: o original indica Jo 17.15]. O juízo fará a distinção eterna. Aqui o nosso novo dogma é incerto e vacilante. Alguns dos seus defensores, sustentando que a morte é a dissolução de uma unidade que não existe senão como unidade, reduzem o pecador a um não ser até que ele seja recriado para ser arruinado para sempre. Outros, sustentando a sobrevivência de uma parte do homem, fazem essa parte dele pagar a pena plena da retribuição antes da ressurreição: por um lado, negam que no corpo sejam punidas as obras feitas por meio do corpo; por outro, julgam honrar a execução imediata do juízo fazendo da ressurreição o momento decisivo do golpe fatal, estando enfim satisfeita a justiça. Alguns, porém, prolongam indefinidamente as eras de sofrimento, até que, por algum processo de desintegração do qual nem a Escritura nem a filosofia sabem coisa alguma, o pecado deles tenha gerado na eternidade a morte que concebeu no tempo. Enquanto isso, a terrível harmonia da Escritura, embora não, infelizmente, a sua melodia, está afinada na nota de que haverá uma divisão da única raça de Adão: a multidão inumerável dos salvos entrando na cidade que desce à terra renovada, e os perdidos, sem nenhuma menção ao seu número, FORA dos muros (Ap 22.15), com o diabo e os seus anjos.

III, 444Outras objeções. (3.) Muitas outras objeções a essa hipótese da aniquilação poderiam ser mencionadas, as quais não dizem respeito tanto à teologia quanto a interpretações isoladas da Escritura e às teorias psicológicas ou fisiológicas da natureza humana que ela obriga ou tenta os que a aceitam a adotar. O estudante deve estar constantemente em guarda quanto a esses dois pontos; do contrário, ficará desnorteado pela variedade de argumentos plausíveis de que abunda a literatura sobre este assunto, tanto a mais séria quanto a mais leve. Mas, afinal, nunca é demais lembrar habitualmente que esta questão solene não depende de textos isolados, nem de especulações sobre a natureza da personalidade e da consciência. Ela está ligada aos grandes princípios e à tendência constante de todo o ensino da revelação, que em toda parte fala ao homem como a um ser imortal, que tem um destino eterno, cujos desfechos estão ligados ao uso que ele faz dos meios providos por Deus para a sua salvação neste estado de provação.

HIPÓTESES INTERMEDIÁRIAS E ATENUANTES.

Teorias intermediárias. Sempre houve, e ainda há, certas opiniões sustentadas sobre este assunto que dificilmente se podem chamar intermediárias, visto que negam as duas concepções já discutidas, mas que, apesar disso, procuram abrandar o rigor extremo da doutrina bíblica da separação eterna de Deus. Recusam-se a admitir que algum agente moral venha jamais a perecer, deixando de existir, ou que o mal venha a ser banido, como tal, do universo; mas introduzem certas atenuações que hão de subsistir ou cair pelos seus próprios méritos.

III, 445Submissão universal à pœna damni. 1. Alguns têm sustentado que, embora o estado dos perdidos seja de separação sem esperança da visão do Bendito, será também um estado de submissão absoluta à justiça divina, e até de contemplação adoradora dela. Em outras palavras, a pena final do pecado será uma pœna damni eterna, ou sentimento de perda irreparável, não aliviado pela esperança e aceito no desespero. Certos indícios desse sentimento na descrição do rico e de Lázaro são prolongados para além do Hades, no estado posterior; e tornam-se eternas emoções que provam que a rebelião ativa da vontade pecadora acabou para sempre. Essa teoria faz justiça à verdade inegável de que o império do pecado será derrubado e toda vontade criada será posta em sujeição. Supor que a rebelião e o desafio sem lei possam continuar eternamente ofende a autoridade real de Cristo tanto quanto a restauração universal ofende a sua obra sacerdotal. Mas é difícil distinguir entre o sentimento de submissão à autoridade divina e o germe da santidade: esse sentimento, tal como às vezes tem sido descrito, é totalmente incompatível com o castigo eterno. Uma das palavras mais solenes, perto do fim da Escritura, diz que o medo envolve castigo, ὁ φόβος κόλασιν ἔχει (1Jo 4.18). O medo não é castigo em si mesmo, mas envolve castigo; contém-no em germe, e qual é o seu pleno desenvolvimento nosso Salvador nos diz: estes irão para o castigo eterno, ou κόλασιν αἰώνιον (Mt 25.46).

Arrependimento no Hades. 2. Mas, à parte isso, os sentimentos atribuídos ao rico por nosso Senhor, e a palavra de Abraão a ele, Filho, lembre-se! (Lc 16.25), têm sido objeto de afetuosa atenção, por se entender que implicam um possível benefício da reflexão que deve ser levado em conta no que diz respeito ao Hades, ou estado intermediário. Uma interpretação generosa das palavras de nosso Senhor tem sido sugerida por muitos teólogos eminentíssimos, que as ligam àquelas outras palavras acerca de um possível perdão de todos os pecados, exceto um, no outro mundo. Eles põem toda a força de um possível arrependimento no “lembre-se”, e supõem que a preocupação do rico com os seus irmãos mostra o primeiro estágio desse arrependimento. Daí é fácil o passo para processos de conversão que acabarão por reduzir o número dos irreparavelmente perdidos. Outros limitam grande parte da linguagem mais severa sobre o castigo àquele estado intermediário, deixando para a condição eterna uma pena adaptada a uma existência degradada, rebaixada e relativamente inconsciente. Isso inverte singularmente a ordem da Escritura: atribui o sofrimento sensível ao estado em que o corpo não tem parte, e esquece a referência expressa ao castigo, no corpo, das obras feitas por meio do corpo.

III, 446Gradação do castigo. 3. Nos tempos antigos e nos modernos, tem-se insistido muito na diversidade infinita do castigo e da recompensa, como elemento importante do nosso juízo sobre este assunto solene. Observa-se que o próprio nosso Senhor, que pronunciou as palavras mais claras da Escritura quanto à separação eterna de duas classes, referiu-se repetidas vezes a gradações nesse estado eterno. Não há ensino profético mais definido do que aquele que fala dos poucos açoites e dos muitos açoites (Lc 12.48, 47). E a caridade do coração cristão tem plena justificação para tirar deles as mais amplas inferências legítimas possíveis. Mas elas têm de ser legítimas: essas palavras não autorizam a ideia de que o céu e o inferno se fundirão um no outro por graus imperceptíveis, nem de que os poucos açoites são disciplinares, para a salvação, em oposição aos muitos açoites, que são eternamente punitivos. Se esse sentido estivesse no pensamento de nosso Senhor, ele poderia com toda a facilidade tê-lo deixado claro. Comparando, porém, essas palavras com outras, somos obrigados a supor que, embora o grande abismo esteja agora fixado no Hades, o dia do juízo mostrará que o estado de perdição de alguns dos perdidos terá menos rigor do que o de outros (Mt 10.15).

Amor e poder eternos. 4. Mas todas as hipóteses e raciocínios paliativos têm, por uma necessidade natural, voltado ao poder e à bondade do próprio Redentor, a última e única esperança da aflição mortal: que reservas de recurso infinito pode haver nele! Nas contemplações místicas de Agostinho e de outros Pais, e de multidões desde então, pode-se ouvir ocasionalmente a ideia sublime, mas muito ousada, de uma Intercessão que possa valer para trazer de volta os pródigos cujo estado de perdição é descrito como ἀπολέσθαι [perder-se, perecer], assim como o pródigo, no tempo, estava perdido e foi achado (Lc 15.24). Quão fácil é formar a concepção de um esforço empreendido pelo Grande Restaurador, movido pela sua própria misericórdia, pela memória da sua paixão e pelos apelos compassivos dos seus santos glorificados, para criar ao menos um lugar e um estado, nem céu nem inferno, para os despojos da justiça eterna! Mas aquele que é o único Intercessor do homem não deixa nenhuma certeza de tal intercessão; na verdade, fez tudo o que estava ao seu alcance para excluir o pensamento de qualquer intervenção possível desse tipo quando o mistério do seu reino estiver consumado.

III, 447NOVOS CÉUS E NOVA TERRA.

Novos céus e nova terra. Não somente no salmo e na profecia figurada, mas também em ensino claro, a Escritura ensina o novo começo e a consumação do universo do homem, de um céu e de uma terra reais.

Todas as coisas novas. 1. De modo geral, haverá uma regeneração de todas as coisas, como se houvesse certa analogia com a salvação do homem individual: a terra será justificada, ou libertada da sua condenação, renovada e regenerada, e santificada para Deus e para o homem para sempre. A sentença original será revogada, e nunca mais haverá qualquer maldição (Ap 22.3). A terra será, no sentido mais pleno, santificada; e então se dirá por excelência: tudo o que Deus criou é bom (1Tm 4.4). Assim nosso Senhor fala da παλιγγενεσία geral, ou novo nascimento, de um modo propositalmente indeterminado: na regeneração, quando o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória (Mt 19.28). Isso se dá primeiro no tempo presente: ele agora se assenta nesse trono, e os apóstolos agora julgam as doze tribos de Israel. Mas se dá também no futuro. O mesmo se pode dizer dos tempos da restauração de todas as coisas (At 3.21). Assim como o homem há de ressuscitar, assim também, em certo sentido, ressurgirá o cenário da sua história. Quando se diz que os céus e a terra passam e que não se achou lugar para eles (Ap 20.11), isso deve ser harmonizado não só com outras palavras, como manto tu os enrolarás, e serão mudados (Hb 1.12), mas também com as cenas apocalípticas que se seguem, as quais declaram expressamente: E vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe (Ap 21.1). Este é evidentemente o novo Gênesis, com referência expressa ao primeiro, do qual, como predisse o profeta Isaías, não haverá lembrança e jamais haverá memória (Is 65.17).

Novos céus e nova terra. 2. Eis que eu crio novos céus e nova terra (Is 65.17). Se essa predição se refere ao mundo físico, as descrições resplandecentes que se seguem também devem retratar, em tons terrenos, as transformações consumadas do reino final. São Pedro diz: Nós, segundo a promessa de Deus, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça (2Pe 3.13). No Apocalipse, o céu e a terra se tornam um só (Ap 21.1): Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus (Ap 21.2). Por isso, o que o céu e a terra atuais são para o nosso estado de provação, o céu e a terra futuros serão para o nosso estado eterno e fixo: não um céu ao qual se suba a partir da terra, mas o Senhor fará DE AMBOS UM SÓ. O céu mais alto, como a eternidade, será para sempre desconhecido do homem. Só Deus habita a ambos. O nosso céu será a nossa terra, e a nossa terra, o céu: eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos (Ap 21.3), o Filho encarnado habitando na humanidade redimida como num templo, e a humanidade redimida habitando nele; mas ambos numa terra transfigurada.

III, 448A criatura. 3. Isso é tudo o que aprendemos da Bíblia. Muitos supõem que são Paulo introduz, no coração da mais teológica das suas epístolas, numa das porções mais didáticas do Novo Testamento, uma referência poética a toda a κτίσις [criação], como se ela ansiasse por participar, e finalmente participasse, da liberdade da glória dos filhos de Deus (Rm 8.21) na Adoção. E isso pareceria implicar algo que a Escritura nunca afirma: que a criatura irracional foi sujeita à morte por causa do pecado do homem e participará da redenção dele. Mas, a menos que se possa provar que a κτίσις aqui não é o homem que geme como criatura, ou o paganismo sujeito à vaidade, essa passagem não tem força dogmática. Tampouco é necessária tal extensão da grande expectativa. Quando o Apocalipse diz que o mar já não existe (Ap 21.1) e que, para o céu e a terra fenomênicos de agora, não se achou lugar (Ap 20.11), ensina-nos a interpretar o conjunto como significando apenas que o cenário e a esfera do desenvolvimento humano passarão por uma mudança correspondente. Assim como o corpo do homem será configurado ao corpo glorioso do nosso Senhor, assim também a terra será configurada à semelhança do céu. Os homens, portanto, não serão em todos os sentidos ἰσάγγελοι [iguais aos anjos] (Lc 20.36).

O fogo. 4. Tudo isso acontecerá pelo poder de Cristo, por meio do fogo. Mas, qualquer que seja a ação que o fogo material venha a exercer, a mudança na nossa terra não será efetuada apenas pelo fogo material. O resultado estará tão completamente além de qualquer concepção que hoje temos quanto o corpo espiritual de Cristo exaltado no céu. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que somente a terra, como cenário da redenção, passará por essa mudança. É a terra que foi destruída, afogada em água, a que está guardada para o fogo (2Pe 3.6-7) [N. do T.: o original indica 2Pe 3.12]. Na vasta grandeza dos domínios de Deus e do seu Cristo, nós e toda a nossa economia não somos mais que o grão de poeira num raio de sol; e é um erro envolver o universo inteiro nesta consumação. A ciência pode traçar uma ligação entre cada átomo de matéria e toda a extensão da natureza material, e recusar-se a admitir a possibilidade de que o nosso mundo seja subtraído da soma das coisas. Mas estamos agora numa região em que o conhecimento físico é mudo ou carece de autoridade; e, além disso, as suas próprias teorias nada têm a dizer contra a possível extinção de mundos. Contudo, assim como a declaração fez também as estrelas (Gn 1.16), no princípio, se refere apenas à relação fenomênica do universo com a nossa terra, assim também, no fim, não se achou lugar para eles (Ap 20.11) se refere apenas à esfera da redenção humana.

III, 449Renovação. 5. Quanto à renovação da terra, há que observar dois erros opostos, com muitas variações. Um é o de uma visão espiritual demais, que faz do universo material, como dos ídolos, um nada no mundo, e do veículo etéreo do homem um corpo literalmente espiritual. Mas não temos razão para pensar que algo feito por Deus seja destruído: também neste sentido os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis (Rm 11.29). Sabe-se que há mundos passando por mudanças que, para nós, equivalem ao desaparecimento; e criação e glorificação podem ser, daqui em diante, uma lei eterna. O erro oposto, porém, é o de uma restauração literal demais. Nessa direção tende boa parte da especulação luterana, que faz da corporeidade a lei e o fim da existência: supõe-se que o evangelho seja pregado literalmente a toda criatura (Mc 16.15); que a Eucaristia seja o sustento tanto do corpo como da alma; que o Espírito Santo seja o Vivificador tanto físico como espiritual; e que a redenção de Cristo seja uma restauração de toda a natureza criada, o que, neste ponto, é o exato oposto do antigo gnosticismo. Daí a passagem é fácil para uma ressurreição literal de toda a existência animada. O milenarismo moderno, como o antigo, adota essa teoria no que diz respeito ao reino intermediário de Cristo; e essa é uma das suas muitas e extremas dificuldades.

VIDA ETERNA.

Vida eterna. A consumação de todas as consumações, no que diz respeito à raça humana, é a entrada dos redimidos na vida eterna. Vista em relação a Deus, é a realização do seu propósito para com a humanidade no Filho encarnado. Em relação a Cristo, é a apresentação que ele faz de si mesmo, um só com os seus, ao Pai eterno. Considerada em referência ao mundo celestial, é a reconciliação entre todos os habitantes do céu e a raça humana, sendo agora a comunhão eterna e completa. Em relação à Igreja inteira, é a ratificação que sela a sua unidade com a sua Cabeça, para ser possessão dele e para o seu serviço. Em relação aos indivíduos dessa Igreja, é a perfeição da sua própria natureza, em si mesma e naquela união com o Deus triúno que é a bem-aventurança eterna.

III, 450A ideia divina realizada. I. Aquilo que, em termos humanos, chamamos de ideia divina da humanidade, precisamos também, em termos humanos, dizer que não se realizou; exatamente no mesmo sentido, e em nenhum outro, em que se diz: o Senhor ficou triste por haver feito o ser humano na terra (Gn 6.6). Mas a ideia que não se cumpriu no primeiro Adão realizou-se no segundo Adão. Ele, portanto, o Pai espiritual e Cabeça da nova humanidade, representará a nova criação diante de Deus e apresentará esta humanidade nova e melhor irrepreensível diante da sua glória, com grande alegria (Jd 24). O Adão do Paraíso não será o pai desta raça, mas apenas o primeiro entre muitos irmãos, filhos de Deus por meio de Cristo. A família humana será acrescentada à vasta multidão de outras famílias coletivas, com esta distinção: uma relação com Deus, de quem toda a família, nos céus e na terra, recebe o nome (Ef 3.15), no Filho eterno, relação que nenhuma outra partilha.

Todas as ordens da criação. II. Por isso, há alguns indícios de que o fim da história humana será a restauração da harmonia no universo; como se o homem, então finalmente redimido por completo, fosse unir-se às outras ordens de criaturas inteligentes no serviço de adoração do templo eterno, uma vez que a harmonia delas, sem vozes humanas, não seria tida por perfeita. Mas isso não autoriza a noção especulativa de que o número dos salvos da terra preencherá exatamente o vazio causado pela queda daqueles que não guardaram o seu estado original. Essa especulação da Idade Média introduz na consumação final um elemento predestinacionista que a Escritura não justifica. Tampouco o testemunho de Jesus, pelo Espírito de profecia, autoriza a ideia de que a consumação unirá todos os espíritos a todos os homens na bem-aventurança da união em Deus. A discórdia será suprimida, mas não dessa maneira. A reconciliação de que são Paulo fala é a do céu e da terra: não inclui o inferno. E a união se efetua como resultado da Expiação pelo sacrifício de Jesus, que foi oferecido na natureza humana, e somente na natureza humana.

III, 451A Igreja. III. A consumação será a perfeição do corpo místico, a companhia dos guardados em Jesus Cristo (Jd 1). Essa Igreja Templo da Trindade. dos redimidos será, em eterna união com Cristo, uma só com a Santíssima Trindade. Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus (Ap 21.3). Mas que tabernáculo é esse? Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva enfeitada para o seu noivo (Ap 21.2). Reservando este último símbolo, devemos fixar o pensamento no primeiro: a Igreja glorificada é o Tabernáculo ou Templo de Deus, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas (Ef 1.23). Mas ela será Em Cristo. de modo especial uma só com Emanuel, Deus conosco. As últimas palavras a respeito dela deixam de lado o nome igreja, visto que esse nome traz consigo a sugestão de uma massa maior do meio da qual ela é chamada. Quando o A Noiva. processo terminar, a Igreja, ou ἐκκλησία, perderá esse nome. Ela será a Noiva de Cristo: termo muitas vezes preparado nas Escrituras anteriores, mas reservado para a última revelação, a fim de indicar a unidade do corpo coletivo dos eleitos, a sua união eterna e intimíssima com Cristo e o amor perfeito que ele lhe O Reino. concederá para sempre. Será também o seu Reino: nós reinaremos para todo o sempre (Ap 22.5). Isso indica, não que o Salvador governará a sua Igreja, ou por meio dela governará o universo de outros mundos, mas que a comunhão dos redimidos e glorificados será composta dos seus servos, que o servirão para sempre. Essa santa companhia será também um sacerdócio: para oferecer culto eterno, não por meio de Cristo, mas nele e com ele. Sacerdotes eternamente como adoradores, serão reis para sempre como servos. O seu serviço já não será limitado e parcial. Terá o universo como sua esfera; e, na sua atividade eterna e variedade infinita, ultrapassará toda concepção que dele se possa formar aqui. Sem a tribulação e sem a perseverança do reino em Jesus (Ap 1.9), a não ser, talvez, por simpatia com outros mundos onde a perseverança ainda possa partilhar com o amor a honra de ser a lei régia, eles serão para sempre os servos ministrantes desse reino.

Cada um dos santos. IV. A consumação, porém, não absorverá o indivíduo no corpo coletivo, assim como o corpo coletivo não será absorvido em Deus. A bem-aventurança eterna será a porção de cada alma na inumerável companhia dos redimidos: essa bem-aventurança individual será a perfeição da natureza criada do homem, a qual, implicando a sua libertação de todo mal, não se detém aquém da sua união com Deus, da Visão Beatífica e da plenitude da satisfação do espírito no reflexo criatural da imagem divina.

III, 452Aspecto negativo. 1. Negativamente, a vida eterna será, nos seus resultados finais, a remoção absoluta e perfeita de todo mal, isto é, dos resultados do pecado e da possibilidade de pecar. Todo vestígio deste hóspede de uma noite será apagado do corpo, da alma e do espírito: uma consumação reservada para o estado celestial. E essa fruição negativa de descanso e libertação é, ela mesma, a perfeição positiva do homem segundo a constituição primitiva da natureza humana. Desde o momento em que o pó da terra cedeu ao Dedo de Deus o material para a criação do seu produto mais perfeito, a personalidade humana nunca viu ainda o seu estado mais elevado, a não ser em Jesus; e nem mesmo em Jesus sobre a terra. Caberá ao céu apagar as últimas lembranças da Queda. Na terra, os santificados levam consigo até a sepultura os resultados das transgressões passadas; no mundo intermediário, embora vejam o rei na sua formosura (Is 33.17) com os olhos do espírito desencarnado, os seus olhos corporais veem a corrupção (Sl 49.9) [N. do T.: a NAA traz “e não venha a morrer”]. Só na admissão ao céu o Redentor salvará o homem inteiro: na sua segunda vinda, aparecerá segunda vez, não para tirar pecados, mas PARA SALVAR (Hb 9.28), isto é, para aquela salvação residual que transformará as primícias do Espírito (Rm 8.23) em redenção plena. O estado temporal, com todas as suas restrições e fraquezas, dará lugar a um estado eterno do qual elas terão desaparecido para sempre. Mas salvação, na melhor das hipóteses, é um termo negativo. Perdemo-nos (e é nossa dignidade sermos capazes de ter consciência de que nos perdemos) no pensamento da nossa entrada num estado eterno. O finito será recebido no seio da infinitude; o tempo será assumido no seio da eternidade. O resultado negativo mais bendito disso será que a mudança, ou progressão, será única e absolutamente para cima e para a frente. O desenvolvimento continuará, mas sem a possibilidade de recaída no mal: a separação de Deus, que é o pecado, será impossível para sempre.

Aspecto positivo. 2. Mas tudo isso é apenas negativo. Há alguns termos positivos pelos quais a esperança é ensinada a definir, sem definição, a sua concepção da vida eterna. Eles se elevam numa gradação sagrada, da visão de Deus à união com ele e ao perfeito reflexo da sua imagem em Cristo Jesus para sempre. Essa gradação marca os estágios da vida religiosa na terra; mas será aperfeiçoada no estado eterno.

III, 453A visão de Deus. (1.) O santo glorificado será admitido à VISÃO DE DEUS direta e intuitiva, do Deus triúno tal como revelado em Cristo, o eterno Mediador dessa visão. Nesta vida temos a mesma visão, mas, ainda assim, andamos por fé e não pelo que vemos (2Co 5.7): essas palavras descrevem o estado presente dos cristãos, em oposição àquele em que haveremos de habitar com o Senhor (2Co 5.8). São João também nos diz, quando perde a esperança de dizer qualquer outra coisa, que seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é (1Jo 3.2). O que o Redentor glorificado é agora, não sabemos: pois neste mundo vemos como num espelho, de forma obscura (1Co 13.12). São Paulo se faz representante de todo santo em provação, mesmo do mais privilegiado, quando diz: Agora meu conhecimento é incompleto; depois conhecerei como também sou conhecido (1Co 13.12). A visão de Cristo é concedida à fé agora; mas a fé o vê apenas como num espelho: contemplando, como por espelho, a glória do Senhor (2Co 3.18) [N. do T.: a NAA traz apenas “contemplando a glória do Senhor”]. Com o seu próprio rosto descoberto, e à intuição direta dos nossos rostos descobertos, ele não pode revelar-se: essa será a prerrogativa do céu. É verdade que lhe apraz usar a mesma palavra para exprimir a nossa visão dele aqui, ἐμφανίσω αὐτῷ ἐμαυτόν [eu me manifestarei a ele] (Jo 14.21), e a visão dele no céu, ἐμφανισθῆναι τῷ προσώπῳ τοῦ θεοῦ [manifestar-se diante da face de Deus] (Hb 9.24); mas a mesma visão será vista por olhos muito diferentes. Seja qual for o sentido que a promessa tem para o presente, o seu sentido mais pleno é para o futuro: Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus (Mt 5.8). Esta é a VISÃO BEATÍFICA do Pai no Filho de Deus em Cristo, para a qual a contemplação da fé agora prepara e pela qual anseia: não é outra coisa senão o cumprimento do pedido do Salvador, para que vejam a minha glória (Jo 17.24).

União. (2.) Essa visão implica uma personalidade distinta, que jamais se perderá em Deus. Mas, em certo sentido, ela precisa perder-se em Deus, pois a última oração do Salvador, que era na verdade a sua última promessa, foi: a fim de que todos sejam um. E como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles estejam em nós (Jo 17.21). Não satisfeito com isso, ele prosseguiu e disse: eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade (Jo 17.23). Essa união com Deus, como lemos, começa na terra: para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim (Jo 17.23). Para uma união como essa não há analogia na terra, nem entre as coisas criadas: ela tem o seu tipo na própria Santíssima Trindade.

III, 454Bem-aventurança. (3.) Esta é a BEM-AVENTURANÇA eterna: o termo que a teologia cristã usa para exprimir a felicidade máxima de que o espírito criado é capaz na visão e no gozo de Deus, e no reflexo puro e límpido da sua imagem. Refletindo perfeitamente a imagem da Imagem eterna do Pai, teremos alcançado a nossa consumação pessoal mais verdadeira e mais plena: εἶτα τὸ τέλος [então, o fim] (1Co 15.24), o espírito do homem encontra o seu descanso naquele que é o princípio e o começo da sua vida, sendo agora a realização glorificada do que Adão era no Paraíso, acrescida de uma união com o Filho de Deus que Adão não tinha. Aqui está o resultado final da obra de Deus realizada pelo Redentor na alma do homem: a sua própria pureza, a visão de Deus nele e a bem-aventurança perfeita. Mais uma vez, isso não é senão a consumação do que começa na terra. Na visão espiritual de si mesmo, ele nos capacita a purificar a nossa alma, assim como ele é puro (1Jo 3.3), pois somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem (2Co 3.18). E todos os que assim são transformados pela graça serão trasladados para a glória do além. Nos nossos corpos glorificados, os nossos espíritos glorificados verão a Deus e, nessa visão, gozarão a bênção eterna dos limpos de coração: conheceremos aquela bem-aventurança absoluta cuja concessão foi o fim último de toda a obra do Redentor na terra: Tendo Deus ressuscitado o seu Servo [Jesus], enviou-o para abençoá-los, no sentido de que cada um abandone as suas maldades (At 3.26).

AO DEUS ÚNICO E SÁBIO SEJA DADA GLÓRIA, POR MEIO DE JESUS CRISTO, PARA SEMPRE. AMÉM! (Rm 16.27)

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 424-454, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.