Aula 2 de 11A Escatologia de John Wesley

A morte e o paraíso: o estado intermediário

“Em verdade lhe digo que hoje você estará comigo no paraíso.”Lucas 23.43 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Lc 16.19-31; Lc 23.39-43; Fp 1.20-24; 2Co 5.1-10; 1Ts 4.13-18; Ap 6.9-11; Ap 14.13

Como ler esta aula. As palavras de Wesley aparecem como links sublinhados em laranja, seguidos da referência convencional entre parênteses (sermão e parágrafo, ou livro e versículo das Notas); o link abre a obra neste site no trecho exato. Os blocos marcados Síntese do curso trazem a leitura e a avaliação do curso; os marcados Nota do editor, esclarecimentos e fontes.

Para começar

O que acontece quando morremos?

Nossos mortos estão conscientes ou dormem? Já estão no céu? Existe um lugar de purificação antes da glória? Vamos reconhecer os que amamos? Wesley respondeu a todas essas perguntas, e respondeu a partir dos textos.

Toda igreja enfrenta essas perguntas ao lado de um caixão. Wesley as enfrentou muitas vezes: enterrou a mãe, o irmão, amigos como George Whitefield e John Fletcher, e milhares de metodistas comuns. O que ele ensinou sobre o intervalo entre a morte e a ressurreição não nasceu em gabinete, e sim em funerais, cartas de consolo e sermões pregados diante de gente enlutada.

A resposta dele tem três partes, e vale anunciá-las de saída. Primeira: na morte, a alma se separa do corpo e continua consciente. Segunda: as almas dos justos vão para o paraíso, que não é ainda o céu em sua plenitude, e as dos ímpios para uma região de sofrimento, à espera do juízo. Terceira: não existe purgatório, e a felicidade dos que morreram no Senhor não fica adiada até a ressurreição. Tudo isso, para ele, está na Escritura. O que a Escritura não diz, ele trata como conjectura, e é preciso saber separar as duas coisas.

Uma palavra sobre as fontes desta aula. Os dois sermões centrais são o Sermão 112, O Rico e Lázaro, sobre o rico e Lázaro, e o Sermão 122, Sobre a Fé, sobre Hebreus 11.1, em que Wesley usa repetidamente expressões como talvez e não seria possível supor. A eles se somam as Notas sobre Lucas 16 e 23, 2Coríntios 5, Filipenses 1, Hebreus 9 e Apocalipse 1, 6 e 14, além de uma carta de 1783 e do relato da morte de Susana Wesley.

O mapa

Paraíso, Hades e o mundo invisível

Para entender Wesley é preciso aprender o vocabulário dele, que é o vocabulário do Novo Testamento grego: Hades não é o inferno final, e paraíso não é ainda o céu.

Comece pela nota sobre Apocalipse 1.18, onde Cristo diz ter as chaves da morte e do Hades. Wesley explica: no estado intermediário, o corpo permanece na morte; a alma, no HadesNotas, Ap 1.18. O corpo fica na sepultura; a alma vai para o mundo invisível. E esse mundo invisível tem duas regiões. No Sermão 112 ele observa que a palavra traduzida por inferno em Lucas 16.23 nem sempre indica o castigo final: literalmente, significa o mundo invisível e possui sentido muito amploSermão 112, §7. Ali, no caso do rico, trata-se da região do Hades onde estão as almas dos ímpios, em tormento.

A outra região é o paraíso. Sobre Lucas 16.22, Wesley diz que o seio de Abraão era o nome que os judeus davam ao paraíso, o lugar onde as almas dos bons permanecem da morte até a ressurreiçãoNotas, Lc 16.22. Sobre Lucas 23.43, define o paraíso como o lugar onde as almas dos justos permanecem, da morte até a ressurreiçãoNotas, Lc 23.43. E na carta a George Blackall, de 1783, resume tudo em uma frase de consolo: no paraíso, as almas dos que morreram no Senhor descansam do seu trabalho e estão com Cristo, da morte até a ressurreiçãoCartas sobre a esperança do céu.

2

Mas é a entrada do céu

No Sermão 73, tratando do que os ímpios perdem, Wesley diz que as almas no paraíso estão sendo preparadas para uma felicidade maior: o paraíso é apenas a entrada do céuSermão 73. E no Sermão 84 chama o paraíso de antessala do céuSermão 84, II.4, onde os justos convivem com os santos de todas as eras e, acima de tudo, estão com Cristo.

Note o que Wesley não sabe e diz que não sabe. Sobre o lugar em que o Hades se encontra, escreve no Sermão 122 que Deus não se agradou em revelar coisa alguma a respeito disso nas EscriturasSermão 122, §6. O mapa dele é bíblico, não geográfico.

Duas recusas

Nem purgatório, nem sono da alma

Wesley fecha duas portas com a mesma chave, a Escritura: a do purgatório romano e a da ideia de que a alma dorme ou se extingue até a ressurreição.

A primeira porta é o purgatório. Na nota sobre 1Coríntios 3.13, o texto que Roma usava para defendê-lo, Wesley conclui: este texto, longe de estabelecer o purgatório romano, o derruba por completoNotas, 1Co 3.13. O fogo daquele versículo pertence ao dia do juízo, e não a um lugar intermediário. Na nota sobre Apocalipse 14.13, os que morrem no Senhor descansam: nenhuma dor, nenhum purgatório se segue; mas felicidade pura, sem misturaNotas, Ap 14.13.

No Sermão 112 o argumento é pastoral. O rico está atormentado, não purificado, e Wesley acrescenta que fogo algum, além do fogo do amor, poderá purificar a alma, seja no tempo, seja na eternidadeSermão 112, §8. O único fogo que purifica é o do amor de Deus, e ele age nesta vida.

A segunda porta é o sono da alma. Comentando a resposta de Jesus aos saduceus, Wesley extrai de Êxodo 3.6 a conclusão de que a alma não morre com o corpoNotas, Mt 22.32; e, sobre Lucas 20.38, que todos os que o têm por seu Deus vivem para ele e o desfrutamNotas, Lc 20.38. Os saduceus imaginavam os mortos como espíritos extintos; Jesus os desmente. Por isso Paulo pode dizer que prefere partir e estar com Cristo, e Wesley comenta: é melhor partir; é muitíssimo melhor estar com CristoNotas, Fp 1.23. E sobre 2Coríntios 5.8 escreve a frase que resolve a questão: isto demonstra que a felicidade dos santos não é adiada até a ressurreiçãoNotas, 2Co 5.8.

Há, porém, um cuidado que Wesley faz questão de manter. Não existe julgamento particular na hora da morte. Sobre Hebreus 9.27 ele escreve que, no momento da morte, o estado final de cada pessoa fica determinado, mas não há na Escritura uma só palavra sobre um juízo particular imediatamente após a morteNotas, Hb 9.27. E no Sermão 51 explica: a Escritura não nos dá razão para crer que Deus se assente então em juízo sobre nósSermão 51, III.1. O que há na morte é certeza, não tribunal. O tribunal é um só, e vem na volta de Cristo.

Notas sobre Hebreus 9.27 e Sermão 51, O bom mordomo

O que se sabe e o que se supõe

Conscientes, reconhecidos e em crescimento

Aqui Wesley avança do que a Escritura afirma para o que ele considera provável. É a parte mais fascinante do seu ensino e a que mais exige o cuidado de distinguir doutrina de conjectura.

O que ele afirma com base nos textos. As almas no paraíso são conscientes e felizes: não podemos duvidar de que ali os espíritos dos justos sejam indescritivelmente felizesSermão 122, §4, escreve no Sermão 122. Elas reconhecem umas às outras. Sobre Lucas 16.23 pergunta: e não se reconhecerão os filhos de Abraão uns aos outros, quando estiverem juntos no paraíso?Notas, Lc 16.23 E no mesmo Sermão 122 responde aos céticos que perguntam como os espíritos se reconhecem: respondo claramente: não sei; estou certo, porém, de que reconhecemSermão 122, §11. As almas dos mártires, sob o altar de Apocalipse 6, clamam por justiça e recebem vestes brancas: o quinto selo, diz a nota, refere-se aos mortos felizes, particularmente os mártiresNotas, Ap 6.9.

O que ele apresenta como provável. Que os justos no paraíso continuam sendo preparados para o céu, crescendo cada vez mais em santidade e felicidadeSermão 122, §5, até serem recebidos no Reino. Que conversam com os santos de todas as épocas: no Sermão 84, conversam com Adão, o primeiro dos homensSermão 84, II.4. E que talvez, como os anjos, sirvam aos que ficaram na terra: recebem permissão para servir aqueles que deixaram na terraSermão 122, §12. Wesley encontra apoio nisso em Apocalipse 22.9, onde o anjo se apresenta como conservo dos profetas, mas ele mesmo escreve tudo isso na forma de pergunta.

Doutrina

Alma consciente depois da morte; os justos com Cristo, descansando; os ímpios em tormento; reconhecimento mútuo; sem purgatório; sem juízo particular; tudo à espera da ressurreição.

Conjectura

Onde fica o Hades; se os espíritos crescem em conhecimento e santidade no paraíso; se visitam e servem os vivos; o que os ímpios fazem enquanto esperam. Wesley diz talvez, e nós devemos dizer o mesmo.

Um detalhe pastoral merece atenção. Wesley recusa que a lembrança dos nossos se apague no paraíso. A gratidão a quem nos fez bem é uma disposição santa, e toda disposição santa permanece; logo, o conhecimento de quem nos fez bem também permanece. Ele conclui, sobre um moribundo que se alegrava em rever pais e irmãos: não reconhecer os seus seria uma ideia que tudo em nós rejeita. É também o que ele diz, em uma linha, no Sermão 112: algum de vocês duvida de que conheceremos uns aos outros no outro mundo?Sermão 112, §10

A doutrina que consola

Chorar como quem tem esperança

O ensino sobre o estado intermediário existe, em Wesley, para uma coisa: consolar sem mentir. O luto é permitido; o desespero, não.

Sobre 1Tessalonicenses 4.13, Wesley observa que o cristianismo não remove nem amarga, mas tempera docementeNotas, 1Ts 4.13. O afeto pelos que morreram não é apagado, é temperado. No Sermão 135, pregado em 1726 no funeral de um jovem amigo, ele cita Paulo para dizer que não devemos ignorar os que dormem, nem que nos entristeçamos como aqueles que não possuem esperançaSermão 135. E, diante de quem chora, faz a pergunta certa: quem poderia condenar aquele que derrama uma lágrima?Sermão 135 Chorar é humano; o que a fé impede é o luto sem fim, que Wesley chama de característica da inveja, e não do amor, porque lamentar a felicidade de outra pessoa e chorar porque todas as lágrimas foram enxugadas de seus olhos não é amorSermão 135.

O relato mais tocante está no Diário. Em julho de 1742, John chegou a Londres e escreveu: Encontrei minha mãe às margens da eternidade.Diário, cap. 4 Susana Wesley não tinha dúvida nem medo, e só desejava partir e estar com Cristo. Antes de perder a fala, pediu: Filhos, assim que eu partir, cantem um salmo de louvor a Deus.Diário, cap. 4 Era assim que os metodistas morriam, e era assim que Wesley queria que vivessem.

Nas cartas de consolo o mesmo tom aparece. À amiga Hester Ann Roe, que perdera um primo jovem e útil, ele escreve que a retirada de alguém assim no começo da sua utilidade é um daqueles atos da economia divina que deixam para trás a nossa razãoCartas de consolo. Não explica o inexplicável. Diz que só nos resta admirar e adorar, e conclui: vivamos o dia de hoje.

Carta a Hester Ann Roe, 1º de outubro de 1782

Avaliação e aplicação

O que guardamos e como aplicamos

Nem tudo o que Wesley escreveu sobre o intervalo entre a morte e a ressurreição tem o mesmo peso. Aqui está o que a Escritura sustenta com firmeza e o que fica em aberto.

Guardamos com ele o essencial: quem morre no Senhor está com Cristo e descansa das suas fadigas (Fp 1.23; 2Co 5.8; Ap 14.13); a esperança cristã não é a alma desencarnada, e sim a ressurreição do corpo (1Ts 4.14-17); não há purgatório nem segunda chance depois da morte (Hb 9.27).

Deixamos em aberto o que ele mesmo deixou: a geografia do Hades e a atividade dos espíritos. O que ele ensina sobre a condição da alma entre a morte e a ressurreição fica registrado como ensino dele, com os textos em que se apoia, para que cada leitor o confira na Escritura. O centro não está em discussão: os mortos em Cristo estão com Cristo, e a nossa esperança é a manhã da ressurreição.

1

Para o luto

Diga a verdade com ternura: o irmão que partiu está com o Senhor e descansa; nós ainda caminhamos. Não diga que ele virou anjo, nem que está olhando por nós desde o céu como se fosse doutrina. Diga o que a Escritura diz.

2

Para a pregação

Pregue o paraíso como Wesley: como consolo dos justos e como advertência aos que adiam a decisão. O rico não pôde voltar, e ninguém atravessa o grande abismo.

3

Para a própria vida

A frase de Wesley sobre o jogador vale para todos: bendito seja Deus, porque o seu dado ainda não foi lançado.Sermão 112, §13 Enquanto há vida, há tempo de se voltar para Deus.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.

Você já consolou alguém dizendo que a pessoa que morreu virou anjo, ou está olhando por nós do céu? O que esta aula corrige, e como corrigir sem ferir?Ver resposta sugerida

Comece reconhecendo a intenção: quem diz essas coisas quer aliviar a dor, e isso é bom. O problema é que as frases não são bíblicas, e um consolo que não é verdadeiro acaba não sustentando ninguém quando a dor aperta.

O que a Escritura oferece é melhor: quem morre no Senhor está com Cristo (Fp 1.23), descansa das suas fadigas (Ap 14.13) e aguarda a ressurreição do corpo (1Ts 4.16). Não virou anjo; continua sendo a pessoa que amamos, agora na presença de quem a salvou.

Na hora de corrigir, não corrija a pessoa enlutada. Ofereça a verdade como acréscimo, não como reprimenda: em vez de dizer que ela não virou anjo, diga que ela está com Jesus e que vamos vê-la de novo. O que Wesley ensina sobre reconhecimento mútuo é, aqui, o consolo mais forte.

Na sua igreja, costuma-se dizer que quem morreu em Cristo foi para o céu. Como apresentar, sem confundir nem corrigir com aspereza, o ensino de Wesley de que o paraíso ainda não é o céu em plenitude?Ver resposta sugerida

Comece pelo que a linguagem comum acerta: quem morre no Senhor está com Cristo (Fp 1.23), e isso é o essencial. Dizer que o irmão foi para o céu, nesse sentido, não é erro; é abreviação.

Depois, mostre o que o Novo Testamento acrescenta e Wesley preserva: a esperança tem etapas. Agora, descanso com Cristo (Ap 14.13); depois, a ressurreição do corpo e a glória plena, quando Cristo voltar (1Ts 4.16-17; 1Co 15.52). O vocabulário de Wesley, paraíso e céu, serve para não deixar a ressurreição sumir da esperança da igreja.

Na prática, ensine isso na classe, não no velório. Diante do enlutado, diga que a pessoa está com Jesus e que a esperança de todos nós é a manhã da ressurreição. A distinção fica para o ensino sereno, sem repreender quem consola com as palavras que tem.

Wesley distingue o que a Escritura afirma sobre o estado intermediário do que ele mesmo supõe. Por que essa distinção importa para quem ensina na igreja?Ver resposta sugerida

Porque a igreja sofre quando conjecturas viram doutrinas. Se um professor ensina como certo que os mortos nos visitam ou que crescem em santidade no paraíso, cria expectativas que a Bíblia não sustenta e abre portas para práticas estranhas, como buscar contato com os que partiram.

Wesley dá o exemplo: sobre a consciência dos mortos e a ausência de purgatório ele fala com toda a firmeza, porque tem texto; sobre a atividade dos espíritos, escreve em forma de pergunta.

A regra prática é simples: pregue com força o que está claro, apresente com cautela o que é provável e cale o que a Escritura cala. Foi assim que Wesley conseguiu consolar sem enganar.

A morte e o paraíso: o estado intermediário · Aula 2 de 11 do curso A Escatologia de John Wesley. Todas as citações desta aula levam ao trecho exato das obras de John Wesley publicadas neste site.