“O homem deixará”, abandonará inteiramente, “o seu pai e a sua mãe” (Mt 19.5), já que a união matrimonial é mais íntima e mais obrigatória até do que o afeto paterno ou filial; “e se unirá” intimamente, ficará firmemente colado, “à sua mulher”. É uma bela metáfora, que dá a entender com muita força que nada senão a morte pode separá-los: como uma tábua bem colada, que se parte antes na madeira inteira do que na junta colada.
“Tornando-se os dois uma só carne”: isso não significa só que devem ser considerados um só corpo, mas também duas almas num só corpo, com completa união de interesses e uma sociedade indissolúvel de vida e de sorte, de consolo e de amparo, de desejos e inclinações, de alegrias e tristezas.
Eis uma grande regra segundo a qual todo marido é chamado a agir: “ame a sua esposa, como também Cristo amou a igreja” (cf. Ef 5.25). Mas como Cristo amou a igreja? “Se entregou por ela”: deu a vida por ela. Então os maridos devem, se for necessário, dar a vida pelas esposas. E as palavras implicam mais do que simples proteção e sustento; pois, assim como Cristo se entregou pela igreja para salvá-la, assim os maridos devem trabalhar, por todos os meios ao seu alcance, para promover a salvação das suas esposas e a sua edificação constante na justiça. Vemos assim que a autoridade do homem sobre a mulher se funda no seu amor por ela, e esse amor tem de ser tal que o leve a arriscar a vida por ela. Como o cuidado da família recai sobre a esposa, e os filhos devem sobretudo à mãe a direção da mente e a formação dos costumes, ela precisa de toda a ajuda e de todo o apoio que o marido lhe possa dar; e, se cumpre bem o seu dever, merece o máximo do seu amor e afeto.
O marido deve amar a esposa; a esposa, obedecer ao marido e reverenciá-lo: amor e proteção de um lado, sujeição afetuosa e fidelidade do outro. O marido deve prover à esposa sem incentivar o esbanjamento; zelar pela sua conduta sem aborrecê-la; mantê-la em sujeição sem fazer dela uma escrava; amá-la sem ciúme; agradá-la sem lisonja; honrá-la sem torná-la orgulhosa; e ser inteiramente dela, sem se tornar nem o seu lacaio nem o seu escravo. Em suma, eles têm direitos iguais e reivindicações iguais; mas a força superior dá ao homem o domínio, e o afeto e a sujeição dão à mulher o direito ao amor e à proteção. Sem a mulher, o homem é apenas meio ser humano; em união com o homem, a mulher encontra a sua segurança e a sua perfeição.
Quão poucas esposas sentem que é seu dever orar a Deus para que lhes dê graça para se comportar como esposas! Quão poucos maridos oram pela graça própria da sua condição, para poderem cumprir os seus deveres! O mesmo se pode dizer dos filhos, dos pais, dos empregados e dos patrões. Assim como cada condição na vida tem os seus deveres, as suas provações etc., a cada condição se destina uma graça própria. Ninguém pode cumprir os deveres de qualquer posição sem a graça própria dessa posição. A graça própria de alguém como membro da sociedade em geral não lhe bastará como marido, pai ou patrão. Muitos casamentos acertados se tornam infelizes no fim porque as partes não pediram com fervor a Deus a graça necessária a elas como maridos e esposas. Essa é a origem das brigas domésticas em geral, e a devida atenção ao conselho do apóstolo evitaria todas elas.
Os que imaginam que podem enfrentar os cuidados da vida com a mesma medida de graça que lhes bastava quando solteiros vão descobrir que estão muito enganados. Pois cada condição na vida exige uma graça própria e adequada. A maioria dos recém-casados, mesmo entre os religiosos, não pensa nisso. Por isso, muitas vezes se vê o casal recém-casado logo declinar na vida divina e, em vez de avançar, ou mancar no caminho celestial ou voltar para o mundo.
Sou inteiramente da opinião de Salomão de que “quem acha uma esposa acha o bem” (Pv 18.22). Em quaisquer circunstâncias, o casamento é melhor que o celibato. Por isso abomino o acréscimo feito aqui pelo Targum e por alguns outros pretensos corretores da palavra de Deus, que acrescentaram “boa”. [N. do T.: isto é, “quem acha uma boa esposa”; a NAA, como a King James, não traz o adjetivo.] É uma verdade, sem dúvida, que uma criança poderia ter dito; um truísmo, um actum agere, muito indigno da sabedoria de Salomão, porque com toda a certeza quem acha uma coisa boa acha uma coisa boa. Queira registrar esta bela observação crítica nas suas anotações. [N. do T.: actum agere, “fazer o que já está feito”, isto é, dizer o óbvio.]
Deus declara que o estado de celibato é um estado mau, ou, se o leitor preferir, “não bom”: “O Senhor Deus disse ainda: Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Esse é o juízo de Deus. Concílios, Pais da Igreja, doutores e sínodos deram um juízo diferente, mas sobre tal assunto não merecem atenção alguma. A palavra de Deus permanece para sempre. Deus fez a mulher para o homem, e assim nos mostrou que todo filho de Adão deve se unir a uma filha de Eva até o fim do mundo. Deus tirou a mulher do homem, para dar a entender que a união mais estreita e o apego mais afetuoso devem existir na ligação matrimonial, de modo que o homem sempre considere e trate a mulher como uma parte de si mesmo. E, assim como ninguém jamais odiou o seu próprio corpo, mas o alimenta e cuida dele (cf. Ef 5.29), assim o homem deve tratar a sua esposa. Por outro lado, a mulher deve considerar que o homem não foi feito para ela, mas ela foi feita para o homem e recebeu dele, sob Deus, o seu ser; por isso a esposa deve respeitar o marido (cf. Ef 5.33). Gênesis 2.23-24 contém as próprias palavras da cerimônia do casamento: “Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne […]. Por isso, o homem deixa pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”. Como deve ser feliz tal estado quando a instituição de Deus é devidamente respeitada, quando as partes se casam, como diz o apóstolo, “no Senhor” (1Co 7.39); quando cada um, por atos da mais terna bondade, vive só para se antecipar aos desejos do outro e contribuir, de todas as maneiras possíveis, para o seu conforto e a sua felicidade! O casamento ainda poderia ser o que era na sua instituição original, puro e adequado, e, no seu primeiro exercício, afetuoso e feliz. Mas quão poucos casamentos assim se encontram! A paixão turbulenta e desordenada, e não a religião; o costume fundado nessas desordens, e não a razão; as perspectivas mundanas, que começam e acabam no egoísmo e nos afetos terrenos, e não em fins espirituais, são as grandes causas produtoras da grande maioria das alianças matrimoniais. Como, então, fontes tão turvas e amargas podem jorrar águas puras e doces (cf. Tg 3.11)?
A incompatibilidade das mentes, mais do que as circunstâncias, é o que em geral estraga a união matrimonial. Onde as mentes combinam, os meios de felicidade e contentamento estão sempre ao alcance.
Não hesito em dizer que os que se casam por dinheiro cometem adultério enquanto vivem.
Uma conversa a bordo do navio entre Leith e Lerwick. “Por que será”, diz alguém, “que se usam os anéis mais simples e sem enfeite na cerimônia do casamento?” “Porque, creio eu, o direito canônico exige que não se use outro.” A. C.: “Não conheço nenhuma lei sobre essa parte do assunto. A lei determina que se use um anel de metal, e não de couro, palha, linha etc. E a razão me parece ser esta: o próprio anel indica a duração da união; ele não tem fim em relação à vida natural das partes. O metal está menos sujeito à destruição do que o linho, o couro, a palha etc. Prefere-se em geral o ouro, não só porque é o mais precioso, mas porque é o mais perfeito dos metais, menos sujeito à destruição ou à deterioração pela oxidação. A vida se desgasta pelos trabalhos, pelas provações etc., e o ouro também se desgasta pelo atrito, pelo uso frequente etc. Por isso, a vida e o metal se figuram um ao outro de modo bastante apropriado. Quanto a ser o anel simples e sem enfeite, penso que a razão está no próprio caso e nos sentimentos e na percepção do noivo que o apresenta. Ele escolheu, segundo os seus sentimentos, aquela que considera a mais perfeita do seu sexo: ela é para ele superior a qualquer outra mulher, adornada de todos os encantos. Usar então, nesse estado de coisas, qualquer enfeite seria uma confissão tácita de que a sua pessoa tinha defeito e precisava de algo que a realçasse, e que teria de depender mais ou menos da fraca ajuda do adorno”. A sra. Frembly: “Mas, senhor, logo se acrescenta o que se chama de anel de guarda, e esta, se as circunstâncias permitirem, é muito enfeitada com pérolas ou brilhantes”. A. C.: “É verdade, minha senhora; e isso tem muito significado. O anel sem enfeite supõe o fato da grande superioridade da noiva, como já se disse, e os sentimentos correspondentes dela para com o esposo; mas o anel de guarda é acrescentado depois. Para preservar essa perfeição, o marido sente que é necessário acrescentar enfeites à união, isto é, carinhos, atenções e obrigações, para manter a esposa firme no caráter que ele lhe atribuiu. E, sem atenção à manutenção desse caráter e à continuação de uma conduta carinhosa, ele sabe que o avanço da vida de casados logo removerá todas as expectativas falsas, ou otimistas demais, de cada um a respeito do caráter do outro. A bolha, se fosse uma bolha, logo estouraria; as animosidades e as recriminações mútuas logo amargariam a vida conjugal e mostrariam quão falsas e vazias eram, no começo, a alta estima e as expectativas de um em relação ao outro. Assim, o anel de guarda, tanto quanto o anel de casamento, tem a sua significação própria”. [N. do T.: “A. C.” é o próprio Adam Clarke. Leith é o porto de Edimburgo; Lerwick, a capital das ilhas Shetland, que Clarke visitou em missão.]