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Parte II · Capítulo XIII

Cristo possui atributos divinos

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Tendo considerado o significado de alguns dos títulos aplicados a nosso Senhor nas Escrituras, e provado que eles implicam divindade, podemos agora considerar os atributos que lhe são atribuídos no Novo Testamento. Se, aos nomes e títulos elevados que implicam divindade, virmos acrescentados atributos que nunca são dados a criaturas, e dos quais todas as criaturas estão excluídas, a divindade de Cristo fica estabelecida para além de qualquer controvérsia razoável. Nenhum argumento pode ser mais conclusivo do que este. Da essência da Divindade nada sabemos, a não ser que ele é Espírito. Ele se dá a conhecer por seus atributos; e é por eles que aprendemos que há uma distinção essencial entre ele e as suas criaturas, porque ele tem atributos que elas não têm, e aqueles que elas têm em comum com ele, ele os possui em grau absolutamente perfeito. Daí se segue que a dele é uma natureza peculiar, uma natureza sui generis (única no seu gênero), da qual nenhuma criatura se aproxima nem pode de modo algum se aproximar. Se, então, esses mesmos atributos forem atribuídos a Cristo tão explícita e literalmente quanto ao Pai, segue-se necessariamente que, sendo os mesmos os atributos, a essência é a mesma, e essa essência é a natureza exclusiva da θεότης, ou “Divindade”. De fato, seguir-se-ia que, se apenas um dos atributos peculiares da Divindade fosse atribuído a Cristo, ele teria de possuir todos, visto que não podem existir separadamente; e quem possui um deve ser tido como possuidor de todos.1 Mas não é um atributo apenas, e sim todos os atributos da Divindade, que lhe são atribuídos; e não só os que são morais e que, por isso, podem ser comunicados (embora estes, tal como são atribuídos a Cristo em grau infinito e em perfeição absoluta, bastassem para o argumento), mas também aqueles que, por consenso de todos os lados, são incomunicáveis e peculiares à Divindade.

A eternidade lhe é atribuída. “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu. O governo está sobre os seus ombros, e o seu nome será: ‘Maravilhoso Conselheiro’, ‘Deus Forte’, ‘Pai da Eternidade’, ‘Príncipe da Paz'” (Is 9.6). “Pai da Eternidade” é vertido de vários modos pelos principais críticos ortodoxos; mas todas as versões são coerentes com a aplicação de uma eternidade positiva ao Messias, de quem, como se reconhece, este texto é uma predição. O bispo Lowth diz: “o Pai da era eterna”. O bispo Stock: “o Pai da Eternidade”, isto é, o seu possuidor. Dathe e Rosenmüller: “o Eterno”. O primeiro considera tratar-se de um idiomatismo oriental, pelo qual nomes de parentesco, como pai, mãe etc., são usados para designar o autor ou o possuidor eminente de uma qualidade ou objeto. Em Ap 1.17-18: “Eu sou o primeiro e o último e aquele que vive. Estive morto”; o mesmo em Ap 2.8; e nas duas passagens o contexto mostra, de modo indiscutível, que é nosso próprio Senhor quem fala e aplica a si mesmo esses títulos. Em Ap 22.13, também, Cristo é quem fala e declara ser “o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim“. Ora, é por esses mesmos títulos que se declara a eternidade de Deus, em Is 44.6 e 43.10: “Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus” [N. do T.: Watson indica Is 45.6]; “antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá”. No livro do Apocalipse, porém, eles são assumidos por Cristo de modo igualmente explícito e absoluto; e afirmam claramente que o Ser ao qual se aplicam não teve princípio nem terá fim. Em Ap 1.8, depois da declaração “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor” [N. do T.: Watson segue a KJV; a NAA não traz “o princípio e o fim” neste versículo], acrescenta-se: “aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso”. Alguns referiram essas palavras ao Pai, mas certamente sem razão, como mostra o próprio propósito da passagem. É Cristo quem fala na primeira pessoa ao longo de todo o capítulo, quando se usam os títulos sublimes da primeira parte do versículo, e, na verdade, ao longo de todo o livro; e interpretar essa oração em particular como referente ao Pai introduziria uma mudança de pessoas extremamente abrupta, que nunca teria sido imaginada não fosse uma teoria falsa. Essas palavras, na verdade, apenas exprimem o significado do nome Jeová, tantas vezes dado a Cristo; e como, quando se fala do Pai no versículo 4, faz-se a respeito dele a mesma declaração que, no versículo 8, nosso Senhor faz de si mesmo, segue-se que, se os termos “que era, que é e que há de vir” descrevem a eternidade do Pai, descrevem também a eternidade como atributo do Filho. Temos uma declaração semelhante em Hb 13.8: “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre“, onde se atribuem a ele a eternidade e a sua companheira necessária, a imutabilidade. Que a expressão “ontem, hoje e para sempre” equivale a eternidade não precisa de prova; e que essas palavras não se referem à doutrina de Cristo, como sustentam os socinianos, fica evidente pelo contexto, que dificilmente faz algum sentido nessa hipótese (veja-se Macknight), visto que uma doutrina, uma vez entregue, tem de permanecer o que era no início. Essa interpretação, além disso, dá um sentido figurado a palavras que têm todo o caráter de uma declaração estritamente literal; e é mais uma confirmação do sentido literal, e de que se fala de Cristo pessoalmente, o fato de que αὐτός é a expressão com que se exprime a imutabilidade do Filho no capítulo 1, versículo 12: “Tu, porém, és αὐτός, o mesmo”. Peirce, na sua Paraphrase, exprimiu bem a ligação: “Considerando o desfecho da vida e da conduta deles, imitai a sua fé; pois o objeto da fé deles, Jesus Cristo, é agora o mesmo que era então, e será o mesmo para sempre”. Um Ser essencialmente imutável, e portanto eterno, é o único objeto próprio de uma “fé” absoluta. Uma atribuição semelhante e muito solene de eternidade e imutabilidade ocorre em Hb 1.10-12: “No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permaneces; todos eles envelhecerão como veste; como manto tu os enrolarás, e, como roupas, serão igualmente mudados. Tu, porém, és o mesmo, e os teus anos jamais terão fim“. Essas palavras são citadas do salmo 102, que todos reconhecem ser uma descrição sublime da eternidade de Deus. Aqui elas se aplicam a Cristo, e dele afirmam que ele existia antes do universo material; que este foi criado por ele; que ele tem poder absoluto sobre ele; que ele o destruirá; que fará isso com facilidade infinita, como quem enrola um manto; e que, em meio à decadência e às mudanças das coisas materiais, ele permanece o mesmo. A imutabilidade aqui atribuída a Cristo, porém, não é a de um espírito criado, que permanecerá quando o universo material for destruído; pois então nada haveria no texto que fosse próprio de Cristo, nada de que anjos e homens não participassem com ele, e as palavras ficariam privadas de todo significado. A sua imutabilidade e a sua duração são peculiares, e está implícito um contraste entre a sua existência e a de todas as coisas criadas. Elas são dependentes, ele é independente; e daí tem de se seguir a sua existência necessária e, portanto, eterna. A expressão “vida eterna“, quando usada, como acontece com frequência, nas epístolas de são João, é também uma designação clara da eternidade do nosso Salvador: “e a vida se manifestou, e nós a vimos e dela damos testemunho, e anunciamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada” (1Jo 1.2). Na primeira oração, Cristo é chamado a Vida; em seguida se diz que ele é “eterna”; e, para que não surgisse engano, como se o apóstolo quisesse apenas declarar que ele continuaria para sempre, mostra que lhe atribui a eternidade no seu estado preexistente: “a vida eterna, que estava com o Pai“, e com ele antes de ser “manifestada” aos homens. Não se poderia assinalar de modo mais inequívoco uma preexistência eterna.

A esses atributos essenciais da Divindade, ser sem princípio e sem mudança, acrescenta-se o de estar estendido por todo o espaço. Ele não é apenas eterno, mas onipresente. Assim ele declara estar ao mesmo tempo no céu e na terra, o que é seguramente uma propriedade exclusiva da Divindade: “Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que de lá desceu, o Filho do Homem, que está no céu” (Jo 3.13) [N. do T.: a NAA, seguindo os manuscritos que a omitem, não traz a última oração, “que está no céu”, da qual depende o argumento]. A autenticidade da última oração foi atacada por alguns críticos, mas foi plenamente estabelecida pelo Dr. Magee (Magee, On the Atonement). Esta passagem já foi defendida contra a interpretação sociniana e contém uma declaração inequívoca de ubiquidade.

Pois “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20). Como é fútil o comentário sociniano na New Version! Essa promessa deve ser “limitada à era apostólica”. Mas, ainda que se concedesse isso, de que valeria a concessão? Na era apostólica, os discípulos se reuniam em nome do seu Senhor muitas vezes por semana, e em inúmeras partes do mundo ao mesmo tempo, na Judeia, na Ásia Menor, na Europa etc. Aquele, portanto, que podia estar “no meio deles” sempre e onde quer que se reunissem, tem de ser onipresente. Mas eles acrescentam: “por uma presença espiritual, uma faculdade de conhecer coisas em lugares onde ele não estava presente”; “um dom”, dizem, “concedido aos apóstolos ocasionalmente”, e remetem a 1Co 5.3. Nessa passagem, porém, o apóstolo não reivindica nenhum dom desse tipo, pois soube do caso da igreja de Corinto, não por alguma faculdade ou revelação assim, mas porque “ouve-se por aí” (v. 1). Nem diz que estava presente com eles, mas que julgou “como se estivesse presente”. Se, de fato, algum dom desse tipo fosse concedido ocasionalmente aos apóstolos, seria, não uma “presença espiritual”, como diz a New Version, mas uma presença figurada. Nenhum sentido figurado desse tipo, contudo, é sequer insinuado no texto que temos diante de nós, que é uma declaração tão literal da presença de Cristo em toda parte com os seus adoradores quanto aquela promessa semelhante feita por Jeová aos israelitas: “em todo lugar onde eu fizer celebrar a memória do meu nome, virei até vocês e os abençoarei” (Êx 20.24). No próprio momento da sua ascensão, também, isto é, exatamente quando, quanto à sua presença corporal, deixava os seus discípulos, ele promete continuar com eles e chama a atenção deles para essa promessa com uma partícula enfática: “E eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28.20). Os socinianos traduzem “até o fim da era”, isto é, “da dispensação judaica, até a destruição de Jerusalém”. Tudo o que se pode dizer a favor disso é que as palavras podem ser traduzidas assim, se não se der atenção ao seu significado. Mas é certo que, em várias passagens, “o fim dos tempos”, συντέλεια τοῦ αἰῶνος, tem de ser entendido no seu sentido comum. Que é esse o sentido aqui fica evidente, primeiro, pela oração “eis que estou com vocês todos os dias“, πάσας τὰς ἡμέρας, “em todo tempo”; segundo, porque a presença espiritual se opõe, por uma antítese evidentemente implícita, à ausência corporal; terceiro, porque essa presença de Cristo era tão necessária aos seus discípulos depois da destruição de Jerusalém quanto até aquela época. Mas, ainda que a promessa fosse restringida desse modo, ela continuaria a provar a onipresença de nosso Senhor; pois, se ele estava presente com todos os seus discípulos em todos os lugares, “todos os dias”, até a destruição de Jerusalém, isso só poderia ser em virtude de uma propriedade que o tornaria presente aos seus discípulos em todas as épocas. A versão sociniana dá a entender que a presença de que se fala é o dom de poderes miraculosos. Admita-se até isso, embora seja uma visão muito parcial da promessa; então, se até a destruição de Jerusalém os apóstolos eram “sempre”, “em todo tempo”, capazes de operar milagres, o poder que os habilitava a realizar essas maravilhas tinha de estar “sempre”, e em todos os lugares, presente com eles; e, se isso não era um dote humano, se era necessário um poder superior ao do homem para realizar os milagres, e esse poder era o poder de Cristo, então ele estava real, embora espiritualmente, presente com eles, a menos que o atributo do poder possa ser separado do seu sujeito, e o poder de Cristo esteja onde ele mesmo não está. Essa, porém, é uma visão rebaixada do significado da promessa “eis que estou com vocês”, que, tanto no Antigo como no Novo Testamento, significa estar presente com alguém para ajudá-lo, consolá-lo e socorrê-lo. “Εἶναι μετά τινος: estar junto de alguém, ajudar alguém, cuidar dos interesses de alguém” (Rosenmüller).

Não é necessário apresentar mais do que uma outra passagem como prova de um ponto já tão plenamente estabelecido pela autoridade da Escritura. Depois que o apóstolo, em Cl 1.16-17, atribuiu a Cristo a criação de todas as coisas nos céus e sobre a terra, “as visíveis e as invisíveis”, ele acrescenta: “Nele tudo subsiste”. Sobre essa passagem, Raphelius cita um trecho notável de Aristóteles, De Mundo, onde o mesmo verbo que os nossos tradutores verteram por “subsistir” é usado em sentido semelhante, para exprimir a constante dependência de todas as coisas em relação ao seu Criador para que continuem a subsistir e sejam preservadas: “Há uma tradição antiga, comum a todo o gênero humano, de que todas as coisas subsistem a partir de Deus e por meio de Deus, e de que nenhum tipo de ser é autossuficiente quando está sozinho e privado do seu auxílio preservador”.2 O apóstolo, então, não só atribui aqui a Cristo a criação, mas também a conservação de todas as coisas; ora, para preservá-las, a sua presença tem de ter a mesma extensão que elas, e assim o universo da matéria e dos espíritos criados, o céu e a terra, tem de estar cheio do seu poder e da sua presença. “Esta breve frase implica que a presença de nosso Senhor se estende a todas as partes da criação, a todo ser e a todo sistema do universo; uma descrição extremamente notável e enfática da onipresença de Deus Filho” (Holden, Scripture Testimonies).

A esses atributos da divindade essencial acrescenta-se um conhecimento perfeito de todas as coisas. Este não pode ser atributo de uma criatura; pois, embora seja difícil dizer até onde pode se estender o conhecimento da mais elevada ordem de criaturas inteligentes, há dois tipos de conhecimento que Deus tornou peculiares a si mesmo por uma reivindicação solene e exclusiva. O primeiro é o conhecimento perfeito dos pensamentos e propósitos do coração. “Eu, o Senhor, sondo o coração. Eu provo os pensamentos” (Jr 17.10). “Tu, só tu”, diz Salomão, “és conhecedor do coração de todos os filhos dos homens” (1Rs 8.39). Esse conhecimento é atribuído a nosso Senhor e foi reivindicado por ele, e isso sem nenhuma indicação de que decorresse de uma revelação especial ou de um dom sobrenatural, como vemos, em alguns poucos casos, nos apóstolos e profetas, concedido para atender a um propósito particular e temporário. Nesses casos, deve-se notar também, o conhecimento dos espíritos e pensamentos dos homens era obtido em consequência de uma revelação que lhes fazia Aquele cuja prerrogativa é sondar o coração. No caso de nosso Senhor, porém, não se diz apenas: “Jesus, porém, conhecendo os pensamentos deles”, ou que percebeu “em seu espírito que eles assim pensavam”; mas isso é apresentado como um atributo ou faculdade original, e por isso são João se vale disso, numa ocasião, para explicar a conduta dele em relação a certos inimigos seus:

“Mas o próprio Jesus não confiava neles, porque conhecia a todos. E não precisava que alguém lhe desse testemunho a respeito das pessoas, porque ele mesmo sabia o que era a natureza humana” (Jo 2.24-25). Depois da sua exaltação, também, ele reivindica essa prerrogativa com todo o estilo e majestade do Jeová do Antigo Testamento: “e todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda mentes e corações” (Ap 2.23).

Uma descrição notável da onisciência de Cristo encontra-se também em Hb 4.12-13, se a entendermos, com a maioria dos antigos, como referente ao Verbo hipostático; sentido que, a meu ver, o propósito da passagem e o contexto determinam claramente. “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para julgar os pensamentos e propósitos do coração. E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e expostas aos olhos daquele a quem temos de prestar contas.” As razões para referir esta passagem antes a Cristo, o autor do evangelho, do que ao próprio evangelho, são: primeiro, que isso concorda melhor com o argumento do apóstolo. Ele está advertindo os cristãos contra o exemplo da antiga incredulidade judaica, e reforça a sua advertência lembrando-lhes que a Palavra de Deus discerne os pensamentos e propósitos do coração. O argumento é evidente se se trata do Verbo pessoal; de modo algum o é, se se supõe a doutrina do evangelho. Segundo, as orações “não há criatura que não seja manifesta na sua presença” e “todas as coisas estão descobertas e expostas aos olhos daquele com quem temos de tratar”, ou “a quem temos de prestar contas” [N. do T.: a primeira é a redação da KJV; a NAA adota a segunda], são indubitavelmente ditas de uma pessoa, e essa pessoa é a nossa testemunha e o nosso juiz. Os que pensam que se fala do evangelho no versículo 12 fazem, portanto, o apóstolo passar do evangelho para o próprio Deus no que se segue. Isso, contudo, produz uma ruptura violenta no argumento, para a qual não se pode dar nenhuma razão gramatical nem contextual; e é evidente que a mesma metáfora se estende pelos dois versículos. Ela é tirada da prática de dividir e cortar os corpos dos animais mortos para o sacrifício e abri-los para inspeção, a fim de que nenhum defeito ou enfermidade se ocultasse dentro deles e os tornasse impróprios para o serviço de Deus. O dividir “juntas e medulas”, no versículo 12, e o ficar “descobertas e expostas aos olhos”, no versículo 13, são partes da mesma ação sacrificial e judicial, à qual, portanto, só podemos atribuir com justiça um único agente. A única razão apresentada para a outra interpretação é que o termo Logos não é usado em nenhum outro lugar por são Paulo. Isso pode pesar pouco contra o sentido evidente da passagem. São Lucas (Lc 1.2) parece usar o termo Logos em sentido pessoal, e o usa apenas uma vez; e, se são Paulo o usa aqui e não nas suas outras epístolas, pode-se dar esta razão: nas outras epístolas ele escreve a judeus e gentios unidos nas mesmas igrejas; aqui, só a judeus, entre os quais, como vimos, o Logos era um termo teológico bem conhecido.3

Os socinianos alegam, contra essa atribuição de conhecimento infinito a nosso Senhor, Mc 13.32: “Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai”. A autenticidade da oração “nem o Filho” tem sido contestada, e Griesbach não a insere no seu texto; não há, porém, razão suficiente para rejeitá-la, embora seja certo que na passagem paralela, Mt 24.36, “nem o Filho” não se encontra: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, senão meu Pai somente” [N. do T.: Watson cita a KJV; a NAA, seguindo outros manuscritos, traz “nem o Filho” também em Mateus]. Ficamos então reduzidos a isto: certo número de passagens declara explicitamente que Cristo sabe todas as coisas; há uma que declara que o Filho não sabia “o dia e a hora” do juízo; por outro lado, há uma passagem que certamente implica que até esse momento era conhecido de Cristo; pois são Paulo, em 1Tm 6.14-15, falando da “manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” como juiz universal, acrescenta logo: “a qual, nos seus próprios tempos, καιροῖς, mostrará quem é o bendito e único Soberano” etc. [N. do T.: Watson segue a KJV, in his times; a NAA traz “no tempo certo”]. O dia do juízo é aqui chamado “os seus próprios tempos”, ou “as suas próprias estações”, o que, no seu sentido evidente, significa o momento que ele mesmo fixou, visto que uma certa manifestação de si mesmo, na sua plenitude, é por ele reservada para aquele momento. Assim como “os tempos e as épocas” também se diz, em outro lugar, que estão sob a “própria autoridade” do Pai (At 1.7), assim, por uma expressão equivalente, diz-se aqui que estão sob o poder do Filho, porque são “os seus próprios tempos”. Sem dúvida, então, ele conhecia “o dia e a hora do juízo”.4 Ora, certamente não pode haver na palavra da verdade uma contradição tão gritante e direta como a de que nosso Senhor conhecesse o dia do juízo e, ao mesmo tempo e no mesmo sentido, não o conhecesse. Portanto, ou a passagem de Marcos admite uma interpretação que a torne coerente com outras passagens que afirmam claramente o conhecimento de nosso Senhor de todas as coisas, e, por conseguinte, desse grande dia, ou essas passagens têm de se sujeitar a uma interpretação que as ponha em acordo com a de Marcos. Mas não pode estar na natureza das coisas que textos que predicam claramente um conhecimento infinito sejam interpretados como significando um conhecimento finito e parcial, e essa tentativa só estabeleceria uma contradição entre o texto e o comentário. A interpretação desses textos se impõe a nós; mas o texto de Marcos admite uma interpretação que não envolve nenhuma contradição ou absurdo e que o faz concordar com o restante do testemunho da Escritura sobre o assunto. Isso pode ser feito de dois modos. O primeiro é adotado por Macknight.

“A palavra οἶδεν parece ter aqui a força da conjugação hebraica hifil, que, nos verbos que denotam ação, faz essa ação, qualquer que seja, passar a outro. Por isso εἰδέω, que propriamente significa eu sei, usado no sentido da conjugação hifil, significa faço outro saber, declaro. A palavra tem esse sentido, sem discussão, em 1Co 2.2: ‘Porque decidi, εἰδέναι, nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado’, isto é, decidi não dar a conhecer, não pregar nada, a não ser Jesus Cristo. Assim também no texto: ‘Mas a respeito daquele dia e daquela hora ninguém vos faz saber’, ninguém tem poder para vos fazer saber; exatamente como a expressão de Mt 20.23, ‘não me compete concedê-lo’, significa ‘não está em meu poder concedê-lo’: ‘nem os anjos, nem o Filho, senão o Pai’. Nem homem nem anjo, nem mesmo o próprio Filho, pode revelar-vos o dia e a hora da destruição de Jerusalém, porque o Pai determinou que não fosse revelado” (Harmony).

O segundo é o modo habitual de enfrentar a dificuldade, e refere as palavras “nem o Filho” exclusivamente à natureza humana de nosso Senhor, a qual, como sabemos, quanto ao corpo, “crescia em estatura” e, quanto à mente, “em sabedoria”. O bispo Kidder, ao responder à objeção sociniana posta na boca de um judeu, observa: “1. Que nós, cristãos, cremos não só que Cristo era Deus, mas também que era homem perfeito, subsistindo de alma racional e carne humana.

“Cremos que o seu corpo era como um dos nossos: um corpo real, não fantástico e imaginário.

“Cremos também que ele tinha uma alma humana, da mesma natureza e espécie que a nossa, embora livre de pecado e de toda mancha e corrupção original. Não admira, então, que leiamos a seu respeito que crescia não só em estatura e em graça diante de Deus e dos homens, mas também em sabedoria (Lc 2.52). Ora, a sabedoria é um dote espiritual e pertence à mente ou alma. Não se poderia dizer que ele crescia em sabedoria enquanto Deus; nem se poderia dizer isso dele com respeito ao seu corpo, pois este não é sujeito de sabedoria; mas sim com respeito à alma humana de Cristo, a outra parte da nossa natureza humana.

“2. Deve-se conceder que, como homem, ele não sabia além das capacidades do entendimento humano e finito, e não aquilo que sabia como Deus. Não se pode supor que, nesse aspecto, ele soubesse coisas que o homem não pode saber, a não ser na medida em que a natureza e a sabedoria divinas houvessem por bem comunicar-lhe e transmitir-lhe tal conhecimento.

“3. Que, portanto, se pode dizer que Cristo, com respeito à sua natureza humana e ao seu entendimento finito, não sabia o tempo preciso, o dia e a hora, de alguns acontecimentos futuros.

“4. Deve-se considerar, além disso, como os evangelistas relatam esse ponto; fazem-no em termos muito dignos de nota. Daquele dia e hora ninguém sabe; segue-se: nem o Filho. Não diz o Filho de Deus, nem o λόγος, ou Verbo, mas apenas o Filho.

“Não vejo, depois de tudo isso, onde há alguma incoerência na fé dos cristãos [que decorra dessa maneira de ver], quando cremos que Jesus foi feito semelhante a nós em todas as coisas e, em certo sentido, um pouco menor do que os anjos (Hb 2.7,17). Não vejo força nenhuma na objeção acima mencionada” (Demonstration of the Messias).

O “Filho do Homem”, é verdade, é aqui posto acima dos anjos; mas, como observa Waterland, “o interesse particular que o Filho do Homem tem no juízo final basta para explicar o suposto clímax ou gradação”.

“Os socinianos objetam, de fato, que essas interpretações de Mc 13.32 acusam o nosso Salvador, se não de falsidade direta, ao menos de evasiva culposa, visto que ele não poderia dizer com verdade e sinceridade que ignorava o dia, se o conhecia em alguma condição; assim como não se pode negar que o homem é imortal, enquanto ele for imortal em algum aspecto. A resposta a isso é que, assim como se pode dizer com verdade do corpo do homem que ele não é imortal, embora a alma o seja, assim também se pode dizer, com igual verdade, que o Filho do Homem ignorava algumas coisas, embora o Filho de Deus soubesse tudo. Não é, então, incompatível com a verdade e a sinceridade que nosso Senhor negasse saber o que de fato sabia em uma condição, enquanto o ignorava em outra. Assim, num lugar ele diz: ‘Já não estou no mundo’ (Jo 17.11); e em outro: ‘os pobres estarão sempre com vocês, mas a mim vocês nem sempre terão’ (Mt 26.11); contudo, em outra ocasião, diz: ‘eis que estou com vocês todos os dias’ (Mt 28.20); e ainda: ‘Se alguém me ama […] o meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada’ (Jo 14.23). Daqui vemos que nosso Senhor podia, sem nenhuma quebra de sinceridade, negar de si mesmo, considerado em uma condição, aquilo que não poderia ter negado em outra. Não houve equívoco algum em ele negar o conhecimento ‘daquele dia e daquela hora’, visto que, com respeito à sua natureza humana, isso era inteiramente verdadeiro; e que ele pretendia referi-lo apenas à sua natureza humana é provável, porque não diz que o Filho de Deus ignorava aquele dia, mas o Filho, querendo dizer o Filho do Homem, como se vê pelo contexto (Mt 24.37,39; Mc 13.26,34). Assim, Mc 13.32, que à primeira vista pode parecer favorecer a hipótese unitarista, admite uma interpretação racional e não forçada, coerente com a fé ortodoxa” (Holden, Testimonies).

Assim como o conhecimento do coração é atribuído a Cristo, também o é o conhecimento do futuro, que é outra qualidade tão peculiar à Divindade que encontramos o Deus verdadeiro distinguindo-se de todas as falsas divindades dos pagãos só por essa circunstância. “Com quem vocês vão me comparar? A quem eu seria igual? E que coisa semelhante confrontarão comigo?” “Eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim. Desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade revelo as coisas que ainda não sucederam. Eu digo: o meu conselho permanecerá em pé, e farei toda a minha vontade” (Is 46.5,9-10). Todas as predições proferidas por nosso Salvador, que ele em parte alguma refere à inspiração (a fonte à qual todos os profetas e apóstolos referem os seus dons proféticos), mas que foram ditas como procedentes da sua própria presciência, provam que ele possui esse atributo. Afirma-se também, em Jo 6.64, que “Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem iria traí-lo”; e ainda, em Jo 13.11: “Pois ele sabia quem era o traidor”.

Assim, vemos as Escrituras atribuírem a Jesus uma existência sem princípio, sem mudança, sem limitação, e unida, em toda a extensão do espaço que ela preenche, ao exercício da mais perfeita inteligência. Esses são atributos essenciais da Divindade. “Medidas de poder podem ser comunicadas; graus de sabedoria e bondade podem ser concedidos a espíritos criados; mas as nossas concepções de Deus se confundem, e perdemos de vista todas as circunstâncias pelas quais ele se caracteriza, se um modo de existência como o que acabamos de descrever for comum a ele e a alguma criatura” (Hill, Lectures).

A esses atributos pode-se ainda acrescentar a onipotência, que também é peculiar à Divindade; pois, embora o poder possa ser comunicado a uma criatura, uma capacidade finita tem de limitar a comunicação, e ele não pode existir infinitamente, assim como a sabedoria, a não ser numa natureza infinita. Cristo, porém, é chamado, em Ap 1.8, “o Todo-Poderoso“. Aos judeus ele disse: “tudo o que este [o Pai] fizer, o Filho também faz” (Jo 5.19). Além disso, declara que, “assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo” (Jo 5.26),

o que é uma distinção fortíssima entre ele mesmo e todas as criaturas, quaisquer que sejam. Ele tem “vida em si mesmo”, e a tem “assim como o Pai” a tem, isto é, perfeita e infinitamente, o que demonstra suficientemente que ele é da mesma essência, pois de outro modo não poderia ter essa comunhão de propriedades com o Pai. Diz-se, de fato, que a vida foi “concedida”, mas essa comunicação da parte do Pai não altera em nada o argumento. Quer a “vida” signifique a mesma vida original e independente que dá à Divindade, ao mesmo tempo, o direito aos títulos de “o Deus vivo” e “o Pai dos espíritos” [N. do T.: Hb 12.9 na KJV; a NAA traz “o Pai espiritual”], quer signifique a concessão da vida eterna a todos os crentes, o resultado é o mesmo. A “vida” assim concedida aos crentes, a continuidade e a perfeita bem-aventurança da existência, procede de Cristo como da sua fonte, e ele a tem assim como o próprio Pai a tem. Pela sua geração eterna, ela foi derivada do Pai para ele, e ele a possui igualmente com o Pai; por designação do seu Pai, ele foi constituído a fonte da vida eterna para os crentes, como quem tem essa vida em si mesmo para conceder e suprir para sempre.

Podemos resumir todo o argumento bíblico, tirado dos atributos divinos atribuídos pelos discípulos ao nosso Salvador e reivindicados por ele mesmo, com a sua notável declaração: “Tudo o que o Pai tem é meu” (Jo 16.15). “Aqui ele reivindica para si os atributos incomunicáveis e, por conseguinte, a essência que é inseparável deles” (Whitby). “Se Deus Filho tem todas as coisas que o Pai tem, então tem todos os atributos e perfeições que pertencem ao Pai, o mesmo poder, os mesmos direitos e privilégios, a mesma honra e glória; e, numa palavra, a mesma natureza, substância e Divindade” (Waterland).

Notas de Richard Watson

1. “Os atributos divinos estão unidos por um vínculo tão estreito que nenhum deles pode ser concebido separadamente; por isso, quem possui um está ornado de todos” (Döderlein). ↩

2. Raphelius, sobre este texto. Veja-se também o Lexicon de Parkhurst. ↩

3. “Não faltava uma razão particular para chamar assim o Filho de Deus, visto que escrevia aos hebreus, que costumavam designá-lo por esse nome, como consta do Targum, parte do qual foi feita nessa época, e de Fílon e de outros helenistas” (Poli Synopsis). ↩

4. “Καιροῖς ἰδίοις, no tempo que ele mesmo conhece. Por isso o tempo da vinda de Cristo era desconhecido dos apóstolos” (Rosenmüller). ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).