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Parte III · Capítulo I

A lei moral

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Sobre a lei de Deus, como objeto de uma revelação divina e devidamente autenticada, fizeram-se algumas observações na primeira parte desta obra. Que tal lei existe, assim comunicada à humanidade e contida nas Sagradas Escrituras; que temos obrigação de obedecer a ela como vontade declarada de nosso Criador e Senhor; que essa obrigação se funda em nossa relação natural com ele, como criaturas feitas por seu poder e dependentes de sua bondade, são pontos aos quais, portanto, não é preciso voltar; nem é necessário deter-nos nas circunstâncias e nos graus de sua manifestação aos homens sob as dispensações anteriores da verdadeira religião que precederam o cristianismo. Expusemos as principais doutrinas das Escrituras, tal como se encontram naquele sistema aperfeiçoado de religião revelada que devemos a nosso Salvador e a seus apóstolos, os quais escreveram sob a inspiração daquele Espírito Santo que ele enviou para os guiar “em toda a verdade” (Jo 16.13); e encontraremos agora, nos discursos de nosso Senhor e nos escritos apostólicos, um sistema de princípios morais, virtudes e deveres que iguala em plenitude e perfeição aquele grande corpo de verdade doutrinária contido no Novo Testamento, e que dele recebe sua influência e eficácia vitais.

Deve-se notar, porém, que a moral do Novo Testamento não nos é proposta na forma de um código regular. Mesmo nos livros de Moisés, que em grande medida têm forma legislativa, nem todos os princípios e deveres que constituíam o caráter pleno da “piedade” naquela dispensação são objeto de ordem formal por meio de preceitos particulares. Estão em parte envolvidos em princípios gerais, ou muitas vezes tomam a forma de ordem de maneira aparentemente incidental, ou são matéria de inferência óbvia. Um código anterior de lei moral tradicional é também pressuposto o tempo todo nos escritos de Moisés e dos profetas, bem como um ritual consuetudinário e uma teologia doutrinária, ambos transmitidos desde os patriarcas. Isso se dá também, em grau eminente, com o cristianismo. Ele supõe que todos os que criam em Cristo admitiam a autoridade divina do Antigo Testamento, e pressupõe a autoridade perpétua de sua moral, assim como a verdade de sua teologia fundamental. As constantes alusões do Novo Testamento às regras morais dos judeus e dos patriarcas, seja expressamente como preceitos, seja como dados de argumentação, nos resguardam suficientemente contra a noção de que aquilo que não foi, com todas as letras, promulgado de novo por Cristo e seus apóstolos não tem autoridade entre os cristãos. Num grande número de casos, porém, a forma é diretamente preceptiva, de modo que tem toda a clareza e força de um código regular de lei; e é, tanto quanto um código regular poderia ser, uma declaração da vontade soberana de Cristo, reforçada pelas sanções da vida e da morte eternas.

Este, porém, é um ponto sobre o qual se podem aduzir com proveito algumas observações confirmatórias.

Nenhuma parte da dispensação anterior, designada em geral pelo nome de “a lei“, é revogada no Novo Testamento, exceto o que é obviamente cerimonial, típico e incapaz de coexistir com o cristianismo. Nosso Senhor, em sua conversa com a mulher samaritana, declara que era chegada a hora da abolição do culto do templo; o apóstolo Paulo, na Epístola aos Hebreus, ensina-nos que os serviços levíticos eram apenas sombras, cuja substância e fim é Cristo; e a antiga igreja visível, constituída com base na descendência natural de Abraão, foi abolida pelo estabelecimento de um corpo espiritual de crentes que tomou o seu lugar.

Nenhum preceito de natureza puramente política, isto é, que diga respeito à sujeição civil dos judeus à sua teocracia, tem, portanto, força alguma de lei para nós, embora possa ter, em muitos casos, a maior autoridade como princípio. Nenhum preceito cerimonial pode obrigar, visto que estavam restritos a um período que terminou com a morte e a ressurreição de Cristo; nem mesmo os ritos patriarcais da circuncisão e da páscoa são obrigatórios para os cristãos, visto que temos prova suficiente de que eram de caráter prefigurativo e foram postos de lado pelos primeiros mestres inspirados do cristianismo.

Com os preceitos morais, que abundam no Antigo Testamento, o caso é muito diferente, como se vê suficientemente pela maneira diferente, e até contrária, com que Cristo e seus apóstolos sempre falam deles. Quando nosso Senhor, em seu sermão do monte, diz: “Não pensem que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir”, isto é, para confirmá-la ou estabelecê-la, todo o alcance de seu discurso mostra que ele fala exclusivamente dos preceitos morais da lei, assim chamada por excelência, e das ordens morais dos profetas nela fundadas, às quais ele dá assim igual autoridade. E de modo tão solene ele reforça isso que acrescenta, sem dúvida prevendo que homens enganadores ou enganados, professando a sua religião, tentariam diminuir a autoridade da lei moral: “Aquele, pois, que desrespeitar um destes mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado mínimo no Reino dos Céus”; isto é, como interpreta são Crisóstomo, “será o que estará mais longe de alcançar o céu e a felicidade, o que significa que não o alcançará de modo algum”.

Do mesmo modo, são Paulo, depois de ter sustentado vigorosamente a doutrina da justificação somente pela fé, antecipa uma objeção perguntando: “Anulamos, então, a lei por meio da fé?”, e acrescenta: “De modo nenhum! Pelo contrário, confirmamos a lei” (Rm 3.31); entendendo por “a lei”, como mostram o contexto e o seu argumento, a lei moral, e não a cerimonial.

Depois de tais declarações, é pior que frívolo alguém sustentar que, para estabelecer a autoridade da lei moral dos judeus sobre os cristãos, ela deveria ter sido formalmente promulgada de novo. A isso, porém, podemos ainda responder, não só que muitos princípios e regras morais importantes encontrados no Antigo Testamento nunca foram formalmente promulgados entre os judeus, mas vinham por tradição de uma época anterior e receberam em diferentes ocasiões a autoridade mais indireta do reconhecimento inspirado; mas também, para pôr a questão sob uma luz mais forte, que todos os principais preceitos morais das Escrituras judaicas são, de fato, propostos de uma maneira que tem toda a força de uma nova promulgação formal, como leis da igreja cristã. Esse argumento, tirado da falta de nova promulgação formal, não tem, portanto, peso algum. O resumo da Lei e dos Profetas, que é amar a Deus de todo o nosso coração e servi-lo com todas as nossas forças, e amar o nosso próximo como a nós mesmos, é inquestionavelmente ordenado, e até promulgado de novo, pelo Legislador cristão. Quando nosso Senhor é interrogado explicitamente por “alguém” que, “aproximando-se de Jesus, lhe perguntou: Mestre, que farei de bom para alcançar a vida eterna?”, a resposta dada mostra que a lei moral contida no decálogo está de tal modo em vigor na dispensação cristã que a obediência a ela é necessária para a salvação final: “se você quer entrar na vida, guarde os mandamentos”. E que nada de cerimonial se entende por esse termo fica manifesto pelo que se segue: “E ele lhe perguntou: Quais? Jesus respondeu: ‘Não mate, não cometa adultério, não furte'” etc. (Mt 19.17-19). Aqui também temos toda a força de uma nova promulgação formal do decálogo, sendo evidentemente uma parte dele posta pelo todo. Nem seria difícil apresentar passagens dos discursos de Cristo e dos escritos dos apóstolos que ordenam, por sua autoridade, todos os preceitos dessa lei tomados separadamente, como partes indispensáveis do dever cristão, e isso sob suas sanções originais de vida e de morte; de modo que as duas circunstâncias que formam o verdadeiro caráter de uma lei em seu sentido mais elevado, autoridade divina e sanções penais, se encontram tão verdadeiramente no Novo Testamento como no Antigo. Não se há de sustentar, por exemplo, que o Novo Testamento não ordena o reconhecimento e o culto de um só Deus; nem que não proíbe a idolatria; nem que não lança suas maldições contra o juramento falso e profano; nem que o apóstolo Paulo não usa preceptivamente as próprias palavras do quinto mandamento quando diz (Ef 6.2): “‘Honre o seu pai e a sua mãe’, que é o primeiro mandamento com promessa”; nem que o homicídio, o adultério, o furto, o falso testemunho e a cobiça não são todos proibidos sob pena de exclusão do Reino de Deus. Assim, pois, temos o decálogo inteiro trazido para o código moral cristão pela ordem distinta de cada um de seus preceitos e por seu reconhecimento como de obrigação permanente e imutável; sendo exceção apenas o quarto mandamento, a respeito do sábado, na medida em que sua ordem não está tão expressamente assinalada. Isso, porém, não é de fato uma exceção; pois, além de que o seu lugar original nas duas tábuas o distingue suficientemente de todos os preceitos positivos, cerimoniais e típicos, e lhe dá caráter moral quanto a seus fins, que são, primeiro, a misericórdia para com os servos e os animais, e, segundo, o culto do Deus Todo-Poderoso, sem a perturbação das interrupções e cuidados do mundo, ele está necessariamente incluído naquela “lei” que nosso Senhor declara que não veio destruir ou revogar; naquela “lei” que são Paulo declara ser “confirmada” pela fé; e entre aqueles “mandamentos” que nosso Senhor declara que devem ser “guardados” por quem quiser “entrar na vida”. A isso se deve acrescentar também a prática dos apóstolos, que não deixaram eles mesmos de guardar como santo um dia em cada sete, nem ensinaram outros a deixá-lo; mas deram ao “dia do Senhor”, consagrando-o a usos santos, aquela eminência e santidade na igreja cristã que o sétimo dia tinha na judaica; alteração que não afeta o preceito em nada, a não ser numa circunstância não essencial (se é que nela), e na qual podemos supor que agiram sob sugestão divina.

Assim, pois, temos a obrigação do decálogo inteiro tão plenamente estabelecida no Novo Testamento como no Antigo, como se tivesse sido formalmente promulgado de novo; e o fato de não ter havido nova promulgação formal é em si mesmo uma prova presuntiva de que o Legislador nunca o considerou temporário, o que a formalidade de uma republicação poderia ter feito supor.

É importante observar, porém, que, embora as leis morais da dispensação mosaica passem para o código cristão, elas ali se encontram em outras e mais elevadas circunstâncias; de modo que o Novo Testamento é uma dispensação mais perfeita do conhecimento da vontade moral de Deus do que o Antigo. Em particular:

1. Elas são estendidas mais expressamente ao coração, como faz nosso Senhor em seu sermão do monte, ensinando-nos que o pensamento e o propósito interior de qualquer ofensa são uma violação da lei que proíbe a sua prática exterior e visível.

2. Os princípios em que se fundam são desenvolvidos no Novo Testamento numa variedade maior de deveres, os quais, por abrangerem mais perfeitamente as relações sociais e civis da vida, têm caráter mais universal.

3. Há uma ordenação muito mais ampla de virtudes positivas e particulares, especialmente daquelas que constituem a disposição cristã.

4. Pelo fato de todos os atos exteriores estarem inseparavelmente ligados aos princípios correspondentes no coração, para constituírem obediência aceitável; princípios que supõem a regeneração da alma pelo Espírito Santo. Essa renovação moral é, portanto, apresentada como necessária à nossa salvação e prometida como parte da graça da nossa redenção por Cristo.

5. Por estarem ligadas a promessas de auxílio divino, o que é peculiar a uma lei ligada a provisões evangélicas.

6. Por terem uma ilustração viva no exemplo perfeito e prático de Cristo.

7. Pelas sanções mais elevadas derivadas da revelação mais clara de um estado futuro e das promessas mais explícitas de vida eterna e ameaças de castigo eterno.

Segue-se disso que temos no evangelho a mais completa e perfeita revelação da lei moral jamais dada aos homens, e uma manifestação mais exata do brilho, da perfeição e da glória daquela lei sob a qual foram postos os anjos e os nossos primeiros pais no paraíso, e à qual obedecer é ao mesmo tempo o deleite e o interesse dos seres mais perfeitos e felizes.

Aconteceu, porém, com a moral o mesmo que com as doutrinas: por uma estranha perversidade, ela tem sido muitas vezes estudada sem nenhuma referência à autoridade das Escrituras. Assim como tivemos sistemas de religião natural tirados dos materiais fornecidos pelas Escrituras e depois postos na conta exclusiva da razão humana, assim também temos vários sistemas de moral tirados, até onde os autores acharam conveniente, da mesma fonte, e apresentados sob o título de filosofia moral; o que muitas vezes implica, ou pelo menos autoriza a inferência, que as faculdades do homem, sem auxílio, são igualmente adequadas para descobrir a doutrina e o dever; ou, na melhor das hipóteses, que o cristianismo apenas aperfeiçoa aquilo que homens não inspirados são capazes não só de começar, mas de levar adiante até uma considerável aproximação da perfeição. Pode-se fazer quanto a ambas esta observação: tudo o que se encontra de correto na doutrina e de puro na moral, em escritores ou sistemas antigos, pode ser atribuído a uma revelação indireta; e, na medida em que a mera razão se aplicou a descobrir algo em qualquer dos dois campos, ela geralmente se extraviou. Os sistemas modernos de religião natural e de ética são superiores aos antigos, não porque a razão de seus autores seja superior, mas porque tiveram a vantagem de uma luz vinda do cristianismo, que em geral não foram imparciais o bastante para reconhecer. Para os que escreveram sobre tais assuntos com o fim de rebaixar o valor das Sagradas Escrituras, devem bastar as observações feitas na primeira parte desta obra; mas, quanto àquela classe de filósofos morais que reconhecem a autoridade dos livros sagrados e, no entanto, omitem cuidadosamente toda referência a eles, pode-se perguntar o que pretendem ao separar a moral do cristianismo e considerá-la uma ciência à parte. Autoridade não podem ganhar, pois nenhuma obrigação ao dever pode ser tão elevada quanto o mandamento de Deus, nem essa autoridade pode ser aplicada de modo tão direto quanto por uma revelação de sua vontade; e, quanto à perfeição de seu sistema, uma vez que não descobrem nenhum dever que já não esteja ordenado nas Escrituras ou fundado em algum princípio geral nelas contido, não podem encontrar, nos acréscimos que fazem ao nosso conhecimento moral, desculpa para tirar o cristianismo inteiramente de vista em todos esses assuntos.

Todas as tentativas de ensinar a moral independentemente do cristianismo, mesmo por parte dos que o recebem como revelação divina, devem, apesar dos grandes nomes que sancionaram essa prática, ser consideradas de tendência perniciosa, embora o propósito possa ter sido louvável e o trabalho, em alguns aspectos secundários, não sem utilidade:

1. Porque transmitem silenciosamente a impressão de que a razão humana, sem auxílio, é suficiente para descobrir o dever completo do homem para com Deus e para com seus semelhantes.

2. Porque implicam uma deficiência no código moral de nossa religião que não existe; pois o fato é que, embora esses sistemas tomem muito do cristianismo, não abrangem a totalidade de seus princípios morais e, portanto, na medida em que são aceitos como substitutos, deslocam o que é perfeito em favor do que é imperfeito.

3. Porque desviam a atenção daquilo que é fato, a lei revelada de Deus, com suas sanções apropriadas, e põem a obrigação de obedecer ou na conveniência, ou na beleza, ou no interesse geral, ou na autoridade natural da verdade, que são todas matérias de opinião; ou, se a referem em última instância à vontade de Deus, inferem essa vontade por meio de vários raciocínios e especulações que em si mesmos ainda são matérias de opinião e diante dos quais os homens se sentirão em algum grau livres.

4. Os deveres que ordenam ou são meramente exteriores no ato, e assim os desligam dos princípios e hábitos interiores, sem os quais não são aceitáveis a Deus e não passam de sombras da verdadeira virtude, por mais benéficos que sejam aos homens; ou então supõem que a natureza humana é capaz de enxertar em si mesma esses princípios e hábitos e de praticá-los sem diminuição nem interrupção; noção que é contradita por aquelas mesmas Escrituras que eles reconhecem ser de autoridade divina.

5. Sua separação entre as doutrinas da religião e a sua moral leva a um processo de promover a moralidade entre os homens inteiramente diferente daquele que a infinita sabedoria e bondade de Deus estabeleceu no evangelho. Eles estabelecem a regra de conduta e a recomendam por sua excelência per se (em si mesma), ou por sua influência sobre os indivíduos e a sociedade, ou talvez porque se mostra ser a vontade do Ser Supremo, indicada pela constituição da natureza humana e pelas relações dos homens. Mas o cristianismo liga rigorosamente as suas doutrinas à sua moral. Sua doutrina da fraqueza moral do homem é usada para levá-lo a desconfiar de sua própria suficiência. Sua doutrina da expiação mostra ao mesmo tempo o mal infinito do pecado e anima os homens a buscar livramento de seu poder. Sua doutrina da regeneração pela influência do Espírito Santo implica a destruição completa do amor ao mal e a orientação de todo o afeto da alma para a virtude universal. Sua doutrina da oração abre ao homem uma comunhão com Deus que fortalece toda virtude. O exemplo de Cristo, cuja imitação nos é imposta como obrigação, é em si mesmo um sistema moral em ação e em princípio; e as revelações de um juízo futuro trazem todo o peso do controle das recompensas e castigos futuros para atuar sobre os motivos e as ações dos homens, e são a fonte daquele temor de ofender a Deus que é a guarda constante da virtude quando, numa infinidade de casos, os motivos humanos de nada valeriam.

Pode-se, na verdade, perguntar se o ensino da moral deve então, em todos os casos, ser mantido em ligação com a religião, e se a filosofia das virtudes e dos vícios, com os motivos inferiores pelos quais são inculcados aos homens, não pode ser investigada com proveito. Respondemos que, se o fim proposto não é inteiramente especulativo, mas algo prático; se o caso de um mundo imoral é tomado pelos moralistas com vistas à sua cura, ou mesmo à sua emenda em algum grau eficaz, tudo se reduz então a esta simples questão: deve-se preferir um instrumento enfraquecido àquele que é poderoso e eficaz? Certo é que o grande fim do cristianismo, no que diz respeito à sua influência sobre a sociedade, é moralizar a humanidade; mas o seu Autor infinitamente sábio estabeleceu e autorizou apenas um processo para a correção dos males práticos do mundo, que é o ensino e a aplicação de toda a verdade tal como se encontra em suas próprias revelações; e só a isso prometeu a sua bênção especial. Uma classe distinta de mestres de ética, imitando os filósofos pagãos nos princípios e nos modos de ensino moral, é, num país cristão, uma violenta anomalia, e implica um retorno absurdo ao crepúsculo do conhecimento depois que o próprio sol já se levantou sobre o mundo.

Dentro dos devidos resguardos, e em estrita ligação com todo o sistema cristão, aquilo que se chama filosofia moral não deve, porém, ser menosprezado; e de muitos dos escritores acima mencionados pode-se colher muita instrução útil, a qual, embora de pouca eficácia em si mesma, pode ser fortalecida pela união com as doutrinas vitais e enérgicas da religião, e tornar-se assim orientadora da conduta do cristão sério. Entendendo, pois, por filosofia moral não aquele orgulho da ciência que toma emprestadas as descobertas das Escrituras e depois se exibe como sua rival, ou pretende suprir as suas deficiências, mas um exame modesto das razões em que se podem fundar os preceitos morais da revelação, e uma aplicação sábia e honesta de seus princípios morais aos casos particulares, ela é um ramo da ciência que pode ser cultivado com proveito em ligação com o cristianismo.

Quanto às razões em que se apoiam os preceitos morais, podemos fazer uma observação semelhante à que foi feita, numa parte anterior desta obra, sobre as doutrinas da revelação. Algumas dessas doutrinas apoiam-se inteiramente na autoridade daquele que as revela; outras vêm acompanhadas de uma evidência racional manifesta; e uma terceira classe pode revelar em parte a sua razão de ser ao investigador paciente e piedoso. Contudo, a autoridade de cada classe, como objeto de fé, é a mesma; ela se apoia no caráter de Deus e em suas relações conosco; e a doutrina que é imposta à nossa fé sem outra evidência racional além daquela que prova que ela faz parte de uma revelação do céu obriga tanto quanto aquela que exercita e deleita as nossas faculdades racionais pela revelação da evidência interna de sua verdade. Quando Deus nos permite “ir até lá” para ver alguma “grande maravilha” de sabedoria manifestada, devemos atender ao convite; mas devemos sempre lembrar que a autoridade de uma verdade revelada assenta num fundamento infinitamente mais elevado do que a nossa percepção de sua razoabilidade.

Assim também quanto aos preceitos morais da Bíblia: a evidência racional é dada em graus diferentes, e é tanto permitido quanto louvável que a investiguemos e a reunamos; mas sempre com esta cautela: a autoridade de tais ordens não deve ser regulada por nossa percepção de suas razões, embora as razões, quando aparentes, possam ser piedosamente empregadas para recomendar a autoridade. As descobertas que podemos fazer de conveniência ou de qualquer outra qualidade num preceito não podem ser a razão mais elevada de nossa obediência; mas podem ser uma razão para obedecer com redobrada presteza. A obrigação do sábado seria a mesma ainda que não houvesse razões evidentes de misericórdia e piedade ligadas a ele; mas a influência do preceito sobre os nossos interesses e os da comunidade recomenda o preceito tanto às nossas afeições quanto ao nosso senso do dever.

Quanto à aplicação dos preceitos gerais, aquela sabedoria prática que resulta de uma observação ampla e abrangente tem um papel importante. Os preceitos de uma revelação universal devem necessariamente ser, na maior parte, gerais; porque, se tivessem sido dadas regras para cada caso em pormenor, então verdadeiramente, como observa são João, “nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos” (Jo 21.25). A aplicação desses princípios gerais à variedade de casos que surgem nos assuntos humanos é obra do pregador cristão e do moralista cristão. Onde há honestidade de espírito, ordinariamente não pode haver dificuldade nisso; e, nos casos que envolvem alguma dificuldade, quando a interpretação da lei é feita, como sempre deveria ser, em favor da regra, e quando, nos casos duvidosos, se adota o caminho mais seguro, é tal o caráter explícito dos princípios gerais das Sagradas Escrituras que ninguém pode extraviar-se. A filosofia moral que trata das exceções às regras gerais deve ser sempre vigiada com desconfiança, e deve ser evitada quando presume formar regras a partir de supostas exceções. Isso é pretender ser mais sábio do que o Legislador; e tal filosofia assume, no governo da conduta humana, uma autoridade à qual não tem direito, e se interpõe entre os indivíduos e as suas consciências em casos nos quais o próprio Deus Todo-Poderoso não quis aliviá-los, e nos quais eles são deixados especialmente, como todos às vezes o são, diante “daquele a quem temos de prestar contas”, sem a intervenção de terceiros. Os sistemas de casuística e os casos de consciência felizmente caíram em desuso geral. Que fizeram, no conjunto, mais mal do que bem, e contaminaram mais consciências do que aliviaram, não pode ser posto em dúvida por ninguém que os tenha examinado amplamente. Eles foram desaparecendo exatamente na proporção em que as próprias Escrituras circularam pela sociedade e em que prevaleceu a pregação que inculca a doutrina do amor supremo a Deus e ao próximo como a soma da lei e do evangelho. Abundaram sobretudo na Igreja Romana, por ser o que melhor convinha ao seu sistema de trevas e engano;1 e, embora obras desse gênero se encontrem entre os protestantes em forma melhor, elas foram, gradual e felizmente, caindo no esquecimento.

Podem-se oferecer aqui algumas palavras sobre aquilo que se tem chamado o fundamento da obrigação moral.

Alguns escritores o puseram na “eterna e necessária conveniência das coisas”; o que deixa a questão aberta às conclusões variáveis que diferentes indivíduos possam tirar quanto a essa eterna e necessária conveniência; e, mais ainda, deixa inteiramente sem resposta esta pergunta muito natural: por que alguém está obrigado a agir de acordo com a conveniência das coisas?

Outros recorreram a uma suposta percepção original do que é certo e errado, uma espécie de senso moral fixo, permanente e inalterável, pelo qual as qualidades das ações são determinadas de imediato; e, da suposta existência universal dessa percepção, argumentaram a obrigação de agir de acordo com ela. Esse esquema, que parece confundir aquilo que há na natureza humana e ao qual se pode apelar quando o entendimento é iluminado pela verdade real com um princípio discriminador e diretivo que agiria independentemente de instrução, também é insatisfatório. Pois o senso moral encontra-se, de fato, sob o domínio da ignorância e do erro; nem possui, em todos os casos, uma sensibilidade proporcional à verdade recebida no entendimento. Os piores crimes foram muitas vezes cometidos com a convicção de serem justos, como no caso das perseguições religiosas; e a falta do hábito de atentar para a qualidade de nossas ações muitas vezes torna inútil, quanto à sua influência sobre a consciência, a verdade abstrata guardada no entendimento. Mas, ainda que fosse verdade tudo o que se diz desse senso moral, ele não estabeleceria o princípio da obrigação. Esta supõe uma autoridade superior; e, ainda que admitíssemos que o senso moral age de modo uniforme, como se demonstraria a obrigação de praticar o que ele aprova, a menos que se acrescentasse ao caso alguma consideração mais elevada?

Moralistas mais modernos tomaram como fonte da obrigação moral a tendência de um curso de ação a produzir o maior bem no conjunto; e a isso muitas vezes ligam a vontade de Deus, da qual consideram essa tendência geral a manifestação. Seria certamente melhor recorrer de imediato à vontade de Deus, tal como revelada por ele mesmo, sem sobrecarregar o assunto com o processo indireto e, na melhor das hipóteses, duvidoso de primeiro considerar o que é bom no conjunto e depois inferir que isso deve necessariamente ser a vontade de um Ser sábio e benevolente. Vale também neste caso a objeção de que essa teoria deixa ainda como mera questão de opinião, na qual uma parte interessada há de ser o juiz, se uma ação é boa no conjunto; e oferece uma regra que dificilmente se aplicaria a alguns casos e que é quase inaplicável a muitos outros que se podem supor.

A única resposta satisfatória que a pergunta sobre a fonte da obrigação moral pode receber é que ela se encontra na vontade de Deus. Pois, visto que a pergunta diz respeito ao dever de um ser criado em relação ao seu Criador, nada pode ser mais conclusivo do que o fato de que o Criador tem direito absoluto à obediência de suas criaturas, e de que a criatura tem o dever de obedecer àquele de quem não só recebeu o ser, mas por quem esse ser é constantemente sustentado. Tem-se dito, é verdade, que, mesmo admitindo que eu esteja obrigado a obedecer à vontade de Deus, a pergunta continua aberta: “Por que estou obrigado a obedecer à sua vontade?”; e que isso nos traz de volta à resposta anterior, porque ele só pode querer aquilo que é, no conjunto, o melhor para as suas criaturas. Mas isso é confundir aquilo que pode ser, e sem dúvida é, uma regra para Deus nos mandamentos que ele dá com aquilo que realmente obriga a criatura. Ora, o que na verdade obriga a criatura não é a natureza dos mandamentos dados por Deus, mas a relação em que a própria criatura está para com Deus. Se uma criatura não pode ter existência, nem poder ou faculdade alguma independentemente de Deus, não pode ter direito de empregar as suas faculdades independentemente dele; e, se não tem direito de empregar as suas faculdades de modo independente, o direito de reger a sua conduta deve pertencer somente ao Criador; e disso resulta a obrigação de a criatura obedecer.

Tal é o princípio adotado nas Escrituras, onde as relações de Deus como Criador e como Governante estão inseparavelmente unidas e a obrigação de obedecer é apresentada como consequência do fato de nossa existência; e, se a vontade de Deus, como fonte da obrigação, é uma regra tão óbvia, a única questão que resta é se receberemos essa vontade tal como expressamente revelada por ele mesmo, ou se, esquecendo voluntariamente que tal revelação foi feita, passaremos a inferi-la por vários processos de indução. A resposta a isso poderia ter sido deixada com segurança ao senso comum da humanidade, se a vaidade de filosofar não se tivesse interposto tantas vezes para embaraçar um ponto tão simples.

Não devemos confundir aqui a vontade de Deus, como fonte da obrigação moral, com a noção de que o certo e o errado não têm existência senão na medida em que são assim constituídos pela vontade de Deus. Eles devem ter o seu fundamento na realidade das coisas. O que é a retidão moral e por que ela obriga são questões inteiramente distintas. É só à segunda que se aplicam as observações anteriores. Quanto à primeira, as seguintes observações, de uma publicação recente e inteligente, são muito satisfatórias: “A virtude, no que diz respeito ao homem, é a conformidade ou harmonia de suas afeições e ações com as várias relações em que ele foi colocado; conformidade da qual o intelecto perfeito de Deus, guiado em seu exercício por sua natureza infinitamente santa, é o único juiz infalível.

“Temos várias relações com o próprio Deus. Ele é o nosso Criador, o nosso Preservador, o nosso Benfeitor, o nosso Governante. ‘Ele é o Formador dos nossos corpos e o Pai dos nossos espíritos’ [N. do T.: alusão a Hb 12.9, onde a NAA traz “Pai espiritual”]. Ele nos sustenta ‘pela sua palavra poderosa’ (Hb 1.3); pois, como somos seres necessariamente dependentes, a continuação de nossa existência é uma espécie de criação prolongada. Devemos a ele tudo o que possuímos, e as nossas bênçãos futuras hão de fluir de sua bondade. Ora, há obviamente certas afeições e ações que se harmonizam ou correspondem a essas relações. Amar e obedecer a Deus convém manifestamente à nossa relação com ele, como aquele grande Ser de quem fluem a nossa existência e todos os nossos confortos. Aquele que derrama sobre nós as suas bênçãos deve possuir as nossas afeições; aquele que nos formou tem direito à nossa obediência. Note-se que não se afirma apenas que é impossível contemplar a nossa relação com Deus sem perceber que estamos moralmente obrigados a amá-lo e obedecer-lhe (embora essa seja uma verdade de grande importância); pois não concordo com a propriedade da representação segundo a qual a virtude depende ou de nossas percepções ou de nossos sentimentos. Há uma harmonia real entre as relações em que estamos para com Deus e os sentimentos e a conduta a que se fez referência; e, por isso, a mente humana foi formada capaz de percebê-la e senti-la.

“Temos várias relações uns com os outros. Deus fez ‘de um só homem todas as nações’ que habitam a terra (At 17.26). O amor mútuo e a bondade fraternal, fruto do amor, são exigidos por essa relação; harmonizam-se ou correspondem a ela. Somos filhos; somos amados, guardados, sustentados e cuidados com incansável diligência por nossos pais. A afeição filial e a obediência filial são exigidas por essa relação; nenhum outro estado de espírito, nenhuma outra conduta se harmonizará com ela. Somos, talvez, por outro lado, pais. Pelo menos instrumentalmente demos existência a nossos filhos; eles dependem de nós para proteção, sustento etc.; e prestar esse sustento é exigido pela relação que temos com eles. É, porém, desnecessário especificar as várias relações em que estamos uns para com os outros. Com referência a todas, digo de novo que elas envolvem necessariamente obrigações a certos estados de espírito e certos modos de conduta, como algo que se harmoniza com as relações; e que a retidão é a conformidade do caráter e da conduta de um indivíduo com as relações em que ele está para com os seres de que está cercado.

“Não tenho de modo algum certeza de que essa harmonia entre as ações e as relações de um agente moral não seja o que devemos entender por aquela ‘conformidade com a conveniência das coisas’ em que alguns escritores fizeram consistir a essência da virtude. Contra essa doutrina objetou-se que é indefinida, senão absurda; porque, segundo se alega, representa uma ação como certa e conveniente sem declarar para que ela é conveniente; absurdo tão grande, diz o objetor, quanto seria dizer que ‘os ângulos da base de um triângulo isósceles são iguais’, sem acrescentar ‘um ao outro, ou a qualquer outro ângulo’. Também o dr. Brown, argumentando contra essa doutrina, diz: ‘Deve haver um princípio de consideração moral independente da razão, ou a razão poderá em vão ver mil conveniências e mil verdades; e se inflamaria com as mesmas vivas emoções de indignação contra um relógio inexato ou um erro de cálculo aritmético como contra o miserável que roubou, por toda fraude capaz de escapar à lei, aqueles que já tinham pouco de que pudessem ser privados, a fim de se regalar um pouco mais luxuosamente, enquanto os desamparados que ele saqueara morriam de fome ao seu redor.’ Ora, por que não podemos dizer, em resposta ao primeiro objetor, que a conformidade de uma ação com as relações do agente é a conveniência pela qual Clarke se bate? E por que não podemos responder ao dr. Brown que, admitindo, como admitimos, a necessidade daquela suscetibilidade à emoção moral pela qual ele se bate, a emoção de aprovação que surge na contemplação de uma ação virtuosa não é a virtude da ação, nem a percepção de sua concordância com as relações do agente, mas a própria concordância? ‘Que um ser’, diz Dewar, ‘dotado de certas faculdades, está obrigado a amar e obedecer ao Criador e Preservador de todos é verdade, quer eu o perceba, quer não; e não podemos conceber como possível que isso jamais venha a ser invertido.’

“Todas as relações a que se fez referência são, em certo sentido, arbitrárias. A nossa existência como criaturas deve ser atribuída ao mero beneplácito de Deus. As relações que unem a sociedade, a conjugal, a paterna, a filial, dependem inteiramente da vontade soberana daquele que nos deu o ser; mas a conduta a que essas relações nos obrigam de modo algum é arbitrária. Tendo determinado constituir as relações, ele não podia deixar de nos impor a conduta que a sua palavra prescreve. Ele não tinha obrigação alguma de nos criar; mas, tendo-nos dado a existência, não podia deixar de nos ordenar que o amássemos e lhe obedecêssemos. Há uma harmonia entre essas relações e esses deveres, harmonia que não só é percebida por nós (pois afirmar apenas isso pareceria fazer de nossas percepções a regra, senão o fundamento, do dever), mas que é percebida pelo Intelecto perfeito do próprio Deus. E, visto que as relações que temos foram constituídas por Deus, visto que ele é o Juiz das afeições e da conduta que se harmonizam com essas relações (sendo certo aquilo que lhe parece certo, por isso mesmo), a retidão pode ser considerada como conformidade com a natureza moral de Deus, o padrão último da virtude.” (Payne, Elements of Mental and Moral Science.)

Podemos agora voltar-nos para a vontade revelada de Deus em busca de informação sobre o interessante assunto da moral, e veremos que a ética do cristianismo tem uma glória e uma perfeição que a filosofia nunca elevou, e que o único verdadeiro ofício da filosofia é exibir e manter diante da atenção da humanidade.

Notas de Richard Watson

1. M. le Feore [N. do T.: assim no original; trata-se provavelmente de Nicolas Le Fèvre, preceptor de Luís XIII], preceptor de Luís XIII, chamou à casuística, não sem propriedade, “a arte de chicanear com Deus”. ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).