Os deveres que temos para com Deus são resumidos, na Escritura, na palavra “piedade”, cujo fundamento, assim como o dos deveres de qualquer outra espécie, é aquela inteira
submissão a Deus que nasce de uma justa consciência da relação em que estamos com ele, como criaturas.
Acabamos de ver que o direito de uma soberania absoluta sobre nós deve, pela própria natureza do caso, residir exclusivamente naquele que nos fez; e é a percepção e o reconhecimento disso, como hábito prático da mente, que tornam sinceros e religiosos os atos exteriores de obediência. A vontade de Deus é a única regra para o homem em tudo aquilo sobre o que essa vontade se pronunciou; e, como ela impõe seus mandamentos tanto ao coração quanto à vida, a regra vigora igualmente quando dirige nossas opiniões, nossos motivos e nossos afetos, e quando ordena ou proíbe atos exteriores. Somos dele porque ele nos fez; e a isso se acrescenta a confirmação desse direito pela nossa redenção: “vocês não pertencem a vocês mesmos? Porque vocês foram comprados por preço. Agora, pois, glorifiquem a Deus no corpo de vocês” (1Co 6.19-20) [N. do T.: a KJV, citada por Watson, acrescenta “e no espírito de vocês, os quais pertencem a Deus”]. Essas ideias, do direito absoluto de mandar por parte de Deus e da obrigação absoluta de obediência universal por parte do homem, estão unidas na declaração de são Paulo: “o Deus a quem pertenço e a quem sirvo” (At 27.23); e formam o grande princípio fundamental da “piedade”, tanto no Antigo como no Novo Testamento, pois em ambos a vontade de Deus é apresentada como a razão mais alta e o motivo mais poderoso para a obediência. A aplicação desse princípio, assim estabelecido pelas Escrituras, mostrará quão superior é o fundamento sobre o qual o cristianismo assenta a virtude moral, comparado ao de qualquer outro sistema. Pois:
1. A vontade de Deus, que é a regra do dever, é autenticada por todo aquele conjunto estupendo de provas que demonstra que as Escrituras são de origem divina.
2. Essa vontade, ao mesmo tempo, define e impõe todos os ramos da pureza, da retidão e da benevolência, interiores e exteriores.
3. Ela anula, por sua autoridade, qualquer outra regra de conduta que lhe seja contrária, quer provenha do costume, quer do exemplo, da persuasão ou das opiniões de outros.
4. É uma regra que não admite ser rebaixada ao estado fraco e decaído da natureza humana; mas, ligando-se a uma dispensação graciosa de auxílio sobrenatural, encaminha o moralmente incapaz a esse remédio e declara cada pessoa culpada da violação de tudo aquilo que, por natureza e por hábito, ela é incapaz de cumprir, se esse remédio for negligenciado.
5. Ela não se acomoda aos interesses nem mesmo à segurança dos homens; exige, antes, que interesse, honra, liberdade e vida sejam entregues, de preferência a que ela sofra qualquer violação.
6. Não admite exceções na obediência, mas a exige plena e inteira; de modo que a virtude exterior não pode tomar o lugar daquela que tem sua sede no coração; e não reconhece como realmente virtuosos senão os atos que brotam de uma mente disposta e submissa e que são praticados com base no princípio vital de um reconhecimento claro de nossa legítima sujeição a Deus.
Amor a Deus. Servir e obedecer a Deus pela convicção de que é justo servi-lo e obedecer-lhe está unido, no cristianismo, àquele amor a Deus que dá vida e ânimo ao serviço e faz dele um meio de elevar nossos prazeres, ao mesmo tempo que concorda com nossas convicções. O amor supremo a Deus é, portanto, o principal daquilo que se tem chamado nossos afetos teopáticos. É a soma e o fim da lei; e, embora o tenhamos perdido em Adão, é-nos restituído por Cristo. Quando considera Deus de modo absoluto, em si mesmo, como um ser de perfeições infinitas e harmoniosas e de belezas morais, é aquele movimento da alma em direção a ele que é produzido pela admiração, pela aprovação e pelo deleite. Quando o considera de modo relativo, fixa-se nas incessantes emanações da sua bondade para conosco: na conservação da existência que ele a princípio nos concedeu; nas circunstâncias que tornam feliz essa existência; e, acima de tudo, no “grande amor com que nos amou” (Ef 2.4), manifestado no dom do seu Filho para nossa redenção e em nos salvar pela sua graça; ou, na linguagem vigorosa de são Paulo, na “suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus” (Ef 2.7). Sob todos esses aspectos, uma gratidão sem limites transborda do coração que está sob a influência desse afeto espiritual. Mas o amor a Deus é mais do que um sentimento de gratidão. Ele se alegra nas perfeições e glórias de Deus e as contempla com devoção, como os temas mais elevados e mais interessantes do pensamento; mantém a ideia desse objeto supremamente amado constantemente presente à mente; volta-se para ela com ardor adorador, saindo dos negócios e distrações da vida; liga-a a cada cena de majestade e beleza da natureza e a cada acontecimento da providência geral e particular; leva a alma à comunhão com Deus, comunhão real e perceptível, porque vital; molda os outros afetos em conformidade com aquilo que o próprio Deus quer ou proíbe, ama ou odeia; produz um desejo sem limites de agradar-lhe e de ser aceito por ele em todas as coisas; é zeloso da sua honra, incansável no seu serviço, pronto a impelir a todo sacrifício pela causa da sua verdade e da sua Igreja; e torna todos esses sacrifícios, mesmo quando levados ao extremo do sofrimento e da morte, isentos de relutância e alegres. Escolhe Deus como o bem principal da alma, cujo gozo lhe assegura o interesse e a felicidade perfeitos e eternos. “Quem tenho eu no céu além de ti? E quem poderia eu querer na terra além de ti?” (Sl 73.25) é a linguagem de todo coração cujo amor a Deus é verdadeiro em princípio e supremo em grau.
Se, pois, a vontade de Deus é a regra perfeita da moral; e se o amor supremo e perfeito a Deus deve produzir uma sujeição pronta, incansável e prazerosa à sua vontade, ou, antes, uma escolha inteira e inteiramente livre dela como regra de todos os nossos princípios, afetos e ações, então é manifesta a importância desse afeto para assegurar aquela obediência à lei de Deus em que consiste a verdadeira moralidade; e percebemos claramente a razão pela qual um escritor inspirado afirmou que “o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13.10). Contudo, é uma consideração importante a necessidade de manter este assunto diante de nós sob os aspectos em que o sistema cristão o coloca, e de não o entregar à mera filosofia. Para o filósofo, o amor a Deus pode ser a simples aprovação do intelecto, ou um sentimento que resulta da contemplação da perfeição infinita que se manifesta em atos de poder e bondade. Nas Escrituras ele é muito mais do que uma coisa e outra, e é produzido e mantido por um processo diferente. Ali somos ensinados que “a inclinação da carne é inimizade contra Deus” (Rm 8.7) e, por isso, naturalmente não é capaz de amar a Deus. No entanto, essa inclinação carnal pode coexistir com profundas conquistas na filosofia e com um sentimento poético intensamente apaixonado. A simples aprovação do entendimento e a capacidade de ser impressionado por sentimentos de admiração, temor reverente e até prazer, quando o caráter de Deus se manifesta nas suas obras, não são, portanto, o amor a Deus, uma vez que ambas as coisas podem ser encontradas na inclinação carnal que é inimizade contra Deus. São princípios que entram nesse amor, pois ele não pode existir sem eles; mas eles podem existir sem esse afeto propriamente dito e ser encontrados numa natureza viciosa e não transformada. O amor a Deus é fruto do Espírito Santo, isto é, é implantado por ele somente nas almas que ele regenerou; e, como aquilo que desperta o seu exercício é principalmente, e em primeiro lugar, a consciência dos benefícios concedidos pela graça de Deus em nossa redenção, junto com uma persuasão bem fundamentada de nossa participação pessoal nesses benefícios, ele pressupõe necessariamente nossa reconciliação pessoal com Deus pela fé na expiação de Cristo, e aquele atestado dela ao coração pelo Espírito de adoção de que já falamos. Vemos aqui, portanto, outra prova da conexão necessária entre a moral cristã e a doutrina cristã, e de quão imperfeito e enganoso deve ser todo sistema que as separa. O amor é essencial à verdadeira obediência; pois, quando o apóstolo declara que o amor é “o cumprimento da lei”, declara, na prática, que a lei não pode ser cumprida sem amor, e que toda ação que não tem este por princípio, por mais virtuosa que pareça, deixa de cumprir os preceitos que nos são obrigatórios. Mas esse amor a Deus não pode ser sentido enquanto temos consciência da sua ira e vivemos com pavor dos seus juízos. Esses sentimentos são incompatíveis entre si, e precisamos estar seguros de que ele se reconciliou conosco antes de sermos capazes de amá-lo. Assim, a própria existência do amor a Deus implica as doutrinas da expiação, do arrependimento, da fé e do dom do Espírito de adoção aos crentes; e, a menos que seja ensinado nessa conexão e por meio desse processo de experiência, ele será apresentado apenas como um objeto brilhante e belo ao qual o homem não tem acesso; ou então um sentimentalismo fictício e imitativo será posto em seu lugar, para engano das almas dos homens.
Um terceiro dever principal é a confiança em Deus. Todas as criaturas dependem de Deus para existir e para estar bem. Os seres inanimados e irracionais recebem a existência, e os benefícios que podem acompanhá-la, independentemente de quaisquer condições a serem cumpridas por eles. As criaturas racionais estão sujeitas a outra regra, e sua felicidade repousa unicamente sobre sua obediência. Não sabemos se, quanto às inteligências que nunca pecaram, se exigem atos específicos de confiança como um dever compreendido em sua obediência geral. Mas, quanto aos homens, toda a Escritura mostra que a fé ou confiança é um dever de primeira ordem, e que eles só “continuam firmes mediante a fé” (Rm 11.20). Quer a razão disso seja a importância, para eles mesmos, de estarem continuamente conscientes de sua dependência de Deus, para que recorram a ele em todo tempo e escapem às decepções da autoconfiança e do apoio nas criaturas; quer seja porque, vindo de fato todo bem de Deus, ele deve ser reconhecido como sua fonte, para que todas as criaturas o glorifiquem; quer ainda estejam incluídas outras razões, mais secretas, não se pode duvidar do fato de que esse dever é solenemente prescrito como parte essencial da verdadeira religião. Também não se pode deixar de notar a conexão entre esse hábito de confiar devotamente em Deus e a nossa paz de espírito. Temos tantas provas da fraqueza de nossas faculdades intelectuais e físicas, e nos vemos tão expostos à influência de combinações de circunstâncias que não podemos controlar e de acidentes a que não podemos resistir, que, se não tivéssemos a certeza de sermos guiados, sustentados e defendidos por um Poder Supremo, poderíamos nos tornar, e não sem razão, presa de apreensões constantes e joguete das antecipações mais entristecedoras da imaginação. Nosso único remédio contra elas estaria, de fato, apenas na insensibilidade e na irreflexão; pois, para uma mente reflexiva e desperta, nada pode afastar os temores inquietantes senão a fé em Deus. Por isso, em todas as épocas, esse tem sido o recurso dos homens piedosos: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. Portanto, não temeremos” etc. (Sl 46.1-2). “Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e tu os livraste. A ti clamaram e escaparam; confiaram em ti e não foram envergonhados” (Sl 22.4-5). E, pelo sermão do monte de nosso Senhor, fica claro que um dos fins do seu ensino era livrar os homens das ansiedades lancinantes que as perplexidades desta vida costumam produzir, encorajando-os a confiar no cuidado e na generosidade do seu “Pai celestial”.
A confiança em Deus nos é ordenada em tantos aspectos quantos são aqueles em que ele se dignou dar-nos, na sua própria palavra, garantias de auxílio e promessas de favor. Além disso, a confiança seria presunção, por não ter autorização; e, em toda a extensão em que os seus propósitos graciosos para conosco se manifestam, ela se torna um dever. E aqui também se mostra a mesma conexão deste dever com as doutrinas principais da nossa redenção, que observamos no ponto anterior. Se a moral for ensinada independentemente da religião, ou a confiança em Deus terá de ser excluída da lista dos deveres para com Deus, ou então será inculcada sem efeito. Um homem que tem consciência de pecados não perdoados, e que por isso deve considerar a administração do Governante do mundo como punitiva e vingadora em relação a ele, não pode encontrar base sobre a qual apoiar sua confiança. Tudo o que pode fazer é esperar que suas relações com esse Ser se tornem mais favoráveis no futuro; mas, por ora, seus temores impedirão o exercício da sua fé. Que caminho, então, se abre diante dele, senão buscar, em primeiro lugar, a restauração do favor do seu Deus ofendido, pelo método que ele prescreveu, a saber, pelo arrependimento para com Deus e pela fé em nosso Senhor Jesus Cristo? Enquanto não obtiver uma certeza bíblica daquela mudança em suas relações com Deus que é efetuada pelo ato livre e gracioso do perdão, todas as razões para uma confiança geral no cuidado, na bênção e na direção de Deus são vãs para ele, porque não se aplicam ao seu caso. Mas, quando a amizade entre as partes é restaurada, a fé, por mais ilimitada que seja, tem a mais alta razão. Ela é então “uma firme confiança na misericórdia de Deus por meio de Cristo”, tal como essa misericórdia se manifesta em todas as promessas que Deus se dignou fazer aos seus filhos e em todas aquelas relações condescendentes de que ele se dignou revestir-se, para que, sob tais manifestações, ganhasse e assegurasse a nossa confiança. É então a confiança não apenas de criaturas num Criador benfazejo, ou de súditos num Soberano bondoso, mas de filhos num Pai. Ela diz respeito ao suprimento de toda necessidade, temporal e eterna; à disposição sábia e graciosa dos nossos assuntos; ao afastamento ou à mitigação das calamidades e aflições; à nossa preservação de tudo o que, no conjunto, possa ser prejudicial para nós; à nossa direção ao longo da vida; à nossa esperança na morte; e à nossa felicidade futura em outro mundo. Essa confiança é um dever porque é objeto de mandamento; e também porque, depois de tais demonstrações de bondade, a desconfiança implicaria uma negação desonrosa do amor e da fidelidade de Deus e, muitas vezes, também uma dependência culposa da criatura. É um hábito essencial à piedade. Sob essa condição “obtemos promessas”, fazendo delas objeto de oração; pela sua influência são expulsas do coração as ansiedades destrutivas daquele hábito calmo e contemplativo de que a verdadeira religião é ao mesmo tempo filha e ama; dá-se assim um caráter espiritual ao homem, que anda como quem vê “aquele que é invisível” (Hb 11.27); e infunde-se na alma uma coragem nobre e alegre, que a eleva acima de todo recuo covarde diante da dificuldade, do sofrimento, da dor e da morte, e oferece um exemplo prático da exortação de alguém que provara o valor dessa graça em grande variedade de apertos: “Espere no Senhor. Anime-se, e fortifique-se o seu coração; espere, pois, no Senhor” (Sl 27.14).
O temor de Deus está associado ao amor e à confiança em todas as partes da Sagrada Escritura, e nos é ordenado como outro dos nossos deveres principais.
Este, porém, não é uma paixão servil; pois, se fosse, não poderia coexistir com o amor a Deus e com o deleite e a confiança nele. É verdade que o medo que “envolve castigo” (1Jo 4.18), aquele que vem acompanhado de apreensões dolorosas do seu desagrado, nascidas de uma justa convicção de que estamos pessoalmente expostos a ele, é imposto aos descuidados e aos ímpios. Para produzi-lo, a palavra de Deus fulmina com ameaças, e os seus juízos marcham pela terra, apresentando exemplos terríveis de vingança contra uma nação ou um indivíduo para advertência dos outros. Mas o temor de Deus que nasce da apreensão de castigo pessoal não se destina a ser o hábito da mente; nem está incluído na expressão frequente “o temor do Senhor”, quando esta é usada para exprimir o todo da religião prática ou os seus princípios principais. Nesse caso, a sua natureza é expressa, em parte, pelo termo “reverência”, que é uma consciência devida e humilhante da majestade divina, produzida e mantida numa mente regenerada pelo Espírito Santo por meio de meditações devotas sobre as perfeições da sua natureza infinita: a sua eternidade e onisciência, a sua presença constante conosco em todo lugar, a profundidade dos seus conselhos, a força do seu poder, a santidade, a verdade e a justiça do seu caráter moral; e sobre as manifestações dessas glórias nas obras daquela imensa natureza visível que nos rodeia, no governo dos anjos, dos demônios e dos homens, e nas revelações da sua palavra inspirada.
Com esse temor profundamente reverente de Deus, porém, une-se constantemente na Escritura a persuasão de que estamos condicionalmente expostos ao seu desagrado. Pois, uma vez que todos os que obtiveram a sua misericórdia e o seu favor por meio de Cristo recebem essas bênçãos por meio de uma expiação, a qual demonstra por si mesma que estamos sob uma administração justa e que nem a lei de Deus foi revogada, nem a sua justiça dorme; e, além disso, uma vez que os benefícios salvadores dessa expiação são condicionais, e nós mesmos temos o poder de desviar de nós o benefício da sua intervenção, ou de perdê-lo, no todo ou em parte, depois de recebido, fica claro que, embora haja plena provisão para nos livrar do “espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados” (Rm 8.15), há razão suficiente para que estejamos tão conscientes dos nossos perigos espirituais que se produza em nós aquele temor cauteloso da santidade, da justiça e do poder de Deus que nos impeça de ofendê-lo e nos leve muitas vezes a considerar, com um pavor refreador e salutar, as consequências da infidelidade e da desobediência a que estamos expostos, pelo menos enquanto permanecemos na terra. Por mais poderosas, pois, que sejam as razões pelas quais a revelação bíblica da misericórdia e da benevolência de Deus impõe uma firme confiança nele, ela nos exorta a não ficarmos “orgulhosos”, mas a “temer” (Rm 11.20); a ter “cuidado” para não deixarmos de alcançar a “promessa de entrar no descanso de Deus” (Hb 4.1); a perseverar “no temor do Senhor todo tempo” (Pv 23.17); e a viver “em temor durante o tempo da peregrinação” (1Pe 1.17) aqui.
Esta visão bíblica do temor de Deus, que combina a reverência pela majestade divina com uma apreensão adequada de que estamos condicionalmente expostos ao seu desagrado, tem grande influência prática.
Ela impede que a nossa fé degenere em presunção, o nosso amor em familiaridade, a nossa alegria em descuido. Nutre a humildade, a vigilância e o espírito de oração. Produz um hábito reverente de pensar e falar sobre Deus e dá solenidade aos exercícios de devoção. Apresenta-nos o pecado sob o seu verdadeiro aspecto, como perigoso, além de corruptor para a alma; como algo que escurece as nossas perspectivas na vida futura, além de prejudicar a nossa paz na presente; e dá força e eficácia àquele princípio moral prático importantíssimo, que é referir constantemente à aprovação de Deus os nossos hábitos interiores de pensamento e sentimento e as nossas ações exteriores.
Sobre esses princípios interiores repousa aquele hábito e estado moral que muitas vezes se exprime pelo termo santidade. Separada desses princípios, ela só pode consistir em atos visíveis, imperfeitos em si mesmos porque não são vitais e, por mais que os homens os elogiem, abomináveis para Deus, que prova o coração. Mas, quando tais atos procedem dessas fontes, são proporcionais à força e à pureza do princípio que os origina, exceto quando, em alguns casos, sofrem a influência e o prejuízo de um juízo mal informado ou fraco. Uma submissão inteira a Deus, um “perfeito amor” (1Jo 4.18) a ele, uma firme confiança nos compromissos da sua aliança, e aquele temor que abate o espírito diante de Deus e se aparta até de “toda forma de mal” (1Ts 5.22), quando unidos a uma compreensão correta da palavra de Deus, tornam “o servo de Deus” “perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.17).
Além desses princípios e afetos interiores, há ainda vários outros hábitos e atos, cuja prática pública, assim como seus exercícios mais secretos, os teólogos chamaram de nossos deveres exteriores para com Deus; o termo “exteriores”, porém, é usado de modo a não excluir aqueles exercícios do coração dos quais todos eles devem brotar, se hão de ser aceitáveis a Deus. O primeiro é
a oração, que é um dirigir solene da nossa mente a Deus, como Fonte do ser e da felicidade, Governante do mundo e Pai da família humana. Inclui o reconhecimento das perfeições e da soberania divinas, a gratidão pelas misericórdias que recebemos, a confissão penitente dos nossos pecados e a súplica fervorosa de bênçãos, tanto para nós mesmos como para os outros. Quando é vocal, é um ato exterior, mas supõe a correspondência da vontade e do afeto; contudo, pode ser puramente mental, pois todos os atos de que se compõe são muitas vezes concebidos na mente sem serem revestidos de palavras.
Que a prática da oração nos é ordenada na Escritura, prova-o suficientemente um pequeno número de citações: “Peçam e lhes será dado; busquem e acharão; batam, e a porta será aberta para vocês” (Mt 7.7). “Portanto, vigiem o tempo todo, orando” (Lc 21.36). “Não fiquem preocupados com coisa alguma, mas, em tudo, sejam conhecidos diante de Deus os pedidos de vocês, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Fp 4.6). “Orem sem cessar” (1Ts 5.17). Que a oração inclui necessariamente fervor, e aquela perseverança que é inspirada por um forte desejo, é evidente pela severa repreensão feita aos judeus por “se aproximarem” de Deus com os lábios, enquanto “o seu coração está longe” dele (Is 29.13); pela regra geral estabelecida por nosso Senhor em sua conversa com a mulher de Sicar: “Deus é Espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24); e por Romanos 12.12: “perseverem na oração”. O termo aqui empregado, proskarterountes, é muito enérgico e denota, como observa Crisóstomo, “oração fervorosa, perseverante e insistente”. Nosso Senhor também contou uma parábola para nos ensinar que devemos “orar sempre e nunca desanimar” (Lc 18.1); e temos exemplos do êxito de repetir as nossas petições quando, por algum tempo, parecem desatendidas. Um deles é o caso da mulher cananeia, repelida por nosso Senhor uma primeira e uma segunda vez; e outro ocorre em 2Coríntios 12.8-9: “Três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então ele me disse: ‘A minha graça é o que basta para você'” etc. Esta passagem oferece também um exemplo de oração feita distintamente por bênçãos particulares, prática que concorda igualmente com a orientação de Filipenses 4.6, de tornar “conhecidos diante de Deus os pedidos”, o que inclui não apenas os nossos desejos de bem em geral, mas também aqueles pedidos particulares que são sugeridos por circunstâncias especiais. Orientações para orar por bênçãos nacionais e públicas ocorrem em Salmos 122.6: “Orem pela paz de Jerusalém! Que sejam prósperos aqueles que a amam”; em Zacarias 10.1: “Peçam ao Senhor chuva no tempo das últimas chuvas; peçam ao Senhor, que faz as nuvens de chuva” (ou relâmpagos) [N. do T.: a KJV, citada por Watson, traz “fará nuvens brilhantes”, e ele dá como alternativa “relâmpagos”], “e ele lhes dará chuva abundante e a cada um, a vegetação no campo”; e em 1Timóteo 2.1-3: “Antes de tudo, peço que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças em favor de todas as pessoas. Orem em favor dos reis e de todos os que exercem autoridade, para que vivamos vida mansa e tranquila, com toda piedade e respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador” etc. Uma intercessão mais particular pelos outros também é autorizada e ordenada: “E assim Pedro estava guardado na prisão; mas havia oração incessante a Deus por parte da igreja a favor dele” (At 12.5). “Irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, peço que lutem juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor, para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judeia” etc. (Rm 15.30-31). “Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros, para que vocês sejam curados” (Tg 5.16).
Decorre, portanto, dessas passagens da Escritura: que a oração é um dever; que ela é posta como condição para recebermos o bem das mãos de Deus; que todo caso de aperto ou necessidade pessoal pode ser objeto de oração; que devemos interceder por todos os que estão diretamente ligados a nós, pela Igreja, pelo nosso país e por toda a humanidade; que tanto as bênçãos temporais como as espirituais podem ser objeto das nossas súplicas; e que esses grandes e solenes exercícios devem ser acompanhados de agradecidas ações de graças a Deus, como autor de todas as bênçãos já concedidas e como objeto benevolente da nossa esperança quanto a futuras intervenções e provisões. A oração, em seu aspecto propriamente cristão, é definida de modo breve e acertado no Catecismo de Westminster: “Oração é o oferecimento dos nossos desejos a Deus, por coisas conformes à sua vontade, em nome de Cristo, com confissão dos nossos pecados e agradecido reconhecimento das suas misericórdias.”
A razão sobre a qual repousa este grande e eficaz dever tem sido objeto de algum debate. Sobre este ponto, porém, nada temos explicitamente declarado nas Escrituras. Delas aprendemos apenas que Deus a instituiu; que ele ordena que seja oferecida com fé, isto é, fé em Cristo, cuja expiação é a causa meritória e obtentora de todas as bênçãos a que os nossos desejos podem dirigir-se; e que a oração assim oferecida é condição indispensável para obtermos as bênçãos que pedimos. Por via de inferência, contudo, podemos descobrir alguns vislumbres da razão, na mente divina, sobre a qual repousa a sua instituição. Algumas vezes se disse que essa razão é a preparação moral e o estado de aptidão para receber as misericórdias divinas que o ato, e mais especialmente o hábito, da oração necessariamente produz na alma. Contra isso se levanta a objeção forte e, do ponto de vista bíblico, fatal, de que assim se atribui ao simples ato de uma criatura a eficácia de produzir aquelas grandes e, em muitos aspectos, radicais mudanças no caráter do homem que somos ensinados, por autoridade inspirada, a atribuir às influências diretas do Espírito Santo. O que torna o homem apto para o perdão senão simplesmente o arrependimento? E, no entanto, diz-se expressamente que este é um “dom” de Cristo, e ele supõe fortes operações do Espírito da verdade, que ilumina e convence, o Senhor e Doador da vida espiritual; e, se os simples atos e o hábito da oração tivessem eficácia suficiente para produzir um arrependimento bíblico, então todo formalista que se dedicasse às suas devoções com seriedade comum haveria de tornar-se, em consequência, um penitente. Além disso, se oramos corretamente por bênçãos espirituais, isto é, com um fervor de desejo que nasce de uma justa compreensão da sua importância e de uma preferência por elas acima de todo bem terreno, quem não vê que isso implica uma libertação tal da disposição terrena e carnal que caracteriza a nossa natureza degenerada que é preciso supor uma ação muito acima da nossa, por mais que a empreguemos? Ou então, se as nossas orações pudessem ser eficazes até esse ponto, poderíamos, pela aplicação contínua desse instrumento, completar a nossa regeneração independentemente daquela graça de Deus que, afinal de contas, essa teoria acaba introduzindo. Pode-se dizer, é verdade, que a graça de Deus opera por meio das nossas orações para produzir em nós um estado de aptidão moral para receber as bênçãos que pedimos. Mas isso abandona o ponto em disputa, a eficácia moral da oração, e atribui a eficácia a outro agente que opera por meio das nossas orações como instrumento. Ainda assim, pode-se afirmar que as Escrituras em parte alguma apresentam a oração como instrumento para melhorar o nosso estado moral, mesmo nas mãos da graça divina, de outro modo senão como meio de trazer à alma novos suprimentos de vida e força espirituais. Ela deve, portanto, ser considerada mais propriamente como condição para obtermos aquela graça pela qual tais efeitos são operados do que como o instrumento pelo qual a graça os opera. De fato, todos os atos genuínos de oração dependem de uma graça concedida anteriormente, e só dela procedem a disposição e o poder de orar. Assim se disse de Saulo de Tarso: “Ele está orando” (At 9.11). Ele orava, de fato, pela primeira vez; mas isso era consequência da iluminação da sua mente quanto ao seu perigo espiritual, produzida pelo milagre no caminho de Damasco, e da graça de Deus que acompanhou o milagre. E o caráter miraculoso dos meios pelos quais se produziu a convicção em sua mente não afeta a pertinência disso para os casos comuns. Sejam quais forem os meios pelos quais Deus se agrade de fixar em nossa mente a convicção do nosso perigo espiritual e de nos despertar do longo sono do pecado, essa convicção tem de preceder a oração verdadeira, e vem da influência da sua graça, que torna eficazes os meios de convicção. Assim, não é a oração que produz a convicção, mas a convicção que dá origem à oração; e, se seguirmos a questão em seus estágios posteriores, chegaremos ao mesmo resultado. Oramos por aquilo de que sentimos falta, isto é, por algo que não possuímos; e obtemos isso ou por comunicação da parte de Deus, para quem olhamos como o único Ser capaz de conceder o bem que lhe pedimos, ou então, segundo essa teoria, porque se confere ao exercício de orar alguma eficácia moral para operá-lo em nós. Ora, esta última hipótese é, em muitos casos, manifestamente absurda. Pedimos, por exemplo, o perdão do pecado; mas isso é um ato de Deus realizado em nosso favor, bem distinto de qualquer mudança moral que se possa dizer que a oração produz em nós, seja qual for a eficácia que lhe atribuamos; pois nenhuma mudança desse tipo em nós pode ser perdão, uma vez que este tem de proceder da parte ofendida. Pedimos aumento de força espiritual, e a oração é a expressão dessa necessidade. Mas, se ela suprisse essa necessidade por sua própria eficácia moral, teria de supri-la na proporção da sua intensidade e do seu fervor; e essa intensidade e esse fervor só podem ser despertados na medida em que a necessidade é sentida; de modo que o caso suposto é contraditório e absurdo, pois faz a consciência da necessidade ser proporcional ao suprimento que deveria diminuí-la ou removê-la. E, se se insistir que a oração ao menos produz em nós uma aptidão para o suprimento de força espiritual, porque é provocada pela consciência das nossas necessidades, a resposta é que a aptidão alegada consiste nessa mesma consciência da necessidade, que tem de ser produzida em nós pela ação anterior da graça, sem o que jamais oraríamos pedindo suprimentos. Na verdade, nada há na oração em si que pareça ter qualquer adequação, como instrumento, para efetuar uma mudança moral no homem, ainda que se suponha que seja usada pela influência do Espírito Santo. A palavra de Deus é propriamente um instrumento, porque contém a doutrina que esse Espírito explica e aplica, e os motivos para a fé e a obediência que ele impõe à consciência e aos afetos; e, embora a oração traga essas verdades e esses motivos diante de nós, não se pode dizer propriamente que a oração seja instrumento da nossa regeneração, porque aquilo que por meio da oração é assim aplicado ao nosso caso é a própria palavra de Deus introduzida em nossas orações, que tiram dessa circunstância toda a influência que têm nesse aspecto. A oração, em si mesma, é o recurso de um ser insuficiente a um Ser suficiente, em busca do bem que o primeiro não pode obter de outro modo e que só o segundo pode fornecer; e, como esse suprimento depende da oração e, pela natureza da coisa, vem depois dela, não se pode dizer em nenhum sentido razoável que a oração seja o instrumento que supre as nossas necessidades ou que nos torna aptos para o seu suprimento, a não ser de modo relativo, como simples condição estabelecida pelo doador.
Se temos de investigar a razão da instituição da oração, e dificilmente se pode considerá-la uma instituição puramente arbitrária, essa razão parece ser a preservação, na mente dos homens, de uma consciência solene e marcante da ação de Deus no mundo e da dependência de todas as criaturas em relação a ele. Seres perfeitamente puros e glorificados, que já não estão em estado de prova e, por isso, não estão expostos a tentações, talvez não precisem dessa instituição; mas os homens, em seu estado decaído, são constantemente propensos a esquecer-se de Deus, a descansar na ação das causas segundas e a construir sobre uma suficiência própria. Isso é, ao mesmo tempo, negar a Deus a glória que ele com justiça reivindica e uma ilusão destrutiva para as criaturas, que, abandonando Deus como objeto da sua confiança constante, só confiam em canas quebradas e tentam beber de “cisternas rachadas, que não retêm as águas” (Jr 2.13). É, pois, tanto por misericórdia para conosco como em consideração à sua própria honra e ao reconhecimento que lhe é devido, que o Ser divino fez depender do exercício da oração tantas das suas bênçãos, e daquelas que nos são da mais alta necessidade: um ato que reconhece a sua ação irresistível e a dependência de todas as criaturas em relação a ele, a nossa insuficiência e a sua plenitude, e que lança o fundamento daquele hábito de gratidão e ação de graças que é, ao mesmo tempo, tão benéfico para os nossos próprios sentimentos e tão favorável a uma obediência alegre à vontade de Deus. E, se essa razão para o mandamento da oração não é declarada em parte alguma da Escritura com estas palavras, é um princípio uniformemente suposto como fundamento de todo o plano de religião que as Escrituras revelaram.
A este dever têm-se oposto, por vezes, objeções às quais convém ao menos lançar um olhar.
Uma delas se baseou numa suposta predestinação de todas as coisas que acontecem; e o argumento é que, como essa predeterminação estabelecida de todas as coisas não pode ser alterada, a oração, que supõe que Deus se afastará dela, é vã e inútil. A resposta que um predestinacionista piedoso daria a essa objeção é que o argumento tirado da predestinação de Deus pesa com a mesma força contra todo outro esforço humano tanto quanto contra a oração; e que, assim como a predeterminação de Deus de dar alimento ao homem não torna inútil e descabido o cultivo da terra, também a predestinação das coisas não exclui a necessidade e a eficácia da oração. Também se alegaria que Deus ordenou tanto os meios como o fim; e que, embora seja um Ser imutável, faz parte do sistema imutável que ele estabeleceu que a oração seja ouvida e aceita.
Os que não têm essa visão da predestinação responderão à objeção de outra maneira; pois, se se admitirem as premissas de uma predestinação como a que a objeção supõe e a resposta concede, a resposta não satisfaz. As Escrituras apresentam Deus, por exemplo, como alguém que se propõe a infligir um juízo a um indivíduo ou a uma nação, propósito que muitas vezes é mudado pela oração. Nesse caso, ou se nega o propósito de Deus, e então as suas ameaças ficam reduzidas a palavras sem sentido; ou se admite o propósito, e nesse caso ou a oração rompe a predestinação, se esta for entendida de modo absoluto, ou é vã e inútil. A essa objeção assim desenvolvida, é claro que não se responde dizendo que tanto os meios como o fim estão predestinados, uma vez que a oração, em tais casos, não é um meio para o fim, mas um instrumento para frustrá-lo; ou é um meio para um fim em oposição a outro fim, o que, se ambos estiverem igualmente predestinados com o mesmo caráter absoluto, é uma contradição.
A verdadeira resposta é que, embora Deus tenha predeterminado absolutamente algumas coisas, há outras, relativas ao seu governo de agentes livres e responsáveis, que ele predeterminou apenas condicionalmente. A verdadeira imutabilidade de Deus, como já mostramos (parte II, cap. 28), consiste não na sua adesão aos seus propósitos, mas em nunca mudar os princípios da sua administração; e por isso ele pode, em perfeito acordo com a sua preordenação das coisas e com a imutabilidade da sua natureza, propor-se a fazer, sob certas condições dependentes da liberdade de ação do homem, aquilo que não fará sob outras; e isso pela razão de que uma adesão imutável aos princípios de um governo sábio, justo e gracioso o exige. A oração é, na Escritura, uma dessas condições; e, se Deus estabeleceu como um dos princípios do seu governo moral aceitar a oração em todos os casos em que nos deu autorização para pedir, podemos estar certos de que ele não enredou o seu governo efetivo do mundo nas amarras de uma predestinação eterna de acontecimentos particulares tal que reduza a oração a uma simples fórmula de palavras, ou que ele mesmo não possa, de modo coerente com os seus decretos, respondê-la sempre que ela é encorajada pelos seus compromissos expressos.
Uma segunda objeção é que, sendo Deus infinitamente sábio e bom, a sua sabedoria e a sua justiça o levarão a conceder “tudo o que nos convém, sem que oremos; e, se alguma coisa não nos convém, não podemos obtê-la orando”. A isso o dr. Paley responde muito bem (Moral Philosophy): “Pode ser conforme à perfeita sabedoria conceder às nossas orações aquilo que não teria sido conforme à mesma sabedoria dar-nos sem que o pedíssemos.” Essa, independentemente da questão da autoridade das Escrituras, que ordenam explicitamente a oração, é a melhor resposta que se pode dar à objeção; e não é pequena a sua confirmação o fato de ser evidente para todo homem reflexivo que o reter Deus os seus favores até que lhe sejam pedidos “tende”, como observa o mesmo escritor, “a estimular a devoção entre as suas criaturas racionais e a manter e difundir o conhecimento e a consciência da sua dependência dele“.
Mas se insiste: “Deus sempre fará o que é melhor, em razão da perfeição moral da sua natureza, quer oremos, quer não.” Essa objeção, porém, supõe que só há um modo de agir da melhor maneira e que a vontade divina está necessariamente determinada somente a esse modo; “e ambas as posições”, diz Paley, “pressupõem um conhecimento da natureza universal muito além do que somos capazes de alcançar”. É, de fato, um modo de falar muito pouco satisfatório dizer que Deus sempre fará o que é melhor, visto que podemos concebê-lo capaz, em todos os casos, de fazer o que é ainda melhor para a criatura, e também conceber a criatura capaz de receber cada vez mais da sua plenitude infinita, para sempre. Tudo o que se pode querer dizer racionalmente com tal frase é que, nas circunstâncias do caso, Deus sempre fará o que for mais coerente com a sua sabedoria, santidade e bondade; mas então a disposição de orar e o ato de orar acrescentam uma circunstância nova a cada caso e muitas vezes trazem consigo muitas outras circunstâncias novas. Supõem humildade, contrição e confiança por parte da criatura, e o reconhecimento do poder e da compaixão de Deus e do mérito da expiação de Cristo: coisas que constituem manifestamente posições novas, por assim dizer, das circunstâncias da criatura, as quais, pelo próprio princípio da objeção, entendido racionalmente, têm de ser levadas em conta.
Mas, se se concede a eficácia da oração no que diz respeito a nós mesmos, diz-se que a sua influência no caso de outros é mais difícil de conceber. Isso pode ser admitido sem afetar em nada o dever. Os que se curvam à autoridade das Escrituras verão que o dever de orar por nós mesmos e pelos outros repousa sobre a mesma instituição divina; e, aos que perguntam a razão dessa intercessão em favor de outros, basta responder que, estando estabelecida a eficácia da oração num caso, há a mesma razão para concluir que as nossas orações podem beneficiar os outros, como qualquer outro esforço que possamos empregar. Só por instituição divina uma criatura pode ser feita dependente de outra para qualquer vantagem, uma vez que, sem dúvida, estava no poder do Criador tornar cada uma independente de todos, exceto dele mesmo. Qualquer que seja, portanto, a razão que o tenha levado a ligar e entrelaçar os interesses de um homem com a benevolência de outro, essa será a razão principal daquele tipo de dependência mútua que está implicada no benefício da oração mútua. Ainda que fosse apenas porque uma simpatia, caridade e boa vontade prévias estão implicadas nesse dever, e devem, de fato, ser cultivadas para cumpri-lo e ser fortalecidas por ele, a sabedoria e a benevolência da instituição seriam, presume-se, evidentes para toda mente bem formada. É certo que toda oração por outros tem de basear-se num conhecimento deles menos perfeito do que o que temos de nós mesmos; e deve-se também conceder que todas as nossas petições por eles têm de ser, mesmo em nossa própria mente, mais condicionais do que as que dizem respeito a nós mesmos, embora muitas destas tenham de submeter-se aos princípios de uma administração geral que só em parte compreendemos; e que todas as influências espirituais sobre os outros, quando são objeto das nossas orações, serão entendidas por nós como sujeitas ao controle da liberdade de ação deles; e, portanto, quando se trata de outros, as nossas orações podem muitas vezes ser parcial ou totalmente infrutíferas. Aquele que crê nas Escrituras, porém, será encorajado pela declaração de que “muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5.16) em favor dos seus semelhantes; e aquele que exige algo além de uma simples declaração com autoridade, como não pode negar que a oração é um dos instrumentos pelos quais outro pode ser beneficiado, tem de reconhecer que, como o dar conselhos, ela pode ser de grande utilidade em alguns casos, ainda que falhe em outros; e que, assim como ninguém pode dizer quanto um bom conselho pode influenciar outra pessoa, ou, em muitos casos, dizer se ele afinal falhou ou não, assim também acontece com a oração. Faz parte do plano divino, tal como revelado na sua palavra, dar ao homem muitas bênçãos independentemente das suas próprias orações, deixando a ele mesmo o aproveitamento posterior delas. Elas são dadas em honra da intercessão de Cristo, o grande “Advogado” (1Jo 2.1) do homem; e são dadas, de modo subordinado, em aceitação das orações da Igreja de Cristo e de indivíduos justos. E, quando muitos ou poucos indivíduos piedosos se tornam assim instrumentos do bem para comunidades ou para nações inteiras, não há nisso mistério maior do que no fato evidente de que a felicidade ou a miséria de grandes massas da humanidade é muitas vezes profundamente afetada pela sabedoria ou pelos erros, pela habilidade ou pela incompetência, pela boa ou pela má conduta de umas poucas pessoas, e muitas vezes de uma só.
O dever geral da oração costuma ser distribuído em quatro ramos: jaculatória, particular, social e pública; cada um deles é de tal importância que exige consideração à parte.
Oração jaculatória é o nome dado àquelas aspirações secretas e frequentes do coração a Deus, por bênçãos gerais ou particulares, pelas quais se pode exprimir uma justa consciência da nossa dependência habitual de Deus e das nossas necessidades e perigos, naqueles intervalos em que os pensamentos conseguem desprender-se dos negócios da vida, ainda que só por um momento, enquanto continuamos ocupados neles. Inclui também todas aquelas breves e ocasionais efusões de gratidão e silenciosas atribuições de louvor que a lembrança das misericórdias de Deus despertará num espírito devoto, nas mesmas circunstâncias. Ambas, porém, pressupõem aquilo que os teólogos chamaram “o espírito de oração”, que brota da consciência da nossa dependência de Deus e é um anelo dos desejos por um intercâmbio de pensamento e afeto com ele, acompanhado de uma consciência reverente e encorajadora da sua presença constante conosco. O cultivo desse espírito nos é claramente ordenado como dever pelo apóstolo Paulo, que nos exorta: “Orem sem cessar. Em tudo, deem graças” (1Ts 5.17-18); e também: “Pensem nas coisas lá do alto” (Cl 3.2); exortações que implicam um estado e uma disposição santos e devotos da mente, e não apenas atos de oração praticados a intervalos.
As elevadas e indizíveis vantagens desse hábito são que ele produz uma mente vigilante e precavida; impede que a religião degenere em forma sem vida; une a alma a Deus, sua luz e sua força; atrai contínuos suprimentos de influência divina; e opõe uma barreira eficaz, pela graça assim adquirida, às invasões das ansiedades mundanas e à força das tentações. A existência desse espírito de oração e ação de graças é uma das grandes distinções entre cristãos nominais e verdadeiros; e por ele se pode, ordinariamente, determinar a medida de cristianismo vital e eficaz de que um indivíduo desfruta.
Oração particular. Este dever repousa sobre os exemplos de homens piedosos na Escritura; sobre várias passagens de caráter imperativo do Antigo Testamento; e, no Novo, sobre as palavras expressas de nosso Senhor, que, ao mesmo tempo que supõem que a prática da oração individual era geralmente reconhecida como obrigatória, ordenam que ela seja estritamente particular: “Mas, ao orar, entre no seu quarto1 e, fechada a porta, ore ao seu Pai, que está em secreto. E o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa” (Mt 6.6). Também nisso o próprio Cristo nos colocou sob a obrigação do seu exemplo, pois os evangelistas foram inspirados a registrar vários casos em que ele se retirou para a mais completa privacidade a fim de “orar”. A razão dessa instituição da devoção particular parece ter sido incitar-nos a um trato amigo e confiante com Deus em todos aqueles casos particulares que mais tocam os nossos sentimentos e os nossos interesses; e é um exemplo muito comovente da condescendência e da compaixão de Deus que nos seja permitido usar com ele, “derramando o nosso coração” (Sl 62.8), uma liberdade que não poderíamos usar com os nossos melhores e mais queridos amigos. É também muito digno de nota que, ao nos ordenar este dever, nosso Senhor nos apresenta o Ser divino sob a relação mais apropriada de todas para inspirar aquela confiança ilimitada com que ele quer que nos aproximemos dele: “ore ao seu Pai, que está em secreto”. Assim, o pavor da sua onisciência, indicado pelo fato de ele “ver em secreto”, e dos outros atributos esmagadores que a onipresença e a onisciência não podem deixar de sugerir, é mitigado, ou só é empregado para inspirar maior liberdade e uma confiança mais forte.
Oração em família. Paley afirma que a utilidade peculiar da oração em família consiste na sua influência sobre os criados e os filhos, cuja atenção pode ser captada mais facilmente por ela do que pelo culto público. “O exemplo e a autoridade de um patrão e pai agem também, desse modo, com maior força; e o ardor da devoção se sustenta melhor, e a simpatia se propaga mais facilmente, numa pequena assembleia, ligada pelos afetos da sociedade doméstica, do que na presença de uma congregação mista.” Há, sem dúvida, peso nessas observações; mas elas são deficientes, tanto por não declararem a obrigação deste importante dever como por não exporem plenamente as suas vantagens.
É verdade que a ausência de um preceito expresso sobre o culto doméstico tem sido alegada contra a sua obrigatoriedade, até mesmo por alguns que ainda assim o consideravam uma ordenança prudente e útil. Mas não se deve conceder nem por um momento que um dever tão importante não seja estritamente obrigatório, uma vez que essa obrigação nasce tão claramente da própria constituição de uma família e é confirmada pelos mais antigos exemplos da Igreja de Deus. Sobre o primeiro desses pontos, as seguintes observações, tiradas de uma obra muito competente e interessante (Anderson, On the Domestic Constitution), são de grande peso:
“A disposição de alguns homens que professam o cristianismo de exigir peremptoriamente um preceito particular em todos os casos de dever moral obrigatório é uma disposição que todo cristão faria bem em examinar, não só para que nunca seja perturbado por ela, mas também para que não fique sem resposta diante de um homem assim, se for chamado a conversar com ele. O dever particular a que ele se refere, digamos, por exemplo, o culto doméstico, é de importância relativamente pequena. A sua pergunta em si não é indício apenas de grande ignorância; é sintoma da falta de princípio religioso. Quando um homem diz que só pode estar obrigado a tal dever, um dever moral, por um preceito positivo e particular, estou convencido de que ele não poderia cumpri-lo em obediência a preceito algum; nem poderia sequer agora, ainda que tentasse. A verdade é que esse homem não tem nenhuma inclinação para tal culto, e precisa antes ser informado sobre os fundamentos de toda obrigação desse tipo.
“O dever da devoção doméstica, portanto, lembre-se bem, ainda que tivesse sido minuciosamente prescrito quanto à substância e quanto ao tempo, não estaria, afinal, fundado apenas nessas prescrições. Quero que o leitor compreenda a fundo o caráter de um cristão e a constituição da família; e desse caráter e dessa constituição ele verá que certos deveres surgem necessariamente; isto é, são essenciais à continuidade e ao bem-estar dele mesmo como pai cristão e da constituição sobre a qual está posto. Nesse caso, não pode haver dúvida quanto à obrigação deles, e não há necessidade de preceito. O Todo-Poderoso, em sua palavra, não só nada disse em vão, mas nada disse que não fosse necessário. Ora, quanto ao culto doméstico, não desejo um preceito particular; não, nem mesmo por causa dos outros, porque estou persuadido de que o cristão, em seu juízo perfeito, obedecerá naturalmente, e nenhum outro pode obedecer.
“Apliquemos, porém, esse pedido de um preceito preciso a alguns outros ramos do dever familiar. Que se pensaria de mim se eu exigisse um preceito expresso para impor a minha obrigação de alimentar os meus filhos, e outro que me obrigasse a vesti-los? Um para declarar a minha obrigação de ensinar-lhes as letras, e outro para assegurar que eu os prepare para profissões ou ocupações lícitas ou honrosas? ‘Tudo isso’, você poderia responder com muita propriedade, ‘é absurdo no mais alto grau; a sua obrigação repousa sobre um fundamento muito mais elevado; aliás, a própria natureza não lhe ensina isso, e muito mais do que isso?’ ‘É verdade’, respondo eu; ‘e não haverá então a natureza renovada de ensinar-me muito mais ainda? A que outra natureza se dirigem palavras como estas: Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o pensamento de vocês (Fp 4.8)?’
“Independentemente, porém, de todas essas provas, diante de qualquer pai cristão sensato posso confirmar e firmar o seu espírito sobre um fundamento muito mais elevado do que mesmo aquele que esses exemplos incisivos oferecem. A tal pai eu poderia dizer: ‘Sem hesitação, você admitirá que as suas obrigações para com a sua família devem ser medidas, agora e no dia da prestação final de contas, pela sua capacidade: como homem, pela sua capacidade natural; como cristão, pela sua capacidade espiritual. E admitirá que, por mais que tenha consciência de ficar aquém todos os dias, está obrigado a honrar a Deus até o limite máximo dessa capacidade. Também concordará que, estando onde está, você agora não deve ser considerado apenas como um indivíduo isolado, à maneira de um órfão solitário sem parentes. O próprio Deus, seu Criador, seu Salvador e seu Juiz, o considera como cabeça de uma família e, portanto, na posse de um depósito sagrado: você tem a seu cargo almas. Ora, se você realmente mede a obrigação pela capacidade, então também concordará imediatamente que deve fazer o que puder para que ele receba da sua família a maior honra possível.
“‘Sem hesitação, você também concordará que Deus o preserva diariamente. E não preserva também a sua família? Mas, se ele preserva, tem direito de propriedade sobre cada um e sobre todos os que estão debaixo do seu teto. Não deverá, portanto, receber de você o reconhecimento disso? Se ele preserva diariamente, não deverá ser reconhecido diariamente? E, se há de ser reconhecido de algum modo, como deverá sê-lo, senão de joelhos? E como poderão eles sabê-lo, se não o ouvirem?
“‘Sem hesitação, você também concordará que é um ser social, além de racional. E muitas vezes, por isso, sentiu o quanto a influência suavizante da doce companhia deles o sustentou em meio aos seus cuidados e provações, e até na própria dor. Oh! Com certeza, então, como ser social, você lhes deve culto social; e jamais deveria esquecer que, em tempos antigos, houve culto social aqui antes que pudesse haver em qualquer outro lugar.'”
O mesmo excelente escritor não deu, em sua argumentação posterior, à última observação da citação acima toda a força que ela exige; pois o fato de que o culto social existiu antes do culto mais propriamente chamado público, isto é, o culto em assembleias indistintas, é o ponto que, quando levado até o fim, estabelece mais plenamente a obrigação. Uma grande parte, pelo menos, do culto dos tempos patriarcais era doméstica. O culto a Deus era observado nas famílias de Abraão, de Jacó e de Jó; e até a mais elevada espécie de culto, a oferta de sacrifícios, que não poderia ter existido sem instituição divina. Decorreu, portanto, da constituição original de uma família que o pai e cabeça natural fosse investido de um caráter sagrado e religioso, e isso em relação à sua família; e, se isso nunca foi revogado por uma proibição posterior, mas, ao contrário, se a sua continuidade foi reconhecida depois, então o sacerdócio familiar continua em vigor e está no mesmo pé que várias outras obrigações religiosas que passaram de uma dispensação da religião revelada para outra sem promulgação expressa.
Investiguemos, então, se houve alguma revogação desse ofício, tal como originalmente conferido ao pai de família, depois da instituição de uma ordem particular de sacerdotes sob a economia mosaica. É verdade que os sacrifícios nacionais eram oferecidos pelos sacerdotes aarônicos, e talvez também alguns daqueles sacrifícios consuetudinários que, nas eras patriarcais, eram oferecidos pelos chefes de família e se referiam especialmente à dispensação geral da religião sob a qual todas as famílias estavam igualmente colocadas; contudo, a Páscoa era um ato religioso solene, cuja natureza doméstica está claramente marcada, e devia ser uma ordenança perpétua; por isso, não foi tirada das mãos dos chefes de família pela instituição do sacerdócio aarônico, embora a cerimônia compreendesse vários atos diretos de culto. A instrução solene da família também é imposta ao pai na lei de Moisés: “Você as inculcará a seus filhos” (Dt 6.7); e ele também recebia a ordem de lhes ensinar o significado das diferentes festas e de outras instituições comemorativas. Assim, a relação original do pai com a sua família, que existia na era patriarcal, ainda se vê em vigor, embora modificada pela lei em algumas das suas circunstâncias. Ele ainda é o mestre religioso; ainda oferece orações a Deus por eles; e ainda “abençoa”, ato que implica ao mesmo tempo oração, louvor e bênção oficial. Assim, a família de Jessé tinha um sacrifício anual (1Sm 20.6). Assim também Davi, embora não fosse sacerdote, regressou “para abençoar a sua casa” (2Sm 6.20); e nosso Senhor exerceu o ofício de chefe de família, como se vê pelo fato de ter comido a Páscoa com os seus discípulos e presidido, como tal, todo o rito. E, embora a passagem “Derrama o teu furor sobre as nações e sobre as famílias que não invocam o teu nome” (Jr 10.25) [N. do T.: a NAA traz “povos” onde a KJV, citada por Watson, traz “famílias”] talvez não se refira decididamente a atos de culto doméstico, é provável que a fraseologia tenha sido influenciada por essa prática entre os próprios judeus piedosos; os pagãos não reconheciam a Deus nem como nação, nem em suas famílias. E não é pequena confirmação da antiga prática de uma religião doméstica formal e visível que no paganismo, que corrompeu as formas da verdadeira religião, e especialmente as da dispensação patriarcal, vejamos os sinais de uma idolatria familiar, além da pública, como se vê nas suas “salas de imagens” particulares (Ez 8.12), nas suas divindades domésticas e nas cerimônias religiosas que cabia ao chefe de cada casa realizar.
O caráter e o ofício sagrados do pai e senhor de uma casa passaram do judaísmo para o cristianismo; pois também aqui nada encontramos que os revogue e anule. Um dever tão bem compreendido entre os judeus e até entre os pagãos, como o de que o chefe da casa deve influenciar o seu caráter religioso, não precisava de prescrição especial. O pai ou senhor que cria era batizado, e com ele toda a sua “casa”; as primeiras sociedades religiosas eram principalmente domésticas; e a antiguidade dos serviços religiosos domésticos entre os cristãos não deixa dúvida de que, quando o número de cristãos cresceu a ponto de exigir uma assembleia separada em algum salão comum ou igreja, o culto doméstico não foi suprimido. Não fosse a divisão dos versículos no quarto capítulo da Epístola aos Colossenses, dificilmente se teria suspeitado que o primeiro e o segundo versículos contêm dois preceitos distintos e desligados: “Senhores, tratem os seus servos com justiça e igualdade, sabendo que também vocês têm um Senhor no céu. Continuem a orar, vigiando em oração com ação de graças” (Cl 4.1-2); uma colocação de pessoas e deveres que parece indicar que o sentido do apóstolo era que o “servo”, o escravo, participasse do benefício daquelas orações contínuas e ações de graças diárias que se ordena ao senhor oferecer.
Assim como Paley omite a obrigação deste ramo da devoção, também as vantagens do culto doméstico são expostas por ele de modo muito imperfeito. A oferta de oração a Deus numa família não pode deixar de estabelecer a base de um cuidado especial pelos seus interesses e assuntos da parte daquele que é assim constantemente reconhecido; e a vantagem, portanto, é mais do que meramente sentimental, e mais do que a de dar efeito ao “exemplo do patrão”. As bênçãos da providência e da graça, a defesa contra o mal ou sustentos especiais em meio a ele podem assim ser esperados daquele que disse: “Reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas” (Pv 3.6); e que, quando dois ou três estão reunidos em seu nome, ele está “no meio deles” (Mt 18.20). A família é uma “igreja que se reúne na casa” (Rm 16.5); e as suas ministrações, sendo aceitáveis a Deus, não podem deixar de ser seguidas da sua bênção direta.
Oração pública, sob a qual incluímos o reunir-nos para todos os ramos do culto público.
A obrigação bíblica deste dever funda-se em parte no exemplo e em parte no preceito; de modo que ninguém que admita essa autoridade pode questionar este grande dever sem incoerência manifesta e culposa. A instituição do culto público sob a lei e a prática do culto na sinagoga entre os judeus, pelo menos desde o tempo de Esdras,2 não podem ser questionadas; e ambas foram sancionadas pela prática de nosso Senhor e dos seus apóstolos. A ordem do culto da sinagoga tornou-se, de fato, o modelo do culto da Igreja cristã. Consistia em oração, leitura e explicação das Escrituras e canto de salmos; e assim um dos meios mais importantes de instruir as nações e de difundir e manter a influência da moral e da religião num povo passou dos judeus para todos os países cristãos.
A autoridade preceptiva para a nossa participação regular no culto público é inferencial ou direta. A ordem de proclamar o evangelho inclui a obrigação de reunir-se para ouvi-lo; o nome pelo qual uma sociedade cristã é designada na Escritura é igreja, que significa uma “assembleia” reunida para tratar de algum assunto; e, no caso de uma assembleia cristã, o assunto tem de ser necessariamente espiritual e incluir os exercícios sagrados da oração, do louvor e da audição das Escrituras. Mas temos preceitos mais diretos, embora a prática tenha evidentemente continuado do judaísmo e fosse, portanto, consuetudinária. Algumas das epístolas de Paulo recebem ordem de ser lidas nas igrejas. O canto de salmos, hinos e cânticos espirituais é prescrito como ato de culto solene, “ao Senhor” (Ef 5.19); e são Paulo adverte os hebreus: “Não deixemos de nos congregar” (Hb 10.25). A prática da era primitiva também é manifesta pelas epístolas de são Paulo. A ceia do Senhor era celebrada pelo conjunto dos crentes coletivamente; e esse apóstolo prescreve aos coríntios regras para os exercícios de oração e de profecia “quando se reúnem na igreja” (1Co 11.18), isto é, na assembleia. A regularidade e a ordem desses “ofícios sagrados” na Igreja primitiva aparecem também na epístola apostólica de são Clemente: “Devemos também, contemplando as profundezas do conhecimento divino, fazer em ordem todas as coisas que o Senhor mandou que se fizessem. Devemos fazer as nossas oblações e realizar os nossos ofícios sagrados nos seus tempos determinados; pois ele mandou que fossem feitos, não de modo irregular ou ao acaso, mas em tempos e horas determinados; assim como também ordenou, por sua vontade suprema, onde e por quais pessoas devem ser realizados; para que, sendo todas as coisas feitas segundo o seu beneplácito, sejam aceitáveis aos seus olhos.” Esta passagem é notável por invocar uma autoridade divina para os serviços públicos da Igreja, pela qual são Clemente, sem dúvida, entende a autoridade das orientações inspiradas dos apóstolos.
Os fins da instituição do culto público são de importância tão evidente que ela deve ser sempre considerada uma das mais condescendentes e graciosas dispensações de Deus ao homem. Por meio dele, a sua Igreja confessa o seu nome diante do mundo; por meio dele, o ensino público da sua palavra está associado a atos próprios para impressionar a mente com aquela solenidade que é a melhor preparação para ouvi-la com proveito. É assim que os ignorantes e os viciosos são reunidos, instruídos e advertidos; os convites da misericórdia são proclamados aos culpados, e os tristes e aflitos são consolados. Nessas assembleias, Deus, pelo seu Espírito Santo, difunde a sua influência vivificante e santificadora e admite os piedosos a uma comunhão consigo mesmo, da qual eles tiram força para fazer e sofrer a sua vontade nas várias situações da vida, enquanto ele assim lhes concede um antegozo das delícias profundas e santas que lhes estão reservadas “à tua direita… perpetuamente” (Sl 16.11). Aqui se ouvem orações e intercessões pelos interesses nacionais e públicos; e, enquanto o benefício desses exercícios desce sobre um país, todos são mantidos conscientes da dependência de todo interesse público e pessoal em relação a Deus. O louvor desperta as emoções de gratidão e dá alegria à piedade; e aquela “educação na justiça” (2Tm 3.16), repetida tão continuamente, difunde os princípios da moral e da religião por toda a sociedade; ilumina a consciência e lhe dá atividade; eleva o padrão moral; liga a vergonha ao vício e o louvor à virtude; e exerce assim uma influência poderosamente purificadora sobre a humanidade. As leis recebem desse modo uma força que, em outras circunstâncias, não poderiam adquirir, ainda que fossem promulgadas com a mesma perfeição; e a administração da justiça é auxiliada por se dar aos juramentos legais a mais forte obrigação e sanção possível. As relações domésticas tornam-se mais fortes e mais vivas pelo próprio hábito de as famílias frequentarem os serviços sagrados do santuário do Senhor; e o fato de ricos e pobres se encontrarem ali e estarem sobre o mesmo terreno comum de pecadores diante de Deus, igualmente dependentes dele e igualmente suplicando a sua misericórdia, tem uma influência poderosa, embora muitas vezes imperceptível, em humilhar o orgulho que se alimenta da posição superior e em elevar as classes mais baixas acima da abjeção de espírito, sem prejudicar a sua humildade. A piedade, a benevolência e o patriotismo dependem igualmente, para a sua pureza e o seu vigor, do culto regular e devoto a Deus na simplicidade da dispensação cristã.
Algumas palavras sobre liturgias ou formas de oração podem ter aqui o seu lugar apropriado.
A necessidade de manter a simplicidade da primeira era da Igreja quanto ao culto mal precisa ser defendida com argumentos. Se não se tivesse pretendido dar nenhuma liberdade para acomodar os modos de culto às circunstâncias de diferentes povos e épocas, teríamos, sem dúvida, algum diretório expresso sobre o assunto na Escritura; mas, no exercício dessa liberdade, deve-se ter constante consideração pelo espírito, pela índole e pelo caráter simples do cristianismo, e uma deferência respeitosa pela prática dos apóstolos e dos seus sucessores imediatos. Sem isso, o formalismo e a superstição, a ambos os quais a natureza humana está muito sujeita, tendem a introduzir-se; e, uma vez que entram, crescem indefinidamente, como a história da Igreja mostra suficientemente, até que a verdadeira religião fica sepultada sob a massa de observâncias que foram introduzidas como suas auxiliares e servas. As próprias palavras de nosso Senhor são aqui diretamente aplicáveis e importantes: “Deus é Espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24). O culto deve ser adequado à natureza espiritual de Deus e às suas perfeições reveladas. Para tal Ser, o número de orações, a quantidade de culto, por assim dizer, a que as igrejas corrompidas atribuíram tanta importância, não pode ter valor algum. Como Espírito, ele busca o culto do espírito do homem, e nada considera de exterior nesse culto senão enquanto é expressão daquelas emoções de humildade, fé, gratidão e esperança, que são os princípios que ele condescendentemente aprova no homem. Também somos ensinados por essas palavras que o culto “verdadeiro” é o culto do coração; ele brota da humildade, da fé, da gratidão e da esperança; e a sua causa final, ou fim, é melhorar o homem, trazendo sobre os seus afetos a influência santificadora e consoladora da graça. Os modos de culto que melhor promovem esse fim e mais eficazmente põem em exercício esses princípios são, portanto, os que melhor concordam com a regra de nosso Senhor; e, se na era apostólica vemos esse fim do culto realizado da maneira mais direta, e essas emoções despertadas com mais vigor e maior pureza, as novidades da invenção humana nada podem acrescentar ao efeito e, por essa mesma razão, diminuíram-no grandemente. Nas igrejas latina e grega vemos uma conformidade impressionante, nas vestes, nas procissões, nas pinturas e imagens e em outras partes de um cerimonial complexo e suntuoso, com o culto típico judaico e com o dos gentios, que era uma imitação dele sem significado típico. Mas nem sequer se alega que, nessas circunstâncias, esse cerimonial esteja fundado na prática primitiva; ou, se se alega, isso é evidentemente uma pretensão descarada.
As liturgias, ou formas de culto, certamente não caem sob essa censura, exceto quando contêm atos supersticiosos de devoção aos santos, ou são tão complicadas, numerosas e extensas que o único princípio a que se podem atribuir é a noção comum, mas indigna, de que o Ser divino se torna aplacável por um serviço contínuo; ou de que o exercício fatigante de orações vocais, prolongadas por longos períodos e em posturas penosas, é uma penitência necessária ao homem e, como tal, aceitável a Deus. Nas igrejas reformadas da cristandade em que são usadas, elas foram muito abreviadas, além de purificadas das corrupções da Idade Média. Em algumas são mais extensas do que em outras, enquanto muitas sociedades religiosas rejeitaram inteiramente o seu uso; e em algumas poucas são usadas de modo a deixar espaço suficiente também para a devoção espontânea.
Os defensores e os opositores do uso de formas de oração no culto público caíram ambos em grandes extremos e, em geral, tentaram provar demais um contra o outro.
Se o uso de fórmulas de oração em prosa for objetado, o seu uso em verso deveria ser rejeitado pelo mesmo princípio; e, por coerência, seria preciso exigir do ministro salmos e hinos improvisados, assim como orações improvisadas; ou então se teria de abandonar a prática do canto como parte do culto a Deus. Além disso: se a objeção ao uso de uma fórmula de oração não recai sobre o seu conteúdo, mas apenas sobre o fato de conter petições que não foram compostas por nós mesmos, nem pelo ministro que oficia naquela ocasião, a mesma objeção valeria contra o uso de quaisquer petições encontradas nos Salmos ou em outras partes devocionais da Escritura, ainda que adequadas ao nosso caso e expressas em palavras muito mais apropriadas que as nossas. Se julgamos as orações previamente compostas incompatíveis com a devoção, tornamos essencial à devoção que formulemos os nossos desejos com as nossas próprias palavras; ao passo que nada pode ser mais evidente do que isto: seja quem for que tenha composto as palavras, se elas correspondem aos nossos desejos, tornam-se a oração do nosso coração e, como tal, são aceitáveis a Deus. A objeção às fórmulas de petição compostas por outros também supõe que sabemos, sem a ajuda de ninguém, as coisas que nos convém pedir. Às vezes pode ser assim; mas, como precisamos aprender pelas Sagradas Escrituras o que devemos pedir em oração, na medida em que entendemos aquilo que essas Escrituras nos autorizam a pedir, as nossas orações se tornam mais variadas, distintas e abrangentes e, portanto, mais edificantes. Ora, toda ajuda para entender as Escrituras, quanto ao que elas nos animam a pedir a Deus, é uma ajuda para nós na oração. Assim, a exposição dos privilégios e bênçãos cristãos feita do púlpito nos presta esse auxílio; assim também as orações públicas improvisadas que ouvimos ministros e cristãos esclarecidos fazerem nos ajudam no mesmo sentido; e as orações escritas e registradas dos sábios e piedosos de diferentes épocas cumprem a mesma função, e em grau tão elevado que quase ninguém que faz oração improvisada escapa de cair em frases e expressões, ou mesmo em petições inteiras, que procedem originalmente das liturgias. Mesmo nos cultos improvisados, a criança habituada aos modos de expressão suplicante usados pelos pais, e o povo habituado aos dos seus ministros, imitam-nos sem perceber, encontrando os desejos do seu coração já revestidos de palavras adequadas e expressivas.
A objeção ao uso de fórmulas de oração, portanto, quando absoluta, é absurda e envolve princípios segundo os quais ninguém age nem pode agir. Ela também despreza o exemplo e a antiguidade. O sumo sacerdote dos judeus pronunciava anualmente uma fórmula de bênção. Os Salmos de Davi e de outros poetas hebreus inspirados (sejam cantados, sejam lidos, não faz diferença) foram compostos para uso do santuário e faziam parte das devoções regulares do povo. Usavam-se fórmulas de oração no culto da sinagoga judaica; e, embora mais tarde elas tenham se multiplicado a ponto de tornar o culto enfadonho e supersticioso, havia entre elas algumas que estavam em uso entre a volta do cativeiro e a era cristã e que, portanto, foram sancionadas pela prática de nosso Senhor e dos seus apóstolos. (Prideaux, Connection, ed. in-fólio, vol. I, p. 304.) Também João Batista parece ter dado uma fórmula de oração aos seus discípulos, no que foi seguido por nosso Senhor. Isso, de fato, tem sido questionado; e, se se argumentasse que nosso Senhor quis que somente aquela fórmula de oração fosse usada, os defensores das fórmulas estariam provando demais. Por outro lado, embora as palavras “orem assim” (Mt 6.9) indiquem que a oração do Senhor foi dada como modelo de oração, as palavras de outro evangelista, “Quando vocês orarem, digam” (Lc 11.2), indicam com a mesma clareza a intenção de prescrever uma fórmula. Parece justo, portanto, considerar a oração do Senhor como destinada a ser tanto um modelo quanto uma fórmula; e muito melindroso seria quem, usando-a como modelo das suas próprias orações ao parafrasear as suas petições com as suas próprias palavras, tivesse escrúpulo de usá-la como fórmula, na sua simplicidade e força originais. Que o seu uso como fórmula, embora não o seu uso exclusivo, foi desde o início intenção de nosso Senhor, parece-me ficar muito claro pelo fato de os discípulos desejarem aprender a orar “como também João ensinou os discípulos dele” (Lc 11.1). Se, como se tem alegado, os rabinos judeus já naquela época tão antiga costumavam dar breves fórmulas de oração aos seus discípulos, para serem usadas tal como dadas ou para serem ampliadas pelo aluno à vontade, isso explicaria plenamente o pedido dos discípulos. Contudo, sem insistir muito na antiguidade dessa prática, podemos argumentar que, se João Batista deu uma fórmula de oração aos seus seguidores, a conduta de nosso Senhor ao ensinar os seus discípulos a orar mediante aquilo que é manifestamente uma série de petições regularmente encadeadas está de acordo com o pedido deles; mas, se o Batista apenas ensinou que temas deviam ser incluídos na oração, e os discípulos de Jesus desejavam ser instruídos da mesma maneira, é difícil explicar por que o pedido deles foi atendido, não com instruções sobre os temas da oração, mas com o próprio Senhor proferindo uma oração regular. Que nosso Senhor quis que aquela oração fosse usada, como apropriada àquele período da sua dispensação; que as petições daquela fórmula se aplicam admiravelmente a todos os períodos do cristianismo e podem ser usadas com proveito; e que o seu uso implica devoto respeito às palavras daquele de quem se disse: “Jamais alguém falou como este homem” (Jo 7.46); são pontos dos quais não parece haver nenhum motivo razoável para discordar.
A prática da igreja primitiva também pode ser alegada em favor das liturgias. Visto que o culto dos primeiros cristãos se fundava no modelo da sinagoga, é no mínimo provável que usassem breves fórmulas de oração, ou coletas. Deve-se conceder, de fato, que as liturgias extensas e regulares são de data posterior, e que nas suas assembleias de culto público se faziam constantemente orações improvisadas. Isso parece bastante claro por várias passagens das epístolas de são Paulo e pelos escritos dos Pais da Igreja; de modo que nenhum serviço litúrgico pode ser organizado a ponto de excluir inteiramente a oração improvisada do ministro, ou de não lhe deixar espaço conveniente, sem se afastar dos modelos mais antigos. Mas a oração do Senhor parece ter sido de uso frequente desde os tempos mais antigos, juntamente com uma série de coletas; o que parece admitido até por lorde King, embora ele prove que a prática de o ministro orar “segundo a sua capacidade”,3 isto é, de usar os seus dons na oração improvisada, era parte constante do culto público nos primeiros séculos.
Muito, portanto, fica evidentemente entregue à sabedoria e à prudência num caso em que não temos nenhuma orientação explícita nas Escrituras; e, como regra geral a ser modificada pelas circunstâncias, talvez possamos afirmar com segurança que a melhor forma de culto público é a que une uma breve liturgia bíblica às orações improvisadas do ministro. Isso aparecerá com mais clareza se considerarmos o caráter extremamente fútil das objeções que os adversários e os defensores das fórmulas têm usado uns contra os outros, quando levaram as suas opiniões a um extremo.
Às liturgias públicas se tem objetado que “as fórmulas de oração compostas numa época se tornam impróprias para outra, pela inevitável mudança de linguagem, de circunstâncias e de opiniões”. A isso se pode responder: 1. Que, seja qual for o peso da objeção, ela só pode aplicar-se aos casos em que a fórmula é, em todas as suas partes, imposta ao ministro que oficia, ou em que a igreja que a impõe deixa de adaptar a liturgia para atender a todas essas mudanças, quando inocentes. 2. Que a linguagem geral de nenhuma fórmula de oração entre nós se tornou de fato obsoleta, sendo apenas algumas poucas expressões, segundo as noções modernas, rudes ou incomuns. 3. Que as petições que elas contêm convêm, mais ou menos, a todos os homens em todos os tempos, sejam quais forem as suas “circunstâncias”; e que, quanto às “opiniões”, se estas mudarem numa igreja a ponto de se tornarem contrárias à Escritura, é uma vantagem decorrente de uma fórmula pública o fato de ela auxiliar as Escrituras no testemunho contra elas; que uma reverência natural pelas fórmulas antigas tende a preservar o seu uso mesmo depois que as opiniões se afrouxaram; e que elas às vezes são o meio de resgatar uma igreja do erro.
Outra objeção é que a repetição perpétua da mesma fórmula de palavras produz cansaço e desatenção na congregação.
Há alguma verdade nisso, mas muitas vezes se leva longe demais. Uma mente devota não se cansará da repetição de uma liturgia bíblica e bem ordenada, se não for longa demais para ser suportada pela fraqueza do corpo. Quer se usem fórmulas, quer se pratique a oração improvisada, o ouvinte precisa de esforço e aplicação da mente para entrar no espírito das palavras; e cada uma dessas formas é cansativa para o descuidado e o indevoto, embora não, admitimos, no mesmo grau. A objeção, no que tem de peso, ficaria reduzida a nada se a liturgia fosse repetida apenas num dos cultos do dia do Senhor, de modo que nos outros o ministro ficasse livre para orar com referência mais direta às circunstâncias especiais do povo, da igreja e do mundo.
O caráter geral que todas as fórmulas de oração precisam assumir é uma terceira objeção; mas isso não é absolutamente verdadeiro a respeito de nenhuma liturgia, e muito menos a respeito da liturgia da Igreja da Inglaterra. Toda oração precisa ser, e deve ser, geral, porque pedimos bênçãos de que todos os outros necessitam tanto quanto nós; mas aquela particularidade que desce às diferentes partes da experiência religiosa do cristão, aos seus conflitos, perigos e deveres, encontra-se expressa com muita força e sentimento naquela liturgia. É preciso admitir, contudo, que muitas vezes se necessita de maior particularidade do que contém essa excelente fórmula de oração; e isso, bem como a oração adequada a circunstâncias ocasionais, poderia ser suprido pelo uso mais frequente da oração improvisada, sem deslocar a própria liturgia. A objeção, portanto, não tem força alguma, a não ser quando a oração improvisada é excluída ou confinada a limites estreitos demais.
Por outro lado, os defensores indiscriminados das liturgias levaram as suas objeções à oração improvisada a um extremo muito absurdo. Sem uma liturgia, dizem eles, a insensatez e o entusiasmo de muitos correm o risco de produzir palavras extravagantes ou ímpias dirigidas a Deus; a congregação fica confusa entre a atenção ao ministro e a sua própria devoção, por não conhecer cada petição antes de ouvi-la; e a isso acrescentam a memória penosa ou a elocução tumultuada de muitos que oram de improviso. A primeira e a terceira dessas objeções só podem ter força onde se empregam ministros insensatos, entusiastas e incompetentes; e assim o mal, que só raramente pode existir, é facilmente remediado. A segunda objeção valia com a mesma força contra as orações inspiradas das Escrituras no tempo em que foram proferidas pela primeira vez, como contra as orações improvisadas agora; e valeria contra o uso das coletas e das fórmulas de oração ocasionais e pouco familiares introduzidas na liturgia regular, no caso de todos os que não sabem ler ou que porventura não têm livro de orações. Podemos também observar que, se males de natureza tão grave são resultado necessário da oração improvisada; se a devoção é impedida, e se produzem aflição e confusão da mente; e se a impiedade e o entusiasmo são promovidos; é bastante estranho que a oração improvisada tenha sido praticada tão constantemente na igreja primitiva, e que não tenha sido inteiramente proibida ao clero em todas as ocasiões, em tempos posteriores. Os fatos da nossa própria época, porém, provam que há, para dizer o mínimo, igual grau de devoção e igual ausência de confusão de pensamento nos adoradores, onde não se usa liturgia nenhuma, como onde a oração improvisada é desconhecida. Os casos de insensatez e de entusiasmo também são poucos no ministério dessas igrejas; e, quando ocorrem, há para eles um remédio melhor do que excluir inteiramente, por meio de liturgias, as orações improvisadas, e assim fechar a porta aos grandes benefícios dessa forma de culto, cuja perda nenhuma forma exclusiva de serviço pode compensar.
Tudo se resume, pensamos, nisto: há vantagens em cada uma das formas de culto, e, quando combinadas com prudência, o culto público do santuário alcança a sua constituição mais perfeita. Muito, porém, na prática das igrejas, deve ser regulado pelo devido respeito às diferenças de opinião, e até ao preconceito, num ponto em que as Escrituras nos deixam em liberdade e que, por isso, deve ser classificado entre as coisas de prudência. Aqui, como em muitas outras coisas, os cristãos devem ceder uns aos outros e fazer “todas as coisas com amor” (1Co 16.14).
O louvor e a ação de graças estão implícitos na oração e, de fato, incluídos na nossa definição desse dever, como dada acima. Mas, além das atribuições de louvor e das expressões de gratidão que devem misturar-se à parte suplicante das nossas devoções, salmos e hinos solenes de louvor, cantados com a voz e acompanhados da melodia do coração, são de prescrição apostólica e formam uma parte importante e jubilosa do culto a Deus, seja público, seja social. É assim que Deus é publicamente reconhecido como a grande fonte de todo bem e o fim para o qual todo bem deve, por sua vez, tender em amor e obediência; e a prática de despertar o nosso coração para uma lembrança agradecida da sua bondade é igualmente importante pela sua influência moral sobre os nossos sentimentos agora e por tender a nos preparar para o nosso gozo eterno no futuro. “A oração”, diz um teólogo da Igreja da Inglaterra, “desperta em nós um sentimento doloroso das nossas necessidades e imperfeições, e a confissão induz a uma triste lembrança da nossa culpa e dos nossos desvios; mas a ação de graças nada tem em si senão um sentimento caloroso do mais poderoso amor e da mais cativante bondade, pois é o transbordar de um coração cheio de amor, o impulso livre e a efusão de uma alma cativada e afeiçoada pela bondade. Louvar e engrandecer o Senhor é o fim para o qual nascemos e o céu para o qual fomos destinados; e, quando tivermos chegado a um sentimento tão vigoroso do amor divino como o que os bem-aventurados habitantes do céu alcançaram, não precisaremos de nenhum outro prazer ou gozo para nos tornar felizes para sempre, senão apenas cantar louvores eternos a Deus e ao Cordeiro; e o gosto vigoroso da sua indizível bondade para conosco inflamará de tal modo o nosso amor e animará de tal modo a nossa gratidão que, por todos os séculos eternos, jamais conseguiremos deixar de irromper em novos cânticos de louvor; e então cada novo cântico criará um novo prazer, e cada novo prazer criará um novo cântico.” (Dr. Scott.)
Que eram antigas prova-se por esta passagem: “Porque Moisés tem, em cada cidade, desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados” (At 15.21).
1. Eis to tameion (εἰς τὸ ταμεῖον). Kuinoel observa que a palavra “corresponde ao hebraico עליה, um quarto superior reservado para o retiro e a oração, entre os orientais”. ↩
2. Alguns escritores sustentam que as sinagogas eram tão antigas quanto a lei cerimonial. ↩
3. Essa expressão ocorre na Segunda Apologia de Justino Mártir, onde ele descreve particularmente a forma do culto primitivo. ↩