Documento fundador · 1748

Explicação sobre o povo chamado metodista

“Cuidemos também de nos animar uns aos outros no amor e na prática de boas obras. Não deixemos de nos congregar, como é costume de alguns.”

Hebreus 10.24-25

Antes de ler

Em 1748, o reverendo Vincent Perronet, vigário de Shoreham e grande amigo dos Wesley, pediu a John Wesley um relato completo do modo como os metodistas se organizavam. A resposta, publicada no ano seguinte, é esta carta.

Wesley conta como surgiram, uma a uma, as sociedades, as classes, os grupos menores, as vigílias, as festas do amor, os ecônomos, os visitadores dos enfermos e os pregadores leigos, e explica as razões de cada passo. Nada foi planejado de antemão: tudo nasceu de necessidades concretas, resolvidas com bom senso e à luz das Escrituras. É o melhor retrato do discipulado metodista em pequenos grupos.

Explicação sobre o povo chamado metodista.

Em carta ao

Reverendo sr. Perronet, vigário de Shoreham, em Kent.

[Escrita no ano de 1748.]

Reverendo e caro senhor,

1. Há algum tempo, o senhor me pediu um relato de toda a organização [N. do T.: no original, œconomy, “economia” no sentido antigo de administração e ordem interna] do povo comumente chamado metodista. E recebeu um relato verdadeiro (até onde ia), mas não completo. Para suprir o que penso que faltava naquele, envio-lhe este, para que o senhor conheça não só a prática deles em cada ponto, mas também as razões em que ela se fundamenta, a ocasião de cada passo que deram e os benefícios que colheram com isso.

2. Mas devo advertir de antemão que, assim como eles não tinham no princípio a menor expectativa de algo parecido com o que depois se seguiu, também não tinham nenhum propósito ou plano prévio: tudo surgiu conforme a ocasião se apresentava. Viam ou sentiam algum mal iminente ou premente, ou algum bom fim que era necessário buscar. E muitas vezes deram, sem perceber, exatamente com aquilo que assegurava o bem ou removia o mal. Outras vezes, deliberavam sobre os meios mais prováveis, seguindo apenas o bom senso e as Escrituras. Contudo, olhando para trás, geralmente encontravam também na antiguidade cristã algo muito semelhante àquilo.

I. 1. Há cerca de dez anos, meu irmão e eu fomos convidados a pregar em muitas partes de Londres. Não tínhamos nisso outro objetivo senão, tanto quanto nos fosse possível (e sabíamos que Deus podia agir por meio de quem lhe aprouvesse), convencer os que quisessem ouvir sobre o que era o verdadeiro cristianismo e persuadi-los a abraçá-lo.

2. Os pontos em que mais insistíamos eram quatro. Primeiro, que a ortodoxia, ou as opiniões corretas, é, quando muito, uma parte muito pequena da religião, se é que se pode admitir que seja alguma parte dela; que a religião também não consiste em negações, numa simples inocuidade de qualquer espécie, nem apenas em coisas exteriores, como fazer o bem ou usar os meios da graça, em obras de piedade (assim chamadas) ou de caridade; que ela não é nada menos, nem nada diferente, do que “o mesmo modo de pensar de Cristo” (Fp 2.5), a imagem de Deus impressa no coração, a justiça interior acompanhada da paz de Deus e da “alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Segundo, que o único caminho debaixo do céu para essa religião é “arrepender-se e crer no evangelho” (Mc 1.15) ou, como diz o apóstolo, “o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (At 20.21). Terceiro, que, por essa fé, aquele “que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio” (Rm 4.5) é justificado “gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3.24). E, por último, que, “justificados… mediante a fé” (Rm 5.1), provamos já o céu para onde vamos: somos santos e felizes, pisamos o pecado e o medo e estamos assentados “nas regiões celestiais” com Cristo Jesus (Ef 2.6).

3. Muitos dos que ouviram isso começaram a protestar que lhes trazíamos “aos ouvidos coisas estranhas” (At 17.20), que essa era uma doutrina que nunca tinham ouvido antes ou, pelo menos, à qual nunca tinham dado atenção. Examinaram “as Escrituras… para ver se as coisas eram, de fato, assim” (At 17.11) e reconheceram “a verdade em Jesus” (Ef 4.21). Também o coração deles foi tocado, e não apenas o entendimento, e decidiram seguir a Jesus Cristo, “e este, crucificado” (1Co 2.2).

4. Imediatamente se viram cercados de dificuldades: o mundo inteiro se levantou contra eles. Vizinhos, estranhos, conhecidos, parentes e amigos começaram a gritar com toda a força: “Não seja demasiadamente justo; por que você destruiria a si mesmo?” (Ec 7.16) “Não deixe que muita religião o faça perder o juízo.” [N. do T.: eco de At 26.24, onde Festo diz a Paulo: “Ficou louco de tanto estudar!”; na versão inglesa da época, “much learning doth make thee mad”.]

5. Um, e outro, e mais outro vinham a nós perguntando o que deviam fazer, pois se sentiam aflitos por todos os lados, já que todos procuravam enfraquecer, e ninguém fortalecer, as mãos deles em Deus. Nós os aconselhamos: “Fortaleçam-se uns aos outros. Conversem juntos sempre que puderem. E orem com fervor, uns com os outros e uns pelos outros, para que possam ‘ficar firmes até o fim’ e ser salvos (Mt 24.13).” Supúnhamos que contra esse conselho não poderia haver objeção, uma vez que se fundamentava na razão mais clara e em tantas passagens das Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento, que seria enfadonho citá-las.

6. Eles disseram: “Mas queremos também que o senhor converse conosco com frequência, para nos orientar e estimular em nosso caminho, para nos dar os conselhos de que bem sabe que precisamos e para orar conosco, e não só por nós.” Perguntei: Quais de vocês desejam isso? Deem-me seus nomes e endereços. Assim fizeram. Mas logo percebi que eram numerosos demais para que eu conversasse com cada um em particular com a frequência que desejavam. Então lhes disse: “Se todos vocês se reunirem às quintas-feiras, à noite, terei prazer em passar algum tempo com vocês em oração e em lhes dar o melhor conselho que puder.”

7. Assim surgiu, sem nenhum propósito prévio de parte a parte, aquilo que depois se chamou uma sociedade: nome muito inocente e muito comum em Londres para qualquer número de pessoas que se associam entre si. O que essas pessoas buscavam ao se associar era evidente a todos. Queriam “fugir da ira que está por vir” (Mt 3.7) e ajudar-se mutuamente nisso. Por isso uniram-se “a fim de orar juntos, receber a palavra de exortação e vigiar uns sobre os outros em amor, para que se ajudassem mutuamente a desenvolver a sua salvação”.

8. “Exige-se previamente uma única condição dos que desejam ser admitidos nesta sociedade: o desejo de fugir da ira que está por vir, de ser salvo dos seus pecados.”

Concordaram também, então, que todos os que tivessem oportunidade se reuniriam às sextas-feiras e passariam a hora do almoço clamando a Deus, uns pelos outros e por toda a humanidade.¹

¹ Ver as Regras das Sociedades Unidas.

9. Logo se viu que essa união alcançava o fim a que se propunha. Em poucos meses, a grande maioria dos que tinham começado a “temer” a Deus “e fazer o que é justo” (At 10.35), mas não estavam unidos, esmoreceu e recaiu no que era antes. Enquanto isso, a grande maioria dos que estavam assim unidos continuava a “esforçar-se por entrar pela porta estreita” (Lc 13.24) e a “tomar posse da vida eterna” (1Tm 6.12).

10. Refletindo sobre isso, não pude deixar de observar que essa é exatamente a mesma coisa que havia desde o princípio do cristianismo. Nos tempos mais antigos, aqueles que Deus tinha enviado pregavam “o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). E οἱ ἀκροαταὶ, o conjunto dos ouvintes, eram em sua maioria judeus ou pagãos. Mas, assim que algum deles se convencia da verdade a ponto de abandonar o pecado e buscar o evangelho da salvação, logo os reuniam, registravam seus nomes, aconselhavam-nos a vigiar uns sobre os outros e se encontravam com esses κατηχούμενοι (catecúmenos, como então eram chamados) à parte da grande congregação, para instruí-los, repreendê-los, exortá-los e orar com eles e por eles, segundo as necessidades de cada um.

11. Mas não demorou para que se levantasse contra isso uma objeção que nunca me havia passado pela cabeça: “Isso não é criar um cisma? Reunir essas pessoas não é ajuntar igrejas tiradas de dentro das igrejas?”

A resposta era fácil. Se você quer dizer apenas ajuntar pessoas tiradas de prédios chamados igrejas, é. Mas, se quer dizer separar cristãos de cristãos e, assim, destruir a comunhão cristã, não é. Pois, 1. Essas pessoas não eram cristãs antes de serem assim reunidas. A maioria delas era descaradamente pagã. 2. Tampouco são cristãos aqueles de quem você supõe que elas se separaram. Você não vai me olhar nos olhos e dizer que são. O quê? Cristãos bêbados? Cristãos que amaldiçoam e blasfemam? Cristãos mentirosos? Cristãos trapaceiros? Se esses chegam a ser cristãos, são cristãos do diabo (como os chamam os pobres malabares). 3. Também não estão separadas, mais do que antes estavam, nem mesmo desses miseráveis cristãos do diabo. Estão tão prontas como sempre a ajudá-los e a prestar-lhes todo serviço de verdadeira bondade. 4. Se alguém disser: “Mas há na paróquia alguns cristãos verdadeiros, e vocês destroem a comunhão cristã entre estes e aqueles”, respondo: Aquilo que nunca existiu não pode ser destruído. Ora, a comunhão de que você fala nunca existiu. Logo, não pode ser destruída. Qual daqueles cristãos verdadeiros tinha tal comunhão com estes? Quem vigiava sobre eles em amor? Quem acompanhava seu crescimento na graça? Quem os aconselhava e exortava de tempos em tempos? Quem orava com eles e por eles, conforme a necessidade? Isso, e somente isso, é comunhão cristã. Mas, ai de nós, onde encontrá-la? Olhe para o leste ou para o oeste, para o norte ou para o sul; cite a paróquia que quiser. Existe lá essa comunhão cristã? Não é antes a massa dos paroquianos uma simples corda de areia? Que vínculo cristão há entre eles? Que convívio nas coisas espirituais? Que vigilância de uns sobre a alma dos outros? Quem leva as cargas uns dos outros? Que pura brincadeira é, então, falar com tanta gravidade em destruir o que nunca existiu! A verdade é exatamente o contrário: nós introduzimos a comunhão cristã onde ela estava completamente destruída. E os frutos disso têm sido paz, alegria, amor e zelo por toda boa palavra e obra.

II. 1. Mas, por mais que nos esforçássemos para vigiar uns sobre os outros, logo encontramos alguns que não viviam o evangelho. Não tenho notícia de que algum hipócrita se tivesse infiltrado, pois, na verdade, não havia tentação para isso. Mas vários esfriaram e cederam aos pecados que havia muito tempo os assediavam com facilidade. Logo percebemos que permitir que estes continuassem entre nós trazia muitas consequências ruins. Era perigoso para os outros, visto que todo pecado tem natureza contagiosa. Trazia sobre os seus irmãos um escândalo tal que os expunha àquilo que não era, propriamente, o opróbrio de Cristo. Punha uma pedra de tropeço no caminho de outros e fazia com que se falasse mal da verdade.

2. Gememos por muito tempo sob esses inconvenientes antes que se pudesse achar um remédio. As pessoas estavam tão espalhadas por todas as partes da cidade, de Wapping a Westminster, que eu não conseguia ver com facilidade qual era o comportamento de cada uma em sua própria vizinhança. De modo que vários que andavam desordenadamente causaram muito dano antes que eu tomasse conhecimento disso.

3. Por fim, enquanto pensávamos em coisa bem diferente, demos com um método pelo qual temos motivo para bendizer a Deus desde então. Eu conversava com vários membros da sociedade em Bristol sobre os meios de pagar as dívidas de lá, quando um deles se levantou e disse: “Que cada membro da sociedade dê um penny por semana até que tudo esteja pago.” Outro respondeu: “Mas muitos deles são pobres e não podem fazer isso.” “Então”, disse ele, “ponha comigo onze dos mais pobres; se puderem dar alguma coisa, ótimo. Passarei na casa deles toda semana e, se não puderem dar nada, darei por eles e por mim. E cada um de vocês passe toda semana na casa de onze dos seus vizinhos: recebam o que derem e completem o que faltar.” Assim se fez. Algum tempo depois, alguns deles me informaram que “tinham descoberto que fulano ou sicrano não vivia como devia”. Isso me chamou a atenção imediatamente. “É isto; é exatamente isto o que há tanto tempo nos faltava.” Reuni todos os guias das classes (assim costumávamos chamá-los, a eles e às suas companhias) e pedi que cada um fizesse uma investigação cuidadosa sobre o comportamento daqueles que via semanalmente. Assim fizeram. Muitos que andavam desordenadamente foram descobertos. Alguns se converteram do mal dos seus caminhos. Outros foram afastados de nós. Muitos viram isso com temor e se alegraram em Deus com reverência.

4. Assim que possível, o mesmo método foi adotado em Londres e em todos os outros lugares. Homens maus foram descobertos e repreendidos. Foram tolerados por algum tempo. Se abandonavam os seus pecados, nós os recebíamos com alegria; se persistiam obstinadamente neles, declarava-se abertamente que não eram dos nossos. Os demais choravam e oravam por eles e, ainda assim, alegravam-se porque, tanto quanto dependia de nós, o escândalo tinha sido removido da sociedade.

5. É função do guia:

I. Ver cada pessoa da sua classe pelo menos uma vez por semana, a fim de:

Perguntar como vai a alma de cada um;

Aconselhar, repreender, consolar ou exortar, conforme a ocasião exigir;

Receber o que estiverem dispostos a dar para o socorro dos pobres.

II. Encontrar-se com o ministro e os ecônomos da sociedade, a fim de:

Informar o ministro sobre os que estão doentes ou os que andam desordenadamente e não aceitam repreensão;

Entregar aos ecônomos o que receberam das respectivas classes na semana anterior.

6. No início, visitavam cada pessoa em sua própria casa, mas logo se viu que isso não era tão conveniente, e por muitas razões. 1. Tomava mais tempo do que a maioria dos guias tinha disponível. 2. Muitas pessoas viviam com patrões, patroas ou parentes que não permitiam que fossem visitadas desse modo. 3. Na casa dos que não se opunham tanto, muitas vezes não havia oportunidade de falar com elas senão na presença de outros. E isso não atendia de modo algum ao fim proposto, de exortar, consolar ou repreender. 4. Acontecia com frequência que um afirmava o que outro negava. E isso não podia ser esclarecido sem vê-los juntos. 5. Surgiam com frequência pequenos mal-entendidos e brigas de vários tipos entre parentes ou vizinhos e, para removê-los de modo eficaz, era necessário ver todos frente a frente. Por todas essas considerações, combinou-se que os membros de cada classe se reuniriam todos juntos. E, por esse meio, fazia-se uma investigação mais completa sobre o comportamento de cada pessoa. Os que não podiam ser visitados em casa, ou só podiam sê-lo na presença de outros, tinham a mesma vantagem que os demais. Davam-se conselhos ou repreensões conforme a necessidade; as brigas eram resolvidas, os mal-entendidos desfeitos. E, depois de uma ou duas horas dedicadas a esse trabalho de amor, terminavam com oração e ação de graças.

7. Mal se pode imaginar quantos benefícios foram colhidos dessa pequena medida prudencial. Muitos experimentaram então, com alegria, aquela comunhão cristã da qual antes não tinham sequer ideia. Começaram a “levar as cargas uns dos outros” (Gl 6.2) e a se preocupar “tão sinceramente” uns com os outros (Fp 2.20). À medida que tinham, dia após dia, um conhecimento mais íntimo uns dos outros, tinham também uns pelos outros uma afeição mais terna. E, “seguindo a verdade em amor”, cresceram “em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio crescimento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15-16).

8. Mas, apesar de todos esses benefícios, muitos tinham no início grande aversão a se reunir dessa maneira. Alguns, vendo a coisa sob uma luz errada, não como um privilégio (e, de fato, inestimável), mas antes como uma restrição, desgostavam dela por isso, porque não gostavam de ser restringidos em nada. Alguns tinham vergonha de falar diante de outros. Outros diziam com franqueza: “Não sei por quê, mas não gosto disso.”

9. Alguns objetavam: “Não havia reuniões assim quando entrei na sociedade. Por que deve havê-las agora? Não entendo essas coisas, nem essa mudança contínua de uma coisa depois da outra.” A resposta era fácil. É pena que não as tenha havido desde o início. Mas naquele tempo não conhecíamos nem a necessidade nem o benefício delas. O motivo por que as usamos, você entenderá facilmente se ler as regras da sociedade. Quanto a estarmos continuamente mudando uma coisa depois da outra, no que se refere a esses pequenos auxílios prudenciais, isso não é uma fraqueza ou um defeito (como você imagina), mas uma vantagem especial de que desfrutamos. Por esse meio declaramos que todos eles são meramente prudenciais, não essenciais, nem de instituição divina. Evitamos, tanto quanto depende de nós, que se tornem formais ou mortos. Estamos sempre abertos à instrução, dispostos a ser cada dia mais sábios do que éramos antes e a mudar para melhor tudo o que pudermos mudar.

10. Outra objeção era: “Não há passagem das Escrituras que fundamente isso, essas classes e não sei mais o quê.” Respondo: 1. Não há passagem das Escrituras contra isso. Você não pode mostrar um único texto que as proíba. 2. Há muitas passagens a favor, a saber, todos aqueles textos que ordenam a substância dos vários deveres dos quais isso é apenas uma circunstância indiferente, a ser determinada pela razão e pela experiência. 3. Você parece não ter observado que as Escrituras, na maioria dos pontos, dão apenas regras gerais e deixam que as circunstâncias particulares sejam ajustadas pelo bom senso da humanidade. As Escrituras, por exemplo, dão esta regra geral: “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem” (1Co 14.40). Mas cabe ao bom senso determinar, nas ocasiões particulares, o que a ordem e a decência exigem. Assim, em outro caso, as Escrituras estabelecem como orientação geral e permanente: “se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Mas é a prudência comum que deve fazer a aplicação disso em mil casos particulares.

11. “Mas tudo isso”, disse outro, “são invenções humanas.” Essa é apenas a mesma objeção sob outra forma. E a mesma resposta bastará para qualquer pessoa razoável. São invenções humanas. E daí? Isto é: são métodos que os homens encontraram, pela razão e pelo bom senso, para aplicar de modo mais eficaz a ocasiões particulares várias regras das Escrituras expressas em termos gerais.

12. Falavam de modo muito mais plausível do que esses os que diziam: “A coisa em si é boa. Mas os guias não estão à altura do trabalho. Não têm nem dons nem graça para tal ofício.” Respondo: 1. Ainda assim, tais como são esses guias, é evidente que Deus abençoou o seu trabalho. 2. Se algum deles tem falta notável de dons ou de graça, logo isso é percebido e ele é afastado. 3. Se você conhece algum assim, diga-o a mim, não a outros, e procurarei trocá-lo por outro melhor. 4. É de esperar que todos se tornem melhores do que são, tanto pela experiência e observação como pelos conselhos que os ministros lhes dão toda terça-feira à noite e pelas orações (então em especial) oferecidas por eles.

III. 1. Por esse tempo, fui informado de que várias pessoas em Kingswood se reuniam com frequência na escola e (quando podiam dispor do tempo) passavam a maior parte da noite em oração, louvor e ação de graças. Alguns me aconselharam a pôr fim a isso; mas, depois de pesar bem a questão e compará-la com a prática dos cristãos antigos, não vi motivo para proibi-lo. Antes, pensei que poderia tornar-se de uso mais geral. Então lhes mandei dizer que “pretendia fazer vigília com eles na sexta-feira mais próxima da lua cheia, para que tivéssemos luz na ida e na volta”. Anunciei isso publicamente no domingo anterior, dizendo também que pretendia pregar e pedindo que fossem ao meu encontro ali aqueles, e somente aqueles, que pudessem fazê-lo sem prejuízo para o seu trabalho ou a sua família. Na sexta-feira veio uma multidão. Comecei a pregar entre as oito e as nove horas, e continuamos até um pouco depois da meia-noite, cantando, orando e louvando a Deus.

2. Isso continuamos a fazer uma vez por mês desde então, em Bristol, Londres e Newcastle, assim como em Kingswood. E grandíssimas são as bênçãos que encontramos nisso: tem sido geralmente um tempo extremamente solene, em que a palavra de Deus penetrava fundo no coração, até mesmo dos que até então não o conheciam. Se alguém disser: “Isso se devia apenas à novidade da coisa (a circunstância que ainda atrai tamanhas multidões nessas ocasiões) ou, talvez, ao silêncio solene da noite”, não me preocupo em responder a isso. Seja assim; de qualquer modo, a impressão então causada em muitas almas jamais se apagou desde então. Ora, admitindo que Deus se valeu da novidade ou de qualquer outra circunstância indiferente para levar pecadores ao arrependimento, ainda assim eles foram levados. E nisso alegremo-nos juntos.

3. Mais ainda: não posso levar o caso mais longe? Se posso conjecturar com probabilidade que, seja pela novidade desse costume antigo, seja por qualquer outra circunstância indiferente, está em meu poder “salvar da morte” uma alma “e cobrir uma multidão de pecados” (Tg 5.20), estarei inocente diante de Deus se não o fizer? Se não arrebatar esse tição do fogo?

IV. 1. À medida que a sociedade crescia, percebi que era preciso maior cuidado para separar o precioso do vil. Para isso, resolvi conversar pessoalmente com cada membro pelo menos uma vez a cada três meses e indagar, da boca deles mesmos e também pelo que sabiam os seus guias e vizinhos, se cresciam na graça e no reino de nosso Senhor Jesus Cristo. Nessas ocasiões, também pergunto em particular se há algum mal-entendido ou desavença entre eles, para que todo obstáculo à paz e ao amor fraterno seja removido do caminho.

2. A cada um daqueles de cuja seriedade e bom procedimento não encontrei motivo para duvidar, dei um testemunho de próprio punho, escrevendo o seu nome num bilhete preparado para esse fim. Cada bilhete implicava uma recomendação tão forte da pessoa a quem era dado como se eu tivesse escrito por extenso: “Creio que o portador deste é alguém que teme a Deus e faz o que é justo.”

3. Os portadores desses bilhetes (esses Σύμβολα ou tesseræ, como os antigos os chamavam, que tinham exatamente a mesma força que as ἐπιστολαί συστατικαί, as cartas de recomendação mencionadas pelo apóstolo), aonde quer que fossem, eram reconhecidos pelos irmãos e recebidos com toda alegria. Esses bilhetes eram úteis também em outros aspectos. Por meio deles se distinguia facilmente, quando a sociedade ia reunir-se à parte, quem era membro dela e quem não era. Também nos proporcionavam um método tranquilo e inofensivo de afastar qualquer membro desordenado. Ele não recebe novo bilhete na visita trimestral (pois os bilhetes são trocados com essa frequência) e, assim, logo se sabe que ele já não faz parte da comunidade.

V. A coisa que eu mais temia durante todo esse tempo, e que resolvi impedir por todos os meios possíveis, era a estreiteza de espírito, o zelo partidário, o fechar-nos em nossos próprios afetos; aquele miserável sectarismo que torna tantos tão pouco dispostos a crer que exista alguma obra de Deus fora do seu próprio meio. Pensei que poderia ser um auxílio contra isso ler com frequência, a todos os que quisessem ouvir, os relatos que eu recebia de tempos em tempos sobre a obra que Deus está realizando na terra, tanto em nosso país como em outros, não apenas entre nós, mas entre pessoas de várias opiniões e denominações. Para isso reservei uma noite em cada mês. E não encontro motivo para me arrepender desse trabalho. Geralmente é um tempo de forte consolação para os que amam a Deus, e a toda a humanidade por amor a ele; e também de derrubar os muros de separação que a astúcia do diabo ou a insensatez dos homens levantou; e de encorajar cada filho de Deus a dizer (oh, quando será isso afinal?): “aquele que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12.50).

VI. 1. Pela bênção de Deus sobre os seus esforços para ajudar uns aos outros, muitos encontraram a pérola de grande valor. “Justificados… mediante a fé”, tinham “paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1). Esses sentiam, mais do que antes, uma terna afeição pelos que participavam da mesma preciosa fé; e daí nasceu tal confiança uns nos outros que derramavam a alma no peito uns dos outros. Na verdade, tinham grande necessidade de fazê-lo, pois a guerra não havia terminado, como tinham suposto. Ainda tinham de lutar tanto contra a carne e o sangue como contra principados e potestades, de modo que havia tentações por todos os lados; e, muitas vezes, tentações de tal natureza que não sabiam como falar delas numa classe, onde se reuniam pessoas de todo tipo, jovens e velhos, homens e mulheres.

2. Esses, portanto, precisavam de algum meio de união mais estreita: queriam abrir o coração sem reservas, especialmente quanto ao pecado que ainda “tão firmemente se apegava” a eles (Hb 12.1) e às tentações que mais facilmente os venciam. E desejaram isso ainda mais quando observaram que era o conselho expresso de um escritor inspirado: “confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros, para que vocês sejam curados” (Tg 5.16).

3. Atendendo ao seu desejo, dividi-os em companhias menores, reunindo os homens, casados ou solteiros, e as mulheres, casadas ou solteiras. As principais regras desses grupos menores (bands, isto é, pequenas companhias, pois é isso que significa essa antiga palavra inglesa) dizem o seguinte:

A fim de confessar os nossos pecados uns aos outros e orar uns pelos outros para que sejamos curados (Tg 5.16), propomo-nos:

“1. Reunir-nos pelo menos uma vez por semana;

2. Chegar pontualmente na hora marcada;

3. Começar com cântico ou oração;

4. Falar cada um de nós, por ordem, com liberdade e franqueza, o verdadeiro estado da nossa alma, com as faltas que cometemos em pensamento, palavra ou ação, e as tentações que sentimos desde a última reunião;

5. Pedir a alguém entre nós (por isso chamado guia) que fale primeiro sobre o seu próprio estado e depois faça aos demais, por ordem, tantas perguntas, e tão penetrantes, quanto for possível sobre o estado, os pecados e as tentações de cada um.”

4. Para que o propósito das suas reuniões fosse alcançado de modo mais eficaz, pedi que todos os grupos de homens se reunissem comigo às quartas-feiras à noite, e os de mulheres aos domingos, para que recebessem as instruções e exortações particulares que de tempos em tempos parecessem mais necessárias para eles; para que se oferecessem a Deus as orações que as suas necessidades exigissem; e para que se rendesse louvor ao Doador de toda boa dádiva por todas as misericórdias que tivessem recebido.

5. A fim de aumentar neles a gratidão por todas as suas misericórdias, pedi que, numa noite em cada trimestre, todos os homens dos grupos se reunissem; numa segunda, todas as mulheres; e numa terceira, homens e mulheres juntos, para que juntos pudéssemos “tomar as nossas refeições” (como faziam os cristãos antigos) “com alegria e singeleza de coração” (At 2.46). Nessas festas do amor (ágapes), como as chamamos, conservando tanto o nome como a prática, que estava em uso desde o princípio, nosso alimento é apenas um pouco de bolo simples e água. Mas raramente voltamos delas sem ter sido alimentados não só com “a comida que se estraga”, mas com aquela “que permanece para a vida eterna” (Jo 6.27).

6. Grandes e muitos são os benefícios que desde então têm fluído dessa união mais estreita dos crentes entre si. Oravam uns pelos outros para que fossem curados das faltas que tinham confessado, e assim aconteceu. As correntes foram quebradas, as amarras foram rompidas, e o pecado já não tinha domínio sobre eles. Muitos foram libertados das tentações das quais até então não encontravam saída. Foram edificados em nossa santíssima fé. Alegravam-se no Senhor com mais abundância. Foram fortalecidos no amor e estimulados de modo mais eficaz a abundar em toda boa obra.

7. Mas logo se fez aos grupos (como antes às classes) a objeção: “Eles não existiam no início. Não há passagem das Escrituras que os fundamente. São obra de homens, construção humana, invenção humana.” Respondo, como antes, que estes também são auxílios prudenciais, fundados na razão e na experiência, a fim de aplicar as regras gerais dadas nas Escrituras segundo as circunstâncias particulares.

8. Uma objeção muito mais ousada e frequente é que “todos esses grupos são puro papismo”. Espero não precisar fazer, contra aqueles que afirmam isso (pelo menos a maioria deles), censura mais dura do que dizer que falam do que não sabem e revelam em si mesmos a ignorância mais grosseira e vergonhosa. Será que ainda não sabem que a única confissão papista é a confissão feita por uma única pessoa a um sacerdote? (E essa mesma não é de modo algum condenada pela nossa igreja; pelo contrário, ela a recomenda em alguns casos.) Ao passo que a que nós praticamos é a confissão de várias pessoas em conjunto, não a um sacerdote, mas umas às outras. Portanto, não tem analogia alguma com a confissão papista. Mas a verdade é que essa é uma objeção batida, que muita gente faz contra qualquer coisa de que não gosta. É tudo papismo, e pronto.

VII. 1. E, no entanto, enquanto a maioria dos que estavam assim intimamente unidos avançava dia após dia de fé em fé, alguns caíram da fé, seja de uma vez, caindo em pecado conhecido e voluntário, seja gradualmente e quase sem perceber, cedendo no que chamavam coisas pequenas, por pecados de omissão, por se entregarem a pecados do coração ou por não vigiarem em oração. As exortações e orações usadas entre os crentes já não lhes aproveitavam. Precisavam de conselhos e instruções adequados ao seu caso; por isso, assim que o percebi, separei-os dos demais e pedi que se reunissem comigo à parte aos sábados à noite.

2. Nesse horário, todos os hinos, exortações e orações são adaptados às suas circunstâncias, voltados inteiramente para os que viram a Deus, mas agora perderam a luz do seu rosto, e que choram por ele e se recusam a ser consolados até saberem que ele curou a sua apostasia.

3. Aplicando tanto as ameaças como as promessas de Deus a esses penitentes reais (e não apenas de nome), e clamando a Deus em favor deles, procurávamos trazê-los de volta ao grande Pastor e Bispo da sua alma; não por meio de alguma das extravagâncias da igreja romana, embora em certa medida tenham apoio na antiguidade. Ao prescrever cilícios e austeridades corporais, não ousamos seguir nem mesmo a igreja antiga, embora, sem perceber, já o tivéssemos feito, tanto ao separar οἰ πιστοὶ, os crentes, do restante da sociedade, como ao separar deles os penitentes e designar para estes um culto especial.

VIII. 1. Muitos destes logo recuperaram o terreno perdido. Sim, ergueram-se ainda mais alto depois da queda, tornando-se mais vigilantes do que nunca, mais mansos e humildes, e também mais fortes na fé que atua pelo amor. Agora ultrapassavam a maior parte dos seus irmãos, andando continuamente na luz de Deus e tendo comunhão com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo.

2. Vi que poderia ser útil dar a todos os que assim permaneciam na luz do rosto de Deus alguns conselhos de que o restante dos seus irmãos não precisava e que provavelmente não poderia receber. Por isso pedi a um pequeno número dos que pareciam estar nesse estado que passassem uma hora comigo toda segunda-feira de manhã. Meu propósito era não só orientá-los sobre como avançar para a perfeição, exercitar cada uma das suas graças e desenvolver cada talento que tinham recebido, e incentivá-los a amar-se ainda mais uns aos outros e a vigiar com mais cuidado uns sobre os outros, mas também ter uma companhia seleta, à qual eu pudesse abrir o coração em todas as ocasiões, sem reservas, e que eu pudesse propor a todos os seus irmãos como modelo de amor, de santidade e de boas obras.

3. Não precisavam ser sobrecarregados com muitas regras, pois tinham no coração a melhor regra de todas. Por isso não lhes foram dadas orientações especiais, exceto apenas estas três.

Primeira: que nada do que se disser nesta sociedade seja repetido. (Com isso tínhamos uma confiança mais plena uns nos outros.)

Segunda: todo membro concorda em submeter-se ao seu ministro em todas as coisas indiferentes.

Terceira: todo membro trará uma vez por semana tudo o que puder dispensar para um fundo comum.

4. Aqui cada um tem igual liberdade de falar, pois não há ninguém maior ou menor que outro. Eu podia dizer livremente a estes, quando estavam reunidos: “todos poderão profetizar, um após outro” (tomando essa palavra em seu sentido mais modesto), “para que todos aprendam e sejam consolados” (1Co 14.31). E muitas vezes experimentei o benefício de uma conversa tão livre, e que “com muitos conselheiros, há segurança” (Pv 11.14). Qualquer um que se sinta inclinado a fazê-lo é também encorajado a derramar a alma diante de Deus. E aqui, especialmente, temos verificado que muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo.

IX. 1. Este é o relato mais simples e claro que posso dar do povo comumente chamado metodista. Resta apenas dar ao senhor um breve relato daqueles que servem os seus irmãos em amor. São eles os guias das classes e dos grupos (de que já falei), os assistentes, os ecônomos, os visitadores dos enfermos e os mestres-escola.

2. Na terceira parte do Appeal, mencionei como fomos levados a aceitar assistentes leigos. [N. do T.: o Farther Appeal to Men of Reason and Religion, do próprio Wesley.]

A função deles, na ausência do ministro, é:

1. Expor as Escrituras toda manhã e toda noite;

2. Reunir-se uma vez por semana com a sociedade unida, os grupos, a sociedade seleta e os penitentes;

3. Visitar as classes uma vez por trimestre;

4. Ouvir e resolver todas as desavenças;

5. Pôr de novo em período de prova os desordenados e receber em prova os que desejam entrar nos grupos ou na sociedade;

6. Cuidar para que os ecônomos, os guias e os mestres-escola cumpram fielmente os seus respectivos ofícios;

7. Reunir-se semanalmente com os guias dos grupos e das classes, e com os ecônomos, e examinar as suas contas.

X. 1. Mas, muito antes disso, senti o peso de um cuidado bem diferente, a saber, o cuidado das coisas temporais. As contribuições trimestrais somavam, num cálculo médio, mais de trezentas libras por ano. Esse dinheiro devia ser aplicado em parte em reparos, em parte em outras despesas necessárias e em parte no pagamento de dívidas. As contribuições semanais pouco ficavam abaixo de oito libras por semana, que deviam ser distribuídas conforme a necessidade de cada um. E esperava-se que eu cuidasse de todas essas coisas; mas era um fardo que eu não era capaz de carregar. Por isso escolhi primeiro um, depois quatro e, passado algum tempo, sete dos homens mais prudentes que conhecia, e pedi que tomassem sobre si o encargo dessas coisas, para que eu ficasse livre desse tipo de embaraço.

2. A função desses ecônomos é:

Administrar as coisas temporais da sociedade;

Receber as subscrições e contribuições;

Gastar de tempos em tempos o que for necessário;

Enviar socorro aos pobres;

Manter conta exata de todas as receitas e despesas;

Informar o ministro se alguma das regras da sociedade não estiver sendo observada pontualmente;

Dizer aos pregadores, em amor, se acharem algo errado, seja na doutrina, seja na vida deles.

3. As regras dos ecônomos são:

1. Seja frugal. Poupe tudo o que puder ser poupado honestamente.

2. Não gaste mais do que recebe. Não contraia dívidas.

3. Não deixe contas em aberto por muito tempo. Pague tudo dentro da semana.

4. Não dê a quem pede socorro nem uma palavra ruim nem um olhar ruim. Não o fira, se não puder ajudá-lo.

5. Não espere agradecimento de ninguém.

4. Reuniam-se às seis horas toda quinta-feira de manhã, deliberavam sobre os assuntos que lhes eram apresentados, enviavam socorro aos doentes conforme a necessidade de cada um e davam o restante do que tinha sido contribuído a cada semana aos que pareciam estar em necessidade mais urgente. De modo que tudo se concluía dentro da semana: o que era trazido na terça-feira era sempre gasto na quinta. Logo tive o prazer de ver que todas essas coisas temporais eram feitas com a maior fidelidade e exatidão. Assim, meus cuidados desse tipo chegaram ao fim. Eu só precisava revisar as contas, dizer-lhes se achava que algo podia ser melhorado e deliberar sobre como suprir de tempos em tempos as faltas. Pois estas eram frequentes e grandes (tão longe estávamos da abundância), já que a receita de modo algum correspondia às despesas. Mas, para que não desfalecêssemos, às vezes recebíamos ajudas imprevistas nos momentos de maior aperto. Outras vezes, tomávamos emprestadas quantias maiores ou menores, das quais a maior parte já foi paga. Mas devo algumas centenas de libras até hoje. Tanto ganhei pregando o evangelho!

XI. 1. Mas não demorou para que os ecônomos encontrassem grande dificuldade em relação aos doentes. Alguns estavam a ponto de morrer antes que eles soubessem da sua doença. E, quando sabiam, não estava em seu poder (sendo geralmente pessoas ocupadas no comércio) visitá-los com a frequência que desejavam.

2. Quando fui informado disso, expus o caso detalhadamente a toda a sociedade: mostrei como era impossível que os ecônomos atendessem a todos os doentes em todas as partes da cidade; pedi que os guias das classes indagassem com mais cuidado e os informassem com mais regularidade sobre quem estava doente; e perguntei: “Quem entre vocês está disposto, e também é capaz, de suprir essa falta de serviço?”

3. Na manhã seguinte, muitos se ofereceram de boa vontade. Escolhi quarenta e seis deles, os que julguei ter o espírito mais terno e amoroso; dividi a cidade em vinte e três partes e pedi que dois deles visitassem os doentes em cada divisão.

4. É função do visitador dos enfermos:

Ver cada doente do seu distrito três vezes por semana;

Indagar sobre o estado da sua alma e aconselhá-lo conforme a ocasião exigir;

Indagar sobre as suas enfermidades e conseguir orientação médica para ele;

Socorrê-lo, se estiver em necessidade;

Fazer por ele qualquer coisa que o visitador (ou a visitadora) possa fazer;

Entregar semanalmente as suas contas aos ecônomos.¹

¹ Agora os guias fazem isso.

Refletindo sobre isso, vi quão exatamente também nisso tínhamos copiado a igreja primitiva. O que eram os antigos diáconos? O que era Febe, a diaconisa, senão uma visitadora dos enfermos como estes?

5. Não achei necessário dar-lhes nenhuma regra particular além das que seguem:

1. Seja simples e franco no trato com as almas;

2. Seja brando, terno, paciente;

3. Seja asseado em tudo o que fizer pelos doentes;

4. Não seja melindroso.

6. Desde então temos tido grande motivo para louvar a Deus pela sua bênção contínua sobre essa iniciativa. Muitas vidas foram salvas, muitas doenças curadas, muita dor e necessidade evitadas ou removidas. Muitos corações pesados foram alegrados; muitos que choravam foram consolados. E os visitadores encontraram, da parte daquele a quem servem, uma recompensa presente por todo o seu trabalho.

XII. 1. Mas eu ainda me afligia por muitos dos pobres que estavam doentes: havia tanta despesa e tão pouco proveito. Primeiro, resolvi experimentar se eles não receberiam mais benefício nos hospitais. Feita a experiência, vimos que havia de fato menos despesa, mas não se fazia mais bem do que antes. Pedi então o conselho de vários médicos a favor deles, mas ainda assim de nada adiantou. Eu via os pobres definhando e várias famílias arruinadas, e isso sem remédio.

2. Por fim, pensei numa espécie de recurso desesperado: “Eu mesmo vou preparar os remédios e dá-los a eles.” Durante vinte e seis ou vinte e sete anos, eu tinha feito da anatomia e da medicina o passatempo das minhas horas de lazer, embora nunca as tenha estudado propriamente, a não ser por alguns meses, quando estava para ir à América, onde imaginei que poderia ser útil aos que não tinham entre si nenhum médico formado. Dediquei-me a isso de novo. Tomei como auxiliares um boticário e um cirurgião experiente, resolvendo ao mesmo tempo não ir além da minha capacidade, mas deixar todos os casos difíceis e complicados aos médicos que os pacientes escolhessem.

3. Avisei a sociedade disso, dizendo-lhes que todos os que sofressem de doenças crônicas (pois eu não me atrevia a tratar das agudas) poderiam, se quisessem, vir a mim em determinado horário, e eu lhes daria o melhor conselho que pudesse e os melhores remédios que tivesse.

4. Muitos vieram (e assim tem sido toda sexta-feira desde então). Entre eles estava um certo William Kirkman, tecelão, que morava perto da Old Nichol Street. Perguntei-lhe: “De que o senhor se queixa?” “Ah, senhor”, disse ele, “uma tosse, uma tosse muito forte. Não consigo descansar nem de dia nem de noite.” Perguntei: “Há quanto tempo a tem?” Ele respondeu: “Uns sessenta anos: começou quando eu tinha onze anos de idade.” Não me alegrei nada de que esse homem viesse primeiro, temendo que, se não o curássemos, os outros desanimassem. Contudo, olhei para Deus e disse: “Tome isto três ou quatro vezes por dia. Se não lhe fizer bem, também não lhe fará mal.” Ele o tomou por dois ou três dias. Sua tosse foi curada e não voltou até hoje.

5. Agora, que homens imparciais julguem: a humildade exige que eu negue um fato notório? Se não, o que é vaidade? Dizer que eu, pela minha própria habilidade, restituí a saúde a esse homem? Ou dizer que Deus o fez pelo seu próprio poder onipotente? Não sei por que figura de linguagem isso se chama jactância. Mas não darei nome algum a um fato como este. Deixo isso para o reverendo dr. Middleton. [N. do T.: Conyers Middleton, clérigo anglicano que, nessa época, contestava a credibilidade dos relatos de milagres posteriores à era apostólica.]

6. Em cinco meses, foram dados remédios, ocasionalmente, a mais de quinhentas pessoas. Várias delas eu nunca tinha visto antes, pois não me importava se eram da sociedade ou não. Nesse período, setenta e uma delas, tomando regularmente os remédios e seguindo o regime prescrito (o que três em cada quatro não faziam), foram inteiramente curadas de doenças havia muito tidas por incuráveis. A despesa total com remédios nesse tempo foi de (aproximadamente) quarenta libras. Continuamos com isso desde então e, pela bênção de Deus, com sucesso cada vez maior.

XIII. 1. Mas eu vinha observando havia alguns anos muitos que, embora não estivessem doentes, não eram capazes de prover o próprio sustento e não tinham ninguém que cuidasse de provê-lo; eram principalmente viúvas idosas e fracas. Consultei os ecônomos sobre como poderiam ser socorridas. Todos concordaram que, se pudéssemos mantê-las numa só casa, isso não só seria muito menos dispendioso para nós, mas também muito mais confortável para elas. Na verdade, não tínhamos dinheiro para começar. Mas críamos que proveria aquele que é “juiz das viúvas” (Sl 68.5). Assim, arrendamos duas casinhas ali perto e as preparamos de modo que ficassem aquecidas e limpas. Acolhemos tantas viúvas quantas cabiam e lhes providenciamos o necessário para o corpo. Para cobrir essa despesa, destinei primeiro as contribuições semanais dos grupos e depois tudo o que se recolhia na ceia do Senhor. É verdade que isso não basta, de modo que ainda estamos consideravelmente endividados também por essa conta. Mas estamos convencidos de que nem sempre será assim, visto que “ao Senhor pertence a terra e a sua plenitude” (Sl 24.1).

2. Nesta casa (comumente chamada a Casa dos Pobres), temos agora nove viúvas, uma mulher cega, duas crianças pobres, dois criados principais, uma criada e um criado. Eu poderia acrescentar quatro ou cinco pregadores. Pois eu mesmo, assim como os outros pregadores que estão na cidade, como com os pobres, da mesma comida e à mesma mesa. E nos alegramos nisso como um penhor consolador de que comeremos pão juntos no reino de nosso Pai.

3. Tenho bendito a Deus por esta casa desde que ela começou, mas ultimamente muito mais do que nunca. Honro essas viúvas, pois elas são verdadeiramente viúvas. [N. do T.: eco de 1Tm 5.3, que na versão inglesa da época diz “Honour widows that are widows indeed”; a NAA traz “Honre as viúvas que não têm ninguém para cuidar delas”.] De modo que não é em vão que, sem nenhuma intenção de fazê-lo, copiamos mais uma das instituições da era apostólica. Agora posso dizer ao mundo inteiro: “Venham e vejam como esses cristãos se amam uns aos outros!”¹

¹ Depois isto foi abandonado por falta de recursos.

XIV. 1. Outra coisa que me causava frequente preocupação era a situação de grande número de crianças. Algumas, seus pais não tinham condições de pôr na escola. Assim, ficavam como “a cria de uma jumenta selvagem” (Jó 11.12). Outras eram mandadas à escola e aprendiam pelo menos a ler e escrever, mas ao mesmo tempo aprendiam toda espécie de vício, de modo que lhes teria sido melhor ficar sem esse conhecimento do que comprá-lo por preço tão alto.

2. Por fim resolvi que fossem ensinadas em minha própria casa, para que tivessem a oportunidade de aprender a ler, escrever e fazer contas (ou ao menos isso) sem se verem quase obrigadas a aprender, ao mesmo tempo, o paganismo. E, depois de várias tentativas malsucedidas, encontrei dois mestres-escola como eu desejava: homens honestos e de conhecimento suficiente, que tinham talento para o trabalho e o coração posto nele.

3. Têm agora sob os seus cuidados cerca de sessenta crianças. Os pais de algumas pagam a escola, mas a maior parte, por ser muito pobre, não paga, de modo que a despesa é coberta principalmente por contribuições voluntárias. Ultimamente também as temos vestido, a todas as que precisavam. As regras da escola são as seguintes:

Primeira: nenhuma criança é admitida com menos de seis anos de idade;

Segunda: todas as crianças devem estar presentes ao sermão da manhã;

Terceira: ficam na escola das seis ao meio-dia e da uma às cinco;¹

¹ Agora começam mais tarde.

Quarta: não têm dias de folga;

Quinta: nenhuma criança deve falar na escola, a não ser com os mestres;

Sexta: a criança que faltar dois dias numa semana, sem licença, é excluída da escola.

4. Nomeamos também dois ecônomos para a escola. A função deles é:

Receber as subscrições da escola e gastar o que for necessário;

Conversar semanalmente com cada um dos mestres;

Orar com as crianças e exortá-las duas vezes por semana;

Indagar com diligência se elas crescem na graça e no saber, e se as regras estão sendo observadas pontualmente;

Toda terça-feira de manhã, juntamente com os mestres, excluir as crianças que não observam as regras;

Toda quarta-feira de manhã, reunir-se com os pais e exortá-los a educar os filhos em casa nos caminhos de Deus.

5. Logo se observou uma feliz mudança nas crianças, tanto em suas disposições como em seu comportamento. Aprendiam depressa a ler, escrever e fazer contas e, ao mesmo tempo, eram diligentemente instruídas nos sãos princípios da religião e exortadas com fervor a temer a Deus e desenvolver a sua própria salvação.

XV. 1. Há um ou dois anos, observei entre muitos uma aflição de outro tipo. Frequentemente precisavam, talvez para dar andamento ao seu negócio, de algum dinheiro imediato. Tinham escrúpulos em recorrer a um penhorista, mas não sabiam onde tomar emprestado. Resolvi tentar achar um remédio também para isso. Fui (em poucos dias) de uma ponta à outra da cidade e exortei os que possuíam os bens deste mundo a ajudar os seus irmãos necessitados. Foram contribuídas cinquenta libras. Essa quantia foi imediatamente posta nas mãos de dois ecônomos, que atendiam toda terça-feira de manhã para emprestar aos que precisavam qualquer pequena soma, não superior a vinte xelins, a ser devolvida em três meses.

2. É quase inacreditável, mas fica claramente demonstrado pelas contas deles que, com essa soma insignificante, duzentas e cinquenta pessoas foram ajudadas no espaço de um ano. Será que Deus não porá no coração de algum amigo da humanidade aumentar este pequeno fundo? Se isto não é “emprestar ao Senhor” (Pv 19.17), o que é? Oh, não consulte a carne e o sangue, mas imediatamente

“Dê as mãos a Deus para fazer viver um homem pobre.”¹

¹ Agora emprestamos qualquer soma que não passe de cinco libras.

3. Penso, senhor, que agora o senhor sabe tudo o que eu sei sobre este povo. Vê a natureza, a ocasião e o propósito de tudo o que se pratica entre eles. E confio que estará razoavelmente capacitado a responder a quaisquer perguntas que se façam a respeito deles, particularmente da parte dos que indagam sobre a minha renda e o que faço com ela.

4. Alguns supuseram que ela não era maior do que a do bispo de Londres. Mas outros calcularam que eu recebia oitocentas libras por ano só de Yorkshire. Ora, se é assim, não pode ser menos de dez mil libras por ano o que recebo de toda a Inglaterra!

5. Por isso, um cavalheiro da Cornualha (o pároco de R…) amplia o cálculo consideravelmente. “Deixe-me ver”, disse ele: “dois milhões de metodistas, e cada um deles pagando dois pence por semana.” Se é assim, devo ter oitocentas e sessenta mil libras (com alguns xelins e pence a mais) por ano.

6. Uma renda razoável! Mas, seja ela maior ou menor, nada tem a ver comigo. Tudo o que se contribui ou se recolhe em cada lugar é recebido e gasto por outros; e eu não tenho sequer o proveito de “ver esses bens” com os meus olhos (Ec 5.11). E assim será até que eu me torne turco ou pagão. Pois considero toda essa renda, seja qual for, consagrada a Deus e aos pobres (da qual, se eu precisar de alguma coisa, sou socorrido como qualquer outro pobre). Assim eram originalmente todas as rendas eclesiásticas (como todo homem instruído sabe). E os bispos e sacerdotes as usavam apenas como tais. Se alguns as usam de outro modo agora, Deus os ajude!

7. Não duvido de que, se eu errar neste ou em qualquer outro ponto, o senhor orará a Deus para que me mostre a sua verdade. Ter “uma consciência pura diante de Deus e dos homens” (At 24.16) é o desejo de

Reverendo e caro senhor,

Seu afetuoso irmão e servo,

JOHN WESLEY.

Tradução para o português a partir de The Works of the Rev. John Wesley, vol. XV, Bristol, William Pine, 1772, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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