Documento fundador · 1786

Reflexões sobre o metodismo

“Tendo forma de piedade, mas negando o poder dela.”

2 Timóteo 3.5

Antes de ler

Em agosto de 1786, aos 83 anos, Wesley olhou para trás e escreveu estas poucas páginas, publicadas no ano seguinte na Arminian Magazine. Ele não temia que os metodistas desaparecessem; temia que continuassem a existir como uma seita morta, com a forma da religião sem o poder.

Em breves parágrafos, Wesley lembra a doutrina com que o movimento começou, conta como nasceram as classes e os grupos menores e aponta o perigo que via chegar com a prosperidade. O remédio que propõe é o mesmo do seu sermão sobre o uso do dinheiro: ganhar tudo o que se puder, poupar tudo o que se puder e dar tudo o que se puder.

Reflexões sobre o metodismo.

1. Não tenho medo de que o povo chamado metodista deixe um dia de existir, seja na Europa, seja na América. Mas tenho medo de que venha a existir apenas como uma seita morta, com a forma da religião sem o poder. E isso sem dúvida acontecerá, a menos que se mantenham firmes na doutrina, no espírito e na disciplina com que começaram.

2. Qual era a sua doutrina fundamental? Que a Bíblia é a regra completa e única tanto da fé como da prática cristã. Daí aprenderam:

(1) Que a religião é um princípio interior; que não é outra coisa senão a mente que houve em Cristo, ou, em outras palavras, a renovação da alma segundo a imagem de Deus, em justiça e verdadeira santidade.

(2) Que isso nunca pode ser operado em nós senão pelo poder do Espírito Santo.

(3) Que recebemos isso, e todas as outras bênçãos, unicamente por amor de Cristo. E

(4) Que todo aquele que tem a mente que houve em Cristo, esse é nosso irmão, nossa irmã e nossa mãe.

3. No ano de 1729, quatro jovens estudantes de Oxford combinaram passar as noites juntos. Eram todos membros zelosos da Igreja da Inglaterra e não tinham opiniões particulares; distinguiam-se apenas pela frequência constante à igreja e ao sacramento. Em 1735 já eram quinze, quando o principal deles embarcou para a América com a intenção de pregar aos índios pagãos. O metodismo pareceu então desaparecer; mas reviveu no ano de 1738, sobretudo depois que o sr. Wesley (por não lhe permitirem pregar nas igrejas) começou a pregar nos campos. Como um e outro vinham então perguntar o que deviam fazer para ser salvos, ele lhes pediu que se reunissem todos com ele; e assim fizeram, e cresceram continuamente em número. Em novembro, tendo-lhe sido oferecido um grande edifício, a Fundição (the Foundery), começou a pregar ali de manhã e à noite: às cinco da manhã e às sete da noite, para que o trabalho do povo não fosse prejudicado.

4. Desde o princípio, os homens e as mulheres sentavam-se separados, como sempre fizeram na igreja primitiva; e a ninguém se permitia chamar algum lugar de seu, mas os primeiros a chegar sentavam-se primeiro. Não tinham bancos reservados, e todos os assentos, para ricos e pobres, eram da mesma feitura. O sr. Wesley começava o culto com uma breve oração; depois cantava um hino e pregava (em geral, cerca de meia hora); em seguida cantava alguns versos de outro hino e encerrava com oração. A sua doutrina constante era a salvação pela fé, precedida pelo arrependimento e seguida pela santidade.

5. Mas, quando um grande número de pessoas se havia unido, a grande dificuldade era mantê-las juntas. Pois andavam continuamente se dispersando, para cá e para lá, e não sabíamos como remediar isso. Mas Deus proveu também para isso, quando nem pensávamos nisso. Um ano ou dois depois, o sr. Wesley reuniu-se com os principais da sociedade em Bristol e perguntou: “Como vamos pagar a dívida do local de pregação?” O capitão Foy levantou-se e disse: “Que cada um na sociedade dê um pêni por semana, e isso se fará facilmente.” “Mas muitos deles”, disse alguém, “não têm um pêni para dar.” “É verdade”, disse o capitão; “então ponham dez ou doze deles comigo. Que cada um desses dê o que puder a cada semana, e eu completarei o que faltar.” Muitos outros fizeram a mesma oferta. Assim, o sr. Wesley dividiu as sociedades entre eles, atribuindo a cada um uma classe de cerca de doze pessoas; e esses foram chamados de guias.

6. Pouco depois, um deles informou ao sr. Wesley que, ao visitar certo homem em sua casa, o encontrara brigando com a esposa. Outro foi encontrado embriagado. Imediatamente veio à mente do sr. Wesley: “É exatamente disso que precisávamos. Os guias são as pessoas que podem não apenas receber as contribuições, mas também velar pela alma dos seus irmãos.” A sociedade de Londres, informada disso, seguiu de bom grado o exemplo da de Bristol, como fez toda sociedade daquele tempo em diante, seja na Europa, seja na América. Por esse meio, facilmente se descobria se alguém se cansava ou desfalecia, e logo se lhe prestava ajuda. E, se alguém andava desordenadamente, era logo descoberto e, ou se corrigia, ou era afastado.

7. Para os que sabiam em quem tinham crido, providenciou-se outro auxílio. Cinco ou seis homens, casados ou solteiros, reuniam-se na hora que lhes fosse conveniente, segundo a orientação de são Tiago: “Confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros, para que vocês sejam curados” (Tg 5.16). E cinco ou seis mulheres, casadas ou solteiras, reuniam-se com o mesmo propósito. Inúmeras bênçãos acompanharam essa instituição, especialmente entre os que caminhavam para a perfeição. Quando alguém parecia tê-la alcançado, permitia-se que se reunisse com um grupo seleto dos que pareciam, tanto quanto o homem pode julgar, participantes da mesma “tão grande salvação” (Hb 2.3).

8. Por este breve esboço do metodismo (assim chamado), qualquer pessoa de entendimento pode facilmente perceber que ele não é senão a religião simples e bíblica, protegida por algumas normas de prudência. A sua essência é a santidade de coração e de vida; os elementos circunstanciais apontam todos para ela. E, enquanto essas duas coisas estiverem unidas no povo chamado metodista, nenhuma arma forjada contra eles prosperará. Mas, se até as partes circunstanciais forem desprezadas, a essencial logo se perderá. E, se algum dia as partes essenciais se evaporarem, o que restar será esterco e escória.

9. Importa-nos muito entender como está o nosso caso no presente. Receio que, onde quer que as riquezas tenham aumentado (e as exceções são pouquíssimas), a essência da religião, a mente que houve em Cristo, tenha diminuído na mesma proporção. Por isso, não vejo como seja possível, pela natureza das coisas, que qualquer avivamento da verdadeira religião dure muito. Pois a religião necessariamente produz tanto a diligência como a frugalidade, e estas não podem deixar de produzir riquezas. Mas, à medida que as riquezas aumentam, aumentarão também o orgulho, a ira e o amor ao mundo em todos os seus ramos.

10. Como é possível, então, que o metodismo, isto é, a religião do coração, embora agora floresça como um loureiro verdejante, continue nesse estado? Pois os metodistas, em toda parte, tornam-se diligentes e frugais; consequentemente, aumentam em bens. Daí aumentarem proporcionalmente em orgulho, em ira, nos desejos da carne, nos desejos dos olhos e na soberba da vida. Assim, embora a forma da religião permaneça, o espírito vai desaparecendo rapidamente.

11. Não há maneira de impedir isso, esse contínuo declínio da religião pura? Não devemos proibir as pessoas de serem diligentes e frugais. Devemos exortar todos os cristãos a ganhar tudo o que puderem e a poupar tudo o que puderem; isto é, na prática, a enriquecer! Que caminho, então (pergunto de novo), podemos tomar para que o nosso dinheiro não nos afunde no mais profundo do inferno? Há um caminho, e não há outro debaixo do céu. Se os que “ganham tudo o que podem” e “poupam tudo o que podem” também “derem tudo o que puderem”, então, quanto mais ganharem, mais crescerão na graça e mais tesouro ajuntarão no céu.

Londres, 4 de agosto de 1786.

Tradução para o português a partir de Thoughts upon Methodism (1786), conforme a edição de Thomas Jackson das Works, com os parágrafos 1 e 8 a 11 conferidos com o texto da Arminian Magazine de 1787 citado por Luke Tyerman, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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