W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · Preliminares
Definição geral. A TEOLOGIA cristã é a ciência de Deus e das coisas divinas, fundada na revelação feita à humanidade em Jesus Cristo e sistematizada de diversas maneiras dentro da Igreja cristã.
Tudo o que pertence aos preliminares do nosso estudo pode ser distribuído sob os vários tópicos sugeridos por esta definição, que foi formulada de modo a incluir, em primeiro lugar, a teologia propriamente dita; em segundo lugar, a sua limitação às relações entre Deus e a humanidade; em terceiro lugar, a sua conexão essencial com Cristo; em quarto lugar, as suas características, tal como se desenvolveram sob diversas influências dentro da Igreja cristã; e, por fim, o seu direito ao nome de ciência. As observações introdutórias que faremos sobre cada um desses tópicos têm por objetivo apenas preparar a mente do estudante para o que está diante dele e oferecer algumas indicações, que serão todas desenvolvidas depois, no momento oportuno.
Teologia propriamente dita. Deus é a fonte, o tema e o fim da teologia. O uso mais estrito e mais antigo da palavra limitava-a à doutrina do Deus triúno e dos seus atributos. No uso moderno, porém, ela abrange toda a amplitude da ciência da religião, ou seja, as relações de todas as coisas com Deus. É isso que lhe dá unidade, dignidade e santidade. Ela é A DEO, DE DEO, IN DEUM: vem de Deus em sua origem, trata de Deus em sua substância e conduz a Deus em todos os seus resultados; o NOME dele está nela.
I, 4Teologia ou divindade. 1. A única definição adequada deste assunto abrange as COISAS DIVINAS: λόγος περὶ τοῦ Θεοῦ καὶ περὶ τῶν θείων [discurso acerca de Deus e acerca das coisas divinas]. O Supremo, cujo Ser é o primeiro postulado da teologia ou divindade, declara-se, quanto à sua natureza, incompreensível e insondável. EU SOU O QUE SOU (Êx 3.14) é o que mais se aproxima de uma definição: afirma a sua existência sem prová-la, e afirma que ele existe numa essência que só ele mesmo conhece. O Antigo Testamento pergunta: Será que você pode desvendar os mistérios de Deus ou descobrir a perfeição do Todo-Poderoso? (Jó 11.7). O Novo Testamento, que o traz para mais perto em seu Filho, apresenta-o como aquele que habita em luz inacessível à investigação (1Tm 6.16). No sentido mais profundo, ele é sempre O DEUS DESCONHECIDO (At 17.23). É glória sua ter de ocultar-se. Mas são Paulo, como pregador aos gentios, mesmo assim anuncia esse Deus Desconhecido e, em seus escritos, usa duas expressões significativas, que ao mesmo tempo afirmam a prerrogativa e fixam os limites da nossa teologia propriamente dita. Ele fala das coisas de Deus, τὰ τοῦ Θεοῦ (1Co 2.11), referindo-se àqueles mistérios que o Espírito pode revelar, e revelará, aos que o recebem. E indica que, mesmo à parte das revelações sobrenaturais do Espírito, o que se conhece [ou se pode conhecer] a respeito de Deus, τὸ γνωστὸν τοῦ Θεοῦ (Rm 1.19), está desvendado ao homem. Tudo o que se conhece é tudo o que se pode conhecer: o conhecimento possível é o conhecimento real, em suas sucessivas comunicações, da luz da natureza à luz da graça, e daí à luz da glória. As densas trevas que envolvem a Presença insondável não são inteiramente sem brechas: os raios que dela emanam penetram todos os ramos do verdadeiro conhecimento, e especialmente deste.
Deus tudo em todos. 2. Há um sentido em que a teologia universal se ocupa simplesmente da relação de todas as coisas com Deus; se delimitarmos com cuidado o que queremos dizer, podemos fazer esta proposição incluir a sua recíproca, a relação de Deus com todas as coisas. A relação, naturalmente, tem de ser mútua; mas nesta matéria é difícil separar da noção de relação a de dependência. O Eterno é o Ser Incondicionado. Quando estudamos a sua natureza, as suas perfeições e as suas obras, devemos sempre lembrar que ele é, em sua perfeição, ele mesmo, independente de todo objeto criado e independente de todo pensamento a seu respeito. Mas não há doutrina, nem ramo ou desdobramento de doutrina alguma, que não seja pura e simplesmente a expressão de alguma relação das suas criaturas com a Suprema Causa Primeira.
I, 5Dignidade e santidade. 3. Por isso, todo ramo desta ciência é sagrado. Ela é um templo repleto da presença de Deus. Do seu santuário oculto, onde nenhum sumo sacerdote tomado dentre os homens pode entrar, sai uma luz que não deixa nenhuma parte escura, a não ser onde a escuridão vem do excesso de glória. Por isso, todos os estudantes idôneos são, ao mesmo tempo, adoradores e estudantes. No mundo pagão havia um verdadeiro instinto disso. O maior tributo que os antigos podiam prestar aos seus poetas e filósofos, de Homero e Hesíodo em diante, era chamá-los θεολόγοι [teólogos]. A filosofia deles era a sua teologia. Assim também na Igreja primitiva, quando a teologia alcançou a sua perfeição, a sua relação com Deus foi o selo dessa perfeição: são João foi chamado o Teólogo, ὁ θεολόγος, porque os seus escritos continham a maior parte da manifestação da Santa Trindade em suas relações internas e externas. O que se disse do próprio Deus pode-se dizer do estudo teológico de Deus: ele é, em toda parte, o centro de uma ciência cuja circunferência não está em parte alguma. A lembrança disso deve exercer a sua influência sobre o nosso espírito e as nossas disposições em todos os nossos estudos. Quem subirá ao monte do Senhor? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração (Sl 24.3-4).
Para o homem. A teologia se ocupa principalmente das coisas de Deus na relação que têm com o homem e com o seu destino. Esta proposição implica que a nossa natureza tem capacidade de receber a verdade divina; indica tanto a extensão como os limites do alcance dessa verdade, revelada especialmente para o homem; e explica o caráter essencialmente humano que está impresso na sua forma e que a reveste de um profundo interesse humano.
O homem como centro. 1. Em certo sentido, o homem é o centro desta ciência. É especificamente o centro de um dos seus ramos, tecnicamente chamado Antropologia. ANTROPOLOGIA, que trata das características dele como criatura formada à imagem de Deus; mas, de modo mais geral, ele é o objeto em torno do qual tudo gira. A luz da revelação é derramada sobre a raça humana, e, em sua plenitude, somente sobre ela. Por conseguinte, pode-se dizer que a relação da humanidade com o Supremo é uma das definições da teologia. Mas o homem é apenas uma criatura de Deus, insignificante e, no entanto, não insignificante. O seu lugar na vasta criação e o desenvolvimento da sua carreira maravilhosa, em harmonia com todos os outros desígnios divinos, determinam a sua relação com a teologia universal. Mas esta verdade geral deve ser vista sob duas luzes: o homem é o objeto de toda a revelação, enquanto ela diz respeito a ele e ao seu destino; o homem é o sujeito de toda a revelação, enquanto é ele quem a recebe.
I, 6O homem como objeto. (1) A teologia se ocupa do destino do homem no universo. As suas primeiras lições, a abertura do volume do livro, apresentam-no como cabeça da criação de Deus: a história da origem de todas as coisas e da lenta formação deste mundo é apenas o prefácio da sua introdução como representante do seu Criador sobre a terra. A sua queda e a sua redenção estão fundidas num só todo; toda a sequência da revelação é o registro do método divino de recuperar no segundo Adão o que no primeiro foi desfigurado, A IMAGEM DIVINA. A redenção da raça humana e a salvação do homem individual estão entretecidas numa só grande economia, que se estende do fechamento do Paraíso terrestre à abertura do Paraíso celestial. Não há revelação de Deus em suas três Pessoas, como o Pai, o Filho encarnado e o Espírito Santo, que não esteja ligada, direta ou indiretamente, à salvação da humanidade. Assim, a teologia é simplesmente o sistema da verdade divina que está no fundamento da religião humana, ou seja, da comunhão espiritual entre o homem e o seu Criador.
O homem como sujeito. (2) Mas o mesmo princípio geral pode ser aplicado ao homem como aquele que recebe a revelação. Criado à imagem de Deus, ele é uma criatura inteligente, livre e responsável, capaz de separar-se da vontade divina e também capaz de ser restaurado à comunhão divina. Os dois primeiros postulados de toda teologia são a Personalidade do Ser Infinito e a personalidade do homem, criatura dele. Nenhum dos dois é objeto de demonstração nos santos oráculos; ambos são pressupostos, ou dados como certos, em toda parte. Renunciar a qualquer um deles é aniquilar o conhecimento teológico propriamente dito. Embora, no prosseguimento deste estudo, possam ser adotados métodos de prová-los, sob a pressão de uma necessidade que nos é imposta pela obstinação do ceticismo humano, ainda assim temos de, afinal e sempre, pressupor aqui aquilo mesmo que está em questão. Deus é uma Pessoa que desce até o homem; e o homem é uma pessoa capaz de Deus.
I, 7Religião. (3) As relações objetiva e subjetiva do homem, como centro da ciência teológica, encontram-se na palavra RELIGIÃO, um dos termos mais amplos e mais profundos com que temos de lidar. A sua derivação tem sido muito discutida; mas as duas principais explicações dela podem ser unidas para o nosso propósito presente. Segundo Lactâncio, vinculo pietatis obstricti deo et RELIGATI sumus, unde ipsa religio nomen accepit, non, ut Cicero interpretatus est, a relegendo [pelo vínculo da piedade estamos presos a Deus e a ele RELIGADOS, e daí a própria religião recebeu o nome, e não, como interpretou Cícero, de reler] (Instituições divinas IV, 28). Quer dizer: a religião significa o laço eterno que prende o homem a Deus, e é, portanto, a relação da criatura humana com o Supremo Criador, tal como é reconhecida e testemunhada em todas as formas de ensino teológico e de culto. Os homens nunca estiveram sem uma religião, pois Deus nunca deixou de dar testemunho de si mesmo (At 14.17) em época ou terra alguma: houve muitos deuses e muitas religiões, embora para nós haja um só Deus e uma só religião. A interpretação rejeitada de Cícero, no entanto, exige ser ouvida: qui omnia, quæ ad cultum deorum pertinerent, diligenter retractarent et tanquam RELEGERENT, sunt dicti religiosi, ex relegendo [os que reconsideravam com diligência e como que RELIAM tudo o que dizia respeito ao culto dos deuses foram chamados religiosos, de reler] (Da natureza dos deuses II, 28). Quer dizer: a religião significa o exercício da mente humana em ponderar e considerar as coisas divinas, e é, por assim dizer, uma aspiração instintiva e entranhada da natureza humana, corrigida, purificada e dirigida aos seus fins mais altos na verdadeira fé. Combinamos as duas quando dizemos que o homem é o centro de toda teologia, enquanto ela é o fundamento de toda verdadeira religião.
Limitações. 2. Daí a limitação que nos sai ao encontro em toda parte. As relações do vasto universo, e das outras criaturas que nele há, com Deus só estão incluídas na medida em que dizem respeito à humanidade. A revelação nos traz notícias de fora, do universo exterior; e as suas comunicações a respeito da provação anterior das inteligências espirituais, da sua divisão em ordens, do seu interesse e da sua atuação no desenvolvimento dos propósitos divinos chegam a formar, quando sistematizadas, um ramo considerável da verdade revelada, ao qual às vezes se dá o nome de ANGELOLOGIA. Mas é sempre a ligação delas com o homem que regula o método e a medida dessas revelações. Há estrita parcimônia quanto a tudo o que não é essencial ao destino humano: o princípio da mínima ação vale na revelação tanto quanto na natureza. Por isso é evidente que a responsabilidade da teologia, por assim dizer, se limita a um único assunto. Os que a estudam devem submeter-se a essa restrição. O que você tem com isso? (Jo 21.22) tem aqui o seu sentido para todos os que se entregam demais à especulação, tanto acerca do passado como acerca do futuro. Quanto a todas as outras coisas, você vai entender depois (Jo 13.7): há muitos indícios e penhores de uma efusão mais abundante de conhecimento, que nos compensará no tempo devido. Enquanto isso, esta é a resposta antecipada a muitas objeções do espírito cético. Temos apenas uma folha de um livro enorme; a sua página começa e termina, por assim dizer, no meio de uma frase. Depois veremos muito mais deste livro. Agora o nosso conhecimento é incompleto. Conhecemos a nós mesmos à parte das outras criaturas e dos outros mundos. Depois conheceremos como também somos conhecidos (1Co 13.12): conheceremos os outros seres e os outros mundos como eles nos conhecem.
I, 8Ensinada de modo humano. 3. Há uma marca impressa na teologia, seja nos seus registros divinos, seja na sua ciência humana, que resulta da sua adaptação às faculdades humanas. Temos aqui de dar por certo que o homem é uma criatura capaz de religião, isto é, de comunhão com Deus, como pessoa relacionada com uma Pessoa. A Escritura, que não prova que Deus existe, também não prova que o homem é capaz de conhecer a Deus: ambas as coisas são pressupostos fundamentais da teologia. Mas, reservando para depois a demonstração mais completa disso, devemos notar que, sendo ele uma criatura em estado de prova, o seu conhecimento das coisas divinas lhe é dado em formas próprias desse estado, que provam o seu caráter em cada ponto. Tudo está expressamente adaptado às suas faculdades limitadas e lhe é comunicado de um modo adequado ao estágio presente da sua existência. Deus desceu até nós em forma de homens (At 14.11) e lhes fala na língua deles. Como diziam os rabinos acerca da Lei, Lex Dei loquitur linguam filiorum hominum, a lei de Deus fala a língua dos filhos dos homens. A Bíblia inteira está Antropomorfismo. permeada do que se chama ANTROPOMORFISMO e ANTROPOPATIA: o primeiro dá nome à condescendência de Deus, que parece assumir uma forma humana e atributos humanos; o segundo inclui também os afetos peculiares do homem, sem excetuar alguns que pertencem à sua fraqueza, como a esperança e a incerteza. Não que a realidade não lhes corresponda. O Supremo nos dá uma verdadeira revelação de si mesmo; mas é uma revelação que só pode ser compreendida em nosso mundo, e por nós, homens. Até os anjos desejam contemplar essas coisas (1Pe 1.12); estão aprendendo os segredos da multiforme sabedoria de Deus, que pela igreja se torna conhecida (Ef 3.10); mas não podem estudá-los na nossa língua.
I, 9Suficiente. 4. Como estudantes humanos da nossa própria verdade, podemos ter a certeza de que teremos orientação plena e suficiente. Nada que nos importe saber foi ou será escondido de nós: o que está reservado está reservado para a nossa disciplina, assim como o que está revelado está revelado para a nossa instrução. Ele já mostrou a você, ó homem, o que é bom (Mq 6.8) [N. do T.: a NAA não traz o vocativo “ó homem”, que está no hebraico e na KJV seguida por Pope]: isso deve ter a sua aplicação mais ampla. Assim também aquela outra palavra, que contém a contrapartida: As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e aos nossos filhos, para sempre (Dt 29.29). De que profundo interesse humano isso reveste todo o domínio deste conhecimento sagrado! A nossa vida, a nossa esperança, o nosso destino, o nosso tudo, está ligado a ele: é o registro da nossa degradação e da nossa libertação, da nossa ruína e da nossa recuperação, das nossas desgraças e da nossa redenção. Quão grande é a dignidade do homem, por ser ele, em qualquer sentido que seja, o centro de tal ciência! Se é o nome de Deus que lhe dá a sua majestade insuperável, essa grandeza se reflete sobre nós. Que é o homem, para que dele te lembres? (Sl 8.4). O nosso estudo não pode ser conduzido corretamente sem uma combinação do mais elevado triunfo com a mais profunda humildade; devemos sempre lembrar a dignidade, sem jamais esquecer a pequenez do lugar que nós mesmos nele ocupamos. Ao nos aproximarmos da revelação daquele que é a nossa Sabedoria, ouvimos: a fim de que ninguém se glorie na presença de Deus (1Co 1.29); ao recebermos essa revelação, ouvimos de novo: aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1Co 1.31). A teologia é uma luz derramada sobre todo o universo; é a glória da criatura de Deus, o homem (Lc 2.32). Mas isso nos conduz ao segredo eterno da nossa dignidade. O nosso conhecimento chega a nós por meio daquele que é Homem e também Deus; a sua encarnação, na plenitude dos tempos, explica o antropomorfismo do Antigo Testamento; e é nele que a teologia de Deus e a teologia do homem se tornam uma só.
Por Jesus Cristo. Jesus Cristo é ele mesmo, em sua Pessoa e em sua Palavra, a revelação de Deus. Ele confirmou e complementou a teologia natural, isto é, aquela que independe da revelação sobrenatural. Levou à consumação as revelações preliminares das suas próprias dispensações anteriores. Desacreditou e condenou todos os mestres e todos os ensinos que rejeitam a sua autoridade. Por isso, a ciência que estudamos é essencialmente teologia cristã.
Os postulados da proposição geral serão estabelecidos mais plenamente adiante: agora são apenas enunciados e admitidos.
Em sua Pessoa. 1. Em seu sentido técnico, o termo CRISTOLOGIA refere-se geralmente à doutrina da Pessoa de Cristo como tal, na unidade das suas duas naturezas; mas pode-se dizer que a cristologia é teologia. Quem vê a mim vê o Pai (Jo 14.9). Embora ele revele Deus como o Pai que se torna visível nele, é, em certo sentido, a manifestação da Divindade inteira. Ele é o Mistério de Deus manifestado na carne (1Tm 3.16). O Antigo Testamento, com Eis aí está o seu Deus! (Is 40.9), Ecce Deus tuus!, corresponde ao Novo Testamento, com Eis o homem! (Jo 19.5), Ecce Homo! Nosso Senhor é a unidade eternamente bendita dessas duas palavras, pois Ecce Deus! Ecce Homo! ambas foram ditas expressamente a respeito dele. A sua Pessoa é o compêndio de tudo o que há de divino nas coisas humanas, e nele estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Cl 2.3). Ele é a substância da revelação, em ato e em palavra. Ele mesmo é o único e supremo Teólogo: ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho (Mt 11.27). Ele é o centro da teologia; todas as suas doutrinas giram em torno dele: Eu sou a verdade (Jo 14.6). E, como Mediador entre Deus e a humanidade (1Tm 2.5), fazendo de ambos um só, ele é, num sentido peculiar, o vínculo da perfeição na teologia. Nele está a unidade dela, e nele ela está completa. O título do Apocalipse é o título da nossa ciência como um todo: ela é a ἀποκάλυψις Ἰησοῦ Χριστοῦ, a Revelação de Jesus Cristo (Ap 1.1), acerca dele, como seu objeto, e vinda dele, como sua fonte.
2. O Supremo Revelador confirma e absorve no seu ensino Teologia natural. as revelações originais da natureza, ou o que se chama TEOLOGIA NATURAL. (1.) Ele pressupõe os elementos desse conhecimento natural. Apela para ele em toda parte. Mas pela boca do seu servo Paulo deu a exposição mais completa do que esse conhecimento inclui. Em primeiro lugar, o apóstolo fala da lei gravada no seu coração (Rm 2.15), isto é, na razão do homem universal, que é a evidência indestrutível de um Deus a cuja imagem ele foi criado: porque dele também somos geração (At 17.28). Em segundo lugar, apela para a consciência religiosa, ou consciência moral, que no homem dá testemunho, com os seus pensamentos conflitantes, que às vezes os acusam e às vezes os defendem (Rm 2.15) [N. do T.: o original indica Rm 11.15, por erro de impressão], segundo o padrão escrito, ou antes gravado, na razão; às evidências do seu eterno poder e da sua divindade, que claramente se reconhecem, sendo percebidos por meio das coisas que Deus fez (Rm 1.20); e a uma providência que atrai os homens, em todas as épocas, a buscar tateando o Deus desconhecido de uma revelação final (At 17.27). Assim são Paulo, como pregador em Atos e como mestre em Romanos, traça as grandes linhas do conhecimento primitivo, inferior e tradicional da humanidade. Ele mesmo é, por excelência, o teólogo da revelação acabada em Cristo; mas reconhece de modo indireto, e todavia muito claro, os trabalhos de certa teologia que está fora da revelação sobrenatural e é preliminar a ela. (2.) O novo Mestre confirma e complementa a teologia da natureza. Nosso Senhor não veio para revogar, mas para cumprir esta lei natural e estes profetas naturais. Também acerca destas escrituras ele diz, em silêncio, a quem as examina: são elas mesmas que testificam de mim (Jo 5.39). A sua vinda revela a imperfeição delas; mas o tributo que ele lhes presta, como base do seu ensino, comprova a origem divina que têm. O fanatismo dos judeus exclamou: Será que pretende ir para a diáspora entre os gregos, a fim de ensinar os gregos? (Jo 7.35). Ele fez as duas coisas depois, por meio dos seus apóstolos; e a segunda já havia feito muito tempo antes. Isso voltará a ser tratado mais extensamente adiante.
I, 11Antigo e Novo Testamentos. 3. A teologia cristã é a consumação das suas próprias economias anteriores. Cristo foi o Revelador desde o princípio. Mas as suas revelações foram dadas em etapas progressivas; e agora, no fim dos tempos, ele reuniu o todo num só grande sistema de verdade. Podemos, portanto, considerar o seu ensino perfeito como a consumação das formas preliminares desse ensino. Esse ensino é o cumprimento da TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO, um vasto corpo de verdade preparatória, cujo desígnio dominante é preparar o caminho do Senhor. Esta economia única e complexa da revelação passada divide-se, por sua vez, em vários ramos: há a TEOLOGIA PATRIARCAL, que continha as mais antigas e amplas revelações da vontade divina, o evangelho antes da Lei; a TEOLOGIA MOSAICA, que é a do povo escolhido, da sua teocracia e das suas instituições tipológicas, o evangelho sob a Lei; e a TEOLOGIA PROFÉTICA, que é, por excelência, o evangelho na Lei. Todos esses ramos do ensino anterior estavam sob a direção da inspiração: sob o Espírito de Cristo, que neles estava (1Pe 1.11). Todos eles são pressupostos, confirmados, complementados e aperfeiçoados pela instituição de Cristo no Novo Testamento. Também isso deverá ser considerado de novo, mais plenamente.
I, 12Exclusiva. 4. O ensino do Novo Testamento, que sanciona a religião da natureza e as revelações anteriores da verdade (ambas com o mesmo elemento comum de preparação), denuncia toda fonte independente de instrução religiosa. Um só é Mestre de vocês, o Cristo, ὁ καθηγητής [o guia] ou ὁ διδάσκαλος [o mestre] (Mt 23.8) [N. do T.: a NAA traz “o Cristo” só no v. 10: “um só é o Guia de vocês, o Cristo”]. Ele excluiu expressamente todos os outros que vieram antes dele, ou que viessem depois dele: os primeiros, todos os que vieram antes de mim, aos quais, desde a minha vinda, as ovelhas não deram ouvidos (Jo 10.8); os segundos, não vão atrás deles (Lc 21.8). Ele não é mais zeloso da honra do Pai do que da sua própria honra. É o Mestre absoluto; Eu, porém, lhes digo (Mt 5.22) exclui todos os outros: o único complemento das suas próprias palavras que ele admite é aquele que ele mesmo dá na pessoa do Espírito da verdade (Jo 16.13). E é isso que se tem em vista na palavra abrangente da última comissão: πάντα ὅσα ἐνετειλάμην, todas as coisas que tenho ordenado (Mt 28.20).
Os sistemas teológicos de ensino religioso que são assim condenados são aqueles que se basearam em perversões, quer da religião natural, quer da religião revelada.
Perversões da religião natural. (1) A primeira assumiu muitas formas, todas elas com alguma relação comum com a única verdade. Sempre houve entre os homens uma TEOLOGIA TRADICIONAL que, contendo vestígios da revelação primitiva pervertidos em erro, foi tecida em todas as formas imagináveis de MITOLOGIA, ou religião lendária, variando conforme a cultura das nações. Essas formas se ligaram, especialmente no Oriente, a sistemas religiosos elaborados, que podem ser chamados RELIGIÕES PAGÃS e que floresciam sobretudo na Índia, na China e na Pérsia quando Cristo veio ao mundo. A FILOSOFIA, que busca os primeiros princípios da verdade no amor a ela, mas sem sequer professar encontrá-la, tem sido em todas as épocas um disfarce humano da revelação divina: na Antiguidade, profundamente religiosa; em quase todas as épocas, a expressão de um sentimento religioso; mas, nos tempos modernos, desviada por falsos princípios fundamentais. A teologia propriamente dita de uma religião natural pervertida é o DEÍSMO e, em sua forma um pouco menos anticristã, o TEÍSMO, que conserva um Deus, mas rejeita a revelação sobrenatural, e especialmente a de Cristo.
I, 13Perversões da religião revelada. (2) As perversões da religião revelada também assumiram muitas formas. A mais gigantesca é a do RABINISMO, ou TALMUDISMO, tal como é ensinado nos escritos do Talmude, cujos alicerces foram lançados no judaísmo do intervalo entre os dois Testamentos. Em seguida vem o MAOMETISMO, uma impostura baseada nas Sagradas Escrituras, mas que reduz outra vez a religião às condições mais baixas da natureza: a mais estranha mistura de verdade e erro que a história apresenta. E a estes se deve acrescentar aquela massa de TRADICIONALISMO CRISTÃO que se identifica com a corrupção da Fé cristã. Todos esses formam o pano de fundo escuro da ciência que o nome de Cristo santifica. Encontraremos alguns deles repetidas vezes; por ora, apenas os indicamos em linhas gerais.
Cristo, o Mestre. 5. Cristo, o Centro da teologia, é também o seu Mestre vivo. Assim como a prova de toda opinião e de toda fé é o lugar que ela lhe atribui, sendo E vocês, quem dizem que eu sou? a pergunta que vem depois de Quem os outros dizem que eu sou? (Mc 8.27-29), assim também a sua doutrina só pode ser estudada com proveito aos seus pés. Pelo seu Espírito ele guia os seus discípulos, como a companhia dos que estudam a teologia com fé, em toda a verdade: não mais por uma inspiração suprema, mas por uma instrução secreta que dá a plena convicção do entendimento, para conhecimento do mistério de Deus, [que é] Cristo (Cl 2.2) a todo crente unido a ele. Pectus facit theologum, a devoção do coração faz o teólogo: este aforismo de Agostinho vale para todos aqueles cujo coração é fiel ao seu Mestre. Eles são os santos irmãos convidados a considerar atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, [Cristo] Jesus (Hb 3.1). Dos judeus incrédulos nosso Senhor disse: Por que vocês não compreendem a minha linguagem? É porque vocês são incapazes de ouvir a minha palavra (Jo 8.43). Mas os seus verdadeiros discípulos, até o menor deles, podem ouvir a sua palavra doutrinária, λόγον, pois aprenderam pelo Espírito o seu sentido celestial como palavra da verdade eterna; por isso compreendem a sua linguagem, a sua λαλιάν, e recebem a sua doutrina perfeita. Eles o conhecem como seu Mestre e conhecem as suas comunicações. Mas ele dá a sua instrução por meio do seu Espírito, não somente por iluminação secreta e pessoal, mas também pelos canais de ensino providos na sua Igreja, que é coluna e fundamento da verdade (1Tm 3.15). Eles recebem tanto os elementos como os desenvolvimentos da doutrina cristã, tal como são expostos no meio do povo de Deus; os ensinos de Deus são dirigidos aos da família da fé (Gl 6.10): πρὸς τοὺς οἰκείους τῆς πίστεως.
Desenvolvida na Igreja. Aprouve ao Senhor confiar a sua revelação, tal como foi concluída nas Escrituras, à guarda da sua Igreja, sob o controle e a supervisão do Espírito Santo. As Escrituras são a regra, o padrão e a prova da teologia, a qual, nesta relação, deve ser considerada como a soma total da literatura cristã da Igreja, produzida gradualmente e modificada de várias maneiras: uma extensão do termo que é absolutamente necessária, mas que precisa ser resguardada pela ressalva de que toda teologia sã é aquela que tem os seus fundamentos e as suas evidências na Palavra de Deus.
A primeira parte desta proposição deve agora ser pressuposta: a sua discussão fica reservada para um lugar posterior. Enquanto isso, pode-se dizer que nada há na teologia que não busque a sua autoridade na Palavra de Deus: a nossa ciência é a ordenação, o desenvolvimento e a aplicação de fatos e princípios dados por inspiração. O volume dotado de autoridade foi depositado na Igreja desde o princípio. Os primeiros oráculos estavam sob a guarda do povo da aliança; e a Fé cristã foi entregue aos santos (Jd 3). O oráculo sempre teve a sua arca. À medida que a Igreja se ampliava, a Bíblia se ampliava; mas nunca uma esteve no mundo sem a outra. Nenhuma delas, porém, esteve sem o Espírito divino, que sempre velou pelo crescimento de uma literatura teológica em torno da Bíblia. Além dos pronunciamentos fixos da inspiração, o Espírito Santo tem as suas próprias muitas outras palavras (At 2.40), ditas por homens sob as suas influências mais comuns; e os cristãos também têm as suas, que ele governa e controla. E tudo isso, em sua expansão, é teologia, tomado o termo em sua acepção mais ampla: uma massa sem limites de doutrina mais ou menos sistematizada, fruto de todas as épocas, de todos os tipos de solo e de todas as zonas da fé religiosa. O todo, naquilo que nos diz respeito, é direta ou indiretamente produto da Igreja cristã: seja como a ordenação formal do seu próprio ensino, seja como resultado do falso ensino que ela condena. E temos de considerar, de acordo com isso, as suas várias características.
I, 15Leis do desenvolvimento. Mas a verdade religiosa, tal como é moldada dentro da Igreja, deve desenvolver-se segundo algumas leis. Primeiro, as exigências do ensino haveriam de assegurar a criação de um grande corpo de teologia variada. Além disso, esta assumiu formas específicas ao conformar-se a diferentes tipos de doutrina dentro da Igreja, dando origem a uma grande massa do que se pode chamar teologia confessional. E, ainda, há um rico desenvolvimento governado pela lei da adaptação às circunstâncias internas e externas de que a verdade pode estar cercada. A ideia de evolução permeia toda esta ciência; e podemos aplicá-la com segurança se lembrarmos que há uma lei de desenvolvimento peculiar à Escritura, a lei da revelação progressiva, e outra que governa a sistematização humana desta. A doutrina divina é desenvolvida na Bíblia; na Igreja, o dogma humano.
Teologia da Igreja docente. I. Tanto como mestra quanto como defensora da Fé, a Igreja cristã esteve desde o princípio sob a necessidade de criar uma teologia: seja como mestra dos seus convertidos, seja como defensora deles contra o erro. A teologia didática foi a expansão necessária do que na Escritura se chama a doutrina dos apóstolos (At 2.42). A sua primeira e mais simples forma, tal como se vê nos escritos dos primeiros Pais da Igreja, foi EXPOSITIVA ou prática, e visava à edificação do rebanho; depois veio a CATEQUÉTICA, para a instrução preliminar dos convertidos, ou catecúmenos, com vistas ao batismo, conduzida por pastores na função de catequistas e formulada no catecismo permanente; e assim foram lançados os alicerces de toda a teologia BÍBLICA propriamente dita que veio depois. A afirmação defensiva da verdade tornou-se necessária por causa das heresias que surgiam dentro da comunidade e por causa do dever de defender a Fé contra os de fora. Esta última obrigação deu origem à APOLOGÉTICA em todos os seus ramos, chamada nos tempos modernos EVIDÊNCIAS: a apologia refere-se antes à posição da sociedade cristã quando desafiada pelo mundo, e as evidências pertencem antes ao seu caráter ofensivo e missionário. A primeira obrigação introduziu a teologia DOGMÁTICA, ensinada primeiro nos credos (o Credo dos Apóstolos, o Niceno-Constantinopolitano e o Atanasiano) e depois em exposições específicas desses credos e de cada um dos seus artigos: esta, distinta da apologética, é a teologia controversista, ou POLÊMICA. Em tempos posteriores, todos esses ramos foram incorporados na unidade do que se chama teologia SISTEMÁTICA, ou disposição ordenada das doutrinas da revelação, enquanto dogmas fixados nas decisões da Igreja, defendidos contra os ataques externos e desdobrados na ética do dever humano. Este é o desenvolvimento normal da ciência dentro da cristandade, comum a todos os seus ramos. Toda comunidade cristã apresenta em sua própria literatura, de modo mais ou menos sistemático, todas essas várias formas de ensino fundamental.
I, 16Teologia confessional. II. Há também um desenvolvimento que se deu segundo a lei dos tipos distintos de doutrina e que resultou por fim no que já chamamos teologia CONFESSIONAL. Isso abre um campo muito vasto, onde as diferenças entre os diversos ramos da cristandade se apresentam à nossa vista. Requer algo como um levantamento histórico.
Tipos de doutrina nas Escrituras. 1. Tal levantamento deve incluir o próprio Novo Testamento, mas assinalando a diferença essencial entre os seus vários tipos de doutrina e os que aparecem na Igreja depois que a inspiração cessou. É importante ter uma concepção clara disso. A soma do ensino bíblico é a combinação de muitos elementos que o Espírito Santo moldou numa unidade. À medida que avança a história do governo redentor da humanidade, avança com ela a evolução gradual da doutrina em geral e das doutrinas individuais; e, assim como todos os acontecimentos convergem para a plenitude do tempo, assim também todas as doutrinas convergem para a plenitude da verdade. A multiplicidade e a variedade tendem sempre à simplicidade e à unidade. O ensino preparatório do Antigo Testamento e o ensino perfeito do Novo são um só na unidade da profecia e do cumprimento. O mesmo se pode dizer das predições dos Evangelhos antes do Pentecostes e do seu cumprimento depois dele. E há diferentes tipos de doutrina no círculo apostólico. São João, são Pedro, são Tiago e são Paulo contribuem cada um com a sua exposição distinta da verdade cristã, e cada uma delas se distingue nitidamente das demais, ao passo que todas concorrem para a unidade da fé (Ef 4.13). Os três primeiros receberam cada um o seu carisma ou dom especial e apresentaram o ensino do Salvador tal como lhes fora dado em seus elementos pelos próprios lábios dele, antes e depois da ressurreição, e tal como depois lhes foi exposto pelo Espírito Santo, segundo a promessa do Senhor. São Paulo foi acrescentado ao grupo; ele recebeu o seu ensino, segundo o seu próprio testemunho, diretamente do Salvador ressuscitado, que escolheu o futuro apóstolo, tirando-o de uma escola rabínica, e lhe deu uma revelação específica do plano do evangelho. Numa das epístolas que contêm a exposição mais completa do que há de novo no sistema evangélico, ele diz: porque eu não o recebi de ser humano algum, nem me foi ensinado, mas eu o recebi mediante revelação de Jesus Cristo (Gl 1.12). É evidentíssimo que o método do Espírito inspirador foi completar a revelação cristã segundo o princípio de uma série de desenvolvimentos convergentes, os últimos e mais elevados dos quais foram confiados a são Paulo e a são João. Esse fato voltará a nos aparecer; será o nosso principal guia na exposição bíblica da teologia. Enquanto isso, deve-se lembrar que esses desenvolvimentos terminaram com a revelação completa. A doutrina divina cessou então, e o dogma humano começou então a sua trajetória. A unidade da doutrina do Novo Testamento é perfeita. O apóstolo Paulo, que parece introduzir tantos elementos novos no seu ensino que é reivindicado por partidos muito opostos como o verdadeiro fundador da teologia cristã, é o mais enérgico de todos em afirmar essa unidade e em denunciar toda tendência a dividir a fé cristã em vários tipos. Irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, peço-lhes que todos estejam de acordo naquilo que falam e que não haja divisões entre vocês; pelo contrário, que vocês sejam unidos no mesmo modo de pensar e num mesmo propósito. … Será que Cristo está dividido? (1Co 1.10,13)
I, 17Credos e confissões. 2. Na história cristã o caso é diferente. A cristandade logo se dividiu em províncias: o período de unidade perfeita no ensino teológico foi muito breve. Este não é o lugar para discutir o caráter moral desse fato: é apenas com o fato que temos de lidar, e mesmo com ele só de modo preliminar.
Era patrística. (1) Durante os primeiros seiscentos anos, a era patrística propriamente dita, a unidade da Fé foi expressa pelos credos ecumênicos: o DOS APÓSTOLOS, que expandiu gradualmente a fórmula batismal; o NICENO, que introduziu uma definição mais teológica da Santíssima Trindade na Unidade; e o ATANASIANO, que expandiu esta ainda mais plenamente e lhe acrescentou a definição precisa da Encarnação. Mal os três credos haviam sido acolhidos na Fé universal, ocorreu a primeira divisão da teologia confessional: a que se deu entre as confissões ORIENTAL e OCIDENTAL. Começando pela diferença de uma palavra, a inserção do FILIOQUE para exprimir a processão do Espírito a partir do Filho, assim como a partir do Pai, a ruptura foi se prolongando, e as duas teologias têm tido desde então os seus tipos bem marcados: a do Oriente, contemplativa, mística, não progressiva, e que ensina mais pelo simbolismo do que por credos; a do Ocidente, abundante em análise, sempre progressiva, e que desenvolve cada verdade até as suas últimas consequências. O credo grego, ou oriental, representado principal, mas não exclusivamente, pela Igreja Ortodoxa da Rússia, atém-se às decisões dos sete concílios ecumênicos, de 325 a 787, e tem como base o Credo Niceno. Desde a Reforma, publicou várias confissões: a de Pedro Mogila, em 1643, os Decretos do Sínodo de Jerusalém, de 1672, e o Catecismo de Filareto, sancionado em 1839. A teologia oriental tem muitos pontos de distinção específica em relação à do Ocidente. Da católica romana, ela difere por rejeitar a doutrina do papado, por algumas modificações quanto aos sete sacramentos, por negar a Imaculada Conceição da Virgem, por fazer circular a Bíblia em língua vernácula e, como consequência da primeira dessas diferenças, pela afirmação da sua própria supremacia absoluta como a única representante ortodoxa e verdadeira do cristianismo na terra. Embora classifique o romanismo entre os cismas e as heresias, como o primogênito deles, ela, não obstante, concorda com Roma na grande massa das suas doutrinas, e não tem afinidade com o protestantismo, a não ser na rejeição de uma autoridade humana infalível e na consequente possibilidade da sua própria reforma.
I, 18Romanismo e protestantismo (2) Os tipos romanista e protestante de teologia dividem o mundo ocidental há três séculos: unidos como indubitavelmente estão em muitas das verdades mais fundamentais, as suas diferenças tocam quase todos os tópicos essenciais da administração da redenção e da presença de Cristo na sua Igreja. Essas diferenças nos aparecerão com frequência até demais; por ora, basta dizer que cada tipo de doutrina se desenvolveu num grande corpo de teologia. A base do romanismo foram, até pouco tempo, os símbolos, decretos e cânones TRIDENTINOS, ou seja, a sanção solene dada pelo Concílio de Trento, em meados do século XVI, aos dogmas que vinham crescendo nos tempos medievais e que foram formulados em oposição ao protestantismo. No presente século, as decisões do VATICANO sobre a Imaculada Conceição, em 1854, e sobre a infalibilidade papal, em 1870, foram acrescentadas aos decretos tridentinos e ao Catecismo Romano da época da Reforma. O PROTESTANTISMO como tal, isto é, o sistema geral de afastamento [N. do T.: assim no original, “decline”, aqui no sentido de recusa ou afastamento de Roma, não de decadência.] que tirou o seu nome do protesto contra Roma, tem muitas subdivisões, e as suas confissões Luterana e reformada. são muitas. Consideradas historicamente, elas se dividiram em duas na Reforma: a LUTERANA e a REFORMADA; os principais expositores da primeira foram Lutero e Melâncton, e os da segunda, Calvino e Zuínglio. Ambas são uma só na adesão aos três credos antigos, mas especialmente na restauração da Sagrada Escritura ao seu lugar supremo como padrão de fé, na defesa das doutrinas fundamentais da graça, que nos credos antigos não tinham suficiente destaque, e no estabelecimento da visão bíblica das relações pessoais do pecador com Cristo. Mas diferem em outros aspectos, principalmente no fato de a teologia luterana ser mais profundamente sacramental, e a reformada ser permeada pelo predestinacionismo revivido de Agostinho. O principal padrão da doutrina luterana é a Confissão de Augsburgo, de 1530, com os Catecismos de Lutero, de 1529, e a Fórmula de Concórdia, de 1577. Os principais padrões reformados foram a Confissão Helvética, de 1564, e o Catecismo de Heidelberg, de 1563, com as várias confissões da França, da Bélgica e da Escócia. A doutrina reformada se espalhou mais amplamente e hoje é representada por muitos formulários, entre os quais se podem classificar os Trinta e Nove Artigos e, de modo mais nítido, a Confissão de Westminster, que une a maior parte das comunhões calvinistas de língua inglesa.
I, 19Arminiana. (3) No começo do século XVII surgiu na Holanda a confissão ARMINIANA, ou, mais propriamente, REMONSTRANTE, sob a direção de Jacó Harmen, Armínio, como protesto contra o que se chamou, a partir do seu segundo fundador, CALVINISMO. O princípio supremo deste último tipo de doutrina é a soberania absoluta de Deus: o seu melhor representante é a Confissão de Westminster. O tipo arminiano tem por princípio a universalidade do benefício da expiação e a liberdade restaurada da vontade humana como elemento da doutrina dos decretos divinos. A Remonstrância apresentada pelos seguidores de Jacó Armínio continha cinco artigos, cuja substância é a seguinte: que Deus elegeu para a salvação, ou para a reprovação, aqueles cuja fé ou cuja incredulidade final ele previu; que Jesus Cristo morreu por todos, mas somente os crentes recebem o benefício; que o arrependimento e a renovação são obra do Espírito; que a graça que os produz pode ser resistida até o fim; que a questão de uma perseverança final necessária deve ficar em aberto. Esses cinco pontos, o último dos quais foi depois tornado mais explícito, foram o fundamento do arminianismo na Holanda e na Inglaterra, onde ele levedou em grande medida o pensamento teológico. No avivamento do século passado, os metodistas originais distinguiam-se dos seguidores de Whitefield como arminianos. Mas os sucessores imediatos de Armínio se afastaram da sã fé em alguns pontos; e, em seu próprio país, o sistema está profundamente tingido de socinianismo e racionalismo.
I, 20(4) Todos esses tipos confessionais se apresentam nos ensinos sistemáticos das comunhões maiores em que a Igreja moderna Unitarista. se divide. Nem há outros, a não ser que se admita um tipo UNITARISTA: houve depois da Reforma uma confissão SOCINIANA; mas esta, como confissão, desapareceu, e quase nenhum vestígio das suas peculiaridades se encontra no unitarismo moderno, que tem o seu campo mais produtivo na América e mal se pode distinguir do teísmo puro. Nem se pode dizer que exista um sistema ECLÉTICO ou LATITUDINÁRIO, pois essas palavras não se aplicam a nenhum tipo particular de doutrina cristã.
Metodista (5) A teologia METODISTA, que se espalhou durante o século passado por uma área muito ampla da cristandade, é católica no melhor sentido: mantém os Artigos doutrinários da Igreja da Inglaterra, incluindo os três credos, e, portanto, sustenta a doutrina geral da Reforma. É arminiana em oposição ao calvinismo, mas em nenhum outro sentido. As suas peculiaridades são muitas e dizem respeito principalmente à natureza e à extensão da salvação pessoal; e, quanto a elas, os seus padrões são certos escritos de John Wesley e outros documentos dotados de autoridade.
I, 21Tipos gerais. III. Há uma terceira perspectiva a adotar quanto ao desenvolvimento na teologia da Igreja cristã: a que diz respeito à forma que ela tomou, em todas as épocas, das circunstâncias externas. Também isso se verá melhor numa revisão breve, que sirva para indicar a importância do estudo da história eclesiástica da doutrina, ou do dogma, e, ao mesmo tempo, prepare o caminho para os resumos históricos que serão dados sob os vários tópicos do curso que se segue.
Escolas patrísticas. 1. Na Igreja patrística (incluindo os períodos pré-niceno e pós-niceno até Gregório, 600 d.C.) havia escolas de pensamento teológico que representavam quase todas as tendências posteriores. Por exemplo, a Ásia Menor e Antioquia, Alexandria e o Norte da África foram, respectivamente, centros de três tipos muito distintos de ensino: o primeiro, mais fiel à Escritura e à tradição apostólica; o segundo, mesclando ao seu cristianismo a especulação filosófica, a interpretação alegórica e o elemento místico; e o terceiro, duro, realista e dialético. Os primeiros escritores dessas escolas distintas deixam transparecer a influência delas em todas as épocas e em todas as suas visões da doutrina cristã; e a mesma influência se estende, mais ou menos, pelos tempos subsequentes. Essas escolas ainda reinam, embora sem os nomes.
Idade Média. 2. Durante a primeira parte da Idade Média, a superstição moldou a tradição em formas de doutrina que se afastavam cada vez mais do padrão bíblico. Foi, contudo, um período de relativa estagnação, em contraste com a atividade luminosa da época pós-nicena e com a profunda devoção teológica dos escolásticos, a começar por Anselmo, por volta de 1100. Escolástica. A teologia escolástica, nas universidades da cristandade, elaborou os materiais que herdou em formas sistemáticas, que levaram a sutileza dialética e a especulação filosófica ao seu ponto mais alto. Pelo labor de muitas mentes incansáveis, ela lançou os alicerces do sistema completo do catolicismo romano, tal como foi formulado no Concílio de Trento; ao mesmo tempo, transmitiu os seus métodos ao protestantismo, cujo primeiro século quase rivalizou com a obra dos doutores medievais em rigor analítico e em completude. Por mais que se desconte do valor dos seus resultados, a Igreja cristã deve muitíssimo à diligência e à devoção dos escolásticos. A teologia sistemática teve origem nos seus trabalhos.
I, 22Misticismo 3. Através de tudo isso, porém, lutou para abrir caminho o espírito místico, que dominou grande parte da teologia escolástica e penetrou todos os ramos da Igreja cristã, influenciando alternadamente as doutrinas de cada um. A sua lei de desenvolvimento é o ensino independente de Deus em comunhão com o espírito humano: independente, primeiro, por dispensar os meios externos de graça e, segundo, por ser dado ao indivíduo à parte de todos os outros. A teologia de todos os períodos e de todas as regiões da cristandade recebeu a marca dessa lei, que opera sem lei: a sua ação tocou o panteísmo num polo e, no outro, apenas confere um colorido místico à doutrina e à devoção cristãs. Consequentemente, é impossível caracterizar a teologia mística como um todo distinto; e é ainda mais evidentemente errado marcá-la com uma condenação indiscriminada. O seu primeiro representante cristão, o pseudo-Dionísio, ensina, com todos os seus erros, uma doutrina sublime do Supremo e da comunhão do homem com ele; e o mais puro espírito de consagração e renúncia de si permeia os escritos de Escoto Erígena e de outros místicos que mantinham as principais doutrinas da Fé cristã. Lutero fez da Theologia Germanica, obra que transmitiu aos tempos modernos o misticismo antigo, quase um dos manuais da Reforma. Daquele tempo em diante, a teologia devocional mística reaparece em todas as regiões da cristandade. O romanismo teve vários tipos dela na Espanha, na França, na Itália e na Alemanha; e os seus escritores místicos, à parte os seus erros não evangélicos e quietistas, elevam a devoção a uma região muito alta. Cada comunidade do protestantismo teve os seus representantes tanto do misticismo são como do misticismo doentio. Em algumas, ele passou a uma teosofia transcendental, da qual Jacob Böhme foi o expositor; em outras, a uma independência fanática da revelação externa e à indiferença para com a comunhão comum da Igreja; em outras, a uma religião visionária de sentimento e emoção intuitivos. Mas as suas manifestações mais sadias têm sido simplesmente um tributo ao misticismo puro do Novo Testamento, um protesto contra a mera forma e exterioridade da piedade, e a verdadeira expressão de tudo o que há de elevado e de não terreno na comunhão com Deus.
I, 23Racionalismo. 4. Em todas as épocas, mas sobretudo nestes últimos tempos, a teologia na Igreja tem sido influenciada por uma tendência oposta à do misticismo: o espírito do racionalismo, que faz do entendimento humano a medida da verdade que aceita. O racionalismo é filosófico ou crítico. O primeiro procurou refundir a doutrina cristã e torná-la a expressão multiforme das suas próprias ideias; o segundo foi destrutivo, eliminando da fé tudo o que o raciocínio humano não consegue explicar. Nessas duas formas, ele influenciou amplamente o desenvolvimento da teologia cristã, embora se possa dizer que ambas levam a sua doutrina para uma região inteiramente fora da cristandade. O termo racionalismo, enquanto designa um dos elementos que moldam o pensamento religioso, pode ficar restrito a este último sentido. É o espírito que trabalha sem cessar para tornar as verdades da revelação aceitáveis ao entendimento humano. Num sentido muito diferente do sentido do apóstolo, ele só dá testemunho daquilo que viu: viu apenas com o olho da razão. Aceitando a Fé cristã como um todo, pretende dar dela uma boa explicação às intuições e aos juízos dos homens; mas isso à custa de tudo o que é transcendente, misterioso e insondável nos caminhos de Deus com a humanidade.
Teologia especulativa. 5. O outro aspecto do racionalismo pode ser chamado, com mais propriedade, de especulação em teologia. A especulação parte de certas determinações a priori [anteriores à experiência] que o pensamento encontra em si mesmo como fundamento necessário e primário de todo ser e de todo pensar. Fixa-se no seu ponto de observação e especula, isto é, contempla atentamente, a partir desse ponto de vista, todo o campo das possibilidades. Daí constrói a sua própria filosofia da religião com base em princípios subjetivos. Seu alvo é compreender o cristianismo como expressão de leis eternas que governam o universo. O resultado tem sido uma variedade sempre cambiante de concepções teológicas da totalidade das coisas. As características de cada sistema foram marcadas por alguma categoria primária ou lei do pensamento a que tudo se reduz: no de Escoto Erígena, era a ideia da Natureza incriada, criadora e criada; em Leibniz, a Mônada; em Espinosa, a Substância única e eterna, com os seus atributos de pensamento e extensão; nas filosofias transcendentais alemãs, todas mais ou menos teológicas, a ideia do absoluto, o Ego e o non-Ego [o eu e o não eu], a Ideia. Cada um desses sistemas faz da revelação cristã a expressão eterna e necessária do seu próprio pensamento, gerado de si mesmo. Mas é preciso mencionar outra aplicação do termo especulativo em relação à teologia: a que implica simplesmente uma disposição de levar a investigação para dentro da orla de densas trevas que circunda o círculo de toda doutrina revelada, e de preencher, em cada ponto, os abismos do sistema da verdade. É o exercício indevido da imaginação no domínio religioso; e só difere do racionalismo nisto: não reduz a fé ao conhecimento, como se precisássemos conhecer perfeitamente para crer, mas antes se esforça por incluir na esfera do conhecimento aquilo que é deixado à aceitação da fé pura e simples. Com a teologia especulativa, seja qual for a sua definição, pouco devemos ter que ver.
I, 24Desenvolvimento conforme os tempos. 6. Por fim, há desenvolvimentos saudáveis na teologia, especialmente em alguns dos seus ramos, que são guiados pelo avanço geral das coisas humanas. Com o progresso da cultura humana, a teologia progride. Em sua relação com a ciência, a filosofia, a erudição e a civilização em geral, ela dá e recebe. Absorve as boas influências do tempo e contrabalança as más. Começa, por assim dizer, de novo em cada terra onde é plantada, e cresce à medida que essa terra cresce. A árvore é a mesma em toda parte, e o seu fruto é o mesmo; mas o seu desenvolvimento varia com as influências do solo e da cultura. Em cada igreja cristã, a teologia está, neste momento, passando como ciência por um aperfeiçoamento múltiplo e evidente; e cada comunidade contribui com a sua parte para o avanço geral. Mas isso nos leva ao último ramo da nossa proposição geral.
A teologia é uma ciência. A teologia cristã é a disposição sistemática das verdades relativas à revelação de Deus. Ela pode reivindicar o caráter de ciência: o seu alvo é científico, por ser ela o fundamento da religião prática; também os seus métodos são científicos, no melhor e único sentido legítimo. Mas a ciência teológica tem peculiaridades que a distinguem de todas as outras e que todo estudante deve ter em vista.
I, 25A ciência e a arte. I. O alvo da teologia é expor os fundamentos e os princípios, a conexão e as harmonias, os resultados e as aplicações dos fatos da revelação. Em comum com toda ciência, ela obedece à lei da mente humana, que exige que os materiais do seu conhecimento sejam generalizados por indução e dispostos de modo sistemático; e, em comum com toda ciência, dispõe os seus materiais para o uso e a aplicação prática. A teologia é a ciência, e a religião é a arte. As duas derivações da palavra RELIGIÃO, de relegere [repassar, reler] ou de religare [religar], fundem-se, como vimos, para fazer dela a prática dos deveres que decorrem da relação do homem com Deus. Seja mais subjetiva, segundo a primeira, seja mais objetiva, segundo a segunda, ela é, e sempre foi, a arte ou a prática do serviço divino. As razões, as obrigações, as leis, os argumentos e os resultados desse serviço são expostos na ciência que é o seu fundamento. E, assim como a religião vem de Deus, também a teologia vem dele. A Bíblia está tão cheia da ciência quanto da arte da religião. Veremos mais adiante que há uma distinção entre a teologia bíblica e a sistemática; mas essa distinção não implica excluir da Bíblia a ciência teológica: quase todo escrito que nela se encontra se recusa a admiti-lo. Onde quer que se ensine o dever do homem para com Deus, é preciso que os seus fundamentos sejam estabelecidos e inculcados; e a Sagrada Escritura estimula tanto o estudo teórico quanto o estudo prático da verdade divina.
Métodos. II. Os métodos da teologia são científicos. Ela observa, testa e organiza fatos e faz generalizações; usa tanto o processo indutivo quanto o dedutivo de argumentação; depende das mesmas leis primárias do pensamento em que esses processos se apoiam; e parte, como deve partir toda investigação humana legítima, de uma fé firme em certas verdades que estão por trás da experiência, por estarem entretecidas na própria trama da nossa mente: tais como a lei primária da causalidade e tudo o que ela implica, e a validade daquelas leis da crença que são inatas. Mas os fatos da nossa ciência são colhidos em regiões das quais algumas são tidas como vedadas à observação científica. Há o depósito sagrado de verdades originais na constituição da natureza humana. Há as economias da criação e da providência. Há o tesouro sem limites da Palavra de Deus; e há os inúmeros testemunhos da experiência comum, dos quais a Escritura é a pedra de toque, ao passo que eles confirmam a Escritura. A rigor, todas essas regiões de observação são uma só, visto que todo elemento da consciência religiosa e toda lição do universo exterior estão entretecidos na trama da revelação divina. Não podemos dar mais um passo sem a certeza de que esses são campos legítimos de observação, cujos fatos ou fenômenos são tão reais quanto os fatos de que trata a ciência física. Se isso for negado, a ciência teológica se dissipa de imediato. Admitido isso, resta apenas a observância cuidadosa, honesta e religiosa das leis aceitas do raciocínio. O resultado, seja por análise, seja por síntese, é a apresentação científica de cada doutrina, de cada classe de doutrinas e de todo o âmbito da teologia. Desse modo, isto é, pelos processos rigorosos de indução e dedução, a teologia sistemática chega a uma apreensão clara e distinta de cada artigo da Fé. Por exemplo, a sua doutrina do pecado resulta de um exame amplo e exaustivo de grande número de testemunhos da Escritura e da experiência, que impõem à mente a convicção de que uma teoria, e somente uma, pode explicar todos os fatos. O mesmo se pode dizer da sua doutrina da Pessoa de Cristo, estabelecida indutivamente pela comparação de muitas passagens, nenhuma das quais, isoladamente, contém uma declaração formal. Disso teremos muitas outras ilustrações à medida que avançarmos.
I, 26Enciclopédia teológica. III. Daí resulta uma distribuição das verdades da revelação em formas sistemáticas, que se combinam numa enciclopédia completa da ciência teológica. Uma visão abrangente dessa enciclopédia a divide em teologia bíblica, histórica e dogmática; cada uma delas, porém, penetra mais ou menos as outras, e todas se combinam para formar o que se pode chamar de teologia sistemática.
Bíblica. 1. A TEOLOGIA BÍBLICA, em seu sentido mais amplo, inclui a crítica e o estudo do texto da Escritura; a sua construção como um todo; as leis da exegese e a sua aplicação, ou hermenêutica; a sua arqueologia, geografia e história; e tudo o que pertence à introdução à Bíblia. Num sentido mais restrito, é a disposição da teologia da Escritura em seus próprios termos e segundo as suas próprias leis de desenvolvimento e classificação. Nesse sentido, é o fundamento de toda teologia propriamente dita: cada doutrina, como se verá, tem o seu próprio e adequado desenvolvimento bíblico.
I, 27Histórica. 2. A TEOLOGIA HISTÓRICA abrange a história eclesiástica em todo o seu âmbito, ou seja, a história do reino de Deus dentro e fora da Escritura, incluindo tudo o que pertence à Igreja, as suas antiguidades, cerimônias e jurisprudência, mas especialmente o progresso e o desenvolvimento da doutrina cristã ao longo das épocas de controvérsia e de formação. É neste último sentido que usaremos o termo, procurando apresentar cada artigo específico da Fé em sua evolução nos sistemas eclesiásticos.
Dogmática. 3. A TEOLOGIA DOGMÁTICA OU DOUTRINÁRIA inclui tanto a doutrina quanto a ética do cristianismo em sua disposição científica, com a sua apologia e defesa; nela, a doutrina tal como ensinada na Escritura e o dogma tal como ensinado na Igreja são uma só coisa.
Sistemática. 4. Pode-se dizer que a TEOLOGIA SISTEMÁTICA inclui, mais ou menos, todas essas: toma o sistema de doutrina como base, mas o ilustra pela história e o verifica pela Escritura. Tem esta peculiaridade: enquanto as outras três podem ser independentes de qualquer padrão doutrinário particular, toda obra de teologia sistemática traz, em maior ou menor grau, a marca de um selo confessional.
O presente sistema. 5. O presente curso será uma ilustração desse fato, expondo o âmbito da verdade divina, seja como apresentada nas formas da Escritura, seja como moldada pelo desenvolvimento eclesiástico, Análise. seja como enunciada dogmaticamente em seus resultados. Tratará primeiro da religião cristã e dos seus documentos como a REGRA DIVINA DA FÉ, incluindo os temas da revelação, da inspiração e do cânon, com aquela exposição das credenciais ou evidências da Fé que for compatível com o caráter estritamente dogmático do nosso curso. Essa é a introdução necessária à doutrina suprema a respeito de DEUS: o seu ser, a sua essência, os seus nomes e atributos. O exame desses assuntos levará às relações entre DEUS E A CRIATURA. Segue-se então a doutrina a respeito do PECADO: a sua origem, natureza e universalidade. O MINISTÉRIO MEDIADOR DE JESUS CRISTO, a sua Pessoa e a sua obra, tal como objetivamente consumada na terra e no céu, exigirá em seguida atenção prolongada e conduzirá à ADMINISTRAÇÃO DA REDENÇÃO, que inclui a salvação pessoal, a ética do evangelho e as instituições da Igreja cristã. Tudo há de terminar, necessariamente, com as doutrinas relativas às ÚLTIMAS COISAS.
I, 28Unidade da teologia. IV. É de grande importância que a mente esteja impregnada, desde o início, do senso da possibilidade e da vantagem de um sistema bem articulado. Na unidade orgânica da verdade cristã, cada doutrina tem o seu lugar em algum ciclo de doutrinas, enquanto todos os sistemas menores giram em torno do seu centro comum. E um dos frutos do estudo teológico é capacitar o estudante a situar de imediato cada tema. Mas não só isso. Há harmonias ricas e profundas entre essas verdades; e cada doutrina, tendo o seu lugar próprio, tem também as suas relações com quase todas as outras: o discernimento rápido dessas relações é outro fruto da investigação devota e diligente. Juntando as duas coisas, o alvo elevado de quem é proficiente neste estudo deve ser descobrir todas as afinidades e conexões das verdades do sistema cristão. Pode-se objetar que tal precisão científica nas definições e demarcações da doutrina não combina com o espírito livre da teologia cristã. Costuma-se apontar para a exuberância rica e irregular da Escritura. Mas a Escritura está inteiramente do lado da ordem. Algumas partes dela são tão sistemáticas quanto poderiam ser; e nenhuma é desprovida de sistema. Ela tem, e nos manda ter e conservar, a ὑποτύπωσιν, o padrão das sãs palavras (2Tm 1.13). São Paulo distingue entre as palavras da fé e as palavras da boa doutrina (1Tm 4.6), que ele exorta Timóteo a combinar em sua unidade. É claro que o esforço de sistematizar deve ser governado por um alvo mais alto e protegido contra o perigo a que está particularmente exposto. A teologia, a cidade de Deus, está edificada, por assim dizer, sobre sete colinas, que são as grandes doutrinas que se podem discernir como fundamentais. Essas várias colinas do Senhor não estão nitidamente separadas umas das outras, mas lançam os seus contrafortes em todas as direções, de modo que é difícil mostrar onde termina um departamento da verdade e começa outro. Manter as distinções sem marcá-las de modo mecânico demais é o alvo da sã ciência teológica.
Peculiaridades. V. Resta apenas assinalar as peculiaridades sagradas deste estudo. Por mais verdadeiro que seja que os seus métodos são os mesmos empregados nas ciências indutivas, também é verdade que os seus materiais são colhidos, em parte ou principalmente, numa região que a ciência meramente humana não consegue penetrar e onde só se alcança um tipo especial de demonstração. É errado pôr a teologia no mesmo nível das ciências indutivas: ela está abaixo delas, ou acima delas, ou ambas as coisas, conforme o espírito com que é considerada.
I, 29Fé. 1. Há um sentido em que todo o círculo da verdade teológica é matéria de fé: mesmo os fatos que pertencem à consciência de todo homem estão ligados a grandes verdades que são entregues à fé a partir do mundo invisível. Ora, a fé é a certeza interior das coisas que não se veem, e torna os materiais da teologia tão reais e certos quanto as coisas de que trata a ciência física. Mas essa fé não é inteiramente comum aos homens; está ligada a certas condições morais; e, para os que não a têm, a teologia, em qualquer forma, não passa de uma pseudociência incompreensível. Eles voltam contra ela as suas próprias palavras e a estigmatizam como ciência falsamente assim chamada (1Tm 6.20) [N. do T.: a NAA traz “daquilo que falsamente chamam de ‘conhecimento'”; Pope segue a KJV, que diz science, “ciência”, e é nessa palavra que o argumento se apoia]. Não que rejeitem inteiramente o estudo das coisas divinas: para eles também existe uma Ciência das Religiões, isto é, das superstições e ilusões quase espirituais da humanidade. Para os que creem, ela é a mais verdadeira, a mais abrangente e não a menos exata de todas as ciências; e não é culpa deles se ela continua sendo, apesar disso, uma região de mistérios esotéricos na qual só eles são iniciados.
Mistério. 2. O mistério está por toda parte neste conhecimento: os seus elementos mais simples são coisas insondáveis para as faculdades do homem. Isso é verdade, até certo ponto, de todas as outras ciências; todas elas têm os seus mistérios, nos dois sentidos bíblicos do termo: coisas trazidas à luz depois de longo tempo ocultas, e coisas insondáveis, das quais só se veem os sinais. As segundas sempre acompanham as primeiras; quando o mistério deixa de ser algo vedado ao conhecimento, não deixa de ser algo vedado à razão. Isso é verdade quanto às coisas impenetráveis da natureza; é um engano pensar que, quando a ciência descobre as leis que governam os fenômenos maravilhosos de que trata, o mistério cessa. Os elementos mais simples de cada ramo do conhecimento são coisas insondáveis para as faculdades humanas. Supondo-se que a pesquisa científica consiga penetrar todos os segredos da natureza, a ponto de achar a causa secundária de cada efeito, ainda resta um grande resíduo sobre o qual ela paira, à espera de uma luz que provavelmente nunca virá. Mas o mistério teológico é, sem dúvida, grande (1Tm 3.16). Cada doutrina, por mais luminosa e bendita que seja em si mesma, está cercada de densas trevas; cada página e cada linha do seu registro “exit in mysterium” [termina em mistério]. Há, e sempre haverá, grandes antíteses, ou, como os homens as chamam, contradições no pensamento, que a nossa capacidade limitada não consegue conciliar. O pensamento metafísico é obrigado a deixar essas antinomias sem solução onde quer que o finito e o infinito se encontrem. A nossa ciência também tem a sua região especulativa, até onde a razão se eleva, mas aonde o entendimento lógico não pode segui-la. Além disso, e por fim, ela tem de lidar com revelações que aterram as mesmas mentes que desconcertam: as verdades tremendas e temíveis que são o seu lado escuro, as quais têm os seus reflexos na experiência humana e no curso ordinário da natureza, mas nem por isso deixam de ser pedra de tropeço. Tudo isso é a cruz da teologia, que para ela mesma é a sua glória e, para o homem incrédulo, o seu opróbrio.
I, 30Petitio principii. 3. Como toda outra ciência, mas num sentido peculiar, a teologia tem em si muito de “petitio principii” [petição de princípio]. Pressupõe muitos axiomas primeiros irredutíveis. A consciência de si, a consciência de um mundo que não é o eu, a consciência de Deus, que não é nem o eu nem o mundo: podemos procurar demonstrá-las, mas elas estão postuladas na própria demonstração. Ficará claro, à medida que avançarmos, com que frequência e de que maneiras variadas a teologia parece, em suas credenciais gerais e na defesa de cada doutrina, argumentar em círculo. Essa é uma necessidade da qual ela nunca precisa envergonhar-se, e nenhuma mente verdadeiramente filosófica ou científica lhe imputará isso como falta.
Linguagem convencional. 4. Em comum com todas as ciências, a teologia tem a sua fraseologia de convenções: em parte por precedente ou sugestão da Escritura, em parte por designação humana. Os termos convencionais são necessários em todo conhecimento: os símbolos das ideias, uma vez fixados, são, e devem ser, imutáveis. A disposição sistemática da verdade divina os exige e os tem recrutado em grande variedade. Ela tem a sua terminologia técnica precisa, cuja fixação resultou de sãos processos indutivos e cuja manutenção exata dá ao nosso estudo a sua precisão. Revelação, Inspiração, Escritura, Fé, Trindade, Substância, Pessoa são exemplos de termos que têm o seu sentido convencional estabelecido. A importância disso pode ser ilustrada, em particular, pelo caso de dois desses termos. Inspiração é uma palavra de uso comum para designar uma influência soprada sobre a mente, ou nela infundida, a partir de qualquer fonte externa, em oposição às operações próprias e inerentes da mente: daí ter ela uma aplicação filosófica e literária corrente. Em assuntos religiosos, também designa qualquer influência ou energia do Espírito Santo no despertar do sentimento espiritual. Mas ela tem em teologia um sentido convencional, limitado à disciplina direta e específica do Espírito inspirador, que preparou os escritores da Escritura para a sua tarefa; e é estritamente a esse uso que o termo deve ser reservado. Do mesmo modo, a palavra Pessoa tem uma variedade de aplicações. Designa, em geral, o fundamento da personalidade, ou da ação independente, consciente e responsável. Mas tem em teologia uma relação específica tanto com a doutrina a respeito de Deus quanto com a doutrina a respeito de Cristo. Quanto à primeira, é usada convencionalmente para distinguir as três Pessoas na unidade da única essência divina. O Deus pessoal nos é conhecido como três Pessoas; e o termo, há muito estabelecido, figura simplesmente como o símbolo de um mistério incompreensível. Quanto à segunda, a Pessoa indivisível de Cristo designa o resultado da união das suas duas naturezas. O termo convencional tem aqui outro uso, distinto do primeiro, sendo de novo o símbolo de um mistério tão insondável quanto o da personalidade trina. O mesmo termo tem um uso convencional diferente nesses dois assuntos supremos; e as suas aplicações devem ser lembradas e respeitadas. Mas cada departamento tem o seu próprio vocabulário teológico específico. Esses termos se justificarão por si mesmos à medida que avançarmos; enquanto isso, o estudante deve compenetrar-se da sua importância, tomando como lei do seu estudo defini-los cuidadosamente e retê-los com tenacidade.
I, 31Ensino divino. 5. Por fim, a ciência teológica tem uma sanção, uma influência e um controle divinos que nenhuma outra pode reivindicar. Há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso lhe dá entendimento (Jó 32.8) em todos os ramos do conhecimento. Mas na teologia, que busca em toda verdade a sua relação com Deus e com a eternidade, há a garantia de uma orientação especial do Espírito Santo de Deus. O testemunho dele não atesta apenas que o crente foi pessoalmente aceito; é também um testemunho em favor da doutrina sobre a qual repousa a experiência deste. E nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente (1Co 2.12). Essa declaração de são Paulo se refere a nada menos que todo o âmbito da teologia, uma vez que esta desdobra as profundezas de Deus (1Co 2.10); e, mais ainda, assegura-nos que o conhecimento suficiente dessas profundezas não é prerrogativa somente dos apóstolos inspirados, mas é privilégio comum de todos os que recebem o Espírito divino como Mestre. O estudante de teologia que não grava essa verdade no coração desde o início segue o seu caminho perigoso sem o mais forte incentivo para o estímulo dos seus esforços. Neste estudo, o Espírito Santo faz mais do que abençoar a mente diligente: dirige as suas buscas, molda as suas conclusões e santifica os seus raciocínios. A primeira condição para o êxito no estudo desta ciência é a submissão da razão ao ensino do único Deus sábio, nosso Salvador (Jd 25) [N. do T.: a NAA traz “o único Deus, nosso Salvador”, sem “sábio”, palavra que está na KJV seguida por Pope]. Nas Sagradas Escrituras, isso é estabelecido como axioma primário. Ninguém que o despreze ou negligencie será jamais mais do que um aprendiz, sempre aprendendo e nunca conseguindo chegar ao conhecimento da verdade (2Tm 3.7); mas são Paulo, usando a mesma palavra forte para uma apreensão experiencial perfeita, diz em outro lugar que Deus deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1Tm 2.4), εἰς ἐπίγνωσιν ἀληθείας [N. do T.: a expressão grega é a mesma nos dois versículos; a NAA traduz “conhecimento da verdade” em 2Tm 3.7 e “pleno conhecimento da verdade” em 1Tm 2.4]. A percepção intelectual e espiritual da verdade, negada num caso e afirmada no outro, é expressa por uma frase que o apóstolo nunca usa senão para a mais alta certeza do conhecimento. A soma de tudo é que ninguém que confie com firmeza no Mestre celestial deixará de alcançar a plena convicção do entendimento (Cl 2.2), pelo menos em relação àquele conhecimento que é tudo o que é essencial ao homem: O MISTÉRIO DE DEUS, que é CRISTO.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 1-32, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.