W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · A regra divina da fé
A regra divina da fé. A TEOLOGIA cristã, como ciência do cristianismo, a religião una, perfeita e única, fundamenta-se nos registros documentais da revelação que Deus fez de si mesmo e da sua vontade em Cristo Jesus. Por isso, a sua primeira investigação deve necessariamente voltar-se para a natureza e a autoridade dos seus Escritos Sagrados, que contêm ao mesmo tempo o desenvolvimento histórico e o resultado acabado das revelações divinas à humanidade. Uma só proposição dá aqui o resumo de toda a verdade: as Sagradas Escrituras são a regra divina da fé. Essa afirmação, quando desdobrada, abre três campos de investigação. Primeiro, elas são os documentos e o depósito da revelação cristã, ou da Fé cristã, que é a consumação de todo o conhecimento religioso. Segundo, são divinas em sua origem: são produto da inspiração do Espírito Santo. Terceiro, são a regra da Fé, por formarem um corpo de Escrituras canônicas que regula para sempre a doutrina e o ensino da Igreja cristã. Daí tiramos as três grandes palavras que encabeçam todo o corpo do dogma relativo aos oráculos escritos de Deus: Revelação, Inspiração, Cânon.
A Fé. Estes dois termos podem ser estudados como contrapartidas e, em certo sentido, como sinônimos. A Fé cristã é a Revelação aperfeiçoada, e a Revelação aperfeiçoada é a Fé cristã; e uma e outra, separadas ou juntas, coincidem, de modo geral, com as Escrituras cristãs. Mas a Revelação as refere a Deus, o Revelador; a Fé cristã as considera como recebidas pelo homem. Será útil deixar que essa distinção governe o nosso tratamento de todo o assunto. A fé humana e a revelação divina são DUPLAS, UMA DIANTE DA OUTRA (Eclesiástico 42.24). Aquilo que agrada a Deus dar a conhecer, a aceitação do homem converte em sua Fé.
Revelação. O termo revelação significa, em seu sentido teológico último e mais elevado, o desvelar, ou o descortinar, do propósito redentor de Deus para com a humanidade. Essa definição a distingue de manifestações mais gerais do Ser Supremo e dá à revelação cristã o seu caráter distintivo, visto que ela inclui todas as outras formas de ensino divino e lhes acrescenta o seu próprio complemento e a sua consumação. É, ao mesmo tempo, a palavra mais elementar e a mais abrangente do nosso sistema teológico.
O termo. A revelação, tomada em seu sentido mais amplo, inclui toda manifestação de Deus à consciência e à percepção do homem, seja na constituição da mente humana, seja na estrutura da natureza, seja nos processos do governo providencial. O termo é usado para abranger todo o âmbito das manifestações divinas: quer em ato, quer em palavra; quer pelo contato imediato do Espírito eterno com a alma humana, quer por instrumentos mediadores; quer da verdade em geral, quer de algum sinal especial da vontade divina. Nessa aplicação mais geral, usam-se outras palavras além de ἀποκάλυψις, ou revelação: por exemplo, φωτίζειν, dito da luz do Filho na razão humana, a luz que, vinda ao mundo, ilumina toda a humanidade (Jo 1.9); φανεροῦν, dito da declaração da glória divina no universo e do testemunho do Supremo a todos os homens, a quem o que se pode conhecer a respeito de Deus é manifesto (Rm 1.19), com referência à sua condução providencial dos gentios, diante dos quais não deixou de dar testemunho de si mesmo, οὐκ ἀμάρτυρον (At 14.17). Para o nosso propósito presente, basta que todas essas revelações e todos esses métodos de revelação, inferiores, menos restritos ou impróprios, sejam assumidos na Revelação propriamente dita. Os registros da Fé são os registros de todos os ensinos que, muitas vezes e de muitas maneiras (Hb 1.1), a precederam e a prepararam. Há, porém, um sentido especial e limitado do termo. Mas, antes de considerá-lo mais detidamente, convém notar algumas distinções teológicas que conduzem a ele.
I, 37Desvelamento e manifestação. 1. A palavra revelação une as duas ideias de um desvelamento divino, ou ἀποκάλυψις, e de um dar a conhecer, ou φανέρωσις, dos mistérios da religião, ou da relação da alma com Deus. Devemos lembrar o sentido convencional desses termos na teologia. Há segredos gradualmente desvelados nos mundos da mente e da matéria, cujo lento descortinar foi designado para ser o alvo e a recompensa da ciência humana; mas não os chamamos de mistérios. Nem chamamos de revelação a sua descoberta, a não ser na medida em que se ligam diretamente à religião e são assumidos na economia do governo providencial do mundo.
Geral e especial. 2. Isso leva a outra distinção: a revelação, neste sentido teológico mais elevado do termo, é geral e especial. Como GERAL, ela é sem dúvida comum à raça humana como tal: é o fundamento do que se pode chamar teologia natural e religião natural. Embora, como vimos, a palavra mais elevada não seja usada para esse desvelamento universal de Deus na criatura, ele pode ser chamado de revelação natural, em distinção da revelação sobrenatural. Esta última é ESPECIAL, por ser comunicada não tanto no homem quanto ao homem, por meio tanto de obras divinas como de palavras divinas, conforme se verá mais adiante.
Externa e interna. 3. A revelação externa e a interna devem ser distinguidas: a primeira é dada, por assim dizer, objetivamente e para todos; a segunda é comunicada de modo especial aos órgãos da revelação e àqueles que a recebem pela fé. As duas se unem nas palavras de são Paulo: segundo uma revelação, me foi dado a conhecer o mistério, o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como agora foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, pelo Espírito (Ef 3.3-5). Aqui está a revelação especial, que não se incluía nas anteriores manifestações gerais de Deus; a revelação feita aos órgãos da inspiração como um corpo; e o desvelamento interno feito a são Paulo pelo Espírito, para manifestar a todos qual é a dispensação do mistério (Ef 3.9). Mas é evidente que toda revelação externa precisa ser também interna, embora não se possa dizer o inverso com a mesma propriedade.
A revelação única. A revelação, no sentido mais estrito, mais profundo e mais pleno, é o desdobramento do conselho eterno de Deus em Cristo para a restauração do homem à comunhão com ele. Essa é a soma e a substância da verdade, segundo é a verdade em Jesus (Ef 4.21); é a conclusão de toda a matéria da manifestação divina ao homem; e, como tal, é aperfeiçoada nas Escrituras cristãs, isto é, no testemunho final de Jesus. O testemunho dele é a última palavra de toda revelação objetiva. Há nessa definição três pontos salientes: o único Propósito eterno em Cristo, o Revelador; a Escritura perfeita; e a identidade, ou melhor, a coincidência, dos oráculos cristãos com a Fé cristã.
O propósito único. 1. A revelação propriamente dita está consagrada ao mistério oculto juntamente com Cristo, em Deus, o único Segredo que ela desdobra. Esse é o tema comum dos profetas, dos apóstolos e do próprio Cristo. É a VERDADE ÚNICA de toda a Palavra de Deus. Todo o alcance das suas revelações, em todas as suas muitas formas, é governado por esse propósito supremo, e todas pagam o seu tributo a esse único tema. Cristo, que é ele mesmo a Soma de toda revelação, é também ele mesmo o único Período. Revelador ou Apocaliptista. Ele é o Revelador em ato e em palavra. Primeiro, e acima de tudo, em ato. Ele mesmo é a revelação pessoal de Deus e de todo o seu eterno propósito para com a raça humana. Essa verdade profunda do cristianismo é pressuposta em todo o Novo Testamento. Pode ser estudada na combinação de várias passagens paulinas. Na primeira, o grande mistério da piedade é apresentado como manifestado na carne (1Tm 3.16): isso se refere à pessoa de Cristo encarnado, que em outro lugar é chamado o mistério de Deus, que é Cristo (Cl 2.2), o único Segredo a ser revelado, em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Cl 2.3). Além disso, diz-se que essa manifestação é refletida pelo espelho do evangelho, que consuma todas as revelações divinas: E todos nós, com o rosto descoberto, contemplando como por espelho a glória do Senhor (2Co 3.18) [N. do T.: a NAA traz “contemplando a glória do Senhor”; a imagem do espelho, em que Pope se apoia, está no verbo grego e na KJV, “beholding as in a glass”]. Por fim, ela é explicada com mais clareza ainda numa passagem que combina as outras, como o conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo (2Co 4.6): a Face do Deus pessoal, em seu Filho encarnado, voltada para o homem e dando-lhe, na luz dessa face, tudo o que ele precisa saber para o tempo e para a eternidade. Nosso Senhor Jesus Cristo é ele mesmo a substância de toda revelação de Deus, segundo o seu próprio testemunho: Quem vê a mim vê o Pai (Jo 14.9). Em segundo lugar, portanto, ele é o Revelador em palavra. Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11.27): ὁ υἱὸς ἀποκαλύψαι. Cristo é O VERBO (Jo 1.1) em seu estado original e eterno, aquele que, no entanto, se encarnou para ser o Oráculo de Deus no templo da humanidade. Ninguém jamais viu Deus; o Deus unigênito, que está junto do Pai, é quem o revelou (Jo 1.18). Em seu estado encarnado, ele é também O PROFETA (Jo 1.21), que havia de absorver em si todas as funções proféticas, tanto a de anunciar como a de predizer a vontade de Deus. Em virtude do primeiro nome, ele foi desde o princípio o Revelador: foi a sua voz que pronunciou os antigos oráculos. Em virtude do segundo nome, acrescentado ao primeiro, ele resumiu, satisfez e consumou a revelação de todas as eras passadas numa só revelação perfeita para as eras vindouras. Ele falou pelos profetas; falou na terra; e, embora tenha partido de nós, ainda fala. A sua palavra significa toda revelação, e toda revelação significa a sua palavra. O ORÁCULO e os oráculos são um só.
I, 39A Escritura. 2. As Escrituras contêm e são esse perfeito desvendamento e essa revelação acabada. Na sua origem divina ainda não precisamos pensar, embora ela esteja antecipada no fato de que o Salvador deu o seu testemunho autenticador ao conjunto delas em sua integridade. Essa sanção, em primeiro lugar, faz do Antigo Testamento a revelação de Cristo. Assim como ele testemunhava de Cristo, Cristo testemunha dele. Tomou-o em suas mãos, abençoou-o e santificou-o para sempre como seu. Como a revelação é Cristo, e Cristo é o assunto do Antigo Testamento, o Antigo Testamento é necessariamente a revelação de Deus. Conhecendo, melhor do que qualquer crítico humano pode conhecer, todas as suas obscuridades e dificuldades internas, ele, apesar disso, o selou para a reverência do seu povo. O cânon dos antigos oráculos, exatamente como hoje os temos, nem mais nem menos, ele o santificou e o deu à sua Igreja como os registros antigos e preparatórios do seu próprio evangelho e do seu reino. Essa sanção, em segundo lugar, nos garante que o Novo Testamento é o complemento autorizado, dado por ele mesmo, das Escrituras da revelação. Deixando para uma etapa posterior o estudo mais completo desta proposição, basta-nos notar o fato geral de que nosso Senhor declarou o seu propósito de completar uma revelação inacabada: Não pensem que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir (Mt 5.17), ἀλλὰ πληρῶσαι; não somente para cumprir as predições tanto da lei como da profecia, mas para preencher o seu sentido; para pôr sobre elas o selo da perfeição, revelando plenamente o que elas revelavam apenas em parte. Todas as linhas da revelação do Antigo Testamento estavam interrompidas e incompletas: ele as reuniu em si mesmo e na sua palavra, de modo que nele elas tivessem o seu ponto de fuga e, ainda assim, não desaparecessem. Em relação aos oráculos do Antigo Testamento, não vale a palavra de são Paulo: quando vier o que é completo, então o que é incompleto será aniquilado (1Co 13.10). E ele tomou todas as providências para a preservação da sua doutrina aperfeiçoada. Tudo o que precisamos para tranquilizar o nosso coração quanto a isso foi dado numa só e ampla promessa. Ela declarava que as palavras dele seriam reavivadas, em sua unidade intacta, na memória dos discípulos: esse ensinará a vocês todas as coisas e fará com que se lembrem de tudo o que eu lhes disse (Jo 14.26); que aquilo que ele ainda não podia dizer acerca da sua pessoa, o seu Espírito revelaria: ele os guiará em toda a verdade (Jo 16.13); e que o mesmo Espírito lhes anunciaria as coisas que estão para acontecer. O Espírito não era outro senão ele mesmo, por meio do seu Agente, a pronunciar de novo as suas próprias palavras, a revelar a sua própria pessoa e obra e a completar a sua profecia do futuro. Por isso, finalmente, a sanção de nosso Senhor faz das Escrituras completas a revelação acabada, que jamais será substituída. Nada pode ser mais claro do que isto: toda a plenitude do que o Revelador tinha a dizer ao mundo havia de ser comunicada aos apóstolos pelo Espírito Santo; e isso não como uma revelação adicional da parte do Espírito, mas como a consolidação do ensino do Salvador em sua unidade perfeita e a sua expansão até o seu sentido perfeito. Nenhuma corrente futura de revelação haveria de subir mais alto do que a nascente da verdade aberta nele mesmo. Por isso podemos repetir acerca do Livro o que foi dito acerca do ensino do Senhor: a Bíblia significa toda revelação, e toda revelação significa a Bíblia.
I, 41As Escrituras e o cristianismo são um só. 3. Temos razão, portanto, em sustentar que as Escrituras da revelação e o cristianismo, como Fé cristã, cobrem o mesmo terreno e coincidem estritamente. Por ora, nada temos que ver com a questão da inspiração, nem com as investigações sobre a autenticidade e a integridade de livros e passagens individuais, mas apenas com o fato geral de que, em toda teologia sã, a Bíblia e Cristo estão inseparavelmente ligados. Não que sejam, pela natureza das coisas, idênticos: podemos supor a possibilidade de um Revelador encarnado presente no mundo sem a mediação da Palavra escrita. De fato, somos obrigados a admitir, como já se viu, que há no mundo uma revelação do VERBO mais ampla do que a que as Escrituras abrangem. Além disso, podemos afirmar que a revelação que ele faz de si mesmo é ainda, e até em conexão com as Escrituras, mais ou menos independente da Palavra. Mas, como base da ciência da teologia, a Bíblia é o cristianismo. Agradou a Deus, desde o princípio, conduzir o desenvolvimento do grande mistério por meio de documentos que contêm os fatos atestados, as doutrinas autenticadas e as predições seladas da revelação. O processo do conselho divino esteve ligado à ampliação do Volume do Livro. Esse Livro é o fundamento do cristianismo: o Senhor da Bíblia e a Bíblia são, indissoluvelmente, a Rocha sobre a qual ele se assenta. Não temos outra religião cristã senão aquela que é uma só com os seus documentos e registros; não temos documentos e registros que não paguem, direta ou indiretamente, o seu tributo à religião cristã; e não há revelação, em nenhum campo da verdade, de que não se possa dizer o mesmo. Toda revelação é idêntica ao cristianismo e se resume nele. Por isso, falando de modo geral, e considerando por ora as Escrituras apenas como um todo, podemos dizer que o caráter do cristianismo é o caráter da Bíblia; as reivindicações e as credenciais de um são as reivindicações e as credenciais da outra. Essa observação nos levará, por uma transição fácil, à contrapartida da Revelação: a Fé cristã.
A Fé. A Revelação dada por Deus é a Fé cristã enquanto recebida pelo homem. Todo o corpo da verdade revelada dirige-se ao princípio da fé, que recebe com base em evidência divina aquilo que se torna objeto de certeza e de plena convicção. Essa é a Fé objetiva e dogmática entregue aos santos. Mas essa mesma Fé pode também ser considerada como tendo de conquistar o assentimento do mundo e como apresentando as suas credenciais à razão, em vista da aceitação universal. Daí temos dois aspectos gerais do nosso assunto presente: primeiro, a revelação cristã enquanto aceita pela fé; segundo, enquanto apresenta as suas evidências à razão.
Recebida pela fé. A revelação cristã, em todo o âmbito da sua verdade, dirige-se primariamente à fé, e à razão apenas enquanto subordinada à fé. Está confiada à posse suprema daquele princípio que é a convicção e a certeza das coisas espirituais. Essa fé se estende explicitamente a todos os fatos, doutrinas e promessas da Escritura Sagrada, e implicitamente a todos os seus mistérios, quer já revelados, quer em curso de revelação, quer reservados para o futuro. O seu objeto supremo é Cristo e a verdade, SEGUNDO É A VERDADE EM JESUS (Ef 4.21). Mas é preciso lembrar que a Fé cristã só o é efetivamente para aqueles cuja crença é vivificada pelo Espírito Santo até chegar à certeza do conhecimento e da experiência pessoais.
É evidente que esta proposição geral envolve um exame das credenciais do cristianismo; mas agora temos que ver com a Revelação apenas enquanto dirigida à fé. Enquanto contém o sistema cristão da verdade e está registrada na Bíblia, ela apela a um princípio universal da natureza humana: a faculdade de crer. Essa faculdade primária está profundamente assentada em nossa constituição: atua como aceitação da verdade mediante evidência suficiente, seja da consciência, seja da intuição, seja do testemunho. Está na raiz de todo conhecimento em geral, e especialmente de todo conhecimento das coisas espirituais. Ora, é a esse princípio, acima de tudo, que a Revelação apela: só à fé, enquanto é revelação de princípios e verdades espirituais; à fé unida à razão, enquanto é um registro divino de fatos por meio dos quais esses princípios são ensinados. Esses dois pontos devem agora ser discutidos brevemente.
I, 43A fé. I. A fé deve ter aqui a primazia em todas as coisas.
1. As grandes revelações da Palavra de Deus estão todas confiadas àquela faculdade, a mais alta e a mais nobre, que a Escritura chama a convicção de fatos que não se veem (Hb 11.1). A existência de uma Causa Primeira suprema, a criação do mundo formado pela palavra de Deus (Hb 11.3-4), a natureza do pecado e a glória da redenção, a pessoa do Encarnado e a sua expiação, a união do Espírito Santo com o espírito do homem, os processos e os desfechos da economia redentora no tempo e na eternidade, em suma, tudo o que pertence ao mundo sobrenatural precisa ser crido, ou não será herança da alma. Não há faculdade competente para tratar dessas coisas, recebê-las e apropriar-se delas, senão a fé. A razão, por si mesma, é o juízo da alma segundo os sentidos: se a considerarmos ocupada com os mistérios do espírito e do mundo espiritual, já não é razão, mas fé sob o nome de razão. A fé é para o outro mundo o que os sentidos são para o mundo que agora existe: o olho, o ouvido, o paladar, o tato que percebem o que os sentidos físicos não podem perceber. Tudo se resume assim: A pessoa natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura. E ela não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente (1Co 2.14).
O seu lugar na natureza humana. 2. Daí resulta que, como o princípio da fé pertence à natureza humana tão certamente quanto a razão, as evidências do mundo sobrenatural se dirigem a uma faculdade que elas deveriam despertar, assim como a luz deveria despertar a faculdade da visão. Se as grandes verdades da Revelação não provocam resposta alguma, é porque um mal mortal vicia a fé, mal que não vicia os sentidos naturais. É necessário insistir nisso, porque a razão, assim posta de lado, perguntará por que a Revelação, dirigida a uma faculdade universal do homem, não encontra aceitação instantânea e universal.
I, 44O Espírito. 3. Há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso lhe dá entendimento (Jó 32.8). Há um Espírito que demonstra a verdade à mente, aos afetos e à vontade do homem pessoal; mas somente àquele que é sincero e se aproxima da luz (Jo 3.21). As credenciais da verdade divina trazem em si mesmas a sua evidência: são como a luz do sol no mundo natural. Este postulado preliminar é da maior importância e pode ser estabelecido a partir da própria Escritura, sem nenhuma petição de princípio irracional. Primeiro, ouçamos o próprio Senhor. O testemunho a respeito dele é que ele é a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina toda a humanidade (Jo 1.9). O testemunho que ele dá de si mesmo, e dado, além disso, a alguém que não era seu discípulo, é este: Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz (Jo 18.37), onde da verdade aponta para o mistério da livre disposição da mente do homem, inclinada ou não a deixar-se guiar retamente. Essa declaração final daquele que sabia o que era a natureza humana (Jo 2.25) exprime o espírito de todo o seu ensino acerca da automanifestação da sua verdade à consciência de todo homem que quiser fazer a vontade de Deus (Jo 7.17). Segundo, a luz do corpo da revelação é o Espírito Santo. O Salvador não apela à razão à parte da mediação do único e supremo Convencedor. Esse Espírito também sabe o que há no homem e leva a sua própria demonstração divina a toda mente que não se recusa a considerar o que ele diz. Ele adapta de tal modo os seus argumentos à atual natureza moral decaída dos homens que a rejeição deles só pode brotar da perversidade daqueles cujo olho espiritual da fé está obscurecido. Assim como Cristo é a Verdade encarnada, o Espírito Santo é o Espírito da verdade (Jo 16.13). Ele é o grande Apologista da Revelação diante do mundo. E são Paulo diz, acerca do argumento do Espírito, que não é nada menos que demonstração: ἐν ἀποδείξει Πνεύματος [em demonstração do Espírito] (1Co 2.4). Daí, em terceiro lugar, descendo ao homem, podemos apelar aos testemunhos da Escritura quanto ao pecado e à autocondenação da incredulidade. O teor desses testemunhos pode ser resumido na última palavra do mesmo apóstolo acerca do herege, o αἱρετικὸν ἄνθρωπον: ele é αὐτοκατάκριτος, por si mesmo condenado (Tt 3.11). Os que resistem à verdade são homens que têm a mente totalmente corrompida, e isso se evidencia em serem reprovados quanto à fé (2Tm 3.8). Por outro lado, ele nos diz que há uma manifestação da verdade à consciência de todos na presença de Deus (2Co 4.2); e que, em todo caso em que ela está encoberta, a causa deve ser buscada numa cegueira acrescentada pelo deus deste mundo (2Co 4.4). O mesmo Deus que, na esfera natural, no princípio, disse: “Das trevas resplandeça a luz”, ainda ordena que a luz do seu conhecimento resplandeça na face de Jesus Cristo (2Co 4.6). Nenhuma ordem de Deus pode ser desobedecida. Também no mundo moral, ao Haja luz segue-se o E houve luz (Gn 1.3); mas a luz, como o seu Autor, pode ser rejeitada pelos homens: as trevas não a compreendem (Jo 1.5) [N. do T.: a NAA traz “as trevas não prevaleceram contra ela”; Pope segue a KJV, “comprehended it not”, isto é, não a compreenderam nem a acolheram, e é nesse sentido que se apoia o argumento].
I, 454. Para os que recebem a luz, no sentido de não a recusarem, a revelação é um todo único, e todo o seu glorioso sistema de verdade é recebido e firmemente crido. Para eles, ela é, objetiva e A Fé. subjetivamente, A FÉ; e, visto que o cristianismo a trouxe ao mundo em toda a sua plenitude, ela é para eles A FÉ CRISTÃ. Essa expressão tem, portanto, um sentido amplo. Significa que não se trata simplesmente da filosofia deles, da glória da sua razão, da tradição que receberam de seus pais, mas da rica herança que o Espírito Santo deu àquela única faculdade suprema da sua alma: a fé, que é a convicção de fatos que não se veem (Hb 11.1). É um corpo de verdade que a razão, assim como não o deu, também não pode tirar. É uma região na qual eles andam por fé, que a fé deles visita habitualmente, na qual a fé deles vive, se move e existe.
Razão. II. Mas algumas dessas observações já sugeriram que, na aceitação do cristianismo como sistema de verdade, a fé está estreitamente aliada à razão. O Espírito que desperta a fé regenera a razão, de modo que ela se humilha para receber mistérios que não pode compreender; as evidências em que a fé se apoia são tais que a razão é chamada a aprová-las, e aqui o juízo da mente recebe toda a sua honra; e, na aceitação de toda a economia das Escrituras da revelação, a fé e a razão sã se fundem numa unidade perfeita.
Razão e fé. 1. A Fé cristã apresenta à faculdade pela qual se percebem o infinito e o eterno um sistema de verdade que a razão humana não pode sondar nem compreender, e contra o qual ela naturalmente se rebela. Mas o mesmo Espírito que abre o olho da fé dá à razão a sua perfeita sanidade, de modo que ela consente em aceitar o que ela mesma não pode verificar. Aqui, naturalmente, consideramos a revelação como um todo orgânico, que tem por princípio unificador uma única verdade avassaladora: a união de Deus e do homem em Cristo. Em torno desse centro giram outras doutrinas igualmente incompreensíveis; e, para além delas, numa órbita mais ampla, muitas que não estão, no mesmo sentido, acima das faculdades humanas. E, falando da única e vasta revelação, podemos dizer que ela é confiada à fé e contemplada pela razão com submissa admiração. A fé é elevada para recebê-la, e a razão é humilhada para submeter-se a ela.
I, 46Fé e razão. 2. Mas essa fé não é arbitrária nem despótica. Ela dá à razão os seus direitos em todas as coisas sobre as quais o raciocínio preside. Apresenta as evidências da existência de Deus, da encarnação do Filho, do mistério da expiação; e a razão deve ou admitir a evidência, como no caso da existência divina, ou confessar que nada tem a alegar contra ela, como no caso da encarnação. Como o pecado diante da presença da justiça divina, a razão fecha a boca e se cala. Mas, quando se desce à esfera das evidências externas gerais da revelação, a questão muda de caráter. Ou se deve dizer que aqui a razão e a fé são uma só coisa com nomes diferentes, ou a fé deve ser considerada não mais como a faculdade de perceber o infinito, mas como o princípio de crer com base em evidências. Em qualquer das duas perspectivas, a fé e a razão são aqui inseparáveis. A fé aceita aquilo para o qual há todo fundamento razoável de crença, e nisso se apoia. Nossa grande expressão, A FÉ CRISTÃ, passa então a designar o corpo da revelação externa que é firmemente crido por todos os cristãos, porque estão seguros da força das suas evidências. Mas isso nos leva imediatamente às credenciais da revelação.
Credenciais. A revelação, que é uma só coisa com a Fé cristã, a qual é uma só coisa com os seus documentos e registros, apresenta à razão, ao coração e à vontade do homem as suas credenciais suficientes, como um grande corpo de evidência irresistível. Primeiro, ela vem à humanidade como resposta ao desejo e à expectativa universais de uma comunicação do alto: ao anseio do coração humano por comunhão com Deus. Segundo, a revelação exibe, em sua própria estrutura, os atributos divinos estampados em cada parte do seu sistema, na forma de milagre, profecia e inspiração. Terceiro, ela fornece, na pessoa de Cristo, o Revelador, a garantia celestial da sua própria verdade. Quarto, em sua consumação perfeita como cristianismo, ela apela para o caráter da sua influência na história humana: positivamente, em sua vitória sobre o mal do mundo; e negativamente, em sua vitória sobre toda oposição. Por último, ela se apoia, como seria de esperar de uma revelação divina, na demonstração do Espírito Santo. Todas as suas credenciais podem, sem muita dificuldade, ser classificadas sob esses diversos tópicos, isto é, na medida em que constituem uma apologia e defesa geral da Fé cristã, contidas nela mesma.
I, 47Evidências e credenciais. A revelação de Cristo nas Escrituras impõe as suas próprias reivindicações, e a teologia deve render suprema deferência a essas credenciais internas. Elas se tornam evidências quando são dispostas em sua ordem. O que a lei foi para o evangelho anterior, as evidências são para as credenciais: acrescentadas por causa da fraqueza humana. Elas têm a sua utilidade tanto em relação ao crente como ao incrédulo: para o primeiro, servem de confirmação; para o segundo, de convencimento.
Para os crentes. 1. O crente aprende com elas a dar razão da esperança que ele tem (1Pe 3.15): a estar pronto, ou preparado, πρὸς ἀπολογίαν, para a apologia. São Lucas, o evangelista das evidências, põe isso com clareza diante de nós: ele dispõe os testemunhos da Fé de tal modo que Teófilo, já instruído nas verdades firmemente cridas, tenha plena certeza delas (Lc 1.4): ἐπιγνῷς, termo que se refere a um conhecimento exato e sistemático. Tanto para a confirmação da sua própria fé como para o convencimento de quem a contradiz, todo cristão, especialmente todo ministro cristão, deve ter à mão o padrão de uma sã defesa para guardar o padrão das sãs palavras (2Tm 1.13): a ὑποτύπωσις, ou disposição sistemática, é igualmente necessária para ambas as coisas.
Para os incrédulos. 2. Quanto ao incrédulo, as credenciais devem ser dispostas de modo a formar um corpo completo de evidência para o seu possível convencimento, sem subestimar nem superestimar a sua importância. Não devem ser desprezadas por uma confiança transcendental na luz que se evidencia por si mesma. O cristianismo, como o seu Fundador, tem a missão de buscar para salvar. A sua história, tanto dentro como fora da Bíblia, é um registro de serenos arrazoados dirigidos à mente, até mesmo à daqueles que se afastam. As evidências, ou sinais, são para os que não creem. Pode haver casos em que os argumentos usados a respeito da revelação levem o cético a escutar a voz da própria revelação. Mas, por outro lado, não se deve esperar demais deles, pois são evidências externas, à parte da demonstração interior da verdade. Nosso Senhor e os seus apóstolos não nos deixaram nenhum exemplo de argumentação com aqueles que não tinham alguma medida de fé a que os seus arrazoados pudessem apelar. Assim como o livro da revelação [N. do T.: isto é, a Bíblia, e não o Apocalipse] não argumenta com o ateísmo, também o cristianismo não dá nenhuma importância a argumentar com a incredulidade e a descrença.
I, 48Vocabulário da incredulidade. 3. Introduzimos aqui vários termos, como incrédulo, descrente, aquele que duvida e cético. Eles têm os seus matizes de significado, que é importante lembrar e distinguir em todas as discussões sobre este assunto. É bem sabido que no Novo Testamento há em toda parte uma distinção clara e ampla entre duas classes: os crentes e os incrédulos. Mas isso não implica que o estado de incredulidade seja aquele em que nada é Descrença. crido; pelo contrário, a INCREDULIDADE é DESCRENÇA, e a descrença é a crença no oposto daquilo que a fé sustenta. Não que não reste lugar para um estado neutro, aquele em que os homens refletem em seu íntimo e Dúvida. permanecem suspensos na dúvida. A DÚVIDA hesita entre duas conclusões contraditórias. Pode ter algum grau de crença, refreado pela consciência da ignorância: nesse caso, é provisória, à espera de mais luz, e o Novo Testamento dá vários exemplos dela como digna de que se arrazoe Ceticismo. com ela. Pode ser definitiva, e então é o CETICISMO, ou a entrega da mente à convicção de que a certeza é impossível, com uma tranquila complacência nesse estado. Mas, como o ceticismo crê que a verdade não pode ser encontrada, ele é em si mesmo fé numa ignorância necessária, incredulidade quanto àquilo de que duvida e, portanto, na realidade, descrença. Daí o mau sentido que geralmente se atribui à palavra nas evidências cristãs.
I, 49Credenciais e evidências. 4. Observe-se ainda que essas credenciais não se referem àqueles ramos das evidências que dizem respeito ao volume considerado externamente: elas procedem do coração da revelação, enquanto esta é uma grande comunicação em Cristo; e a questão da autenticidade e da autoridade das diversas partes das Escrituras Sagradas deve ser adiada. É preciso lembrar também que a apologética da Fé cristã acompanha as diversas doutrinas; cada artigo do credo exige a sua própria defesa; e, por isso, as evidências do cristianismo têm necessariamente de ser distribuídas ao longo de todo o curso do nosso sistema dogmático. Além disso, elas dão oportunidade para considerar com justiça tudo o que se pode dizer a favor ou contra o cristianismo como tal, sem descer, porém, a inúmeras questões subordinadas, que em si mesmas não têm importância. Mais ainda, a exposição dessas credenciais em toda a sua grandeza simplificará as evidências posteriores relativas às diversas doutrinas da Bíblia e, ao mesmo tempo, emprestará a essas evidências a sua própria força. Por fim, esta disposição nos permite fazer justiça ao caráter cumulativo do argumento: ele não é mero acúmulo de tudo o que se pode dizer sobre o assunto, mas uma apresentação tão ordenada que todo argumento, seja mais importante, seja menos, dê e receba força por meio da sua conexão com os demais.
A revelação esperada. O cristianismo, ou a revelação divina perfeita, apresenta-se como a resposta a uma exigência universal. Ele explica, ao mesmo tempo que a ele apela, o anseio inato da mente humana por conhecer a Deus, ou o seu sentimento religioso, e dá conta da expectativa geral da raça, tal como expressa em suas religiões tradicionais, apelando a elas pelo que contêm de verdade e pelo que contêm de falsidade. Ele vem com essas credenciais; e, além disso, alega ser a expressão perfeita de uma revelação que está entre os homens desde o princípio e, portanto, a resposta a uma expectativa mantida viva no mundo pelos seus próprios ensinos anteriores. Nesta primeira divisão das credenciais devem incluir-se todas aquelas considerações preliminares que às vezes são contadas como evidências presuntivas.
I, 50Argumentos presuntivos. Nos sistemas de apologética, ou de evidências, os argumentos presuntivos costumam ser dispostos numa gradação tríplice. Primeiro, mostra-se que uma revelação divina é POSSÍVEL, seja quanto a quem a concede, seja quanto a quem a recebe. Segundo, alegam-se as deficiências da razão, por dentro, e os fracassos da religião humana, por fora, para estabelecer que tal revelação é NECESSÁRIA. Então, em terceiro lugar, segue-se a conclusão de que ela é PROVÁVEL: a probabilidade, quando se levam em conta a bondade divina e o desejo do homem, chega a um ponto que só fica aquém da certeza moral. Ora, essa cadeia de proposições pode ser estabelecida: o argumento não falha em nenhum ponto. Mas, pelas razões já apresentadas, parece melhor alcançar o mesmo objetivo examinando antes de tudo a própria revelação. Em vez de discutir a primeira proposição, cuja afirmação é contestada por certa escola de filosofia, devemos supô-la verdadeira, apelando à consciência de todos os homens, inclusive dos que duvidam. Conduzir esse argumento sem pressupor alguma revelação é coisa impossível. E é certo que está mais de acordo com o modo da Bíblia partir das credenciais da própria revelação do que enfileirar uma série de evidências internas e presuntivas na ausência dela.
O senso de Deus na humanidade. A revelação divina apela a uma preparação no espírito humano, a qual ela explica e de que dá conta: primeiro, o senso instintivo e indestrutível de dependência de uma Causa Primeira; segundo, a consciência de responsabilidade perante uma Autoridade Suprema; e, terceiro, a união desses dois no profundo desejo de conhecer a Fonte e o Fim da vida e de ter comunhão com ele. A revelação interpela esse fato triúno da natureza humana; e aqui está a sua primeira credencial. O instinto no homem e a resposta de Deus se encontram. Da primeira palavra das Escrituras à última, a Voz do Criador fala ao suave sussurro da sua criatura: a Voz do Todo-suficiente respondendo ao clamor da dependência, a do Juiz misericordioso tratando com a culpa, e a do Eterno e Invisível conversando como Homem com a humanidade. Na Bíblia, tal como completada pelo cristianismo, não há uma só questão possível da natureza humana a que não se dê resposta. A força positiva desta alegação será considerada quando chegarmos a estabelecer a existência de Deus. Enquanto isso, talvez seja necessário afastar aqui duas objeções opostas que podem ser levantadas contra este poderosíssimo argumento presuntivo.
I, 51Explicação ateísta. 1. A filosofia ateísta de todas as ordens contenta-se em afirmar que o sentimento presente na natureza humana é um dos frutos da imaginação dessa mesma natureza, gerado pelo medo ou pela esperança; e que ela inventou uma revelação para satisfazer as exigências da sua própria ilusão, sendo a imaginária revelação do céu, como o próprio céu, a sua ilusão mais consumada. Com tais teorias da alma é inútil argumentar; pelo menos, elas não entram na presente discussão. Exceto, de fato, na medida em que às vezes se propõem negar que isso a que podemos chamar instinto seja realmente universal na constituição do homem. Isso é simplesmente um apelo à experiência e à indução. Jamais se encontrou raça humana que não contradiga essa negação. Entre as tribos do grau mais baixo há vestígios de certo senso de dependência de outro mundo: o sentimento degradado que olha com temor para algum símbolo fetiche do desconhecido é, num polo, o mesmo tributo a um senso do Infinito no homem que a especulação filosófica do agnosticismo é no polo oposto. O instinto finito voltado para o Infinito, que é a fé, sofre neles a mesma degradação que todas as suas outras faculdades mentais e espirituais sofreram: nem mais, nem menos. Mas sobre isso se falará mais adiante.
Deísta. 2. O deísmo tem outra espécie de contra-argumento, muito diferente. Às vezes insiste em que essas preparações instintivas para a voz de Deus são, elas mesmas, a revelação do Supremo, e que não pode haver outra; isto é, um deísmo transcendental recusa-se a admitir que possa haver qualquer outra revelação autenticada do Infinito ao finito além daquela que é direta na consciência dos que a recebem. Mas ele esquece que o mais elevado sentimento religioso do homem é apenas um desejo insatisfeito; e que, assim como todo instinto forte e universal tem a sua resposta vinda de fora, assim também deve ter este, o mais forte e o mais universal de todos. Mas pode-se negar que haja na mente humana algum anseio por uma revelação externa. Muitos que admitem que o anseio irreprimível da alma humana pelo Infinito é um argumento a favor da expectativa de uma revelação secreta de Deus nas profundezas do espírito que anseia recusam-se, no entanto, a admitir a força desse apelo em favor de uma revelação que vem do alto com todos os acessórios externos que pertencem à Fé cristã. Basta responder que esse tipo de argumentação ignora o fato de que a relação do homem com Deus é tal que exige uma comunicação externa, além de uma interna. Se ele estivesse, como deveria estar, em paz com o Objeto que busca, a comunhão com o seu Criador poderia dar-se inteiramente no interior. Contudo, nem mesmo então inteiramente no interior; pois todo o universo ao seu redor estaria cheio de símbolos, a revelação visível do seu Criador. Mas ele está, pela própria hipótese, afastado de Deus. As condições originais deixaram de existir, e nenhum argumento pode basear-se nelas. O anseio indizível a que o cristianismo responde é o de um espírito culpado: não apenas dependente do Supremo, mas tremendo diante dele. O homem olha para o céu, como atesta o seu nome grego, ἄνθρωπος, ou ὁ ἄνω ἀθρῶν [o que olha para cima]; mas olha para um Juiz exterior, e não para dentro, para um Deus interior; e aguarda e espera que o Supremo lhe apareça e lhe fale por meio de algum ser, ou voz, ou sinal. E esse é o germe de toda revelação. Além disso, é inegável que em todas as épocas e em todas as regiões os homens ansiaram por uma expressão externa da mente divina e creram nela. Na verdade, o cristianismo é apenas uma das muitas respostas ao gemido inexprimível do homem dirigido a Deus. Mas isso nos leva a uma etapa posterior das nossas credenciais, para a qual o que foi dito é apenas introdutório.
A expectativa da humanidade. Assim como a revelação divina responde ao espírito do homem, também explica a grande Expectativa da raça humana, atestada pelas religiões que ela professa em toda parte, e responde a ela. Também esta é uma credencial poderosíssima, que pode ser considerada sob vários aspectos.
A religião na raça humana. 1. A religião cristã explica a religiosidade da humanidade e respeita as formas em que ela se expressou. São Paulo, o mais amplo expositor da teologia natural, prega em Atos, e ensina na Epístola aos Romanos, que o mundo inteiro sempre esteve sob uma educação divina: atraído pelas obras de Deus na criação a contemplar o seu poder, e pelos benefícios da sua providência a considerar a sua bondade, para que assim fosse preparado para uma terceira revelação, que haveria de manifestar tanto o seu poder quanto a sua bondade na redenção. O apóstolo, como principal representante deste argumento, afirma que apenas ANUNCIA, ou prega, καταγγέλλω ὑμῖν, o DEUS DESCONHECIDO (At 17.23), a quem o mundo inteiro sempre buscara, consciente ou inconscientemente: esse mundo que é, como Tertuliano disse do espírito humano, naturaliter Christianus [naturalmente cristão]. Ele faz do próprio Deus, em certo sentido, o universal mestre dos gentios na fé e na verdade, διδάσκαλος ἐθνῶν (1Tm 2.7); e faz do paganismo, assim como da lei, um guardião que conduz a Cristo. Em outras palavras, este representante do cristianismo faz remontar todas as formas de fé e prática religiosa entre as nações a um anseio por uma revelação do céu. E, de fato, ele nos dá o argumento que agora usamos: a forte presunção, tirada do Consensus Gentium, o consenso do mundo inteiro, a favor de uma comunicação de Deus à humanidade. Pois o cristianismo, que é a revelação aperfeiçoada, ou antes a única revelação verdadeira, apela para a expectativa que ele explica. Remontando à causa última tanto a verdade quanto o erro, põe ambos a serviço das suas próprias credenciais. Deve-se lembrar que nisto o Novo Testamento é o sucessor e o continuador do Antigo. A Bíblia inteira apela, do começo ao fim, isto é, desde o tempo em que começou a religião exterior, para o instinto comum, tribal ou nacional, dos povos da terra. Mais adiante usaremos este argumento para demonstrar a existência de uma Fonte divina de todas as coisas: a saber, o próprio fato de que a Bíblia a considera já um pensamento secreto, pronto para ser revelado, no coração de todos os homens. O nosso argumento presente supõe que a existência de Deus seja admitida. E a sua força está nisto: esse Deus tem, em todas as épocas, educado as nações para uma revelação plena de si mesmo. Como está escrito: ele repreende as nações (Sl 94.10), ou as põe sob disciplina.
I, 53Elementos de verdade. 2. Tudo isso partiu do pressuposto de que as formas de religião que sempre existiram no paganismo possuíam certos elementos de verdade. Do contrário, elas não teriam valor algum como prova de uma aspiração universal à comunhão com o céu. Sejam quais forem as afirmações enérgicas que encontremos no Antigo e no Novo Testamento sobre os erros doutrinários e as abominações morais do paganismo, discernimos em toda parte o reconhecimento de algo bom que está na raiz deles e de que eles são apenas perversões. Muita verdade é tacitamente reconhecida nas tradições sagradas da humanidade, por mais que estejam minguando e prestes a perecer: isto é, muita verdade dispersa entre elas e representada de vários modos, embora não se possa dizer que algum sistema exiba sequer as perversões de todas as verdades. Talvez quase todas as grandes expressões tribais ou nacionais do tatear em busca do Infinito tenham prestado, em maior ou menor grau, o seu tributo: à unidade e à supremacia do Deus Único e Desconhecido, com uma percepção vaga de uma pluralidade nessa unidade; à existência de inteligências superiores ao homem, como que entre Deus e o homem, noção disfarçada de mil maneiras, desde o politeísmo até a personificação de todas as forças da natureza; à degradação do próprio homem por uma queda, e à universalidade do pecado como culpa pessoal e sujeição ao castigo; a um misterioso Libertador desejado pelas nações; ao senso da necessidade e da aceitabilidade do culto por meio de sacrifício; no domínio ético, aos direitos do que é Justo e à bondade do que é Bom; à inextinguível esperança da imortalidade, talvez mais distorcida do que quase qualquer outra verdade. Ora, é uma credencial da revelação cristã que ela reconheça tudo isso; ou antes, que tudo isso seja verdadeiro. Afirmando ser a suprema, a única comunicação direta de Deus ao homem, ela aponta para um consenso universal entre as nações de que uma revelação desse tipo era esperada e necessária.
I, 54Erros. 3. Mas isso conduz ao argumento seguinte: o cristianismo explica e corrige esses erros, ao mesmo tempo que confirma a verdade que está por baixo de todos eles. Ele vem como a correção de cada ilusão em que, segundo declara, o Eterno permitira que o mundo caísse, em consequência da resistência que este opôs ao seu Espírito (Rm 1.28). Ensina a verdadeira doutrina acerca de Deus, varrendo o panteísmo, o politeísmo e o ateísmo das nações; emenda a doutrina do pecado, ligando-a à redenção; põe em seu lugar o verdadeiro Sacrifício divino-humano, cuja expiação purifica o templo pagão e cujo dom do Espírito supre a necessidade das escolas filosóficas pagãs; reforma toda a economia do culto, revelando um Mediador; supre os defeitos e repreende as corrupções dos sistemas éticos do mundo; e ilumina e simplifica a doutrina que o mundo tem do estado futuro.
I, 55Resumo. 4. Tais são as credenciais da revelação cristã; tais são os seus títulos para ser ouvida. Por ora, não se alega nada além disso. Nenhum outro sistema, entre os muitos candidatos à aceitação, jamais fez pretensões como estas. Nenhum credo ou religião antiga, por mais missionário que fosse o seu espírito, jamais afirmou vir de Deus trazendo a explicação e a direção segura dos anseios espirituais do mundo. Só o cristianismo explica o paganismo, com uma solução ao mesmo tempo branda e severa. E só ele introduz o tempo de uma reforma universal. Isto, porém, é apresentado apenas como a sua credencial: como tal, tem toda a força, embora não mais que a força, de uma exigência preliminar de profundo respeito e solene atenção aos seus apelos.
Objeções. 5. As objeções a esta credencial, enquanto tal, e limitadas estritamente ao estágio presente do argumento, podem ser apontadas desde já e desarmadas em poucas frases. O ateu, ou o antiteísta, dirá que o cristianismo, assim como todas as outras formas do sentimento religioso entre os homens, não passa de uma invenção da mente humana (ou daquela ação sutil da matéria a que se chama mente) e da mais bela, embora nem sempre a mais bela, evolução, no homem, daqueles estranhos fenômenos que, nas ordens inferiores da criação, fazem do próprio homem o seu objeto. Toda a história da religião, em todas as partes do mundo e entre todas as tribos da humanidade, é apenas o registro da evolução de algo no homem que não tem nome, nem objeto, nem, ao que parece, sentido algum. Não nos ocupamos, por ora, do ateu, e podemos adiar outras referências a este assunto. Enquanto isso, há outra forma da objeção que não pode ser despachada tão sumariamente.
A distinção negada. (1.) A muitos estudiosos do que se pode chamar teologia comparada parece que a existência de tantas outras religiões, que contêm tantas verdades nobres e incontestadas, é um obstáculo à aceitação do cristianismo como a única revelação definitiva de Deus. Eles negam a distinção entre religião natural e sobrenatural, entre teologia natural e revelada. Afirmam que todas as crenças ou mitologias da humanidade são igualmente naturais ou sobrenaturais, conforme se entendam essas palavras. Todas são sobrenaturais no sentido de que o Criador depositou no espírito do homem uma faculdade voltada para o Infinito, que se desenvolveu em algumas grandes religiões históricas; assim como o Criador deu ao homem o dom sobrenatural da linguagem, que se desenvolveu em algumas grandes famílias de línguas. Todas são naturais no sentido de que todas têm a sua genealogia natural e podem ser seguidas através das várias nacionalidades como fundamento das distinções de raça, tanto quanto a linguagem e talvez mais do que ela. Por isso, a ciência da religião distingue de vários modos as religiões da humanidade. Há as religiões que se devem atribuir a fundadores individuais, como Moisés, Zoroastro, Buda, Confúcio, Lao-Tsé, Cristo e Maomé. E há as que são nacionais e nunca estiveram ligadas a nomes humanos: as religiões dos antigos brâmanes, dos gregos, dos romanos, dos teutões, dos eslavos e dos celtas. Temos ainda as crenças que possuem livros sagrados e as que não os possuem. Das primeiras contam-se oito: o bramanismo e o budismo, entre os hindus; o zoroastrismo, entre os persas; entre os hebreus, o mosaísmo e o cristianismo; entre os árabes, o maometismo; entre os chineses, o confucionismo e a religião de Lao-Tsé. Essas distinções acabam por se elevar à divisão em duas ou três grandes famílias. Primeiro, a ariana, subdividida no bramanismo do Veda, no budismo, que dele nasceu e contra ele se revoltou, e no zoroastrismo, que se afastou da antiga fé védica. Segundo, a semítica, com as suas religiões do Antigo e do Novo Testamento (esta última, porém, transplantada para solo ariano) e com o maometismo. Estas desempenharam até agora o papel mais destacado na história do mundo; mas é preciso acrescentar uma terceira, a turaniana, à qual pertencem os ramos da religião chinesa. O argumento que se tira do estudo da teologia comparada é simplesmente este: não há uma religião que seja de direito divino e que precise ser separada de todas as demais. Em palavras claras, sejam quais forem as outras distinções que existam (entre monoteístas e politeístas, documentais e tradicionais, cultas e fetichistas), a distinção entre religiões verdadeiras e falsas não deve ser admitida. Não há uma religião final, definitiva e suprema para a humanidade, assim como não há uma língua universal para a humanidade. Essa ciência, que é relativamente nova, faz bela demonstração de zelo por todas as religiões; e, na verdade, defende com o maior triunfo a verdade, a profundidade e a universalidade da tendência da nossa natureza em direção a Deus. Mas isso se faz à custa do cristianismo, por mais que ela pareça estar do lado dele. De fato, ela tira toda a força da credencial que agora consideramos, no que se refere ao cristianismo, ao mesmo tempo que a deixa em pleno vigor no que se refere à revelação em geral, ou à religião da natureza. Que se deve dizer, então, em defesa do nosso argumento?
I, 57O cristianismo e as outras religiões. (2.) Antes de tudo, a ciência das religiões honra demais as crenças do mundo quando põe o cristianismo em conjunção ou em comparação com elas. Depois de admitir tudo o que o apóstolo de visão universal afirma acerca da religiosidade da humanidade (o nosso argumento já lhe fez justiça), não devemos esquecer o seu sombrio testemunho contra as formas exteriores dessa religiosidade: o mundo não conheceu Deus por sua própria sabedoria (1Co 1.21). A teologia comparada recolhe muitos ditos sublimes sobre Deus nascidos da devoção hindu; mas é inegável que o sistema do bramanismo foi, em quase todos os pontos, uma paródia gigantesca da religião da revelação sobrenatural. De era em era, fez-se tentativa após tentativa de reformá-lo; mas a sua maior reforma, a do budismo (hoje uma das crenças mais difundidas do mundo), foi e é, na realidade, uma religião sem Deus: o mais vasto deserto de ateísmo que já se conheceu. O cristianismo não é uma das religiões do mundo, que responda, como as outras, ao instinto comum, só que em termos mais ousados e mais sublimes. Além disso, o cristianismo não é o que a ciência das religiões faz dele: um rebento do mosaísmo e um aperfeiçoamento dele, assim como o budismo surgiu da antiga fé védica e pôs de lado os seus velhos deuses. É a única religião que o mundo já recebeu diretamente do céu. Em sua forma presente, e com o seu nome presente, ele se originou no meio do judaísmo, numa época determinada, e lutou pela supremacia e a conquistou de modo muito semelhante ao das outras religiões. Mas o cristianismo como revelação divina é apenas a forma consumada de uma verdade, ou de um sistema de verdades, que está no mundo desde o começo da história humana. Isso, porém, nos levará a outro aspecto muito importante das nossas credenciais.
O aperfeiçoamento da revelação. É continuação do mesmo argumento dizer que o cristianismo é, em si mesmo, uma explicação das manifestações preparatórias da verdade revelada e a consumação de todas elas.
Desde o princípio. 1. Este é, de fato, o argumento presuntivo que coroa todos os outros em seu favor: o cristianismo é o fim e o acabamento de uma revelação que vem se desenrolando desde o princípio. Não é uma religião que tenha começado literalmente na Judeia com a vinda de Jesus. Não afirma ser a primeira comunicação sobrenatural à humanidade: não é a abertura dos céus pela primeira vez. Completa um testemunho que começou com a queda do homem; no melhor sentido, portanto, é tão antigo quanto a criação. Esta última frase foi transformada na palavra de ordem da incredulidade inglesa [N. do T.: alusão ao livro do deísta inglês Matthew Tindal, Christianity as Old as the Creation (O cristianismo tão antigo quanto a criação), de 1730], como se o fato de ser contemporâneo da raça humana refutasse a sua origem divina. Mas isso é, de fato, a sua glória. É o último acento de uma Voz que falou pela primeira vez à porta do Paraíso. Essa Voz foi a revelação primitiva, de cujas perversões surgiram todas as inúmeras formas de mitologia. Mas essa Voz despertou o desejo da raça humana, ao qual toda revelação tem sido uma resposta, e aprofundou constantemente esse desejo enquanto lhe respondia. Mas somente numa linha peculiar e dentro de uma área limitada. De ambos os lados dessa linha, e além dessa área, os homens tatearam a seu modo em busca do Criador perdido e do Paraíso perdido por sua falta, e foram tratados tanto com justiça quanto com misericórdia. A misericórdia do Supremo guiou, em todas as épocas, os instintos de todos os sinceros. Neste assunto, são Pedro tem uma visão tão universal quanto a de são Paulo. Discernindo em Cornélio a melhor religião dos gentios, ele disse: Reconheço por verdade que Deus não trata as pessoas com parcialidade; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável (At 10.34-35). Mas a justiça abandonou os povos, como tais, às consequências da sua própria perversidade: porque, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, e o coração insensato deles se obscureceu (Rm 1.21). Assim os dois apóstolos concordam: quanto aos indivíduos, os sinceros foram guiados em direção a um Salvador desconhecido; quanto aos povos, a justa providência de Deus os tratou segundo as suas invenções. Enquanto isso, houve em todas as épocas um anúncio claro, distinto, embora não volumoso, da vontade de Deus, entregue a um povo escolhido e fiel. E a peculiaridade dessas revelações preliminares foi esta: cada palavra, ao mesmo tempo, satisfez a aspiração humana e a acendeu para um desejo mais alto. O cristianismo é a resposta final a uma expectativa contínua, mantida de era em era. É a resposta ao que se pode chamar uma terceira forma da grande expectativa: além do instinto que há em todo espírito humano e na raça humana como tal, o homem teve, embora nem todos os homens o tenham tido, um testemunho expresso da Mente do Supremo, que conduzia a esperança humana adiante, até a revelação perfeita de Cristo. O cristianismo vem como o aperfeiçoamento do seu próprio Eu anterior: a resposta final e suficiente à expectativa que ele mesmo mantivera viva desde o princípio. Esta é a sua suprema credencial preparatória. É a última de muitas palavras, e não deixa nada mais a desejar no presente estado da humanidade.
I, 59Mistérios. 2. A força desta credencial só será sentida por quem já aceita, ou está disposto a aceitar, a revelação de Jesus. Quanto mais for ponderada, tanto mais satisfatória parecerá a todos os que têm uma visão ampla do modo como a providência lida com o homem. Há, naturalmente, mistérios insondáveis neste assunto: mistérios tão desconcertantes que levaram alguns pensadores especulativos a renunciar a Deus. Para os que creem em Deus, a educação gradual de um mundo livre e responsável é um pensamento que se pode aceitar e no qual se pode descansar. É, pelo menos, mais tolerável do que outros pensamentos que o substituiriam. Está mais em harmonia com toda concepção elevada do Supremo supor que ele, em todas as épocas, tem comunicado a sua vontade à humanidade com clareza cada vez maior, tendo sempre em vista uma revelação final e plena, do que supor que ele plantou no coração do homem um germe religioso que sempre se desenvolveu com infinita variedade em toda variedade de solos, sem que se tomasse providência alguma para a sobrevivência do melhor, e até sem admitir que haja, ou possa haver, um melhor.
A demora da revelação. (1.) Mas pode-se objetar que está abaixo da dignidade de uma revelação divina manter o mundo em suspenso por tanto tempo. Em resposta a isso, só podemos remeter à analogia de todas as outras ações de Deus que estão ao alcance do nosso conhecimento. A terra como morada do homem, a história de todas as criaturas que a herdam e, especialmente, o progresso de tudo o que diz respeito ao seu principal habitante estiveram sob uma lei de evolução lenta, ao longo dos séculos. Supondo-se que toda a economia das coisas esteja sob o governo de uma única Mente suprema, isto é, supondo-se que o Deus da revelação seja o Autor da natureza, não pode haver, ou não deveria haver, dificuldade alguma para considerar ao menos as reivindicações de uma revelação que afirma descrever os métodos de uma educação gradual da raça humana. Para os defensores teístas da teoria do desenvolvimento, isso deveria ser uma forte recomendação das Sagradas Escrituras e da solução final que elas dão a todos os mistérios no cristianismo. Com os defensores materialistas ou positivistas dessa teoria, naturalmente, nada temos que ver: não há credenciais que se dirijam a eles. Eles precisam abandonar a sua ilusão da Nesciência, ou de uma Lei sem inteligência e sem sentido, e reconciliar-se primeiro com um Autor pessoal de todas as coisas, antes que a revelação cristã sequer olhe na direção deles. Mas os que admitem que o lançamento dos alicerces materiais da superestrutura da vida inteligente exigiu eras incalculáveis não deveriam recuar diante do anúncio preliminar de que Deus falou à raça humana muitas vezes e de muitas maneiras e, por fim, consumou todas as suas palavras no seu Filho.
I, 60Parte de um plano ilimitado. (2.) Se, mais uma vez, se apontar (como constantemente se faz) que aquilo que pretende ser a última revelação é, afinal, apenas uma resposta parcial às questões profundas da humanidade, isso pode ser concedido como fato; mas perde a sua força como argumento diante da sugestão de que mesmo o cristianismo é apenas parte de um plano, compreendido somente pela Mente infinita, do qual apenas os primeiros elementos são postos ao alcance das nossas faculdades. Mostraremos mais adiante que não há uma única questão do espírito humano, de cuja resposta dependam a sua paz presente e a sua provação para a felicidade eterna, que os santos oráculos não satisfaçam. Mais do que isso não temos direito de esperar. Se a revelação de Jesus tivesse pretendido não deixar mistério algum sem explicação, isso teria sido um argumento contra a sua divindade mais forte do que qualquer um que a incredulidade conseguiu encontrar até hoje.
Resumo. A força acumulada destes argumentos, dos quais apenas se indicou a linha, é, ou deveria ser, irresistível. Eles têm imensa força como demonstração moral do direito do cristianismo de ser ouvido e pesado com a mais profunda solenidade. Não dar ouvidos a Cristo é condenar-se a si mesmo. As suas palavras são a única resposta à expectativa universal da raça humana: tal como ela existe na própria constituição da mente, tal como é atestada pelo consenso das nações e tal como foi mantida viva desde o princípio por revelações sobrenaturais e graduais da vontade divina. Ou Deus falou assim, de modo final, ou não há Deus, e o homem é a criação incompreensível do acaso e o joguete do acaso que o criou.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 33-61, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.