W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · Escatologia
Escatologia. Vimos, à medida que avançávamos, que todos os fatos, todas as doutrinas e toda a ética da teologia apontam adiante, para uma única grande consumação. As coisas que dizem respeito a Cristo e ao seu reino TÊM UM FIM. Expor esse fim, seja universal, seja individual, num todo coerente é a esfera própria da escatologia, ou doutrina das últimas coisas. É evidente que todas as linhas convergem aqui para um único acontecimento, o retorno do Redentor, que é a esperança suprema do seu povo. A sua vinda, porém, não pode ser separada da ressurreição de todos os homens e do juízo universal. Antes desse acontecimento final do tempo, portanto, os destinos da causa de Cristo pertencem ao outro mundo tanto quanto a este, e temos um ramo profundamente interessante da teologia na morte e no reino dos mortos: aqui o tempo se mistura estranhamente com a eternidade, embora ainda seja tempo. Depois desse acontecimento final, quando já não houver tempo, resta-nos apenas a consumação de todos os desígnios divinos e do destino humano.
Características. Antes de entrar nesses temas em pormenor, podem-se fazer algumas observações sobre as características gerais deste ramo da teologia, visto que ele é, especificamente, a parte profética da revelação aperfeiçoada do cristianismo.
III, 368Só na Escritura. 1. Como tal, ele está quase, se não inteiramente, restrito às predições de Cristo e dos seus apóstolos. Do futuro da humanidade, seja neste mundo, seja no próximo, nada podemos saber por outras fontes. Os homens podem especular sobre os destinos da raça e argumentar sobre o que há de ser por indução a partir do que tem sido; mas tudo isso nada acrescenta ao conhecimento. Mas exatamente a mesma autoridade que nos dá a nossa teologia do passado e do presente dá-nos também a nossa teologia do futuro. Se examinarmos com cuidado o Novo Testamento, veremos que uma parte muito grande dele se ocupa das COISAS QUE ESTÃO PARA ACONTECER. Nosso Senhor mesmo falou muito do futuro do seu reino e da sua Igreja. O que ele predisse aos ouvidos dos seus apóstolos haveria de ser trazido à memória deles. Além disso, disse do Espírito Santo: anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer (Jo 16.13). Uma forma notável do cumprimento dessa profecia foi a revelação do futuro que ele mesmo fez à sua Igreja, pelo Espírito, por meio do último evangelista: a revelação de Jesus, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer (Ap 1.1).
Reserva. 2. Há uma analogia entre as profecias do Antigo Testamento a respeito do que eram então as últimas coisas e as do Novo Testamento. Nos tempos antigos, os profetas indagaram e investigaram… investigando qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas que eram indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava (1Pe 1.10-11). O mesmo se pode dizer dos seus sucessores, os apóstolos. Há em toda parte evidência de que a lei da reserva disciplinar que governa a parte profética da revelação divina vigora quase sem nenhum abrandamento. O que a primeira vinda do Messias foi para os santos antigos, a sua segunda vinda é para nós: temos o mesmo futuro, certo mas indefinido, delineado com muito mais clareza quanto aos seus grandes acontecimentos, mas igualmente indeterminado quanto a tempos e épocas, e perdendo-se num mistério igual, se não mais profundo. Seria de esperar que fosse de outro modo, e que a vinda do Objeto de toda profecia introduzisse uma nova ordem de predição, sem deixar lugar para incerteza ou erro quanto ao futuro. Mas é muito diferente. Algumas palavras, ditas aqui e ali, poderiam ter evitado mil controvérsias. Mas não foram ditas. Como disse o Mestre da Sabedoria na economia mais antiga e menos madura, a glória de Deus é encobrir as coisas, Limitação. a glória da sua sabedoria; assim ainda a glória dos reis é investigá-las (Pv 25.2), e todo o povo do Senhor tem essa prerrogativa real. Do princípio ao fim, a lei da revelação é probatória: o pecado original do homem, o de penetrar no conhecimento proibido, parece ser lembrado na economia divina da disciplina. Embora em todos os pontos que dizem respeito à provação o ensino seja claro e suficiente, nada se revela para satisfazer a curiosidade. Desde a primeira pergunta dos apóstolos, Será este o tempo em que o Senhor irá restaurar o reino a Israel? (At 1.6), tem havido constante evidência do erro da Igreja de especular indevidamente: ora em esboços fantasiosos, ora trágicos, ora sentimentais, o futuro do cristianismo tem sido traçado com maior ou menor temeridade confiante. A resposta do Salvador, Não cabe a vocês conhecer tempos ou épocas que o Pai fixou pela sua própria autoridade (At 1.7), tem aplicação ampla e ilimitada. Somos ensinados a nos contentar em deixar algumas partes do futuro desconhecido na sua obscuridade e a meditar, sem definições, diante do véu ainda não erguido, lembrando que, para nós, ele pode ser erguido enquanto ainda meditamos. Essa é uma disciplina severa, especialmente para o teólogo, que se deleita numa confissão de fé clara e é fortemente tentado a buscar, para as últimas coisas, a mesma análise formal que pôde dar da obra de Cristo consumada na terra e da administração presente do Espírito Santo. Ele gostaria de tecer num sistema as indicações esparsas da profecia. Mas nada é mais certo do que o fato de o Espírito Santo não encorajar esse desejo: a teologia profética dificilmente pode ser dogmática.
III, 369Estímulo. 3. Ao mesmo tempo, é igualmente certo que há uma bênção peculiar ligada ao estudo humilde, paciente e sério das temíveis realidades do futuro. A escatologia, ou doutrina das últimas coisas, apela a certos princípios e instintos da nossa natureza que só ela tem o poder de tocar. Há elementos na constituição do homem cujo cultivo é de grande importância para a disciplina religiosa; e a educação deles depende quase inteiramente deste ramo de assuntos. Esses assuntos exercem também uma atração irresistível sobre todas as classes, especialmente nos tempos de tristeza e com o avanço da idade; e a sua própria indefinição, a sua obscuridade e o seu mistério insondável aumentam essa atração. Além disso, uma parte considerável da ética do cristianismo nasce da contemplação do destino futuro e da preparação para ele. Por isso, há o mais amplo estímulo ao estudo dessas coisas, embora não haja estímulo algum à sua organização sistemática ou, por assim dizer, científica. Ficou registrado, como princípio geral, que Bem-aventurado aquele que lê, e bem-aventurados aqueles que ouvem as palavras da profecia (Ap 1.3): não bem-aventurado porque o leitor ou o ouvinte chegará algum dia a conhecer os tempos e as épocas que se desdobram simbolicamente diante da visão, mas bem-aventurado porque esse tipo de meditação tende a afastar a sua mente de todos os interesses inferiores e o manterá aos pés do Salvador, numa atitude de expectativa adoradora, de humildade e de confiança.
III, 370Métodos. 4. Os métodos de análise que se podem adotar são muitos e tomarão formas variadas segundo a inclinação e as predisposições do teólogo, especialmente a sua inclinação quanto à futura glória milenar da Igreja e à segunda vinda do Senhor. Alguns têm tanto preconceito contra as perversões do milenarismo que põem o retorno do Senhor, de modo geral, sob o seu ofício judicial e, assim, privam a escatologia da sua pedra de fecho. Outros estão tão fascinados por esse único tema que, na prática, dividem a redenção em duas seções: a primeira e a segunda vinda de Cristo. Certamente o retorno do seu Cabeça, como tal, é a esperança imorredoura do corpo militante na terra. É o ponto de fuga de toda expectativa cristã. Domina o grande porvir; mas, na ordem teológica, a morte e o Hades pertencem aos preparativos do seu advento; a própria vinda precede a ressurreição e o juízo; e, para além dela, embora ainda banhada pela sua glória, abre-se a consumação de todas as coisas.
Os domínios da morte. Morte é uma palavra de sentido amplo na teologia. Há um sentido em que ela não pertence às últimas coisas, pois é um dos primeiros fatos na história religiosa da humanidade. Como pena do pecado, já foi considerada. Aqui deve ser vista principalmente, embora não exclusivamente, como o último acontecimento na provação do homem, que ela transfere para a região dos mortos, a qual, na sua relação com a vinda de Cristo e com a consumação final, pode ser chamada estado intermediário.
Morte e vida. A morte espiritual e eterna reaparecerá numa etapa posterior da escatologia. Aqui nos ocupa mais diretamente o seu aspecto físico; e ela deve ser considerada, em primeiro lugar, como de certo modo abolida pela morte de Cristo, mas, em segundo lugar, como ainda assim mantida na disciplina do evangelho e feita ministra do propósito divino. Tudo se resume numa só palavra: o cristianismo nos ensinou o que é a morte como resultado do pecado sob a economia da graça.
A morte abolida. Diz são Paulo que Jesus Cristo aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho (2Tm 1.10) [N. do T.: a NAA traz “destruiu”]. De fato, a morte é abolida por ser também trazida à luz pela mesma revelação: isto é, o cristianismo explicou de modo definitivo e pleno o que é a morte e sob que condições a raça humana está sujeita a ela, apesar da grande redenção.
III, 372Morte e imortalidade. 1. Na nova dispensação, a morte nunca significa o oposto da existência: se o fosse, não se poderia dizer que foi aniquilada, a não ser que a intervenção do Salvador como o segundo Adão tivesse de fato devolvido à humanidade uma existência que, de outro modo, estaria perdida. Mas nunca se diz que a existência foi perdida pelo pecado: a ameaça de morte que se cumpriu quando entrou a desobediência foi a separação entre a alma, ou espírito, e o corpo. O corpo começou imediatamente a afundar em direção à terra de onde viera; e o espírito começou a conhecer aquelas enfermidades preliminares que terminam na agonia da separação final, a experiência mais violenta e antinatural a que, nesta vida, a transgressão sujeitou o homem: o tipo físico da separação entre a alma e Deus.
A sentença de morte. 2. Esta é a única morte que pode sobrevir à alma, pelo menos no que diz respeito à sentença pronunciada sobre o pecador. A imortalidade, ou existência consciente contínua, do espírito do homem é em toda parte pressuposta na Escritura e em parte alguma provada. E, no que toca à doutrina da morte que temos diante de nós, existência contínua e imortalidade são uma só coisa. A imortalidade absoluta do espírito humano ainda não está em questão. A imortalidade absoluta, aliás, nunca pode ser matéria de argumentação. Deus é o único que possui imortalidade (1Tm 6.16); se ele a deu ao homem como tal, há de ser como algo que se tornou inerente ao reflexo que o homem traz da semelhança de Deus. A doutrina cristã da morte deixa intocada a imortalidade natural da humanidade. Os argumentos em seu favor, na sua variedade e nos seus diversos graus de força, pertencem ao tema da imagem divina no homem. Os que se apoiam na imaterialidade da alma e na sua indivisibilidade, nas suas altas aspirações, nos seus instintos universais, são alegações válidas contra o materialista; mas estão todos subordinados ao testemunho original que atesta a marca da própria natureza do Criador nela impressa. Fora disso, nenhum argumento demonstra a imortalidade da alma, assim como não há nenhum que prove a existência de Deus. Mas agora só temos de ressaltar o fato de que a doutrina cristã da morte implica essa imortalidade: primeiro, porque nada se diz em contrário quando se fala da separação entre alma e corpo; e, segundo, porque se diz que a morte, no seu sentido mais amplo, foi eliminada em Cristo.
A morte abolida. A morte como pena, seja considerada física, seja espiritualmente, é abolida no evangelho da nossa redenção.
Para a raça. 1. No sentido mais amplo possível, ela é anulada ou eliminada. Não há restrição alguma nas palavras usadas para expressar que o Salvador suportou a morte em lugar da raça humana. Ao morrer, ele sofreu a maldição da lei; recebeu o salário do pecado, que não lhe era devido; e toda a humanidade, como um só todo, é libertada da sentença original. Para toda a família de Adão, a morte é virtual e provisoriamente abolida. Nosso Senhor provou a morte por todos, ὑπὲρ παντός (Hb 2.9). Ele removeu da raça essa condenação específica; e, se a aniquilação fosse, em qualquer sentido que seja, o significado da sentença, o Substituto do homem, o segundo Adão, a aboliu. Mas não temos na Escritura nenhum indício de que a aniquilação fosse o teor da sentença original. Era, antes, a separação entre a alma e o corpo, e de ambos em relação a Deus; e isso, como sentença absoluta sobre a humanidade, foi revogado e abolido.
Para o indivíduo. 2. Ela é realmente abolida para todos os que são achados em Cristo. Quem crê no Filho tem a vida eterna: o oposto daquela ira de Deus que permanece sobre o incrédulo (Jo 3.36). Quem tem o Filho tem a vida (1Jo 5.12). É verdade que a abolição é condicional e revelada gradualmente, tanto na alma quanto no corpo, assim como é gradual a plena revelação da morte da qual somos salvos. Na esperança fomos salvos (Rm 8.24): essa lei percorre toda a economia cristã; recebemos apenas as primícias, sendo toda bênção e todo livramento dados, quando muito, somente no seu penhor, até o resgate da sua propriedade (Ef 1.14). Mas virá o dia em que todo vestígio dessa sentença será apagado. O último inimigo a ser destruído é a morte (1Co 15.26). Foi também o primeiro inimigo destruído.
A morte mantida. A morte, no seu sentido mais limitado, como morte física, é assumida na economia evangélica: mantida como ordenança para a raça humana e como disciplina para todo crente. É essa morte que pertence especificamente à escatologia.
III, 374Quanto à raça. 1. A continuação da morte está ligada aos propósitos divinos relativos ao desenvolvimento e ao destino da humanidade. O que teria sido esse desenvolvimento sem o pecado, não sabemos: tudo o que sabemos do conselho eterno a respeito da espécie humana trata dela como uma raça que continua por meio de uma sucessão de gerações que morrem. Aos homens está ordenado morrerem uma só vez (Hb 9.27), na sua relação federal com o primeiro Adão, para que ressuscitem com o último. A economia da redenção, estabelecida antes que as portas do paraíso se abrissem para a história humana, mantém a morte como lei no governo do mundo. Isso é tudo o que se pode afirmar; e a especulação além desses limites não encontra estímulo. Pode-se dizer que isso foi, em certo sentido, deixar que a tendência original seguisse o seu curso, visto que a morte física já reinava sobre a terra antes que Adão fosse criado; e, além disso, que a terra foi adaptada à condição do homem como ser que vive e morre. Tal opinião exige que creiamos que, sem o pecado, o homem se teria elevado acima da lei geral, sendo a árvore da vida um sinal do que poderia ter sido uma imortalidade sem pecado. Mas isso, como a questão de saber se o Filho se teria encarnado caso não tivesse ocorrido a Queda, é deixado em profundo silêncio no registro sagrado. Basta saber que, quando a história do mundo tiver chegado ao seu último termo, a morte cessará. A humanidade aguarda a sua emancipação até que venha o Libertador. Então ele se mostrará o Senhor e o Abolidor da morte, suplantando-a e desalojando-a; e a última geração, que não morrerá, dará prova de que este primogênito do pecado só foi assumido no conselho divino para o desenvolvimento humano dentro dos limites do tempo.
A morte cristã. 2. A morte cristã é trazida à luz, de modo abundante e muito impressionante, como algo não abolido absolutamente, mas assumido no plano divino para o indivíduo, assim como o é para a raça.
Comunhão com Cristo. (1.) Ela faz parte da disciplina probatória dos crentes. Por isso, é santificada e dignificada como parte da comunhão da sua sorte com Cristo. Se já morremos com ele, também viveremos com ele (2Tm 2.11): aqui se deve incluir o sofrimento da morte física; as graças sagradas da experiência de nosso Senhor ao morrer devem refletir-se no morrer dos seus santos. Aquele elemento desconhecido do seu sofrimento que anulou a morte eterna do pecador não pode, por necessidade, ser partilhado; mas a sua entrega física à morte nos admite a uma comunhão com ela. Por isso, a morte é o último sacrifício da obediência cristã, segundo a palavra do apóstolo: já estou sendo oferecido (2Tm 4.6). Isso se refere a menos ou a mais do que o martírio propriamente dito: em certo sentido, toda morte é um martírio, pelo qual os servos de Cristo testemunham da redenção e glorificam a Deus (Jo 21.19). Não há graça da vida cristã que não seja aperfeiçoada na morte: não que a morte seja ministra do Espírito para destruir o pecado, mas ela é o último ato e a última oblação terrena do espírito sem pecado, em que o sacrifício de tudo se torna perfeito num só. Por isso, é o fim designado da provação humana. Podem-se imaginar outros métodos de pôr limite à carreira probatória, especialmente em relação à criatura não caída: este é o fim designado desde que começaram o pecado e a redenção. A própria execução da condenação é feita a meta do destino, e nela a sentença é finalmente revogada. E assim, em certo sentido, a morte é o juízo preliminar e decisivo para todo indivíduo na terra que conhece a ligação entre o pecado e o livramento.
III, 375Nomes da morte cristã. (2.) Por fim, a morte cristã é transfigurada numa partida desta vida para outra. Todos os nomes anteriores são mantidos na dispensação do evangelho; nenhum nome novo, a rigor, é acrescentado; mas todos são santificados para um caráter mais elevado e revestem-se da sua perfeição. É Dissolução, mas não restrita à ideia de descer ao pó da morte: é a separação entre espírito e corpo, sendo o corpo também dissolvido nos seus elementos componentes na terra, e o espírito, já não alma, reunido aos pais e a Cristo, voltando a Deus, que o deu, mas não dissolvido no abismo da Divindade. A ideia cristã de ser despido (2Co 5.4) é um avanço sobre qualquer revelação anterior: o corpo é apenas a veste que, dobrada no túmulo, será depois refeita para o espírito nu. A morte é descanso (2Ts 1.7) [N. do T.: a NAA traz “alívio”], como antigamente, mas descanso no serviço incessante do Senhor. É sono; mas é dormir em Jesus (1Ts 4.14) [N. do T.: a NAA traz “os que dormem” e liga “mediante Jesus” ao verbo “trará”]. Ainda é a pena do pecado, mas já não é apenas pena. Pois, para os que creem em Jesus, a morte já não é morte: não só o seu aguilhão desapareceu, mas ela própria já foi aniquilada quanto ao seu terror (que é a sombra que a segue, a segunda morte); todo o que vive e crê em mim não morrerá eternamente (Jo 11.26). Por fim, é mais do que o seguir pelo caminho de todos os mortais (Js 23.14) do Antigo Testamento: é uma Partida ou um Passamento, pois essas duas palavras são uma só. Assim foi no caso de nosso Senhor: Moisés e Elias falavam do passamento, τὴν ἔξοδον, que ele estava para cumprir em Jerusalém (Lc 9.31) [N. do T.: a NAA traz “falavam da morte de Jesus”]. E, entre as últimas alusões à morte no Novo Testamento, ela é vista apenas como uma mudança para outra esfera: o tempo da minha partida chegou (2Tm 4.6); e esta é a descrição mais simples e mais sublime dela que se oferece à nossa fé e à nossa esperança.
Hades. Em todas as Escrituras, do Gênesis ao Apocalipse, as almas dos homens que partiram são representadas como reunidas num único e vasto receptáculo, cujas condições interiores diferem muito nos dois Testamentos e variam em cada um deles. Sobre o seu estado há um aumento constante de luz à medida que a revelação avança, embora mesmo as suas revelações finais deixem muita obscuridade, que só a vinda do Senhor removerá. Fica estabelecido como certo, porém, que o estado intermediário está sob o controle especial do Redentor como Senhor de todos os mortos que já passaram deste mundo; que os que partiram na incredulidade estão numa condição de prisão, aguardando o juízo final, ao passo que os que morreram na fé estão no paraíso, ou antes, com Cristo, aguardando a sua consumação; e que a ressurreição universal porá fim tanto à morte quanto ao estado dos mortos sem corpo. Alguns poucos indícios que o Novo Testamento dá quanto à personalidade consciente dos súditos do reino do Senhor no Hades foram tomados como base de determinações doutrinárias, de instituições eclesiásticas e de teorias especulativas que pertencem ao campo da teologia histórica.
O mundo inferior. 1. Na revelação mais antiga, os habitantes da terra, em conjunto, passam pela morte para um estado ou lugar que é para o espírito o que a sepultura é para o corpo. Ele tem um nome invariável: SHEOL, שְׁאוֹל, a casa destinada a todos os vivos (Jó 30.23). A palavra foi derivada de uma raiz que significa ser oco; ou de outra que denota uma fenda ou abismo; ou de uma terceira, que significa pedir, em referência à sua exigência insaciável de almas. Deve ser distinguido da sepultura, palavra usada muitas vezes na tradução inglesa. Por exemplo, quando Jacó diz: Chorando, descerei à sepultura para junto do meu filho (Gn 37.35), a palavra é שְׁאֹלָה, ao Sheol: não se supunha que José estivesse em sepultura alguma. Os patriarcas iam para junto dos seus antepassados: Abraão, como depois Arão, foi reunido ao seu povo (Gn 25.8; Nm 20.24); eles eram reunidos ao seu povo, mas, na grande maioria dos casos, não eram sepultados com ele. Desde o princípio, o lugar oco em que se depositava o corpo não tinha nem mais nem menos realidade do que o Sheol, ou mundo inferior, que se supunha local e situado dentro da terra, para onde desciam todas as almas, conservando a sua personalidade consciente. Nunca são chamadas almas, porém, nem espíritos; mas, em escritos posteriores aos de Moisés, REFAIM, רְפָאִים, palavra que significa seres lânguidos, ou sem vigor, ou como sombras: diferentes, portanto, dos gigantes do Pentateuco.
III, 377Sheol. 2. Além disso, nos livros mais antigos, e na verdade em todo o Antigo Testamento canônico, ele é um único receptáculo indistinto de todos os mortos; em geral, um lugar de terror e escuridão, separado de Deus, não sem existência consciente e contínua, mas com apenas um frágil apego à vida; iluminado para os justos pela esperança, mas por uma esperança oscilante. Os testemunhos de Jó e de Ezequias representam o aspecto mais sombrio do Sheol. Não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me em paz, para que por um pouco eu tome alento, antes que eu vá para o lugar do qual não voltarei, para a terra das trevas e da sombra da morte, terra de escuridão, de trevas profundas, terra da sombra da morte e do caos, onde a própria luz é como a escuridão (Jó 10.20-22). Ouvimos a resposta do próprio Jó à sua pergunta desalentada, Quando alguém morre, será que volta a viver? (Jó 14.14): os seus filhos recebem honras, e ele não sabe; … ele sente as dores apenas de seu próprio corpo, e a sua alma lamenta apenas por si mesma (Jó 14.21-22). A previsão de Ezequias é tão sombria quanto a de Jó: A sepultura não pode te louvar, nem a morte glorificar-te (Is 38.18). A expectativa de Jó, em minha carne verei a Deus (Jó 19.26), não encontra cumprimento permanente e verdadeiro aquém da ressurreição.
Retribuição. 3. Há indícios, ainda que apenas indícios, de sortes distintas no destino final. Embora o Antigo Testamento atribua em toda parte aos que partiram uma existência contínua (portanto, a imortalidade, no sentido de que o espírito sobrevive à morte do corpo), guarda um silêncio quase ininterrupto quanto à retribuição depois da provação da vida. Mas a única Cova, בּוֹר, à qual todos igualmente descem, tem as suas profundezas mais baixas. Os servos de Deus, fiéis à sua aliança, têm nele a sua porção e, por isso, ele é o seu Deus, não Deus de mortos, e sim de vivos (Mt 22.32); mas, no mistério da revelação gradual, o segredo da prisão fica reservado para a vinda de Cristo. De Enoque não se diz que MORREU: não foi mais visto, porque Deus o levou para junto de si (Gn 5.24); mas isso foi apenas um testemunho permanente de que a morte não é essencial ao desenvolvimento do homem. O desejo de Balaão, de morrer a morte dos justos (Nm 23.10), é indefinido e não se referia necessariamente a nada além deste mundo. Mas muitas das orações dos salmistas mais do que insinuam uma diferença no além: Não me arrastes com os ímpios, com os que praticam a iniquidade (Sl 28.3). As especulações do Pregador apontam para a mesma diferença, mas como uma diferença que o dia do juízo há de trazer à luz: de todas estas coisas Deus lhe pedirá contas (Ec 11.9).
Novo Testamento. No Novo Testamento há uma retomada e um desenvolvimento muito notável da doutrina sobre o estado dos mortos no intervalo que precede a ressurreição final.
Os Evangelhos. 1. Antes da sua própria ressurreição, nosso Senhor adotou a antiga descrição do mundo invisível, usando o termo Ἅιδης, que a Septuaginta empregara invariavelmente como equivalente grego Hades. do hebraico SHEOL. Mas ele o subdividiu em dois compartimentos: ao lugar de Lázaro chamou, com os judeus, seio de Abraão (Lc 16.22); não põe, porém, o rico na Geena, que também se tornara o termo rabínico para o lugar da desgraça final. No Hades, estando em tormentos, levantou os olhos (Lc 16.23) [N. do T.: a NAA traz “para junto de Abraão” e “No inferno”, palavra que ela usa tanto para hades quanto para geena]; mas, no mesmo Hades, ele podia ver Lázaro, embora de longe. Nosso Senhor usa a palavra, esta única vez, no sentido do Antigo Testamento, de receptáculo geral das almas que partiram. Em outros lugares, porém, emprega-a para significar o império da ruína, da desolação e da subversão da vida humana: nesse sentido disse da sua Igreja: as portas do Hades não prevalecerão contra ela (Mt 16.18); e da cidade condenada da Galileia: Será jogada no Hades! (Mt 11.23). No Apocalipse, o Senhor volta à antiga ideia de um só e vasto reino dos espíritos sem corpo: tenho as chaves do Hades e da morte (Ap 1.18), embora, como na parábola do rico, com referência predominante à prisão dos condenados que nele há. A esta última o Senhor chama Geena repetidas vezes, como naquela palavra sempre memorável sobre o fogo do inferno, que nunca se apaga (Mc 9.43), e naquela solene denúncia dos fariseus que parece fazer desse inferno um estado que, como a vida eterna, pode ser a característica presente da alma: filho do inferno, ou da Geena, duas vezes mais do que vocês (Mt 23.15). Antes da sua partida, nosso Senhor deu uma nova designação ao reino dos bem-aventurados no Hades: Hoje você estará comigo no paraíso (Lc 23.43).
III, 379A descida do Senhor. 2. O que foi a descida do Redentor ao Hades já se considerou em outro lugar: ela introduziu não só um novo estado de coisas no mundo inferior, mas também uma nova terminologia para o estado intermediário. O Paraíso e a Geena dos Evangelhos (nomes figurados, tirados um do Jardim original e o outro do vale de Hinom, onde o fogo perpétuo queimava os refugos) reaparecem, com o Hades abrangendo os dois; mas nenhum deles com ênfase, nem com referência segura à condição intermediária das almas. Não se descreve tanto o lugar quanto o estado, ou o caráter, e as ocupações dos que nele estão. A vitória do Senhor sobre a morte e a sua gloriosa descida mudaram todo o cenário. Os santos que, na vida e na morte, estão unidos a ele são mencionados como os que dormem em Jesus (1Ts 4.14): ele é o seu κοιμητηρίον, ou cemitério, onde o sono é vida enquanto a vida é sono. A linguagem corrente das Epístolas refere-se à morte deles como partida para estar com Cristo (Fp 1.23), como entrada numa casa não feita por mãos humanas, eterna, nos céus (2Co 5.1) e como chegada a um estado quase consumado, na assembleia festiva, a igreja dos primogênitos arrolados nos céus, onde estão os espíritos dos justos aperfeiçoados (Hb 12.22-23). Tudo isso parece incompatível com uma localidade que corresponda, em qualquer sentido, ao mundo inferior do Sheol: de fato, o termo Hades estaria quase perdido, exceto no simbólico Apocalipse, não fosse a declaração explícita de que na ressurreição lhe será tirada a vitória: Onde está, ó Hades, a sua vitória? (1Co 15.55) [N. do T.: a NAA, que segue outro texto grego, traz “Onde está, ó morte, a sua vitória?”]. Com a ressurreição do Senhor, o Paraíso parece ter subido também a um céu inferior: por assim dizer, o terceiro céu (2Co 12.2), se não o sétimo. Da elevação do Paraíso deu-se algum indício quando muitos corpos de santos já falecidos ressuscitaram e saíram dos túmulos depois da ressurreição de Jesus (Mt 27.52-53): esses podem ter sido as misteriosas primícias simbólicas, cujos espíritos, reunidos aos corpos, apareceram a muitos no caminho, com Cristo, do Paraíso para o céu. Dos ímpios sem corpo nunca se fala senão como estando, de modo geral ou implícito, no Hades. Diz-se no Apocalipse que a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte (Ap 20.14). Como símbolos, eles desaparecem para sempre; e as pessoas reais que eles representam conhecem a segunda morte no lago de fogo, que é o mesmo que a Geena de fogo do Evangelho (Mc 9.43). Na linguagem da cristandade, esses termos foram trocados por INFERNO, que, além disso, muitas vezes se considera, contra a Escritura, já existente para os perdidos antes do juízo. São Pedro usa ainda outra palavra quando fala dos espíritos em prisão (1Pe 3.19-20), aos quais o Salvador pregou, ou anunciou, o cumprimento da redenção.
História. A teologia histórica tem aqui um vasto domínio, especialmente se incluirmos, como devemos, todo o leque das opiniões e práticas da humanidade fora dos limites da revelação.
Mitologia. A teologia comparada dá ampla prova de que todos, ou quase todos, os sistemas religiosos da antiguidade tiveram a sua Região dos Mortos. Do oriente e do ocidente, do norte e do sul, todos viajam para lá nos seus diversos sistemas de crença. No oriente, porém, o que chamamos estado intermediário foi deformado numa série sempre recorrente de transmigrações, até se alcançar o céu final das almas num estado de absorção em Deus. Em todas as mitologias com as quais a revelação entrou em contato, há um estado, um lugar e um governo do mundo inferior. Assim era na escatologia egípcia. Assim também na clássica. Hades, ou Plutão, e Perséfone, ou Prosérpina, recebiam os mortos, os Inferi, no Hades, ou no Tártaro abaixo dele, e nos Campos Elísios; e a sua jurisdição era a da retribuição estrita. Num sentido, as especulações da mitologia eram muito mais definidas que as do Antigo Testamento; mas não traziam em si a distante esperança messiânica que iluminava a escuridão do Sheol hebraico. E, quando a Verdadeira Luz apareceu, todas as sombras turvas e distorcidas projetadas sobre o futuro desapareceram, dando lugar a uma doutrina clara e definida do Hades, ainda ligado ao passado de provação, mas agora declarado apenas o limiar da ressurreição e da eternidade, nenhuma das quais existia de modo distinto na concepção humana até que o evangelho as trouxesse das trevas para a luz.
Teorias especulativas. Podem-se notar muitas e variadas especulações da teologia cristã, que não se limitaram a nenhuma época em particular.
Sono da alma. 1. A do SONO DA ALMA no estado intermediário prevaleceu muito cedo: a rigor, era o sono do homem inteiro, reduzido por um tempo à não existência, para ser chamado à existência por uma nova criação que ligaria a personalidade ao seu eu anterior. Essa noção considera o espírito apenas como alma, sem existência à parte do corpo, e esquece a distinção tripartida de corpo, alma e espírito, segundo a qual o princípio imaterial no homem é alma enquanto se serve de uma organização corporal, e espírito enquanto independente do órgão corporal. O artigo do Credo “Desceu ao Hades” exprimia a condenação antiga dessa hipótese. No século III, Orígenes combateu essa mesma crença, tal como a sustentavam os THNETOPSYCHITÆ [os que tinham a alma por mortal]. Na Idade Média e na Reforma, a especulação reviveu, e foi condenada repetidas vezes sob o nome de PSYCHOPANNYCHIA, ou noite intermediária do espírito. A ideia exerceu forte fascínio sobre muitos que, como Lutero às vezes, acharam difícil crer na continuidade da consciência sem o organismo corporal; e buscaram apoio no fato de que os mortos dormem em Jesus (1Ts 4.14): expressão figurada que de modo nenhum favorece essa opinião. Pareceu a muitos que o assunto fica livre de muita dificuldade se supusermos que, na consciência da alma, o momento da morte é literalmente o momento da ressurreição, sendo o longo intervalo, nessa consciência, menos que um instante. Mas tanto a parábola do Senhor sobre o rico quanto todo o cenário do Apocalipse apresentam o estado intermediário como uma cena de vida. O apóstolo diz que deixar o corpo é habitar com o Senhor (2Co 5.8); e o teor do Novo Testamento segue nessa direção. Essa hipótese, contudo, encontrou e ainda encontra muitos defensores nos tempos modernos.
III, 382Nenhuma ressurreição. 2. A base, ou a tendência, dessa teoria é materialista; mas nunca faltou uma corrente de especulação antimaterialista que, afirmando que a ressurreição já aconteceu (2Tm 2.18), aniquila igualmente o estado intermediário, embora de outro modo. Os que, nos primeiros tempos, representaram essa noção, condenada por são Paulo, sustentavam o erro gnóstico de que a redenção alcançava o seu triunfo final na libertação do espírito da sua prisão corporal. Supunham que os mortos já haviam chegado aos espíritos dos justos aperfeiçoados (Hb 12.23), entendendo mal essa perfeição como a libertação da matéria, para toda a existência criada. Esse erro, como o anterior, é incompatível com a doutrina uniforme da Escritura de que os mortos estão reunidos numa antecâmara da eternidade, um lugar de espera pela decisão final; e de que a consumação do indivíduo, seja para o bem, seja para o mal, é a da sua natureza tríplice: sendo a morte uma dissolução violenta de elementos que nunca deveriam ser separados, e a ressurreição o levantamento do homem inteiro, na sua integridade, para que compareça, no corpo da sua provação anterior, diante do tribunal de Deus.
Divisões medievais do Hades. 3. Ao estudarmos os sacramentos, já se aludiu ao dogma da disciplina purgatorial no grande Intervalo. É preciso notá-lo aqui na sua ligação com um vasto sistema de doutrina formulada a respeito das almas dos que partiram, erguido especialmente pela Igreja do Ocidente. A teologia medieval mais antiga ensinava que havia cinco regiões: o Céu e o Inferno, nas fronteiras extremas do Hades, se não além delas; o Limbus Infantum [limbo das crianças], onde as crianças não batizadas esperam, sem sofrimento, mas sem a visão de Deus, pela sua beatificação mais elevada; o Limbus Patrum [limbo dos pais], onde, no mesmo estado negativo de mera pœna damni [pena de dano], os pais do Antigo Testamento esperaram longamente a vinda de Cristo Purgatório e por fim o acolheram; e o Purgatório, onde a massa dos cristãos imperfeitos é preparada para o céu, ajudada nesse processo, seja ele de fogo literal ou espiritual, pelos sufrágios dos seus amigos na terra. Esse acréscimo dogmático à Fé foi confirmado no Concílio de Trento. Mas não pretende encontrar o seu fundamento na Escritura. É verdade que ele apareceu cedo entre as tendências da especulação cristã. Encontramos vestígios dele em Tertuliano, Cipriano e Agostinho; foi amplamente desenvolvido por Gregório Magno (o último dos Pais propriamente ditos e o primeiro dos Pais pontifícios), por volta do começo do século VII; e foi estabelecido como dogma pelo Concílio de Florença, em 1439. Mas não é o ensino natural, não forçado, de nenhuma passagem do cânon sagrado. E as superstições nele fundadas na teologia romana corrente, com os abusos a que tem servido, bastam para condená-lo, se for preciso outro argumento além da sua afinidade demasiado estreita com o paganismo e da desonra que ele lança sobre a satisfação perfeita da Expiação.
III, 383O evangelho no Hades. 4. As opiniões modernas sobre a aplicação continuada da obra do Redentor no outro mundo não se expõem às mesmas objeções, embora também estejam cercadas de muita dificuldade e de igual perigo. Tomaram formas variadas: algumas têm aparente apoio bíblico; outras são defendidas apenas pelo sentimento. Já se viu, ao tratar da história do Redentor como Mediador, que a sua descida ao Hades foi acompanhada da proclamação do seu evangelho. A boa exegese exige isso; mas a boa teologia terá o cuidado de não fundar nenhum ensino dogmático sobre uma revelação que se limita estritamente ao fato de nosso Senhor ter assumido pessoalmente as chaves do Hades (Ap 1.18). Ele é declarado Senhor de mortos (Rm 14.9); mas não se diz dele nem dos seus servos que preguem aos mortos. Nada está revelado com mais clareza, para todos os que ouvem o evangelho, do que isto: Eis agora o tempo oportuno! Eis agora o dia da salvação! (2Co 6.2). Não há ramo da teologia cujo estudo exija mais domínio próprio e mais estrita submissão à Palavra de Deus.
Desenvolvimento. 5. É preciso evitar extremos opostos. É difícil conceber que o espírito, que só acompanhamos enquanto se desenvolve em estrita harmonia com um organismo corporal, possa existir em plena consciência sem ele; mas devemos manter esse mistério de uma ressurreição antes da ressurreição (uma ressurreição do espírito para fora do seu corpo) até que chegue o tempo da revelação de todos os mistérios que têm solução. É igualmente difícil entender que os espíritos dos justos consumados com Cristo (Hb 12.23) [N. do T.: a NAA traz “aperfeiçoados”] estejam apenas num estado de consumação relativa e esperem uma revelação mais plena daquilo que, para eles, é quase tão cheio de mistério quanto para nós. Contudo, é assim, e temos de nos sujeitar a considerar o estado intermediário como um estado em que a graça da espera paciente terá a sua ação completa (Tg 1.4): a graça que pertence por excelência ao tempo e, no tempo, quase partilha a supremacia do amor, mas não pode existir na eternidade. A reação contra o dogma do purgatório tendeu antes a apagar a distinção entre o que, afinal, é o reino dos mortos e o que ainda há de ser revelado como o reino dos vivos no além. É preciso evitar os extremos de supor, de um lado, uma fixidez de condição perfeita e imutável e, de outro, de atribuir ao Paraíso a verdadeira obra da provação. Os destinos permanentes e consumados dos bons e dos maus estão associados ao dia do juízo e aos seus resultados. Não devemos antecipar esses resultados; nem devemos, quer em relação aos salvos, quer aos perdidos, pensar no céu como já alcançado ou no inferno como já aberto antes da crise para a qual o juramento do anjo dá a senha: que não haveria mais tempo, χρόνος οὐκέτι ἔσται (Ap 10.6) [N. do T.: a NAA traz “Já não haverá demora”]. Só então a exegese ou a especulação poderão dar por cumprido o mistério de Deus (Ap 10.7).
III, 384Com Cristo. 6. O Apocalipse mostra que os espíritos dos santos, separados do corpo, seguem o Cordeiro por onde quer que ele vá (Ap 14.4). Lembrando tudo o que essa frase significa nos Evangelhos, concluímos que gozam da bendita disciplina da comunhão com ele. Além disso, é-nos dito que, tendo lavado suas vestes e as alvejado no sangue do Cordeiro (Ap 7.14), ainda o adoram de dia e de noite no seu santuário (Ap 7.15); que o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará (Ap 7.17); que, conosco, seus conservos e seus irmãos (Ap 6.11), enquanto reinam sobre a terra (Ap 5.10), continuam companheiros no reino e na perseverança em [Jesus Cristo] (Ap 1.9), clamando: Até quando, ó Soberano Senhor? (Ap 6.10). Tudo isso indica um progresso na bem-aventurança e no desenvolvimento da energia moral durante o estado de separação do corpo. Eles têm a disciplina da esperança, e de uma esperança que ainda não é eterna nos céus, embora já não seja de provação. Aguardam a consumação, a do seu Senhor e a sua própria. E o seu progresso na vida espiritual não é simplesmente aquele que, depois do juízo, continuará para sempre, mas um avanço de etapa em etapa, peculiar ao estado intermediário. O tempo está atrás deles; o tempo também está diante deles; o dia da eternidade ainda não chegou plenamente.
Lugar e corpo. 7. Quanto à localização e à investidura corporal desse estado, só sabemos que nada sabemos. A abundância da especulação tem sido proporcional à escassez da doutrina revelada. Alguns supuseram que o espírito está nu e absolutamente sem corpo: ideia que a nossa formação física na terra torna inconcebível, mas que nem por isso deve ser rejeitada. Outros supõem que as descrições do Apocalipse não são inteiramente figuradas, mas que o espírito separado criará para si, por assim dizer, ou receberá já preparado, um veículo etéreo que corresponda à alma que antes animava o corpo. Mas essa corporeidade intermediária, essa Prima Stola [primeira veste], que encontrou larga aceitação entre os teólogos modernos e cedo recebeu em Dante a sua mais alta expressão poética, não tem apoio na Escritura. As vestes brancas do Apocalipse (Ap 3.5) são explicadas pelo próprio Apocalipse como as vestes lavadas no sangue do Cordeiro (Ap 7.14). Essa noção é incompatível com a ideia bíblica da morte, bem como com a descrição dos que partiram como πνεύματα, ou espíritos (Hb 12.23); e é uma versão peculiar da primeira ressurreição, que antecipa, de modo contrário à Escritura, a ressurreição propriamente dita. Nenhum assunto foi tratado de modo mais fantasioso; mas aqui a especulação está fora de lugar. Basta saber que todos os que morrem no Senhor estão unidos a ele na sua natureza encarnada e glorificada; e o corpo celestial dele é o lar deles.
III, 385Os ímpios que partiram. 8. Isso nos leva mais uma vez às probabilidades acerca do estado dos ímpios que partiram, já indicadas em outro contexto. Seja qual for o progresso de glória em glória do espírito do santo separado do corpo, nada há na Escritura que autorize a esperança de quaisquer influências, no estado intermediário, que tendam a tirar da sua desonra os que, tendo rejeitado a Cristo, estão separados do corpo. Nos dias de hoje, a palavra de Deus é esquadrinhada com o maior empenho em busca de qualquer vislumbre de encorajamento, por mais tênue que seja. Mas não se acha nenhum sobre o qual a esperança possa fundar-se com segurança. Certamente, quanto aos que desprezam a expiação, nenhuma linguagem pode ser mais explícita que o testemunho de nosso Senhor e dos seus apóstolos. E, quanto aos que não rejeitaram deliberadamente aquele de quem nunca ouviram falar, o silêncio da revelação deve ser o nosso silêncio. Não há anúncio claro quanto à proclamação das boas-novas da redenção, no outro estado, aos que nunca as ouviram na terra. Isso, como muitos outros segredos daquele estado, está guardado em oculto no conselho divino. Filho, lembre-se! (Lc 16.25) pode parecer implicar que, até o Dia do Juízo, se dá conselho de advertência com proveito; mas essas palavras foram ditas a alguém cuja condição não podia ser mudada: há um grande abismo (Lc 16.26). E, mais ainda, a separação definitiva não só é ordenada por Deus, mas também se declara que repousa sobre uma incapacidade interior: Se não ouvem Moisés e os Profetas, também não se deixarão convencer, mesmo que ressuscite alguém dentre os mortos (Lc 16.31). O Salvador certamente fala de um tipo de pecado que não será perdoado nem neste mundo nem no porvir (Mt 12.31-32); e poderia parecer que há perdão a ser oferecido ao menos para todos os outros pecados. Mas é inegável que a frase inteira era corrente no sentido de NUNCA. Além disso, as palavras poderiam significar que o pecado contra o Espírito Santo seria cometido tanto na dispensação vindoura do reino messiânico, depois do Pentecostes, quanto na dispensação preliminar do próprio Salvador. Certamente nenhuma doutrina pode ser fundada em palavras tão propositadamente misteriosas. Sem dúvida, todo o teor do Novo Testamento nos ensina que, como debaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos (At 4.12), todos os que não são salvos têm de rejeitar esse Nome, revelado a eles de algum modo. Dessa conclusão nem a Escritura nem a caridade humana nos permitem desviar-nos. Mas como essa luz há de iluminar o temível futuro, não sabemos, e é presunção, mesmo para a caridade, indagar com demasiada curiosidade: este e muitos outros mistérios devem ser deixados ao amor infinito e à sabedoria infinita da Santíssima Trindade. Será que o Juiz de toda a terra não faria justiça? (Gn 18.25)
III, 386Sabemos que não há provação no estado intermediário: está claramente revelado que é necessário que todos nós sejamos manifestados diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo (2Co 5.10) [N. do T.: a NAA traz “compareçamos”; o argumento a seguir depende de “manifestados”]. Que isso vale não só para os cristãos, mas para todos os homens, fica claro pela revelação de que, quando a morte e o Hades entregarem os seus mortos, eles serão julgados, um por um, segundo as suas obras (Ap 20.13). Todas as crianças que morreram serão manifestadas, a si mesmas e aos outros, como pertencentes ao Senhor pela redenção. O que havia de bom no coração dos pagãos também será manifestado. Mas, quanto a eles, a nossa sabedoria é adotar as palavras de John Wesley: “Tampouco penso que homem algum vivo tenha o direito de sentenciar à condenação todo o mundo pagão e maometano. É muito melhor deixá-los entregues àquele que os fez” (Wesley, Sermão LXXV).
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 365-387, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.