John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção XVII
Palavra aos fariseus cristãos que se julgam perfeitos.
DIRIJO-ME primeiro a vocês, fariseus cristãos que se julgam perfeitos, porque vocês são os mais prontos a professar a perfeição cristã, embora, ai!, estejam o mais longe possível da humildade perfeita, a graça mais essencial ao caráter do cristão perfeito; e porque os inimigos da nossa doutrina se servem de vocês em primeiro lugar quando procuram arrancá-la da terra.
Para que vocês saibam a quem me refiro quando falo de fariseus cristãos que se julgam perfeitos, permitam-me mostrar-lhes o seu próprio retrato no espelho de uma descrição simples. Vocês entraram, segundo o que professam, no aprisco onde as ovelhas de Cristo, aperfeiçoadas no amor, descansam todas aos pés umas das outras e aos pés do Cordeiro de Deus. Mas como entraram? Por Cristo, a porta (cf. Jo 10.9)? Ou pela porta da presunção? Não por Cristo, a porta; pois Cristo é a mansidão e a humildade manifestadas na carne, e vocês ainda são ásperos e ávidos de louvor. Quando ele derrama a sua alma como profeta divino, diz: Aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração; tomem sobre vocês o meu jugo, e vocês acharão descanso para a sua alma (cf. Mt 11.29). Mas vocês passam por cima dessa porta humilde. A sua mente orgulhosa e gigantesca está acima de se abaixar o bastante para seguir aquele que se esvaziou (Fp 2.7) para nos elevar a honras celestiais; e que, para lançar justo desprezo sobre o orgulho humano, teve a sua primeira noite de pousada num estábulo e passou a sua última noite em parte sobre o chão frio, numa tempestade de ira divina, e em parte num cárcere ignominioso, exposto às maiores indignidades que judeus e gentios podiam lançar sobre ele. Ele repousou a cabeça de menino sobre o feno, e a cabeça agonizante sobre espinhos. Uma manjedoura foi o seu berço, e uma cruz o seu leito de morte. Durante trinta anos ele caminhou do estábulo imundo até o madeiro maldito, sem ser notado pelo seu próprio povo, o povo de sua propriedade. Nos mais brilhantes dos seus dias, pobres pescadores, algumas mulheres galileias e um bando de crianças que o aclamavam formavam todo o seu séquito. Pastores foram os seus primeiros acompanhantes, e malfeitores os seus últimos companheiros.
A sua primeira bem-aventurança foi: Bem-aventurados os pobres em espírito (Mt 5.3); e a última: Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, os insultarem e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês (Mt 5.11). A sua primeira doutrina foi: Arrependam-se (Mt 4.17); e a última não foi diferente dela: Se eu lavei os pés de vocês, também vocês devem lavar os pés uns dos outros. Porque eu lhes dei o exemplo, para que, como eu fiz, vocês façam também (cf. Jo 13.14-15). Quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja o menor de todos (cf. Mc 9.35; Mt 20.27). Ora, longe de praticar com piedosa sinceridade esta última lição do nosso humilde Senhor, vocês nem sequer apreciam de verdade a primeira. Vocês não se deleitam na pobreza de espírito penitente; antes, a detestam. A humildade de vocês não é cordial nem foi entretecida na sua natureza pela graça; é de cortesia, e foi tecida no seu porte pela arte. Vocês são humildes no olhar, nos gestos, na voz, no vestir, no comportamento, na medida em que a humildade exterior os ajuda a garantir a reputação de cristãos perfeitos, à qual aspiram por um motivo de ambição farisaica; mas continuam estranhos à simplicidade de criança e à contrição sem afetação dos discípulos perfeitos de Cristo. Vocês são exatamente o contrário dos israelitas em quem não existe fingimento algum (cf. Jo 1.47). Parecem-se com os astutos gibeonitas, que por algum tempo enganaram a simplicidade sem malícia de Josué. A profissão fingida que vocês fazem de uma graça especial engana aqueles filhos de Deus que têm mais da simplicidade da pomba do que da prudência da serpente (cf. Mt 10.16). Vocês escolhem o último lugar, mas não o amam. Se o tomam de bom grado, não é entre os seus iguais, mas entre os seus inferiores, porque pensam que um passo tão condescendente pode aumentar o crédito da sua humildade sem pôr em risco a sua superioridade. Se vocês se abaixam e descem, não é porque se veem indignos do lugar de honra, mas porque esperam que logo as pessoas lhes digam: Venha sentar num lugar melhor (cf. Lc 14.10). A sua astúcia farisaica pretende usar ao mesmo tempo o diadema da humildade genuína e a coroa do orgulho que exalta a si mesmo. Vocês gostam de ser estimados pelos homens pela sua bondade e devoção; querem ser admirados pela sua exatidão, pelo seu zelo e pelas suas conquistas na graça. O orgulho dos fariseus judeus era grosseiro em comparação com o de vocês. Eles usavam a veste rústica, e vocês usam as sedas da vaidade espiritual; e, mesmo quando as tingem no sangue do Cordeiro, que vocês exaltam com palavras, é mais para atrair a confiança dos cristãos humildes pela sua aparência e linguagem cristãs do que para seguir a inclinação de uma nova natureza, que gosta de se revestir de humildade e se sente no seu próprio centro quando repousa em profunda pobreza de espírito e vê que Deus é tudo em todos (cf. 1Co 15.28).
Um dos maiores propósitos da vinda de Cristo ao mundo foi esvaziar-nos de nós mesmos e encher-nos de amor humilde; mas vocês continuam cheios de si mesmos e vazios de Cristo, isto é, vazios da humildade encarnada. Vocês ainda miram algum alvo errado, seja a glória própria, o interesse próprio, o prazer próprio, o próprio partido ou o aplauso para si mesmos. Numa palavra, um ou outro projeto egoísta, contrário ao amor puro a Deus e ao próximo, destrói em segredo a raiz da sua profissão de fé, e pode ser comparado ao verme invisível que atacou a raiz da planta de Jonas (cf. Jn 4.7). Vocês têm um espírito estreito e acanhado: não sacrificam de bom grado a sua satisfação particular, o seu interesse, a sua reputação, os seus preconceitos, ao interesse geral da verdade e do amor e ao bem comum de todo o corpo de Cristo. Ainda estão em secreta servidão a homens, a lugares e a coisas. Não acolhem de coração a sabedoria lá do alto, que é pura, gentil, amigável e cheia de misericórdia (Tg 3.17). Pior ainda, vocês estão acima de qualquer convicção: os pecadores grosseiros se rendem à verdade antes de vocês. Como Jeú, vocês são zelosos e alegam que é pelo Senhor dos Exércitos (cf. 2Rs 10.16); mas, ai!, é pelas suas opiniões, pelo seu partido, pela sua honra. Numa palavra, vocês não andam na constante e solene expectativa da morte e do juízo; a sua vontade não está quebrantada; a sua confiança carnal ainda está viva; a pomba celestial não pousa no seu peito; o eu, envolto no manto da humildade, continua entronizado no seu coração; e em segredo vocês servem a esse ídolo maldito mais do que a Deus. Satanás, disfarçado de anjo de luz (2Co 11.14), conduziu vocês com astúcia à profissão da perfeição cristã por meio de um ciclo de práticas exteriores, de formas gloriosas de doutrina na letra e de uma bela aparência de zelo pela santidade completa; o Senhor, para castigar o seu formalismo, em parte os entregou ao seu engano; e agora vocês se julgam cristãos perfeitos tanto quanto os fariseus, no tempo do nosso Senhor, se julgavam judeus perfeitos.
O sr. Wesley, em Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã, deu o seu testemunho fiel contra testemunhas do amor perfeito como vocês. Se vocês desprezam esta exortação, deem atenção às observações dele. “Outros [diz ele], que julgam ter o testemunho direto de terem sido renovados no amor, carecem, contudo, manifestamente do fruto. Alguns carecem sem dúvida de longanimidade, de resignação cristã. Não veem a mão de Deus em tudo o que acontece, nem a abraçam com alegria. Não dão graças em tudo, nem se alegram sempre. Não são felizes; pelo menos não são sempre felizes. Pois às vezes se queixam. Dizem: ‘Isto é duro!’ Alguns carecem de benignidade. Resistem ao mal, em vez de oferecer a outra face. Não recebem a afronta com benignidade; não, nem mesmo a repreensão. Mais ainda, não conseguem suportar a contradição sem ao menos uma aparência de ressentimento. Se são repreendidos ou contraditos, ainda que com brandura, não o recebem bem. Passam a tratar os outros com mais distância e reserva do que antes etc. Alguns carecem de bondade. Não são bondosos, brandos, doces, amáveis, suaves e amorosos em todo o tempo, no seu espírito, nas suas palavras, no seu olhar, no seu porte, em todo o teor do seu comportamento; não são bondosos para com todos, grandes e pequenos, ricos e pobres, sem acepção de pessoas; particularmente para com os que andam desviados, para com os opositores e para com os de sua própria casa. Não anseiam, não estudam, não se esforçam por todos os meios para fazer felizes todos os que estão ao seu redor. Alguns carecem de fidelidade, de um apego escrupuloso à verdade, à simplicidade e à sinceridade piedosa. O amor deles dificilmente é sem hipocrisia: algo como engano se acha na sua boca. Para evitar a aspereza, inclinam-se para o outro extremo. São afáveis em excesso, a ponto de mal escaparem de certo grau de bajulação. Alguns carecem de mansidão, de quietude de espírito, de serenidade, de igualdade de ânimo. Vivem em altos e baixos, ora em cima, ora embaixo; a sua mente não está bem equilibrada. Os seus afetos ou não estão na devida proporção (têm demais de um, de menos de outro), ou não estão devidamente misturados e temperados entre si de modo a se contrabalançarem. Daí resulta muitas vezes uma desafinação. A sua alma está fora do tom e não consegue produzir a verdadeira harmonia. Alguns carecem de domínio próprio. Não usam com constância aquela espécie e quantidade de alimento que sabem, ou poderiam saber, que mais contribuiria para a saúde, a força e o vigor do corpo. Ou não são moderados no sono: não se atêm rigorosamente ao que é melhor para o corpo e para a mente. Não praticam nem o jejum nem a abstinência” etc.
Descrevi o engano de vocês; mas quem poderá descrever as suas consequências fatais? Quem poderá dizer o mal que ele já fez e continua a fazer? Os poucos perfeccionistas sinceros e a multidão de imperfeccionistas capciosos igualmente descobriram quem vocês são. Os primeiros se entristecem por vocês; os últimos triunfam por meio de vocês.
Quando os perfeccionistas sinceros consideram a incoerência da profissão de vocês, ficam a ponto de abandonar a sua fé no sangue de Cristo, que purifica de tudo, e a sua esperança de obter um coração puro nesta vida. São tentados a seguir a multidão dos que professam a fé, que se acomodam numa justiça imputada a si mesmos, ou nas noções solifidianas de uma perfeição ideal em Cristo. E bom será se alguns deles já não tiverem cedido à tentação e começado a combater as esperanças que um dia nutriram de amar a Deus de todo o coração. Bom será se alguns, por causa de vocês, não tiverem sido levados a dizer: “Antes eu me deleitava com o pensamento de fazer a vontade de Deus na terra, assim como é feita no céu (cf. Mt 6.10). Antes eu orava, cheio de esperança, para que Deus purificasse o meu coração de tal modo que eu pudesse amá-lo perfeitamente e engrandecer dignamente o seu santo nome neste mundo. Mas agora renunciei às minhas esperanças e detesto igualmente a doutrina da perfeição evangélica e a da dignidade evangélica. Fiz um acordo firme com o pecado. Ele há de habitar no meu coração enquanto a minha alma habitar no meu corpo. Nem a palavra nem o espírito de Cristo hão de expulsá-lo. Quando eu era recém-convertido, cria que Cristo podia realmente pôr fim a toda a impureza moral, lançar fora o homem do pecado e purificar-nos do pecado do coração, assim como da iniquidade exterior, nesta vida; mas logo encontrei gente sem humildade e voluntariosa, que defendia ousadamente essa gloriosa liberdade e me fez duvidar da verdade da doutrina. Mais ainda, com o passar do tempo, descobri que alguns dos que mais confiantemente professavam ter alcançado essa salvação estavam mais longe da mansidão, da simplicidade, do espírito católico e da humildade não fingida de Cristo do que muitos crentes que nunca tinham considerado a doutrina da perfeição cristã. Esses escândalos, somados a algumas decepções que eu mesmo tive ao buscar debilmente a pérola do amor perfeito, levaram-me a concluir que ela não pode ser encontrada, assim como a pedra filosofal, e que são todos ou tolos ou velhacos os que põem os crentes a buscá-la. E agora denuncio em toda parte a doutrina da perfeição como um engano perigoso. Ponho as pessoas contra ela aonde quer que eu vá, e o meu zelo nisso tem sido acompanhado do maior sucesso. Apaguei as esperanças de muitos perfeccionistas! E converti vários à doutrina da imperfeição cristã. Com eles espero agora tranquilamente ser purificado do pecado que habita em mim na hora da morte e ser aperfeiçoado no outro mundo, não só no dever para com os pobres e no amor à minha esposa, mas também na paciência para com os que contrariam a minha vontade e no amor a todos os meus inimigos.”
Esse discurso absurdo, receio eu, é a linguagem de muitos corações, embora não saia abertamente de muitos lábios. Assim são vocês, ó fariseus perfeitos, os grandes instrumentos por meio dos quais o tentador arranca o escudo daqueles israelitas vacilantes que olham mais para as incoerências de vocês do que para a beleza da santidade, a promessa de Deus, o sangue de Cristo e o poder do Espírito.
Mas isso não é tudo: assim como vocês destroem a fé nascente dos perfeccionistas sinceros, também fortalecem a incredulidade dos solifidianos. Por causa de vocês, os preconceitos deles cresceram até se tornar uma aversão firmada à perfeição cristã. Vocês os endureceram no seu erro e os municiaram com argumentos plausíveis para destruir a verdade pela qual vocês lutam. Nunca ouviram os triunfos deles? “Ah! ah! Assim é que queríamos! Estes são alguns dos que defendem a perfeição sem pecado! São todos iguais. Não lhes disse que vocês acabariam descobrindo que eles não passam de monstros temporários? Que orgulho monstruoso! Que melindre, que obstinação, que intolerância e que estoicismo os caracterizam! Como coam mosquitos e engolem camelos (cf. Mt 23.24)! Prefiro ser um bêbado declarado a ser um perfeccionista. Os publicanos e as prostitutas entrarão no Reino dos Céus antes deles (cf. Mt 21.31).” Esses são os discursos cortantes a que dão origem a gritante incoerência de vocês e os preconceitos severos dos nossos opositores. Não é deplorável que as disposições de vocês levem assim os homens a detestar a doutrina que os seus lábios recomendam?
E o que vocês ganham desanimando assim os verdadeiros amigos da perfeição cristã e fornecendo aos seus inimigos declarados armas tão afiadas contra ela? Pensam vocês que o mal que fazem não há de recair sobre vocês mesmos? Não é Jesus Cristo o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb 13.8)? Se ele detestou o farisaísmo perfeito dos judeus sem humildade, irá admirar a justiça própria perfeita dos cristãos ambiciosos? Se outrora resistia aos soberbos e dava graça aos humildes (cf. Tg 4.6), que razão vocês têm para esperar que ele se submeta ao seu orgulho espiritual e recompense a sua ostentação religiosa com uma coroa de glória? Vocês talvez clamem contra o antinomianismo, e eu os louvo por isso; mas não estão vocês profundamente contaminados com a pior espécie de antinomianismo, aquela que engoma, enrijece e incha a alma? Com justiça vocês dão o seu testemunho contra os que anulam a lei de Cristo para os crentes, rebaixando-a a uma regra que eles despojam das sanções punitivas e remuneradoras com que ela está armada nas Escrituras sagradas. Mas não são vocês duplamente culpados, vocês que sustentam que essa lei ainda está em vigor como lei e, no entanto, se recusam a prestar-lhe uma obediência sincera e interior? Pois quando vocês quebram o primeiro mandamento da lei evangélica de Cristo, rejeitando na prática a pobreza de espírito penitente (cf. Mt 5.3); e quando transgridem o último, detestando o último lugar (cf. Lc 14.10), desdenhando lavar os pés uns dos outros (cf. Jo 13.14) e recusando-se a dar preferência aos outros quanto à honra (cf. Rm 12.10), não são vocês culpados de quebrar toda a lei por quebrá-la num só ponto (cf. Tg 2.10), no ponto capital do amor humilde, que percorre todas as partes da lei como o sangue vital percorre todas as partes do corpo? Ó, quanto mais perigoso é o caso de um homem sem humildade, que anda empertigado nas vestes de uma perfeição feita por ele mesmo, do que o de um homem humilde que, por preconceito e pela força do exemplo, anda mansamente nas vestes de uma justiça imputada a si mesmo!
Ora, se você se chama cristão perfeito e confia na lei evangélica de Cristo, que é comumente chamada evangelho; se você se gloria em Deus, conhece a vontade dele e aprova as coisas excelentes, isto é, o caminho da perfeição cristã, sendo instruído no evangelho; se você está convencido de que é guia dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutor de insensatos e mestre de crianças, ou crentes imperfeitos, tendo no evangelho a forma do conhecimento e da verdade; você, pois, que ensina os outros, não ensina a si mesmo? Você, que prega que não se deve transgredir a lei de Cristo, desonra a Deus pela transgressão dela? Pois o nome de Deus é blasfemado por causa de vocês entre os que buscam ocasião para blasfemá-lo (Rm 2.17-24). E pensam vocês que conseguirão se livrar do justo juízo de Deus (cf. Rm 2.3, 5)? Será que Cristo só tem ais para os fariseus judeus? Ó, não continuem enganados. Antes que sejam castigados, sendo aqui entregues a um modo de pensar reprovável (cf. Rm 1.28) e depois lançados no inferno dos hipócritas (cf. Mt 24.51), nas trevas exteriores, onde haverá mais choro, lamento e ranger de dentes do que em qualquer outro inferno! Antes que os surpreenda a hora terrível da morte e o dia pavoroso do juízo, aprendam na prática que a perfeição cristã é o modo de pensar que havia em Cristo (cf. Fp 2.5), especialmente a sua mente humilde, mansa e tranquila, o seu espírito brando, generoso e amoroso. Busquem-na afundando numa profunda aversão a si mesmos, e não usando, como até agora fizeram, a conversa vazia e a profissão da perfeição cristã como degrau para alcançar o topo do orgulho espiritual.
Não me entendam mal: não os censuro por sustentarem a doutrina da perfeição cristã, mas por errarem voluntariamente o único caminho que leva a ela; refiro-me ao Jesus humilde, manso e amoroso, que diz: Eu sou o caminho (Jo 14.6) e a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo (Jo 10.9), salvo para tão grande salvação (Hb 2.3). Quem não entra por esta porta neste curral das ovelhas, mas sobe por outro lugar [e especialmente quem sobe pelo caminho do formalismo farisaico], esse é ladrão e salteador (Jo 10.1): rouba a Cristo a sua glória e pretende algo a que não tem mais direito do que um ladrão tem aos bens de vocês. Querem então estar no caminho certo? Não joguem fora a doutrina de uma santidade sem pecado no sentido evangélico; mas lutem por ela mais com o coração do que com os lábios. Com toda a alma, prossigam em busca de uma perfeição como a que Cristo, são Paulo e são João ensinaram e exemplificaram: uma perfeição de mansidão e de amor humilde. Creiam com todo o empenho em todos os ais que o evangelho pronuncia contra os fariseus que confiam na própria justiça e em todas as bênçãos que ele promete aos penitentes perfeitos. Bebam menos da letra e mais do Espírito de Cristo, até que, como uma fonte de água viva, ele jorre para a vida eterna no coração de vocês (cf. Jo 4.14). Vocês subiram até a perfeição farisaica de Saulo de Tarso, quando quanto à justiça que há na lei, ele era irrepreensível (Fp 3.6). Querem agora alcançar a perfeição evangélica que ele possuía quando disse: Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este modo de pensar (Fp 3.15)? [N. do T.: a NAA traz “maduros”; Fletcher segue a King James, “perfect”.] Basta segui-lo na regeneração (cf. Mt 19.28): prostrem-se no pó diante de Deus; levantem-se conscientes da cegueira do seu coração; lamentem-na mansamente com vergonha penitente; e, se vocês seguirem as orientações dadas na terceira exortação, não duvido de que, por mais perigoso que seja agora o seu caso, vocês hão de ser, como são Paulo, tão eminentes na perfeição cristã quanto até aqui foram na santidade farisaica.
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.