John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção XVIII

Palavra aos imperfeccionistas com preconceito

Temo que, depois das pessoas a quem acabo de me dirigir, quem mais prejudica a causa da santidade são vocês, crentes que foram arrastados ao antinomianismo doutrinário pelos maus argumentos respondidos nas páginas anteriores. Permitam-me, portanto, dirigir-me agora a vocês; e não deixem que o preconceito os leve a jogar fora esta admoestação antes de lhe concederem uma leitura justa.

Vocês defendem, direta ou indiretamente, a permanência necessária do pecado em seu próprio coração e no coração de todos os verdadeiros cristãos. Mas posso ter a ousadia de perguntar: quem lhes deu licença para isso? E quando foram encarregados de propagar este evangelho sem santidade? Foi no seu batismo, quando foram alistados entre os soldados de Cristo e receberam um nome cristão, em sinal de que haveriam de guardar a santa vontade e os mandamentos de Deus todos os dias da sua vida? E de que não se envergonhariam de combater varonilmente contra o mundo, a carne e o diabo até o fim da vida? Não são esses três inimigos fortes o bastante para exercitar a sua paciência e provar a sua perícia militar até o fim? Os seus padrinhos prometeram, em nome de vocês, que vocês aquartelariam um quarto inimigo, chamado o pecado que habita em nós, no seu próprio peito, para que não lhes faltassem inimigos contra quem lutar? Ao contrário, não foram vocês exortados “a abolir inteiramente todo o corpo do pecado”? Se é assim, não é estranho que gastem parte do seu precioso tempo defendendo, sob vários pretextos, a preservação do pecado do coração, pecado que dá vida, calor e vigor a todo o corpo do pecado? E não é lamentável que, em vez de cumprirem com consciência os compromissos do seu batismo, vocês ataquem aqueles que desejam cumpri-los abolindo inteiramente todo o corpo do pecado?

Mas talvez vocês sejam ministros da Igreja estabelecida; e, nesse caso, pergunto: quando foi que o bispo os enviou a esta estranha guerra? Foi na sua confirmação, quando ele lhes impôs as obrigações solenes de guardar a santa vontade e os mandamentos de Deus, de modo a abolir inteiramente todo o corpo do pecado? É provável que ele os tenha encarregado de derrubar o que ele mesmo confirmou, e de demolir a perfeição que ele os fez prometer alcançar e na qual os fez prometer andar todos os dias da sua vida? Se o bispo não lhes deu tal encargo na sua confirmação, terá dado na sua ordenação, quando disse: Recebe autoridade para pregar a palavra de Deus? Não há diferença entre a palavra de Deus, que corta todo o pecado, raiz e ramo, e a palavra de Satanás, que afirma ser conveniente que o pecado do coração continue durante toda a vida? Se não há, terá o bispo dado esse encargo quando os exortou e lhes ordenou “que nunca cessem o seu trabalho, cuidado e diligência, até que tenham feito tudo o que estiver ao seu alcance para levar todos os que estão confiados aos seus cuidados àquela concordância na fé e àquela perfeição de idade em Cristo, de modo que não reste entre vocês lugar para erro na religião ou para vício na vida”? Isto é, entendo eu, até que a verdade do evangelho e o amor do Espírito tenham purificado perfeitamente a mente e renovado o coração de todos os seus ouvintes?

Como podem vocês, em todas as suas confissões e ofícios sacramentais, renunciar ao pecado, a coisa maldita que Deus abomina e que os crentes obedientes detestam, e ainda assim defender a sua vida, a sua força, a sua energia constante, enquanto estivermos neste mundo? Poderíamos suportá-los melhor se vocês destinassem ao pecado uma mão ou um pé, um olho ou um ouvido, durante toda a vida; mas quem pode suportar a sua defesa da permanência necessária do pecado no coração? Não basta que esse assassino de Cristo e de toda a humanidade ronde os muros da cidade? Vocês ainda insinuarão que ele deve ficar com a cidadela até o fim, e mantê-la guarnecida de concupiscências imundas, afeições baixas, más disposições, ou “diabolonianos”, que, como prisioneiros, se mostram na grade e, “como cobras, sapos e feras, ficam mais ferozes por estarem presos”? Quem lhes ensinou a representar Cristo assim, como o Guardião, e não como o Destruidor das nossas corrupções? Se os crentes estão de fato dispostos a se livrar do pecado, mas não podem, porque Cristo trancou o seu coração com um decreto de diamante que impede que o pecado seja expulso; se ele deu permissão irrevogável ao pecado que habita em nós para se aquartelar por toda a vida no coração de todo cristão, como o rei da França, no século passado, deu permissão aos seus dragões para se aquartelarem por alguns meses nas casas dos pobres protestantes oprimidos, quem não vê que Cristo pode ser chamado protetor do pecado que habita em nós, e não seu inimigo?

Vocês se queixam, de modo absurdo, de que a doutrina da perfeição cristã não exalta o nosso Salvador, porque o representa salvando radicalmente o seu povo obediente do pecado que habita neles nesta vida. Mas não são vocês culpados do mesmo erro de que nos acusam, quando insinuam que ele não pode ou não quer dizer aos nossos pecados inatos: Quanto a esses meus inimigos, que não quiseram que eu reinasse sobre eles, tragam-nos aqui e os matem na minha presença! (Lc 19.27)? Se um juiz comum tem poder para pronunciar sentença de morte contra todos os ladrões e assassinos devidamente processados, e se eles são enforcados e destruídos em poucos dias, semanas ou meses, em consequência da sua sentença, quão estranhamente vocês desonram a Cristo, e fazem reviver o Agague que está dentro de nós, quando insinuam que ele [o Juiz de todos], que para isto se manifestou: para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8), se esquece tanto da sua missão que nunca destrói o pecado que habita em nós em nenhum dos membros dispostos do seu povo, enquanto estão neste mundo, embora esse pecado seja a principal e mais danosa obra do diabo?

A sua doutrina da permanência necessária do pecado em todos os crentes fiéis calunia não só o Filho do Homem, mas também a adorável Trindade. O Pai entrega o seu Filho unigênito, o seu Isaque, para ser crucificado, a fim de que o carneiro, o pecado, seja oferecido e morto; mas vocês insinuam que a vida desse carneiro maldito está assegurada por um decreto que lhe reserva o coração de todos os crentes como refúgio seguro e estábulo aquecido, enquanto estivermos neste mundo. Vocês representam o Filho como um Salvador todo-poderoso, que se oferece para nos libertar do pecado, e que, no entanto, determina que o jugo opressivo do pecado que habita em nós continue atado e preso ao nosso próprio coração por toda a vida. Vocês descrevem o Espírito Santo como um Santificador que aplica ao coração do crente o sangue de Cristo, que tudo purifica, enchendo-o do óleo da santidade e da alegria; e, no entanto, supõem que o nosso coração tem de continuar necessariamente desesperadamente corrupto (Jr 17.9) e cheio do pecado que habita em nós! É justo lançar desprezo sobre o cristianismo, atribuindo tais incoerências ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo?

Dificilmente se pode esperar que aqueles que assim deturpam o seu Deus façam justiça ao seu próximo. Daí a liberdade que vocês tomam de lançar uma mancha sobre os caracteres mais santos. Que lhes fizeram os profetas e os apóstolos para que vocês os representem não só como homens que tiveram um coração em parte mau até o fim, mas também como defensores da permanência necessária do pecado em todos os crentes até a morte? E por que vocês se aproveitam com tanta avidez do santo Paulo em particular, e se agarram a um modo figurado de falar para insinuar que ele era um miserável carnal, vendido à escravidão do pecado (Rm 7.14), mesmo quando esperava a coroa da justiça das mãos do seu reto juiz, por ter completado a carreira (2Tm 4.7-8) com os justos aperfeiçoados (Hb 12.23)? Mais ainda: que lhes fizemos nós para que vocês procurem tirar-nos o maior consolo que temos na luta contra os restos do pecado? Por que querem privar-nos da esperança agradável e purificadora de tomar a Jericó que cercamos e de matar o Golias que atacamos? E que fez por vocês o pecado que habita em nós para que ainda defendam a conveniência da sua permanência no nosso coração? Não é ele a raiz de todo pecado exterior e a fonte de todas as correntes de iniquidade que levam a desolação a todas as partes do globo? Se vocês odeiam o fruto, por que lutam com tanta avidez pela permanência necessária da raiz? E, se vocês favorecem a piedade [como muitos de vocês sem dúvida favorecem], por que põem na boca dos ímpios um argumento tão concludente como este: “Estes homens bons defendem a conveniência do pecado que habita em nós, para que a graça aumente ainda mais; e por que não haveríamos nós de defender a conveniência do pecado exterior pela mesma razão importante? Deus não aprova um coração honesto, que se recusa a encobrir a iniquidade interior com uma compostura exterior?”

O sr. Hill publicou há pouco um engenhoso diálogo intitulado Um açoite no entusiasmo, no qual, na página 26, usa contra quem defende a mornidão um argumento que, com bem pouca mudança, pode ser devolvido contra a defesa que ele faz do pecado que habita em nós. “Permita-me, diz ele, pôr os sentimentos de tais pessoas [as que defendem o caminho do meio da mornidão] na forma de uma oração, que podemos supor seria feita em expressões como estas: Ó Senhor, a tua palavra exige que eu te ame de todo o meu coração, de todo o meu entendimento, de toda a minha alma e com toda a minha força, que eu renuncie ao mundo” [e ao pecado que habita em nós] “e me apresente a ti como sacrifício santo, racional e vivo; mas, Senhor, estes são extremos de justiça tão exagerados” [e alturas tão grandes de perfeição sem pecado] “que não os posso suportar; concede, pois, que o teu amor e uma porção moderada do amor ao mundo” [ou do pecado que habita em nós] “reinem” [ou ao menos permaneçam] “ambos ao mesmo tempo no meu coração. Peço-o por amor de Jesus Cristo. Amém.” O sr. Hill acrescenta com justiça: “Ora, cara senhora, se a senhora se escandaliza com tal pedido, considere que essa é a linguagem exata do seu próprio coração, enquanto puder defender o que chama de caminho do meio na religião.” E peço licença para retomar o argumento dele e acrescentar com igual propriedade: “Ora, caros senhores, se vocês se escandalizam com tal pedido, considerem que essa é a linguagem exata do seu próprio coração, enquanto puderem defender o que chamam de pecado que habita em nós, ou de restos do pecado.”

Nem consigo ver o que vocês ganham com tal conduta. O espinho torturante do pecado que habita em nós está cravado no coração de vocês; nós afirmamos que Cristo pode e quer arrancá-lo, se vocês invocarem a promessa dele de os santificar inteiramente na alma, no corpo e no espírito (cf. 1Ts 5.23). Mas vocês dizem: “Isso não pode ser: o espinho tem de ficar cravado até que a morte o arranque; e a lepra há de ficar pegada às paredes até que a casa seja demolida.” Como se Cristo, ao purificar radicalmente os leprosos nos dias da sua carne, não tivesse dado provas repetidas do absurdo do seu argumento! Como se não fizesse parte do evangelho: os leprosos são purificados (Mt 11.5), e Se, pois, o Filho os libertar, vocês serão verdadeiramente livres (Jo 8.36)!

Se vocês nada ganham em defender a imperfeição cristã, permitam-me dizer-lhes o que perdem com isso e o que poderiam ganhar avançando com firmeza para a perfeição.

(1) Se vocês buscassem com empenho a perfeição cristã, teriam na própria alma um testemunho claro de que são sinceros e de que andam de acordo com os compromissos do seu batismo. Já observei que alguns dos calvinistas mais piedosos duvidam de que sejam cristãos aqueles que não buscam a perfeição cristã. Segue-se que, quanto mais empenhadamente vocês a buscarem, mais forte será a sua confiança de que são cristãos retos; e, quando forem aperfeiçoados no amor, terão aquela evidência da sua sinceridade que lançará fora perfeitamente o medo servil, que envolve castigo (1Jo 4.18), e alimentará o temor filial, que traz segurança e deleite. É difícil conceber como possamos gozar constantemente da plena certeza da fé fora do estado de perfeição cristã. Pois, enquanto um cristão quebra interiormente a lei evangélica de Cristo, ele é justamente condenado pela própria consciência. Se o seu coração não o acusa por isso, é apenas porque ele dorme no colo do antinomianismo. Por outro lado, diz são João: se o nosso coração nos acusar, Deus é maior do que o nosso coração e conhece todas as coisas que concorrem para a nossa condenação. Mas, se amamos de fato e de verdade (1Jo 3.18), o que só os perfeitos fazem em todo o tempo, nisto conheceremos que somos da verdade, bem como, diante dele, tranquilizaremos o nosso coração (1Jo 3.19-20).

(2) O cristão perfeito, que deixou tudo para seguir a Cristo, é particularmente próximo e querido de Deus. É, se posso usar a expressão, um dos favoritos de Deus, e as suas orações são atendidas de modo notável. Isso lhes parecerá indubitável, se puderem receber o testemunho dos que foram aperfeiçoados no amor obediente. Vejam, dizem eles, aquilo que pedimos dele recebemos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é agradável (1Jo 3.22), isto é, porque fomos aperfeiçoados no amor obediente. Essa bênção particular vocês perdem por desprezarem a perfeição cristã. Mais ainda: é tão grande a união que existe entre Deus e os membros perfeitos do seu Filho, que ela é comparada a permanecer em Deus e a ter Deus permanecendo em nós, de tal modo que se diz que o Pai, o Filho e o Consolador fazem morada conosco. Naquele dia [quando vocês forem aperfeiçoados na unidade] vocês saberão que eu estou em meu Pai, que vocês estão em mim e que eu estou em vocês. Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e o meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada (Jo 14.20,23). E ainda: Quem guarda os mandamentos de Deus permanece em Deus, e Deus permanece nele (1Jo 3.24). Vocês são meus [mais queridos] amigos se fazem o que eu lhes ordeno [isto é, se alcançam a perfeição da sua dispensação] (Jo 15.14). Mais uma vez: Guardem os meus mandamentos, e eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre (Jo 14.15-16). Por estas passagens da Escritura se vê que, em todas as dispensações, os perfeitos, ou os que guardam os mandamentos, têm vantagens indizíveis, das quais os amantes da imperfeição se privam a si mesmos.

(3) Vocês trazem muito menos glória a Deus no estado do pecado que habita em nós do que trariam se fossem aperfeiçoados no amor; pois os cristãos perfeitos [em igualdade de condições] glorificam a Deus mais do que os que continuam cheios de iniquidade inata. Por isso, no próprio capítulo em que o nosso Senhor insiste tão fortemente com os seus discípulos sobre a perfeição cristã, ele diz: Assim brilhe também a luz de vocês diante dos outros, para que vejam as boas obras que vocês fazem e glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus (Mt 5.16). Pois nisto é glorificado o meu Pai: que vocês deem muito fruto (Jo 15.8). É verdade que o fruto dos perfeitos nem sempre é apreciado pelos homens, que julgam apenas segundo a aparência; mas Deus, que julga com reta justiça, o acha rico e precioso. Por isso as duas pequenas moedas que a viúva pobre deu com coração alegre e perfeito foram mais preciosas na sua estima, e lhe trouxeram mais glória, do que todo o dinheiro que os adoradores imperfeitos lançaram na caixa de ofertas, embora alguns deles depositassem grandes quantias (Mc 12.41-44). Por isso também o nosso Senhor ordenou que a obra de amor perfeito que Maria realizou, quando lhe ungiu os pés para o sepultamento, fosse contada para memória dela, onde for pregado em todo o mundo este [o cristão] evangelho (Mt 26.12-13; cf. Jo 12.3,7). Tal é a honra que o Senhor concede aos ramos que, nele, dão fruto até a perfeição!

(4) O cristão perfeito [em igualdade de condições] é um membro mais útil da sociedade do que o imperfeito. Nunca vocês serão homens tão humildes, pais tão bons, filhos tão obedientes, irmãos tão amorosos, súditos tão leais, vizinhos tão bondosos, maridos tão indulgentes e amigos tão fiéis como quando tiverem alcançado a sinceridade perfeita da obediência. Terão então, em sua medida, a simplicidade da pomba mansa, a paciência do boi laborioso, a coragem do leão magnânimo e a sabedoria da serpente prudente, sem nada do seu veneno. Na sua pequena esfera de ação, vocês abundarão na operosidade da fé, na firmeza da esperança e na dedicação do amor (cf. 1Ts 1.3) muito mais do que antes; pois um campo bem capinado e limpo de sarças é naturalmente mais fértil do que um que é sombreado por espinheiros que se alastram ou cheio das raízes, nele alojadas, de ervas daninhas; e é um erro capital dos lavradores espirituais que cultivam o campo do Senhor na Genebra mística supor que a planta da humildade cresce melhor quando as raízes dos pecados que habitam em nós estão enroscadas em torno da sua raiz.

(5) Somente os justos aperfeiçoados (Hb 12.23) estão capacitados a participar da herança dos santos na luz (Cl 1.12), herança para a qual ninguém está apto enquanto não se tiver purificado de toda impureza, tanto da carne como do espírito (2Co 7.1). Se, portanto, teólogos modernos lhes garantirem que um crente cheio do pecado que habita em nós tem pleno direito ao céu, não acreditem; pois o Espírito Santo disse que o crente que tropeça em um só ponto da lei da liberdade se torna culpado de todos (Tg 2.10,12), e que não entrará nada que seja impuro no céu (Ap 21.27); e o próprio nosso Senhor nos garantiu que os limpos de coração verão a Deus (Mt 5.8), e que os que estavam preparados para essa visão entraram com o noivo para a festa do casamento do Cordeiro (Mt 25.10). E quem está preparado? Sem dúvida o crente cuja lâmpada está preparada e acesa. Mas está preparada uma lâmpada espiritual quando a sua chama é escurecida pelo morrão negro do pecado que habita em nós? E ainda: quem será salvo para a glória senão o homem cujo coração foi lavado da maldade (cf. Jr 4.14)? Mas está lavado o coração que continua cheio da corrupção que nele habita? Ai, portanto, dos pagãos, dos judeus e dos cristãos que desperdiçam o tempo aceitável e morrem fora do estado de perfeição pagã, judaica ou cristã! Não têm nenhuma possibilidade de ir para o céu senão pelo purgatório pregado pelos pagãos, pelos papistas e pelos calvinistas. E, se as noções desses purgatórios forem infundadas, segue-se inevitavelmente que as almas não purgadas, ou imperfeitas, terão de ficar, na morte, ao lado das almas despreparadas, que o nosso Senhor chama de virgens imprudentes, e diante das quais a porta do céu será fechada (Mt 25.2,10). Quão solene é esta consideração, meus queridos irmãos! Como ela deveria levar-nos a empenhar todas as forças até alcançarmos a perfeição da nossa dispensação! Eu não quero incentivar temores atormentadores de modo contrário à Escritura; mas me alegraria se todos os que chamam Jesus de Senhor dessem atenção às suas declarações solenes: Digo a vocês, meus amigos: não temam os que matam o corpo etc. Eu, porém, vou mostrar a quem vocês devem temer: temam aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo que a esse vocês devem temer (Lc 12.4-5), aquele que queimará no fogo da ira os que, para que ele não seja inteiramente consumido pelo fogo do amor, abrigam o homem do pecado que neles habita.

E se vocês clamarem contra esta doutrina e perguntarem se todos os cristãos imperfeitos estão num estado de condenação? Respondemos que, enquanto o crente cristão avança sinceramente rumo à perfeição cristã, ele está seguro, porque está no caminho do dever; e, se viesse a morrer à meia-noite, antes da meia-noite Deus certamente o levaria à perfeição cristã, ou traria a perfeição cristã até ele. Pois estamos certos de que aquele que começou boa obra neles há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6), porque eles desenvolvem a sua salvação com temor e tremor (Fp 2.12). Mas, se um crente cai, se demora e descansa em experiências passadas, apoiando-se numa perfeição farisaica feita por ele mesmo, a nossa principal mensagem para ele é a de são Paulo: Desperte, você que está dormindo (Ef 5.14). Volte à sobriedade, como convém, e não peque, pois você não tem o conhecimento de Deus que purifica o coração, que é a vida eterna (1Co 15.34). Levante-se dentre os mortos, peça óleo, e Cristo o iluminará (Ef 5.14). Do contrário, você terá a terrível sorte dos mornos laodicenses (cf. Ap 3.16) e das virgens imprudentes, cujas lamparinas se apagaram (cf. Mt 25.8), em vez de brilhar mais e mais até ser dia claro (Pv 4.18).

(6) E isso não é tudo. Assim como vocês estarão prontos para o juízo e para um céu de glória quando forem aperfeiçoados no amor, também gozarão de fato um céu de graça na própria alma. Vocês possuirão dentro de vocês o Reino de Deus (Lc 17.21) [N. do T.: a NAA traz “entre vocês”; Fletcher segue a King James, “within you”.], que consiste em firme justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17). Mas, enquanto vocês negligenciarem a perfeição cristã e continuarem vendidos ao pecado que habita em nós, não só correm o risco de perder o céu dos céus, como também perdem um pequeno céu na terra. Pois os cristãos perfeitos estão tão cheios de paz e de amor que triunfam em Cristo (cf. 2Co 2.14) com uma alegria indescritível e cheia de glória (1Pe 1.8), e se gloriam nas tribulações (Rm 5.3) com uma perseverança que tem a sua ação completa (Tg 1.4). Sim, têm por motivo de grande alegria o fato de passarem por várias provações (Tg 1.2); e tal é a sua morte para o mundo que se alegram e exultam quando, por causa de Cristo, mentindo, dizem todo mal contra eles (Mt 5.11-12). Como é desejável um estado assim! E quem, a não ser os bem-aventurados lá do alto, pode gozar uma felicidade maior do que a daquele que pode dizer: Já estou sendo oferecido (2Tm 4.6). O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei (1Co 15.56); mas, ó morte, onde está o seu aguilhão? (1Co 15.55) Não está no meu coração, visto que a exigência da lei se cumpre em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm 8.4). Não está na minha mente, pois a inclinação do Espírito é vida e paz (Rm 8.6). Ora, essa felicidade singular vocês perdem enquanto continuarem cristãos imperfeitos.

(7) Mas suponhamos que um cristão que morre num estado de imperfeição cristã possa escapar da condenação e consiga, a duras penas, chegar ao céu. É certo que ele não pode entrar na morada gloriosa dos cristãos perfeitos, nem brilhar entre as estrelas de primeira grandeza. O desejo da minha alma é que, se a sabedoria de Deus assim o dispôs, os cristãos imperfeitos possam um dia ser contados entre os judeus perfeitos ou os pagãos perfeitos. Mas, mesmo nessa hipótese, o que farão eles com o pecado que habita neles? Pois um gentio perfeito e um judeu perfeito são sem fingimento (cf. Jo 1.47), segundo a luz que têm, tanto quanto um cristão perfeito. Não se inclinem, portanto, para a doutrina da conveniência e da permanência do pecado em nós até a morte, doutrina esta sobre a qual um Sócrates ou um Melquisedeque teria medo de arriscar a sua perfeição pagã e a sua salvação eterna. Ao contrário, pela perfeição cristã vocês podem elevar-se às mais brilhantes coroas de justiça e resplandecer como o sol, no Reino de seu Pai (Mt 13.43). Ó, quem dera uma nobre ambição de obter um dos primeiros lugares na glória! Ó, quem dera um esforço constante, segundo o evangelho, para ter amplamente suprida a vocês a entrada no Reino de Deus (2Pe 1.11)! Ó, quem dera um trono entre aqueles santos redimidos de modo singular, que entoam o cântico novo, que ninguém podia aprender (Ap 14.3), senão eles mesmos! Não compete a Cristo conceder esses tronos elevados por mera graça distintiva; não, eles podem ser perdidos, pois serão dados àqueles para quem estão preparados (cf. Mt 20.23); e estão preparados para os que [falando segundo o evangelho] são dignos. Andarão comigo, vestidos de branco, pois são dignos, diz Cristo (Ap 3.4); e se sentarão à minha direita e à minha esquerda no meu reino (cf. Mt 20.21-23) os que forem dignos dessa honra. Porque honrarei aqueles que me honram, diz o Senhor (1Sm 2.30). Eis que venho sem demora, e comigo está a recompensa que tenho para dar a cada um segundo as suas obras (Ap 22.12). E que recompensa, pensam vocês, Cristo lhes dará, ó meus queridos irmãos enganados, se os encontrar ainda fazendo pilhéria com a doutrina da perfeição cristã, que ele recomenda com tanta força? Ainda advogando a permanência do pecado em nós, que ele tanto abomina?

(8) Todo o sistema de vocês, do pecado que habita em nós e da perfeição imputada, se apoia em duas das máximas mais perigosas e falsas que já se apresentaram. A primeira, que gera a presunção antinomiana, diz assim: “O pecado não pode nos destruir, nem neste mundo nem no mundo vindouro.” E a segunda, que produz o desespero antinomiano, é: “O pecado não pode ser destruído neste mundo.” Ó, como é difícil, para os que adoram onde esses cantos de sereia passam por doces cânticos de Sião, não serem arrastados a uma destas conclusões fatais! “Que necessidade há de atacar o pecado com tanto ardor, se nem mesmo em nome do Senhor eu posso destruí-lo? E por que eu deveria resistir a ele com tanta vigilância, se a minha vida eterna e a minha salvação estão absolutamente garantidas, e o mais venenoso cálice de iniquidade não pode me destruir, ainda que eu beba dele todos os dias, durante meses ou anos?” Se vocês pensam, por tolice, que não podem nem voltar atrás para um Egito pecaminoso e maldito, nem avançar para uma Canaã santa e sem pecado, como lhes será natural dizer à sua alma: descanse (Lc 12.19), e repouse por algum tempo neste deserto, sobre o travesseiro de uma perfeição que vocês imputam a si mesmos! Ah, quantos são surpreendidos pelo grito da meia-noite (cf. Mt 25.6) neste repouso laodicense! Quantos encontram a morte com um Senhor, Senhor! solifidiano na boca (cf. Mt 7.21) e com o pecado que habita neles no coração! E como será indizível o nosso horror se percebermos a nossa falta de santidade e de perfeição cristã só quando for tarde demais para alcançá-las! Para concluir:

(9) O pecado que habita em nós não é só o aguilhão da morte (1Co 15.56), mas o próprio inferno dos infernos, se me permitem a expressão. Pois um santo sem pecado num inferno local habitaria num Deus santo e amoroso e, por consequência, num céu espiritual. Como Sadraque na fornalha ardente de Nabucodonosor, ele poderia ter chamas devoradoras a se enroscar ao seu redor; mas, dentro dele, ainda teria a chama do amor divino e a alegria de uma boa consciência. Mas, quanto pecado que habita em nós carregamos, tanto inferno que habita em nós; tanto do aguilhão que traspassa os condenados; tanto do fogo espiritual que consumirá os ímpios; tanto do verme que não morre (cf. Mc 9.48) e que os devorará; tanto do terrível instrumento que os torturará; tanto da imagem de Satanás que os aterrorizará; tanto da marca característica pela qual os filhos do diabo se distinguirão dos filhos de Deus; tanto do sinal negro pelo qual os cabritos serão separados das ovelhas (cf. Mt 25.32-33). Advogar, portanto, a permanência do pecado em nós não é melhor do que advogar que se conserve no coração um dos aguilhões mais agudos da morte e uma das brasas mais ardentes do fogo do inferno. Por outro lado, alcançar a perfeição cristã é ter o último traço da imagem de Belial apagado da alma de vocês, cheia de amor; o último fragmento do aguilhão da morte arrancado do peito de vocês, agora sereno; e a última faísca do fogo do inferno extinta no seu íntimo, agora em paz. É entrar no repouso espiritual que resta na terra para o povo de Deus (cf. Hb 4.9), repouso delicioso, este, em que a alma de vocês gozará calmaria no meio das tempestades exteriores, e em que o seu espírito não será mais agitado pelas ondas do orgulho inchado, da avareza insatisfeita, da inveja que definha, das esperanças frustradas, dos cuidados infrutíferos, da ansiedade hesitante, da ira turbulenta, da impaciência que se consome e da incredulidade que tortura. É gozar aquele estado de espírito constante em que todas as coisas cooperarão para o bem de vocês (cf. Rm 8.28). Ali o amor de vocês dará os seus excelentes frutos durante o inverno mais rigoroso da aflição, tanto quanto no verão mais belo da prosperidade. Ali vocês se firmarão cada vez mais numa humildade pacífica. Ali crescerão continuamente numa santa familiaridade com o amigo dos pecadores arrependidos, e a sua perspectiva de felicidade eterna se tornará mais luminosa a cada dia.1

Inumeráveis são as vantagens que os cristãos firmados e perfeitos têm sobre os crentes carnais e instáveis, que continuam vendidos ao pecado que habita em nós. E vocês desprezarão essas bênçãos até o dia da sua morte, ó imperfeccionistas cheios de preconceito? Garantirão para si mesmos as maldições contrárias? Mais ainda, vão transmiti-las às gerações que ainda não nasceram, continuando a imprimir, a pregar ou a argumentar em favor da permanência do pecado em nós, o ai capital que pertence ao diabo e aos seus anjos? Deus nos livre! Esperamos de vocês coisas melhores, sem duvidar de que o erro de vários de vocês está sobretudo no juízo e nasce de um mal-entendido da questão, mais do que de uma oposição maliciosa àquela “santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Com prazer lembramos e seguimos a amorosa orientação de são Judas: tenham compaixão de alguns [os de coração simples, que foram seduzidos para o antinomianismo], fazendo diferença; e outros [os fanáticos e os sedutores obstinados, que fecham os olhos à verdade de propósito] salvem com temor, detestando até a roupa contaminada pela carne (Jd 1.22-23) [N. do T.: a NAA traz “tenham compaixão de alguns que estão em dúvida” e distingue três grupos; Fletcher segue a King James, que fala em “fazer diferença” e distingue dois.]; embora eles não se envergonhem de advogar a permanência de uma fonte impura de carnalidade no próprio coração de todo o povo de Deus. Estamos plenamente convencidos, meus queridos irmãos, de que seríamos injustos com vocês se não reconhecêssemos que muitos de vocês têm o desejo sincero de ser salvos por Cristo e levados a toda a pureza de coração e de vida. E, quanto a esses imperfeccionistas, a nossa principal queixa é que o seu desejo não é com entendimento (cf. Rm 10.2).

Se outros de vocês, de outra espécie, rirem destas páginas e (continuando a produzir zombaria em vez de argumento) continuarem a dizer: “Onde estão os seus cristãos perfeitos? Mostrem-nos apenas um, e creremos na sua doutrina da perfeição”, eu simplesmente os farei lembrar da solene profecia de são Pedro: Antes de tudo, saibam que, nos últimos dias, virão escarnecedores, andando segundo as próprias paixões [que habitam neles] e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda espiritual [para acabar com o pecado, limpar completamente a sua eira e queimar a palha num fogo que nunca se apaga (cf. Mt 3.12)]? Porque, desde que os pais morreram, todas as coisas permanecem como desde o princípio (2Pe 3.3-4): todos os crentes ainda são carnais e vendidos ao pecado, tanto quanto o pai Paulo (cf. Rm 7.14). E, se esses zombadores continuarem a exibir o seu preconceito com tais provocações, tomarei a liberdade de lhes mostrar o seu próprio retrato, apontando para aqueles professos cheios de preconceito, de outrora, que diziam a respeito do mais perfeito de todos os perfeitos: “Que sinal você nos mostra, para que recebamos a sua doutrina? (cf. Jo 2.18) Desça da cruz, e creremos (cf. Mt 27.40-42).” Ó, a loucura e o perigo dessas zombarias! “Bem-aventurado é aquele que não […] se assenta na roda dos escarnecedores” (Sl 1.1), e que “honra os que temem o Senhor” (Sl 15.4). Sim, ele é bem-aventurado logo depois dos “irrepreensíveis [perfeitos] no seu caminho, que andam na lei do Senhor, […] guardam os seus testemunhos e o buscam de todo o coração” (Sl 119.1-2).

Se vocês perguntarem: “Para que fazer todo esse alvoroço em torno da perfeição cristã? Os que defendem esta doutrina vivem uma vida mais santa e mais útil do que os outros crentes?”, respondo:

(1) Sendo iguais as demais circunstâncias, sem dúvida vivem, se não retêm a verdade na injustiça (cf. Rm 1.18); pois os melhores princípios, quando abraçados de coração, sempre produzirão as melhores práticas. Mas, ai!, muitos se limitam a defender a perfeição cristã de modo especulativo e sistemático. Recomendam-na aos outros com os lábios, como um ponto de doutrina que faz parte do seu sistema religioso, em vez de buscá-la com o coração, como uma bênção que precisam alcançar se não quiserem ser achados tão despreparados para o juízo quanto as virgens imprudentes. Esses perfeccionistas são, nessa medida, hipócritas; e a sua fatal incoerência não deve levar-nos a desprezar a verdade que defendem, assim como a conduta de milhares que defendem a verdade das Escrituras, enquanto vivem em plena oposição às Escrituras, não deve levar-nos a desprezar a Bíblia.

(2) Por outro lado, algumas pessoas piedosas (como os antinomianos devotos e incoerentes que descrevi nos Freios anteriores) falam contra a perfeição cristã com os lábios, mas não conseguem deixar de segui-la de perto com o coração; e, enquanto fazem isso, às vezes alcançam a coisa, embora continuem a brigar com o nome. Esses imperfeccionistas perfeitos sem dúvida adornam o evangelho de Cristo muito mais do que os perfeccionistas imperfeitos e hipócritas que acabo de descrever; e Deus, que olha mais para a simplicidade do coração do que para a coerência do juízo, tem compaixão dos seus enganos e aceita as suas obras.

Mas (3.) há alguns que sustentam, tanto na doutrina quanto na prática, a necessidade de nos dedicarmos perfeitamente a Deus. Eles defendem a verdade, e a defendem com sabedoria e justiça; as suas disposições e a sua conduta a reforçam, tanto quanto as suas palavras e a sua profissão de fé. E, por isso, têm uma grande vantagem sobre as duas classes de professos anteriores. A razão e a revelação coroam juntas a ortodoxia e a fidelidade desses perfeccionistas perfeitos, que nem fortalecem as mãos dos ímpios, nem despertam o espanto dos sensatos ao advogar absurdamente, com os lábios, o pecado que habita em nós, enquanto se esforçam por praticar a justiça com as mãos e o coração. Se vocês pesarem com franqueza esta tríplice distinção, não duvido de que censurarão a incoerência irracional dos imperfeccionistas santos, condenarão a incoerência imoral dos perfeccionistas não santos e concordarão comigo em que o cristão mais excelente é o perfeccionista santo e coerente.

E agora, meus queridos irmãos enganados, recebam de bom grado estas respostas, exortações e repreensões francas; e deem glória a Deus, crendo que ele pode e quer ainda salvá-los totalmente (cf. Hb 7.25) das suas disposições más, se vocês se aproximarem dele humildemente por meio de Cristo. Dia e noite peçam a ele o coração novo, que guarda os mandamentos; e, quando o tiverem recebido [se o guardarem com toda a diligência], o pecado não o contaminará mais do que contaminou a alma do nosso Senhor, quando ele disse: Se vocês guardarem os meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço (Jo 15.10). Enquanto isso, queimem as penas profanas e refreiem as línguas precipitadas com que vocês advogaram a permanência do pecado até a morte. Honrem-nos com a mão direita da comunhão (cf. Gl 2.9); e, como irmãos reconciliados, ajoelhemo-nos juntos com amor em toda oportunidade, para implorar o socorro daquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos (Ef 3.20). E não lhe demos descanso enquanto ele não tiver aperfeiçoado todas as nossas almas no amor que se alegra com a verdade (1Co 13.6) sem preconceito, na obediência que guarda os mandamentos sem reservas e na perseverança que descobre que em os guardar há grande recompensa (Sl 19.11).

Nada, a não ser uma conduta assim, pode remover as pedras de tropeço que as contendas que vocês geram puseram no caminho de um mundo deísta. Quando os homens que os seus enganos endureceram virem vocês dar ouvidos à Escritura e à razão, quem sabe se os seus preconceitos não diminuirão, e alguns deles ainda dirão: “Vejam o bem que nasce de uma controvérsia amigável! Vejam como estes cristãos desejam ser aperfeiçoados na unidade (Jo 17.23)! Agora eles se entendem uns aos outros. A confusão de Babel chegou ao fim; a verdade evangélica prevalece; e o amor, o fruto mais delicioso da verdade, cresce visivelmente até a perfeição cristã.” Deus permita que, com o concurso da franqueza de vocês, esta seja em breve a linguagem de todos aqueles a quem o fanatismo dos professos confirmou nos seus preconceitos contra o cristianismo.

Se este apelo franco tiver agido sobre vocês, meus queridos irmãos, a ponto de diminuir a força da sua aversão à doutrina do amor puro, ou de abalar a sua fé inexplicável num purgatório da morte; e se vocês perguntarem seriamente qual é o caminho para a perfeição cristã, peço que passem à seção seguinte, onde espero que encontrem uma resposta bíblica a algumas perguntas importantes que, assim confio, alguns de vocês a esta altura já estão prontos para propor.

Notas de Fletcher

1. Se os argumentos e as exortações contidos nestas folhas são racionais e bíblicos, não tem razão o sr. Wesley quando diz que “todos os pregadores deveriam fazer questão de pregar a perfeição aos crentes, constantemente, com força e de modo explícito”, e que “todos os crentes deveriam dedicar-se a esta única coisa e lutar continuamente por ela”? E todos os ministros que pregam contra a perfeição cristã não estarão pregando contra a perfeição do cristianismo, opondo-se à santidade, resistindo à verdade santificadora, segundo é a verdade em Jesus (cf. Ef 4.21), recomendando um purgatório não bíblico, advogando o pecado em vez de lutar contra ele e iludindo os cristãos imperfeitos com uma comodidade laodicense?

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.